24 de fev. de 2014

Reflexões sobre um tema de Kipling

Kipling tem razão em seu poema: ‘não se deixe iludir pela derrota nem pelo sucesso, estes dois impostores’. A vida está além do fracasso. A vida está além do sucesso. A vida acontece em um tempo for a do tempo. É o eterno retorno de Nietzsche. É o tempo do sonho dos aborígenes. É o estado meditative de um Buda. Vá a um lugar selvage, sente-se no interior de um bosque, fique lá bem quieto ouvindo os pássaros, observe as águas de um lago, sinta-se parte da natureza: isto é a vida.
Meu curso de ingles me introduziu aos discursos de famosos nas formaturas de grandes universidades; excelente recurso para acostumar os ouvidos às frases complexas do idioma, for a do context literário. Primeiro, Steve Jobs, a seguir Ophra e Rowlings. Curiosamente, todas estas pessoas falaram sobre o fracasso.
Reformularam o conceito de fracasso para aprendizado, oportunidade para iniciar um novo caminho, um sinal enviado pela vida avisando que é hora de mudar. O foco, no entanto, continuava a ser o sucesso, postergado para um pouco mais adiante, enquanto a pessoa amadurece e fica pronto para receber o premio pelo seu trabalho.
O fracasso, na compreensão popular,  é, apesar de todos os esfroços,  não atingir o alvo; é morrer na praia, como diz o povo.
Afirmava Jung que, no destino de cada homem, há um fato desconhecido, imprevisível, além de toda lógica, perturbador.
Minha geração, que viveu a década perdida do século vinte, conhece bem o assunto. Depois de anos de estudo, esforço, dedicação ( e esperanças malogradas), muitos iniciaram novos empreendimentos, muitos mudaram de profissão – novos anos de aprendizado, estudo, esforço, dedicação. Seguimos à risca a cartilha. Persistência e coragem não nos faltou. Nem desafios, sobretudo os econômicos. Se lucramos, foi espiritualmente. Ficamos mais simples, mais humildes, mais tolerantes, mais compassivos.
Como não valorizar o lazer familiar se o dinheiro era curto? Como não perceber que as melhores coisas do universo são gratuitas, se não havia outra opção? Lá íamos nós com os filhos, para a praia, a tomar sol, pelos jardins públicos, admirando os pássaros…lazer gratuito. Como não passar bastante tempo brincando com as crianças, de preferência com jogos verbais, atividades físicas, brincadeiras tradicionais, canções e arte com sucata, se precisávamos poupar cada moeda para evitar as dívidas? E, como não queríamos crianças deprimidas e ansiosas, sorríamos e assumíamos o discurso da coragem: o amor é o mais importante, unidos superaremos todas as crises, somos afortunados se temos o necessário. (na verdade, chorávamos no banheiro)
A guerra econômica destruiu muitas carreiras, talentos e sonhos. Minha geração ainda trabalha duro, além dos sessenta anos, sem conseguir enriquecer, sem usufruir os frutos de seus esforços, porque investimos – alguns ainda estão investindo – tudo o que o imposto e a inflação n               ão devorava, na educação de nossos filhos.
Filhos que encontraram um mundo com mercado de trabalho promissor em áreas novas, como informática – o computador pessoal é recente – e economia estável. Filhos que têm seu talento reconhecido, que se firmam economicamente aos 20 anos e aos 30 têm um nível de vida excelente – casa, carro, parafernálias eletrônicas e aplicações rendosas no banco.  Hoje há leis de proteção ao patrimônio e o governo não pode confiscar seu dinheiro, como ocorreu no passado.
Sinto uma tristeza enorme ao ver essa geração arrogante olhar para nós, os velhos, que não conseguem se aposentar, alguns arcando com pais idosos e doentes, outros ainda pagando prestações da casa própria ou pela educação dos filhos mais novos; essa geração, dizia eu, olha para nós, os velhos, como fracassados. Para eles, não fomso ‘espertos’ o suficiente. Mesmo porque gente como eu costumava aprender no berço o que se chama ética.
Muitos de minha geração moram com os filhos, estes ‘devoradores de patrimônio’, para cuja formação porfissional canalizaram a sofrida poupança.
Esta geração que está aí não valoriza nossa experiência porque hoje tudo se goggle – verbo gogglar – desprezam os mais velhos por medirem o valor das pessoas por sua conta bancária. Não percebem, até mesmo desconsideram os noticiários, tantos ‘bem sucedidos’ e famosos, cujo mérito único consiste em praticar um esporte ou ter um corpo lindo, que se destróem pelas drogas, pela promiscuidade, pelo comportamento equivocado que leva alguns ao suicídio e até mesmo ao crime. Não percebem que aqueles que aqueles que permanecem equilibrados e felizes com a fama o seriam, mesmo sem a riqueza, por terem valores mais sólidos. Compreendo , contudo, sua avidez pelo dinheiro, pois meus filhos viveram a pobreza, que é tudo, menos romântica.
Fico triste porque meus anos de estudo e trabalho não me trouxeram o lucro almejado, a casa idealizada. Não acredito que eu seria menos humana, espiritualizada ou amorosa, se houvesse enriquecido. Do meu ponto de vista, o dinheiro não corrompe, revela. Concordo com Machado de Assis: ‘a ocasião  faz o furto, o ladrão já nasce feito’. Eu seria como Ophra, e outros tantos ricos atuantes nas causas dignificantes do mundo.
Sim, Kipling, o sucesso e o fracasso são dois impostores. O valor de um homem está em sua alma.No entanto, deste impostor, o fracasso, cujo sentido não consigo reformular, fica o sentimento bem traduzido na poesia de Drummond:
‘… mas como dói!’.

Se as cartas mentirem, vale uma ajudinha.

(em homenagem a Machado de Assis)
Corria o ano da grace de 1870, quando, em uma casa da rua da Guarda Velha, bem conhecida pelos amantes sofredores, entrou uma moça de aparência frágil e roupas elegantes.
Séria, decidida, passou pelo portão sem olhar para os lados, sem pressa nem vagar, ao contrário da freguesia habitual, parecia não esconder-se nem temer a ninguém.
A cartomante abriu a porta, estudou a visitante rapidamente, com olho profissional, e, levemente entediada, indicou-lhe onde sentar e pegou o baralho.
- Primeiro me diga o preço.
- A senhora me dê a quantia que agradar a seu coração.
- Não, isso não está certo, eu trouxe um pouco de dinheiro, mas, se achar o preço caro, desisto agora.
- São dois mil réis – a cigana escondeu a decepção; era depois das consultas, satisfeitos, que os clients mostravam-se mais generosos.  Talvez, afinal, não fosse cigana, mas usava o lenço, a saia colorida e os colares característicos, para compor o visual que ajudava na profissão.
A moça lançou-lhe um olhar agudo, quase acusador:
- Era você que deitava as cartas para a Rita?
- Que Rita?
- Minha prima Rita, esposa do Vilela, que morava lá pelos lados de Botafogo.
- Você não me disse o seu nome nem eu perguntei; muitos clients preferem assim.
- Rita foi assassinada, não soube? Há alguns meses.
- Sinto muito.
- Ela havia consultado uma cartomante, algumas semanas antes de morrer. Foi você?
- Como vou saber? Muitos clientes, como eu disse, não me dizem o nome.
- Esta cartomante errou feio, disse para minha prima que tudo estava bem, e o marido o tempo todo desconfiado do amante.
- É por isso que a menina veio hoje? Pelo amante?
- Que idéia! Sou solteira e honesta.
- Há um rapaz muito bom interessado em você – começou a cartomante, virando a primeira carta.
- Espere, primeiro me prove que diz a verdade.
- O futuro…
- Fale-me do passado, do presente.
_ ….
_ Se você acertar o passado e o presente, sei que poderei confiar no que me disser do futuro.
A cartomante, olhos baixos, retirou a segunda carta:
- A mocinha sofreu recentemente um grande desapontamento… - pausa.
A outra, calada, não descartou nem confirmou. Veio a Terceira carta:
- Vejo a seu lado uma mulher mais velha, que apóia sua atitude…
- Mais clareza, por favor! Atitude! Que atitude? Desapontamento… não consegui minhas entradas para meu lugar favorite no teatro? Meu time de futebol perdeu? Que me desapontou, família, trabalho, amigos, quem?
- Desapontamento no amor, no amor – exclamou a cigana.
- Não diga! E esta mulher mais velha, quem seria? Vizinha, parente?
- Sua irmã.
- Muito bem, eu então sofri um desapontamento amoroso e minha irmã apoiou  minha atitude, seja lá o que você queira dizer com isso, e quanto ao presente?
- Presente?
- Sim, presente, agora, depois que minha irmã secou minhas lágrimas, o que acontece?
- Neste momento… há um homem mais velho interessado em você.
- Bobagem! Mais velho! Idade de meu avô, ou apenas um dia mais velho? Quem sabe, uma hora mais velho?
- Alguns anos mais velho. – a cartomante pegou o lenço e enxugou o sour que começava a correr pela testa. Seus clientes rotineiramente eram vítimas masi dóceis.
- E o que faz esse homem mais velho?
- Tem um amor sincere por sua pessoa.
- Muito bem, agora o futuro, afinal, é pelo futuro que eu vim aqui, para que me fale do futuro.
Novo embaralhar de cartas. Nova leitura dos arcanos.
- Uma longa viagem em futuro próximo, possivelmente ainda este ano, provavelmente para um país exótico do oriente.
A garota suspirou:
- Que mais?
- Dinheiro, não muito, mas o suficiente para resolver os seus problemas financeiros…
- Tolice, sou rica, não tenho problemas financeiros. Quero a resposta ao que me trouxe aqui.
A adivinhadora embatucou. Falara de amor, de dinheiro, de viagens… o que faltava?
- Sua saúde está perfeita. Este probleminha de momento é apenas uma indisposição passageira, como o seu medico…
- Ora, por favor! A minha resposta!
- Mas, afinal, criatura de Deus, o que deseja saber?
- Tudo. Bem que o Machado avisou: é charlatanice, lembra do que aconteceu com a pobre da Rita, e possivelmente com o Camilo…
- Camilo?
- O amante. Morreu no mesmo dia, assassinados os dois pelo marido.
- Há muitas outras cartomantes aqui no Rio, muitas outras por aqui mesmo, nesta mesma rua. Certamente não é de mim que você fala. Eu sempre acerto.
- Sempre engana, isso sim! Eu nunca tive decepção amorosa nenhuma, sou muito feliz com meu vizinho e primeiro namorado, de quem estou noiva. Sou filha única, pelo que sei. E com meu pai acamado, dependendo de mim para tudo, não posso sair da cidade, quanto mais ir ao oriente… E nunca estive melhor de saúde.
A falsa cigana ergueu a voz, revirando os olhos, com gestos amplos:
- Sua descrente. Seu desdém confundiu as cartas. Seu pensamento negativo …
- Exigo meu dinheiro de volta!
- De jeito nenhum! E a hora que perdi com você?
- Eu é que perdi minha tarde. O que eu queria saber é se a editor vai aceitar os originais de meu livro!
- Livro?
- Sim, eu sou escritora, e meu amigo Marcos, um crédulo supersticioso adorável, insistiu para que eu viesse aqui, já que mal não faz…
Tanta mulher poderia ter aparecido nesta tarde, como em tantas outras, perguntando das mazelas do cotidiano, mas quis o azar que a cliente fosse uma dessas mulheres liberais, com idéias! O rosto da cartomante empalideceu, amarelou, depois arroxeou horrivelmente, quando a moça acrescentou um último insulto:
- Uma fraude, é o que você é. Incapaz de prever o future de um mosquito que seja.
- Pois eu prevejo sua morte em breve. Assassinada.
A mocinha riu, mas por pouco tempo. A cartomante pulou em sua direção, agarrou seu pescoço e a esganou.

Toc-toc!


(TOC = transtorno obssessivo compulsivo)
Você não tem idéia do que é viver com esta gente, então eu vou explicar.
Afinal, fui premiada com mãe e filha ‘contempladas’, a síndrome pulou minha geração.
Você entra na cozinha, pega um  queijo na geladeira, faz o seu sanduíche, e quando se vira para guardar o queijo, encontra sua filha esfregando vigorosamente  um produto de limpeza no exato local da porta onde você colocou suas mãos.
Eles lavam e esfregam o fogão ANTES de começar a preparar o jantar, tomam um banho demorado ANTES de ir para a praia, filtram  a água filtrada, e por aí vai.
Voltando de Singapura um dia antes de meu genro, minha filha foi tomar banho e eu lavei a cozinha e o corredor, pois havíamos ficado dez dias for a e havia, é claro, um pouco de poeira. Quando me dou conta, ela aparece com balde, esfregão, sabão, e começa a faxina. Explico que acabei de limpar o chão, e ela me responde:
- Não está bem limpo, com certeza.
Quando acaba, ela entra no banho, chega meu genro  - só ele poderia compreender a Fefe e vice-versa) e fala:
- Vou aproveitar enquanto espero a Fefe sair do banho e dar um trato nesta cozinha imunda – e, enquanto eu me pergunto se ele é míope, lá vem mais água, balde, esfregão, desinfetante…
Eles tem as casas mais limpas do planeta, as mãos mais assépticas da turma, as mesas mais organizadas do escritório, e, deprimidos, ficam sem entender porque são odiados pelos subordinados, e porque aquela promoçao tão perseguida e desejada é sistemáticamente oferecida a outro com menos competência que eles. Afinal, eles é que são capazes de encontrar aquela única teia de aranha pequenina e leve, oculta por uma trave alta no teto, pertinho do canto, onde um insetinho teimoso reconstrói a armadilha que a faxineira azarada  da firma acabou de limpar.
Não tente dialogar com eles. Não tente indicar aquele excelente psiquiatra que você conhece. Eles são perfeitos, e se a medicina atual classifica perfeição como sintoma, é a ciência que está errada e não eles.
Afinal, quem tem TOC não se sente de maneira nenhuma incomodado pelos seus exagerados e bizarros (na opinião dos outros) comportamento. Os outros é que se sentem incomodados com eles.
(ah, sim, eu fui ao psiquiatra; ele riu e me assegurou que eu sou NORMAL e, eles, definitivamente, são casos perdidos.)
Como diz o ditado: ‘os incomodados que se mudem’.