Dois ladrões em um beco
Bilu
25 de dezembro
A barca
Armação diabólica
E os deuses despencaram do Olimpo
O casamento
Uma vovó diferente
***************************************************Dois ladrões em um beco
Cenário: um beco, rua asfaltada com prédios à vista em uma das laterais.
Personagens:
Toninho – ladrão
Marcão – ladrão
Motorista – homem de meia idade
Mulher com filhos
filho
filha
Mulher sozinha
Professora
Um motorista vai entrar em seu carro, distraído, sem perceber os dois ladrões que se aproximam dele, como se fossem dois transeuntes conversando.
Toninho – Agora! Vamos!
Marcão – Assalto! Parado aí!
Toninho – Vira de costa! Mãos no capô!
Marcão – Vou pegar a grana.
Motorista – Pô, meu, não tem graça , não.
Toninho – Quieto!
Marcão – Ta aqui a carteira. Documento, cartão telefônico, dois reais, uns papíes...
Toninho – Procura cartão de crédito.
Motorista – Tenho, não.
Toninho – Marcão, olha em todos os bolsos.
Marcão – Mais papelada...
Toninho – Que tantos papéis são esses? Deixa eu ver isto aqui... são notas fiscais. Cama, sofá, fogão, geladeira... tudo parcelado. O otário gosta de pagar juros. Pega o relógio dele.
Marcão – O homem não tem relógio, não.
Toninho – Que droga! Sapatos velhos.. podia ao menos ter uns tênis de marca...
Motorista - Leva o carro, mas deixa a caixa no porta-malas comigo, por favor.
Toninho – Marcão, pega as chaves e abre o porta-malas, veja o que tem de aproveitável na tal caixa.
Marcão – Ó meu, tem um monte de convites de casamento.
Toninho – quem vai casar?
Motorista – Eu mesmo.
Toninho – Por isso tu tai cheio de dividas...
Marcão – E agora, Toninho?
Toninho – Agora pergunto eu, companheiro. Dois reais na carteira é gozação! Tem uma correntinha no pescoço, pelo menos?
Marcão – Nem correntinha, nem aliança. Como é que vai casar sem aliança?
Motorista – O preço do ouro ta lá na lua! Na minha idade, aliança é luxo, dou-me por feliz por poder comprar um fogão a prazo.
Toninho – E como é que vai ser, meu? Eu vou ficar no preju?
Motorista – Leva o carro.
Toninho – Entra aí e dirige.
Motorista – Entro, não. Leva o carro você. E me deixa a caixa com os convites.
Toninho – Entra aí e vamos até a pedreira.
Motorista – Não entro.
Marcão – Vai reagir? Quer morrer?
Motorista – Não, estou quietinho, estou colaborando, mas não entro no carro e não vou até pedreira nenhuma. A chave está com vocês. Levem o carro e pronto.
Marcão – E aí, Toninho? Apago o gajo?
Toninho – Apagar pra que? Não ganhamos nada com isso.
Marcão – Então vamos soltar o otário?
Toninho – Que jeito, meu! Pode ir embora, amigo.
Motorista – Não entendi. Por que não querem o carro?
Marcão – A gente não sabe dirigir, não.
Toninho – Se der risada, eu atiro. Vai embora logo, antes que eu mude de idéia. Toma a carteira, pega teus dois reais, que tu ta mais precisado que nós.
(o carro parte)
Marcão – E agora?
Toninho – Que zebra, meu! Se esconde, vamos esperar um pouco, deve aparecer alguém.
(pára um carro. Descem um rapaz e uma moça)
Filha – Eu volto em quinze minutos, é o tempo de conferir o gabarito com a Verinha.
(um minuto depois)
Filho – Mãe, a Lucinda esqueceu a agenda no banco de trás. Eu subo e levo pra ela.
(filho e filha atravessam a rua e entram em um prédio)
Toninho – Agora, vamos!
Marcão – Assalto, dona! Passa a bolsa pra cá.
Mulher – (sai do carro, e tem uma crise de asma que dura até o fim do assalto) – Ah!... Ah!... Ah!...
Toninho – Passa logo a bolsa!
Marcão – O relógio! A chave do carro!
Mulher – Ah!... Ah!...
Toninho – Faz assim, não madame, se não eu vou ter que atirar.
Marcão – O, Toninho, a mulher ta mal, parece até que vai morrer, nem vai precisar de tu atirar nela.
Mulher – Ah!... Ah!...
(o filho sai do prédio e corre em direção à mãe, parece não notar os assaltantes)
Filho – Mãe! O que houve, mãe? Fala comigo!
Toninho – Oh, rapazinho...
Filho – O que foi que vocês fizeram com a minha mãe?
Marcão – Não fizemos nada, não ta limpo.
Filho – Vocês assustaram minha mãe, seus idiotas!
Mulher – Ah!... Ah!...
Filho – Calma, mãezinha, calma, minha querida!
Toninho – Passa logo a grana, o relógio e o tênis também.
Filho – CALA A BOCA!
Marcão – Como é que é?
Filho – Sumam daqui. Deixem a minha mãe em paz! Se ela morrer, eu mato vocês dois! Mãezinha, calma, entra no carro.
Toninho – Primeiro passa aí a grana.
Mulher – Ah!... Ah!...
(a filha sai do prédio e por sua vez, corre para a mãe, sem dar atenção aos assaltantes)
Filha – Mãezinha, o que aconteceu?
Filho – Ela se assustou com estes dois idiotas.
Marcão – Vamos acabar logo com isso. Passa a grana aí.
Filha – Mano, é um assalto!
Filho – Um assalto?
Toninho – É, um assalto. Vai logo passando a bufunfa aí, esta correntinha no pescocinho da menina também...
Filha – É muito atrevimento, mesmo. A minha mãe morrendo e estes dois com esta bobagem de assalto. Vamos embora daqui, depressa, entra no carro, mamãe, nós vamos direto pro hospital, e vocês que se atrevam a impedir! Não ousem!
Marcão – E agora, Toninho?
Toninho – O que você acha, cabeça de melão? Atira neles de uma vez!
Filha – Era só mesmo o que faltava, atirar em uma mulher doente! Covardes!
Marcão – Tá certo, ta certo, dona...
Toninho – Vai amarelar, Marcão?
Marcão – Atira você, atira, que eu quero ver!
Toninho – Que situação, ó meu!
(indiferente aos protestos dos bandidos, a família entra no carro e vai embora)
Marcão – Eu não acredito! A mulher passa mal e a gente não leva nada!
Toninho – Aquelas duas crianças viraram duas feras...
Marcão – Tu amarelou...
Toninho – Amarelei mesmo! Nunca matei ninguém, meu! Fiquei mesmo com medo! Pensei que a tal mulher fosse cair durinha, mortinha, ali mesmo na nossa cara! E se tu quer mesmo saber, nunca matei ninguém e nem quero, Deus me livre!
Marcão – Toninho, olha ali...
Toninho – Se esconde, se esconde, vai ser agora!
(um carro se aproxima e estaciona. Uma mulher jovem e bonita abre a porta, mas permanece no carro, procurando algo no porta-luvas)
Toninho – Marcão, esta aí é gostosa, meu!
Marcão – Ixe, o que tu ta pensando, Toninho?
Toninho – Seguinte: primeiro eu, depois tu. Vê se me dá cobertura. Ei, moça! Assalto! Entra aí no carro, já, e fica quieta!
(Toninho empurra a moça para o banco de trás, entra no carro e fecha a porta. Marcão vem para a frente do palco, vigiando a rua. Do interior do carro, vem sons de gemidos, suspiros, grunhidos, protestos, tapas)
Toninho – Seja boazinha, seja boazinha. O que? O que? Marcão, caiu um pedaço da mulher! (tira metade do corpo do carro, assustado, com duas próteses mamárias nas mãos) Dona, o que é isto? Tá faltando pedaço? O que está acontecendo?
Assaltada – (coloca a cabeça para fora do carro) Nunca viu um prótese, não?
Toninho – Ai! Ai! Que horror! O que é isto?
Assaltada (agarrando as próteses de volta) – Eu tenho uma doença. Um câncer. (subitamente furiosa) Um câncer contagioso, viu? Muito, muito contagioso!
Toninho - Socorro! Eu quero sair daqui! Cadê está porta que não abre? Vai embora lgo, dona, se manda daqui!
(Toninho sai do carro, roupa desarrumada, fecha a porta do carro e até empurra a traseira do mesmo enquanto a mulher dá partida e vai embora, aos gritos)
Marcão – Que foi, Toninho?
Toninho – Meu Deus, Marcão! Estou tremendo até agora, companheiro! Que coisa horrível! Eu abri a blusa da gostosa e duas coisas moles voaram na minha cara! E a dona tinha um cicatriz horrível no lugar de peito e disse que a tal coisa era contagiosa... Eu, hein?
Marcão – contá... contá o que?
Toninho – Contagiosa. Aquilo pega, burro. Eu, hein!
Marcão – Aí tu brochou...
Toninho – Brochei mesmo, e daí?... Sem grana, sem mulher... e ainda pago mico!
Marcão – Toninho, teus bolsos estão murchos.
Toninho – E daí?
Marcão – E daí que nós batemos aquelas duas carteiras hoje de manhã, estavam aí no teu bolso, cara!
Toninho – E estão. Quer dizer, deviam estar aqui... não estão mais! Marcão, não é que eu deixei cair as carteiras no carro da dona?
Marcão – Uma dela estava cheia de verdinhas.
Toninho – NÃO! Perdi os meus dólares!
Marcão – Os nossos dólares.
Toninho – É muito azar. Isto não está acontecendo!
Marcão – É a primeira vez que sei de um assaltado levando dinheiro do assaltante.
Toninho – Foi mal.Quer saber? Mais uma. Vai ser a última tentativa da noite. Tenho de pelo menos tentar recuperar a féria do dia. Droga!
Marcão – Quieta, senão eu atiro.
Toninho – É isso aí, dona, é um assalto.
Professora – To quieta, não vou reagir, não
Toninho – Marcão, revista a dona aí.
Marcão – Nada de corretinha, um relógio de plástico, não tem anel, os bolsos estão mais vazios que meu estomago... você não está com fome, Toninho?
Toninho – A bolsa.
Marcão – Que bolsa?
Toninho – Ela guardou uma bolsa no porta-malas, que eu vi. Abre lá.
(Marcão pega a chave com a professora, abre o porta-malas, revista tudo)
Marcão – Tem um vale transporte ... um só ... dois vale refeição ... não tem dinheiro, não, moça? Ei ... que é isto aqui?
Toninho – Deixa eu ver... é um holerite. Que miséria é esta, criatura? E eu que pensei que ando mal de vida... tu trabalha em que?
Professora – Sou professora de literatura.
Toninho – Ah... professora... que mais tem aí, ó Marcão?
Marcão – Umas caixas cheias de livros. Um montão de livros. Usados.
Toninho – Para que tanto livro?
Professora – Eu estou recolhendo uns livros aqui e ali com os conhecidos, estou organizando uma biblioteca comunitária aqui no bairro. Na sede da Sociedade de Melhoramentos.
Marcão – A gente não pode fazer nada com estes livros velhos, não dá nem pra vender...
Toninho – Marcão, e se a gente estiver assaltando a professora dos filhos da gente?
Marcão – Será? Pô, que mal! Onde é que a professora dá aula?
Professora - Na escola aí da rua de trás, sétima e oitava séries.
Toninho – Não tem perigo, Marcão, nossos filhos inda são pequenininhos.
Marcão – Menos ruim, não é?
Toninho – A senhora não tem nenhum dinheiro, mesmo?
Professora – Pode levar o carro.
Toninho – Uma lata velha dessas? Deve dar tanto gasto de oficina que deve ficar mais barato andar de ônibus, né não?
Professora – Eu nado mesmo é de ônibus. O carro está mesmo velho demais, vive enguiçando, mas como estou carregada de livros, preciso do carrinho. (pausa) Você por acaso entende de mecânica, é?
Toninho – Sou mecânico, dona, e dos bons. Quer dizer, fui, né, aí..um dia desisti da tal da vida honesta. De trabalhar para o governo comer o dinheiro da gente em impostos, sabe como é que é?
Professora – Anote aí meu endereço. A partida do meu carro está falhando, quem sabe você pode consertar isto pra mim?
Marcão – Toninho, a gente vai assaltar a casa dela?
Toninho – Seu idiota, a casa dela deve ser pior que a nossa. Livros velhos por todo canto, neca de TV, geladeira vazia, e, depois, como é que eu posso assaltar uma pessoa que me oferece um trabalho honesto, meu?
Marcão – Toninho, estou doidão de fome. Vamos pegar os vale refeição da moça.
Toninho – Vou chamar o Chiquinho para nos buscar. A dona fica com a gente enquanto ele não chega, pra não ir na delegacia nos entregar. Depois pode ir embora. Aqui só tem um vale transporte, não dá pra dois. Aí falo pra ele trazer um rango, que até a gente chegar em casa tem chão. (saca o celular) Alô, Chiquinho, vem pegar a gente aqui no beco, que a noite não rendeu nada, meu! E traz um rango pra nós. Qualquer coisa. Sanduíche? Pode ser. Com batatinha frita e uma loirinha gelada. (para a professora) A senhora toma cerveja?
Professora – Guaraná. Peça pra mim um hambúrguer com queijo.
Toninho – Um guaraná, um hambúrguer com queijo, duas cervejas, dois cheeseburgueres e batata frita. Como? Tá de brincadeira comigo? É... sei...não tem escolha, né? Inté.
Marcão – Nem quero perguntar. O que foi agora?
Toninho – O Chico tá preso em um congestionamento, vai demorar aí uns quarenta minutos. Professora, senta aí, que esperar em pé cansa.
Professora – Posso pegar um livro? Ler ajuda o tempo a passar.
Marcão – A senhora tem cabeça para ler em uma hora dessas?
Professora - Por que não? Ajuda.
Toninho – Traz um livro pra mim, também.
Marcão – Pra mim num carece, que num sei ler, mesmo.
(a professora traz uma pilha de livros e coloca todos no chão. Sentam-se em roda)
Professora - Eu tenho aqui livros sobre todos os assuntos. Contos, poesias, roteiros de viagens... Este é um livro de arte, cheio de gravuras, você aí, Marcão, pode ir olhando r ler para isso.
(ficam todos entretidos a folhear os livros)
Toninho – Noite péssima!
Marcão – Pelo andar da carruagem, não dá mais nem para ser ladrão. Como é que um sujeito pode andar por aí sem dinheiro, sem relógio, sem celular, sem cartão de crédito, sem nada? Isto lá é vida, meu?
Toninho – A talzinha da asma devia ter alguma coisa com ela, não deu pra conferir.
Marcão – Vai ver nem tinha carteira de convenio médico na bolsa. Devia estar devendo no crediário e dando calote na escola dos filhos. Conheço o tipo. Tudo ‘aparências’. Morre mas não perde a pose.
Toninho – Será? É bem possível. Oh, dona professora, eu sei que estes livros são para as crianças carentes do bairro, mas este aqui que comecei a ler é mesmo muito interessante, deixa comigo até eu terminar de lar, prometo que devolvo quando acabar, pois, afinal, a tal da biblioteca vai ser legal pra meus filhos também, quando eles crescerem mais um bocadinho.
Marcão – Eu gosto de histórias. Quem sabe inda dá tempo para eu voltar pra escola e aprender a ler, o que você acha, Toninho?
Professora - Tem cursos de graça para alfabetização de adultos. Por que não?
Marcão – Aí eu vou poder assaltar um banco escrevendo bilhetinhos para os caixas, não vai ser demais? Vou ser um ladrão de categoria...
(a professora ri)
Toninho – Qual foi a graça?
Professora - É que estou tendo aqui umas idéias...Para mim, esta não uma noite de todo ruim.
Marcão – Não?
Toninho – Não?
Professora - Eu vou escrever uma história com as aventuras desta noite, e vocês vão ser os meus personagens. A vida fica mais fácil de levar quando a gente ri das próprias desgraças. Talvez eu chame este conto de, vamos ver... Os assaltantes do beco.
Marcão – Os assaltantes azarados do beco.
(riem)
Toninho – Não brinca! Então, esta noite, afinal, não foi um completo fracasso! Vou virar personagem de conto!
Marcão – E se a senhora escrever um roteiro para a televisão, a senhora vai ganhar o maior dinheirão e a gente aparece na telinha da TV, já pensou, Toninho? Que demais...
(continuam conversando. Cai o pano.)
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O CACHORRINHO BILU
peça infantil
Personagens:
Lili - mãe
Cegonha - carteiro
Padre
Ratinho Janjão
Bip , Bop, Bup, Beto e Bilu
( Bilu tem fios de cabelo espetados, no começo da peça. No fim, aparece com um topete bonito e charmoso)
Cenários:
Quintal - vê- se a porta da cozinha, um portão que dá para a rua e uma torneira de jardim
Jardim - vasos com flores e um chafariz
Rua - banco e os fundos de uma igreja, pode ser uma porta com um crucifixo desenhado
ATO ÚNICO
A cachorrinha Lili está dormindo. entra o carteiro cegonha, arrastando uma caixa enorme, cuja metade permanece fora do palco ( é a porta de entrada por onde saem os outros cachorrinhos)
Cegonha - Encomenda para a Dona Lili.
Lili - ( bocejando) Uah! Encomenda para mim? Até que enfim! Até que enfim! Estou tão curiosa! Abra logo a caixa.
Cegonha - Primeiro assine aqui.
Lili - ( molha a patinha na tigela de água, passa - a no chão e coloca sua “impressão digital” num papel, de modo que as crianças possam ver a marca de sua patinha nele, sua “assinatura”) Pronto. Assinei. Abra! Abra! Abra! Abra! Não agüento de curiosidade!
Cegonha - Aqui está a sua primeira ninhada, Dona Lili. ( abre a caixa e os cachorrinhos vão saindo à medida que ele cita seus nomes) Bip
Lili - Ah! Que doçura!
Bip - Oi, mamãe
Cegonha - Bop
Lili - Ah! Que amor!
Bop - Oi, mãe
Cegonha - Bup
Lili - Ah! Que fofura!
Bup - Oi, mamãe
Cegonha - Beto
Lili - Ah! Que gracinha!
Beto - Mãe, seu filhote favorito chegou.
Cegonha - Bilu
Lili - Ah! ( sua expressão passa de alegria para espanto ou desgosto)
Bilu - Oi, mãezinha. ( tropeça em suas próprias pernas e se estatela no chão)
Bip, Bop, Bup e Beto - Ah! Ah! Ah! Ah! O Cabelo Espetado levou um tombão.
( a Cegonha retira - se. Lili acaricia os cabelos de Bilu, tentando abaixá - los, sem sucesso)
Lili - Parece que esses fiozinhos rebeldes não tem mesmo jeito. Venham, filhinhos. Venham conhecer o nosso lar. Aqui tem uma almofadinha para cada um de vocês.
( vira um balaio no chão. Caem cinco almofadinhas, uma é cinza, as outras são vermelhas, ou com estampas coloridas e alegres. Bilu pega uma das almofadas bonitas. Cada cachorrinho enrosca - se em sua almofadinha como se fosse dormir. O cachorrinho que pegou a almofada cinza vai até Bilu, puxa a sua almofada e derruba - o ao chão, dizendo : - Esta é minha.)
Bilu - Mamãe, ele pegou minha almofada.
Lili - Fique com esta, Bilu ( entrega - lhe a almofada cinza)
Bilu - Mas, mamãe, a minha era aquela.
Lili - Aqui é o canto da comida. Tem um pratinho para cada um de vocês. ( pega os cinco pratinhos, quatro coloridos e um preto. Os cachorrinhos ficam empurrando Bilu para trás e ele fica com o prato preto)
Lili - E aqui tem aguinha fresca para vocês. ( Lili abre a torneira e ouve - se barulho de água. Os cachorrinhos formam fila e fingem beber, Bilu é sempre empurrado para o fim da fila)
Bilu - Mamãe, eles estão me empurrando.( de novo tropeça em suas próprias pernas e cai)
Bip - O descabelado caiu.
Bop - Desastrado.
Todos - ( riem)
( Lili puxa Bilu pelo rabo para colocá - lo em pé)
Lili - Por que não olha para onde anda? Preste mais atenção! Meus filhinhos, vamos passear no jardim.
( começam a andar pelo palco, Lili na frente, os filhotes atrás, sempre empurrando Bilu para o fim. Enquanto isso, crianças vestidas de pássaros ou borboletas entram com o cenário, afastam os outros objetos para o fundo do palco e colocam uma enorme borboleta colorida no rabo de Bip)
Lili ( canta esta ou outra música bem alegre, fazendo gestos que os filhotes imitam:) “Vou pintar um arco - íris de energia / para deixar o mundo cheio de alegria / se está feio ou dividido / vai ficar mais colorido / o que vale nesta vida é ser feliz”
Bip - Olhem que lindo laço de fita eu arrumei! ( desfila pelo palco, todo vaidoso)
( neste momento passa pelo palco, de ponta a ponta, um ratinho de corda, ou uma lagarta mede - palmo e papel crepom, com ruído adequado, e Bop fareja atrás do bichinho até que o mesmo saia de cena)
Beto - Esta flor é tão cheirosa!
Bilu - Deixa eu cheirar também.
Bup - Primeiro eu! ( empurra Bilu)
( Bilu procura outra flor, enfia o focinho nela, ouve - se o zumbido de uma abelha)
Bilu - Cáim! Cáim! Cáim! Meu focinho! Ai, que dor!
( Bilu corre para o chafariz, lava o focinho, pára, olha assustado para a água)
Bilu - Quem é esse aí?
Lili - É você. É seu reflexo na água .
Bilu - Eu sou feio assim?
Bip, Bop, Bup - Feioso! Feioso! Feioso!
Beto - Calem a Boca, deixem ele em paz!
(Bip, Bop, Bup e Beto saem a rolar pelo chão, a brigar, no canto direito do palco.)
Lili - Ora, filhinho, beleza não é tudo na vida.
( Bilu retira - se para o canto esquerdo do palco e enrosca - se em sua almofadinha, triste)
Bilu - Eu sou feio. Eu sou tão feio. Isto não é justo. Por que só eu sou feio?
( Lili apanha uma vassoura e começa a trabalhar. Os outros filhotes formam roda e brincam)
Beto - Um
Bip - Pizza de atum
Beto - Dois
Bop - Feijão com arroz
Beto - Três
Bup - Perdeu a vez
Beto - Quatro
Bip - Cato no prato
Beto - Cinco
Bop - Bico de pinto
Beto - Seis
Bup - Chegou um freguês
Beto - Sete
Bip - Canivete
Beto - Oito
Bop - Comi biscoito
Beto - Nove
Bup - Não chove
Beto - Dez
Bip - Já enjoei desta brincadeira. Vamos brincar de outra coisa? De Siga o Mestre?
( Bilu olha na direção dos irmão, curioso)
Bop e Bup - Vamos
Beto - Vou dormir. Estou com sono.
Bip - Fica, Beto
Bop - Brinca com a gente
Beto - Não , vou dormir
Bip - Preguiçoso
Bup - Vamos escolher quem vai ser o mestre. ( vai cantando e indicando os outros, à medida que canta:) “Fui à lata de biscoito, tirei um, tirei dois, tirei três, tirei quatro, tirei cinco, tirei seis, tirei sete, tirei oito, tirei nove, tirei dez!” Está com você, Bop!
( Bilu aproxima - se )
Bop - Boca do forno!
Bip e Bup - Forno!
Bop - Tirei um bolo!
Bip e Bup - Bolo!
Bop - Tudo o que o seu mestre mandar?
Bip e Bup - Faremos todos!
Bop - E se não fizer?
Bilu - Posso entrar? Eu também quero brincar.
Bip - Você não pode. Você é feio.
Bilu - Mas eu quero brincar.
Bop - Feioso! Cara de espantalho!
Bup ( mostra a língua) - Cara de sapo!
Bop - Sigam o mestre! ( segue marchando e fazendo gestos, Bip e Bup o imitam)
Bilu ( puxando Beto pela orelha) - Beto!
Beto - Que foi, Bilu?
Bilu - Vamos brincar?
Beto - Agora não, Bilu, eu tô com sono.
Bilu - Mamãe, vamos brincar?
Lili - Não atrapalha, Bilu, você não vê que estou ocupada?
Bilu - Mamãe, ninguém quer brincar comigo.
Lili - Bilu, viu o que você fez? Sujou tudo o que eu já tinha limpado. ( agarra - o pelo rabo, arrasta - o e coloca - o na sua almofada) Fica quieto aí.
Bilu - Ninguém gosta de mim. Ninguém quer brincar comigo. Eu vou embora. Para bem longe. Eu vou fugir. De noite, assim que todo mundo estiver dormindo, eu vou fugir.
( Lili e os filhotes vão parando suas atividades, bocejando, enroscando - se nas almofadas e dormem. Ouvem - se doze badaladas)
Bilu - Meia - noite. Está na hora. O mundo lá fora deve ser bem melhor que isto aqui.
( ouve - se barulho de chuva. Um pio de coruja)
Bilu - Eu não tenho medo. Eu sou corajoso.
( ouve - se um trovão. Chove forte. Bilu vira - se para trás, assustado. Pelo outro lado entra a correr o ratinho Janjão, também a olhar para trás, tromba com Bilu e caem.)
Bilu - Ai! ( tenta fugir)
Janjão ( segura - o pelo rabo) - Calma, amiguinho.
Bilu - Me solte! Me largue!
Janjão - Que é que você está fazendo aqui sozinho?
Bilu - Estou fugindo de casa.
Janjão - Tisc.. tisc... você não longe com essa chuvarada.
Bilu - Quem é você?
Janjão - Eu sou o ratinho Janjão. Escuta aqui, você não é um filhotinhos da Lili?
Bilu - Sou, sim. Sou o mais feio deles.
Janjão - Pois então fuja bem rápido. Eu ouvi a cozinheira dizendo que amanhã vai jogar vocês todos no rio.
Bilu - Cáim! Cáim! Que mulher malvada! Mas por que ela faria uma maldade dessas conosco? Nós nunca fizemos nada para ela...
Janjão - A cozinheira não gosta de cinco cachorrinhos barulhentos passando para cá e para lá, para cá e para lá, sujando a casa inteira com suas patinhas cheias de terra. Avise a sua mãe. Fuja!
( Janjão pega o queijo e vai embora correndo)
Bilu - Eu não vou avisar ninguém. Eles não gostam mesmo de mim. A cozinheira que jogue todos eles no rio. Vai ser bem feito para eles.
( Bilu sai do palco. Volta devagar)
Bilu - Eu não devia avisar coisa nenhuma. Eu devia continuar fugindo e fazer de conta que não sei de nada. Eles vivem me chamando de feio. Eu vou é embora.
( Bilu sai do palco. Volta correndo)
Bilu - Mamãe, mamãe, a cozinheira quer - nos enfiar num saco e nos afogar no rio! Foi o ratão Janjão quem me contou. Depressa, mamãe, depressa, depressa!
Lili - Bilu! Bilu! Fale mais devagar! ( Bilu cochicha na orelha de Lili) Espere aqui bem quietinho, eu vou tirar esta história a limpo. ( Lili aproxima - se da porta da cozinha e escuta. Ouvem - se vozes)
( Vozes vindas da cozinha:
Cozinheira - Trouxe um saco bem forte. Alfredo?
Alfredo - Trouxe um saco bem forte e uma corda bem forte. Os cachorrinhos não conseguirão fugir.
Cozinheira - Amanhã eu estarei livre daqueles pestinhas!)
Lili - É verdade! Meus filhinhos, acordem! Vamos, precisamos ir embora, rápido. Mas fiquem quietos, vamos sair daqui quietinhos.
Bip - Estou com sono
Bop - Mamãe, está frio
Bup - Está chovendo, mamãe
Beto - Quero dormir
Lili - Vamos todos! Bilu descobriu uma coisa horrível. A cozinheira quer jogar vocês todos no rio.
Bup -Ah, mamãe, é mentira dele
Bip - Estou com medo
Beto - Estou com sono
Lili -Quietos! Obedeçam! Vamos sair já daqui.
( Lili sai empurrando os cachorrinhos pela direita. Um banco é colocado à esquerda. Entram Lili e os cachorrinhos pela esquerda)
Bip - Atchim! Mamãe, estou todo molhado.
Bop - Que frio, mamãe
Bup - Estou tão cansado, mamãe.
Lili - Para baixo do banco, todos. Fiquem aqui escondidos e quietos até eu voltar.
Bilu - Mamãe, onde você vai?
Lili - Vou procurar um novo dono de estimação para nós.
( Lili sai)
Bip - É tudo culpa do bobo do Bilu. Se não fosse por causa deste boboca, nós estaríamos dormindo.
Beto - E amanhã a gente ia virar comida de peixe. O Bilu é um herói. Salvou as nossas vidas.
Bop - Este feio aí, um herói? Só porque você quer.
Bip, Bop e Bup - Bilu é feio! Bilu é feio!
Beto - Nhac! Nhac! Nhac!
Bip, Bop e Bup - Cáim! Cáim! Cáim!
Beto - Eu não admito que vocês façam pouco do Bilu.
Bilu - Valeu, Beto. Você é que é um irmão legal.
Beto - Irmão legal é você, Bilu.
( entra Lili )
Lili - Venham, meus amores, encontrei um novo lar para nós.
( saem todos. Entra o padre, com uma tigela de leite na mão. Cessa o barulho de chuva.)
Padre - Aqui, cachorrinha, onde está você? Lulu? Onde será que ela foi? Pobre cachorrinha, parecia estar com tanta fome. ( entram Lili e os filhotes Bilu está com um topete bem charmoso) Ora, mas vejam só, você trouxe a família, é? E todos estão com fome, não é? Bebam, um de cada vez)
Bop - Primeiro eu!
Bilu - Nada disso! Eu é que sou o primeiro! Nhac!
Bop - Cáim! Cáim! Meu rabinho!
Bilu - Eu sou o herói da noite. Eu vou beber primeiro.
Bop - Mamãe, o Bilu me mordeu.
Lili - Não amole, Bop! Deixe o Bilu em paz!
Padre - Temos aqui um garotão valente. A senhora tem uma família muito bonita. E este aqui ( aponta Bilu) é o cachorrinho mais bonito de todos.
Lili - Estou orgulhosa de meu filho Bilu. Viva o Bilu!
Bip, Bop, Bup e Beto - Viva o Bilu!
Padre - Este cachorrinho é diferente.
Bilu - Eu sou diferente. É muito bom ser diferente, vocês não acham?
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VINTE E CINCO DE DEZEMBRO
exercício de texto - passar para a forma teatral o conto A face obscura do Natal.
Não é teatro, nada acontece, não há ação.
Sonia Rodrigues
CENA I
Cinco velhas estão em cena, todas bem velhas, de cabelos grisalhos e bem enrugadas.
Odete - Aonde está a romã?
Lúcia - Não sei porque todos os anos temos de armar este centro de mesa com todas as frutas. Não seria muito mais sensato deixar as frutas na geladeira para servi - las geladas e deixar espaço na mesa para as travessas?
Odete - A nossa tradição é assim. Nada de mudar a tradição que não presta. Assim é que mamãe fazia todos os anos, Lúcia.
Lúcia - Na época da mamãe não existia geladeira, Odete.
Odete - Está tudo em ordem lá dentro?
Lúcia - A massa para filhoses está pronta para fritar.
Alzira - A calda das rabanadas também está pronta. A Alzira aqui dá conta do recado.
Maricotinha - Quase que me esqueço de por a canjica de molho! Que cabeça a minha! Alzira me lembrou.
Nenen - A aletria ficou por minha conta, já está até enfeitada. A Nenen aqui é eficiente.
Lúcia - Sempre estes doces portugueses!
Odete - Nós somos portuguesas.
Lúcia - Eu gosto de torta de nozes, de mousse de uvas...Hummm!!...
Odete - Ridículo! Isso não faz parte da tradição. E enquanto eu estiver viva, nada mudará.
Lúcia - Não entendo porque temos de fazer sempre tudo o que a Odete quer.
Odete - Porque eu sou a mais velha. E depois que mamãe morreu, é a mim que vocês devem obedecer.
Alzira - É, Lúcia, é como mamãe dizia: quando eu faltar, vocês obedeçam à Odete.
Lúcia - Isso ela dizia quando nós éramos assim pequenininhas.
Odete - Cale a boca, Lúcia, e arrume as frutas secas no cesto.
um grupo de moças e rapazes entra dançando e cantando Hoje à noite é bela.
Moça 1 - Você vai ver só meu vestido novo. Combina direitinho com a cor de meus olhos.
Moça 2 - A sandália que eu comprei é um luxo. Simplesmente maravilhosa!
Rapaz 1 - Eu vou estrear um tênis Nike de fazer furor, com solas fosforescentes.
Rapaz 2 - Ih, que treco breca, meu! Tênis fosforescente... Ah, Ah, Ah... vai ficar parecendo um vaga-lume.
Moça 1 - Você acha que eu devo colocar um batom bem escuro ou usar algo rosa discreto ?
Nenen - Sérgio, teu pai já levou os assados para a padaria?
Rapaz 1 - Já até torraram, a essa altura.
Nenen - Não seja malcriado. E as bebidas?
Sérgio - Os tios estão descarregando agora.
Odete - E as castanhas portuguesas?
Moça 1 - Já estão a assar.
Maricotinha - “Muito faz quem não atrapalha”. Vão lá para o pátio e dêem sossego. Vão...
os jovens saem. Entram duas meninas.
Laura - Vovó, estou com fome.
Sofia - Quero nozes! Quero uvas!
Nenen - Vamos já para a cozinha que eu vou esquentar a sopa das crianças.
Odete (dá algumas frutas e doces para as crianças em um pratinho) - Não comam agoraa, isso é para a sobremesa.
as crianças saem, comendo as frutas. Entram dois homens, carregando bebidas e atravessam a cena.
Homem 1 - Quam vai ganhar é o Palmeiras.
Homem 2 - É o Corinthians.
H 1 - É Palmeiras.
H 2 - É Corinthians.
saem pelo outro lado. Entram dois outros homens, carregando bebidas.
Homem 3 - Na época do Juscelino a inflação era baixa.
Homem 4 - Tá maluco, foi o JK que começou esta bagunça.
H 3 - O JK foi um grande presidente.
H 4 - Ele afundou o país, ó ignorante, construindo lá aquela capital no meio do nada.
saem pelo outro lado.
Odete - Suzana! Olívia! Venham ajudar! ( para as outras velhas :) Vocês vão acabar as frituras!
saem as velhas de cena. Entram duas moças.
Suzana - Eu arrumo esta metade da mês, e você aquela ali, Olívia.
Olívia - Suzana, o seu namorado tem de me apresentar para o primo dele hoje! Você prometeu!
Odete - Prestem atenção, mocinhas, será que está tudo aqui? (vai tirando as coisas de uma cesta de Natal) - Damascos, tâmaras, figos secos, frutas cristalizadas, passas, castanhas de caju, pêras secas, maçãs desidratadas, o queijo bola, a goiabada, bananas - passas...
Olívia - .....sal de frutas...
Risos das moças.
Odete - Como? Menina, mais respeito com sua tia avó!
Suzana - O bom mesmo é o panetone. Cadê?
os 4 homens voltam a atravessa a cena, agora de mãos vazias.
H 1 - Palmeiras já era, oh! Comprei até um chapéu de mosqueteiro para comemorar a vitória do timão. Corinthians é o campeão.
H 3 - Presidente bom mesmo ia ser o Tancredo Neves.
H 4 - Como é que a gente vai saber? O homem nem chegou a tomar posse, mataram ele antes.
H 2 - Você vai comer este chapéu, porque o verdinho é quem vai levar o troféu.
saem de cena, entram 3 casais adultos com sacolas e pacotes.
Nilma - (para Odete) Vamos colocar os presentes, mãe. Cadê os cartões com os nomes?
Sara - Eu trouxe aqui comigo. Não estão lindos?
começam os seis a arrumar os presentes sob a árvore, colocando um nome em cada pilha e fazendo exclamações pertinentes
Linda (separando um presente) - Este fica separado, é para a minha afilhada, Suzete.
Aroldo - E o compadre, arrumou emprego, afinal?
Linda - Qual! O emprego daquele é o copo de cachaça. E a mulher taí, para ganhar o décimo filho.
Rui - Mais um para passar fome! Deviam ser castrados estes miseráveis que só servem para poluir o mundo com meninos de rua.
Linda - As crianças não tem culpa, coitadinhas.
Rui - E tenho eu?
entram as crianças.
Sofia -Presentes!
Laura - Cadê os meus?
Sofia - Vamos adivinhar o que é? Aposto que aquela caixa grande ali é uma casinha de bonecas.
Laura - Aquele verdinho ali parece um livro.
Sofia - depois a gente vai lá, sacode, aperta, e adivinha o que é.
Laura - Com cuidado, senão quebra.
Sofia - Vamos espiar, acho que chegou alguém. (saem de cena)
entram diversas pessoas com presentes, há troca de abraços e de pacotes. Em primeiro plano, Linda e Aroldo.
Linda - Arlete ainda não apareceu? Ela sempre vem tão cedo, trazendo o seu bolo de frutas.
Aroldo - Vai ver que este ano o turrão do João não deixou ela vir.
Linda - Você é que é turrão. Você devia ir até lá e fazer as pazes com ele.
Aroldo - Eu não, foi ele quem me ofendeu.
Linda - É Natal. Arlete é minha irmã.
Aroldo - Pois então. É Natal. Uma ótima ocasião para ele aparecer e pedir desculpas.
Linda - Há cinco anos esta ferida na família. Que vergonha! Você bem que podia ir até comigo, um dia desses.
Aroldo - Na casa do João eu não piso. Não vou emporcalhar os meus sapatos.
Linda - Homens! (pausa) E se fosse algum motivo sério, Aroldo. Mas por causa de um maldito jogo de fultebol, só porque o Corinthians perdeu o jogo e ele entrou aqui com aquela baleia enorme comendo o mosqueteiro...
Aroldo - Meu mosqueteiro de estimação, Llinda! Que eu comprei com todo carinho paraa comemorar a vitória do timão...
Linda - Que vitória, vocês perderam!
Aroldo - Não precisa ficar me lembrando, olha que eu corto relações com você também, não me provoca.
Linda - Eu, hein... O que foi que eu disse!
Aroldo - Não me tira do sério, ou eu esqueço que é Natal e peço o divórcio.
Linda - você vai pedir o divórcio? Por causa de uma baleia?
Aroldo - Não me lembre desta humilhação!
Linda - Homens!
saem de cena Aroldo e os visitantes.Entra Farias com Suzete.
Farias - Com licença da casa! Ó, comadre, eu vim deixar a Suzete aqui para passar o Natal com a madrinha.
Linda - Mas... assim, homem de Deus, sem avisar nem nada...
Farias - É que a muié tá com as dor e eu levei ela pro hospitá...(à parte, só para Linda) Ela tá mal, muito mal, entonce eu tô dividindo a fiarada, cada um na casa do seu padrinho...
Linda - E porque o senhor não passa a noite em casa com a família?
Farias- Eu vou fizá com a muié. (à parte) É que, dona Linda, o dotô disse que dessa vez ela periga de num resisti...
Linda - Claro, claro. Suzete ficará bem com a Sofia e a Laura. Sofia! Laura! (entram as meninas, colam - se uma à outra e olham horrorizadas para Suzete) Levem a Suzete para brincar com vocês.
Farias sai.
Odete - Sara, empreste aquele seu vestido verde para a Suzete, aquele que já estava ficando apertado para você, deve servir para ela. Você vai ficar muito linda de verde, qeurida. Quem leva a Suzete para um banho?
uma dass moças se adianta e pega Suzete pela mão. Sara e Laura saem atrás.
Odete - E Papai Noel? Que situação! Como vai ser?
um dos rapazes pega um presente da pilha e faz um sinal para a avó, separando - o; a avó concorda com um gesto. Será o presente de Papai Noel no sapatinho de Suzete.
Odete - Coloquem os sapatinhos debaixo da cama, meninas. Para o Papai Noel.
Olívia - Que sujeitinho mais espaçoso! Que cara de pau! Agora eu sei como ele cria os filhos, é só sair distribuindo por aí...
Sérgio - É Natal. É uma caridade que a gente faz.
Maricotinha - Caridade, Sérgio? O que uma criança quer na noite de Natal não é caridade, não. É família. É carinho de pai e mãe.
Linda - Aposto que a coitada nem presente de Papai Noel ia ter.
Lúcia - Vai ver que não ia ter nem comida.
entram João e Arlete. Todos olham, espantados.
João - Aroldo balofo! Vem dar cá um aperto de mão.
Aroldo - João ! (hesita)
Linda e Arlete se abraçam.
João - Quero anunciar a esta família que eu hoje tomei uma atitude de homem.
Aroldo - E pode - se saber qual foi, esta ... atitude de homem?
João - Deixei de fumar.
Odete - Oh! Isso? Isso dura até amanhã.
João - Não, minha sogra. Eu estava lá no meu canto a conversar com os meus botões e pensei : João, que coisa ridícula um homem de barba na cara a tirar fumacinha de um canudinho de papel. E aí eu apageui o desgraçado que estava a comer os meus pulmões.
Aroldo - Ora, João, e o que é que nos interessa o seu canudinho de papel?
João - Aroldo, eu pensei cá comigo: Já que eu tomei uma atitude de homem, posso muito bem tomar duas.
Aroldo - E daí?
João - Vem de lá um abraço, que hoje é Natal.
todos batem palmas. Aroldo hesita, mas por fim abre os braços e abraça João.
Arlete - Veja só, Linda, os nossos maridos! Estou tão feliz!
Linda - Arlete, eu agora acredito em milagres. Não é que o turrão do teu marido criou juízo?
Arlete - Vê lá como fala, meu marido não é turrão nada.
Linda - Como não é? Turrão, sim turrão. Grandissíssimo turrão.
João - Ai, mulheres! Olhem que não fica bem, agora que nós maridos fizemos as pazes, vocês estarem aí a brigar.
risos. Entram outros personagens com os assados.
Odete - Linda! Arlete! Venham enfeitar o leitão. A ceia já vai ser servida, vão chamando todos.
confusão, enquanto saem uns, entram outros, chamando - se. Suzete reaparece limpa com um vestido verde de festa.
Suzete - Hoje lá em casa eu comi só um pedaço de pão com goiabada.
Sofia - Então agora você se empanturra.
Nenen - Pois tem criança que comeu pão seco. Sorte sua ter goiabada para comer no seu pão.
Suzete - Eu quero minha mãe.
Lúcia - Vocês, crianças, tem uma mesinha só para vocês, aqui. Eu vou trazer para vocês um montão de coisas gostosas. Suzete, venha comigo escolher o que você quer comer primeiro.
Lúcia serve as crianças. Os jovens começam a cantar canções de Natal, enquanto todos de acotovelam à mesa e enchem seus pratos de comida.
Homens (menos João e Aroldo) - Viva o João! Viva o Aroldo! Um brinde aos cunhados que fizeram as pazes! O bem filho à casa torna! Viva!
bate meia - noite. Abraços, felicitações, correria para os presentes. Só Suzete fica parada em seu lugar.
Lúcia - (para Suzete) - Vamos espiar o que Papai Noel deixou no seu sapatinho.
Suzete - Papai Noel nunca me trouxe nada, não. (olhando o sapato:) Um presente! Um presente! Um presente... para mim?
Linda - (entrando atrás de Suzete) - Feliz Natal, querida! Este é o meu presente. (abraçam - se)
Laura e Sofia entram no quarto cheias de pacotes e sentam - se a abrir ruidosamente os embrulhos.
Suzete - Um fogãozinho... panelinhas... que lindo!...Ah, obrigado, Papai Noel!...Uma boneca... uma boneca só minha....obrigada, madrinha! (fica enlevada com a boneca, uma bonequinha simples de plástico, de olhos e cabelos desenhados no plástico, enquanto Sofia e Laura vão desembrulhando aos gritos presentes caros - entre eles uma casinha de bonecas e mobílias mais requintadas, bonecas de cabelos de verdade e olhos que abrem e fecham )
de repente, Suzete olha para as outras meninas e seus presentes.
Odete - Suzete está no céu, Nunca comeu tão bem na vida.
Aroldo - Nunca teve uma boneca só dela.
Maricotinha - É tão fácil, não é, fazer uma criança feliz...
Sofia - Veja nossos presentes, Suzete. Nós deixamos você brincar com a gente.
Suzete - Não quero.
Laura - Como não quer? Vai ser tão gostoso a gente brincar junto...
Suzete - Quero ir para a minha casa. (chora)
Lúcia - Que foi? Que aconteceu?
Suzete - A minha mãe é quem tinha razão. Pobre não tem nada a fazer na casa de gente rica.
(chora)
Laura - Nós não somos...ricas.
Sofia - Cale a boca, Laura! Deixe ela.
Odete - Que menina ingrata!
Sérgio - Vamos festejar que hoje é noite dos milagres. João, o Turrão, vem as pazes com Aroldo, o balofo!
risos, canções, todos comem, comem, comem, o choro de Suzete se perde no barulho. Laura e Sofia voltam para a mesa, para comer. Sozinha, Suzete sai de cena, abraçada à sua boneca e ao seu fogãozinho.
entra alguém, um mensageiro da funerária.
Mensageiro - Senhor Aroldo!
Aroldo - Pode falar, rapaz. O que você quer?
Mensageiro - A mulher do seu Farias faleceu. E o seu Farias fugiu. Ele abandonou a filharada e desapareceu. A filha mais velha dele pediu - me para vir até aqui. E agora é preciso saber quem é que vai cuidar do enterro.
um minuto de silêncio.
Aroldo - Pois eu cuido. Amanhã de manhã vou lá e acerto tudo.
Linda - E a Suzete? Eu sou a madrinha, vai sobrar para mim.
Odete - Vocês vão contar para a menina?
Aroldo - Ela já foi dormir, amanhã a gente pensa nisto.
Alguém liga a TV.
TV - Nesta noite santa, em que se comemora o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, transmitimos para vocês a missa do galo...
Alzira - Desliga esta porcaria.
H 2 - Muda de canal.
Olívia desliga a TV.
Todos : “Noite feliz...”
FIM
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A BARCA
PERSONAGENS:
VITÓRIA – aproximadamente 25 anos, solteira.
LUÍZA - aproximadamente 23 anos, solteira, irmã de Vitória.
O pai - José Guerreiro – funcionário do INAMPS.
A mãe – Maria das Graças .
O tio – Paulo - dentista do INAMPS.
A tia – Maria das Dores.
Figurantes – passageiros da barca e clientes da fila.
Vestuário: as personagens usam roupas e acessórios pretos, que possam ser virados do avesso, ficando intensamente coloridos: estampados, verdes, rosas, amarelos etc... É interessante que Vitória tenha os cabelos compridos ocultos por uma boina ou chapéu de praia no primeiro ato, e, quando surpreendida pela irmã, solte os cabelos. A cena terá maior impacto se os cabelos forem loiros.
Cenários:
A barca – estreitos bancos de madeira, uma amurada baixa, ao fundo o mar.
Guichê – o mesmo guichê pode ser adaptado para as três situações de fila. Um balcão com divisória de vidro, uma porta ao lado para o consultório do dentista, a sala da chefia do posto ou a entrada para a gerência do banco.
Sala de estar – sofá e poltronas ou alguns puffs, uma mesa de jantar ao lado, vasos de flores, quadros, porta-revistas.
CENA I
Cenário: a barca.
Personagens: Vitória, Luíza e figurantes.
(pessoas entram sérias e de roupas coloridas. A luz é normal no início. À medida que a cena se desenrola, as pessoas ficam tristes, viram as roupas para o lado preto, e a luz vai diminuindo. Sujeira começa a ser atirada ao chão, e, se for possível, cheiros abafados. À direita entra Luíza, que, parada no mesmo lugar, simula subir longa escadaria e a seguir descer a uma plataforma flutuante_ ela pode oscilar o corpo¬_ , carregando um guarda-chuva na mão. No momento em que entrar na barca, Luíza será a única pessoa a vestir roupas coloridas)
Luíza _ Lá está a barca. Daquele lado do cais. Que barulho! Quanta poeira! Quanta fumaça! E esta longa escadaria é bem como minha irmã falou: é de cansar até um atleta! Que fedor! Uma latrina a céu aberto! Lixo, vômito, escarro, urina, cocô de cachorro... será que é de cachorro? Se eu andar rápido e prender a respiração...(corre e arqueja) Graças a Deus aqui começa a descida! Já vejo a plataforma de embarque ali adiante. Credo! Quanta gente feia! Acho que é a Convenção dos mais feios, mais mal humorados e mais desamados deste mundo. Ou é a Rede Globo contratando para um seriado de terror. E que calor! Que calor! E a chuva que ameaça, ameaça e não se resolve!
(disca o celular) Pai? É Luíza. Estou na plataforma. Acabo de passar pela ponte e estou aqui enjaulada, balançando, pra cima e pra baixo...flutuando ao sabor das ondas.... balançando ao sabor das ondas... Não vi a Vitória ainda, ela deve estar dentro da barca. Como é isto aqui? É um quadrado de concreto que cozinha agora que é verão e deve congelar no inverno, cercado de grades de ferro fechadas a cadeado, parece um curral. Deve haver cem pessoas no lugar de cada dez, estou amassada, imprensada entre caixotes, crianças, cachorros...Eu lembro o que minha irmã diz: quem passa pela barca nunca mais reclama de nada nessa vida, porque já viu o pior, e acho que ela tem razão... Socorro! Abriram a porteira!
(desliga o celular e é arrastada pela multidão, braços para cima, até cair em um banco. Olha ao redor, localiza a irmã e vai ao encontro desta. Senta-se e deixa de lado o guarda-chuva, que é pego pela mulher ao lado, de preferência gorda e forte.)
ah, minha irmã, vamos para casa!
(Vitória não diz palavra.Apenas olha para baixo, suspira, dá de ombros; ao prosseguir a cena, começa a olhar para a irmã, aprumar-se, esboçar um sorriso até sair apoiada ao ombro desta).
Querida, volte para casa! Nós amamos você! Sentimos sua falta. Eu quero poder conversar com você, à noite, quando volto do trabalho... e você tem de me ensinar a fazer aquelas receitas gostosas, aquele bobó de camarão, aquele bolo de uva, aquela torta de nozes gelada... você logo arruma um emprego, ou então eu arrumo uma porção de freguesas para comprar os doces que você pode fazer em casa mesmo. Vamos, irmã, é para isso que servem as irmãs, para estarem ao lado uma da outra nas horas de dificuldades, não é?
(a chuva desaba. Luíza volta-se para pegar o guarda-chuva. Aqui há uma cena muda e cômica. Luíza vira-se para a mulher com o seu guarda-chuva com ares de proprietária, e a mulher a encara com jeito de desafio: quer briga?. Luíza está indignada e surpresa, mas também com muito medo. A mulher ladra é feroz. Luíza desiste, e numa pose ‘digna’ e medrosa, volta ao diálogo com a irmã)
eu não vou dizer aquelas coisas que o papai diz e você detesta, aquelas babaquices todas de ‘confie em Deus’, ‘você é feliz porque tem saúde’...eu não falei, você percebeu que eu não falei? E, tem outra coisa, a respeito do seu namorado...nos dias de hoje é até melhor estar sem homem, sabe? Antigamente um homem era uma segurança econômica, hoje se descuidar a gente é que acaba sustentando um deles, ou até tendo de pagar pensão para o ex...isto, ria, ria, eu vi... vi uma sombra de riso aí no seu rosto. Isto, assim é melhor.... (pega o chapéu da irmã e o vira do avesso, para o lado colorido, sugiro verde)
falando sério, querida, eu tenho certeza de que, se fosse o contrário, você é quem viria me buscar, não é? Você faria o mesmo por mim. (vira o casaco da irmã pelo avesso, sugiro a cor rosa)
confie em mim. Eu acredito em você, Vitória. Que nome tão bonito você tem: Vitória. Combina com você. É o que você merece: Vitória.
(saem as duas da barca, a esta altura quase às escuras. Um foco de luz fraca acompanha as irmãs e aumente um pouco, só um pouco, enquanto elas saem de cena, debaixo de forte tempestade.)
cai o pano.
CENA II
Cenário – guichê de atendimento em serviço público (INAMPS)
Personagens:
João
Figurantes: o colega, o fiscal e as pessoas na fila.
João e o Colega quando conversam entre si, devem retirar-se discretamente do balcão, procurando fichas em arquivos ou pegando formulários, coisas que o distanciem do público por alguns instantes.
João (para o colega) – Hoje, se Deus quiser, minha filha Vitória volta definitivamente para casa. Desde que ela inventou de entrar naquela maldita barca nunca mais foi a mesma.
Colega – A fila hoje está grande, João. Quase tão grande quanto a fila da barca.
João – O próximo!
Colega – Olha o passinho à frente!
Cliente 1 – (para o colega) – Quero o doutor de figo.
Cliente 2 _ (para João) _ O Dr. Rino, por favor.
Colega (para João, à parte) _ João, você sabe onde fica a quitanda? Este aqui trouxe o figo para consultar. Ah! Ah! Ah!
João (para o colega) _ Corpo de brzsileiro é uma fartura. Tem figo, nozes e até uva – lá no fundo da garganta. Ah! Ah! (para o cliente) _ Aqui não tem nenhum doutor Rino. O senhor tem aí o nome inteiro?
Cliente 2 – Acho que é um alemão, deixa eu ver...Otto! alembrei! O nome é Otto Rino.
João – Ah, é o médico de ouvido e garganta?
Cliente 2 _ Esse mesmo, sim, senhô.
Colega (rindo) _ Hoje promete, hein, João? Marca direitinho a consulta pro doutor Otto...
João (para o cliente 2, segurando o riso) _ O otorrino atende na sala 23 e o nome dele é Dr.Francisco, ouviu? Ali, naquele corredor.
Cliente 3 (para o colega) _ Bom dia, me vê aí uma ficha pro ginecolopgista, faz favor.
Cliente 4 (para João) _ Olha, moço, me fizeram pegar esta fila mas eu não quero nenhuma consulta, não.
Colega _ Qual é o nome da paciente que vai consultar com o Ginecologista?
Cliente 3 _ Sou eu mesmo.
Colega _ O senhor é homem. A consulta é pra patroa?
Cliente 3_ Não, é pra mim, a patroa nem pode saber. (aos cochichos) imagine o senhor que eu peguei ‘doença de muié.’
Colega (revirando os olhos, à parte) _ Daí-me paciência! É hoje!
João _ A senhora não quer consulta? Mas este é o balcão de consulta! O que a senhora quer?
Cliente 4 _ eu só quero uma receita.
João_ Para uma receita, a senhora precisa consultar um médico primeiro. Quer um clínico geral ou um especialista?
Cliente 4_ Quero doutor nenhum, não, só quero a receita.
João_ É só o médico que pode passar receita.
Cliente 4_ (ficando malcriada) _ Isto é má vontade. O senhor não quer me atender, não? Vou chamar a TV aqui e quero ver só, vou chamar o Aqui e Agora, que eu não posso ficar sem meu remédio, não>
João_ Faça o seguinte: procure o chefe, na sala 90, está bem?
Fiscal (para João,passando à frente) _ Com licença, abra para mim que eu sou fiscal e...
João_ Aguarde sua vez na fila.
Fiscal_ Bom dia, colega! Eu sou o fiscal do INAMPS. Abra, por favor, que eu preciso entrar.
João_ Sinto, não posso abrir, só os funcionários podem entrar aqui.
Fiscal _ Mas eu sou o fiscal! Eu tenho de entrar!
João _ Vá para o fim da fila ou eu chamo o segurança.
Fiscal_ Ai, o senhor vai se haver comigo, ah, se vai! Isto não vai ficar assim, não!
(o fiscal sai de cena pela esquerda, de onde retorna depois acompanhado pelo chefe do posto, que pode ser um médico, todo de branco, ou um executivo, de terno e gravata)
Cliente 3_ (como que continuando a conversa iniciada anteriormente) _ não, não, eu quero é um ginecologista. Este aqui que o senhor indicou é o tal que faz toque. Esse eu não quero, não, desse eu quero é distância!
Cliente 4_ (irritada) _ Faz aí a minha receita que eu vou embora.
Cliente 3_ eu vou tentar explicar de novo pro senhor porque o senhor não entendeu. É que eu peguei ‘doença de muié’...
Cliente 4_ Lá na farmácia me mandaram aqui pegar a receita.
(neste momento, pessoas na fila se agitam e dizem coisas como: )
Figurante_ Ei, esta fila não anda?
Figurante_Esses funcionário público é tudo pobrema, memo...
Figurante_Eles gosta é de judiá do povo.
Figurante_ tão demorando é de propósito.
Figurnante_ Vamo ligeirinho aí, ô!
(inicia-se grande agitação, vozes em burburinho. A confusão permanece ao fundo, enquanto se desenrola o diálogo em primeiro plano entre João, o fiscal e o chefe)
(entram o chefe e o fiscal pela esquerda)
Chefe_ João, este aqui é o fiscal do INAMPS.
Fiscal _ O senhor me desacatou! Sinta-se despedido!Vou dar queixa sua.
João_ Um fiscal de verdade! (solícito) Bom dia!
Chefe _ João, talvez você possa explicar o que aconteceu. (para o fiscal) Eu gosto de ouvir sempre os dois lados de cada questão. Assim posso ser justo e imparcial.
Fiscal (de mau grado) _ estou ouvindo a sua explicação.
João_ senhor fiscal, eu não o conhecia ainda, e o senhor não apresentou suas credenciais.
Fiscal (furioso)_ maldita burocracia! Essa, agora, eu ter de dar satisfação para um inferior.
Chefe_ continue, João.
João_ O que acontece é que aqui no balcão eu marco consulta para todo tipo de gente ‘importante’ : o prefeito, Jesus Cristo, fiscal do Sarney, Bill Clinton, Presidente do Brasil e, é claro, fiscais do INAMPS.
Chefe (para o fiscal, segurando o riso) _ eu diria que a explicação é pra lá de razoável. Foi convincente, o senhor não acha?
Fiscal _ qualquer dia destes eu me demito e vou pegar a barca!
(atrás, a confusão entre os figurantes corre solta...)
cai o pano.
CENA III
Cenário: guichê de atendimento em serviço público (INAMPS)
Personagens:
Paulo
A velhinha
As duas voluntárias
Figurantes na fila
(ouve-se ao fundo uma música suave. Paulo aparece à porta, à esquerda, para fumar. Entram as voluntárias, carregando vasinhos com flores. A fila avança lentamente, as pessoas reclamam e suapiram e bocejam etc)
Paulo (no celular) _ Das Dores? E aí, mulher? Boas novas? A Vitória volta mesmo hoje para casa? Conseguiu escapar daquela barca? Aquilo não é uma barca, é uma canoa furada, eu sempre digo. Que coisa boa! Eu gosto muito desta minha sobrinha. Não tenho filhas, sou um tio coruja. É verdade, neste ponto eu sou diferente mesmo dos outros homens, o meu sonho era ter uma menininha, eu adoro meninas. Façam um jantar no capricho, para a gente comemorar. O que? Polenta? Ótimo. Se acompanhar uma boa rabada com bastante molho, melhor ainda. Um beijo, querida. (desliga e acende um cigarro)
Voluntária 1_ Amiga, este trabalho voluntário é sensacional! Agora eu me sinto importante. Realmente útil.
Voluntáira 2_ Essa sua idéia de colocar um fundo musical para acalmar o povo foi excelente!
V1_ E a sua idéia de enfeitar a fila com vasos de flores é maravilhosa! As pessoas ficam felizes olhando coisas bonitas.
V2_ Vamos colocar os vasos ali. Ficam bonitinhos, não ficam?
V1_ Se a fila demorasse um pouquinho mais, nós poderíamos colocar uma pessoa na entrada vendendo água, café, refrigerante, slagadinho... um conforto a mais para os clientes.
V2_ E na hora do almoço poderíamos servir o ‘almoço na fila’. A pessoa come de pé enquanto espera e assim aproveita melhor o horário do almoço.
V1_ Mas para isso a fila precisava demorar um pouquinho mais...
V2_ Já sei! Tem um jeito de a gente fazer esta fila demorar pelo menos um minuto a mais por cliente.
V1_ Como?
V2_ A gente inventa aí um questionário. Antes de ser atendida, a pessoa deve responder a umas perguntas. Podemos até criar uma versão on line para aumentar a fila nas maquininhas de auto-atendimento lá no setor de benefícios para os aposentados.
V1_ E sobre o que seria este questionário, querida?
V2_ Sobre como melhorar as filas, é claro!
(neste momento uma velhinha à frente de um guichê grita: ‘Õ, criatura, é um raio-x aqui do meu dente!’ Enquanto a conversa entre as voluntárias continua, a discussão entre funcionário e velhinha continua através de gestos eloquentes)
V1_ É uma tranqüilidade trabalhar com estas gordas verbas governamentais, não é mesmo? E esta ajuda de custo da prefeitura, então? Que coisa boa!
V2_ Tudo ali na lei, certinho! Graças ao irmão da Lurdinha, que é deputado. Se não fosse por ele, estas verbas gordas poderiam ter ido parar nas mãos de umas ONGs estranhas com projetos mais estranhos ainda.
V1_ Como aquela tal Casa da Cultura que queria piano de cauda e instrumentos de orquestra para ensinar música para crinaças da periferia, e dança e ópera e sei lá mais o quê..
V2_ Como se cultura fosse coisa para pobre, imagine! E aquele outro projeto lá ... o Semeando Livros, que queria patrocinar a edição de livros a preços populares, para serem vendidos a R$1,00 o exemplar e ainda oferecer oficinas de poesias, roteiros, contadores de histórias e sei lá mais o quê.
V1_ O projeto mais perigoso era um tal de Movimento de Cidadania.
V2_ Nem me fale!
V1_ Cursos profissionalizantes gratuitos de alto nível e agenciamento de trabalhos depois desses desempregados terem aprendido português básico, etiqueta básica, boas maneiras, datilografia, culinária básica, puericultura, jardinagem e mais um monte de outras coisas, numa concorrência absolutamente desleal com os cursos particulares.
V2_ Esta gente muito ignorante tem mais é que voltar para as plantações de cana e carpir mato e passar fome que eles não servem mesmo para outra coisa. Não são como nós.
V1_ Acabou a música. Vamos trocar a fita, amiga?
(saem as voluntárias. Paulo acaba de fumar e joga o coto de cigarro em uma escarradeira a um canto. A velhinha sai do guichê e dirige-se diretamente a ele.)
Velhinha_ É o senhor o radiologista?
Paulo_ Bom dia! Sou o radiologista de dentes. Dentista!
Velhinha_ Pois é com o senhor mesmo. Estou aqui há horas. Cheguei de madrugada para conseguir ser atendida.
Paulo_ Pois não.
(a velhinha estende-lhe um papel. Paulo olha e o devolve, desconcertado.)
Velhinha_ O que foi?
Paulo_ É que o seu impresso...
Velhinha_ Que impresso?
Paulo_ O pedido da radiografia.
Velhinha_ É este aí.
Paulo_ Isto aqui é para o dentista da prefeitura.
Velhinha_ Exatamente.
Paulo_ Fica nesta mesma rua, duas quadras mais para a frente.
Velhinha_ Como? Não quer me atender, não?
Paulo_ A senhora tem uma guia da prefeitura. Aqui não atende. Aqui é o SUS.
Velhinha_ Quer dizer que eu fiquei todo este tempo na fila à toa?
Paulo_ Infelizmente a senhora está no prédio errado.
Velhinha_ Isto aqui não é um pedido de raio-x de dentes?
Paulo_ Sim, é.
Velhinha_ E o senhor não tira raio-x de dente?
Paulo_ Tiro, com guia do SUS. Guia da prefeitura não serve.
Velhinha_ E não serve por que?
Paulo_ Porque eu sou o Dr. Paulo. E aqui nesta sua guia está escrito Dr. Domingos. O Dr. Domingos atende aqui perto, duas quadras adiante, nesta mesma rua, entendeu?
Velhinha_ Entendi é a sua má vontade. Vagabundo que não quer trabalhar! Se recusando a atender uma mulher da minha idade!
.Paulo_ Mas o que é que a senhora quer que eu faça? Eu não me chamo Domingos e não trabalho para a prefeitura!
Velhinha_ Seu nome não me interessa! Eu quero é a minha radiografia!
Paulo_ Mas, minha senhora...
Velhinha_ O senhor que me fazer de boba! E todo este tempão que eu fiquei aí em pé! O senhor vai me atender, sim!
Paulo_(à parte) _ Para que é que eu fui me levantar da cama esta manhã? Eu deveria ter-me mandado para a barca!
Velhinha_ (para o povo) _ Minha gente, é um abuso! O dentista aí à toa fumando no corredor a bater papo sem querer trabalhar.
(vários comentários solidários por parte das pessoas na fila:
Sujeito sem coração!
Irresponsável!
Queria só ver se fosse a avó dele!)
Paulo_ Venha já comigo! (pega o papel e empurra a velha porta adentro. Ouve-se por trás da porta duas vozes masculinas, uma de Paulo, outra de seu atendente.)
Atendente_ Mas, doutor! O senhor não pode fazer isso!
Paulo_ Já estou fazendo.
Atendente_ Vai ser uma confusão...
Paulo_ Confusão ia sair aí fora com esta velha fazendo escândalo. O mal é que fui educado em colégio de padres, sabe? Lá aprendi a tratar as pessoas idosas com paciência e carinho. É um hábito que volta e meia me coloca em situações absurdas.
Atendente_ Como é que o senhor vai justificar este filme perdido?
Paulo_ Eu escrevo aí ‘filme perdido porque o paciente se mexeu na hora’, sei lá, eu dou um jeito.
Atendente_ A questão é que a nossa maneira de trabalhar é completamente diferente da maneira de trabalhar do pessoal lá da prefeitura, doutor.
Paulo_ Eu sei. Aqui estamos todos no mesmo prédio, no mesmo andar. Cada doente pega sua radiografia na mão e leva para o seu dentista. Já a prefeitura tem um dentista em cada bairro e um único serviço de radiologia. É o motorista que recolhe as radiografias e as distribui depois de prontas para cada policlínica.
Atendente_ E então, como é que vai ser?
Paulo_ A velhinha quer a radiografia. Pois eu tiro, entrego para ela e pronto. Eu escrevo uma cartinha e coloco dentro do envelope fechado junto com o resultado explicando a confusão;
Atendente_ Ou a cartinha vai é aumentar a confusão;
Paulo_ Tem razão. Sem cartas. Só a radiografia.
(Pausa. Sai a velhinha . Paulo sai atrás.)
Paulo_ A senhora volta amanhã neste mesmo horário e pega a radiografia aqui comigo.
Velhinha_ Pensa que eu sou boba, seu moleque? Pois eu não sei que o Raio-x vai direto para o meu dentista? O senhor é quem entrega para ele. Essa agora é boa! Funcionário público é mesmo tudo igual! Tudo vagabundo!
Paulo_ Mas...mas... E agora, o que é que eu faço? Arquivo este raio-x? Jogo fora? Vou procurar o Domingos e passo a radiografia para ele? Ou vou pessoalmente até esta policlínica lá no alto do morro e entrego esta radiografia para o dentista que pediu? Ou me mando para a barca de vez!
Velhinha_ (já na rua) _ É assim que a gente tem de se impor! Mas que ele me atendeu, atendeu! Ora, se não atendesse...
Paulo_ (para dentro)_ Cadê a lista telefônica? Preciso localizar um tal de Dr. Domingos....
Cai o pano.
CENA IV
Cenário: sala de jantar da família. _ no final do ato, é transformada na barca.
Personagens: Vitória, Luíza, a mãe, o pai, o tio, a tia; figurantes na barca.
(entra das Graças e põe-se a abrir cortinas e janelas. A seguir entra das Dores, vindo da rua, e corre ao banheiro _ pode-se ouvir o som de água _ de onde sai enxugando rosto e mãos em um lenço.)
das Dores_ Que nojo, das Graças! Que horror! Todos os verões de minha vida estão sendo cenários do mesmo filme: Insetos.
das Graças_ Que foi que aconteceu, das Dores? Calma, senão você vai conseguir arrancar a pele.
das Dores_ Calma? Pois adivinhe você o que é que veio voando em minha direção, às sete horas da manhã, em plena luz do dia?
das Graças_ Um morcego?
das Dores_ Uma barata! Ba-ra-ta! Em plena manhã, é ousadia demais! E vinha em zigue-zague, a danadinha! Na luz! As asas até emitiam uns reflexos dourados, até poderia ser uma visão bonita.
das Graças_ Espere aí, comadre! Quando uma pessoa começa a fazer poesia com barata, o caso é grave! É sinal de que já se acostumou com a decadência.
das Dores_ Poesia? Que poesia?
das Graças_ Ora, toda esta mistura aí de bailarina, luz da manhã, reflexos dourados nas asas... nem precisa de rima.
das Dores_ Não brinque. Foi horrível. É bem sinal da decadência, do abandono, do descaso com a coisa pública. Para uma barata bailarina eu adivinho todo um corpo de baile oculto pelos consultórios, escritórios e corredores.
das Graças_ Sem falar nos ratos.
das Dores_ Esses andam por aí de colarinho branco.
das Graças_ Baratas costumam ser arredias.
das Dores_ Quando eu vejo uma barata e grito, tenho a impressão de que as coitadas têm mais medo da gente do que a gente delas.
das Graças_ Com o seu grito até eu me assusto. Você gritou?
das Dores_ Se gritei? A única coisa no mundo que me faz perder o controlo é uma barata. Mas esta monstra de hoje nem se abalou com meu grito, continuou lá, dançando, muito feliz e lampeira.
das Graças_ Ora, das Dores, você ganha adicional de insalubridade. Você tem de fazer jus ao saláro, querida. Aposto que a barata não tem seguro de vida.
das Dores_ Engraçadinha! Mas trabalhar no Ministério da Saúde é fazer jus ao adicional de insalubridade, sim. No ano passado foi a invasão dos mosquitos.
das Graças_ Eu lembro. Você se besuntava toda de repelente antes de sair, parecia que ia acampar no mato.
das Dores_ E adiantou? Peguei dengue com repelente e tudo.
das Graças_ Dengosa você sempre foi, mesmo.
das Dores_ Antes dos mosquitos foram as cigarras. Uma verdadeira explosão demográfica de cigarras.
das Graças_ Ah, você dizia, como era mesmo? As cigarras tocavam seus violinos e castanholas, uma orquestra magistral.
das Dores_ É, era bonito de se ouvir. O som não era o problema, a questão é que elas entravam no prédio e eu tinha que recolher aqueles insetos enormes em caixas, antes de abrir as portas para o público. As outras funcionárias tinham medo. Eu pegava as cigarras com todo o cuidado e devolvia todas elas ao jardim.
das Graças_ Mas apesar dos insetos... e dos salários congelados há tantos anos.... você vai levando.... e vai levando...
das Dores_ Sabe, eu começo a pensar que é um plano sujo da dinastia Fernando para acabar com os federais. Mas .... baratas?... isto também já é demais.
das Graças_ Vai desistir?
das Dores_ Nunca! Não adianta, Fernando! Eu resistirei!
das Graças_ Assim é que se fala! Resistiremos!
das Dores_ Fernando, afinal, é o meu inimigo favorito.
das Graças_ E nós não somos gente de se entregar.
das Dores_ Mas bem que tive vontade de correr para a barca quando vi aquele inseto nojento. Argh!
das Graças_ Pois eu também tive vontade de me mandar para a barca, hoje, quando vi os juros do meu financiamento.
das Dores_ Saiu sua carta de crédito?
das Graças_ Saiu. Vou trocar de pesadelo. Do pesadelo do aluguel para o pesadelo da casa própria.
das Dores_ Você está demorando para se recuperar da última mordida do Leão, eu sei. Mas não fique amarga. Vamos comemorar. À sua casa própria e à volta da Vitória.
das Graças_ Reajo muito mal a 46 anos de brasilidade, o que quer você? Só vou comemorar quando minha filha Vitória entrar por aquela porta.
das Dores_ Bem, acabaram as suas noites de insônia e sua úlcera de stress.
das Graças_ Penso em como pagar juros absurdos com salários congelados. Os juros sobem a cada ano, subam ou não os salários. Ai, minha Santa Rita dos Impossíveis!
das Dores_ Falei cedo demais. A úlcera e as noites de insônia vão continuar.
das Graças_ É que eu fui envenenada, entende, por um veneno muito mais tóxico do que BHC, um veneno mais tóxico e de nome muito parecido, que anda corroendo aquele lugarzinho secreto responsável pelo bem estar e pela paz de espírito...
das Dores_ Se eu sou poeta, você é filósofa. Este lugarzinho secreto seria... a sua alma?
das Graças_ O bolso, comadre! Mas pode chamar de alma, se quiser, é uma questão de ponto de vista.
das Dores_ O bolso. O meu bolso é que vai começar a doer se aquele teimoso do meu filho insistir em prestar vestibular. A faculdade que ele quer custa quase R$1000,00 por mês e tem garantia de desemprego certo.
das Graças_ Deixe comigo! Sábado eu faço um panelão de pipocas e sento com ele para assistir ao final do campeonato. Aí eu dou o conselho certo para ele, na hora certa: ‘Quer fazer sucesso e ganhar dinheiro no Brasil? Vai jogar futebol!’
das Dores_Eu quero acreditar que existam outras opções. Infelizmente o meu filho é um tremendo perna-se-pau.
das Graças_ Outras opções de sucesso? Gritar uns palavrões fazendo de conta que é música... balançar o bumbum...se apoderar do alheio...Já sei! Mudar de país!
das Dores_ Estamos pensando nisto. O passaporte da Comunidade Européia meu filho já tirou, graças ao avô português. Aliás, minhas sobrinhas podem fazer o mesmo.
das Graças_ Elas não perceberam a vantagem disto. Vitória inventou de pegar a barca, coitadinha. E a Luizinha...essa gente de teatro você sabe como é, todos uns sonhadores, não dão valor a dinheiro, mas pelo menos se divertem... Luizinha tem muito bom coração, se arriscou a ir lá buscar a irmã...
(barulho de chaves)
das Dores_ Devem ser elas!
das Graças_ Que bom!
(entram Luíza, Vitória, Paulo e João, todos se abraçando, felizes)
Vitória Mamãe!
Das Graças_ Minha filha!
Das Dores_ Vem cá , querida!
João _ Vamos comemorar! Vitória voltou para casa. A noite é de festa!
Paulo_ Trouxemos vinho. Vamos ter aí um jantarzinho especial.
(abraços, beijos. Luíza liga o som. Uma música brasileira bem positiva, é importante que seja alegre e patriótica, como por exemplo: aquarela do Brasil, ou ‘ viver, e não ter a vergonha de ser feliz...cantar e cantar e cantar a eterna beleza de ser aprendiz...’ ou ‘Rio de Janeiro gosto de você, gosto de quem gosta deste céu, deste mar, desta gente feliz’...)
(Vitóra acende a luz)
das Graças_ Apague a luz, Vitória! O jantar é à luz de velas.
Luíza_ É o apagão. Coisas da dinastia dos Fernandos.
Vitória_ O FMI ou o FIM que é a mesma coisa, botou o Brasil de castigo no escuro?
Luíza_ Quem foi não sei mas que é o FIM eu concordo em genero, número e grau com você. FIM da linha. FIM da minha paciência. FIM das minhas esperanças.
Das Graças_ É para melhora a qualidade de vida do povo, meninas. Vocês não sabem das coisas porque não estudaram sociologia. Se as pessoas não podem ver TV elas vão conversar e isto melhora os relacionamentos.
Paulo_ Ou vão transar e aumentar a taxa de natalidade.
Das Dores_ É verdade que os relacionamentos entre homens e mulheres ficam bem melhores à luz de velas.
Das Graças_ Comida feita na hora é mais saborosa e mais barata que aqueles congelados horrorosos. Um freezer desligado também promove um melhor convívio familiar.
Das Dores_ sem contar que comida fresca é mais saudável.
João_ Aposentamos o microondas, sabe-se lá de quanta radiação perigosa este racionamento não nos protege.
Paulo_ Este regime político da dinastia dos Fernandos está-me fazendo emagrecer. Sobem os impostos e meus clientes diminuem, então eu fui aprendendo a economizar. Vou a pé para o trabalho, virei vegetariano que a carne está cara, aboli o açúcar que aumentou muito. Chá amargo e frutinhas...no escuro, então, é uma beleza!
Das Dores_ Bem dizia minha falecida mãe, que Fernando é nome de santo.
Das Graças_ Era o nome de Santo Antônio.
João_ Nome de santo nesta terra é José;
Vitória_ Eu entendi direito ou o nome de Santo Antonio era Fernando?
Luíza_ É até um pecado pensar que Santo Antonio se chamava Fernando.
Vitória_ Não fale mal do nome. Fernando Pessoa foi um magnífico poeta.
Das Dores_ Há Fernandos e Fernandinhos. Fernandinho I, o trapalhão e Fernandinho II, o leiloeiro, só tornaram a barca mais escura e fria e suja. Tanta fila para a barca! (suspira)
(Luíza e Vitória começam a conversar à parte. A música fica mais audível.)
Vitória_ Gosto de nossa música.
Luíza_ A música brasileira é muito interessante.
Vitória (brava) _ Interessante?
Luíza_ Muito. Aliás, de muitos modos, o brasileiro é interessante.
Vitória_ Interessante é rato de laboratório na gaiola.
Luíza_ Vitória!
Vitória_ Interessante é macaco fazendo macaquice.
Luíza_ Como é que é?
Vitória_ Detesto quando dizem que brasileiro é intereressante.
Luíza_ Foi só uma maneira de falar.
Vitória_ Eu me recuso a ser interessante. Prefiro ser digna. Digna, ouviu bem? Reconhecida. Respeitada. Quero meus direitos levados a sério. Quero justiça!
Luíza_ Está bem, esqueça, foi só um comentário. Afinal eu também acho que Einstein foi interessante. Monteiro Lobato foi interessante. Shakespeare foi interessante.
Vitória _ (rindo) Aliás. Luíza, você também é muito interessante...
Luíza _ Também acho. Obrigada.
(Vitória e Luíza continuam conversando à parte, enquanto os demais estão arrumando a mesa para o jantar e começam a discutir)
Paulo_ Deixe o cinzeiro aí mesmo, João. Você sabe que eu fumo.
Das Graças _ Fume lá fora, depois do jantar. Eu sou alérgica à fumaça.
Paulo_ Dane-se a sua alergia. Eu vou fumar e pronto.
Das Dores_ Eta homem egoísta. Não pode ser mais gentil com a sua irmã, não?
Das Graças_ Gentil? Ele está sendo gentil. Bem feito que não comprei rabada para ele.
João_ Você não disse que ia fazer polenta com rabada?
Das Graças _ Fiz polenta com frango. Adoro frango ensopado.
Paulo_ Detesto frango. Você bem sabe disso.
João_ Pelo menos devem ter caprichado na sobremesa.
Das Dores_ Fiz gelatina.
João_ Gelatina? Que sem graça.
Das Dores_ Se não gosta, azar seu.
João_ Vocês deviam ter comprado uma torta de chocolate. Não compraram porque são mesquinhos. Pão-duras. Muquiranas.
Das Graças_ Você é um perdulário. E guloso. Só pensa em comida.
Das Dores_ Paulo, nem pense em fumar, senão vai ter.
Paulo_ Fumo onde quero.
João_ Não na minha casa. Aqui mando eu.
(enquanto rola o bate-boca, todos vão virando as roupas para o lado preto. Os gritos viram resmungos e lamentos enquanto o foco da cena se transfere para Vitória e Luíza. As irmãs vão conversando e os outros vão substituindo a mobília da sala pelos bancos da barca. As irmãs permanecem de costas para a família durante esta troca.)
Luíza_ Mistura de italiano com espanhol dá nisso. Cada conversa desta família parece a Terceira Guerra Mundial.
Vitória_ Espanhol com italiano e português.
Luíza_ E árabe e índio.
Vitória_ Árabe e índio só uma gota de cada.
Luíza_ Uma só gota de sangue índio perdica entre as gerações desta família já faz alguém sair atirando flechas envenenadas com curare.
Vitória_ Também faz alguém pendurar redes gostosas na varanda.
(riem e se abraçam)
Luíza_ É esta mistura que nos torna tão...interessantes.
Vitória_ Interessantes?... é, nós somos interessantes. Sabe, Luíza, lá na barca, eu pensei muito no avô, fugindo da guerra, contando para nós as histórias dos campos de concentração...Irônico, não é, pensar que ele veio para cá em busca de uma vida melhor...
Luíza_ (após uma pausa, pensativa) _ Eu lembro do avô contando histórias do campo de concentração, eu em um joelho, você no outro... E ele dizia que só sobreviveram aqueles que acreditavam na vitória. E por isso ele escolheu o seu nome: Vitória.
Vitória_ Sabe, Luíza, houve uma hora, lá na barca...
Luíza_ Para onde você ia?
Vitória _ Para lugar nenhum
Luíza_ Uma barca tem de ir a algum lugar.
Vitória_ Ou pode afundar. Essa pegou fogo.
Luíza_ Como?
Vitória_ A barca pegou fogo. Foi uma correria, gente caindo, gente se atirando no oceano, e eu nem me mexi. Fiquei lá no meu lugar olhando o fogo e pensando ‘acabou’. Aí alguém achou o extintor de incêndio. Ficou só na fumaça.
Luíza_ Vitória, o avô dizia uma porção de coisas bonitas, você se lembra? Quando ele contava do navio, cheio de imigrantes de toda parte da Europa, ele dizia que o mundo será melhor quando não existirem mais países, quando todos compreenderem que somos todos ‘companheiros de viagem’.
Vitória_ Vovô era um homem que sabia das coisas. (olha para trás) Luíza, cadê os outros?
Luíza_ Oh, não! Que escuro que está! ... A barca! Devem ter ido para a barca!
Vitória_ Luíza, a barca parte hoje! E se eles estã o na barca?
Luíza_ A barca parte hoje? Você tem certeza?
Vitória_ A barca parte hoje.
Luíza_ Mas hoje é o dia do Grande Furacão.
Vitória_ Você tem certeza?
Luíza_ O Grande Furacão passa hoje. É o maior dos últimos mil anos e o primeiro desta magnitude nesta parte do planeta desde a História da Humanidade.
Vitória_ Nós estaremos seguras se mantivermos a calma, pois estaremos no olho do furacão. Deu na televisão.
Luíza_ O mar... o mar não é seguro. Eles não colocariam a barca no mar hoje... colocariam?
Vitória_ Colocariam. E depois inventam aí uma desculpa qualquer...
Luíza_ Dirão que os culpados foram os passageiros, que embarcaram para a ...
Vitória_ Corra, Luíza!
(as duas irmãs correm ‘rampa acima’, paradas no mesmo lugar)
Luíza_ (apontandp_ _ A barca! Lá estão eles! Voltem! Voltem!
Vitória_ Fiquem conosco! Voltem!
Luíza_ Há gente demais, saiam já desta barca!
Vitória_ Olhem para nós! Venham! Venham para casa!
(as duas começam a ‘descer’ a rampa. Começa um forte vendaval)
Luíza_ Voltem! Voltem!
Vitória_ Fiquem aqui conosco! Venham!
(cai o pano)
FIM
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ARMAÇÃO DIABÓLICA
Drama em seis atos
Personagens:
Augusto – A – 50 anos, pai de Lúcia e de Angélica.
Sofia – S – 45 anos, esposa de Augusto.
Lúcia – L – 25 anos, médica.
Angélica – Ang – 18 anos, estudante de jornalismo.
Alencar- Al – irmão de Augusto, fisicamente semelhante, ao redor dos 50 anos.
Fátima – F – 25 anos, filha de Alencar
O carteiro
Cenários –
Sala de estar da casa de Augusto.
Jardim da casa da avó.
Cena I
Cenário – sala de estar
Personagens – Lúcia e Angélica
Lúcia, de branco, está pregando um botão no seu jaleco. Depois, ajeita sua maleta profissional, enquanto conversa com a irmã.
Angélica inicia o ato declamando um poema.
Angélica – (declama o poema):
Ah! Estas noites insones!
Matei minha própria mãe!
Não a de carne, evidentemente!
A outra – cruel, bruxa, madrasta,
Que só existe no interior da gente.
Que mãe é mãe – e nos ama, e muito,
E por amor tanto nos reprime
E desejando nosso bem somente
Erra – e muito – e com a melhor das intenções oprime.
Antes houvesse matado o pai.
A imagem do Grande Pai em minha mente.
E que não foi o pai – foi o ausente.
Ausente do meu cotidiano,
Ausente do corriqueiro, do trivial,
Alheio às questões do dia-a-dia.
Meu pai foi o paizão dos domingos,
Dos sorvetes, das pipocas, da anual ida ao zoológico,
Do caro presente ce Natal.
Papai era um santo homem-
Honesto, trabalhador-
Papai era o Papai Noel
Me acenando com amor.
De longe.
Mas onde,
Quando, este amor?
Em doses homeopáticas de tempo,
Em doses intoxicantes de emoções
- não em qualquer momento -
que a ocasião era especial.
Ah! Estas noites insones!
É o tormento da criança em mim
Esperando pelo Natal.
E esta é uma espera sem fim.
Papai Noel não existe,
É só um sonho bonito,
Mas não em minha mente.
Dentro de mim ele existe,
O anseio demente
De que algum dia – especial –
Se eu bem me comportar,
Ele reaparecerá de repente
E do seu saco mágico irá tirar
A felicidade, um grande amor, coisas que tal.
Nenhum homem no mundo ousaria enfrentar um tal rival.
Lúcia – Angélica, você não acha que está muito crescidinha para estar apaixonada pelo pai? Que tal uma terapia?
Ang – Lúcia, ironias à parte, o que achou da minha poesia?
L – Estou falando sério.
Ang- Eu também. Enviei a poesia para ser publicada no jornal da faculdade.
L – Então, não deixe mamãe ler. Ela pode ficar magoada. E papai também.
Ang – Você não gostou, não é, Lúcia?
L – Bem, é original, Angélica, está... forte. E, você sabe, a verdade dói.
Ang – É, a verdade dói. Eu nunca acerto nos namoros. Encontro todo tipo de defeitos nos meus namorados. Mamãe é quem ganhou a sorte grande. Tem um marido que faz feira, faxina a casa aos sábados, fica à disposição da família aos domingos e traz flores em dia de nada. Papai é um achado.
L – Angélica, você vê perfeição onde não existe.
Ang – Você não gosta do papai? Não acha ele dez?
L – Amo este homem de paixão, mas o pai é humano, e como você mesma diz aí em sua poesia, ele foi o ausente. É isto aí. Ele se mantém em um pedestal, lendo poesias para nós, dando lições de moral quando a gente faz alguma babagem, mantendo a casa, mas, na parte emocional, e na maior parte das horas, é isto aí... o ausente.
Ang – Sabe, Lúcia, quando o papai está por perto tudo parece ótimo, mas os rapazes são tão, tão...
L – Cheios de defeitos? Seres humanos normais, como nós?
Ang – Lúcia, você me faz rir. Conversar com você é melhor que terapia. Melhor até que escrever.
L – Você e Daniel estão durando...
Ang – Seis meses já.
L – está tudo bem? Você não parece muito satisfeita.
Ang – No fundo, estou dando um tempo... eu vou treinando conviver com as chatices dele enquanto não aparecer um melhor.
L – Que horror! É este o clima entre vocês? E você está transando deste jeito?
Ang – Ah, Lúcia, ele não é lá estas coisas na cama.
L – Aposto que você também não. Com este entusiasmo todo...
Ang – Ora, Lúcia, você sabe, eu tenho de arpender as... técnicas...
L – Tesão sem paixão, maninha, não dá.
Ang – Você vai sair, é?
L – Vou trabalhar.
Ang – Que pena! Eu queria tanto conversar com você, sabe, estes papos de irmã mais velha e mais experiente. Lúcia, você acha mesmo que eu sou um caso de terapia, acha?
L – você é tão insegura, tão ansiosa, sei lá...Relaxe! Deixe a vida acontecer, não force a barra. Eu é que não transo com um homem sem carinho e sem afeto. Treinar as técnicas! (com gesto de pouco caso) Sexo animal! (fazendo caretas) Tirar as teias de aranha! Eu, não. eu sei o que quero. Quanto a você, Angélica, de sua vida é você quem cuida.
Ang – Quer saber, Lúcia? Acho que a vida era mais fácil no tempo em que havia regras bem definidas. A mulher casava virgem e o pai escolhia o noivo.
L – Não era preciso pensar. Era só dizer amém. Também não era preciso ser responsável, nem assumir as próprias escolhas. E nem se pensava em ser feliz. Ora, felicidade, era um detalhezinho sem importância.
Ang- Hoje em dia, fodeu errado, dançou.
L – Credo, que jeito vulgar de falar!
Ang – Você é muito puritana.
L – Eu tenho classe. Aliás, seria um desastre eu sentar no consultório e dizer ao cliente: ‘fodeu errado, se ferrou’. Eu prefiro passar uma imagem de compreensão, tolerância e competência. Agora você, se quer ser tratada como dançarina de pagode, capricha aí no ‘fodeu’.
Ang – Ah, Lúcia, eu às vezes me sinto assim um pouco fora de moda, sabe?
L – Moda: artigo de consumo. Consumo – verifique no Aurélio, por favor – gastar, destruir, enfraquecer. Consumista – aquele que some com o produto que consome. O contrário da moda, irmãzinha, é qualidade. Qualidade perdura depois que a moda já se consumiu. Eu sou uma mulher de qualidade. Você é uma mulher de consumo.
Ang – Eu, não.
L – Mulher de consumo , sim que precisa aprender as... técnicas.
Ang – E você por um acaso não aprendeu as técnicas?
L – Aprendo, sim. Eu li num livro.
Ang – E na hora do vamos ver, como é que foi, levou o livro junto?
L – Quer saber? Eu fiz a coisa mais careta do mundo. Segui os conselhos da mamãe.
Ang – Você está brincando.
L – Mamãe tem conselhos bons. Aliás, conselhos ótimos.
Ang – (imitando a mãe) - ‘Seja você mesma.’
L – Exatamente. E ‘deixe o amor se manifestar.
Ang – Esta então é ótima! E as técnicas?
L – Angélica, estas malditas técnicas tem ajudado você?
Ang – Não.
L – Então?
Ang – Então o quê?
L – Então ‘seja mais você mesma’ e ‘ deixe o amor se manifestar’.
Ang – Grandes conselhos!
L – Siga pelo menos uma única regra.
Ang – Qual?
L – ‘Use camisinha – sempre.’
Ang –As outras moças de dezoito anos não são bloqueadas como eu.
L – Elas mentem. Já pensou nisto?
Ang – Nem todo mundo mente.
L – Claro que não. Eu exagerei.
Ang – Aposto que você não tinha problemas sexuais aos dezoito anos.
L – Querida, aos dezoito anos eu me dedicava aos livros. Eu comecei minha vida sexual aos vinte.
Ang – Sério, Lúcia? Porque demorou tanto?
L – Eu não senti vontade de fazer sexo antes. Eu não liguei para o que os outros falavam de mim. Fui eu mesma e aí, um dia, conheci um homem ‘tesudo’.
Ang – Me conta tudo! Com detalhes!
L – Maninha, em matéria de sexo eu sou toda Drummond : ‘o que se faz na cama é segredo de quem ama’.
Ang – (decepsionada) – Você naõ vai me contar?
L –Até amanhã. Está na minha hora.
( Lúcia sai para o plantão. Angélica murmura baixinho: ‘esta é uma espera sem fim...’)
Cena II
Cenário – sala de visitas.
(telefone tocando, ninguém atende. Ruído de chaves na porta. Entram o pai e a mãe).
Augusto – Está vendo, Sofia? Não há ninguém me casa.
Sofia – Devem estar dormindo há muito tempo, Augusto.
A – Pois deviam acordar com o barulho.
S – E você devia respeitar o sono delas.
A – Sono? Ainda não são nem onze horas. Nos dias de hoje os jovens passam as madrugadas plugados.
S – Na Internet, você quer dizer.
A – Não quis dizer, eu disse.
S – Você disse plugados. É completamente diferente.
A –Plugados. Pirados. Ligados. On line. É tudo a mesma coisa.
S – Oh, meu bem, quer por favor falar um português correto? Eu falo questão de que as minhas filhas falem a lígua mãe corretamente. Precisamos dar o exemplo.
A – E eu faço questão de que estas meninas me obedeçam.
S – São mulheres. Uma tem 25 e a outra 18. Só você não percebe que elas cresceram. São adultas, Augusto. A-dul-tas. Como eu e você.
A – vou localizá-las pelo celular.
S – Seria muito bem feiro se alguma delas atendesse e dissesse: ‘alô, papai? Estou aqui no Motel dos Desejos treinando o Võo da Fênix, dá para ligar depois?’
A - Mulher, não seja debochada. Que história é esta de Vôo da Fênix?
S – É aquela posição do Kama-Sutra, depois do Bambu que Balança na Montanha. Esqueceu, amor?
A – Ah, sim, aquela que... era poético o tal livrinho de sacanagem! Deixe eu ver se me lembro: ‘o bastão de jade toca suavemente a pérola à porta do templo precioso’...
S – Largue este telefone, meu amor, vamos fazer algo mais poético, está bem?
A – Jamais! Pensa que eu caio em seus truques? Mulheres! Já percebi! Você está acobertando a fuga de suas filhas.
S – Que fuga, Augusto, você até parece doente. Era um pai tão normal, carinhoso, dedicado, tão bem centrado... de repente virou um ridículo ciumento.
A – Zeloso, Sofia. Zelo de pai.
(Augusto disca seu celular. Na sala um telefone toca. Põe-se os dois a procurar pelo aparelho.)
S – Achei! Debaixo das almofadas do sofá.
A – Esta menina maluca saiu sem o celular? E se precisar de um táxi?
S – Elas não precisam de táxi porque estão dormindo aqui em casa mesmo. Isto é, se não acordaram com toda esta sua gritaria.
A – Vou no quarto olhar.
S – Da porta. Nada de acordar as meninas levantando os lençóis.
A – Elas podem colocar cobertores debaixo dos lençõis. E eu quero ter certeza de que são elas mesmas que estão lá.
S – Francamente! Eu tenho visto você descobrir as meninas até a cintura, isto é doença, Augusto!
A – Doença? Fique você sabendo que eu peguei a angélica de vestido de baile e sapato de salto alto, uma vez em que eu ia saindo para trabalhar e ela chegou tão tarde que não queria que eu soubesse que ela passou a noite fora. Eu não me esqueci.
S – Ora, ela chegou cedo, o sol já estava alto... e foi no baile de calouros, Augusto, este baile só acontece uma vez na vida, amor.
A – Ela tem feito isto outras vezes.
S – Oh, homem impossível! Eu até prefiro que ela chegue em casa com o dia claro, é menos perigoso.
A – Estou perdido. Tal mãe, tais filhas.
S – Ele era o melhor dos pais! De repente, enlouqueceu! Augusto, você foi ao médico como eu pedir, verificar sua pressão?
A – Está alta.
S – Só pode estar alta, você procurando problemas deste jeito. Deve estar esclerosado.
A – (olhando pela porta de um dos quartos) Vou olhar mais de perto.
S – Augusto, deixe sua filha dormir, por favor! (vai para a cozinha)
A – Sofia, as camas estã vazias!
S – Veja se não há nenhum bilhete para nós.
A – Que não aconteça o pior!
S – (voltando da cozinha) Nenhum bilhete na copa. E no quarto?
A – Vou chamar a polícia.
S – Sossegue. Ligue para o namorado primeiro. Ouça. (corre para o outro quarto) Angélica, o que você está fazendo no nosso quarto?
A – Cadê a Lúcia?
Ang – Ai! Que sono! Pai, você tem de parar com esta mania de telefonar a cada meia hora, é um horror total.
A – É para ver se você está em casa. E se não está abusando da Internet. E porque você não atendeu?
Ang – Eu não vou atender, eu sei que é você, e até coloquei o som da campainha no mínimo para não ouvir lá de dentro.
A – Cadê sua irmã?
Ang – Trabalhando, ela tem plantão hoje.
A – Esta é boa. Plantão. Bela desculpa. Pensa que me engana.
Ang – Pai, a Lúcia é maior, formada, assalariada, vacinada e nascida em país livre. Os tempos em que os pais tinham direito de vida ou morte sobre as filhas acabaram, sabe?
S – Quem dera, filha, em alguns países, ainda...
A – Mais respeito, não gosto do seu tom.
Ang – Mãe, quase meia noite, deixe a aula de História para outra hora e, pai, eu também não gosto do seu tom.
A – Gostando ou não, escute e obedeça! Quanto à sua irmã... é hoje que eu pego a Lúcia no pulo. Plnatão, é? Vamos ver. (sai de casa)
Ang – Ué, aonde o pai foi?
S – Não sei. O que você estava fazendo em nosso quarto?
Ang- A TV de vocês é maior. Acabou o filme e eu peguei no sono naquele seu travesseiro delicioso de penas de ganso...
S – Falou bem. Meu. Meu travesseiro delicioso.
Ang – Eu quero um.
S – Eu compro quando encontrar. Aquele você sabe que foi presente de uma amiga.
Ang – Mãe, o pai está insuportável, desconfia de tudo, nem escuta o que a gente fala, o que deu nele, afinal?
S – Você só piora as coisas quando não atende ao telefone.
Ang – Não atendo mesmo. Se eu for ficar atendendo ao telefone, não vejo TV, não ouço música, não faço minha lição e nem durmo. Na terça-feira ele ligou tres vezes durante a madrugada e ainda exigiu que queria porque queria ouvir a voz da Lúcia. Que maluquice. Aposto que ele nem aproveitou a viagem direito.
S – Nem me fale. Houve vezes em que eu fingi que telefonei para casa e disse que estava tudo em ordem, para ele não perturbar demais.
Ang – Você mentiu para ele, mãe?
S – O seu pai endoidou. Não me conta o que pensa. Se ele souber que você transa com o Daniel...
Ang – Se ele perguntar diretamente, eu conto. Detesto mentiras. Estou no meu direito. Ele não me diz mais ‘filhinha caçula predileta’ não pede beijo não abraça e nem sorri direito para mim, o que foi que eu fiz, mãe?
S – Cresceu.
Ang – Que ótimo! Vou tomar chuva para ver se encolho. Ele era um paizão. Quero o amor de meu pai de volta.
S – Paciência, filha. Acho que ele está doente. Pressão alta afeta o cérebro. Vou conversar com o médico dele amanhã.
Ang – Mãe, pode ser grave. Esta história de mudança de personalidade pode ser um tumor cerebral.
S – Credo, Angélica, arruda!
Ang – Leve o pai no neurologista. Ou no psiquiatra, sei lá. Olha, estou tão preocupada que nem tenho saídp tanto de casa para ver se ele acalma um pouco, sabe, mas está muito defícil de viver com ele assim.
S – E eu não sei? Você sabe que hoje nós saímos do teatro antes de a peça terminar? Você bem que poderia ter atendido ao telefone ao menos uma v ez, por sua causa não sei se o velho matou o ladrão ou se o milionário deixou a fortuna para a faxineira.
Ang – Agora é minha culpa você não ter assistido ao fim da peça, esta é boa. Estou órfã de pai e de mãe. Boa noite, Dona Sofia.
S – Durma com os anjinhos, querida. Eu já nem sei o que digo. Se seu pai... se seu pai...
Ang – Abraça forte, mãe. Vamos esperar pelo melhor, ouvir o médico, pode ser só, sei lá , demência precoce.
S – Angélica!
Ang – Esqueça, foi uma brincadeirinha boba. Eu ... vamos dormir, amanhã é outro dia.
S – Graças a Deus!
Cena III
Cenário : sala de estar.
(Augusto e Sofia na sala. Ouve-se o barulho de chaves na fechadura. Lúcia chega.)
S – Pergunte primeiro, querido.
A – Entre, mentirosa.
S – Mantenha a calma.
L – Bom dia.
A – Aonde é que a senhora passou a noite?
L – eu estava de plantão, papai.
A – Escute aqui, mocinha, esta é a última vez que você mente para mim, está entendendo?
L – Não, o que aconteceu?
A – Eu sei muitíssimo bem que você passou a noite em algum baile de Carnaval. E vem aí com esta história de plantão. Sem-vergonha! Vagabunda!
L – Respeito comigo! Respeito é bom e eu gosto.
A – Eu sou seu pai!
L – E eu sou sua filha! Se eu quisesse ir brincar Carnaval, eu iria. Eu diria ‘vou brincar Carnaval’ e sairia a sambar por aí fantasiada. Eu já brinquei muitos carnavais. Sou maior, responsável pelos meus atos e que eu saiba você nunca foi contra bailes nem desfiles e até pelo cotrário nos levava aos clubes e voltava cheio de confetes.
A – Se você pensa que eu vou tolerar o seu deboche, e sua má canduta, sua...
L – Fale o que aconteceu de uma vez!
A – Você é uma destruidora de lares, está tendo um caso co um homem casado.
L – Eu ?
A – Tenho o nome dele aqui. (tira do bolso um papelzinho) E o telefone. Vamos, leia. Quer explicar?
L – Eu sei lá quem é este homem! (afasta o papel sem mesmo olhar) De onde você tirou este nome aí?
A – Você tem se encontrado com este homem. Um homem casado.
L – Você conhece o meu namorado, pai.
A – E isto torna tudo pior. Traidora! Arrumando amantes por dinheiro! Sua interesseira!
L – Você está louco!
A – Diga que não tem se encontrado com ele às escondidas. Que não foi a Porto Alegre com seu amante na véspera do Ano Novo. Que não tem recebido dinheiro para fazer sexo com um homem casado, como uma prostituta!
S – Augusto!
L – Esta foi longe demais!
A – Confesse!
L – Vá para o inferno!
A –Pegue o telefone, ligue para ele e termine esta safadeza agora mesmo, é seu pai que está ordenando.
L – Que absurdo. Pai, o que deu em você?
A – Negue, se for capaz! Eu tenho provas.
S – Que provas, Augusto? Lúia, calma, lembre-se de que é seu pai.
A – Não sou o pai dela. Esta mulher que aí está não é minha filha.
S – Pense antes de falar, Augusto. Não diga nada de que vá se arrepender depois. Calma!
L – Deixe, mamãe. Este homem aí sabe bem a educação que deu para esta vagabunda aqui, que trabalha doze horas aos sábados por ter um amante cheio da grana para sustentar as mordomias dela. Ele tem razão, sim, eu saí daqui na véspera de Natal às nove da manhã dizendo que ia visitar as amigas e só voltei às nove da noite porque perdi quatro horas de vôo, ida e volta para Porto Alegre, mais duas horas de translado daqui até o aeroporto, ida e volta, só para passar uns míseros minutos no Rio Grande, decerto pedindo ao Negrinho do Pastoreio um pouco de bom senso para este miolo mole do meu pai.
A – Você vai levar uma surra.
L – Cale a boca!
S – Augusto, pare!
A – Uma surra de cinta, sua desclassificada, para criar vergonha nesta cara1
L – Toque um dedo em mim que eu coloco você na cadeia. Vou na delegacia da mulher. Vou ao jornal. Levo a mãe de testenunha.
A – Sofia, segure esta vadia. Ela vai apanhar e muito.
S – Chega! Afaste-se de nossa filha!
A – Sofia, saia da frente.
S – Cale esta boca, homem, e abaixe este braço.
A – Esta... esta desmiolada vai pagar pelo que fez!
L – Eu vou embora desta casa.
A – Tranque-se no seu quarto. Daqui você não sai. Vou por um cadeado no portão.
(Augusto sai da sala)
L – Mãe, quer me explicar o que está acontecendo?
S – Seu pai chegou aqui furioso. Ele saiu de noite e foi procurar você no hospital e não encontrou você por lá.
L – Ninguém da Beneficência me disse ter visto meu pai por lá.
S – Então foi isto.
L – Isto o que?
S – Seu pai foi no Ana Costa. Ele se confundiu. Procurou por você no hospital errado.
L – Ele não perguntou onde eu estava trabalhando. Sabe o que mais? Ele só quer um motivo para me agredir. Ele pode até ter ido ao hospital errado de propósito.
S – Lúcia, eu estou muito assustada com seu pai. Ele está agindo de modo tão estranho...
L – Ele tem de ir ao médico.
S – É melhor você sair de casa. Fique uns dias com sua avó. Eu levo algumas roupas mais tarde. Vá.
A – Pronto. Daqui você não sai. Passei o cadeado no portão.
L – Posso pular o portão.
A – O carro fica.
L – Lúcia Fontes está comunicando ao Sr. Augusto Fontes que está indo embora desta casa.
A – Já vai tarde. (Lúcia sai e Augusto grita para fora: ) Esta casa não é um bordel.
(Pausa)
S – Augusto, você percebe o que você fez? É Lúcia. A nossa Lucinha.
A – Eu vou ligar. (olha o papel ). Fique na extensão e ouça quem é a sua Lucinha. Uma criatura do demônio. Uma perdida, é o que ela é.
S – Ligue. Veremos.
(Augusto liga. Sofia pega a extensão)
A – Alô! É da residência do Dr. Zebedeu Matoso de Freitas Neves Mourão?... Ele está, por favor? ... Onde ele está? ... Quem está falando, por favor?... A esposa dele, é? E como é que a senhora não sabe onde anda o seu marido?...Quem sou eu? Eu sou Augusto Fontes, minha senhora, e preciso falar com urgência com o seu marido... Se eu sou cliente? Não, eu não sou cliente... Sei, hoje é Carnaval, mas...não desligue, é um caso pessoal, grave e urgente... é complicado assim por telefone... eu vou explicar. A minha filha é médica... como, o que é que a senhora tem a ver com a minha filha? A minha filha está com o seu marido!.... não, por favor, não chore, não fique nervosa, calma... o seu marido está vivo! O seu marido não morreu naõ, senhora, é que...de que hospital estou ligando?...mas de hospital nenhum, é que...ah. o seu marido já sofreu um infarto....não, não estou escondendo a verdade, não estou escondendo nada,não, pare de chorar, ai, meu Deus do céu, pare de chorar, não vá a senhora ter um infarto também...eu resumo: a minha filha deu-me o cartão do seu marido porque eu perguntei a ela se conhecia um profissional de confiança e o Dr. Zebedeu foi-me indicado pelo namorado dela...eu ligo para o escritório na quinta-feira, e me desculpe, sim?...perdoe toda esta confusão...
S – Berm feito! Esta mulher devia ter infartado do outro lado da linha para castigo seu.
A – Eu vou procurar o Dr. Zebedeu pessoalmente e tirar esta história a limpo. Ou melhor, vou contratar um detetive. Poque é claro que, a estas altuas, a Lúcia já falou com ele, e ele vai negar tudo.
S – Na quarta-feira eu quero que você me acompanhe ao médico. Meu reumatismo já não me deixa dirigir e eu não gosto de pegar táxi. Você vem?
A – está bem, eu vou. Eu não percebi que você está doente.
S – Estou-me sentindo péssima.
(entra Amgélica, vindo da rua)
Ang – Bom dia. (pausa) Vocês vão me contar o que está acontecendo ou eu vou ter de perguntar?
S – Lúcia foi embora.
Ang – Por que?
A – Porque é uma maluca, uma desclassificada, e você está querendo ir pelo mesmo caminho. Mas eu não vou permitir, está entendendo?
Ang – Do que você está falando?
A – De uma cartela de anticoncepcionais que encontrei vazia no lixo e que não é de sua mãe e aliás você escreveu o seu nome na caixa.
S – Augusto, você anda catando no lixo para espionar sua própria família?
A – Não era bem espionando. Era zelo. Zelo paterno.
Ang – Papai, eu sou maior e posso decidir sobre minha vida.
A – Não saindo com um homem por semana. Com vários ao mesmo tempo. Pelo menos a sua irmã tem um único namorado e um único amante.
Ang – Eu não sou uma mulher promíscua. E Lúcia não tem amante.
A – Só de namorados oficiais você já me apresentou aí uns dez. Agora eu abri os olhos. Chega desta farra de desfilar com o marido da vizinha pelo clube...
Ang – O Marquinho?
A – Ah, é Marquinho.
S – Há vinte anos que nós tratamos este rapaz de Marquinho, ele estuda na mesma faculdade da Angélica, é nosso vizinho, que mal há que vão juntos?
A – A Amália viu os dois no barzinho tomando cervejinha no sábado.
Ang – No intervalo do meu treino. Por um acaso, ele é o treinador oficial do time.
A – É uma esculpa eficiente, suponho.
Ang – Pega leve, pai. Quando eu nasci o Marquinho já morava aí ao lado e se nós estivéssemoa a fim de namorar, teríamos namorado quando ele era solteiro, ou você vai dizer que o vizinho é um louco que casa com uma mulher que não ama só para poder ter um caso com a vizinha?
A – Tudo que é proibido é mais gostoso.
Ang- Como?
S – Não confunda as coisas, marido. A Angélica é namoradeira, mas é um de cada vez.
A – Como é que você pode ter certeza?
S – Pergunte a ela.
Ang – Eu me recuso a ser interrogada.
A – Eu vejo entrar um festival de homens nesta casa. É ‘trouxe um livro’, ‘trouxe um CD’, ‘deixo um recado’, ‘vim conversar’, na aparência tudo muito inocente.
Ang – Estou começando a ficar zangada.
S – Calma, filha.
Ang – Calma? Ele expulsou a Lúcia de casa. E agora quer-me expulsar também.
A – Abaixe a voz ao falar comigo. Ou leva um corretivo já. (tira o cinto e coloca-se em frente à porta da rua)
S – Largue esta cinta, Augusto!
Ang – Saia do meu caminho. Eu vou embora desta. (pega uma peça de cristal da mesa de centro e ameaça jogá-la no pai)
S – Angélica, largue esto. É seu pai.
Ang – Que fosse o diabo em pessoa, não me segura aqui nem morta.
A – Você vai aprender a ter respeito pelos mais velhos.
Ang – Saia da frente!
(Augusto avança. Angélica atira o vaso em sua direção. Augusto desvia. O vaso quebra-se e Angélica foge porta afora.)
A - O meu cristal da Boêmia! Legítimo!
(Sofia esconde o rosto nas mãos e soluça)
Cena IV
Cenário: jardim.
Dois ambientes distintos, separados por um caminho e arbustos que impedem a visão entre eles. No da direita, estão Lúcia e Angélica. No da esquerda, senta-se Alencar isolado, pensativo. Sofia entrará pela direita, seguirá pelo caminho do meio e reaparecerá no canteiro da esquerda.
O foco inicial da cena está à direita.
L – Que coisa mais desagradável, este aniversário da vovó. Papai fugindo de nós e mamãe tentando conciliar os dois lados.]
Ang – E Fátima e o tio Alencar se evitando, com cada cara de meter medo.
L – Passou a bruxa pela nossa família.
Ang – Eu não entendi direito esta confusão entre o tio Alencar e a prima Fátima. Afinal, se o pai dela estava viúvo, porque ela não queria que ele casasse de novo? Ela não contou a você?
L – Ela nem fala comigo. Eu conheço a Vânia há anos, ela não se conforma de eu ter aprovado o casamento.
Ang – A mãe disse que a Fátima disse que eles eram amantes enquanto a tia ainda estava viva.
L – Não acredito. A Vânia ficou viúva depois do tio. Eles eram só velhos amigos, ela o elogiava muito, mas era muito apegada ao marido.
Ang – A Vânia não dava em ciima dele, não?
L – A cão de guarda não dava espaço para isto.
Ang – Que cão de guarda?
L – A assistente do tio, a tla Holimnya de nome esquisito.
Ang – Homília? Isto não é coisa de missa?
L – Holimnya.
Ang – Holimia?
L – Não. Holim – nya. N de nada. Nya.
Ang – Holinya?
L – Não. Holim – nya. E se você não pronunciassa o m de Holim... nossa, a mulher virava uma fera.
Ang – Credo. Com um nome esquisito desses, ela ainda exigia que pronunciassem certo? Não era melhor ela arrumar um apelido que toda a gente entendesse?
L – Ela não é normal. Uma vez, li uma cronica muito interessante da Raquel de Queiroz sobre essas pessoas que têm nome esquisito. A Raquel falava de um tal que recebeu o nome de Severiano às avessas, lido de trás para a frente. Ela conta como é interessante que essas pessoas se orgulhem dos tais nomes esquisitos, e que por detrás da inversão ou da esquisitice de um nome venha uma inversão ou uma esquisitice de caráter.
Ang – O nosso país está cheio de gente de nome esquisito e de caráter torto. Principalmente em Brasília.
L – Pois esta tal de Holimnya é esquisita mesmo. Grudava-se no tio. Detestava a Vânia. Não foi ao casamento deles. E armou um barraco quando vagou um cargo na chefia do hospital e o tio nomeou outro e não ela para o cargo. Ficou até doente e pediu transferência, despois de armar um escândalo em regra no corredor.
Ang – Coitado do tio!
L – Mude de assunto. A Fátima vem vindo aí.
(entra Fátima. As primas se cumprimentam)
F – Angélica! Lúcia!
L – O churrasco está ótimo, não?
F – Nem senti o gosto. É horrível estar no mesmo lugar que o papai.
Ang – Credo, Fátima, ele ficou viúvo duas vezes em dois anos. Ele deve morrer de saudades de você.
F – E o seu pai não? Ou vocês pensam que eu não sei
L – Conosco foi o contrário. Meu pai nos expulsou. Eu volto para casa correndo, é só ele chamar.
F – Vocês aprontaram mesmo? O que ele conta de vocês é de arrepiar.
L – Ele me contou histórias de arrepiar a meu próprio respeito. Nem sei de onde ele tirou tanta maluquice.
Ang – Imagine você que ele fantasiou um romance entre eu e o Marquinho.
F – E não é verdade?
L e Ang – Fátima! Como pode pensar uma coisa dessas?
F – Desculpe.
L – Afinal, o que há entre você e seu pai?
F – Ora, você sabe, ele trocou mamãe por esta sirigaita que só quer o dinheiro dele.
L – Seu pai começou a sair com a Vânia depois que os dois estavam viúvos. Conheço Vânia há anos e ela não faz o gênero interesseiro. Você nem ao menos tentou conversar com ela.
F – Eu tenho provas. Essa viborazinha estava armando para o meu pai. Convencendo ele a passar os bens para o nome dela, tirar-me do testamento, coisas assim.
Ang – Seu pai fez isto?
F – Só não fez porque ela morreu antes. Ele não me disse nada mas recebi as informações por cartas.
L – Cartas de quem?
F – Não sei, mas eram de fonte limpa. Primeiro vieram as fotos, e papai não sabe se explicar. Ele dizia ‘festinhas da firma’ e não me convenceu.
Ang- Cartas anônimas?
F – Sim, mas muito convincentes.
(aparece Sofia)
S – Queridas, então aí estão vocês. Desculpe-me, Fátima, eu escutei um pedaço da conversa sem querer e acho que devo saber mais. Desabafe com sua tia, querida. E tentaremos achar a verdade.
F – Tia Sofia, este sgredo está-me sufocando. Eu tenho guardado isso comigo há meses. Imagine a senhora ....
(o foco de luz se extingue gradualmente. Outro foco de luz se acende do lado esquerdo, onde estão Augusto e Alencar.)
A – Então, Alencar, festa difícil de encarar, esta!
Al – Nem me fale, irmão, nem me fale. Em consideração à mamãe, cá estamos nós suportando a presença destas ingratas filhas.
A – Fátima não fala com você?
Al – Nem me deixará ver o neto, pelo jeito. Ela está grávida, me contaram.
A – Eu lhe contei.
Al – Saber que vou ser avô por terceiros, veja só! E olhe que eu nunca a condenei pelas falcatruas em que se envolveu por aí.
A – Falcatruas? Que falcatruas. Alencar?
Al – As cartas ameaçadoras que ela andou enviando para a Vânia, antes de nosso casamento, ameaçando Vânia de morte e outras barbaridades.
A – Você nunca me contou isso.
Al – Eu tinha vergonha de contar estas coisas até mesmo para você. E depois, a Vânia era muito boa, ela escondeu as cartas. Eu descobri todas de uma vez em uma caixa só depois dela falecer. Ela sofreu em silêncio, nunca me contou.
A – Alencar, Fátima é uma moça de bom coração, ela não iria ameaçar ninguém, quanto mais de morte. Isto é absurdo! Ela pode ter sentido ciúme pela mãe, sim, mas ameaçar slguém de morte...não...é muito sério. É coisa completamente diferente.
Al – Ah! Esta juventude de hoje! Veja só suas filhas. Educadas em colégio de freiras e tendo este comportamento abominável.
A – (pensativo) – Alencar, você falou em cartas. (parecendo perturbado) Que cartas?
(Sofia aparece por trás, pára e fica escutando, escondida)
Al – Umas cartas ameaçadoras que Vânia recebia. Antes de a gente se casar Vânia me mostrou uma destas cartas, em que Fátima dizia conhecer uns segredos de Vânia, umas bobagens. Como se eu não conhecesse Vânia há mais de vinte anos. Eu pensei que só existisse esta carta, mas, depois do enterro, descobri uma caixa cheia delas.
A – Eu também recebi cartas...sem assinatura.
Al – E tem mais. Há duas semanas recebi outra carta, falando de Fátima e de como ela tramou a morte de Vânia, para que parecesse natural, uma carta muito, muito esquisita.
(Sofia aparece)
S – Eu ouvi a conversa de vocês e acho que esta história de cartas deve ficar muito bem explicadinha.
A – Que coisa feia, Sofia, espionando atrás dos arbustos.
Al – Sofia, estou absolutamente perplexo. Você não era bisbilhoteira.
S – Não sou bisbilhoteira. Sou sua mulher, Augusto, mãe de Lúcia e Angélica, sou tia de Fátima, que tenho certeza, é tão boa quanto minhas filhas, e sou sua amig, Alencar. Estou sofrendo por todos. Mas sei de uma coisa que vocês não sabem. Acabei de saber que Fátima anda recebendo umas cartas...
Al – Cartas?
A – Cartas anônimas, suponho.
(enquanto a luz se extingue, os três se envolvem em animada conversação)
Cena V
Cenário: sala de estar.
A – Sofia, quer explicar por favor o que estes livros andam fazendo espalhados pela sala?
S – Eles só estão por aí, ora.
A – Mulher, você não é nada sutil. Eu sei que você não é nenhuma fanãtica por teatro, nem é especialmente admiradora de Shaekespeare, e eu sou um pouco observador, sabe?
S – Não diga!
A – Você quer que eu perdoe as meninas e peça para elas voltarem para casa. Como se não houvesse acontecido nada.
S – Talvez não tenha mesmo acontecido nada.
A – Porque você não acredita que as cartas sejam verdadeiras.
S – Alencar e você deviam comparar as cartas.
A – Bobagem. É outra pessoa.
S – Foi só uma coincidência, então. Tem cartas anônimas demais para pouca família.
A – (pegando os livros, um a um) – Primeiro, vejamos, foi...Otelo. Uma dica sutil para acusar seu marido de possessivo e ciumento. Depois, Rei Lear. O pai que julgou mal suas filhas. Menos sutil ainda. Isto é propaganda subliminar, querida? Você precisa ser mais elegante para atingir um homem inteligente como eu. Este último livro, então, é rídiculo. A Tempestade. A história de Próspero, que perdoa a seus inimigos. Eu não sou tão generoso.
S – Espero que seja.
A – Eu não vou chamar minhas filhas desmioladas aqui e fazer uma cena de perdão. Eu não sou assim...tão fraco. ‘quando a cabeça não pensa, o corpo paga’. Elas se comportaram mal. Que assumam.
S – Eu não acredito que você nem ao menos pergunte por suas filhas.
A – Elas me envergonham.
S – Você não é o único que está sofrendo. Homem egoísta.
A – (dá de ombros)
S – Angélica publicou uma crônica no jornal da faculdade, uma crônica de cortar o coração. Chama-se ‘Infância’. (pega um jornal no porta-revistas)
A – Não me interessa.
(Sofia joga o jornal em cima da mesa e sai. Augusta disfarçadamente lê com o canto dos olhos. Angélica aparece fora do cenário, fica iluminada pelo foco de luz e declama o texto a seguir)
Agora sei em que momento do caminho aconteceu o desastre.
Não teria a menor importância, dito por outra pessoa. Outro homem que dissesse tal absurdo, eu teria rido, dado de ombros e edo embora, sem maiores consequências.
A minha vida, contudo, se resumia a ele, meu mentor, meu herói, meu ídolo. Em sua presença eu me transformava, eu me sentia mais eu. Bela. Especial.
Quando ele estava por perto, eu era feliz. Um magnífico futuro estava à minha espera, bastando que eu estendesse a mão e me apoderasse do que era meu por direito.
Isto foi antes que ele dissesse, de repente, com desprezo:
‘Tu não passas de uma mulher’
Parti-me em cacos, arremessada para fora do Olimpo por meu Zeus majestoso, eu, que imaginava ser sua Palas-Atenéia; eu, simples mortal à procura de Pégaso.
(apaga-se o focos sobre Angélica, que sai de cena. Sofia retorna)
A – (disfarçando) Eu tenho de reconhecer: a garota tem estilo.
S – Francamente, marido, estou surpreso em saber que você foi capaz de esconfer estas cartas. Alíás. Estou surpresa em saber que você pôde acreditar em cartas anônimas.
A – Sou capaz de apostar que você teria feito o mesmo.
S – Eu? (percebe-se que vai dizer um veemente não mas repentinamente se enolhe, afasta-se e sua voz vacila) Eu... tem razão.
A – Que foi?
S – Nada...
A – Por quê uma pessoa acusaria a outra, com provas e tudo, se não fosse verdade?
S – Às vezes é melhor a gente fazer de conta que não conhece a verdde para salvar um relacionamento. As mulheres sempre fazem isso. (enquanto fal, Sofia retira alguns papéis de uma gaveta)
A – Sua voz está muito esquisita, Sofia. O que é que você tem aí?
S – Uns papéis que vou jogar fora. Não vale a pena você se preocupar com isso. Eu já te perdoei.
A – Deixe-me ver isso.
S – Por favor, não.
A – Sofia!
S – eu já desculpei você, querido. Eu entendo. Afinal, você é um homem na idade do lobo.
(Augusto tira os papéis de Sofia à força. Lê e fica espantado. Sofia, de costas para ele, esconde o riso)
A – Isto é mentira.
S – É claro, você não iria mesmo confirmar uma coisa dessas, eu finjo que acredito.
A – Finge que acredita?
S – Eu já perdoei mesmo.
A – É tudo mentira, Sofia, entendeu? Mentira!
S – Porque você não chama suas filhas?
A – Sofia, escute, não mude de assunto, isto tudo é mentira.
S – E as fotos...eu faço de conta que não vi.
A – (à parte) Eu não fiz nada disso. Eu nunca fiz nada como isso. São truques fotográficos. Esta foto aqui foi uma brincadeira inocente de um amigo secreto. E esta aqui é uma montagem. Uma montagem de computador até que bem mal feita. Que lixo! E minha mulher acredita que eu sou este...este...este...canalha? (para Sofia) Uma grosseira, enorme e cruel mentira. Você não percebe, Sofia? Eu estou sendo vítima de...cartas anônimas!
S – Não se justifique, Augusto. Eu já disse que perdoei você. A gente recomeça nosso casamento aqui.
A – Dane-se! Eu não quero ser perdoado.
S – Não?
A – Não. Perdão não serve. Isto é uma injustiça!
S – E o que é que você quer, então?
A – Quero que você acredite em mim. Que jogue todas estas malditas cartas fora.
(Augusto senta-se no sofá, chorando. Sofia vem para a frente do palco e rasga as cartas)
S – Augusto, eu nunca creditei em uma só linha destas cartas bobas.
A – Não acreditou?
S – Claro que não.
A – Então, porque não disse logo?
S – Como é falar a verdade e perceber que os outros não acreditam em você?
A – É horrível. Eu passei pelo inferno. Eu ....Sofia, você fez isto de propósito.
S – (acena afiramtivamente)
A – (para si mesmo, de frente para a platéira) O que foi que eu fiz!
S – Que tal chamar as meninas?
A – Que tolo que eu fui! Burro!
S – Não se culpe demais, querido. Todos cometemos enganos. O importante é consertar logo este horrível mal-entendido.
A – Deus meu! Um pai não pede perdão aos filhos. Eu dizendo que não iria perdoar, e quem tem de pedir perdão sou eu!(chora)
S – Como pôde mudar tanto, Augusto? Como pôde ficar tão cego e agir de forma tão cruel?
A – Olhando para trás, agora...foi como se um demônio me possuísse, me saltasse dentro do peito e me virasse pelo avesso...(começa a folhear os livros) Quando um homem se deixa dominar pelas emoções ruins, sua vida e a de seus entes queridos vira um inferno...mas nisso temos escolha..como seres humanos, racionais, evoluídos, podemos dominar nossas emoções...
S – (concorda)
A – Que isto me sirva de lição, Sofia, para que eu não torne a ser injusto com ninguém. Sofia, acho que você escondeu as meninas atrás da porta e está esperando a deixa para chamar... chame logo!
S – Elas não estão atrás da porta. Mas vou chamar.
(Sofia pega o telefone. Augusto interrompe o gesto e a abraça)
A – Como pôde ficar aqui a meu lado durante estas semanas horríveis, Sofia, sabendo o tempo todo que eu estava errado?
S – Eu acreditei que você ia recuperar a razão, cair em si, perceber todas as tolices que fez e disse e voltar ao normal, a se o homem de bom senso com que me casei.
A – Que mulher fantástica você é, Sofia!
(abraçam-se)
Cena VI
cenário:sala de estar
todos estão comparando cartas.
F – Não consigo acreditar em tamanho ódio a toda uma família. Por quê?
L – A pergunta é: quem?
Al – Eu e Augusto cahegamos à conclusão de que foi minha ex-assistente.
Ang – A tal Homília de nome esquisito?
L – A tal da personalidade torta que nem o nome. (à parte, para Angélica) – Espera que toda esta confusão tenha tido um efeito positivo sobre você;
Ang – (para Lúcia) Como assim?
L – Quebrou-se o pedestal do pai perfeito.
Ang – Quebrou-se meu coração.
L – Ótimo. Coração foi feito para ser quebrado mesmo. Um coração quebrado fica aberto para a vida. E pelas rachaduras vão-se as ilusões.
Ang – Que poético... Pena que eu me sinta toda em cacos.
L – Eu ajudo a colar os pedaços. O papai também está aos pedaços, já pansou nisso?
Ang – Que olhar ele tinha quando foi nos buscar! Nunca esquecerei aquela expressão.
L – Espero que você tenha cortado seu cordão umbilical. Eu nunca vi isso, ter um cordão umbilical ligado ao pai!
Ang – Eu faço questão de ser original.
L – Vamos abraçar o papai?
(Lúcia e Angélica abraçam Augusto, uma de cada lado. Ele as beija)
F – Espere aí, não faz sentido. Pelo meu pai, sim, mas, o que o tio Augusto tem a ver com isso? Não entendi.
Al – Faz sentido, sim.
S – Explique, Augusto.
A – Ora, Alencar!
Al – Agora não tem mais importância. A Ho – ho..andou aí arrastando a asa para os lados do Augusto quando a Sofia estava na Alemanha. Ela fez e aconteceu e o Augusto a ignorou por completo. Ela estava resolvida a casar-se com o Augusto naquela ocasião.
L – Meu pai já era casado.
Amg – Com a mamãe em Berlim, esse era um mero detalhe.
S – Você não me contou.
A – Uma bobagem destas! Você precisava de tranquilidade para terminar sua tese de mestrado.
F – Esta mulher é doente, mesmo.
Ang – Se houvesse um terceiro irmão Fontes, ela iria atacar de novo.
Al – Nós precisamos estabelecer um plano de batalha.
A – Vamos direto para a polícia. Cadeia é o que esta mulher merece.
L – Meses e anos de tribunal e nós às voltas com testemunhos, inquéritos, audiências.. Sem contar que estes processos se arrastam por anos e podem terminar em nada.
S – Lúcia tem raízes, este é o país da ‘pizza’
Al – Sempre podemos obter uma indenização por danos morais.
A – Cabe uma demissão por justa causa?
Al – Já foi feito.
Ang – Qual a justa causa?
Al – Calúnia. Denegrir a imagem de um colega de trabalho. A autoria das cartas foi fácil de comprovar, ela deixa impressões digitais nítidas.
F – Estar desempregada é pouco como castigo.
A – (à parte, para Sofia) – Você que gosta de me atirar Shaekespeare pela casa, vá buscar a Comédia dos Enganos.
S – Há outra peça mais apropriada, amor.
A – Qual?
S – Bem está o que bem acaba.
A – Muito bem dito.
Ang – Eu achava tão brega os finais felizes.
L – Pois eu adoro os finais felizes. Os fiscais infelizes ficam bem é nas tragédias gregas. Ainda bem que sou moderna. Podemos começar o nosso drama com um ‘ai de mim!’ e virar o jogo no meio do espetáculo.
Ang – Pois eu desafio você a encontrar logo um final melhor.
L – Quer saber, tenho uma idéia de gênio para a vingança.
S – Filha, não me alegro com este seu modo de falar. Não quero ver você rebaixada ao nível dela.
L – Mamãe, até você vai gostar e aprovar.
S – Duvido.
Ang – O que é?
F – Eu gostaria de deixá-la tiririca de raiva.
L – Ela vai ficar tiririca de raiva. Garanto.
Al – Estou curioso. O que você imaginou?
A – Confesso que não sou santo e quero ver esta tal sofrendo bastante.
S – Esta família nunca mais vai ter paz de espírito?
L – Você nem ouviu ainda, mãe.
Todos – Pois fale logo de uma vez.
L – A melhor vingança... a pior coisa que podemos fazer para ela... é o que ela mais detestaria ver no mundo.... é ficarmos juntos e felizes.
A – Só isso?
F – Isso é demais. É a melhor vingança possível.
Al –Muito bem falado, minha sobrinha.
(grande algazarra. Pegam taças, uma garrafa de vinho e brindam alegremente)
S – Viva nossa família!
F – Mais unidos do que nunca antes!
Ang- Ao futuro!
L – Ao presente de paz e harmonia!
Todos – Viva! Viva!
(toca a campainha. Silêncio. Angélica abre a porta. Entra o carteiro)
carteiro – Bao tarde! Eu tenho uma carta aqui um tanto estranha. Esta endereçada a “alguém da família Fontes” e não traz remetente....
(fogem todos. O carteiro fica a olhar espantado. Cai o pano)
FIM
**************************************
E OS DEUSES DESPENCARAM DO OLIMPO
COMÉDIA EM 5 ATOS
PERSONAGENS :
Zeus – o maior dos deuses do Olimpo, com coroa na cabeça e raios nas mãos.
Ganimedes – o copeiro dos deuses, moço e bonito.
Hermes – mensageiro dos deuses, com asas no capacete.
Asclépio ( traz uma bolsa à cintura, de onde poderá tirar um remédio, em cena) – deus da Medicina
Dionísio ( traz sempre consigo um ode de vinho e canecas numa sacola que carrega a ombro) – deus do Vinho
Eros – deus do Amor
Todos os personagens a seguir, caracterizados de forma moderna, de acorda com o local onde é encenada a peça:
Garçon
1° rapaz -
sua esposa
seu filho
2° rapaz
grupo ( 2 ou 3 casais de jovens)
bêbedo – descalço, sujo, rasgado, de aspecto decadente
CENÁRIOS :
Cenas ! e V - Sala do trono de Zeus
Luxuosa, com um trono ao centro, entre colunas gregas ‘de mármore’, objetos de arte, tapeçarias com temas gregos, flores, amplo terraço com vista para o céu.
Cenas II , III, IV - Parte de uma cidade , praça à esquerda, bar de esquina à direita, com mesas na calçada, vista urbana ao fundo
I ° ATO
Cenário : sala do trono de Zeus
Zeus - Basta! Estou farto! Eu não vou mais permitir esta discussão aqui no Olimpo. Se eu pudesse, pegaria um de meus raios e - zás! - fulminava estes estes dois desordeiros. Mas os meus raios só funcionam contra os mortais.
Ganimedes - Zeus, Senhor do Olimpo, eis o néctar e a ambrosia, a bebida e a comida dos deuses.
Zeus - Que é isto, Ganimedes? Desde quando você precisa ficar aí explicando o que é bebida e o que é comida?
Ganimedes - É porque pode haver alguém na platéia que não conheça o néctar, a divina bebida, e a ambrosia, a comida dos deuses do Olimpo.
Zeus - Como assim? Deuses do Olimpo? Não existem outros deuses. E que história é esta de platéia?
Ganimedes - Estes mortais que estão aí nos espiando.
Zeus - Ganimedes! Aonde você pensa que estamos? Em algum teatro? ( para a platéia) Que ninguém se atreva a espiar os deuses! O último mortal que apareceu por aqui, um tal de Tântalo, eu o precipitei montanha abaixo até o inferno, aonde ele sofre suplícios eternos para castigo de sua impiedade. Mergulhado até o queixo em um rio de águas cristalinas, não consegue jamais saciar a sua sede; frutas deliciosas balançam - se nos galhos acima das águas, mas ele não consegue jamais aplacar a sua fome, pois a água e a comida sempre se afastam de seus lábios quando ele se aproxima. Ah! Ah! Ah! Eu sou mesmo cruel. Ah! Ah! Ah! Que ninguém se atreva a espiar - me, ou será fulminado por um raio!
( Zeus come e bebe ; devolve a bandeja a Ganimedes. Este retira - se. Entra Hermes.)
Hermes - Zeus, Senhor do Olimpo, seu mensageiro cumpriu as suas ordens.
Zeus - Enfim! Onde estão eles?
( Asclépio e Dionísio entram em silêncio e fazem uma rápida e descuidada reverência a Zeus; colocam - se em cantos opostos do palco. Zeus faz um sinal a Hermes, que se retira. )
Zeus - Asclépio! Dionísio! Não suporto mais suas brigas. Exigo uma explicação.
Dionísio - Esse aí se acha muito importante. Fica dizendo que é ele que traz alguma alegria à miserável vida dos mortais.
Asclépio - Dionísio acredita que o vinho é o maior consolo dos homens. Não percebe o mal que faz. Dionísio ensinou aos homens como fazerem vinho a agora eles vivem bêbedos e doentes e eu é que tenho de acudí - los.
Dionísio - O vinho traz alegria aos homens. No doce torpor do álcool eles esquecem as suas amarguras. O vinho é o grande consolador.
Asclépio - É a minha ciência e arte que traz alívio a suas dores. A medicina é o grande consolo.
Dionísio - O vinho! O vinho faz rir e dançar.
Asclépio - A medicina equilibra o espírito e o corpo.
Dionísio - Sem o vinho, a vida seria insuportável.
Asclépio - Loucura!
Dionísio - Um pouco de loucura faz bem.
Asclépio - Mas em excesso...
Dionísio - Em excesso, até remédio faz mal.
Asclépio - É a medicina que traz consolo às dores da humanidade.
Dionísio - É o vinho.
Asclépio - É a medicina.
Dionísio - O vinho.
Asclépio - A medicina.
Zeus - Basta! Diionísio, deus do vinho! Asclépio, deus da medicina! É minha vontade que ambos sejam banidos e só retornem quando finalmente descobrirem a resposta à pergunta : Qual é o grando consolo dos homens? QUE DEUS PODE TORNAR FELIZ A MISERÁVEL EXISTÊNCIA HUMANA?
Asclépio - Como?
Dionísio - Mas...
Zeus _ Sumam da minha frente!
( Ouve - se um estrondo, como um trovão. Asclépio e Dionísio rolam por terra)
fim do 1° ato.
2° ATO
Cenário - cidade
( Dionísio e Asclépio aparecem na praça, rolando, aos gritos.)
Dionísio - Ai! Que desgraça nos aconteceu!
Asclépio - Expulsos! Por sua culpa!
Dionísio - Minha culpa? Ora, se você se limitasse a seus chazinhos e poções, se não se metesse a importante...
Asclépio - Se você se limitasse a tocar flauta pelos bosques...
Dionísio - Psiu! Olhe!
( Entram dois rapazes na bar e sentam - se a uma das mesas na calçada.)
Dionísio - É a oportunidade que eu queria para provar que estou certo.
Asclépio - Isso eu quero ver.
Rapaz 1 - Como é difícil abandonar a bebida.
Rapaz 2 - Bota difícil nisso. Devemos ser fortes e tentar levar uma vida normal.
Rapaz 1 - Garçon , dois cafés.
Rapaz 2 - Como é duro não poder tomar nem um gole. Nem um calicezinho assim de licor. Nem um copinho de cerveja.
Rapaz 1 - Aí é que mora o perigo - no primeiro gole.
Rapaz 2 - Já estou há seis meses sem beber. Tem sido uma tortura.
Rapaz 1 - Eu não bebo há dois meses. Se não fossem as reuniões dos AA já teria voltado aos bares. Já mostrei a você o retrato de meu filho?
Rapaz 2 - Parece um garoto esperto. Que sorrisão bonito.
Rapaz 1 - É que era aniversário dele. E eu estava lá com ele. Foi o primeiro aniversário que e passei com ele. Na verdade foi a primeira vez que o pai bêbedo não estragou o aniversáiro dele.
Rapaz 2 - Olhe aqui, esta é a minha esposa. Nós estamos pensando em ter um bebê.
Rapaz 1 - Vocês ainda não tem nenhum, é ?
Rapaz 2 - Já poderíamos ter, já estamos casados há quatro anos.
Rapaz 1 - E então ?
Rapaz 2 - A Belinha jurou que só se arrisca a engravidar se eu largar a bebida. Eu só entrei para os AA porque ela me encostou na parede : ou largo a bebida ou ela me larga.
Garçon - Olha o café chegando.
Rapaz 1 - Você já conseguiu, companheiro.
Dionísio - ( traz nas mãos um garrafão de vinho, ou melhor, um ode, e canecas) - Boa tarde, rapazes! Aceitam um vinho?
Rapaz 2 - Quem é esse cara?
Rapaz 1 - Eu não conheço. E você?
Dionísio - Bom vinho, rapazes. Provem. Ah! Que delícia!
Rapaz 1 - Que cor! Parece um rubi. Cheiroso...
Rapaz 2 - Está louco ? Fora daqui! Suma!
Dionísio - É de graça. Provem.
Rapaz 1 - Jesus, Maria Santíssima, afastem de mim esta tentação. É um obsessor.
Rapaz 2 - você acha que é um espírito? Que não é gente de verdade?
Rapaz 1 - Olhe só as roupas dele. Não é Carnaval nem nada. Isto lá é roupa de cristão?
Dionísio - Cristão? Que é isto ?
Rapaz 2 - Ai, que estou todo arrepiado. Eu que nunca vi um espírito nem nos meus piores porres.
Rapaz 1 - Um amigo meu, que é espírita, me explicou que os espíritos obsessores ficam em volta dos alcoólatras para sentirem os vapores do álcool.
Rapaz 2 - Espere aí! Nós estamos tomando café. Só se ele veio cheirar café.
Rapaz 1 - Será que ele é viciado em café?
Rapaz 2 - Seu espírito, quer um pouquinho?
Dionísio - É muito cheiroso, mas eu só bebo vinho. Provem.
Rapaz 2 - Bem, provar só não deve fazer mal...
Rapaz 1 - Espere, nós nem sabemos quem ele é. Quem é você?
Dionísio - Sou o deus do vinho.
Rapaz 2 - Um deus!
Rapaz 1 - Ele se faz passar por Deus. Então é o próprio diaba em pessoa.
Rapaz - O demônio? Você acha?
Rapaz 1 - Quem mais se faria passar por Deus?
Rapaz 2 - Vade retro, te esconjuro! Jesus, Maria Santíssima! Bem que o pastor me avisou que o demônio ia vir disfarçado me atentar. Que eu tinha de vender minha casa e dar o dinheiro para a igreja para comprar a minha cura, a minha paz de espírito e garantir a salvação de minha alma.
Rapaz 1 - E você vendeu?
Rapaz 2 - Não sou louco. Aonde é que eu ia morar? A Belinha me matava. Eu abandonei a igreja e procurei os Alcoólicos Anônimos.. Mas que o pastor me avisou, me avisou : “o diabo vai perseguir você se você não ouvir a voz de Cristo”.
Dionísio - Quem é este Cristo ?
Rapaz 1 - Ele não conhece o Cristo. É sinal de que esse cara é o demônio mesmo.
Dionísio - Afinal, vocês vão ou não beber comigo?
Rapazes - Não!
Dionísio - E posso saber porquê?
Rapazes - ( juntos, cantam a música do :
“ Eu era um bêbedo........ eu vivia drogado....hoje estou curado... encontrei Jesus.....Na casa do Senhor não existe Satanás... Xô , Satanás...Xô, Satanás!...Xô, Satanás!...Xô, Satanás!”
( ao final, aos gritos de Xô, Satanás!, saem correndo atrás de Dionísio, para enxotá - lo. Asclépio rola no chão de tanto rir.)
fim do 2° ato
3 ° ATO
Cenário - há um grupo de jovens dançando a dança de garrafa na calçada em frente ao bar. Dionísio e Asclépio entram pela praça, em roupas modernas.
Asclépio - Que roupas duras. Não posso me mexer direito.
Dionísio - Como é que alguém pode dançar com este negócio apertado? Acho que nem dá para correr com isso, sem rasgar as costuras.
Asclépio -Pelo menos ficamos parecidos com as pessoas deste lugar. Aonde será que estamos?
Dionísio - Você acha mesmo que foi por causa da roupas que tentaram bater em mim?
Asclépio - Você ouviu. Eles pensaram que você era um espírito.
Dionísio - Olhe ali, que turminha animada! E as roupas que eles usam são mais soltas, embora sejam horríveis. Este povo tem um mau gosto para se vestir! Mas, agora, posso provar a minha teoria.
Grupo - “ ....ela gostou do rala - rala, ela agora só quer ralar... vai ralando na boquinha da garrafa... é na boca da garrafa...”
Asclépio - De onde vem a música? ( olhando o rádio ou o toca - discos) Que interessante! Uma caixa que canta!
Dionísio - Olá, pessoal! Vejo que são amigos da garrafa.
Grupo, pessoas do:
1 - Ih! Sujou!
2 - Lá vem mala!
3- Quem é a figura?
Dionísio - Provem do meu vinho. Ah! Que delícia!
Grupo, pessoas do - 4- Qual é a tua, ó meu rei?
Dionísio - Vamos dançar, cantar e rir. Viva a alegria! Vivo o vinho!
Grupo - 1 - O cara pirou de vez.
2- Vamos comprar uma garrafa que ele vai embora.
3 - Quanto é?
Dionísio - Nada, é de graça.
Grupo - 1- De graça, é? Aí tem....
2- Some daqui, some.
3 - Desaparece do pedaço.
4 - Ninguém aqui é bobinho, sacou ?
Dionísio - Espera aí, moçada! Querem explicar? Eu lhes dou vinho de graça e vocês não querem?
Grupo - 1 - Galera, vamos mostrar que não somos trouxas.
2- Mas na boa, na música. Que o povo aqui é de paz.
3 - Falô, irmão. No “rap”.
Dionísio - Provem, vamos. Ah!
Grupo - ( dançando funk) : “ Eles querem que você fume.... Eles querem que você beba... Eles querem que você se drogue.... Eles querem ver você escravo... Diga não ...Diga não ...Diga não...”
( dançando, o grupo toma ares ferozes e vai empurrando Dionísio para fora da cena. Asclépio fica em primeiro plano, rolando no chão de tanto rir. )
fim do 3° ato
4°ATO
Cenário - o mesmo da cena anterior, mas só a praça está iluminada.
Asclépio - Não tenho a menor idéia de onde estamos. Mas já uma coisa : nesta terra o Dionísio não é lá muito popular Ah! Ah! Ah! Mas também não vi templo nem estátua de deus nenhum. Nem mesmo uma estátua do poderoso Zeus. Nem da vingativa Hera, e essa não é uma deusa que deixe passar assim em branco um esquecimento desses. Hera é vaidosa, exige suas homenagens. Só umas cruzes pontudas como a cruz do deus desconhecido, e olha que o deus desconhecido não era lá muito levado a sério pela maioria do povo.... era assim mais uma garantia, sabe como é?... Em meio a tantos deuses, de repente era possível um pobre mortal esquecer de algum e aí.... era fulminado por raio de repente... (pensa) Mas se eles já conhecem o deus desconhecido, isto quer dizer.... que nós estamos no futuro!
( entra o bêbedo cantando : “Ninguém me ama, ninguém me quer...ninguém me chama de meu amor... a vida passa, eu sem ninguém...”. Começa a soluçar baixinho. Pelo outro lado, entra Dionísio, assustado, a olhar para trás, para ver se não é seguido. Tomba com Asclépio , perde o equilíbrio e cai.)
Asclépio - Dionísio, descobri aonde estamos.
Dionísio - No país mais triste do mundo. Não há muito sol nem muito verde por essas ruas e as casas quase nem tem jardim. Os muros são altos e há grades e portões trancados por toda parte. Ninguém canta, ninguém dança, ninguém ri, ninguém bebe.
Asclépio - Ué, mas aqueles jovens estavam dançando e cantando. ( Dionísio dá de ombros) Ah, é que você só conhece a alegria dos bêbedos. A alegria saudável, para você, não é alegria.
Dionísio - Você disse que descobriu onde estamos?
Asclépio - No futuro.
Dionísio - Grande descoberta! Brilhante raciocínio! Até um mortal já teria percebido que estamos no futuro.
Asclépio - Nem vou dizer que não estamos na Grécia.
Dionísio - Ah! Ah! Ah! como você é inteligente, Asclépio!Ah! Ah!
( o bêbedo dá alguns passos, delirante. Pode estar usando camisetas cm dizeres do tipo: “A bebida está me matando. Ao menos morro por uma boa causa.”)
Dionísio - Vai vinho aí, amigo?
Bêbedo - Eles vão me comer, eles vão me comer, socorro, socorro, eles estão atrás de mim!
Asclépio - ( com autoridade) - Engula isso.
Bêbedo - Quem é você? Que é isso? Está vendo os bichos? Estão por toda a parte, milhões, milhares de bichos, vão me comer...
Asclépio - Calma. Sou médico. Confie em mim. Tome isso.
( o bêbedo engole, faz uma careta e cai )
Dionísio - Você o matou.
Asclépio - Que idéia! Eu, Asclépio, o deus da medicina, matar alguém? Eu venço a morte. Você bem sabe que Hades, o deus dos mortos, foi queixar - se dos meus remédios a Zeus, pois já não morria mais ninguém, e Zeus proibiu - me de ressuscitar os mortos.
Dionísio - Ah! Ah! Ah! Ele fez churrasquinho de você. Pegou um de seus poderosos raios e - Zap! - fulminou você.
Asclépio - É verdade. E depois transformou - me em um deus e me levou para morar no Olimpo. Agora, você, que só apronta confusão, tem de morar lá em baixo, misturado com os mortais...
Dionísio - Eu sou bem feliz com os mortais, na minha amada ilha.
Asclépio - Eu dava remédios aos mortos e eles retornavam à vida, e o que é mais importante, retornavam com saúde. Ninguém quer viver com dores, fraco, esquecido ou ... louco como este pobre bêbedo.
Bêbedo - ( abrindo os olhos) - Foram embora.
Asclépio - Não, estamos aqui.
Bêbedo - Os bichos foram embora.
Dionísio - Aceita vinho?
Bêbedo - Pra que?
Dionísio - Para ficar alegre.
Bebêdo - Alegre! Minha Marieta era a única que me deixava alegre. E ela fugiu com o vizinho.
Asclépio - Quem é Marieta?
Bêbedo - Minha esposa. Ela foi embora. Eu fiquei desempregado... perdi tudo o que tinha...ela não ia ficar passando fome com um fracasso como eu.
Dionísio - Beba, ajuda a esquecer.
Bêbedo - Eu nunca vou esquecer Marieta. Nem toda a bebida do mundo me faria esquecer que sou um fracassado. Sou covarde até para me matar.
Asclépio - Você precisa de tratamento médico.
Bêbedo - Já inventaram remédio para fracasso? Dá aqui esta garrafa, eu sou um traste, mesmo.
( o bêbedo sai de cena bebendo e cantando : “...vim pelo meio da noite de fracasso em fracasso, e hoje descrente de tudo me resta o cansaço... cansaço da vida.... cansaço de mim... velhice chegando e eu chegando ao fim...”
Uma breve pausa após sua saída. )
Asclépio - Quero voltar para o Olimpo.
Dionísio - Estou confuso. Se o vinho não traz felicidade e consolo aos mortais... se a saúde não traz felicidade e consolo aos mortais... ( para a platéia ) Vocês sabem, afinal, qual é o deus que pode tornar feliz a miserável existência humana?
Asclépio - Titio, você acha que o vovô estava falando sério? Ele será capaz de nos deixar aqui para sempre?
Dionísio - Meu sobrinho, nem quero pensar em ficar até o fim dos tempos na sua agradável companhia. Você é um chato.
Asclépio ( ofendido) - Eu sou um sábio.
Dionísio - Pois é. E como todos os sábios, você não é nem um pouco divertido. Para que serve um deus que não conhece a alegria?
Asclépio - Eu conheço a alegria. Só porque não ando por aí às gargalhadas, como certos parentes sem educação....
Dionísio - Asclépio, Asclépio, brigarmos um com o outro não vai ajudar.
Asclépio - Talvez fosse bem voltarmos aonde Zeus nos jogou, ali, mais perto daquelas mesas.
( o cenário do lado do bar se ilumina e ve - se um grande cartaz com um desenho de Cupido e os dizeres: “Comemore aqui o dia dos namorados”)
Dionísio - Asclépio, olhe!
Asclepio - Dionísio, olhe! Será que Eros também foi expulso do Olimpo? Será que Zeus também o baniu? Desse jeito o Olimpo vai ficar vazio.
Dionísio - Não exagere, Asclépio. Tem tantos deuses lá no Olimpo que uma dúzia a menos não faz a menor diferença.
Asclépio - Olhe quem vem chegando.
( entra o Rapaz 1 com a esposa e o filho. Entram um casal de namorados, do grupo de funk. Sentam - se às mesas.)
Asclépio ( para o casal de namorados) - Com licença, vocês canhecem a Grécia?
Moço - A Grécia fica um bocado longe, companheiro, fica lá do outro lado do mar.
Asclépio - É que eu e o meu amigo aqui, somos gregos.
Moça - Se um dia eu ganhar bastante dinheiro, vou conhecer as ilhas gregas.
Dionísio - Estamos surpresos por ver...( aponta o cartaz)
Moça - Ah, o Cupido! O deus do amor. ( suspira, dando a mão ao namorado)
Asclépio - Eros!
Moça - Esse era o nome grego. Cupido é o nome romano.
Asclépio - Porque usam o nome romano?
Moço - Sei lá. Pegou. Acho que é mais sonoro.
Dionísio - Aonde estão os templos dos outros deuses?
Moço - Se você se refere aos deuses gregos, não tem nenhum. Nem na Grécia tem mais. Só ruínas dos templos antigos.
Asclépio - E você sabe quanto tempo tem estas ruínas?
Moço - Devem ter mais ou menos uns vinte séculos.
Dionísio - Séculos? Perdão, mas é que contamos os tempos por Olimpíadas.
Moço - Ainda? Pois eu pensava que a Grécia moderna era como o resto do mundo. Mas é assim : uma Olimpíada acontece a cada quatro anos. Um século tem cem anos.
Dionísio - Um século - cem anos. Uma Olimpíada - quatro anos. Vinte séculos... Asclépio, você fez as contas?
Asclépio - Quinhentas Olimpíadas.
Dionísio - Ah! Ah! Ah! Zeus, tire - nos daqui!
Asclépio - Calma, tio. Nós temos de achar a resposta para a pergunta do vovô.
Moça - Será que podemos ajudar? Qual é a pergunta?
Asclépio - Vocês nem conhecem os deuses gregos. Espere aí ... o que é isto? ( pega um cartão sobre a mesa)
Moça - Meu telefone. É o cartão de visitas de meu pai.
Asclépio - Posso ver de perto? Isto. Isto aqui.
Moça - É o símbolo da medicina. Uma varinha com duas cobrinhas grudadas nela. É o bastão de Esculápio, ou Asclépio.
Dionísio - Olha eu, neste desenho aqui na garrafa.
Moço - É a fotografia da fonte do deus do vinho, lá em Caxias do Sul.
Asclépio - Então.... não fomos esquecidos. O espírito grego ainda vive.
Moço - Claro, a cultura grega é o berço de nossa cultura. Qualquer coisa que você pense, qualquer coisa que você imagine, um grego ou já pensou ou já fez primeiro.
Moça - Ora, não exagere, amor. Mas estou curiosa. Qual é a tal pergunta ?
Asclépio ( distraído) - Pergunta? Que pergunta?
Dionísio - Asclépio, faça logo a pergunta.
Asclépio - Ah, a pergunta! A pergunta é : qual é o deus que torna suportável a miserável existência humana?
( Pausa. Os namorados se olham, sorrindo. O rapaz abraça a família, sorrindo. E o garçon olha para o cartaz significativamente, também sorrindo)
Moça - Um deus grego.
Dionísio - Naturalmente.
Asclépio - Não existem outros.
Moço - Existem dezenas de deuses. Cada mitologia tem centenas deles.
Moça - Exagerado.
Rapaz 1 - Deus verdadeiro só existe um.
Asclépio - Ele fala do deus desconhecido.
Rapaz 1 - Desconhecido para quem não o conhece.
Dionísio - Qual é o nome desse deus?
Rapaz 1 - Não importa. Cada povo, cada religião lhe deu um nome diferente. Mas Deus está acima de todos os nomes.
Moço - Verdade é que tem gente que adota como deuses toda espécie de coisas.
Dionísio - Por exemplo?
Moço - A maioria adora o deus dinheiro. Mas há outros deuses igualmente populares: o poder, a fama, a ciência, até o prazer.
Rapaz 1 - Isto é fantasia. Deus verdadeiro mesmo só tem um significado em qualquer lugar, em qualquer tempo.
Todos : AMOR.
Asclépio - Amor?
Dionísio - Eros!
Moça - É muito bom ser amada.
Rapaz 1 -( abraçando a família) - Amar alguém é que nos dá força para vencer qualquer problema.
Garçon - Com licença, se me permitem uma opinião... o amor pode ser uma idéia, um ideal, uma causa...
Rapaz 1 - É o amor que dá um sentido à vida.
Asclépio e Dionísio ( ao mesmo tempo ) - O deus do amor!
( Asclépio e Dionísio são como que puxados para trás por uma força invisível)
fim do 4° ato
5° ATO
Cenário - Sala do trono de Zeus. Zeus está diante de um tabuleiro de xadrez enorme, cujas peças são pessoas( estátuas) , joga dados e executa alguns lances. Ou os bonecos podem ser marionetes que Zeus manipula por cordões.
Asclépio e Dionísio entram, de costas, como que arrastados por uma força invisível e caem com estardalhaço em frente a Zeus.
Zeus - Enfim, voltaram. E então, meu filho.... meu neto....já tem a resposta, pelo que sei.
Asclépio - Amor. Sim, o amor... o amor é que dá saúde.... o amor cura doenças... o amor é o maior remédio, o melhor remédio para os males da alma.... e para os males do corpo...
Dionísio - Asclépio, pare com isso! Zeus, descobrimos uma coisa terrível! No futuro, não há templos para nós. Os mortais nos trocarão por outro deus.
Zeus - Bobagens!
Asclépio - É verdade. Seremos destronados por um deus desconhecido que veio em nome do amor. Mas não é Eros.
Zeus - Tolices!
Dionísio - Eles não vão mais adorar os deuses do Olimpo, mas vão adorar o dinheiro, o poder, a ciência....Zeus, o que é isto, ciência?
Zeus - É o que Aristóteles está fazendo agora.
Dionísio - Aristóteles? Eu não conheço nenhum deus chamado Aristóteles.
Asclépio - Trata - se de um mortal. Ele é um médico. Um sábio. Um físico. Um matemático. Um ...
Zeus - Basta! Não vão agora começar uma discussão por causa de Aristóteles ou envio os dois para o século quarenta e tres.
Asclépio - Eles disseram que só restarão ruínas de nossos templos e que nós abandonaremos o Olimpo.
Zeus - Sim, é certo. E não vai demorar muito.
Dionísio - E para onde iremos?
Zeus - Não se preocupem com isso. Não importa para onde iremos. Aqui, estamos muito expostos. Estes mortais curiosos ficam de olho em tudo o que fazemos, inventam mitos sobre nós, escrevem peças de teatro sobre nossas questões particulares... precisamos de mais privacidade.
Dionísio - Como viveremos sem os mortais?
Zeus - Ora, Dionísio. são os deuses que precisam dos homens ou os homens que precisam dos deuses?
Asclépio - Questão interessante. Quem precisa de quem?
Dionísio - Não quero ser esquecido. Gosto de festas. de risos, não posso viver longe das multidões alegres.
Zeus - Esquecidos? Sosseguem. Nós não seremos esquecidos. Os melhores homens dos séculos futuros ainda passarão suas vidas a falar de nós. Os astrônomos nos colocarão nos céus e nos enviarão a galáxias distantes. Aqui estão alguns livros do futuro. Vejam : Freud . . . Jung.... Bettelheim... Campbell.
Asclépio - Quem são estes?
Zeus - Estudiosos da alma humana.
(Asclépio e Dionísio põe-se a folhear os livros. Podem citar trechos aqui e ali, soltando exclamações de espanto)
Dionísio - São as nossas vidas, as nossas histórias, com todos os detalhes...
Asclépio - Até os sonhos eles estudaram!
Zeus - Esses mortais são uns danadinhos, mesmo, saíram ao pai.
Asclépio - Não vamos morrer, então, Zeus?
Zeus - Asclépio, nós, deuses, somos imortais. Não se preocupem com os homens. Deixem que eles adotem novas religiões, novos costumes, desprezem a filosofia, inventem a ciência, assistam televisão, joguem video games, criem computadores, enviem naves as espaço... A verdade é que, enquanto houverem homens sobre a face da terra, nós, os deuses do Olimpo, estaremos controlando os seus destinos.
( congela - se a cena, Zeus movendo uma peça do tabuleiro. Entra em cena Eros, a saltitar, distribuindo coraçõezinhos para o público.)
FIM
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O CASAMENTO
Sonia Rodrigues
cena I
Cenário : sala de visitas. Em cena, Rui e a costureira. Ao lado, vê-se o quarto de Luíza.
Rui - Meu Deus! Luizinha não aparece! E esta agora! Só me faltava ela resolver fugir no dia do casamento!
(o telefone toca. Rui atende)
Rui - Alô! Ah, é você, Alfredo? Você está na igreja, esperando... A noiva vai atrasar um pouco, é a tradição, você sabe, as noivas sempre atrasam... A Luizinha é diferente? Não, a Luizinha não é diferente, quem foi que disse que a Luizinha é diferente?! Ela vai atrasar, sim, não vou chamá-la, não, senão ela atrasa mais ainda. Você espere.
(toca a campainha. Rui faz sinal para a costureira ir abrir a porta)
Costureira- (olhando pelo olho mágico) - São elas.
Rui - Alfredo, vou desligar. Fique aí, não fuja! Calma, rapaz! Claro que eu digo, sim, eu digo. (desliga)
(Entram Luiza e Raquel)
Luíza - Eu vou tirar esta porcaria da cara. Eu não vou sair com esta cara de bruxa!
Raquel - Que loucura, minha filha. Não há tempo de refazer a pintura. Ponha logo o vestido e vamos para a igreja.
Rui - Alfredo até telefonou. Já está na igreja. O que aconteceu? Estamos atrasadíssimos!
Luíza - O que aconteceu é que o maquiador não estava no salão.
Raquel - Ai, que vergonha! Que menina mais geniosa! Você nem imagina o escândalo que ela aprontou no salão, Rui!
Rui - Como assim? Você não tinha hora marcada?
Luíza - Tinha. Eu fui lá quinze dias antes. Escolhi as cores. Fiz a maquiagem completa do jeito que eu queria, combinei tudo direitinho, nas cores dourado e rosa, suave, discreto, ficou lindo! Hoje chego lá e o maquiador não está lá! No lugar dele estava uma mulherzinha louca que borrou meu olho de preto e ficou horrível! (põe-se a chorar)
Raquel - Não chore, minha filha! Você vai borrar todo o seu rosto! Vamos, nós já estamos atrasadas. A costureira está aí. Vá se arrumar.
Luíza - Eu não vou mais casar! (corre para o banheiro e se tranca)
Rui - Luíza! Saia já daí!
Raquel - Minha filha! Os convidados estão todos lá esperando, meu Deus, que vergonha! Saia daí! Vamos para a igreja!
Rui - O Alfredo, Luíza! O que é que você vai dizer para o Alfredo?
Luíza - Que se dane o Alfredo!
(Luíza sai, enxugando o rosto em uma toalha, em prantos)
Raquel - Minha filha, o que é que você fez?
Luíza - Eu não posso casar. Eu não posso casar sem maquiagem. Casar de cara lavada ficará horrível. E eu estou de olho inchado e vermelho. Estou horrorosa! (chora)
Rui - Mas, criatura, porque é que você foi tirar a maquiagem?
Luíza - Eu não ia ficar com esse preto nos olhos. Preto! Eu quero rosa e dourado. Eu falei para ela - quero rosa e dourado. Aí ela disse - a moda é preto. Aí eu respondi - que se dane a moda! Eu quero rosa e dourado. E aí aquela f....de p.... tascou preto, eu estou lá, de olhos fechados, pensando que ela estava colocando a maquiagem que eu queria e ela fez esta porcaria e eu catei um lenço e arranquei tudo fora! E mandei ela para a p... que p...!
Raquel - Ah, Luíza, não me lembra desta cena. Que vexame! Como é que eu vou poder voltar àquele salão de novo? Não, eu vou ter de mudar de salão, ali eu não volto nunca mais. Que vergonha!
Rui - Mas, então...
Raquel - Quase se atracaram a tapas, as duas. Foi um pandemônio! A Luíza passou creme no rosto, arrancou tudo, a dona do salão até foi muito compreensiva, toda noiva fica nervosa...
Luíza - Eu não estava nervosa. Estava furiosa! Estou furiosa! E estou com razão. Bolas, se eu tratei um serviço e estou pagando, ela tem de fazer a maquiagem que eu quero, pois quem vai casar sou eu, e eu não estou de luto para casar de olho preto. Preto é vulgar, é carregado, é pesado, eu fiquei com cara de puta.
Rui e Raquel - Luíza!
Luíza - Eu não vou casar com cara de puta. Não vou! Não vou e não vou! Não vou mesmo!
Raquel - A dona do salão, Rui, convenceu a maquiadora a refazer a maguiagem sem cobrar nada a mais.
Luíza - E aí a imbecil refez tudo igual - preto. E eu quero rosa e dourado.
Rui - Ora, minha filha, você vai casar. Quem é que vai ficar reparando na cor da maquiagem?
Luíza - Todo mundo, papai! Todo mundo! E eu estou tão feia! (chora)
Rui - E esta agora! Mulheres!
Costureira - Com licença, se os senhores permitirem... Luíza, eu tenho aqui um estojo de maquiagem, eu faço sua maquiagem, está bem? Enxugue o rosto. Isso. Dona Raquel, vá colocar seu vestido e eu cuido da Luíza. Vamos dar um jeito no seu rosto, querida.
Luíza - Vai dar tempo?
Rui - É claro que não vai dar tempo, o casamento já devia ter começado.
Costureira - Não tem importância, Dr. Rui. Todos sabem que é de praxe a noiva atrasar. Chegar na hora dá azar. Vamos!
(saem de cena as três mulheres)
Rui - Eu sou um homem de muita sorte mesmo, porque só tive uma filha mulher. Se tivesse duas já estaria morto. Que gênio terrível tem esta Luíza! Este é um dia muito especial para mim, esperei por ele vinte e sete anos. Como sonhei com isto! Entrar na igreja de braços dados com minha filha, linda, toda de branco, deslumbrante.... e finalmente encontrei um genro à altura - educado, rico, de família tradicional, branco, católico, e, é claro, diplomado e encaminhado na vida. O genro que eu pedi aos céus! O Alfredo é o homem adequado para a Luizinha. Eu gosto imensamente do Alfredo. Hoje eu estou muito feliz!
( quarto de Luizinha, já vestida de noiva. A costureira ajeita o enfeite nos cabelos. Entra a mãe)
Raquel - E então? Já estou pronta. E a maquiagem?
Luíza - Ficou muito bom. A Rosinha é quem salvou a festa.
Costureira - Não chore mais, senão os olhos incham e aí não tem maquiagem que dê jeito. Quietinha, sem mexer a cabeça.
Raquel - Luíza, você precisa ser mais calma. Tem cabimento um escândalo desses só por causa de uma sombra nos olhos?
Luíza - Você sabe muito bem, mamãe, não é só por isso. Eu não quero casar. Eu queria só ir morar junto por uns tempos. Só estou casando por causa da vovó e do papai.
Raquel - Que bobagem!
Luíza - Não é bobagem! O casamento é só uma convenção social, um pedaço de papel, só isso. Sabe como eu me sinto? Como uma traidora. Eu estou traindo os meus próprios princípios. Eu estou indo contra tudo o que eu penso! Eu sou uma covarde!
Raquel - Que bobagem!
Luíza - Não é uma bobagem, mas você nunca será capaz de compreender meu ponto de vista.
Raquel - Eu compreendo. O importante não é o pedaço de papel. Concordo. Acontece que o seu pai...
Raquel e Luíza - ... sonhou vinte e sete anos com este dia!
Luíza - Eu sei, mãe. Eu sou a única filha. E se eu não casar na igreja, de branco, o coitado do papai não poderia levar a filha ao altar.
Raquel - Ele sonhou a vida inteira com isto.
Luíza - E depois tem a vovó. Acho que a vovó cairia dura no chão mortinha se a única neta fosse morar com alguém ‘em pecado’...
Costureira - Por favor, fique quieta.
Luíza - Eu nem pude escolher o meu vestido de noiva! Eu queria ao menos casar de vermelho, deslumbrante, bem colorida, bem alegre...não! O mundo veio abaixo quando a Luizinha declarou que queria um vestido colorido.
Costureira - Então você é uma mulher moderna.
Luíza - Eu sou sincera. Não sou católica. Não sou virgem. Detesto branco. E tudo isso é uma palhaçada!
Raquel - Que o seu pai não ouça .
Luíza - Mãe, o papai não é cego nem nada. E depois, eu tenho vinte e sete anos.
Costureira - Pronto.
Luíza - Bela m... de dia! Vou casar de branco, vou casar na igreja, vou casar com o noivo que meu pai quer e sabe do que mais? Até a recepção ele escolheu ao gosto dele, no clube que ele queria. Ele bem que poderia subir ao altar sozinho e casar-se ele com o Alfredo!
Raquel - Luíza, é o seu casamento. Não seja ridícula!
Costureira - Você não está parecendo uma noiva feliz. Precisa sorrir um pouco.
Luíza (sorri) - Feliz? O homem que eu amo, o homem que eu amava, está casado com outra e vai ser pai...abandonou-me porque a outra estava grávida. Um traidor sujo. Um indigno. Bem, se o Alfredo me trair, pelo menos, eu não vou me importar com isso, porque eu só estou casando porque quero ter filhos. É um conveniente arranjo social.
Raquel - Quanta bobagem, Luíza! Não seja cínica!
Luíza - Mãezinha, eu não estou sendo cínica, estou sendo prática. Se eu quero ter filhos, eu preciso de um marido. O Alfredo serve. Ele é bonzinho. Não é assim que vocês dizem? O Alfredo é um moço tão bonzinho... A filhinha obediente de vocês vai casar com o bom moço e assim todos ficarão felizes...inclusive eu.
Rui -(bate à porta) - As minha mulheres estão prontas?
Luíza - Rosinha, muito obrigada, você foi fantástica! Você sabe o quanto um rosto bonito é importante! Eu posso casar com o homem errado, com o vestido errado, com a festa errada, mas eu não poderia casar com o rosto errado. Ao menos o meu rosto eu escolhi - um rosto alegre, suave, rosa e dourado.... ao menos eu vou usar a máscara certa. Vamos, que o primeiro ato vai começar.
(saem de cena)
II ATO
Cenário : a Igreja - Salão de Festas do Clube
Começa na Igreja Os noivos estão ao pé do altar, trocando as alianças. No altar, a mãe do noivo e a madrinha da noiva estão com vestidos iguais inclusive na cor. Fotógrafos espalhados pelo recinto. Um deles, inclinado em uma marquise por trás do altar, inclina-se perigosamente para uma foto, escorrega e fica dependurado, de modo cômico, com a câmara caída, consegue com dificuldade recuperar a câmara e retornar a seu lugar silenciosamente. Os presentes fingem nada perceber, exceto Luíza, que se sacode toda como que prendendo o riso.
Padre - ... e então eu vos declaro marido e mulher.
Alfredo - (entredentes) Por favor, querida, não ria!
Luíza dá uma estrondosa gargalhada, longa e prolongada. Os outros fingem nada notar. Aos poucos ela se acalma e seu riso cessa aos poucos. O padre retira-se para o lado e dá passagem ao juiz de paz.
Juiz - Estamos aqui reunidos para unir em matrimônio Alfredo Junqueira e Luíza Menezes de Albuquerque, que depois de casada passará a assinar... (consulta um papel e retifica) ... continuará a assinar o mesmo nome de solteira.
(Burburinho entre os assistentes. Há uma troca de palavras sussurradas disfarçadamente entre os noivos.)
Convidado 1 - Como? O que foi que ele disse?
Convidado 2 - Nome de solteira?
Convidado 3 - Minha nossa! Ela não vai usar o nome dele? Que coisa estranha!
Sogra - Mas que desaforo! Você sabia disso? Você sabia que esta sujeitinha não ia usar o nosso nome de família?
Sogro - Quieta, mulher!
Sogra - Eu bem que avisei o Alfredinho. Ele me garantiu que ela ia usar o nome de nossa família!
Convidado 1 - A mulher pode fazer isso, ficar com o mesmo nome?
Convidado 2 - Poder, pode. A lei permite. Mas que é esquisito... É o primeiro caso que eu conheço que a mulher permanece com o nome de solteira.
Alfredo - Luíza, você havia me prometido...
Luíza - Eu não prometi nada. Eu fui bom clara: meu nome eu não mudo. Não sou propriedade de ninguém. Sou independente. Isso é ponto de honra para mim.
Alfredo - A minha mãe não vai compreender.
Luíza - Se sua mãe vai compreender ou não, isso é problema dela.
Alfredo - Você não em avisou.
Luíza - Avisei, sim, você é quem não quis ouvir.
Alfredo - Eu disse ao juiz que você ia usar o meu sobrenome, disse sim, na sua frente. Por que ele mudou de idéia?
Luíza - Porque eu voltei lá e disse e expliquei a ele que eu ia me beneficiar da lei que me permite continuar com o meu nome de solteira, e que se ele não fizer como eu quero, eu não caso.
Alfredo - Você não teria coragem.
Luíza - Experimente para ver. Para mim é um ponto de honra. Meu nome eu não mudo. Fim.
Juiz - (para os noivos) Algum problema?
Luíza - (decidida) Nenhum problema.
Alfredo - (relutante)_ Não. Podemos continuar.
Juiz - Alfredo, aceita Luíza Medeiros de Albuquerque como sua legítima esposa?
Alfredo - Aceito.
Juiz - Luíza, aceita Alfredo Junqueira como seu legítimo esposo?
Luíza - (pausa) - Aceito.
Juiz - Então eu vos declaro marido e mulher.
(Grande confusão entre os convidados, enquanto os noivos assinam o livro e recebem os abraços dos pais e padrinhos)
Convidado 1 - Como ela pôde? Que escândalo! Rir daquele jeito!
Convidado 2 - Foi o casamento mais engraçado que eu já vi!
Convidado 3 - Você viu o fotógrafo? Impagável! Meu! Foi dez! (ri)
Convidado 1 - A cara do noivo quando o juiz falou vai continuar a usar o nome de solteira?
Convidado 2 - A cara dele foi nada! Você precisava ter visto a cara da sogra!
Convidado 1 - E por falar na sogra, você reparou? O vestido dela é idêntico ao da madrinha da noiva. A cor, o modelo, tudo igual! Que mico!
Convidado 3 - Esse modelo saiu na capa da revista Cláudia deste mês. Isso é que dá, fazer modelo de capa de revista. Família tão tradicional, tão cheia de brasão pra cá, árvore genealógica pra lá, e economizando no vestido... Vestido de casamento tem de ser exclusivo, feito com modelista em loja chique. Grã-fina pão dura!
( Aos poucos, os personagens vão saindo, e o cenário vai sendo trocado pelo salão de recepção do clube. Ficam alguns garçons circulando entre as mesas dando uns retoques aqui e ali. Entram Luíza e Alfredo.)
Luíza - Maître, por favor, tem comida? Pode trazer um prato de salgadinhos para mim?
Alfredo - Luíza, nós não podemos comer antes de recepcionar os convidados. Todos eles.
Luíza - Alfredo, eu não almocei.
Alfredo - Esqueça a comida. Os primeiros convidados já estão chegando. (puxa Luíza para a porta)
Luíza - (olhando para trás) - Maître, traga logo um prato de comida para mim, rápido.
Alfredo - Que noite, Luíza! O que deu em você? Ainda vai me causar mais vergonha ainda?
Luíza - Se eu desmaiar de fome, você vai ver o que é vergonha.
Alfredo - Por que não almoçou?
Luíza - Ih, uma confusão... nem me lembre, só me deixe comer!
(O maître aproxima-se com um prato de salgados que Luíza devora gulosamente, limpando os dedos apressadamente entre um e outro cumprimento. Os convidados começam a chegar.)
Convidado 1 - Meus parabéns!
Alfredo - Obrigado!
Luíza - Obrigada!
Convidado 2 - Felicidades!
Luíza - Obrigada.
Alfredo - Obrigada.
(etc. Prosseguem os cumprimentos e Luíza vai comendo, limpando os dedos no guardanapo, murmurando palavras com a boca cheia até acabar o pratinho. Os noivos conversam entre um cumprimento e outro.)
Alfredo - Está melhor?
Luíza - Muito melhor.
Alfredo - Você está sendo muito mal educada, sabia?
Luíza - Eu quero que a boa educação vá para o diabo! Ai, que fome! Como é bom comer! Esta empadinha está deliciosa. Quer uma?
Sogra - Luíza, eu quero lhe dizer que agora que você se casou com meu filho tem a obrigação de...
Luíza - Minha querida sogrinha, eu não tenho obrigação de coisa nenhuma. O tempo da escravidão já acabou! Nós respiramos o saudável ar da liberdade, sabia?
Sogra - O que?
Alfredo - Luíza, lembre-se de que você está falando com a minha mãe!
Luíza - (canta) Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós...
Alfredo - Desculpe a Luíza, mamãe. Ela está um pouco perturbada hoje.
Luíza - Seria muito engraçado se algum convidado dissesse “Meus pêsames!” (ri)
Alfredo - Por que alguém diria ‘Meus pêsames?’
Luíza - Você nem está mesmo ouvindo o que as pessoas dizem, fica aí só repetindo Obrigado, obrigado, feito um robozinho, se você disser a alguém ‘vá para o diabo!’ ainda vai receber um sorriso idiota de alguém que nem prestou atenção ao que você disse. Vamos experimentar?
Alfredo - Minha querida, você quer o divórcio?
Luíza - Sem chances. Eu quero filhos. Um monte deles.
Alfredo - Seja mais modesta. Dois está bom.
Luíza - Que tal três?
Alfredo - Já passou a fome? Que tal um sorriso? Eu mereço um sorriso?
(Luíza sorri e beija Alfredo no rosto. Começam a misturar-se entre os convivas. Já chegaram todos.)
Nancy (madrinha da noiva) - Você por aqui, primo!
Convidado 4 - Oi!
Nancy - Conhece o noivo?
Convidado 4 - Eu, não.
Nancy - Conhece a minha amiga Luíza?
Convidado 4 - Quem é a sua amiga Luíza?
Nancy - É a noiva.
Convidado 4 - Não diga!
Nancy - Como é que você entrou aqui?
Convidado 4 - De penetra. Sempre faço isso quando não tenho dinheiro. Saio por aí, farejo uma festa e vou entrando. É um bocado divertido. Como bem, conheço mulheres bonitas. Até danço. Como você está elegante, prima.
Nancy - Sou a madrinha.
Convidado 4 - Que tal me apresentar aos noivos?
Nancy - Claro, eu vou dizer: Conheçam o meu primo, o penetra da festa! Cai fora!
(uma outra cena do outro lado do salão)
Matilde - Dr. Aristides, como vai?
Aristides - Que satisfação em vê-la, dona Matilde! Onde está seu filho?
Matilde - Ali. É aquele loiro de bigode, de terno verde, de relógio no colete.
Aristides - Aquele ao lado da moça de azul? Sabe, aquela morena bonita é ...
Matilde - O Dr. Conhece, é?
Aristides - Bem, eu sou...
Matilde - Sabe, eu estou horrorizada com o comportamento dessas moças de hoje. Essazinha aí não tirou os olhos de meu filho desde a igreja. E desde que chegamos ao clube ela não desgrudou dele. Olhe só como ela se pendura ao braço dele.
Aristides - Dona Matilde...
Matilde - Ah, que sem vergonha!
Aristides - Acontece, Dona Matilde...
Matilde - Diga: o senhor por acaso conhece esta sirigaita?
Aristides - Ah! Ah! Ah! Ah!
Matilde - Dr. Aristides, eu não compreendo o que há de tão engraçado! Afinal, o senhor conhece ou não conhece esta sujeita?
Aristides - Dona Matilde, esta sirigaita... é a minha filha!
Matilde - Oh!
(passam para primeiro plano Rui e Raquel)
Rui - Afinal, parece que tudo acabou bem. Estão casados.
Raquel - Pobre Luizinha!
Rui - Luizinha arrumou-se. Alfredo é moço direito. O passado ela esquece. O tempo passa...
Raquel - Ai, que dor no meu estômago...
Rui - Não vai começar de novo. Não agora. Já basta termos ficado sem almoço por sua causa.
Raquel - Você acha que eu faço de propósito?
Rui - Você fica doente de propósito, sim. É só ter uma festa importante e lá vem você com esta maldita dor de estômago e aí fica verde e desmaia e pronto, lá se foi a festa!
Raquel - Exagerado! Que bobagem!
Rui - Não recomece! Eu repito o que disse no almoço: se você inventar de ficar doente hoje, eu interno você e volto para a festa. E a Luíza hoje casava sem você no altar, mas casava. Ah, se casava. Casava de qualquer jeito!
Raquel - Você conseguiu o que queria.
Rui - Eu sei o que é melhor para ela.
Raquel - Esta dor de estômago...
Rui - Esta dor é alucinação. É aporrinhação. É encheção de saco. Você estragou as nossas bodas de prata dom esta dor fantasma.
Raquel - Eu desidratei, Rui, eu fiquei muito mal...
Rui - Muito mal fiquei eu, sozinho na festa, a dispensar os convidados.
Raquel - Como se eu tivesse culpa.
Rui - Esta sua dor é muito festeira. Só aparece em dia de festa.
Raquel - Bem, hoje não houve grande dano. Só não pude fazer o almoço. Vocês não comeram porque não quiseram.
Rui - Eu comi. Depois que deixei vocês no salão, eu comi. A Luizinha é que estava endemoninhada, para variar. Primeiro não queria comer no “quilo”, depois o primeiro restaurante em que entramos estava muito cheio, ela não quis esperar, o segundo estava muito sujo, o prato isto, o copo aquilo, aí ela inventou de entrar para conhecer a cozinha...
Raquel - Eu sempre faço isso.
Rui - Então foi com você que ela aprendeu? Foi ver a cozinha e resolveu ir embora, não gostou da falta de higiene.
Raquel - E aí, aonde vocês comeram, afinal?
Rui - Nós rodamos, rodamos e ela escolheu o terceiro restaurante. Depois de vinte minutos de espera o garçom trouxe frango e nós tínhamos pedido peixe. Ele se desculpou pelo engano e eu resolvi aceitar o frango e aí a Luíza disse que frango, não, frango ela não come de jeito nenhum e que ela não esperava mais nem um minuto pois já estava na hora de ir para o salão - e de fato estava mais do que na hora - e voltamos então para casa e levei vocês ao salão.
Raquel - Pobre Luíza! Ela sempre fica tão mal humorada quando não come direito!
Rui - Ela está sempre de mau humor. Parece que está de regime eternamente. Querida, você não contou nada a ela, contou?
Raquel - Não. Não contei.
Rui - Ela não entenderia.
Raquel - Ela entenderia bem demais.
Rui - Ela não desconfia de nada?
Raquel - Não, parece que ela acreditou na versão do rapaz.
Rui - Quanto a isso, estou seguro. Tomei minhas precauções. Melhor assim! Ela será feliz. O Alfredo, sim, é o marido ideal para Luíza. Um rapaz muito bonzinho que fará qualquer mulher feliz.
Convidados - Os noivos vão embora! Os noivos vão embora!
(grande tumulto com a despedida e a saída dos noivos. Apagam-se as luzes progressivamente. As cortinas fecham-se sobre o salão. Os noivos aparecem no palco, um foco sobre eles, saindo da festa, andando pela calçada e dirigindo-se ao carro)
Alfredo - Até que enfim.. sós!
Luíza - Vamos pegar as malas em casa e partir para o aeroporto.
Alfredo - Daqui a três horas, estaremos no hotel.
(Luíza boceja)
Alfredo - Benzinho, eu quero ficar sozinho com você...
Luíza - Alfredo, você tem a vida inteira para cansar-se de ficar sozinho comigo. Já fizemos sexo uma dúzia de vezes e você fica aí meloso falando como se esta fosse a nossa lua de mel.
Alfredo - Esta é a nossa lua de mel! E esta é a nossa noite de núpcias! Nós nos casamos hoje, benzinho. Não dá para você ser um pouquinho romântica? Luíza, você não está pensando em... não está... ou está...
Luíza - Está o que? (boceja)
Alfredo- Você está pretendendo chegar ao hotel e dormir?
Luíza - Estou pretendendo embarcar no avião e dormir. E no hotel eu vou continuar a dormir.
Alfredo - Na noite de hoje, Luíza?
Luíza - E o que tem de especial no dia de hoje? O dia de hoje, para o seu bom governo, foi um dia de cão. Passei fome, briguei com a maquiadora, chorei, fiquei cansada de me equilibrar sobre estes horrorosos saltos altos e estou exausta. (tira os sapatos e caminha descalça) Ai, que alívio! E depois toda esta palhaçada, toda esta ridícula comédia...
Alfredo - Ridícula comédia? Luíza, você está falando do nosso casamento! Por que você fica aí dizendo que nosso casamento foi uma ridícula comédia?
Luíza - Desculpe, Alfredo, estou sendo tão pouco romântica e você é tão bonzinho...
Alfredo - Quer me explicar esta história de comédia?
Luíza - Eu não sou católica e toda esta cerimônia com padre e vestido branco nada significa para mim. Aliás, meus pais não são mais católicos que o judeu da esquina. Nunca vão à Igreja, mas querem desfilar a filha vestida de branco.
Alfredo - Para mim esta cerimônia significa muito. E eu vou à missa aos domingos, você bem sabe.
Luíza - Ainda bem que acabou. Fim do martírio. Esses saltos estavam me matando. Vamos embora? Lá está o motorista chegando com o nosso carro.
Alfredo - Espere aí, querida, você ainda não disse a seu marido ‘eu te amo’.
Luíza - Ora, Alfredo, eu estou com sono. Vamos embora.
Alfredo - Luíza!
Luíza - Que foi, Alfredo?
Alfredo - Eu te amo.
(saem de cena)
Cena III
Cenário - sala de visitas da casa de Luíza. Luíza está limpando os objetos e móveis da sala com um pano e um frasco de produto de limpeza, e continua a limpar durante a visita de Nancy. Toca a campainha e Luíza vai abrir a porta.)
Luíza - Nancy! Que saudades! Estou mesmo precisando conversar com você um assunto seríssimo!
Nancy - Luíza querida, como vai de casa nova?
Luíza - Com a casa nova está acontecendo a coisa mais estranha. Eu não sinto que a casa é minha, entende?
Nancy - Não. Esta é a sua casa. Como é que você pode estar em casa sem se sentir em casa?
Luíza - Bem, esta é a casa que o Alfredo comprou com o dinheiro dele.
Nancy - Bem, e daí?
Luíza - Você está sentada no sofá que o meu sogro me deu. Durmo na cama que meu pai comprou. Esta é a mesa de tia Carolina, este é o tapete do tio Valter, a bomboneira da prima Ivone, a geladeira da avó Miloca, o fogão do primo Eduardo etc etc etc Não há nada aqui que lembre ‘Luíza’ - eu.
Nancy - Você é doidinha, amiga. Cadê o maridão?
Luíza - Graças a Deus, está no plantão. Sabe que eu sinto falta de ficar sozinha? Outra pessoa o tempo todo a seu lado é uma verdadeira invasão de privacidade. É o tempo todo “Meu benzinho isto”, “Meu benzinho aquilo”...
Nancy - Que grande problema!
Luíza - O Alfredo é muito bonzinho mas parece que está o tempo inteiro prestando atenção me mim.
Nancy - É o amor.
Luíza - É tão chato!
Nancy - É mesmo um grande problema...
Luíza - Tem horas em que eu penso que nem os meus pensamentos me pertencem mais. Eu estou pensando e é como se ele estivesse lendo os meus pensamentos. Se ele não fosse dar plantão hoje eu era bem capaz de botá-lo porta afora. Se eu não pudesse ficar um pouco sozinha, eu ia enlouquecer!
Nancy - Luíza, esta casa está limpa demais, amiga. Você não era a incondicional defensora dos ácaros oprimidos? A mulher que fazia campanha em prol da poeira doméstica? ‘Viva o pó!’
Luíza - Casa arrumadinha demais faz mal. Eu sempre convivi pacificamente com o pó, eu me recuso a perder meu precioso tempo com esta bobeira de faxina.
Nancy - Querida, acontece que você não está apenas limpando a casa, você está é desinfetando tudo, pecinha por pecinha... desde que eu entrei você não largou desse pano!
Luíza - Nancy, estou completamente neurótica! Eu estou fazendo exatamente tudo o que eu mais detesto no comportamento de minha mãe, sempre limpando e arrumando, limpando e arrumando, limpando e arrumando..
Nancy - Largue este pano, Luizinha, eu estou ficando irritada de tanto ver você aí esfregando, esfregando...
Luíza - Casas felizes precisam ser um pouquinho desarrumadas: (enquanto fala, Luíza vai desarrumando um pouco a sala) umas revistas espalhadas, umas almofadas amassadas, uma baguncinha doméstica dizendo que as pessoas ali se sentem bem à vontade... (Luíza larga o pano) Alfredo é muito bonzinho, mas você sabe como é homem.
Nancy - Não, eu não sei como é homem. Quem sabe você pode me explicar como é homem.
Luíza - Homem dentro de casa é inútil e imprestável. Homem não serve para nada. Aliás, servem, sim, servem para fecundar as mulheres. Quando nós conseguirmos a técnica perfeita de fecundação in vitro, não precisaremos mais destes inúteis.
Nancy - Não seja cínica, amiga. Aliás, explique melhor esta doideira de casar com o Alfredo.
Luíza - Não sei porquê o espanto. Era o lógico. O Alfredo sempre foi apaixonado por mim.
Nancy - E desde quando você está apaixonada pelo Alfredo?
Luíza - Eu não estou.
Nancy - Porque casou, Luíza?
Luíza - O Alfredo é muito bonzinho. Nós somos os melhores amigos do mundo. Sempre fomos.
Nancy - Luíza, você namorou durante dez anos o Davi. O mundo era Davi. Respirava Davi. De repente eu vou fazer um curso em Londres e sei por telefone que estou sendo convidada para ser sua madrinha de casamento com o Alfredo, assim sem mais aquelas, em seis meses. Meio de repente, amiga! Você não me explicou esta história direito.
Luíza - Davi me traiu.
Nancy - E daí?
Luíza - Você nunca foi traída, Nancy?
Nancy - Já, Luíza, você sabe, você conhece esta sua amiga aqui, que só atrai homem errado... Tem homem que é mesmo uma praga, mas a gente descarta, olha em volta e grita assim: “O próximo!” A gente vai vivendo, uma hora eu espero acertar. Aliás, o Alfredo, diga-se de passagem, é um achado! Você acertou na loteria e nem percebeu!
Luíza - “O próximo?” Eu não sou assim, Nancy. Eu sou uma mulher de um homem só. E eu amava Davi. Para mim, acabou. Dói muito. Eu nunca mais amarei ninguém. Desisti definitivamente dos homens.
Nancy - Estranha maneira de desistir dos homens - casando com um deles.
Luíza - Ah, isso! É só para ter filhos. E o Alfredo é muito bonzinho. Vamos mudar de assunto. Fale um pouco de você, Nancy. E os seus namorados?
Nancy - Eu não acero com ninguém. Eu acho que existem dois tipos de homens: os bons na cama e os bons fora da cama. Os bons na cama são uns cafajestes e os bons fora da cama quando vão para a cama são assim ‘um tédio’. Eu quero achar um meio termo, um assim nota sete e meio. O que você acha? Esqueça, você não tem experiência neste assunto.
Luíza - Bem, o Davi era ótimo fora da cama e na cama também. Sabe, Nancy, eu acho que, quando uma mulher está apaixonada, o homem que ela ama é sempre ótimo.
Nancy - Que conveniente! Quem dera a vida fosse assim tão prática! Tão simples!
Luíza - Você não se apaixona, Nancy?
Nancy - Eu não me envolvo, Luizinha, não sou como você. Escute, você não sente prazer com o Alfredo?
Luíza - O Alfredo é bonzinho e eu não quero sentir tesão por ele. Não quero. Definitivamente não. Ele me paparica, é gentil, é boa companhia... serve. Mas gozar com ele é outra coisa. Se eu gozar posso me apaixonar e aí perco o controle da situação. E eu não quero esquecer o Davi.
Nancy - Não estou entendento, Luíza. Qual é o inconveniente de você se apaixonar pelo Alfredo? Seria ótimo!
Luíza - Davi partiu meu coração, Nancy. Ele me mostrou que os homens são todos uns sujos e não valem nada. O amor é uma questão de quem está por cima e quem está por baixo, de espertalhões e otários. E eu não vou ser mais otária. Se tudo não passa de um jogo, eu escolho ficar por cima.
Nancy - E o Alfredo? O Alfredo não é um sujo, como você diz.
Luíza - O Alfredo é otário. E se ele um dia me trair, eu não gosto mesmo dele, não vai ter muita importância.
Nancy - É melhor a gente falar de outra coisa, antes que a minha cabeça dê um nó. Luizinha, você havia dito que tinha um assunto a discutir comigo, um assunto seríssimo. O que é?
Luíza - Ah, Nancy, é uma coisa muito misteriosa. Um caso de detetive particular. Descobri no dia de meu casamento.
Nancy - Como é que é? Detetive? (engasga-se e gagueja) Que emocionante! É alguma coisa a ver com o Alfredo?
Luíza - Não, é com o meu pai. É uma carta.
Nancy - Que carta?
Luíza - Eu estava abrindo a correspondência, aquele monte de telegramas de parabéns aos noivos, cartas de parentes que não podem vir etc, aí eu achei aquela carta e estava assinado como por um nome esquisito carimbado em baixo: detetive particular - sigilo garantido.
Nancy - E aí, o que dizia a carta?
Luíza - Na realidade era um recibo. “Meu caro senhor, segue em anexo um recibo, conforme solicitou, pelos serviços prestados.” E o recibo era de R$200000,00.
Nancy - (engasgando) - O que? Tudo isso?
Luíza - É muito dinheiro. Até para o meu pai é muito dinheiro. Eu fechei o envelope, tornei a passar cola, alisei direitinho e separei para ele. Aí, quando ele abriu, eu perguntei assim como quem não quer nada “o que é isso, pai?” e ele falou “é uma propaganda” e foi saindo.
Nancy - Deve ser coisa daqueles remédios falsificados em que o Davi se envolveu.
Luíza - Mentira! Isto é mentira! Só porque um poço pobre se forma e chega a diretor de hospital as pessoas ficam falando mal e inventando histórias.
Nancy - Luíza, só você não via. O amor cegou seus olhos.
Luíza - Não é verdade! Esta história de falsificar remédio é totalmente imoral, ilegal e anti-ética. Davi jamais se envolveria em uma sujeira dessas. Se ele enriqueceu e subiu na vida é por muito competente. Ele é um médico sensacional e...
Nancy - Eu não tenho nenhuma prova, só estou falando do que eu escutei, e você sabe que eu não morro de amores pelo Davi.
Luíza - O que é que você sabe, Nancy?
Nancy - O que eu sei sobre o que?
Luíza - Você falou com tanta certeza que este cheque que meu pai recebeu deve ser coisa daqueles remédios... Nancy, se fosse verdade mesmo, o que é que o meu pai teria a ver com o caso dos remédios?
Nancy - Nada. Quer dizer, como é que eu vou saber, não é?
Luíza - Nancy, eu conheço você desde os cinco anos. Eu sei muito bem que quando você coça assim o pescoço e olha para cima, é porque está escondendo alguma coisa. O que é?
Nancy - Luíza, o Davi estava enterrrado até o pescoço no escândalo dos remédios falsificados e o seu pai estava tentando salvar a situação. Ele me pediu segredo, Luíza, e eu jurei que não contava para você, aliás, você, no que se refere ao Davi, é cega mesmo.
Luíza - Mas o que este cheque, em particular, tem a ver com os remédios?
Nancy - Eu não sei. Não conheço os detalhes. É que saiu assim, de repente, eu não sei segurar esta maldita língua.
Luíza - Que segredo é este que meu pai pediu para você guardar?
Nancy - Ele me contou sobre o detetive. E o Davi estava na chefia desta tal operação “remédio falsificado”. Por isso ele subiu tão rápido.
Luíza - Se meu pai conseguiu provas, por que não me mostrou?
Nancy - Ele mostrou e você não acreditou nas provas.
Luíza - Ah, aquilo? Não fazia nenhum sentido. O Davi negou e eu acredito no Davi.
Nancy - Está vendo?
Luíza - Você conhece a esposa do Davi? A recepcionista da Cardiologia?
Nancy - Conheço. É judia como ele.
Luíza - Quando o filho dele nasceu?
Nancy - que filho? Eles casaram há cinco meses apenas!
Luíza - Davi me disse que ia casar com outra mulher porque esta outra estava grávida.
Nancy - Você não me contou este detalhe. Eu não sabia. Mas na religião dele as mulheres casam virgens... bem, é claro, nada impediria que ela fosse uma exceção.
Luíza - Eu os vi ontem em uma festa, por acaso. Ela não está grávida.
Nancy - E daí?
Luíza - E daí, a menos que ela tenha perdido o bebê...
Nancy - Não perdeu, não. Nós saberíamos, lá no hospital.
Luíza - Então Davi mentiu para mim. E se o meu pai obrigou o Davi a casar com outra mulher.... meu pai não faria isso, faira?
Nancy - Luíza, como é que o seu pai iria obrigar alguém a casar? Justo o Davi, que ele não conseguiu afastar de você durante dez anos!
Luíza - Ontem, na festa, eu vi o Davi e a mulher dele antes que eles me vissem. Eu sabia que algum dia nós nos encontraríamos, eu estava preparada para este encontro. Eu ia parecer distante, digna, ia sorrir com educação e dar um ‘boa noite’ informal, ele faria o mesmo e estaria tudo ‘nos conformes’.
Nancy - E foi isto o que aconteceu?
Luíza - Não. Eu circulava pelo salão e de repente estávamos de frente um para o outro. Quando Davi me viu, gritou, derrubou o copo que estava segurando, foi uísque para todo lado e ele ali, parado, a olhar para mim com expressão de dor no rosto. Nancy, ele parecia que ia me engolir viva com os olhos! Eu me virei e segui meu caminho discreta, digna, aí... Aí voltou tudo, Nancy, aquele amor desesperado que eu sentia por ele, aquele desejo louco, aquele tesão urgente, voltou tudo, com força total!
Nancy - Luíza!
Luíza - Você não diz nada, não, Nancy?
Nancy - Nem sei o que dizer. Eu pensava que você já houvesse esquecido... que estivesse bem com o Alfredo...
Luíza - Ah, o Alfredo! O Alfredo é bonzinho... Nancy, eu preciso descobrir porquê o Davi me abandonou. Por que, Nancy? Por que o Davi me abandonou?
(Luíza põe-se a soluçar e cai nos braços de Nancy.)
Cai o pano.
CENA IV
Cenário: o mesmo da cena I
(Rui entra em cena. Tira os sapatos, as meias, a gravata, espalhando tudo pela sala. Deita-se no sofá e espalha cadernos de jornal pelo chão à medida que os cai folheando.)
Raquel - Rui! A minha pobre sala! Que desordem!
Rui - Que desordem? Quando eu cheguei estava tudo arrumadinho.
Raquel - Você é a desordem, Rui! Não sabe sentar-se comportadamente e ler o jornal de uma forma civilizada?
Rui - Eu quero estar à vontade em minha própria casa.
Raquel - Então coloque uma bermuda, guarde estas roupas, ponha estas meias para lavar e aí vá ficar à vontade lá na beira da piscina. A minha sala de visitas é para ser mantida em ordem. Por isso é que se chama sala de visitas.
Rui - Quando as visitas chegam aqui em casa nós as levamos para a beira da piscina para que elas se sintam à vontade. Porque se as visitas não se sentem à vontade, elas não voltam para novas visitas. Ora!
Raquel - Rui, a Luizinha vem vindo para cá.
Rui - Que bom!
Raquel - Não é tão bom assim. Ela descobriu sobre o detetive.
Rui - O que? Como?
Raquel - Ela estava feroz. Eu colocava o fone assim bem longe e de lá da varanda dava para ouvir ela gritar: EU EXIGO UMA EXPLICAÇÃO!
Rui - Ai, não é possível!
Raquel - Como é que ela descobriu?
Rui - Talvez seja até melhor. Isso de ficar escondendo coisas é muito complicado.
Raquel - Ela vai fazer uma senhora cena, Rui.
Rui - Como se ela não vivesse a fazer cenas! Esta filha minha adora um drama! Tudo para ela é uma tempestade em um copo d’água. Eu ainda não me esqueci daquela história da maquiagem no dia do casamento, não. Uma maquiagem. Porque não era rosa e dourado ela quase largou o noivo no altar!
(entra Luíza)
Luíza - O que você fez, seu.... seu Rui? Você destruiu a minha vida! (chora)
Rui - Eu fiz o que?
Luíza - Você afastou de mim o homem que eu amava! Descobri tudo. Eu nunca, nunca vou perdoar você por isso!
Rui - Como você descobriu sobre o detetive?
Luíza - Eu abri sem querer uma carta sua e lá estava um recibo qualquer por serviços prestados.
Rui - Isso não quer dizer nada.
Luíza - Não se a mulher do Davi estivesse grávida, se o Davi não se encontrasse comigo ontem e...
Rui - Ele encontrou você? Não podia, era o nosso trato: que ele nunca mais se aproximasse de você.
Luíza - Então você confirma. Foi por acaso. Ele não esperava me ver e ficou ali olhando com ar de ‘eu ainda amo você’ e aí hoje a Nancy...
Rui - Nancy não sabe quase nada.
Luíza - Nancy deixou escapar sem querer umas coisinhas que você disse a ela. O resto eu deduzi. Pai, como você pôde, pai? Só porque ele era de origem pobre? Um judeu polonês, pobre, que afinal subiu na vida pelo próprio esforço...
Rui - Você delira. Você não sabe o que diz.
Luíza - E como você acha que ele chegou a diretor do Hospital Ana Nery? Com esforço. Com luta.
Rui - Com suborno.
Luíza - No começo do nosso namoro vocês dois antipatizavam com ele porque ele era pobre.
Raquel - Sem classe, Luíza. É diferente. Um rapazinho que chamava pudim de bolo. E que não colocava o guardanapo no colo ao sentar para jantar. E servia-se da travessa comum com a própria colher.
Luíza - E não sabia distinguir entre um copo para água e um copo para vinho. Grande coisa!
Rui - Ele comia salada com o garfo para peixe!
Luíza - Ele aprendeu essas frescuras todas. Nós ensinamos a ele tudo isso. Ele chegou aonde está agora completamente civilizado.
Raquel - Apenas com um verniz de civilização, filha. Lá no fundo...
Luíza - Lá no fundo todos nós somos selvagens e primitivos.
Rui - Ele ter abandonado você não é prova suficiente do mau caráter dele?
Luíza - Eu acreditei que ele amava outra mulher e por isso casei-me com o Alfredo. E agora, papai, descubro que ele mentiu para mim. Que você fez chantagem com ele!
Rui - E você não pergunta porquê?
Luíza - Eu sei.
Rui - Se você soubesse, você o teria abandonado antes.
Luíza - Eu não abandonaria um homem só porque o pai dele entrara sem passaporte no país. Só porque os pais dele traíram e mentiram para fugir da guerra. Na guerra, quem é que não trai e não mente para salvar um filho?
Rui - Na guerra se morre por uma verdade. É na guerra que se conhece um homem de caráter.
Luíza - Que importa se os pais dele mentiram e traíram ou entraram ilegalmente no país?
Rui - Nada, Luíza, isto não importa nada.
Luíza - Mas então...
Raquel - Conte para ele de uma vez, Rui.
Rui - Eu contei, ela não acreditou. Lembra?
Luíza - Não, não me venha de novo com aquela conversa idiota sobre os tais remédios falsificados! Um diretor de hospital não se suja por...
Rui - Um pé-rapado chega a diretor de um hospital acobertando uma falcatrua dessas.
Luíza - Davi é um médico. Um homem de altos ideais! Eu já disse a você, eu só acreditaria nisso se o Davi confessasse, e ele negou.
Rui - E se você visse uma confissão assinada por ele?
Luíza - Absurdo. Davi é inocente.
Rui (levanta-se e pega uns papéis em um cofre atrás de um quadro na parede) - Vou mostrar a você. Aqui estão os altos ideais do seu Davi!
Luíza - Papai! Você? Esta não! Você no mínimo pegou o documento errado. Aqui está escrito que você, papai, você, comprou três contaîners de medicamentos falsificados.
Rui - Comprei.
Luíza - (pegando outro papel) - Uma ordem de incineração de três contaîners de medicamentos considerados impróprios para consumo. Incineração?
Rui - É isto mesmo.
Luíza - Papai, porque você comprou três contaîners de medicação falsificada e mandou botar fogo neles? Não faz nenhum sentido.
Rui - Leia este aqui.
Luíza - Está assinado pelo Davi!
Rui - Leia.
Luíza - Mas... é uma confissão de culpa! ... E ele diz aqui que se compromete a deixar de me ver... tendo para isto recebido dinheiro.... e estando ciente de que os documentos que o incriminam, em poder do Dr. Rui Albuquerque, estão trancados em cofre em poder da polícia a ser aberto em caso de morte não natural do Dr. Rui... Papai, que horror!
Rui - É preciso garantir a vida, com bandidos não se brinca. O seu Davi é um peixinho pequeno, é uma das pontas de um iceberg.
Luíza - Então é verdade...
Rui - Nós lhe dissemos.
Raquel - Você não quis acreditar em nós.
Luíza - Papai, porque você não foi fundo na questão e não denunciou Davi?
Rui - Para respingar lama em você?
Raquel - Você acha que depois de dez anos juntos, você e Davi, alguém acreditaria em sua inocência?
Luíza - Mas... então... Davi não me traiu....
Rui - Você está sorrindo,, Luíza? Ai, quem entende esta minha filha?
Luíza - Davi não me traiu! Davi me ama!
Rui - Ai, Não! Agora ela abandona o Alfredo!
Raquel - Minha filha, você agora é uma mulher casada! Não vá aprontar nenhum escândalo!
Luíza - Claro, casada. Sou casada com um homem digno, honesto, maravilhoso, tão bonzinho, o marido ideal para mim!
Rui - Se você estiver pensando em abandonar o Alfredo e voltar para o Davi, eu...
Luíza - Davi, pai? Davi é um imoral, um sujeito desonesto, corrupto! Não vale nada! E ainda se vendeu. Você pagou para ele afastar-se de mim, papai? Pagou?
Rui - E ele aceitou logo. Se não aceitasse, aliás, era cadeia certa. Crime inafiançável.
Luíza - Então ele é mesmo um vigarista. Ah, estou tão contente, papai!
Raquel - Contente?
Rui - Contente? Como? Mas...
Luíza - Ele não me traiu, pai. Ele não me traiu, mãe. Davi não me traiu!
Rui - Raquel, Luíza disse que está contente?
Raquel - Eu a entendo.
Luíza - Ele me abandonou foi para salvar a pele. Você o chantageou, pai.
Rui - Eu limpei o nome dele. Por você. Para não ver você envolvida no escândalo. Eu avisava, contava, e você não acreditava em mim.
Luíza - Ele negava, pai. Eu acreditei nele. Acreditei que ele fosse inocente. Ele sabia que eu não aceitaria nada desonesto. Ah, papai, ele não me traiu, afinal!
Rui - Luíza, você bem que poderia ter ouvido seu pai antes... Por que você não acreditou em mim, filha?
Luíza - Porque o Davi é judeu e você detesta judeus. Você não aceitava que ele fosse...(procura a palavra, hesitante)
Rui - Sem classe?
Luíza - estas frescuras todas que vocês curtem: o copo para vinho, o garfo para peixe, o guardanapo ao colo...
Rui - Você acreditou realmente que eu pudesse não gostar de alguém por não saber distinguir entre o garfo de salada e o garfo de peixe?
Luíza - Pensei.
Rui - Você achou que eu era um racista?
Luíza - Acho que eu fui muito tola, papai, mas esta conversa tirou um peso enorme do meu coração!
Rui - Do meu também. Agora não há mais segredos entre nós.
Luíza - Papai, eu sou uma boba.
Rui - Grande novidade.
Luíza - O Alfredo! Tenho que voar para casa! E... eu quase me esquecia, preciso passar no laboratório antes das cinco!
Rui - Laboratório? Você está doente?
Luíza - Não, papai, nada sério, só uns enjôos. Nunca mais me esconda nada, papai! Nem você, mãe. Ah, como estou feliz! Davi me ama! Alfredo me ama! Eu não fui traída, afinal!
Luíza sai de cena.
Rui - Raquel, você quer me explicar?
Raquel - Coisas da alma feminina, Rui. Coisas da alma feminina...
Cai o pano.
ÚLTIMO ATO
(Luizinha está de roupão, colocando a mesa do café. Flores ao centro, um envelope sobre a mesa; ela coloca uma música romântica no aparelho de som, cantarolando)
Luíza - Querido, estou esperando você para o café.
(entra Alfredo. Luíza o pega pela mão e o senta carinhosamente à mesa)
Luíza - Tenho uma ótima notícia para você.
Alfredo - Não, Luíza, não vai ser assim. Basta!
Luíza - Não estou entendendo.
Alfredo - Eu não sou um fantoche. Algum palhaço nas suas mãos. Chega! Fim.
Luíza - Alfredo, o que aconteceu, querido?
Alfredo - Querido... que conveniente para você, não? Fala com voz macia: querido... Olha só para esta mesa: flores... toalha de renda... a melhor louça... guardanapos de linho... o meu queijo preferido... até o pão não é o nosso de cada dia, é croissant... Luíza, o que é que você quer? Fale!
Luíza - Eu senti vontade de agradar a meu marido, fazer um café da manhã especial. Só isso. Você merece.
Alfredo - Mereço o que, Luíza?
Luíza - Merece ser paparicado um pouquinho.
Alfredo - Porque eu sou bonzinho.
Luíza - Como?
Alfredo - Alfredo é tão bonzinho... é assim que você fala de mim, Luíza. Você não diz: o Alfredo, meu marido. Eu amo Alfredo. Eu odeio Alfredo. Não há amor nem ódio em seu afeto por mim. Você é a completa indiferença. Alfredo é tão bonzinho...
Luíza - Você é um homem maravilhoso, Alfredo.
Alfredo - Ah, eu virei um homem maravilhoso, assim, de uma hora para outra, como em um passe de mágica. Luíza, em dois meses de casamento sabe quantas vezes você me disse: Alfredo, você é um homem maravilhoso?
Luíza - Estou dizendo agora.
Alfredo - Você diz vinte vezes por dia: Alfredo é tão bonzinho. Chega. Acabou.
Luíza - Eu desisto de entender os homens. Você tem sido afetuoso, gentil, atencioso, um companheirão bem humorado, um marido perfeito até ontem. Hoje eu resolvo retribuir e você diz: acabou. Você gosta de ser maltratado, Alfredo? Eu vou lá dentro buscar um chicote...
Alfredo - Luizinha, ontem à noite eu cheguei em casa e você estava soluçando desesperada sobre os travesseiros. Eu fiquei assustado, perguntei o que estava acontecendo e de repente você me agarrou, foi arrancando as roupas e se comportou feito uma puta.
Luíza - E você gostou.
Alfredo - Luíza, você me traiu.
Luíza - Absurdo!
Alfredo - Luíza, eu não sou palhaço. Luíza, eu quero a verdade.
Luíza - A verdade está aqui. Neste envelope.
Alfredo - O que é isso?
Luíza - Leia.
Alfredo - Um filho!
Luíza - Eu estou feliz, Alfredo. E você?
Alfredo - Então é isso. Um filho. Você me usou como uma abelha rainha usa um zangão e a noite passada foi a minha recompensa. Hoje você arma o cenário, me dá a boa notícia e amanhã eu volto a ser Alfredo, o bonzinho. Tão conveniente... Não era você que dizia detestar a falsidade da família tradicional, a ridícula palhaçada, a comédia... não é assim que você se refere ao nosso casamento, Luíza? Essa ridícula comédia?
Luíza - Eu estava me referindo à cerimônia religiosa, você sabe perfeitamente.
Alfredo - E esses dois meses, Luíza, o que tem sido estes dois meses senão teatro? Alfredo, o bonzinho e Luíza, a de coração partido. Eu tenho tido paciência com você, Luíza, mas se você não consegue esquecer aquele judeu desgraçado, chega! Eu vou embora!
Luíza - O Davi é passado, morto e enterrado, eu juro.
Alfredo - Mentira! Eu vi a sua expressão quando ele olhou para você naquela festa. A festa parou com aquele lance dramático - plaf! - um copo se espatifa, ele grita de espanto, ela passa altiva, fingindo indiferença... secretamente orgulhosa da perturbação que sua presença causa nos homens, segura de seu charme diabólico...
Luíza - Davi para mim morreu.
Alfredo - E de repente ela descobre nos braços do marido um ardor até então inexistente... você ontem dormiu nos braços de Davi, Luíza, você fechava os olhos e gemia e na sua imaginação era a ele a quem você se entregava e não a mim! Você me usou para me trair comigo mesmo, Luíza! Adúltera!
Luíza - (gargalhada)
Alfredo - Do que é que você está rindo?
Luíza - Eu traí você com você mesmo! Eu estou imaginando você a contar para o juiz: Meritíssimo, eu quero o divórcio porque a minha mulher me traiu comigo mesmo.
Alfredo - Isso é mais comum do que você pensa. A mulher não tem coragem de procurar outro homem fora de casa, então imagina que o marido é o outro. E os homens também fazem isso: olham aquelas fotos nas revistas, aí vão para o quarto, apagam a luz e imaginam que estão transando com as coelhinhas da Playboy.
Luíza - Credo, Alfredo! Você devia ser psiquiatra.
Alfredo - Infelizmente eu estou certo. Você me traiu comigo mesmo.
Luíza - Bem que me avisaram: cuidado com os homens! Você solta a franga e eles pulam gritando: Com quem foi que você aprendeu isso? Por que um homem tem de ser tão inseguro? Por que um homem não pode acreditar que seu amor pode despertar desejo na mulher?
Alfredo - Porque até ontem, Luíza, eu era Alfredo, o bonzinho...
Luíza - Quando você fala assim parece tão horrível...
Alfredo - Alfredo, o bonzinho.
Luíza - Não admira que você esteja com tanta raiva de mim.
Alfredo - Alfredo, o bonzinho.
Luíza - Eu prometo a você que nunca mais vou chamar você de Alfredo, o bonzinho.
Alfredo - E do que é que você vai me chamar, afinal?
Luíza - Meu amor.
Alfredo - Agora que você precisa de um pai para o filho que você quer, você descobre que me ama.
Luíza - Não, Alfredo, a questão é completamente diferente. Quando eu decidi que queria casar eu escolhi um homem com as qualidades que eu queria em um marido e este homem é você.
Alfredo - Você só se esqueceu do amor - um pequeno detalhe.
Luíza - É tão impossível assim eu ter prazer nos seus braços?
Alfredo - Foi um pouco repentino, não foi? Há dois meses eu abraço um pedaço de gelo debaixo dos lençóis. Aí, ontem, você desabrocha. Foi a descoberta da maternidade? Garanta um pai para o seu filho? O pai já está garantido. Você já casou comigo. Se eu sair porta afora, a lei garante que eu pague a pensão alimentícia. Ah, por que fui me apaixonar por você, Luíza? Eu sou apaixonado por você desde que... esqueça!
Luíza - Desde que a sua prima Solange nos apresentou na festa dos 18 anos. Você estava lá, lindo como um príncipe, de smoking, cravo branco na lapela, cheirando a perfume francês.
Alfredo - Você entrou como uma aparição, toda esvoaçante em nuvens de tule vermelho, os ombros nus, aquele pingente de pérola sobre os seios, ah, Luíza, eu pensei - É com esta mulher que eu quero casar.
Luíza - E eu olhei nas suas mãos e pensei - Mas, afinal, o que é que estou procurando? E percebi que estava procurando a aliança. Queria saber se você era casado ou noivo, e então dei-me conta da loucura, pois eu é que estava noiva.... Se eu não estivesse noiva, era com um homem como esse que eu queria casar.
Alfredo - Foi assim, é? Que bom saber que fui escolhido como o segundo esposo. O regra 3.
Luíza - Alfredo, eu quero ser feliz com você. Eu quero construir um lar com você. Dê-me uma chance.
Alfredo - Eu lhe dei uma chance. Eu casei com você.
Luíza - Então me diga como é que eu posso consertar as coisas. E olhe, eu não traí você. Nunca. Nunca. Era em você que eu estava pensando ontem. Eu desejei você na festa da Solange. E você é muito melhor de cama que o Davi, se lhe interessa saber.
Alfredo - Muito obrigado. Sou tão melhor de cama que você levou dois meses para esquece-lo.
Luíza - Davi não presta. É um homem desonesto, indigno. Pelo que ele fez, deveria estar na cadeia!
Alfredo - Então, você descobriu.
Luíza - Você sabia?
Alfredo - Não conheço os detalhes todos, mas eu percebia vagamente que o sujeito era desonesto, que subia na vida rápido demais, mas o seu pai sempre foi muito discreto a respeito. E afinal, o assunto não me diz respeito.
Luíza - O meu pai sempre detestou judeus, eu nunca iria acreditar nele, eu achava que meu pai via tudo torto por causa do preconceito dele. O Davi foi assim uma espécie de doença, eu fiquei com idéia fixa nele.
Alfredo - E agora, Luíza?
Luíza - Agora eu estou curada.
Alfredo - Eu amei você com paixão, Luíza, mas você me magoou demais, você demorou demais para...
Luíza - Ontem nós nos amamos com paixão.
Alfredo - Sua diabinha!
Luíza - Eu amo você, Alfredo.
Alfredo - Não, Luíza, não. Eu não nasci para ser um fantoche, um brinquedo nas mãos de uma mulher. Não dá mais.
Luíza - Alfredo, quando você empaca, sabe ser teimoso!
Alfredo - Eu não sou o bonzinho.
Luíza - Eu odeio quando você se faz de bonzinho. Eu não quero saber de homem bonzinho. Eu nunca mais vou falar Alfredo, você é bonzinho.
Alfredo - Ah, então parece que agora eu acertei a técnica. O negócio é se fazer de difícil.
Luíza - Alfredo, você me ama?
Alfredo - Desesperadamente.
Luíza - Vamos começar agora, Alfredo. Agora é o começo de nossa vida em comum, de verdade.
Alfredo - Davi é assunto morto e encerrado?
Luíza - Quem é Davi?
Alfredo - Voc6e é minha companheira na alegria e na tristeza?
Luíza - E na doença e na saúde, e na riqueza porque eu recuso a pobreza, e na felicidade apenas porque será impossível não ser feliz com você.
Alfredo - Ah, Luíza, o mais importante você não me contou.
Luíza - Você é um homem maravilhoso e eu o amo muito, muito, muito.
Alfredo - Não é isso.
Luíza - Claro que é.
Alfredo - Não é não, é ...
Luíza - O que é, Alfredo?
Alfredo - Luíza, agora que você não vai mais dizer Alfredo, o bonzinho, o que é que você vai dizer quando alguém perguntar por mim?
Luíza - Eu vou dizer: O Alfredo é meu homem.
(Olham-se. Beijam-se.)
FIM
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UMA VOVÓ DIFERENTE
por Sonia Rodrigues
peça teatral em três atos
personagens:
Eleonora (avó) - 70 anos, cabelos grisalhos, elegante, vestida com discrição , amorosa e enérgica, uma mulher prática, esperta, uma pitadinha de malícia.
Roseli - 20 anos - morena de pele bronzeada, cabelos negros, longos e sedutores. Tipo esportivo e meio distraída.
Rosana - 16 anos - morena de pele bronzeada, cabelos negros e longos. Tipo indolente, alegre e perspicaz.
Rosa - 13 anos - loira, olhos claros, pele branquíssima e feições bonitas. Tipo sonhador e ingênuo. Sempre agarrada a um bichinho de pelúcia, tem vários deles pela casa.
Leozinho - aproximadamente 20 anos - bonito, educado, alegre, um pouco tímido. Encantador.
Lord Edward Darlington (Dr. Eduardo) - aproximadamente 50 anos - magro, de uma elegância britânica, desenvolto, acostumado a tomar decisões, relutante em demonstrar emoções, ar mundano, mas percebe - se que está vivendo uma crise moral íntima.
Cida-(empregada)
Cenário único - a sala de estar dos von Lorelein.
paninhos de crochet pelas mesinhas de canto, uma estante de livros a um canto, bichos de pelúcia, livros e discos espalhados aqui e ali, uma profusão de almofadas, uma bombonière repleta, cestinha de costura aos pés de uma cadeira de balanço, enfim, percebe - se ser o ambiente de duas gerações: indícios da presença de uma vovó e suas netinhas.
CENA I
Em cena, Eleonora arruma um vaso com flores. Entra Roseli, carregada de sacolas.
Roseli - Férias! Nem acredito. Finalmente, férias!
Eleonora - Por onde você andava, menina, que não apareceu em casa até agora?
Roseli - Levantei cedinho, caminhei pela praia, fui ao clube malhar, tomar um bronze...
Eleonora - Tomar o que? Você não está metida em drogas, está?
Roseli - Relaxa, vó. Estou falando de SOL. Fui me livrar do branco universidade e ficar com cor de gente. (entra Rosa, com um bichinho nos braços e se acomoda na cadeira de balanço). Aí tomei uma sauna, almocei uma saladinha lá no clube mesmo, fui ao salão ajeitar o visual (exibe as unhas e o cabelo), depilei - me...Ah! E comprei um guarda - roupa novo. Agora, os homens que se cuidem que estou preparada para a temporada.
Eleonora - A temporada de verão.
Roseli - Não, vó! A temporada de caça!
Eleonora -Caça?
Roseli - É, caça aos sapos!
Eleonora - Sapos? Mas... mas isto é coisa de moleque. E depois, aonde é que você vai caçar sapo? Aqui nem tem lagoa!
Roseli - Vó, eu preciso desencantar o meu príncipe o mais rápido possível. Afinal, estou com vinte anos e preciso desencalhar.
Eleonora - É muito cedo para casamento.
Roseli - Que casamento, vó, eu quero só um namorado. Eu sou a única moça de vinte anos que conheço que nunca namorou. Que nunca deu um beijo!
Eleonora - Comprou camisinhas? Hoje em dia não se abre mão das camisinhas, hein? Mesmo tomando anticoncepcionais, é: camisinha sempre.
Roseli - Isto é mais tarde, primeiro eu preciso achar o sapo.
Eleonora - Nada de mais tarde, quem sai à caça, sai prevenida. Pegue aqui : ( vai até sua bolsa e retira dela :) camisinhas com lubrificante, camisinhas coloridas, camisinhas fosforescentes, camisinhas musicais e camisinhas com sabor: tutti - frutti, chocolate, baunilha e hortelã.
Roseli - Vó! Isso é lá coisa que uma mulher de setenta anos dê para uma neta?
(Entra Rosana carregada de livros e se ajeita pelo chão)
Eleonora - Você sabe que eu não quero que aconteça nada de mal com você.
Rosana - Aposto que a vó já vai começar com aquela velha ladainha: que não aconteça com vocês o que aconteceu com a sua mãe.
Eleonora - É isto mesmo. Já basta uma tragédia na família.
Rosa- Que drama, vó!
Eleonora - Não riam. Vocês não sabem como dói no coração de uma mãe ver uma filha infeliz. Uma moça que eu criei com tanto carinho, tão mimada, tão protegida, tão boa, educada na fé cristã, tão certinha, tão piedosa... e mãe solteira. Três filhas sem pai!
Roseli - Sem pai não, vó. Sem sobrenome de pai. Ninguém aqui nasceu de um ovo abandonada ao sol. E depois, nós três temos o mesmo pai.
Eleonora - Pois era só o que faltava, que cada uma tivesse um pai diferente.
Roseli - Isto é comum por aí.
Eleonora - Não em uma família tradicional como a nossa. Nós temos berço. Nunca se esqueçam, meninas, que nós somos descendentes do conde von Lorelein!
Rosa - Eu tenho orgulho de ser uma von Lorelein!
Roseli - Rosa, eu tenho lá as minhas suspeitas de que este tal conde de von Lorelein é um primo meio distante dos Dráculas da Transilvânia.
Eleonora - E aí vem a sua mãe, com esta história inacreditável. Simplesmente inacreditável.
Rosana - “A incrível história de Abigail” . Senta, galera, que a vovó vai contar a história de mamãe. De novo.
Rosa - Incrível é um nome desses. Eu assisti a um desenho animado em que havia uma gansa de nome Abigail. Vovó, porque você deu um nome de gansa para a mamãe?
Eleonora - Seu avô escolheu. Era o nome da avó dele.
Rosana - Vai lá, vó. Conta a história da mamãe. De novo.
Roseli - É a história da mulher que beijou o sapo errado. Em vez de ele virar príncipe, foi ela que virou sapa.
Eleonora - E a vida dela foi pro brejo.
Rosa - Eu nem conheci a mamãe. Ela morreu logo depois que eu nasci. Como era ela ,vó?
Eleonora - Era uma moça romântica, sonhadora... muito meiga, muito boazinha, enfim, uma completa tola. Um dia, foi passear na praia com as amigas e conheceu um músico. Um roqueiro maluco. A sua mãe ficou encantada com o moço, com as palavrinhas bonitas que ele disse para ela.
Rosa - Ele era bonito, vó?
Eleonora - Era pior que isso. Era charmoso. Com um irresistível sorriso cafajeste, desses que torcem o canto dos lábios assim só de um lado e deixam as mulheres alucinadas. Ele levou a sua mãe para passear na praia e ela voltou grávida.
Rosana - Como, vovó? A praia está sempre lotada e nem existiam motéis naquele tempo, não é?
Eleonora- Que motel, Rosana! Aqueles eram tempos de grossa hipocrisia. “Postura e compostura!”
Roseli - Tempos em que não se falava de sexo em frente de moça solteira. Era “pecado”.
Eleonora - Pecado é deixar as moças na ignorância.
Rosana - A minha mãe era ignorante, vó?
Eleonora - Como ela poderia ser ignorante se era eu a mãe dela? Depois. ela tinha vinte e cinco anos quando engravidou da Roseli. Ela tinha o que eu chamo de conhecimentos teóricos sobre a fecundação da espécie.
Rosa - É outra das manias da vovó. Para que simplificar se podemos complicar? Traduz, vó.
Eleonora - Era como se ensinava antigamente. Fale sobre flores, pássaros e abelhas. Tudo sobre o “antes” e o “depois”. Nada sobre o “durante”.
Rosana - A mãe não estudou em colégio de freiras? Deve de ser engraçado aqueles pingüins ensinando sobre o “crescei e multiplicai - vos”.
Eleonora - Abigail teve mãe. E eu fui uma boa mãe. Dentro de minhas limitações.
Roseli - Continue, vó.
Eleonora - Nós sempre protegemos muito nossa filha. Se ela ia a uma festa, seu avô levava e buscava na porta. A primeira vez que ela se viu sozinha com um homem, não soube se defender.
Rosa - Meu pai atacou ela, vó?
Eleonora - Pior. Ele a beijou.
Rosa - Mas então ela ia se defender do que?
Eleonora - Dela mesma. Da emoção que ela sentiu. É o amor, minhas netas, é o amor que perde uma mulher. Ela se sentiu atraída por ele de tal forma que, quando percebeu, já havia acontecido tudo: o que devia e o que não devia.
Roseli - Um beijo fez isso, vó? Então eu estou mesmo correndo perigo. Acho que vou carregar umas camisinhas na bolsa, por segurança. (vai pegá -las)
Rosana - Mas... na praia, vó?
Eleonora - Ele a arrastou para um lugar deserto, ela disse que não queria ir, mas foi.
Rosa - E porque eles não se casaram, vó?
Eleonora - Porque o rapaz foi embora, Rosa, e quando a sua mãe descobriu que estava grávida, ele já havia tomado outro rumo na vida.
Roseli - E como foi que ele encontrou de novo com ela?
Eleonora - Roseli, ele voltou quatro anos depois e eles se encontraram por aí. Ela contou a ele sobre você e ele arrastou ela para um hotel. A boba pensou que ele ia casar, mas o infeliz nem sequer veio conhecer a filha. E Abigail engravidou de novo.
Rosana - Mas desta vez ela tinha o endereço dele.
Eleonora - Pegou o endereço e o telefone, andou escrevendo e telefonando para ele, mas nada de ele vir registrar vocês. Foi estudar pelo exterior e nunca mandou um centavo para ajudar.
Roseli - A mãe não teve outros namorados? Nunca?
Eleonora - A sua mãe foi sempre um completo mistério para mim. Uma moça calada, tímida, sossegada, ia do trabalho para casa e da casa para a igreja, tão cumpridora de seus deveres. Mas quando via aquele desclassificado era como se tivesse o diabo no corpo. Virava uma puta.
Rosa, Rosana e Roseli - Vó, é de nossa mãe que você está falando.
Eleonora - Estou falando de minha filha. De minha amada filha Abigail. ( pausa ) E digo uma coisa para vocês: se ela não tivesse aquela febre puerperal que a matou, eu ia ter com certeza mais dois ou três netinhos passeando por aqui.
Rosana - E meu pai, vó?
Eleonora - Eu só o conheci no enterro de sua mãe. Acreditam que ele teve a cara de pau de comparecer com a esposa ao lado?
Roseli - Eu estava no velório, mas não me lembro de nada. Eu chorava tanto e nem sabia que meu pai estava lá.
Eleonora - É por isso que eu criei vocês bem longe da igreja. Religião é bom sem exageros. Tem de namorar, de dançar, de conversar com os rapazes, dar uns beijinhos aqui e ali, e usar camisinha.
Roseli - Vovó, não adiantou nada a senhora me colocar para estudar em colégio misto. Eu nunca namorei e nunca dei beijinhos aqui e ali, como a senhora diz.
Eleonora - Mas não fui eu quem impediu. Estes moços de hoje devem estar com algum problema para não enxergarem uma mocetona bonita como você, Roseli.
Rosa e Rosana - E nós, vó?
Eleonora - Vocês também são lindas, meus amores. Mas, Rosana, você está com olheiras!
Rosana - É a prova final de filosofia, vovó. Se eu não tirar oito, repito de ano.
Eleonora - Rosana, como foi que você ficou tão mal de nota?
Rosana - Muito clube, vó. Piscina. Baile. Pre...
Eleonora - Pre?
Rosana - Preguiça de estudar.
Eleonora - Ah! Pre..
Roseli - Bom, eu vou guardar minhas roupas e vou rezar com bastante fé para o meu anjo da guarda me arrumar um namorado.
Rosana - Vovó, eu preciso de uma bola de cristal para ver se adivinho as perguntas da prova.
Eleonora - Faça cola.
Rosa - A senhora é um mau exemplo de vó, mesmo.
Eleonora - Preste atenção, Rosana. Para fazer uma boa cola, você deve ler a lição com bastante cuidado. Grifar o que é mais importante. Fazer um resumo. Depois copiar tudo em um papel bem pequenininho. Aí confere, faz uma segunda cola por segurança, caso perca a primeira. Aí você joga tudo fora porque a lição já entrou pelo seu cérebro adentro.
( cartas passam pela soleira da porta neste momento)
Rosa - Vó, chegou a correspondência. (pega e separa) Estas são as suas...
Eleonora - Deixe - me ver...aonde foi mesmo que eu pus os meus óculos?
Roseli, Rosa e Rosana - Em cima da televisão, como sempre.
Eleonora - Ah, esta é do meu admirador secreto!
Roseli - O poeta? Ah, vó, a senhora é a minha esperança. Arrumar um namorado aos setenta anos de idade é demais. E um namorado que escreve poemas de amor!
Rosana - E o que mais ele poderia fazer com esta idade?
( Risos)
Eleonora - Deixem - me ler meus poemas sossegadas. Fora daqui! Fora!
(as netas saem)
Eleonora - Ah, meu caro Otacílio...se minhas netas soubessem que você foi o meu primeiro namorado... meu pai não quis o nosso casamento... quem diria que o destino faria com que nos reencontrássemos tantos anos depois....(suspira) E esta outra carta, de quem será? (lê, leva a mão ao peito e tomba para trás) Não, não pode ser...(as cartas tombam se suas mãos) Ai!
Fim do primeiro ato. Cai o pano
CENA II
Cenário: sala de estar dos Lorelein. Há pratos e copos usados espalhados pela cena, revistas, bichos de pelúcia por todo canto, peças de roupa e toda sorte de objetos fora de lugar. Rosa está na cadeira de balanço agarrada a um bichinho. Rosana está rodeada de livros, de óculos de aros grossos, com ar fatigado. A seu lado há um prato com frutas, refrigerante e uma caixa de bombons.
Rosana - Você passou o dia todo aí nessa cadeira. Aliás, há dez dias você não sai dessa cadeira.
Rosa - Estou ouvindo a vovó. Ela me disse uma vez, quando eu era pequenininha, que se eu tivesse saudades dela era só encostar nessa cadeira e ouvir a voz dela contando uma história.
Rosana - Ela dizia isso para mim também. Eu fechava os olhos, me encolhia toda nesta cadeira e ficava a ouvir a vovó cantar para mim.
Rosa - É a nossa cadeira mágica...
(Pausa. Rosana estuda. Rosa se embala de olhos fechados. Vozes no corredor.)
Entram Roseli, Leozinho e Eduardo.
Roseli - Vovó volta para casa amanhã.
Eduardo - Definitivamente a avó de vocês está fora de perigo.
Roseli - Foi uma sorte o doutor estar no prédio justo quando vovó passou mal e eu saía em busca de ajuda.
Leo - Sorte foi “eu” estar aqui à disposição para levar sua avó para o hospital. Que médico sem remédio, sem querer desfazer do Dr. Eduardo, é inútil.
Roseli - Você é um amigão, Leo. A gente reconhece.
Eduardo - Estou vendo que receberam as frutas que mandei entregar.
Rosana - Deliciosas.
Rosa - Recebemos as flores, também.
Roseli - Você está nos deixando mal acostumadas, dr. Eduardo.
Eduardo - Ora... vocês podem contar comigo. Como um pai.
Leo - Posso servir um café?
Roseli - Você já é de casa, Leo, já está careca de saber o caminho da cozinha. Olha, o meu com bastante açúcar.
Eduardo - Vai dar um trabalhão arrumar esta casa até amanhã.
Roseli e Rosana - Arrumar a casa?
Rosa - Que idéia estranha.
Eduardo - Sua avó está recuperada, mas não vai poder fazer faxina. Vocês devem cuidar da arrumação, do serviço mais pesado.
Rosana - Dr. Eduardo, vê - se bem que o senhor não conhece a nossa família.
Roseli - É o seguinte: aqui moram quatro mulheres que detestam, que abominam, que tem paúra por trabalho doméstico. Ninguém aqui nasceu com vocação para faxineira. Aliás, nós convivemos pacificamente com a poeira e a desordem. É uma bagunça organizada, entendeu?
Eduardo - Vocês não pagam alguém para fazer a limpeza?
Roseli - A gente está economizando. Para comprar um computador.
Rosana - A gente vive da pensão da mãe e da aposentadoria da avó.
Rosa - Aqui sobra mês no fim do salário.
Leo - Olha o cafezinho. Tome, Roseli, com bastante açúcar, para você recuperar as suas energias. Você precisa comer e precisa descansar. Cuide - se.
Roseli - Obrigada, Leo. Eu não sei o que faríamos sem você.
Eduardo - Minhas queridas, vocês estão precisando de dinheiro?
Rosa e Rosana - Sim.
Roseli e Leo (ao mesmo tempo)- Não.
Rosana - Eu trabalho de babá para os vizinhos aos sábados.
Roseli - Eu leciono. Também dou aulas particulares.
Rosa - A vovó faz umas encomendas de crochet.
Leo - Eu mando a nossa empregada para cá amanhã. A vovó merece.
Eduardo - É sua avó também?
Leo - É como se fosse. Ela me conhece desde que eu nasci. Aliás, eu vou falar com a Cida agora mesmo. (Sai)
Roseli - Tome um café, Dr. Eduardo.
Rosana -Meu exame é amanhã. Passei a tarde inteira fazendo cola, como a vovó ensinou.
Roseli - E você, Rosinha, como passou a tarde?
Rosa - Na cadeira da vovó, imaginando que ela me contava histórias.
Rosana - E você, Roseli? Não tropeçou em nenhum médico solteiro lá pelo hospital, não?
Roseli - Se tropecei, passei despercebida. Estou naquela fase da vida em que eu bem poderia ser invisível. Ninguém me nota,
Eduardo - Você está é precisando de óculos. Bem, eu amanhã estarei lá no hospital na hora da alta e trarei vocês para casa. (dá um beijo de despedida em cada uma)
Roseli - De. Eduardo, por que é que o senhor está fazendo tanto pela gente?
Eduardo - Ah, eu... eu gosto de vocês.(sai)
Rosa - Vovó em casa de novo. Que sonho!
Rosana - Vovó em casa, eu livre do meu exame final, férias. Que sonho!
Roseli - Vovó em casa, eu livre para caçar meu sapo... Que sonho!
Rosa - Roseli, chegaram estas cartas para você.
Rosana - Conta a verdade, Roseli. Nestes dez dias você não ficou o tempo todo no hospital, não é?
Roseli - Não. Eu tenho caminhado no calçadão, tomado cafezinho em barzinhos diferentes, procurado por notícias da vovó no horário da visita dos médicos residentes...Usei todos os truques que conheço, mas olha... nada!
Leo (bate à porta e entra) - Roseli, a Cida estará aqui amanhã às sete, OK? E eu trouxe o jornal de hoje para você. Aposto que você não teve tempo de ler.
Roseli - Obrigada, Leo.(pega o jornal e fecha a porta)
Rosana - E estas cartas?
Roseli (larga o jornal e pega as cartas) - Vocês prometem guardar um segredo? É que escrevi para uma dessas agências de casamento.
Rosana - Credo, que exagero!
Roseli - Estou ficando desesperada, Rosana. Não tem um homem no mundo que perceba que eu existo.
Rosana - Acho que você está precisando é de óculos.
Rosa - Abre as cartas, Roseli.
Roseli - Gente, que homem lindo! Olha só!(mostra uma foto) É a cara do Harrison Ford!
Rosa - Uau! Que gato!
Rosana - Leia! Leia!
Roseli - Gente, é médico... trabalha em pesquisas... vinte e oito anos... hematologista...Mora no Iraque... procura uma esposa.... “uma mulher que não e incomode de viver no Islã, coberta de véus pretos e sem poder sair à rua desacompanhada e que não tenha medo de bombardeio, porque o país está eternamente em guerra”.
Rosana - É por isso que tudo isso de homem ainda está solteiro. Leia outra.
Roseli - “Procuro loira, alta, que saiba usar o chicote, pois gosto de apanhar.”
Rosa - Credo!
Rosana - Lixo!
Rosa - Tem mais. Leia.
Roseli ( folheando uma a uma as cartas) - Viúvo, 65 anos...Não.... “Tenho 4 filhos entre 6 e 2 anos e procuro uma mulher para ajudar a criá - los...”...Não... “Sou testemunha de Jeová e procuro uma irmã de fé para acompanhar - me em um trabalho missionário na Etiópia”....
Rosa - É melhor você caprichar no visual e continuar a caminhar no calçadão.
Rosana - Arrume um emprego de pesquisadora de opinião pública. Aposto que assim você vai conhecer um montão de homens.
Leo (bate à porta e entra) - Meninas, eu vou até o supermercado. Vocês precisam de alguma coisa?
Roseli - Tem coisas até demais aqui em casa, Leo. Você e o Dr. Eduardo nos mandaram tanta comida nestes dez dias que nós não vamos mais fazer compras até o final do ano. E vamos engordar uns cem quilos cada uma.
Leo - Então até amanhã.
Rosana, Rosa e Roseli - Até amanhã, Leo.
Roseli - Ah, como seria bom se eu tivesse um homem que gostasse de mim por perto... seria tão bom...
Rosa - Você está é precisando de uns óculos, Roseli. Eu vou dormir.
Roseli - Eu também . Você não vem, Rosana?
Rosana - Ainda não descobri a causa primeira da minha angústia metafísica . Ai, que falta faz a vovó!
Roseli - Ela diria a você para usar a bola de cristal.
Rosana - Ora, eu não estou querendo prever o futuro. Que bobagem!
Roseli - A vovó usa a bola de cristal para se concentrar antes das práticas de meditação. Ela diz que “clareia a mente”.(sai)
Rosana pega a bola de cristal. Pode fazer um pequeno ritual, como fechar os olhos ,
respirar fundo e erguer a bola à altura dos olhos, encarando -a com olhar semi fechado.
A cena com os filósofos pode ser feita com projeções de slides em uma tela ao fundo
e um gravador, com suas vozes.
Rosana - Ah, filósofos de todas as épocas, tragam - me a sabedoria! Primeiro, Sócrates.
Sócrates - Conhece - te a ti mesmo!
Rosana - Agora, com a palavra, Platão.
Platão - Ah, a filosofia! O caro deleite da alma! Rosana, você se lembra daquele preceito de Pitágoras?
Pitágoras - Escolha o melhor. O hábito irá torná - lo agradável e fácil.
Rosana - Coisas agradáveis e fáceis podem ser boas? Parece coisa de Epicuro.
Epicuro - Não devemos evitar os prazeres, mas selecioná -los.
Rosana - E o que me dizem sobre dinheiro?
Francis Bacon - Eu, Francis Bacon , respondo : O dinheiro é como o esterco, só é bom se for espalhado.
Rosana - (larga a bola de cristal e volta a seus apontamentos) - Ah, aqui está outra preciosidade de Francis Bacon: “Um homem é apenas aquilo que ele sabe”. E eu afirmo a vocês, a mesma coisa que Sócrates disse há apenas dois mil e quinhentos anos atrás: “Só sei de uma coisa, e é que nada sei”.
Fim do segundo ato. Cai o pano.
CENA III
Cenário : o mesmo. Agora a sala está impecavelmente arrumada. Em cena, Cida.
Cida - A Dona Eleonora tem setenta anos, a gente sabe que ela já não está mais em idade de pegar no pesado, nem deve enxergar direito, a coitada, mas as netas... é uma vergonha, três mulheres saudáveis deixarem a casa neste desleixo. Foi bom que elas saíram que assim pelo menos não atrapalham. Aquele tal de Dr. Eduardo foi almoçar com elas em algum restaurante bacana parra “comemorar”. Comemorar o que? A Dona Eleonora é que tem de comemorar com a família dela. Sei não, mas aí tem coisa. Minha querida para cá, minha filha para lá, frutas, flores, e leva pro hospital e busca no hospital... ninguém conhecia o raio do homem, de repente o diabo não desgruda daqui...Aí tem...
Leo (entrando) - Que é que você tanto resmunga aí, Cida?
Cida - Credo, seu Leozinho, que susto!
Leo - Trouxe flores para alegrar a casa.
Cida - Mais flores?
Leo - Como mais flores?
Cida - Já tem as flores do dotô aí, né?
Leo - O Dr. Eduardo é muito atencioso.
Cida - Demais.
Leo - O coitado não tem família, Cida. Vai ver nem teve filhos. Ele se sente bem sendo útil.
Cida - Seu Leo, eu ainda não almocei. Posso ir? Já está tudo pronto.
Leo - Vá almoçar, Cida. E tire a tarde de folga.
Cida - Pelo trabalhão que eu tive aqui, eu devia tirar uma semana de folga! Isso aqui não é um “lar doce lar”. É uma mistura de república de estudantes com casa de repouso. (sai)
Quase em seguida, entram Eleonora e as netas.
Roseli, Rosa e Rosana - Chegamos!
Eleonora -Leozinho, meu querido!
Leo - Vovó, que bom que a senhora voltou! Eu trouxe suas flores preferidas. Cravos bem cheirosos.
Eleonora - Flores alegram a vida da gente. E aquelas outras ali, de quem são?
Leo - São do Dr. Eduardo. E ele, não subiu?
Rosa - Ficou estacionando o carro.
Eleonora - Pois eu pensei que eram para Eleonora, de algum namorado.
Roseli - Quem dera, vovó. Ninguém me nota!
Eleonora - Minha neta, você está precisando de óculos.
Rosa - Vó, o dr. Eduardo levou a gente a um restaurante chique, daqueles que trazem aqueles carrinhos de sobremesa para a gente escolher, um luxo...
Rosana - O meu relógio quebrou, ele me deu um novo de presente. Até parece ouro de verdade.
Eleonora (examinando) - É ouro de verdade.
Roseli - Não pode ser, vovó. Ele não faria uma coisa dessas.
Eleonora- Mas é. E ouro do bom. (e para si mesma:) Será que... não, não é possível.
Rosa - Senti tanta falta de você, vovó! Eu ouvia a senhora me contar histórias todos os dias, aí, encostada em sua cadeira.
Rosana - Vó, eu tirei nota nove no exame. Fiz as colas que a senhora ensinou. E usei a sua bola de cristal para “clarear as idéias”.
Roseli - Agora que não preciso mais passar as noites no hospital, eu vou dormir até meio dia.
Eleonora - Expliquem direito quem é esse doutor Eduardo.
Roseli - É o médico que acudiu a senhora. Ele deu o maior apoio para nós.
Eleonora - E por que?
Roseli - Eu não sei. Mas ele tem sido muito correto. Respeitador. Um verdadeiro cavalheiro.
Eleonora - Ele é estrangeiro?
Roseli - Ele mora na Inglaterra. O pai dele era inglês. Aliás, ele perdeu o pai há algumas semanas atrás.
Eleonora - É isso! Lorde George Darlington faleceu!
Roseli - Ele lhe contou, vovó? A família dele é muito rica e importante.
Eleonora - Agora estou entendendo.
Eduardo (entrando carregado de embrulhos) - Aqui estão os pacotes que as mocinhas esqueceram no porta - malas.
Eleonora - Lord Edward Darlington.
Eduardo - Como disse?
Eleonora - Eu gostaria de saber, Eduardo, o que você veio fazer no Brasil.
Eduardo - Viajar. Eu sempre saio de Londres no inverno.
Eleonora - Para pajear uma velha e suas três netas? Isso não me parece um programa agradável.
Eduardo - Pelo contrário, foram os dias mais felizes de minha vida.
Rosana - Como assim?
Eduardo - Eu sempre fui muito solitário, e vocês são como a família que eu não tive.
Eleonora - Não teve porque não quis, Eduardo.
Roseli - Vovó!
Eduardo (à parte, para Eleonora) -Dona Eleonora, vejo que a senhora já me reconheceu. (para todos) Eu estou indo embora amanhã. Volto para Londres.
Rosa - Vou sentir sua falta.
Rosana - Nós nos acostumamos com seus mimos.
Eleonora - Acho que conheço alguma coisa sobre o testamento de seu pai, Edward. Há uma cláusula que diz que, não havendo netos, o filho herdeiro não pode dispor do patrimônio da família, e que, após a sua morte, a fortuna será doada a uma instituição beneficente.
Roseli - Como é que a senhora sabe dessas coisas, vovó?
Eleonora - Eu me correspondi certa vez com Lord George.
Eduardo - Então foi a senhora quem contou...
Eleonora - Sim, fui eu.
Rosa, Rosana e Roseli - O que está acontecendo?
Eleonora - Conte para elas, Edward.
Eduardo - Eu me afeiçoei às meninas, Eleonora. Deixe que elas guardem de mim uma boa recordação.
Eleonora - Afeiçoou - se a elas, Edward? Homens como você não tem coração.
Eduardo (à parte) - Por favor, Dona Eleonora. Deixe - me partir agora.
Eleonora - E você abrirá mão da herança, Eduardo?
Eduardo - Abrirei.
Roseli - Como assim? Que herança?
Eleonora - Essas mocinhas não são ricas, Eduardo, mas são responsáveis. Coisa que você nunca foi.
Eduardo - Eu conheci muito bem essas mocinhas. Qualquer pai estaria orgulhosos delas.
Rosa - Eu não conheci meu pai.
Rosana - Ele nos abandonou.
Roseli - Nos nem temos o sobrenome dele.
Eduardo - Sinto muito. Adeus.
Eleonora - Lord Edward Darlington! O senhor não dará um passe para fora desta sala sem contar a verdade a estas moças.
Eduardo - Por favor, senhora...
Eleonora -Se você não contar, conto eu.
Rosa - Estou com medo.
Rosana - Vovó parece tão zangada...
Roseli - Nós já saberemos o que está acontecendo. Não é , vovó ? Não é, Dr. Eduardo?
Eduardo - Preciso mesmo contar?
Eleonora - Eu exijo.
Pausa.
Eduardo - Eu sou o pai de vocês.
Pausa
Roseli - Meu pai?
Rosana - Pai?
Rosa - Papai?
Roseli - Não é possível, o meu pai era um vagabundo, um guitarrista, um músico boêmio, o senhor é um lorde...
Rosana - Meu pai era um sem caráter, irresponsável, e você á bom, e nos ajudou tanto...
Rosa - (aproximando - se) - Você é como eu...branquinho, com esta pele que vira camarão quando toma sol e olhos desbotados...
Roseli - Será possível?
Rosana -Por que você voltou agora?
Eleonora - Por causa do testamento.
Roseli - O que nós temos a ver com este testamento, afinal?
Eleonora - Quando Abigail morreu, eu descobri quem era Eduardo, e escrevi ao pai dele, Lord George, contando sobre vocês. O Lord era um protestante de moral rígida e resolveu deserdar o filho se ele não reconhecesse vocês.
Eduardo - Ele não me deserdou, mas deixou uma cláusula no seu testamento que me impede de usar a herança a não ser que tenha herdeiros.
Roseli - Foi por causa do dinheiro que você veio.
Rosana - É por isso que você estava no prédio naquele dia. Não foi por acaso.
Rosa - A carta que a vovó estava lendo quando teve o ataque do coração...Lembram? A carta dizia: “Cheguei e vim buscar o que me pertence”. Era sua a carta, então. Quase matou a vovó de susto. Veio nos buscar.
Eduardo - É verdade. Eu vim atrás do dinheiro. Eu ia reconhecer vocês, levá - las para a Inglaterra, tomar posse da herança, colocá - las em um internato na Suíça e embarcar em um cruzeiro ao redor do mundo.
Rosa , Rosana e Roseli - E nos abandonar de novo!
Eleonora - É o que ele faria.
Eduardo - Não, não faria! Não depois de conhecer vocês. Eu nunca soube o que é amar, nunca amei... Agora amo vocês. Vocês fazem parte da minha vida. Eu estou tão envergonhado que estava indo embora sem dizer quem eu era só para que pudéssemos continuar amigos.
Eleonora - Você ia mesmo desistir desta herança, Edward?
Eduardo - Sim, ia. Não. Vou. Eu não quero que minhas filhas fiquem pensando que eu.. que eu... É inútil. É tarde demais. Adeus.
Eleonora - Ora, Edward, reconheça logo as meninas e receba a herança. Nós estamos precisando de um pouco mais de conforto. Vamos ser práticos. Que venha o dinheiro.
Roseli - Não quero o seu dinheiro, pai.
Rosana - Não quero ir para nenhum internato na Suíça.
Rosa - Você me leva para Londres, pai?
Eduardo - Você quer conhecer Londres?
Rosa - Eu quero ir para um lugar onde não me achem feia.
Roseli, Rosa e Eleonora - Feia? Você?
Rosa - Aqui no Brasil só tem vez quem tem cabelos negros, grossos, ondulados, pele bronzeada e olhos de jabuticaba. Sabem como me chamam no colégio? Bicho de goiaba. Barata descascada. Branca azeda.
Eduardo - Minha filha, você é linda!
Rosana - Rosa, você nunca disse isso antes.
Rosa - Eu não, senão vocês iam fazer pouco de mim também, como as garotas da escola.
Eleonora - É por isso que você se tranca dentro de casa e não quer sair?
Eduardo - Você vai adorar Londres. Nós, ingleses, gostamos de pele branca como o luar e faces coradas como as rosas.
Rosa - Que romântico!
Eleonora - Posso morrer sossegada sabendo que vocês vão ficar amparadas. Não era o que eu pensava antes do meu infarto e se você me aparecesse aqui antes, eu o mandaria embora sem mais aquela, mas depois que se vi a morte de perto, comecei a pensar diferente.
Eduardo - A senhora me perdoa?
Eleonora - Não, não perdôo. Mas eu aceito.
Rosa - Vou poder ir para Londres, vovó?
Eleonora - Claro que sim.
Rosa - E a vovó pode ir conosco, papai?
Eduardo -Façamos o seguinte: nós todos fazemos uma viagem de uns quinze dias para Londres e depois resolvemos aonde vamos morar. Este também é um lindo país e eu poderei vir morar aqui.
Eleonora - É muito conveniente, para fugir do escândalo.
Eduardo - É verdade. Haverá comentários desagradáveis.
Roseli - A sua situação na sociedade ficará embaraçosa.
Eleonora - Edward, sabe o que mais? Deixe - nos a sós. Volte depois do jantar.
Eduardo - Está bem. Eu vou cuidar dos documentos necessários... Posso abraçar vocês?
Abraçam -se todos.
Minhas queridas filhas! Eu voltarei logo. Meus amores! (sai)
Rosana - Estamos ricas. Que sonho!
Rosa - Vou ver a neve. Que maravilha!
Roseli - É, parece que o mundo virou de cabeça para baixo.
Todos começam a se ocupar com alguma coisa. Rosana vai ouvir música. Rosa brinca com seus bichos. A avó começa a mexer na cesta de crochet.
Roseli - Vó, eu quero contar uma coisa para a senhora. Prometa que não vai rir de mim.
Eleonora - Eu não vou rir, tesouro. O que é que está preocupando esta cabecinha?
Roseli - Eu quero tanto arrumar um namorado, vovó. Aí eu pedi para o meu anjo da guarda, pedi com toda a fé, mas eu marquei um prazo para o anjo e o prazo termina hoje às cinco horas da tarde. Será que isso quer dizer que eu vou ficar solteira, vovó? Vai ser pior do que morrer virgem, vó, vou morrer sem ter recebido sequer um beijo. Um mísero beijinho.
Leo(bate à porta e entra) - Ei, Roseli, agora que a vovó está me casa, a gente podia pegar um cineminha esta noite, o que é que você acha?
Roseli - Ah, não, Leo, eu não estou com cabeça para cinema hoje, sabe, aconteceu um monte de coisas, deixe a gente ficar sozinha agora, certo?
Leo - Bem, eu não quero atrapalhar. Olhe, se você mudar de idéia, me avise.(sai)
O cuco dá cinco badaladas.
Roseli - Está vendo, vó? Cinco horas. E não apareceu nenhum homem em minha vida.
Rosa, Rosana e Eleonora - Você está mesmo precisando de óculos.
Roseli - Vocês não estão pensando... Estão. Não, gente, o Leozinho não, o Leozinho é só um amigo, um cara maravilhoso que eu conheço desde criança...(corre para a porta, abre e grita para fora) Leo! Leo! Mudei de idéia! Eu vou ao cinema!
Leo - Você vai sair comigo, Roseli? De verdade?
Roseli - De verdade.
Leo beija Roseli impetuosamente, dá um grito e some da cena aos pulos.
Roseli - Milagre! Desencantei!
Fim do terceiro ato. Cai o pano.
FIM