31 de mar. de 2011

Pura luz

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Pura luz


Qual uma esteira de prata,
O luar cai sobre a areia,
e o mar, numa serenata,
faz trovas à lua cheia!

Sophia Leite Cruz



A poetisa santista Sophia Leite Cruz, que, ao final do século vinte, residia em Santos, sofrendo de mal de Parkinson há mais de dez anos, enfartou.
Sophia foi uma das pessoas mais alegres que conheci. Se alguma de nós entrasse esbaforida, a lutar com o guarda-chuva, em dia de vento, ouvia-se Sophia a rir:

O vento passa, curioso,
Por entre frondas e faias,
e levanta, malicioso,
a barra de tuas saias.

Posso imaginar Sophia, que sobreviveu ao ataque, acordando na UTI, ao lado de uma dessas desprestigiadas profissionais da saúde, de olhar desiludido e semblante amargurado, mecanicamente a trocar um frasco de soro, e murmurar um ‘obrigada, querida’ seguido de uma trova:

E que caminhes sempre firmemente
A cada passo, uma conquista a mais,
Tendo no peito muita paz somente,
Anjo de Amor, orgulho de teus pais.

E acrescentando:

- De teus pais e de nós, teus pacientes.
Pronto; lançado o encanto, a face da moça se transformaria, surpresa.
E quando o médico se aproximasse a perguntar pelo coração de poeta, ela responderia:

Em busca de beleza e pelo amor,
Corre o poeta a soltar-se no espaço.
Leva no verso a força e o resplendor,
Não mede esforço, despreza o cansaço.

E o médico, a provocá-la:
- Não cansa mesmo, avozinha? Depois de horas a escrever, não cansa, não?
E Sophia afirmaria:

E a pena corre firme no papel
e exprime com fervorosa emoção,
artista a debuxar com seu cinzel,
as fímbrias fundas de seu coração.

Ora, há muito que a pena de Sophia não corria firme em lugar algum, motivo pelo qual o banco lhe cancelara os cheques e ela se ajeitara ao teclado de um computador, digitando pacientemente, dedo a dedo, uma letra por vez, persistente.
Quando o médico hesitasse em revelar-lhe a verdade sobre sua saúde, ela, esperta, o interromperia:

Não dirijas tua vida
Buscando luz na mentira.
Vê que a verdade sofrida
Seja mesmo tua mira.

Coração forte, o de Sophia! Após longos anos de doença, ela erguia o rosto risonho e enfrentava o que fosse.
A enfermeira, mais animada, conversaria com ela sobre a cidade, tão bonita, berço de renomados poetas, e Sophia concordaria:

Os jardins de nossas praias,
Possuem lindos recantos.
Entre alfambrias, flores, faias,
Fazem a graça de Santos!

Depois de tomar seus remédios e despedir-se das visitas, Sophia se prepararia para dormir, despedindo-se assim:

É tão gostoso adormecer assim,
pela madrugada misteriosa,
sorver no espaço o aroma do jasmim,
Apaixonado pela rubra rosa!

As amigas, para animá-la, riam e atiçavam:

- Sei não, não era bem assim que um certo ‘alguém’ ouviu estes versos, não!Como eram mesmo?
Sophia, alegre, relembrava os versos feitos ao antigo namorado:

É tão gostoso adormecer assim,
no limiar do sonho, um beijo teu,
em revoada como um querubim,
buscando rápido um carinho meu.

A enfermeira, admirada, lhe perguntaria, curiosa:
- Avozinha, como consegue declamar tão facilmente, assim tão à vontade com as palavras e as rimas?
A mesma pergunta eu já lhe fizera e obtive como resposta:
- Eu penso em decassílabos...
Cartões de Natal, vindos de Sophia, só rimados:

Natal! E toda a celeste legião
Festeja o nascimento de Jesus.
Anjos e arcanjos sorridentes vão
em cada estrela colocar mais luz.

Assim era Sophia, imersa em poesia, sem deter-se nas contrariedades presentes na paisagem da vida, buscando a beleza, focando no Bem.
Anos mais tarde, ela se foi, e deixou-nos seu exemplo de vida. Seu enterro, ao que sei, foi concorrido, e seus amigos poetas foram cantando acompanhar o caixão.
Sophia, como os gregos do Parnaso, buscava a Excelência.
Tendo seus talentos reconhecidos pelos prêmios que recebeu, pelas entidades das quais participou, pelos leitores do seu jornal poético O Espaço, Sophia realizou seu desejo de publicar seu livro Um Grande Sonho.
Para muitos que a conheceram, ela personificou o sonho.

Bibliografia:

Um grande sonho – Sophia Leite Cruz - 1992
Em Verso e Prosa – AFCLAS – 1998
Antologia A lua e a Pena – APEBS - 1995
Antologia A lua e a Pena – APEBS - 1996

30 de mar. de 2011

Um homem feliz

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            Vez por outra, a vida nos contempla colocando em nosso caminho algo ou alguém especial. Um desses presentes que a vida me deu foi o amigo Salomão.
Salomão é pediatra na Santa Casa de Santos.
            Trabalhei ao lado dele por três anos antes de nos conhecermos. Quando eu chegava ao ambulatório, ele já estava atendendo; quando eu saía, ele ainda estava atendendo; eu o via de relance, às vezes, ao abrir e fechar de portas entre uma consulta e outra. Até o dia em fomos unidos pela chuva, uma daquelas tempestades equinociais que coincidem com a maré alta e a lua cheia, inundando a ilha.
            Prédio alagado, luzes apagadas, consultas suspensas, começamos a conversar, aguardando as águas baixarem. De medicina à filosofia, o papo foi longe, e agradável. Meu carro pequenino ficara com água até a metade da porta e a bateria descarregara, mas a caminhonete do Salomão não sofrera danos, e fui de carona com ele, pelas ruas-rios congestionadas, semáforos desligados, aquela confusão habitual. Levamos meia hora para percorrer três quadras e firmar uma amizade.
              Como seu xará bíblico, Salomão era uma pessoa que foi colhendo pela vida muitos frutos por acréscimo. Trabalhava de manhã à noite, dedicadamente, e conquistou uma simpática esposa, muitas amizades, prestígio, além de bens materiais dos quais os filhos aproveitavam mais do que ele.
              Salomão gosta de jazz, está sempre acompanhado de boa música, no consultório ou no carro. Aos cinqüenta anos, estimulado por uma pacientinha, começou a aprender saxofone. A garotinha entrou no consultório com aquela maleta maior que ela e falou:
             - Tio, eu toco saxofone, quer ouvir? Porque o senhor não aprende também?
             Aquilo foi um chamado para o meu amigo, que confessou:
             - Desde a adolescência eu gosto de jazz, adoro um som de saxofone. Passei pela vida sem aprender música, acho que está na hora de dedicar-me a algo prazeroso.
             Algumas semanas mais tarde, Salomão virou o assunto do hospital, pois a garotinha, um precoce talento musical, foi ao programa do Jô e em rede nacional contou que convencera o seu médico a aprender saxofone: meu pediatra, o doutor Salomão...
           Outra paixão do Salomão são as plantas, especialmente as árvores. Ele carrega na carteira algumas fotos dos quintais de suas casas, de campo e de praia, caprichosamente cultivados com árvores frutíferas e flores, das quais ele sabe as preferências, as famílias e os nomes científicos. Nos domingos, seu lazer é sentar-se no meio do verde, admirando passarinhos e animaizinhos que se aproximem para comer frutas.
           De computador, ele não entende nem de e-mail, prefere a natureza.
           Durante anos, ele admirou um ipê em seu caminho diário para o hospital. Certa primavera, veio-lhe a idéia de fotografar a floração da árvore, magnífica. Começou no inverno, quando só havia folhas. Dia a dia, ele comunicava aos amigos os progressos observados. Já surgiram os brotos.Alguns brotos estão se abrindo. Começaram a cair as folhas. As flores estão crescendo, lindas. Até o dia em que ele chegou extasiado: não há mais nenhuma folha, só flores. E continuou a fotografar, até só restarem galhos nus na árvore e pétalas no gramado. Neste dia ele chegou rindo.
          - Imagine, o guarda da rua veio conversar comigo, queria saber por que há semanas eu paro alguns minutos no mesmo lugar, e quando eu lhe expliquei que estava fotogrando o ipê, ele não entendeu, e exclamou ‘ora, o senhor é um médico!’. Por sorte, hoje tirei a última foto.
           Semanas depois, visitei o Salomão no consultório. Ele me recebeu com o maior carinho e guiou-me através de sua coleção de dinossauros de brinquedo, de todos os materiais e tamanhos, para alegria da meninada. Quando ergo os olhos, encontro o ipê na parede. Todas as fotos, transportadas para belos painéis. E ele foi relembrando cada etapa da florada:
           - Se um dia cortarem o ipê, eu ainda poderei vê-lo todos os dias...
           Assim eu descobri que meu amigo tem alma de poeta.
           O nome dele, na realidade, é José – José Salomão. Com tanto Zé a circular por aí, todo mundo o chama de Salomão, exceto os pais, para quem ele continua sendo o Zezinho.
          O menino Zezinho, que passava os dias encarapitado nas arvores do pomar, entre frutos, flores e passarinhos. Como a mãe dele não o queria brincando na rua, os outros meninos é que entravam para brincar, e as arvores ficavam carregadinhas de crianças.
           - Tive uma infância feliz – confessa-me ele – Gosto tanto de estar rodeado de crianças que, quando entro na enfermaria, sinto-me como se voltasse aos tempos de infância, entre passarinhos e frutas. E olha, as crianças não me chamam de Salomão, não, é difícil para elas de pronunciar. Elas me chamam mesmo é de salame. Salamão. - e acha o fato engraçado.
             Por onde passa, o Salomão deixa uma trilha de sorrisos.