8 de out. de 2013

Esconde-esconde



Vou comer bolacha
Embaixo da cama
Mamãe não se engana,
Vai lá e me chama:

Sai já daí, menina,
Sei onde está escondida.

Se me tranco no armário
É o mesmo fadário
E a mamãe me adivinha,
Lá dentro, encolhidinha.

Como ela pode saber
Onda vou-me esconder?


7 de out. de 2013

Poesias do século passado




Colonialismo

É tempo de plantar
Tempo de profunda insatisfação.
tempo de luta e desconforto.
tempo de fome e fadiga.

É tempo de calejar a alma até torná-la insensível ao sofrimento.
é tempo de perder a beleza ao sol da adversidade.
é tempo de sufocar os sentimentos ante a poeira da necessidade.
é tempo de adubar os sonhos com o estrume da realidade.

No solo pobre da mestiçagem
a semente fértil fenece
e o rebotalho europeu degenera.

Aqui a educação é inútil.
A cortesia, a delicadeza... ao sol appodecrem.

Tempestades de areia desfazem continuamente o presente
O frio da incerteza ameaça o futuro.
e o passado esvaece-se com os ventos multinacionais.
As trevas da ignorância impedem qualquer esperança.

É tempo de plantar
mas a terra foi salgada,
esterilizada e
amaldiçoada.

Tudo foi de antemão acertado para garantir não haver colheita alguma,
e, se alguma houver, será lançada aos porcos.

E nós somos reles escravos sem vontade própria
e nossa miséria é tamanha que nem nos resta
uma lágrima para chorar,
um fio de voz para clamar:
‘Senhor! Senhor!
Tende piedade de nossa dor!’

Nós conhecemos a inutilidade da revolta.

Nietzsche tinha razão:
‘Deus morreu! Viva o Superhomem!’

Fatalidade atroz!
nossa desgraça é sermos vermes do terceiro mundo.
Inúteis.
Impotentes.
Inconsoláveis.
Dementes.
Doentes.
Dolentes.


Brasilieirinho
(por ocasião da chacina da Candelária)

Nana, nenê,
que o teu pai fugiu
e tua mãe partiu.
ninguém assumiu
a tua fome,
o teu nome.

Desperto no leito,
decerto buscas o peito
ausente.
O materno odor,
o aconchegante calor
Inexistente.

Um choro sem consolo
é já um som de despedida,
de partida,
sem esperança de vida.

E vem a apatia.
Começa a longa agonia.
A cabeça jogada sobre o leito,
de qualquer jeito,
desamparada,
como um traste sem valor.

Evitar tamanho horror
e salvá-lo da sorte
Infortunada
de criança abnadonada...
Somente um milagre – ou a morte.











Ledo engano de Bilac
                                             
Chora, criança, chora, pela terra em que nasceste
Criança, não verás, nenhum país como este!
Que nega a casa e o pão a quem trabalha
E trata o povo trabalhador como gentalha.

Que céu! Que mar! Que luz!
Tantos frutos a terra fértil produz,
E também quanto salafrário
A explorar escravos que ‘ganham’ – dizem – ‘salário’.

Quem, com suor, a terra fecunda e umedece,
Tem a lavoura confiscada e empobrece.
Já o aventureiro, que com o dinheiro alheio especula,
Vive de juros, rios de dinheiro acumula.

Este gigante indolente é covil de ladrões
Que apossaram-se do poder – espertalhões!
Criança, não verás nenhum país como este!
Chora, criança, pela terra em que nasceste!

Um fato
(curiosidade – este foi o meu primeiro poema, inspirado por um poema de faculdade que fazia poesias com o tema das aulas)

Estava a dormir tão sossegado
Quando sentiu a súbita asfixia
O corpo todo em dores, apertado,
Despertou do torpor em que jazia.

No diâmetro transverso insinou-se
O pólo regular irredutível.
O colo pouco a pouco dilatou-se
E a descida da cabeça foi possível.

Rodou rapidamente para a esquerda -
era occipito direita anterior -
desceu em antero posterior,

Coroou, defletiu e rodou.
Deu-se a expulsão do ovóide cormico
E o feto transformou-se em um ser cósmico.



O autor insone

Não admitirei vaia.
Antes que o pano caia,
mister é trocar de estilo,
mudar o epílogo,
que o enredo desta peça é conhecido,
não me peça para repeti-lo.

Por atos desencontrados,
busco um feliz final
que não seja banal;
que tenha a originalidade machadiana dos temas comuns
a das narrativas épicas de qualquer um.

Afinal, real ou ilusória
esta é a minha história:
o artista em busca da glória.



























2 de out. de 2013

A decisão

 



(Se Deus, em sua sabedoria, dotou o Homem de um inconsciente, deve ter tido para isto sérias e incontáveis razões.)

 

         O Papa perdeu a fé!
         Acordou certa manhã convencido de que Jesus era um avatar de Brahma e procurou avidamente pelos livros antigos do Oriente existentes na biblioteca do Vaticano.
         À sua memória vinha a imagem do Dalai Lama, seu sorriso simples, seu olhar alegre, como o do Papa nunca fora, e as palavras do Dalai Lama lhe pareciam mais apropriadas, mais verdadeiras que as suas.
         Por outro lado, recentemente, encontrara-se com os mais sábios rabinos, estudiosos da Torah, e lhe parecia que eles entendiam melhor que ele, Papa, o Antigo Testamento e o tal Jeovah.
         Quanto mais pensava, mais o Papa se confundia, a ponto de achar que a magnífica pintura da Criação na Capela Sistina se referia a Zeus a à primeira geração de homens.
          O Papa sonhava estar em Mu, em Atlântida, à beira de um vulcão polinésio, reverenciando estranhos animais em coloridos totens.
          Enfim, parecia ao Papa que todos os símbolos eram valiosos, e que as religiões pagãs reivindicavam a posse de sua alma, enquanto as escrituras cristãs empalideciam como falsificações baratas.
           Estamos no reino pagão de Manon, entre povos que cultuam Pluto e Afrodite, dissera-lhe o sábio rabino  Adin Steinsaltz, em uma conversa lligeira em que discutiam sobre o Talmude.

             Olhando a seu redor, para qualquer país do mundo, o Papa encontrava os cultos ao corpo, ao sexo, aos prazeres dos sentidos, aos ritos religiosos apenas aparentes.
          Basta calar-se e ouvir o seu coração, pois dentro dele está a Verdade – sussurra-lhe da estante do Vaticano, a biografia de Sidarta Gautama.
        E todo aquele ouro, todo aquele luxo do Vaticano, todas aquelas preciosas peças de arte, o que aquilo tinha a ver com o humilde carpinteiro de Nazaré? – gritava-lhe a voz da própria consciência.
          Quando olhava para os seus pares, o pontífice via todos os vícios, da vaidade à pedofilia, e, em todos aqueles rostos orgulhosos, como pecado maior, a ignorância. Justamente a ignorância que os budistas afirmavam ser a causa de toda infelicidade neste mundo.
          O Papa não queria mais ser ignorante, não queria mais sofrer.
          No Vazio de seu coração, o Papa sofria, por entender o que entendia e por não entender o que queria tanto entender.
           Quanto mais pensava, menos compreendia, e sentia-se louco.
          Um louco que desejava amor, luz, fé.
          Um louco que precisava desesperadamente de coerência em suas duas vidas, a interna e a externa.
          O Papa descobriu que não era livre. Seus pares, seus ritos, seu país o aprisionavam. A única rota possível era para dentro.
           Em seu coração, o Papa procurava Deus.
           Deus estava lá, simples, bom, acolhedor, e parecia lhe dizer:
         Meu filho, quanta loucura! Eu não escrevi esses livros, não me meti nesses assuntos espinhosos, eu lhe disse tão claramente para que se ocupasse apenas com as coisas de Deus!
       O Papa, que já não sabia mais do que se tratavam essas coisas de Deus, ou talvez soubesse por fim, impotente, renunciou.

Como partimos de De Dr. Kildare e chegamos a ... House?


(publicada na revista Santos Arte e Cultura - setembro 2013)

Todo médico de minha geração lembra-se do Dr. Kildare, que inspirou tantos entre nós.
Admirado, amado mesmo, este jovem médico (ainda estudante) era apresentado como uma pessoa útil, atenciosa, dedicada, compreensiva, que escutava e consolava seus pacientes. Nos seus relacionamentos profissionais, havia um forte elo emocional. Humano, não se esperava dele que fosse infalível
Neste, que é o primeiro seriado médico que assisti, já percebemos um certo tecnicismo, pois o supervisor de Kildare o adverte: ‘Nosso trabalho é manter as pessoas vivas, não dizer a elas como viver.’
Comentário cínico, cujo objetivo era garantir um distanciamento emocional que não perturbasse o raciocínio médico, que, no caso, era quase salutar, por impedir que o profissional sofresse com um relacionamento mais íntimo com seu paciente, já que,  inevitavelmente alguns pacientes morrem, e alguns, morrem jovens. E, inspirados pelo jovem Dr. Kildare, este era um mandamento que todo aspirante a médico ansiava por transgredir.

Já o atual seriado House nos apresenta um médico brilhante, lógico,  técnico, odiado por alguns de sua própria equipe, meramente tolerado pelos pacientes, e do qual se esperam, apenas, resultados.

Ambos são inteligentes e dedicados: um aconselha, importa-se que o paciente viva bem, e mesmo que morra bem – que sua vida tenha sida uma boa vida; o outro não se importa, sua meta é que o paciente sobreviva – seu paciente é quase um troféu, seu triunfo na arte de diagnosticar.

House expressa-se da seguinte maneira: “Me importar para que? Pergunte ao paciente se ele prefere um médico que se importa enquanto ele morre ou um médico que o ignora enquanto ele é curado?” A visão de mundo que o doutor House criticou nesta frase é profunda. House não criticou apenas o altruísmo em si; ele demoliu nesta frase o conceito de ética médica, o humano respeito ao próximo. Sacrifica-se o espiritual em nome de uma eficácia questionável.

Proponho-me a comparar os valores existentes nestas duas séries:
Em Dr. Kildare:
1 - Há um valor de vida – que se faça a diferença, que se seja feliz e útil.
2 - Há um valor de morte – que se retorne ao sagrado, ao misterioso.
3 - Há um valor de paciente – que se aprenda e se evolua com a doença.
4 - Há um valor de médico – que se importe com o ser humano, que sinta emoções, que seja competente e bom.

Em House:
1 - A vida é uma miséria, todos mentem, todos sofrem.
2 - A morte é o fim, e toda crença religiosa é ilógica, já que não se pode provar – a supervalorização da ciência, vista como técnica.
3 - O paciente é um ser humano tolo, na melhor das hipóteses, ou indigno, na pior, e exige resultados da medicina, quer ser curado e salvo a qualquer preço.
4 - Do médico exige-se a cura  – que faça o serviço pelo qual está sendo pago, e que obtenha os melhores resultados. Ser bom é inútil. Descartou-se a espiritualidade.

Para tentar entender melhor como chegamos a este lamentável estado de coisas – ou alguém acha que a atual situação da saúde no mundo não seja lamentável? -  temos de ir além do médico, temos de penetrar nos paradigmas de nossa sociedade capitalista.

Os pacientes de Dr. Kildare eram pessoas sofredoras, sensíveis, centradas em suas famílias, amigos, e objetivos baseados em mérito pessoal e trabalho duro: a professora desejava ensinar, o vendedor vender, os jovens, concluírem um curso.
Os pacientes de House são, em sua maioria, insensíveis como ele, amantes da tecnologia, consumistas, consomem o produto saúde como consumiriam qualquer outra coisa, e são focados no sucesso monetário: o atleta olímpico que quer o ouro, o artista que quer o Oscar, o empresário que quer comprar a rede concorrente, todos querem ser o primeiro, não basta concorrer, nem ganhar, trata-se de ganhar em primeiro lugar. Erros são descartados – o filho que foi reprovado de ano, a atleta que não se classificou, o marido desempregado, a mulher feia, esqueça, são todos ridículos e indesejáveis perdedores. E qualquer paciente que se apresente amoroso e idealista é logo dissecado para que revele suas ambigüidades e contradições, apresentadas como mentiras e fraquezas inadmissíveis.


No último século, assistimos a certas mudanças na sociedade capitalista.
Antes, aceitava-se a morte como um fato natural; admitia-se que as pessoas deviam estar preparadas para morrer, bem como para viver; os médicos eram vistos como seres humanos esforçados e empenhados em fazer o melhor possível, dentro de possibilidades razoáveis.

Agora, quer-se evitar o confronto com a morte, retardar o desfecho da vida a qualquer preço, mesmo a custo de uma vida de qualidade ruim.
Os médicos entram nesta visão capitalista como geradores do produto saúde, portanto não são vistos como seres humanos, mas como um mal necessário, já que as máquinas não funcionam sozinhas; deles se exige perfeição técnica e nenhuma ética; paga-se a eles o menor honorário possível e são trocados da equipe assim que algum cérebro
mais brilhante surja. Espera-se que sejam infalíveis, e, a par disto, critica-se esses mesmos médicos por serem arrogantes e diz-se deles que sofrem de ‘complexo de Deus’.

A minha geração médica, que anda ao redor dos sessenta anos, ressente-se do reconhecimento não recebido; já a geração atual, bem, sejamos honestos, toda a categoria é atualmente vista pela população como House, um médico que desdenha tudo, desde o sistema até o doente, que ficou reduzido a uma ficha clínica.

Afirma Gurdjieff que estamos a viver os últimos dias desta era técnica. O planeta nos destruirá se não mudarmos. O clima já mudou, e anuncia ao homem que ele, homem, não é o senhor do planeta, que a humanidade é tão descartável na escala cósmica como os dinossauros.
Chega o tempo de voltarmos a ser humildes. De enterrarmos House e buscarmos o Dr. Kildare,  pois, desde os tempos de Esculápio, o que a humanidade deseja é, antes de tudo, compartilhar a vida e ser consolada, pois curar, é possível  às vezes, e consolar, é possível, sempre.



Crônica do dia do amigo.



Às vezes a gente tem um encontro assim, totalmente casual, e surpreendente.
Nada de surpreendente com o encontro em si, mas com o efeito sobre mim.
Percebi de repente que estava sorrindo, e o sentimento era de felicidade mesmo.
 Mas, de onde vinha esta felicidade?
Não por acaso estou lendo um livro de neurociências, de Leonard Mlodinow , Subliminar. E o capítulo lido hoje se referia mesmo a emoções. Relata o autor experiências mostrando que, primeiro as alterações físicas acontecem, depois nos conscientizamos delas e lhes damos nomes de emoções.
Porém, no meu caso, ouso discordar, e dizer que o que foi acionada nesse encontro foi a memória.
Digo isso porque o colega que encontrei está associado em minha mente a momentos bem tranqüilos e alegres. De fato, no trabalho, quando ele chega, é sempre sorrindo, dizendo toda sorte de coisas gentis e interessantes, e sempre tem uma piada leve para introduzir nos assuntos árduos do cotidiano. Dizem dele coisas como: ‘está sempre de bem com a vida’; ‘uma pessoa maravilhosa que está sempre sorrindo, nunca o vi de mau humor’, ‘aí está um sujeito feliz’.
A felicidade será contagiante? Pelo que pude reparar, bastava ele chegar, para os semblantes se desanuviarem, e, assim que saía, deixava atrás de si muitos sorrisos.
O que me chamou a atenção, hoje, foi o fato de que meu amigo estava sério, e, mesmo assim, eu sorri. Quem sabe hoje tenha sido a minha oportunidade de lhe retribuir tantos momentos de alegria?
O fato é que até agora estou contente, com esta emoção boa que, por motivo desconhecido, não consigo mais obter nos momentos de meditação.
Quando os recursos interiores falham, é tão bom receber um reforço de fora, destas pessoas que passam por nossas vidas de tempos em tempos, que são como um bálsamo divino sobre nossas dores, e que costumo chamar de anjos.
E que são também popularmente conhecidas por outro nome: amigos.



Dois cachorros em uma noite fria.




Cachorros são encantadores.
Não quero dizer com isso que sejam bonitinhos ou que convidem a um afago, não, uso aqui o verbo encantar na acepção do dicionário: exercer influência mágica.
Pessoas enfeitiçadas mudam seu comportamento e fazem coisas completamente alheias à sua rotina. Contra a sua vontade. Sem apelação.
Veja minha sogra, por exemplo. Costureira ocupada, sdetesta cachorros. Meu marido e minha cunhada nunca tiveram bichos em casa. Aquelas coisas cheias de pelo que sujam tudo e deixam cheiro por toda a casa, e, no caso de cachorros, fazem um barulhão que afugenta as freguesas? Jamais! E meu sogro completava que, além de tudo, os animais tinham pulgas e carrapatos e sabe- se lá o que mais.
Bem, o caso é que a gente viajaria no começo do inverno, e minha mãe iria conosco, aliás, era por ser aniversário de minha mãe que eu a levava comigo, a viagem era um presente. E, bem, só por este fim de semana, Dona Beá concordou, de cenho franzino, resmungando baixinho ‘não vá se acostumando, não’. E exigiu portão para colocar na porta da cozinha, para garantir que os bichinhos não invadissem o lado de dentro da casa.
Ao fim da tarde, instalamos o portãozinho – desmontável, ajustável a qualquer tamanho de porta, deixamos o saco de ração, os cobertores, os pratinhos, as casinhas e partimos.
Era o início do inverno, e a temperatura abaixou muito aquela noite. Quando chegamos a Monte Verde, nos enrolamos em camadas de roupa e descobrimos que beirava zero grau. O céu estava magnífico, as estrelas enormes no firmamento claro, e doía respirar o ar gelado da serra. Comecei a ficar preocupada ao ouvir, no noticiário da TV, que o frio era geral, e que até no litoral as temperaturas despencaram, eram as mais baixas do século (e estávamos no fim do século vinte)
Nossos cachorrinhos não dormiam expostos ao tempo, dormiam no interior da casa, na sala aquecida, abrigados em suas frágeis casinhas de pano.
Dei o telefone a meu marido, pois, se eu escutasse da sogra algum tom de desagrado, ia ficar muito triste. Mas ele, logo às primeiras palavras da mãe, começou a rir:
- É, e daí?
E ela falava, falava, e ele ria, ria, e eu na maior agonia.
Finalmente ele desligou e contou:
- Ah, assim que nós saímos, minha irmã entrou em casa e se deu conta de que havia deixado o portãozinho aberto. Aí procuraram os cachorros pela casa toda e nada. A minha mãe pensou que eles haviam fugido, ido atrás do carro e minha irmã, então, foi para a rua procurar, e ela foi chamar meu pai para ajudar.
Eu só não desmaiei de ansiedade porque, como ele estava rindo, a coisa só poderia ter terminado bem, mas, que grande irresponsabilidade da guria, deixar os cachorros fugirem!
- Não, não, eles não fugiram, amor.
E o marido (ah, como é bom poder falar marido, só quem gramou procurando um, pode entender) continuou:
- Meu pai estava dormindo, e quando minha mãe falou para ele que precisavam pegar o carro e ir para a rua procurar os cachorros, ele ...
- Que foi, homem? Não vê que estou preocupada?
- Os cachorros estavam com ele na cama! E rosnaram quando a minha mãe tentou tirar eles de lá, e o meu pai... disse que era pra ela deixar eles ali mesmo, para eles ficarem quentinhos...
Comecei a rir, eu também. E as pulgas? E os carrapatos? Era o que eu ia perguntar ao sogro assim que regressasse, só para tirar uma onda.
- E a comida... – outro acesso de riso.
- Que foi? Ela derrubou a ração?
- Não, eu perguntei se eles estavam comendo, e ela me disse que cozinhou peito de frango para eles e desfiou, em pedacinhos bem pequenininhos, para dar com arroz integral e legumes...
Dona Beá cozinhando para os cachorros? Ah, essa eu tinha de ver!
- Mas eu bem ouvi você insistir no portãozinho...
- Insisti, claro, porque ela sempre disse que detesta animais em casa, mas ela ficou muito brava e quase gritou comigo: você não acha que, com este frio, eu ia deixar os coitadinhos no sereno, né? Está gelado lá fora!
É por isso que eu afirmo: cachorros encantam.
E depois que eles caem em nossa graça, já não sabemos viver sem eles.
Diz o povo que toda feiticeira tem um gato, mas eu acho que as feiticeiras devem ter mesmo é um bom e fiel cachorro.





Momentos à Woddy Allen



Que diabos eu estava fazendo em uma cerimônia de Yom Kpur?
Minha amiga Clara, para quem estou revisando um livro, me convidou para almoçar com ela, em um dia em que eu não trabalhasse à tarde, para podermos depois, ficar conversando tarde afora... combinamos segunda-feira; eis que ela me liga na sexta perguntando se eu me incomodaria de mudar o almoço de segunda por um jantar no sábado – como para mim era indiferente, aceitei.
O que eu não sabia era que se  tratava de uma reunião em família. Comecei a suspeitar quando liguei para confirmar o endereço e ela me recomenda não comer demais no almoço, pois o cunhado sempre trazia doces deliciosos para a sobremesa.
Ora, deparo-me com um candelabro e velas, logo à entrada, e ela me diz que já acendeu as velas e fez sua oração, pois não gosta de ir à sinagoga. Em seguida põe-se a me explicar sobre o dia do perdão, sobre o jejum ritual, que é muito severo, jejum de comida e também de água. Moramos em uma cidade muito quente e seca, e ela me conta que a mãe nunca impôs o jejum aos filhos, nem ela ficaria o dia inteiro sem água em um calor como este... mas o marido ficara o dia inteiro sem tomar uma só gota d’água. Fala-me do ritual do Ano Novo judaico, e do final do jejum – o Yom Kpur, onde se celebra em família com comidas apropriadas.
Quase a seguir chegam os restantes dos convidados, que me olham com surpresa e até uma certa hostilidade, quando sou apresentada como uma amiga (presumivelmente católica).
O marido da Clara me dirigiu a palavra três vezes: para dizer boa noite, entre; para perguntar se eu aceitava uma taça de vinho; para despedir-se. A seu favor confirmo ser ele uma pessoa calada, que permaneceu em silencio durante praticamente todo o jantar.
Já o mesmo não posso dizer dos irmãos, filho, sobrinha e cunhada, que tagarelaram o tempo todo entre eles, sobre assuntos de família ou pessoais, e praticamente nem me olharam, com exceção da cunhada, que respondeu a alguns de meus comentários e dirigiu-me algumas perguntas. O filho dela chegou mesmo ao absurdo de, quando levantei-me para pegar a sobremesa, sentar-se em meu lugar – minha bolsa estava pendurada ao encosto da cadeira, e ademais, ele estava de frente para a porta, e eu, de frente para uma parede cheia de quadros, impossível confundir! Atrapalhada, sentei-me no lugar dele.
Minha amiga comportou-se de maneira digna de um personagem de Woody Allen em tres ocasiões:
na primeira, ela afirmou que eram todos judeus degenerados não iam à sinagoga nem rezavam em casa, mas na hora de comer, estavam sempre a postos, e foi perguntando de um em um: você, por acaso foi à sinogoga hoje?
(duvido que isto tenha angariado para mim, testemunha involuntária, alguma simpatia...)
em outro momento, ela afirma alto e bom som que Jesus havia comido daquele tipo de peixe, Gefilte, pois, sendo todo mundo sabe que Jesus era judeu e participava dos rituais judaicos – neste momento, todos da família abaixaram os olhos e emudederam, foi consgtrangedor.
A mais acintosa foi quando ela disse que passava todos os natais na casa do irmão dissidente que se casara com uma católica, pois, como o irmão não freqüentava as festas da família, o natal era o dia em que ela tinha a oportunidade de passar um tempo com ele – só faltou dizer que adorava panetone, se deleitava no peru e trocava presentes.

Por um momento pensei se esse seria o momento adequado de eu dizer a eles que eu não era cristã, mas, em seguida, pensei que ao completar e explicar que eu era budista, a situação ficasse ainda mais complicada, ou vai que eles pensassem que eu fosse muçulmana...preferi o silêncio.
Ao saírem, me despedi também, pois seria mais seguro sairmos todos juntos – eu havia mesmo pensado em pedir a alguém que me acompanhasse até a esquina, onde estava meu carro, embora ninguém perguntasse se eu estava de carro e onde eu havia estacionado. Chegando ao portão, os homens se afastaram para que as mulheres deles passassem primeiro, mas não me deram o mesmo tratamento cortes, simplesmente saíram na minha frente, inclusivo e filho dela, que estava atrás de mim e praticamente me atropelou, ao correr para me ultrapassar, gritando para o tio que era sábado e nesse dia, os jovens como ele deviam sair e divertir-se. O rapaz seguia o mesmo caminho que eu, pois o carro dele estava na frente do meu, assim, se um assaltante estivesse à espreita na esquina, teria assaltado ele primeiro, mas não aconteceu nada.

Deus meu, se a minha amiga queria que eu almoçasse com ela para podermos passar a tarde conversando, sinceramente, eu não entendi a troca!
Shaná Tová. ( siginifica: um bom ano para você)





Rosana







Rosana, a garota de 15 anos, alimentava um desejo avassalador.
Ela não almejava roupas, aumento na mesada, boas notas na escola, casamento, aprovação dos pais ou aceitação por um grupo específico. Nem mesmo desejava um nariz menor ou seios maiores, como muitas outras de sua idade. O que ela ansiava por experimentar, e não mediria esforços para conseguir, era um fim de semana com o namorado em uma praia deserta.
Supervisionada por pais carinhosos e professores atenciosos, a adolescente passava os dias indo da casa à escola, daí ao laboratório, à quadra de esportes, e de volta a casa, de segunda a sexta. Aos fins de semana, praia, cinema, todo o tipo de passeio lhe era permitido, desde que cronometrado e supervisionado pelos pais.
- Ah, dizia ela ao namorado, como seria bom se pudéssemos ficar os dois isolados do mundo por um fim de semana inteirinho!
E o namorado, é claro, concordava. Não só concordava como arquitetou o plano todinho. Conseguiu a cópia da chave do carro do irmão que sairia de férias por um mês. Conseguiu uma barraca de camping com um primo que se formava advogado e trocava, feliz, a vida vagabunda nos acampamentos pela vida regrada nos hotéis confortáveis.
Os pais de Rosana a consideravam uma boa menina. Nunca cabulara aula e tinha ótimas notas. Apenas, nas noites de sábado, gostava de ficar nas baladas até mais tarde, sentada à mesa do clube com os pais, bebericando apenas sucos e água. O mesmo diziam de seu filho os pais do namorado.
Todos os dias, o casal imaginava com detalhes o que fariam em um fim de semana na praia deserta, longe de tudo e de todos. O coração dele acelerava, ela suspirava, e ficavam corados durante estas conversas.
A oportunidade apareceu quando a família Moreira convidou Rosana para um fim de semana em Campos do Jordão. Rosana levou a amiga a sua casa, para conversar com sua mãe. Naturalmente, os pais de ambas se falaram ao telefone, confirmaram  as informações, trocaram telefones, acertaram a viagem das filhas.
O namorado inscreveu-se em um curso que não pretendia fazer, no mesmo fim de semana, deixando os pais dele cientes do endereço, da programação e da carga horária do dito curso.
Rosana fez sua malinha, o namorado arrumou sua mochila, e, no dia aprazado, Rosana ligou para a amiga, mentindo pela primeira vez em sua vida, para informar que amanhecera febril. A seguir, saiu de casa e foi encontrar-se com o namorado, que pegou o carro do irmão, já equipado com a barraca, água e bolachas para o fim de semana, e seguiram pela Rio-Santos, rumo ao local onde havia o que ambos procuravam: um acampamento desativado, onde poderiam penetrar e usar os pontos de água e eletricidade, curtindo a praia próxima, completamente isolados do mundo, realizando o desejo há muito acalentado.
Depois de três horas de alegre tagarelice, deixaram a estrada principal e encontraram sem problemas as instalações abandonadas. O namorado abriu a porteira facilmente, entrou com o carro até um ponto próximo à areia, montaram a barraca, verificaram com satisfação que havia água corrente, limpa e abundante, nos banheiros, e organizaram seus pertences.
O namorado estendeu o saco de dormir e Rosana retirou o vestido, ficando apenas de biquíni. O rapaz também reduziu seus trajes ao maio, e puxou para si a namorada, beijando-a com sofreguidão.
Estavam então como queriam estar, isolados, com um fim de semana inteirinho pela frente. Olharam-se, tímidos e ansiosos, indecisos quanto ao próximo passo. O namorado sugeriu que fossem nadar. Rosana concordou. O dia estava quente, havia um belo sol dourado de verão, e a brisa trazia consigo areia e o cheiro do mar. O namorado pegou Rosana pela mão e foram em direção ao mar, sem pressa.
A juventude aprecia a beleza e a liberdade. Naquela praia selvagem, Rosana e o namorado embriagaram-se de ambas. Correr pela areia, mergulhar, boiar, nadar, e depois descansarem, caídos um sobre o outro à beira mar, quanta alegria!
O namorado cobriu o corpo dela de lama e conchas, que a maré lavou ao subir. A próxima brincadeira foi guerra de bolas de lama, o namorado fingindo fugir da pontaria da moça. Correram a rir por centenas de metros antes de retornarem ao mar e inovarem nos mergulhos: ele mergulhava com ela apoiada aos ombros, olhos abertos, o mais fundo que conseguissem.
Nenhum dos dois ousava tocar no assunto que mais interessava a ambos: o que os aguardava no aconchego da barraca, depois. Concentravam-se no presente, rindo, provocando-se, devorando um ao outro com os olhos.
Os dedos de Rosana estavam enrugados e frios, na tarde que descambava, quando resolveram voltar ao acampamento, tomar um banho de água doce e ir comer algo.
Abraçados, iniciaram a caminhada de volta, inebriados com os cheiros e os sons daquela aventura.
Seguros de que não seriam descobertos e interrompidos, entraram na barraca em busca de toalhas e roupas secas.
Sobre o saco de dormir, a mochila aberta dele foi o primeiro alerta. Um estalido à porta da barraca foi o segundo.
Naquele mesmo instante, em casa de Rosana, o telefone tocou. Era a amiga perguntando se Rosana melhorara. Alarmada, a mãe imediatamente ligou para a casa do namorado, cujo pai ligou para a escola e descobriu que o filho não comparecera ao curso. Começou em seguida a busca desesperada das famílias pelos amigos, conhecidos, hospitais, necrotérios e delegacias.
O casal guardara bem o segredo. Nenhum de seus colegas tinha e menor idéia de onde eles pudessem estar. A policia começou por buscar o carro, dado como roubado. E o primo, ex dono da barraca, começou a ligar para todos os acampamentos que pudesse localizar nas cidades próximas.
No terceiro dia, quando o retrato dos dois apareceu na televisão, a polícia recebeu a ligação de uma mulher que disse ter passado próximo a um camping desativado, e ter cruzado com uma caminhonete, de dentro da qual ouviu gritos de mulher. Na hora não dera importância maior ao fato, afinal, adolescentes às vezes gritam por brincadeira...
Horas depois a polícia localizou o camping, o carro abandonado, a barraca com o saco de dormir e alguns pertences que os pobres pais reconheceram...
Passou-se mais de uma semana até localizarem os corpos, e quase quinze dias para capturarem os assassinos, quatro rapazes menores de idade.
Sem demonstrar nenhum remorso, eles contaram como mantiveram o casal em cativeiro, sempre um deles apontando uma arma para a cabeça do rapaz, enquanto os outros se divertiam com a garota bonita, sob a ameaça de materem o namorado, e, como, quando se cansaram dela, com requintes de crueldade, a mantiveram olhando enquanto estouravam os miolos do namorado, que foi morto primeiro.
O chefe do bando, um tal de Champinha, sujeitinho disforme de rosto e de alma, riu-se na cara do delegado:
- Não me rela, não, que eu tenho meus direitos, diz aí no estatuto da criança e do adolescente que eu sou ... inimpu... enfim, eu saio limpo, porque sou de menor...

(baseado em um caso real)


Pura luz (in memorian)



                                                                                                 Qual uma esteira de prata,
                                                                                             O luar cai sobre a areia,
                                                                                             e o mar, numa serenata,
                                                                                        faz trovas à lua cheia!

Sophia Leite Cruz

A poetisa santista Sophia Leite Cruz, que, ao final do século vinte, residia em Santos, sofrendo de mal de Parkinson há mais de dez anos, enfartou.
Sophia foi uma das pessoas mais alegres que conheci. Se alguma de nós entrasse esbaforida, a lutar com o guarda-chuva, em dia de vento, ouvia-se Sophia a rir:

O vento passa, curioso,
Por entre frondas e faias,
e levanta, malicioso,
a barra de tuas saias.

Posso imaginar Sophia, que sobreviveu ao ataque, acordando na UTI, ao lado de uma dessas desprestigiadas profissionais da saúde, de olhar desiludido e semblante amargurado, mecanicamente a trocar um frasco de soro, e murmurar um ‘obrigada, querida’ seguido de uma rima:

E que caminhes sempre firmemente
A cada passo, uma conquista a mais,
Tendo no peito muita paz somente,
Anjo de Amor, orgulho de teus pais.

E acrescentando:

- De teus pais e de nós, teus pacientes.
Pronto; lançado o encanto, a face da moça se transformaria, surpresa.
E quando o médico se aproximasse a perguntar pelo coração de poeta, ela responderia:

Em busca de beleza e pelo amor,
Corre o poeta a soltar-se no espaço.
Leva no verso a força e o resplendor,
Não mede esforço, despreza o cansaço.

E o médico, a provocá-la:
- Não cansa mesmo, avozinha? Depois de horas a escrever, não cansa, não?
E Sophia afirmaria:

E a pena corre firme no papel
e exprime com fervorosa emoção,
artista a debuxar com seu cinzel,
as fímbrias fundas de seu coração.

Ora, há muito que a pena de Sophia não corria firme em lugar algum, motivo pelo qual o banco lhe cancelara os cheques e ela se ajeitara ao teclado de um computador, digitando pacientemente, dedo a dedo, uma letra por vez, persistente.
Quando o médico hesitasse em revelar-lhe a verdade sobre sua saúde, ela, esperta, o interromperia:

Não dirijas tua vida
Buscando luz na mentira.
Vê que a verdade sofrida
Seja mesmo tua mira.

Coração forte, o de Sophia! Após longos anos de doença, ela erguia o rosto risonho e enfrentava o que fosse.
A enfermeira, mais animada, conversaria com ela sobre a cidade, tão bonita, berço de renomados poetas, e Sophia concordaria:

Os jardins de nossas praias,
Possuem lindos recantos.
Entre alfambras, flores, faias,
Fazem a graça de Santos!

Depois de tomar seus remédios e despedir-se das visitas, Sophia se prepararia para dormir, despedindo-se assim:

É tão gostoso adormecer assim,
pela madrugada misteriosa,
sorver no espaço o aroma do jasmim,

Apaixonado pela rubra rosa!

As amigas, para animá-la, riam e atiçavam:
- Sei não, não era bem assim que um certo ‘alguém’ ouviu estes versos, não!Como eram mesmo?
Sophia, alegre, relembrava os versos feitos ao antigo namorado:

É tão gostoso adormecer assim,
no limiar do sonho, um beijo teu,
em revoada como um querubim,
buscando rápido um carinho meu.

A enfermeira, admirada, lhe perguntaria, curiosa:
- Avozinha, como consegue declamar tão facilmente, assim tão à vontade com as palavras e as rimas?
A mesma pergunta eu já lhe fizera e obtivera como resposta:
- Eu penso em decassílabos...
Cartões de Natal, vindos de Sophia, só rimados:

Natal! E toda a celeste legião
Festeja o nascimento de Jesus.
Anjos e arcanjos sorridentes vão
em cada estrela colocar mais luz.

Assim era Sophia, imersa em poesia, sem deter-se nas contrariedades presentes na paisagem da vida, buscando a beleza, focando no Bem.
Anos mais tarde, ela se foi, e deixou-nos seu exemplo de vida. Seu enterro, ao que sei, foi concorrido, e seus amigos poetas foram cantando acompanhar o caixão.
Sophia, como os gregos do Parnaso, buscava a Excelência.
Tendo seus talentos reconhecidos pelos prêmios que recebeu, pelas entidades das quais participou, pelos leitores do seu jornal poético O Espaço, Sophia realizou seu desejo de publicar seu livro Um Grande Sonho.
Para muitos que a conheceram, ela personificou o sonho.


Bibliografia:
Um grande sonho – Sophia Leite Cruz - 1992
Em Verso e Prosa – AFCLAS – 1998
Antologia A lua e a Pena – APEBS - 1995
Antologia A lua e a Pena – APEBS - 1996

Que seja eterno...



                                                                                             

Com breves palavras minhas, resumirei nosso encontro.
Que foi como um terremoto, que balançou minha paz, estremeceu minhas convicções, abalou minhas crenças.
Eu, patinha feia, resplandeci quando dissestes, às minhas costas: ‘que mulher bonita! Quem é? Me apresente!’
Uma mulher desabrochou em mim, no mesmo instante; fiquei falante, segura, otimista.
Teu carinho aplainou o meu caminho, refrescou meus dias, suavizou minhas lutas.
Eu acordava cantando e adormecia sorrindo.
Sentia-me forte para afrontar qualquer dificuldade, esperta para entender qualquer debate, paciente para suportar qualquer contratempo.
Tu estavas  tímido, como os homens costumam ser perante a mulher amada. Com passos elegantes, bem medidos, olhaste-me direto nos olhos, enquanto o primo nos apresentava, cúmplice.
O gesto de amor que te delatou foi a maneira canhestra como seguraste o copo de bebida, que escorregou de tuas mãos e se espatifou com estrondo, no momento em que tentastes te aproximar um pouco mais, querendo roubar um beijo, talvez.
Toda a família olhou para nós, rindo, de seu rosto em fogo, de meu olhar encantado.
Eu me senti como as princesas dos contos de fadas, flutuando entre nuvens rosas.
Nuca me esquecerei dos filmes que assistimos juntos, das músicas que compartilhamos, nem, coisas de mulher, das roupas que desfilei para você. A blusa branca de babados, o vestido verde, a saia longa preta, o conjunto verde – água, o outro conjunto salmão.
O tempo parara. O coração, em contrapartida, batia mais que coração de colibri, e eu mal conseguia respirar, com a emoção que despertavas em mim.
Te admirei na mocidade, te admiro ainda agora: ao longo dos anos, só te aprimorastes, como um velho bom vinho.
Tua alma linda brilha cada vez mais a meus olhos, e rio de tola vaidade que te faz relutar em renovar as fotos do Facebook, eu que nem enxergo mais a tua casca de pele.
És gentil, alegre, educado, dedicado ao trabalho, talentoso em teu lazer – de pintor de fim de semana,  e tenor de chuveiro,  a papai escritor nas férias, despertando nas crianças a paixão pela arte que ambos cultivamos – e, sobretudo, és simples.
Contigo não há mentirinhas, salva aquelas bobas que nascem da necessidade de esconder o presente de Natal. Nada de truques, meias verdades, palavras ambíguas. És verdadeiro e previsível, o que te acrescenta uma qualidade a mais: as possíveis rivais te acham sem sal e tedioso.
Eu, simples como tu, mulher sem vaidades, com outras prioridades, me comovo ao sentir como a cada dia vamos construindo nossa história singela, olhos nos olhos, mãos nas mãos, realizando hoje com a mesma ternura nossa frase brincalhona da adolescência: ‘te amo tanto, mas tanto, que quero envelhecer com você’.
E hoje, cá estamos nós, os dois velhinhos...dizias que eu era a lua das noites insones de tua mocidade, eu digo que és o sol das minhas tardes de inverno.
Com estas breves palavras minhas, reafirmo o meu amor por você.


Ritual d.C.




Flores, velas, toalha rendada.
Na mesa da festa,
entre flores e frutas
servidas na melhor louça.
os adoradores fiéis veneram,
pronto para ser imolado,
o deus peru.
2012

Por trás dos seqüestros



            O curioso, no seqüestro da filha do milionário apresentador de TV, Sílvio Santos, foi o motivo que os seqüestradores alegaram para o crime: nada mais, nada menos que benemerência. Isso mesmo: caridade, amor ao próximo.
            Vejamos: a moça que idealizou o atentado pretendia usar o dinheiro do resgate para distribuir cestas básicas para os pobres. O resgate sendo R$500 000,00, a cesta básica a R$20,00, serão 25 000 cestas básicas! Para tanta generosidade , só mesmo um marginal espiritualizado. Pois se o executor do plano foi nada mais, nada menos que o filho de um pregador protestante, um irmão em crença da filha do empresário, bem como de sua mãe, apesar de o pai ser ... um judeu, fiel seguidor da Torah. Coisas deste abençoada Brasil!
            O seqüestrador teve a infelicidade de matar dois guardas que o perseguiam e teve também a curiosa idéia de refugiar-se – pasmem! – na casa do empresário, burlando cães, vigias e cerca eletrificada, conseguindo ainda a proeza de capturar o empresário como refém.
            Moço de sorte, este, pois conseguiu garantia de vida – como se no Brasil houvesse pena de morte ! – ao negociar suas condições de rendição com o governador.
            O moço nem precisava ficar tão preocupado, pois é réu primário e sem antecedentes, nunca havendo até então causado qualquer problema, segundo o pastor, seu pai. Nada mais que algumas bobagens de adolescente, como a polícia apurou em seus arquivos: uso de drogas, tráfico de maconha, cúmplice em um assalto à mão armada, receptador de objetos roubados, comércio ilegal de armas, coisinhas à toa, está-se a ver.
            A explicação? Só mesmo um coração de mãe para um comentário desastrado deste!
‘Há a atenuante de o pobre moço estar passando por uma crise existencial grave’ ... morando em uma sólida e boa casa em bairro residencial de classe média alta, na capital, filho de pais estáveis e cursando faculdade particular... A namorada, mentora intelectual do crime, entregou-se, em prantos, afirmando ter sido sempre gentil e amável com sua vítima, chamando-a apenas pelo carinhoso termo ‘princesinha’. Que a princesinha estivesse permanentemente sob a mira de duas metralhadoras é um mero detalhezinho irrelevante.
            O casalzinho caridoso é tão generoso que tinha já planejados cinco outros seqüestros de famosos ricos, tendo já alugado casas para servir de cativeiro, nas quais a polícia encontrou um arsenal bélico.
            Os dois estão obviamente tristes, lamentando as cestas básicas não distribuídas.
            Na seqüência da grande publicidade que a mídia deu ao caso, seguiu-se o seqüestro de uma família de cantores, os Gordinhos Talentosos. (Fat Family)
            Este caso é cômico, pois tendo o seqüestrador seqüestrado a família toda incluindo o seu agente, não sabe agora com quem negociar o resgate. Por outro lado, este seqüestrador em particular não passa por nenhuma crise grave, já que não é sequer socializado, é excluído mesmo, exclusão perene e estável.
            Os brasileiros, que não têm jeito mesmo, e que fazem piada por tudo, já estão por aí falando que ao final do seqüestro a família vai mudar o nome para os Magrinhos Talentosos ou então os seqüestradores já terá gasto o valor do resgate em comida
            Muita gente acredita que a questão por trás dos seqüestros seja mesmo comida, e eu concordo.

            Para evitar tais desgraças, há, sim, que se alimentar... AS ALMAS.

Saindo às compras com a adorável vovó.



Vovó precisava de óculos, e de também comprar uns remédios.
Em companhia da neta, saiu de casa, devagarzinho, apoiada ao braço da mocinha. Ao chegarem ao meio da quadra, como não havia trânsito, a garota fez menção de atravessar.
 - Não, não, querida, vamos atravessar ali na esquina, onde tem semáforo.
Ora, na esquina, era realmente um cruzamento da rua tranqüila com uma movimentada avenida, pela qual seguiram por mais uns dois quarteirões, e, do outro lado, estava o Óptica.
Pois vovó aperta o braço da neta para que atravessassem a passos rápidos a uns 200 m do semáforo. A moça, não concordando, segurou a velha senhora com firmeza:
- Não, não, não, não, não, aqui é como a senhora faz questão, esperar que o semáforo fique verde para nós.
- Ora, netinha, ora essa, dá tempo...
Na óptica, apesar de não haver ninguém na frente e terem sido atendidas com presteza, ficaram por mais de meia hora.
- Esta armação, não, tem este detalhe em metal, isso pode sair, meu óculos antigo desmontou todinho (ela o usou por uns dez anos, mas...); este de acrílico, não, é pesado, ah, este aqui, sei não, tem estes furinhos do lado, pode entrar poeira, vento, enganchar em algum lugar... ah, este outro, com este apoio de nariz à parte, isto fica verde com o tempo, ah, eu quero uma armação simples, segura, barata, que dure muito e seja bonita.
Após muitas armações retiradas das prateleiras e longa deliberação, a senhora ficou entre duas armações de acrílico bege, do mesmo tamanho, ovaladas nas bordas, de preço semelhante, e insistia para que a neta, olhando para ela, dissesse qual era a mais leve.
A coitadinha da garota fazia cara de ponto de interrogação:
- Vó, se a senhora perguntasse qual fica mais bonita, eu ia dizer que são iguais...
- Como, iguais? Não está vendo que são diferentes? O que eu quero que me diga é qual é a mais leve, qual a que vai me machucar menos o nariz...
Enfim, depois de pagarem e deixarem para trás o atendente da loja, que soltou enfim o riso, começou a ronda da farmácia.
A primeira só tinha um dos remédios, a senhora não comprou, queria comprar os dois juntos. A segunda tinha o outro remédio, não o primeiro, a terceira tinha os dois, mas o preço era mais caro, a quarta...um detalhe importante, é claro que as farmácias não ficavam próximas, e a neta pegara o carro para irem para outros bairros, e em Santos, no verão, é um problema encontrar vagas nos estacionamentos, além do trânsito enlouquecedor de turistas atrapalhados, motos incautas e apressados para o trabalho xingando os dois anteriores.
A próxima farmácia estava com o sistema fora do ar e não podia conceder o desconto da aposentada. A outra havia sido descredenciada do plano de governo que fornecia o desconto. A próxima...
- Na boa, vovó, está começando a chover, vamos comprar este remédio amanhã? Ou por telefone?
- Por telefone a farmácia não fornece desconto, e eu tomei o ultimo comprimido ontem à noite, você sabe, remédio do coração, não posso passar sem ele.
Pararam em outra drogaria e a neta anuncia, com voz firme:
- Aqui você compra com ou sem desconto, que eu não dirijo mais!
A senhora a olhou com olhos grandes e falou com voz macia:
- Ah, querida, olha só como você está estressada... por que?
E então, a senhora tira da bolsa um cartão:
- Eu tenho desconto do laboratório no Micardis.
- Vovó, simpolifica, mostra o seu CPF, pelo documento ela encontra.
- Eu estou com o cartão, o cartão basta, não é mesmo? – e a senhora de voz macia buscou com o olhar a simpatia do atendente.
Vinte minutos e sete cartões depois, o balconista nem sorria mais:
- Eu simplesmente não acho o seu nome na nossa lista deste programa... Será que a senhora não tem outro cartão de desconto aí? Ou melhor, um documento seu? CPF ?
A senhora, derrotada, relutantemente retira da carteira seu documento e dez segundos depois o balconista recuperou o sorriso profissional:
- Ah, aqui está. Programa Saúde do Idoso.
- Ah, disse a senhora, é este aqui! – e retira do bolsinho do casaco um outro cartão, o do Programa do Idoso.
- Não precisa do cartão, agora, senhora, eu já a localizei no computador e já coloquei aqui o desconto.
 No caixa, a senhora demora a procurar por moedas:
- Ah, netinha, os trocados são oito centavos, não encontro  aqui...
- Vovó, há séculos que eu não vejo moedas de um centavo, paga com cartão de crédito ou entrega logo 10 centavos pro caixa.
- Não, se eu der 10 centavos ele vai ficar com os meus dois centavos de troco. Isso eu não admito. E eu esqueci a senha do meu cartão do banco...
- Quer que eu pague com o meu?
- Ah, não, senão eu não recebo o desconto, você sabe...
O moço do caixa, no entanto, já estendia para ela uma moeda de cinco centavos:
- Olha só, senhora, fique com o troco.
A vovó avaramente guarda os cinco centavos na bolsa, vira-se para sair da farmácia, não sem antes caprichar no sorriso em que desejou Bom Carnaval ao moço, e repreende a neta:
- Francamente, querida, não entendo porque o pessoal de sua geração não tem paciência com os idosos!
Eu, peço a Deus todas as noites, que me leve no sono, e meu neto está de antemão perdoado se meu desejo não for atendido e ele me estrangular aos noventa...eu compreenderei....

                                                                                                  


Savoir faire

 

(pour le concours dix mots 2013)


Il était un type ordinaire qui avait rencontré une fille unique.
Comme un vieil habitué il s’est approché de la belle et
petit a petit il avait conquis sa confiance, en faisant semblant de vouloir la protéger de la chaleur, du bruit, de la poussière des rues.
Un jour suit l’autre et à un certain coucher de soleil
il a murmuré des douces paroles. Chaque mot soigneusement choisi.
Il a même osé chanter une mélodie d’amour.
Il l’a emmenée à un atelier de peinture et il a fait semblant d’être un grand artiste.
Parmi les tableaux il avait placé un bouquet de roses parfumées.
Il lui a offert une coupe de champagne et des délicatesses.
Et voilà !
Il est finalement vis-à-vis d’ elle.
C’est prêt le scénario de la séduction.
Comme d’habitude il sortirait à l’aube sans dire au moins au revoir - une femme de plus abandonnée sur un lit quelconque.
Mais il est resté là immobile sans même l’embrasser, pendant qu’elle se moquait de lui, et au dernier moment il s’est rendu compte que cette fois c’était lui qui vivait un coup de foudre.


Viúvas de má memória.



Loira e linda, Carla ficou décadas amarrada àquele alcoólatra – traste inútil, era como ela se referia e ele - embora dormindo em quartos separados. O coitado, afinal de contas, não tinha outra família a não ser ela e os filhos, não tinha condição de se manter em nenhum emprego, por causa da bebida, então ela ficava com ele, garantindo comida, o contato com os filhos e os remédios dos quais ele precisasse, na esperança de que, um dia, o traste, ao menos pelos filhos, criasse ânimo para se tratar. Nada. O que aconteceu é que o traste ficou com câncer, e o trabalho de Carla aumentou – tinha de voltar para casa e cuidar da comida especial, da fisioterapia, das consultas freqüentes ao hospital; depois vieram as internações, cirurgias e o estágio terminal lento e doloroso, ao menos o infeliz tinha o consolo de ver os filhos, e, nos últimos meses, estava sempre sóbrio.
Ela não via a hora, dizia, de se ver livre do traste e poder, enfim, sair à procura de um homem decente e reconstruir a própria vida.
Para minha surpresa, depois do funeral, Carla apareceu toda chorosa, inconsolável com a perda do ‘amado’, homem ‘tão bom’.
Mordi a língua. Será que minha memória estava assim tão ruim?
Que nada. Outras colegas confirmavam minhas lembranças. O traste, depois de morto, virara o amado.
Dei corda. Comecei a perguntar: e agora, vamos sair para dançar e arrumar um namorado?
Que nada, depois daquele marido tão bom, não quero saber de outro, não.
Bom?
E como, homem bom tava ali, sempre alegre, sempre prestativo. A gente chegava e lá vinha ele sorrindo, contando piada, brincando com as crianças. Festas de família, churrascos aos domingos, eram uma alegria só. Agora a casa está vazia e silenciosa que dá até dó. E descrevia-se como uma mulher de sorte, por ter tido um marido assim tão generoso, de tão grande coração, outro assim ela não ia achar, não, que sorte grande não sai duas vezes pra ninguém, não.
Pasma, eu engolia em seco.
Lembrei-me de Rute.
Rute tinha um marido realmente bom, mas ela aporrinhava o pobre homem o tempo todo. Mulher chata estava ali. Um dia o marido adoeceu, ficou com câncer, e Rute teve de acompanhar o tratamento, o que fez com a maior má vontade, dizendo que não via a hora daquela via crucis acabar para ela poder retomar sua vida e tomar outro rumo, quem sabe arrumar um emprego, viajar – que ela adorava viajar e ele, não – talvez conhecesse um homem melhor, que a compreendesse, porque aquele, caladão, não gostava de conversar.
Pois foi o marido morrer e Rute debulhar-se em lágrimas de saudades. Viajar – como? Sem ele? Que graça teria? Sair para passear? Nem pensar. Era viúva e sua vida estava acabada. Ai, que falta lhe fazia o Valdemar.
E a turma, indiferente, a deixava chorar sozinha e mal dava papo. Afinal, todas nos lembrávamos do modo como ela tratava o pobre marido doente.
Remorso ou má memória?
Melhor não pensar muito no assunto, que, como diz um psicólogo amigo meu, não adianta nada ficar jogando xadrez com a vida, pois ela sempre nos surpreende com algum lance inesperado.






Fiquei sem ação quando Rute começou a chorar: ah, que saudades do marido!
Nova na turma, eu fizera amizade com Amanda e fiquei surpresa com a indiferença dela – e de todas as outras. A própria professora afastou Rute do recinto com certa frieza, e retornou para dar aula sem comentar o ocorrido.
Ao sair, comentei com Amanda que Rute deveria estar se sentindo muito sozinha. E ela:
- Você é nova aqui, e não lembra quando ela falava do marido doente, quase socando a própria cabeça: eu não agüento mais, não agüento mais, queria que isto acabasse logo, não suporto mais tomar conta daquele homem!

Acompanhei mais de perto a sina de Cléo. Durante anos, Cléo reclamara da desditosa sina de mulher de alcoólatra. Loira e linda, eu não entendia o porque de ela continuar com o tal traste bêbedo inútil, como ela o chamava. Ah, o coitado não tem mais ninguém no mundo, é órfão, e os filhos ficariam sem contato com o pai, e, dos males o menor, era preferível que o coitado tivesse onde comer e onde dormir e pudesse ter a presença dos filhos para dar-lhe, se ele quisesse, o estimulo para deixar o vício, que ela, para todos os fins, não era mais esposa, dormia em outro quarto, saia com outras pessoas e vivia, o melhor que podia, sua própria vida. Quando ele ficou com câncer, ela dizia que seu sofrimento estava para terminar, que teria após a morte dele tempo para dançar, sair com as amigas, passear, curtir a vida. Depois do falecimento, contudo, ela vive a suspirar pelos cantos. Agora sobra dinheiro, sobra tempo, mas... as festas não são as mesmas sem ele, que homem bom estava ali, sempre alegre, risonho, sempre com uma palavra amiga... Passear? Sem ele não tem graça. Ah, que saudades!
Relembrando meu amigo psicólogo, o problema do alcoólatra é a mulher, que alimenta seu vício desde o café da manhã, com palavras estimulantes como ‘já vai pra rua beber, seu traste!’ e vive para ser vítima, perdendo o rumo quando o companheiro morre.

                                                                                                  


Trancafiado



Vivia eu em uma cidade penitenciária.
Meu castigo era viver na região do bafo – sem sol, sem chuva, sem vento – só bafo quente. Quando abre o sol a gente cozinha; quando chove, a gente vira anfíbio no pântano em que se transformam as ruas; quando venta, caem os telhados; e sempre há raios, não importa o tempo que faça. Nunca esfria, sempre esquenta, daí o bafo. A pessoa tenta respirar e não  consegue – só vem o bafo.
Sendo uma prisão domiciliar, não era tão má – era bom para a minha alergia que não houvesse ar condicionado por aqui.
Qual o meu crime? Desconheço, visto estar aqui desde que nasci. Meus pais, condenados como eu, sempre me disseram que eu devia tirar da cabeça minhas idéias estranhas de sucesso e amor. Diziam:
- Isso não é para você.
Não me lembro de manifestar um desejo ou esperança que não recebesse como resposta:
- Isso não é para você.
Pelo jeito como me olhavam, sei que o castigo deles era eu.
Quando eu voltava da escola, falava para meu pai:
- Hoje eu aprendi algo bem legal, quer ver?
Meu pai respondia que ele aprendera latim.
- Que pena que hoje não mais se ensine latim na escola. Agora vá brincar, papai precisa trabalhar.
Quando eu voltava da escola, falava para minha mãe:
- Hoje eu aprendi algo bem legal, quer ver?
Minha mãe respondia que fizera pastéis para o jantar:
- Quer um?
Quando eu ia para a escola, dizia para minha professora:
- Olha o que eu descobri, bem legal.
Ela respondia:
- Há muitas coisas legais, vamos ouvir os seus amigos primeiro, vá sentar.

Quando eu ia para a escola, dizia para cada um de meus colegas:
- Vai lá em casa brincar comigo, eu tenho um gato.
Cada um deles respondia:
- Eu brinco em casa com meus irmãos.
Eu não tinha irmãos.

Assim minha língua congelou. Se eu abria a boca, era para tossir. Eu engasgava a toda hora.


O tempo foi passando e fui crescendo. A princípio tinha grande desejo de morrer, pois,  a princípio pensei que a morte fosse alguma esperança de felicidade, coisa que ninguém sabe ao certo o que é, alguns dizem que é sonho, outros que é algo maravilhoso que acontece após a morte. Quero dizer, eu imaginava que depois que você morre, alguém vai chegar perto de você, abraçar, disser frases carinhosas, olhar nos seus olhos e realmente escutar o que você tem a dizer.
Eu queria então ir para o tal paraíso, para a casa do Pai, onde há muitas moradas, e onde todos são felizes, como dizia o padre da prisão. Eu sei agora que o padre é, também ele, prisioneiro de suas crenças.
Aí comecei a sonhar com o outro lado da vida, porque sonhar é um dom que eu tenho, eu sonho quando os demais dormem, e percebi que aqui é como lá. Fui me convencendo que, lá como aqui, serei o mesmo, sem família aqui, sem família lá, sem amigos aqui, sem amigos lá, para sempre um condenado. E perdi o gosto por morrer.
Comecei a prestar atenção nas coisas a meu redor.
As provações, até ontem, variavam no decorrer do dia.
Há um presídio chamado Trabalho. Ali as pessoas perdem seu direito ao lazer, à boa alimentação e à aposentadoria. No trabalho, as pessoas não se olham, não se falam, não se tocam – a não ser para perguntar se você já fez a sua parte do trabalho. Ninguém entende muito bem o que está fazendo, porque cada um só recebe instruções relativas à sua pequena porção do trabalho, então se alguém telefona e pergunta se tem isto ou aquilo, ninguém sabe responder, a não ser que a pessoa pergunte especificamente sobre o que você faz; e também não sabemos dizer onde ou quando encontrar esta ou aquela pessoa ou departamento, pois, é claro, estas informações, nós não temos, cada um conhece apenas o seu setor. A telefonista nunca repassa os telefonemas de nossos familiares, pois não sabe os nossos nomes – somos apenas condenados.
Quando eu cheguei para trabalhar aí na primeira vez, as pessoas colocavam papéis sobre a minha mesa sem falar nada, e depois retornavam e olhavam para ver se eu havia assinado os ditos papéis. Eu dizia:
- Bom dia, como é o seu nome? - Ninguém respondia. Eu continuava:
- Se vamos trabalhar juntos, seria bom sabermos os nossos nomes, eu sou ***.
De nada adiantava, eles me olhavam como se olhassem para alguém que falasse sânscrito.
Se eu perguntava: quem estava na sala antes de mim? Sicrano ou Fulano? Alguém me respondia, por exemplo (não posso dizer quem, pois eles não me haviam dito seus nomes):
 - Havia uma pessoa aqui, um homem, mas não sei quem era.
Assim vai.
Se algum cliente perde algo, um documento, por exemplo, há uma caixa em que são colocados os papéis perdidos. Se alguém telefona e pergunta pelo documento que perdeu, recebe como resposta:
- Não sei, senhor, temos alguns papéis dentro de uma caixa, o senhor que vir olhar?
Mas quando a pessoa vem olhar, os supervisores dizem:
- Como vamos saber se o senhor é mesmo quem diz ser? Não, o senhor não pode olhar na caixa, precisa me dizer o seu nome primeiro.
O cliente fica bravo e diz:
- Porque não me fizeram esta pergunta pelo telefone?
Mas ninguém sabe responder, e ficam chateados porque o público é tão sem educação com os funcionários.
O público é o castigo dos funcionários, como os funcionários são o castigo do público, mas eles demoram para perceber este detalhe.
A mesma coisa acontece com os remédios – alguns podem ser retirados, outros não, alguns são acrescentados à farmácia, outros são excluídos, mas as pessoas que trabalham nos estoques nunca tem a mesma informação que as pessoas que recebem as receitas, nem as pessoas que entregam os remédios, de forma que, todos os dias, há pessoas com receitas de remédios que não existem mais, e pessoas não podendo retirar remédios que não estão no estoque, e há sempre médicos discutindo com farmacêuticos, e ninguém nunca pode resolver nada, pois a pessoa que compra os remédios é um burocrata saudável que não entende nada do assunto.
Há um livro de regras sobre a mesa – as regras variam de um dia para o outro, mas ninguém avisa. Consultar o livro também não adianta muito, porque a pessoa encarregada de atualizar o livro de regras, não é avisada quando as regras mudam, pois ela não usa as regras, e sim nós, assim, porque avisar a pessoa que escreve o livro de regras? Parece lógico, não? Algumas regras estão na internet, mas não podem ser impressas e não tenho acesso a computador – a pessoa que tem acesso ao computador não segue as regras, e não vai parar o seu trabalho para que outros leiam regras que não dizem respeito ao trabalho dela.
Nos dias feriados, é quando os desencontros são maiores – os chefes esquecem de avisar os funcionários que o feriado foi decretado, e quando lembram de avisar os funcionários, não avisam aos clientes, de maneira que sempre tem gente na frente do prédio nos dias em que o prédio está fechado. Certa vez, minha chefe disse: Estou de férias – mas estava trabalhando. De outra vez, ela não foi ao trabalho,  sem avisar ninguém, para que pensassem que ela estava trabalhando quando na verdade estava gozando os dias de férias em que havia trabalhado, e é claro que foi punida por isto.
Certo dia, reformaram o prédio em que trabalho. Quando eu cheguei para trabalhar, a porta estava fechada, mas meu colega estava lá dentro. Ele não podia sair, eu não podia entrar. O pedreiro falou que fechou a parede como lhe haviam pedido, este era o serviço dele. E insistiam em que eu entrasse, embora não houvesse porta nem janelas. Meu colega estava contente – pelo menos, disse ele, haviam deixado o ar condicionado lá dentro.
Há apenas vinte salas, para duzentos funcionários. Um entra, outro sai, todo mundo aparece para tomar um cafezinho a qualquer hora, pois a sala do café é a única bastante grande para nos conter a todos.
- Ei – ordenou o chefe – vocês não podem ficar aqui todos ao mesmo tempo, pois as pessoas vão pensar que há muita gente sem trabalhar, então só fica aqui quem couber na sala, um de cada vez.
Assim, sempre há vinte pessoas se ocupando de alguma coisa por ali. Quando uma pessoa nova chega, quem está dentro sai. Simples assim. E a gente pode então ficar circulando pela praia, pela praça, só não pode parar em canto nenhum, para não parecer que está à toa.
Um dia, cheguei na sala em que trabalho e havia uma tomada aberta, com os fios expostos. Chamei, um a um, todos os que trabalhavam por ali e avisei: é preciso chamar alguém da manutenção pra consertar esta tomada, uma criança pode se machucar aqui. Ninguém podia chamar o eletricista, pois ninguém tinha esta função. Nem mesmo a chefe da manutenção, pois ela só podia receber ordens do diretor, e o diretor não havia pedido para chamar o eletricista. Ora, o eletricista passou pela minha sala e me cumprimentou. Eu lhe disse: Como faço para poder consertar esta tomada? Ele me respondeu: Você não faz, faço eu. Abaixou-se, consertou a tomada, e disse: Porque não me mandou chamar antes? É um perigo, esta tomada aberta...
De outra feita, acabou a luz. Eu saí da sala e fui até a sala do chefe. Ele me disse:
- Hoje você brinca de Batman. Vai trabalhar na caverna.
E ficou muito bravo porque eu comecei a atender as pessoas no pátio, onde havia claridade e eu podia enxergar o que escrevia. Eu, a insubordinada, criando confusão.
Um dia choveu muito, muito. A água subiu a quase um metro. Gotas escorriam pelos lustres, até o segundo piso inundou; não havia eletricidade, as escadas estavam escorregadias. Os guardas começaram a colocar barricadas à frente das escadas, pois as pessoas idosas queriam ser atendidas assim mesmo, e os velhinhos começaram a pular sobre os bancos, com perigo de cair. Um dos guardas, ao tentar segurar os desobedientes, levou guardachuvadas. Nós saímos às pressas do prédio. E nem podíamos ir embora, pois até o estacionamento estava debaixo d’água e os motores dos carros, encharcados, não funcionavam. Mesmo assim, todos nós assinamos o ponto, pois ninguém foi dispensado. Ninguém recebeu autorização de fechar o local.
Como estou cumprindo pena, não tenho amigos, somente companheiros de castigo.

Por exemplo,  a vizinha de baixo, enclausurada viva com duas crianças pequenas e dois cachorros, e que, todas as manhãs, está condenada a lavar roupa, abrir a grade da janela, pendurar a roupa lavada no varal, fazer faxina, banhar todo mundo, cozinhar, passar e, no dia seguinte, recomeçar. Ela grita constantemente que é uma infeliz sem sorte na vida e sem direito a fazer nada do que gosta, e que ninguém a ouve (esta parte, suponho ser verdadeira.)
Seu marido, condenado às galés, sai de casa toda madrugada no mesmo horário que eu – às vezes ele não sai, entra, voltando do turno; nessas ocasiões eu pergunto: cansado? E ele me diz: sim, mas preciso dar de comer às crianças, minhas queridas filhas. Boa gente, o rapaz, condenado a conviver com uma mulher infeliz.
O vizinho do lado, sempre risonho, deve estar cumprindo pena por furto. Diariamente rouba o meu jornal com a maior cara de pau, na minha frente, a cumprimentar-me sorrindo – como vou provar que é o meu jornal que está na mão dele? Simples, ele não assina jornal, mas como é que eu vou provar uma coisa dessas?

O vizinho da frente constrói e reconstrói sua casa – faz sempre muito barulho e a polícia sempre aparece para multar, advertir ou guinchar  o carro que ele espreme como pode entre as garagens existentes. De qualquer modo, ele mora entre os escombros da reforma que nunca interrompe. (certa vez um sábio me disse: reformas nunca terminam, elas são interrompidas em algum ponto) Ele é castigado por querer o melhor para si.
Meus  companheiros se reúnem de tempos em tempos, para fazer coisas em comum, como escrever ou ler ou tomar lanche ou ir ao cinema, mas ninguém realmente fala de seus pensamentos, sentimentos ou projetos, pois isso seria violar a condicional, embora todos estejam condenados a prisão perpétua.
É curioso... de vez em quando, um envia para o outro mensagens eletrônicas afirmando : jamais me esquecerei de você, ou você é muito especial para mim, e sempre com o pedido: retorne este correio para mim, e a gente repassa e retorna, por puro costume. Seria realmente constrangedor se as mensagens fossem sinceras: que se dane, eu não estou  nem aí para você.
Olhamos uns para os outros desconfiados, certos de que o outro mente; imaginamos quais serão suas perversões e em que momento seremos vistos como a próxima presa.
É curioso, uma vez por ano, as pessoas se encontram para confraternizações de Natal ou de aniversário, tiram fotos próximas umas das outras, sorrindo, trocam cartões com os dizeres: amizade eterna ou algo equivalente.
Um dia alguém me explicou: é um treino. Quando o período de prisão acabar, as pessoas precisam saber como se comportar lá fora, no mundo real, quando encontrarem familiares e amigos de verdade.
A esperança brilhou em meu coração: então existem familiares e amigos de verdade?
Alguns prisioneiros conseguem construir arremedos de relacionamentos neste deserto onde vivemos. Ouvem as mesmas músicas, lêem os mesmos livros, riem de algumas palavras que para eles têm algum sentido que me escapa, alguns partilham histórias pessoais. As pessoas que se ajuntam têm memórias de infância em comum, afinidades, interesses compartilhados.
Não eu. Eu sou original.
Por exemplo, eu sonho colorido. Por exemplo, eu filosofo.
Por isto eu fui colocado na solitária. Para que eu não provoque uma rebelião, dizem os carrascos.
Como eu poderia organizar uma rebelião se ninguém me ouve?
Eles, no entanto, são precavidos.
A solitária é uma pele fina, que me encerra em um corpo dotado de olhos que só enxergam sete cores e de ouvidos que só ouvem alguns poucos sons.
Nele não posso voar.








Não foi, mas poderia ter sido.

(Ser ou não ser – a questão vai além.)


Lá estava a minha amiga Lolita, indignada, defendendo com tanta veemência a sua inocência, que, por esta mesma veemência, tornava-se suspeita.

Sua revolta quanto às acusações e fofocas infundadas atingia o marido, os filhos, os vizinhos, o psicólogo, o sacerdote, só escapava o outro, tão vítima quanto ela. E enquanto ela despejava sobre mim os fatos progressivamente mais absurdos, mais virulentos, mais inverossímeis, mais claro se tornava o quanto ela se importava com o outro e o quanto ela desprezava o marido.

O fato é que as pessoas desenvolvem, sem se darem conta, os mais estranhos relacionamentos dentro de suas mentes.
E Lolita me fez lembrar de três episódios insólitos em minha vida, que me esclareceram, ou antes, me confundiram, sobre o funcionamento do cérebro humano.
Convido o leitor a me acompanhar e procurar por fatos semelhantes em sua experiência pessoal.

O primeiro deles diz respeito a um colega de turma, Carlos, que eu encontrei nas férias, por acaso, ao sair para andar pela praia, em uma manhã de verão. Ora, Carlos estava hospedado no hotel ao lado, saíra para caminhar cedo, nos vimos, nos cumprimentamos e resolvemos caminhar juntos, conversando, até a hora do almoço, e a partir daí cada um retornou para seu hotel e para sua roteiro de férias. Bem, eu retornei. Ele, aparentemente, mergulhou em devaneios. O fato é que, três meses depois, recebi um telefonema da noiva dele, esclarecendo que os dois iam se casar no dia seguinte e ela queria saber se eu ia ficar bem com isso, já que o noivo estava relutante em casar-se, preocupado comigo, que estava apaixonada por ele. Bem, respondi, surpresa, há quatro anos namoro um rapaz que você também conhece, por quem sou apaixonada, de onde saiu esta sua idéia estranha? E ela então me conta sobre o tal passeio na praia, do qual eu já nem me lembrava...Eu nem entrei no mérito da questão, percebendo que seria inútil negar a tal fantasia erótica do rapaz. Respondi a ela que ela é quem iria casar-se, e ela é quem deveria saber se era ou não conveniente casar-se com aquele noivo em particular, já que quem tinha duvidas era ela. E que o assunto não me dizia respeito.

O segundo aconteceu quando eu morava em outra cidade, e uma amiga minha me auxiliou em minhas primeiras rondas por emprego, moradia etc...
Sendo esta amiga casada, foi mais ou menos natural que o marido dela, Olavo, se tornasse também meu protetor, oferecendo-me carona para irmos juntos aos mesmo locais e depois acompanhando-me a casa, em algumas ocasiões em que nos prolongássemos em alguns locais até à noite. Ora, aconteceu de nós dois, eu e ele, participarmos de alguns eventos culturais da prefeitura, não apenas nós dois, mas um grupo bastante grande de amigos em comum. Ela, como não gostasse desta atividade, e preferisse ficar em casa estudando para sua defesa de tese, distanciou-se do grupo. Nem eu nem ele perceberíamos o rumo que estavam tomando as coisas, não fosse pela Bernadete, recém chegada à cidade, que, em um almoço de confraternização, se dirigiu a mim como se eu fosse a esposa dele. Respondi com naturalidade que eu não era a esposa, e ela retrucou automaticamente: como não, se vocês sempre aparecem juntos? Esclareci que éramos amigos e vínhamos juntos por comodidade, já que fazíamos o mesmo caminho. E então me dei conta do estranho silêncio que se fizera à mesa, e do clima tenso no ambiente, que se desfez com alívio após a minha resposta. No entanto, nos olhos dele, li uma espécie de pânico, e, nos olhos de Bernadete, uma resignação de quem não estava de todo convencida. O fato é que me dei conta de que, sem que nos houvéssemos apercebido, estávamos nos enamorando um do outro, e, após este incidente, não conseguimos mais ficar juntos sem nos sentirmos constrangidos. E assim morreu um romance que nunca chegou a ocorrer. Imagino que a cidade pense que nós éramos amantes e nada do que disséssemos iria mudar a opinião pública; sorte minha ser minha amiga tão caseira e tão avessa a mexericos.

E o terceiro, doloroso, aconteceu por conta de outro marido de outra amiga que, assim do nada, apareceu em casa cortando relações e exigindo que eu nunca mais aparecesse na frente dela. Recusou explicar-se, como se eu soubesse muito bem do que ela estava falando. Ofendida, curiosa, permaneci, no entanto quieta no meu canto aguardando que a situação se esclarecesse, e, como nada mais se seguiu a esta explosão de cólera, continuei minha vidinha em meu ritmo normal até que o acaso me colocou no caminho o marido dela e eu o interpelei. Vi que ficou encabulado ao me ver, e, ante a pergunta direta, pareceu até aliviado em poder confessar o que fizera. Tratava-se do seguinte. O rapaz arrumara uma amante, a quem era muito devotado, de quem não pretendia se separar, por quem estava perdidamente apaixonado, e, tendo sido surpreendido pela esposa, por qualquer coisa esquecida em algum bolso, viu-se na iminência de ter seu casamento destruído a não ser que dissesse o nome da mulher e prometesse nunca mais procurar por ela, e ele, então, não teve duvidas, disse o meu nome, já que nos dávamos muito bem, havíamos mesmo estudado na mesma faculdade, nos víamos com certa freqüência, e a mentira tinha grande chance de passar por verdade. Que isto destruísse uma amizade de anos, não lhe doeu na consciência senão muito tempo depois. E agora, dissesse eu o que dissesse  para minha amiga, o estrago já estaria feito, pois sempre ficaria a mágoa de ter sido ela, injusta, e eu, injustiçada.


O fato é que, nesses casos de traição ou desconfiança, certos fatores ficam redundantes e roubam a cena, por assim dizer.
A ninguém interessa saber se Capitu era ou não culpada, ante o comportamento obsessivo de Bentinho.
A ninguém interessaria a minha inocência, e a de Olavo, tão patentes em nosso comportamento estava o carinho que sentíamos um pelo outro.
Para a noiva de Carlos tampouco interessava meu não envolvimento com ele, tão evidente era a falta de amor próprio dela.
Assim também, para minha amiga Lolita, que eu conheço muitíssimo bem, contava o que acontecia aos olhos de todos: o envolvimento progressivo e emocional dela com o não amante, o que não foi mas poderia ter sido, e a sociedade se comporta como aquele versículo bíblico que diz que, aquele que pensou no pecado, mesmo que nada tenha feito realmente, em seu coração já pecou.
Acredito eu que, se existe um Deus, e Ele nos fez à sua imagem e semelhança, seria justo que Ele nos perdoasse e compreendesse nossos esforços em resistir às tentações deste mundo que Ele criou e no qual colocou, sem opção, suas criaturas.
Acredito, sim, que Deus nos conhece bem e aprecia nossos esforços para sermos bons.
É a sociedade que não quer admitir que as tentações existam e que haja pessoas capazes de a elas resistir.