Em uma rodinha de médicos, é inevitável que, em algum momento, alguém venha com alguma piadinha profissionalmente incorreta. Como aquela do Dutra:
‘Lá no asilo de velhinhos, Mariazinha estava inconformada porque o namorado a trocara por uma recém chegada, e partiu direto para o confronto: escute aqui, João, o que é que esta novata tem que eu não tenho?
- Parkinson.’
Enquanto todo mundo ria ou fingia rir, eu me lembrei de minha amiga Syntia com S, sim, em homenagem, segundo sua mãe, ao quarteto em Si, conjunto de muito sucesso na gravidez dela.
Pois a minha amiga Syntia, aos 65 anos, tem, entre outras patologias graves, Parkinson. A casa de Syntia foi sendo adaptada ao longo dos anos. Começou com as barras de apoio no banheiro, que se espalharam pela casa toda até o vestíbulo de entrada, a mesa de refeição e a escrivaninha onde ela trabalha, com apoios, semelhantes àquelas dos navios antigos, quando a cada balançadinha, os pratos e copos escorregavam pelas mesas. A retinopatia diabética deixou minha amiga quase cega, um aneurisma a levou para a mesa de cirurgia, um rim foi transplantado, e ela ali, risonha e firme.
Risonha, sim, e por isso, a casa dela vive lotada de amigas, que se sentem absolutamente impedidas de reclamar seja lá o que for de suas próprias vidas, se a Syntia está lá, nos recebendo com música – a voz dela, seu maior tesouro, foi poupada pelas doenças – inventando todo tipo de projeto social, desde coletar pilhas até criar minhocas para aproveitar o lixo orgânico caseiro economizando em compra de húmus de minhoca para os vasinhos de plantas dos condomínios e apartamentos de todos.
Ir a uma das reuniões na casa de Syntia é receita certa para sair renovada para os embates cotidianos desta brasileira vida.
Pois em uma dessas segundas- feiras de chuva, eu a encontrei, sozinha. Chovia muito, mesmo, uma daquelas chuvaradas durante as quais o santista brinca dizendo que esqueceu a canoa em casa.
Ela me recebeu com bolinho de cenoura e chá, lanche que a empregada tinha deixado pronto para nós sobre a mesa da sala, e um brilho de felicidade no olhar que há muito eu não via em ninguém.
- Minha querida, estou amando. – e ela riu, uma risadinha atrevida – Quem diria, não é, na minha idade!
Eu me encolho, apreensiva. Syntia tinha justamente acabado de sair de uma de suas internações de quase um mês, estaria ela começando a caducar? Ela se inclina para mim e confessa: é o padre.
Quase engasgo. O padre, que foi chamado pela família, ao que sei, para a extrema unção?
E Syntia me conta tudo.
Que o padre, bonitão, afastou toda a família e pediu pra ficar a sós com ela no quarto. No primeiro dia, conversaram todo aquele blábláblá e lerolero da igreja e a Syntia foi logo avisando que estas catolicices não faziam parte da vida dela, que, há anos, freqüentava era terreiro de umbanda. E, como é de seu costume, foi torcendo as palavras do padre, com sua música e seu riso, falando de todas as alegrias pelas quais era bem grata à vida, e de todas as boas lembranças que colecionara ao longo da existência, e que estava, como sempre esteve, mais do que bem preparada para morrer a qualquer tempo e a qualquer hora, certa de que tinha feito seu trabalho de formiguinha e plantado suas sementinhas aqui e ali ao longo do caminho.
Aí o padre a abraçou forte e pediu para voltar nos dias seguintes, só para conversar, mas, que ela mantivesse as conversas em segredo, e ela, inocentemente, concordou. E, a partir daí, toca o padre a vir todos os dias, entrando com ar compungido e saindo risonho. Pois, no segundo dia, sapecou-lhe um beijo na boca e declarou-se ardentemente apaixonado, passando das palavras aos gestos, trancando a porta, tirando a roupa de Syntia e ignorando todas as recomendações médicas, pois, se vamos todos morrer mesmo, que morramos amando, filosofia bem de acordo com a de Syntia.
E agora, que ela teve alta, o padre aparece lá na casa dela, tarde sim, tarde também, para os seus momentozinhos de amor.
Minha primeira reação foi de indignação. Como é que aquele safado tira proveito de uma mulher doente, quase inválida, e a inocente da Syntia nem percebe que está sendo usada? Mal ouço as novas letras de música que ela está compondo para o novo amado, até que uma frase carinhosa desperta meu entendimento.
Quem está usando quem? Minha amiga Syntia está no lucro. Quem poderia encontrar um namorado dentro de uma enfermaria para doentes graves? Só Syntia, mesmo. E quem é que diz que o homem não foi mesmo capturado pela alma alegre e resiliente de minha amiga? Que, sobre todos os outros aspectos, é merecedora de todo o amor do mundo?
Ponho-me a rir.
- Syntia, quem diria, você... tirando o padre do bom caminho!
E ela, a piscar os olhos, marota:
- Bem, você sabe, eu posso, não sou católica. Porque vou dizer não aos presentes da vida?
31 de mai. de 2010
monografia - A importância da cultura para a formação do cidadão
para ler este texto, clique acima ou siga o link:
http://www.qdivertido.com.br/verartigo.php?codigo=57
http://www.qdivertido.com.br/verartigo.php?codigo=57
artigo - Por que ler contos de fadas?
A infância é um período de alegria, brincadeiras e sonhos. Certo ? Por um lado, sim. Mas há um outro aspecto. A infância é também um longo período de sofrimento, frustrações e humilhações.
Que tal ter setenta centímetros de altura em um mundo onde os adultos parecem ter dez metros ? Sentir - se um anão entre gigantes ? Derrubar leite na toalha, migalhas no sofá, molho de tomate na roupa nova; sentir as calças molhadas porque não se foi suficientemente rápido para correr ao banheiro... e ouvir os inevitáveis : “Desastrado!”, “Porco!”, “Outra vez?”, “Você só serve para dar trabalho!”, “Eu já não te falei mais de mil vezes...”, “Você não toma jeito, mesmo!”.
Esta situação já é bastante constrangedora, mas às vezes existem outras complicações - irmãos mais bonitos ou que parecem perfeitos, e as dolorosas comparações: “Veja seu irmão. Por que você não faz como ele?”, “Olha só como seu irmão é caprichoso”, “Ele é tão corajoso, não chorou no dentista”.
Deixemos de lado as situações dolorosas da vida - orfandade, pais alcoólatras ou espancadores. Fiquemos com a infância normal em lares estáveis, com filhos desejados e pais amorosos. Fazem parte da infância normal sentimentos perturbadores e terríveis, tanto que muitos adultos preferem esquecê - los ao crescer.
Por exemplo, o MEDO. A criança é um ser frágil que depende totalmente de outro para comer, abrigar - se, manter – se aquecida e limpa. Imaginemos por um instante. Não poder andar sozinho. Não poder comer sozinho. Pior - não conhecer o mundo e suas regras. É profundo e total o DESAMPARO da criança.
Quando a criança começa a falar e a pensar, depara - se com o problema mais doloroso da infância, que, mal resolvido, comprometerá todo a sua vida futura : a questão do valor pessoal. Como pode a criança afirmar - se em um mundo onde ela não conhece, não sabe e não compreende a maior parte das coisas? E onde lhe dizem o tempo inteiro : “isso não é assunto de criança”, “isto você vai saber mais tarde”, “quando você casar, passa”, “quando você crescer eu explico”. Frases que a criança traduz como : ninguém me leva a sério. É a REJEIÇÃO.
A criança faz progressos que são encarados sem muito entusiasmo pelos adultos, embora estas conquistas sejam obtidas através de muito trabalho - aprender a ler, aprender a andar, para citar as mais óbvias, exige imenso esforço e persistência por parte da criança, e no entanto poucas vezes são recebidas com entusiasmo : “Que maravilha, meu filho!”. Muitas conquistas importantes são ignoradas, deixando a criança com a impressão de que só uma pessoa muito boba poderia achar que fez alguma coisa de notável, afinal, todo mundo lê, anda, come sozinho e mantém - se limpo - todo mundo menos ela, a criança.
“Quando você crescer”, para o pensamento infantil quer dizer nunca. A criança é toda agora.
Há no entanto um jeito de falar diretamente à alma da criança, dar - lhe consolo, esperança e, o mais importante, a fórmula para deixar de ser “bobo” e virar “rei”. Adivinharam ? Sim, é o conto de fadas.
Típicas, por exemplo, são as histórias dos três irmãos, dos quais o mais novo é bobo, humilhado pelos irmãos, e sai pelo mundo abençoado pela mãe, sem dinheiro, e por ser bondoso com um animalzinho ou velhinho que encontra pelo caminho, é recompensado e descobre um segredo que o leva a um tesouro.
Estas histórias de aparência simples contém um complexo simbolismo que não é a intenção deste artigo desenvolver. (Os interessados procurem ler “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, de Bruno Bettelheim, Ed. Paz e Terra).
O que nos interessa aqui é encarar o desejo dos pais de protegerem a criança dos sentimentos maus e da violência, procurando para elas leituras neutras, sem emoções, ou, o que é pior, suavizando as histórias : “O Lobo Mau não comeu o porquinho, não, o porquinho fugiu”; “O caçador não matou o Lobo, só bateu no bumbum dele”.
A emoção da criança é primitiva e selvagem, do tipo tudo ou nada. A criança ama ou odeia com todo o seu coração. Seu medo, simbolizado pelo Lobo Mau, só pode ser destruído pela morte. Sua imaturidade, simbolizada pelo porquinho que fez a casinha de palha, também. Só a morte pode acabar com o perigo que ameaça a criança : seu próprio medo, sua própria ignorância e outros sentimentos ruins, disfarçados de bichinhos. Nestas histórias, a morte não é violência; é o símbolo da transformação que torna a criança mais madura, mais sábia, mais corajosa. Deixe o seu filho gritar de alegria porque o Lobo
Mau morreu. Isto não quer dizer que seu filho seja um nazista sanguinário em potencial. Quer dizer apenas que seu filho venceu o medo.
A seu modo mágico, os contos de fadas contam para a criança que ela traz em seu coração a chave da felicidade, é só acreditar em si e esperar pelo momento certo. Os contos de fadas também lhe dizem que ela não é a única a sofrer, lá está o pobre “Tolo” a ser humilhado pelos irmãos e desacreditado pelos pais - e a criança sente-se compreendida.
Se queremos trazer alegria à vida de nossos filhos, devemos começar por reconhecer a dor, a aceitá - la e a encará - la _ a dor profunda de ser desamparado, impotente e ignorante; o medo e a vergonha por sentir - se inferior . Então podemos começar a contar a nossos filhos como vencer a dor e encontrar o caminho da realização e da felicidade, um caminho longo e difícil que as histórias de fadas tornam atraente e encantador.
Vamos encher de sonhos a infância. Afinal, é como diz o ditado : “Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”.
Que tal ter setenta centímetros de altura em um mundo onde os adultos parecem ter dez metros ? Sentir - se um anão entre gigantes ? Derrubar leite na toalha, migalhas no sofá, molho de tomate na roupa nova; sentir as calças molhadas porque não se foi suficientemente rápido para correr ao banheiro... e ouvir os inevitáveis : “Desastrado!”, “Porco!”, “Outra vez?”, “Você só serve para dar trabalho!”, “Eu já não te falei mais de mil vezes...”, “Você não toma jeito, mesmo!”.
Esta situação já é bastante constrangedora, mas às vezes existem outras complicações - irmãos mais bonitos ou que parecem perfeitos, e as dolorosas comparações: “Veja seu irmão. Por que você não faz como ele?”, “Olha só como seu irmão é caprichoso”, “Ele é tão corajoso, não chorou no dentista”.
Deixemos de lado as situações dolorosas da vida - orfandade, pais alcoólatras ou espancadores. Fiquemos com a infância normal em lares estáveis, com filhos desejados e pais amorosos. Fazem parte da infância normal sentimentos perturbadores e terríveis, tanto que muitos adultos preferem esquecê - los ao crescer.
Por exemplo, o MEDO. A criança é um ser frágil que depende totalmente de outro para comer, abrigar - se, manter – se aquecida e limpa. Imaginemos por um instante. Não poder andar sozinho. Não poder comer sozinho. Pior - não conhecer o mundo e suas regras. É profundo e total o DESAMPARO da criança.
Quando a criança começa a falar e a pensar, depara - se com o problema mais doloroso da infância, que, mal resolvido, comprometerá todo a sua vida futura : a questão do valor pessoal. Como pode a criança afirmar - se em um mundo onde ela não conhece, não sabe e não compreende a maior parte das coisas? E onde lhe dizem o tempo inteiro : “isso não é assunto de criança”, “isto você vai saber mais tarde”, “quando você casar, passa”, “quando você crescer eu explico”. Frases que a criança traduz como : ninguém me leva a sério. É a REJEIÇÃO.
A criança faz progressos que são encarados sem muito entusiasmo pelos adultos, embora estas conquistas sejam obtidas através de muito trabalho - aprender a ler, aprender a andar, para citar as mais óbvias, exige imenso esforço e persistência por parte da criança, e no entanto poucas vezes são recebidas com entusiasmo : “Que maravilha, meu filho!”. Muitas conquistas importantes são ignoradas, deixando a criança com a impressão de que só uma pessoa muito boba poderia achar que fez alguma coisa de notável, afinal, todo mundo lê, anda, come sozinho e mantém - se limpo - todo mundo menos ela, a criança.
“Quando você crescer”, para o pensamento infantil quer dizer nunca. A criança é toda agora.
Há no entanto um jeito de falar diretamente à alma da criança, dar - lhe consolo, esperança e, o mais importante, a fórmula para deixar de ser “bobo” e virar “rei”. Adivinharam ? Sim, é o conto de fadas.
Típicas, por exemplo, são as histórias dos três irmãos, dos quais o mais novo é bobo, humilhado pelos irmãos, e sai pelo mundo abençoado pela mãe, sem dinheiro, e por ser bondoso com um animalzinho ou velhinho que encontra pelo caminho, é recompensado e descobre um segredo que o leva a um tesouro.
Estas histórias de aparência simples contém um complexo simbolismo que não é a intenção deste artigo desenvolver. (Os interessados procurem ler “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, de Bruno Bettelheim, Ed. Paz e Terra).
O que nos interessa aqui é encarar o desejo dos pais de protegerem a criança dos sentimentos maus e da violência, procurando para elas leituras neutras, sem emoções, ou, o que é pior, suavizando as histórias : “O Lobo Mau não comeu o porquinho, não, o porquinho fugiu”; “O caçador não matou o Lobo, só bateu no bumbum dele”.
A emoção da criança é primitiva e selvagem, do tipo tudo ou nada. A criança ama ou odeia com todo o seu coração. Seu medo, simbolizado pelo Lobo Mau, só pode ser destruído pela morte. Sua imaturidade, simbolizada pelo porquinho que fez a casinha de palha, também. Só a morte pode acabar com o perigo que ameaça a criança : seu próprio medo, sua própria ignorância e outros sentimentos ruins, disfarçados de bichinhos. Nestas histórias, a morte não é violência; é o símbolo da transformação que torna a criança mais madura, mais sábia, mais corajosa. Deixe o seu filho gritar de alegria porque o Lobo
Mau morreu. Isto não quer dizer que seu filho seja um nazista sanguinário em potencial. Quer dizer apenas que seu filho venceu o medo.
A seu modo mágico, os contos de fadas contam para a criança que ela traz em seu coração a chave da felicidade, é só acreditar em si e esperar pelo momento certo. Os contos de fadas também lhe dizem que ela não é a única a sofrer, lá está o pobre “Tolo” a ser humilhado pelos irmãos e desacreditado pelos pais - e a criança sente-se compreendida.
Se queremos trazer alegria à vida de nossos filhos, devemos começar por reconhecer a dor, a aceitá - la e a encará - la _ a dor profunda de ser desamparado, impotente e ignorante; o medo e a vergonha por sentir - se inferior . Então podemos começar a contar a nossos filhos como vencer a dor e encontrar o caminho da realização e da felicidade, um caminho longo e difícil que as histórias de fadas tornam atraente e encantador.
Vamos encher de sonhos a infância. Afinal, é como diz o ditado : “Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”.
crônica - Politicamente incorreta
Äna äm bidros arabi, habiba.
Creio mesmo ser eu a única garota do grupo que realmente prestava atenção às aulas de árabe e à cultura. As outras limitavam-se ao habib (querido) e ocupavam o tempo a lançar olhares lânguidos aos rapazes, imaginando-se sedutoras odaliscas em românticas tendas à sombra de românticas palmeiras em românticos oásis.
Jamais namorei moço algum da colônia libanesa. Acredito que eles preferiam as moças de cabelos longos e idéias curtas. Eu usava cabelos curtos e tinha o curioso hábito de raciocinar.
Uma amiga casou-se com um árabe, aos dezesseis anos. Com sorrisos, ele a convenceu a usar vestidos apenas, porque assim ficava mais bonita. Para que continuar os estudos, se ela seria mais útil aos filhos em casa? Sempre que combinávamos algo com a turma, ele a raptava para um programa mais interessante – a dois, naturalmente.
Ela estava muito feliz em seu primeiro ano de casada. Recebia regularmente flores, jóias e bombons. Tinha à disposição cozinheira e arrumadeira; semanalmente iam à sua casa a manicure, a cabeleireira e a esteticista. As compras eram solicitadas por telefone e entregues em domicílio; nada daquela chatice de ir ao açougue, à feira, ao supermercado. Nem sei se ela soube que deixamos de visitá-la por proibição expressa do marido.
Soubemos por uma prima que ela embarcou entusiasmada para o oriente, prometendo voltar com dúzias de tapetes e especializar-se em culinária árabe. Ela nem sabia que a Pérsia hoje chama-se Irã e ir-se embora para Pasárgada não é lá tão agradável quanto no tempo do grande rei Ciro. Ela rápido descobriu que os tapetes não são mágicos, a fumaça não sai de lâmpadas encantadas e o único gênio que veio em seu socorro foi seu talento de Sheerazade, com o qual ela adormeceu o marido pelo tempo suficiente para fugir até a embaixada.
Escapei de destino semelhante ao conhecer um magnífico, rico, culto e charmoso médico inglês em partida para o Iraque, onde por dois anos iria pesquisar um raro tipo de anemia. Sua esposa deveria conformar-se em permanecer em casa a maior parte do tempo, sair apenas envolta em véus e, é claro, era imprescindível não temer os bombardeios. Foi assim que descobri que uma solteirona pode, sim, dizer não ao único pedido de casamento recebido em 35 anos.
Descobri também que sou discriminadora. Discriminação, segundo o Aurélio, é ‘perceber as diferenças’. Permito-me o direito de perceber as diferenças e escolho – faço mesmo a mais absoluta questão de – ficar com meus iguais.
Creio mesmo ser eu a única garota do grupo que realmente prestava atenção às aulas de árabe e à cultura. As outras limitavam-se ao habib (querido) e ocupavam o tempo a lançar olhares lânguidos aos rapazes, imaginando-se sedutoras odaliscas em românticas tendas à sombra de românticas palmeiras em românticos oásis.
Jamais namorei moço algum da colônia libanesa. Acredito que eles preferiam as moças de cabelos longos e idéias curtas. Eu usava cabelos curtos e tinha o curioso hábito de raciocinar.
Uma amiga casou-se com um árabe, aos dezesseis anos. Com sorrisos, ele a convenceu a usar vestidos apenas, porque assim ficava mais bonita. Para que continuar os estudos, se ela seria mais útil aos filhos em casa? Sempre que combinávamos algo com a turma, ele a raptava para um programa mais interessante – a dois, naturalmente.
Ela estava muito feliz em seu primeiro ano de casada. Recebia regularmente flores, jóias e bombons. Tinha à disposição cozinheira e arrumadeira; semanalmente iam à sua casa a manicure, a cabeleireira e a esteticista. As compras eram solicitadas por telefone e entregues em domicílio; nada daquela chatice de ir ao açougue, à feira, ao supermercado. Nem sei se ela soube que deixamos de visitá-la por proibição expressa do marido.
Soubemos por uma prima que ela embarcou entusiasmada para o oriente, prometendo voltar com dúzias de tapetes e especializar-se em culinária árabe. Ela nem sabia que a Pérsia hoje chama-se Irã e ir-se embora para Pasárgada não é lá tão agradável quanto no tempo do grande rei Ciro. Ela rápido descobriu que os tapetes não são mágicos, a fumaça não sai de lâmpadas encantadas e o único gênio que veio em seu socorro foi seu talento de Sheerazade, com o qual ela adormeceu o marido pelo tempo suficiente para fugir até a embaixada.
Escapei de destino semelhante ao conhecer um magnífico, rico, culto e charmoso médico inglês em partida para o Iraque, onde por dois anos iria pesquisar um raro tipo de anemia. Sua esposa deveria conformar-se em permanecer em casa a maior parte do tempo, sair apenas envolta em véus e, é claro, era imprescindível não temer os bombardeios. Foi assim que descobri que uma solteirona pode, sim, dizer não ao único pedido de casamento recebido em 35 anos.
Descobri também que sou discriminadora. Discriminação, segundo o Aurélio, é ‘perceber as diferenças’. Permito-me o direito de perceber as diferenças e escolho – faço mesmo a mais absoluta questão de – ficar com meus iguais.
conto - Um peixe no pomar
- Bebedouro ? Nunca ouvi falar nesssa cidade.
- Como não ? É a capital da laranja.
- E como é que você foi trocar nossas praias pelos laranjais ?
- Lá tem emprego, coisa que aqui no Rio anda difícil.
Fiquei pensando nas palavras de minha amiga. Visitei - a nas férias. E no ano seguinte, eu também estava em Bebedouro.
Deixei a insegurança das ruas, o medo dos assaltos e o trânsito enlouquecedor para trás. Troquei o apartamento, grades, trancas e chaves, por uma casinha com jardim e quintal.
Mantive o mesmo emprego, porém, que diferença no padrão de vida! Que saudável sossego!
Logo na primeir semana fui à secretaria do clube .
- Quero comprar um título.
- Mas eu não sei quem a senhora é.
- Não pode ao menos informar o preço ?
- No momento não temos títulos à venda.
Mas no dia seguinte, meu vizinho bebedourense acompanhou - me ao clube, apresentou - me e apareceu um título disponível para a amiga do Geraldo.
Aonde quer que eu fosse, sentia - me estrangeira.
- A senhora é de Bebedouro ?
- Não.
- Logo vi. Não a conheço.
O sorriso congelava na face e eu podia quase tocar o muro de polida indiferença que se erguia à minha frente.
Até que aprendi com uma amiga a contar uma mentirinha.
- A senhora é de Bebedouro ?
- Nascida e criada.
- Como não a conheço ?
- É que saí para estudar fora.
- Ah!
Mas era um ah! cheio de simpatia!
Logo fui - me infiltrando aqui e ali e em breve tinha um bom círculo de relações. Só me faltava mesmo um namorado.
- Você veio para a cidade errada - dizia a minha amiga carioca - Aqui não se arranja ninguém.
Havia um solteiro em meu emprego, mas, definitivamente, nada tínhamos a ver um com o outro. E um vizinho, francamente hostil a minhas tentativas de aproximação.
Comecei a sair. Para descobrir que a noite é dos pivetes e dos mal casados.
Perguntei para as comprometidas como haviam conhecido seus maridos e namorados e obtive dois tipos de respostas :
- Estudamos juntos.
- Alguém nos apresentou.
É isto ! Em uma cidade de valores tão tradicionais é preciso ser apresentada. E saí à cata de uma apresentação junto às pessoas mais chegadas.
- Afinal, eu preciso conhecer alguém de acordo.
As pessoas colaboraram. E fui apresentada a irmãos, primos, cunhados e amigos de família.
. Eu não entrosava com ninguém.
- É impossível ! Você esqueceu como namorar !
- Não é isso. É que não há afinidades.
Aí alguém lembrou de um astrólogo que analisava a personalidade das pessoas por computador.
- Se ele não for capaz de arrumar um companheiro para você, ninguém pode.
E assim, em uma bela tarde de sábado, recebi das mãos do tal astrólogo uma lista com três datas.
- O marido ideal para você nasceu em um desses três dias.
- Só ?
Também não precisava ser tão ideal assim...
- Seu caso é muito especial. - essas foram as exatas palavras dele - Se nós excluirmos os casados, os não brancos , os pobres, as crianças e os velhos, você tem uma chance em dezoito mil de encontrar um homem afim com você.
E ante o meu olhar de espanto, ele completou :
- Quase impossível. Por que você não procura no cartório ? Diga que eu pedi.
E assim, lá fui eu ao cartório. Voltei com dez nomes.
- Este mudou - se. Este casou. Este morreu. Este...
Esgotou -se a lista. Nenhum disponível.
Desanimador!
Não desisti, porém, de procurar. E certa manhã, no lago, passou por mim um exemplar masculino da idade certa, atraente e charmoso. Passamos do sorriso ao diálogo e encontrei - me acompanhada de um espécime SOLTEIRO !
Uma chance em dezoito mil e eu fui encontrar o meu homem justamente em Bebedouro! A cidade realmente foi generosa comigo, reservando especialmente para mim um simpático e disponível bebedourense!
Era bom demais para ser verdade!
Você já adivinhou?
Aposto que não.
Ele também é carioca.
- Como não ? É a capital da laranja.
- E como é que você foi trocar nossas praias pelos laranjais ?
- Lá tem emprego, coisa que aqui no Rio anda difícil.
Fiquei pensando nas palavras de minha amiga. Visitei - a nas férias. E no ano seguinte, eu também estava em Bebedouro.
Deixei a insegurança das ruas, o medo dos assaltos e o trânsito enlouquecedor para trás. Troquei o apartamento, grades, trancas e chaves, por uma casinha com jardim e quintal.
Mantive o mesmo emprego, porém, que diferença no padrão de vida! Que saudável sossego!
Logo na primeir semana fui à secretaria do clube .
- Quero comprar um título.
- Mas eu não sei quem a senhora é.
- Não pode ao menos informar o preço ?
- No momento não temos títulos à venda.
Mas no dia seguinte, meu vizinho bebedourense acompanhou - me ao clube, apresentou - me e apareceu um título disponível para a amiga do Geraldo.
Aonde quer que eu fosse, sentia - me estrangeira.
- A senhora é de Bebedouro ?
- Não.
- Logo vi. Não a conheço.
O sorriso congelava na face e eu podia quase tocar o muro de polida indiferença que se erguia à minha frente.
Até que aprendi com uma amiga a contar uma mentirinha.
- A senhora é de Bebedouro ?
- Nascida e criada.
- Como não a conheço ?
- É que saí para estudar fora.
- Ah!
Mas era um ah! cheio de simpatia!
Logo fui - me infiltrando aqui e ali e em breve tinha um bom círculo de relações. Só me faltava mesmo um namorado.
- Você veio para a cidade errada - dizia a minha amiga carioca - Aqui não se arranja ninguém.
Havia um solteiro em meu emprego, mas, definitivamente, nada tínhamos a ver um com o outro. E um vizinho, francamente hostil a minhas tentativas de aproximação.
Comecei a sair. Para descobrir que a noite é dos pivetes e dos mal casados.
Perguntei para as comprometidas como haviam conhecido seus maridos e namorados e obtive dois tipos de respostas :
- Estudamos juntos.
- Alguém nos apresentou.
É isto ! Em uma cidade de valores tão tradicionais é preciso ser apresentada. E saí à cata de uma apresentação junto às pessoas mais chegadas.
- Afinal, eu preciso conhecer alguém de acordo.
As pessoas colaboraram. E fui apresentada a irmãos, primos, cunhados e amigos de família.
. Eu não entrosava com ninguém.
- É impossível ! Você esqueceu como namorar !
- Não é isso. É que não há afinidades.
Aí alguém lembrou de um astrólogo que analisava a personalidade das pessoas por computador.
- Se ele não for capaz de arrumar um companheiro para você, ninguém pode.
E assim, em uma bela tarde de sábado, recebi das mãos do tal astrólogo uma lista com três datas.
- O marido ideal para você nasceu em um desses três dias.
- Só ?
Também não precisava ser tão ideal assim...
- Seu caso é muito especial. - essas foram as exatas palavras dele - Se nós excluirmos os casados, os não brancos , os pobres, as crianças e os velhos, você tem uma chance em dezoito mil de encontrar um homem afim com você.
E ante o meu olhar de espanto, ele completou :
- Quase impossível. Por que você não procura no cartório ? Diga que eu pedi.
E assim, lá fui eu ao cartório. Voltei com dez nomes.
- Este mudou - se. Este casou. Este morreu. Este...
Esgotou -se a lista. Nenhum disponível.
Desanimador!
Não desisti, porém, de procurar. E certa manhã, no lago, passou por mim um exemplar masculino da idade certa, atraente e charmoso. Passamos do sorriso ao diálogo e encontrei - me acompanhada de um espécime SOLTEIRO !
Uma chance em dezoito mil e eu fui encontrar o meu homem justamente em Bebedouro! A cidade realmente foi generosa comigo, reservando especialmente para mim um simpático e disponível bebedourense!
Era bom demais para ser verdade!
Você já adivinhou?
Aposto que não.
Ele também é carioca.
crônica - Pantaleão
A senhora pobre elogiou o Pantaleão dos Andradas. E eu admirei a delicadeza de sentimentos de minhas acompanhantes, três elegantes senhoras de elite, que educadamente responderam a seus comentários sem corrigi-la.
Nosso povo iletrado é assim mesmo: sofre de dor no figo e de dilatação; quando sabem expressar melhor suas mazelas estão aperreados e avexados, que é ‘desse jeito aí como a senhora está vendo’, e o que a gente vê é mesmo muita miséria com o seu corolário interminável de desgraças.
A minha admiração durou pouco, pois a pobre afastou-se e as ricas continuaram a pantalear. Arrisquei uma frase com Panteão e elas cortaram-me a palavra de imediato:
- Pantaleão, querida. Panteão é coisa de grego.
Não me contive e comuniquei àquelas emproadas que o templo grego situado em Atenas e construído em homenagem à deusa da sabedoria chama-se Partenon.
Panteão é coisa dos romanos supersticiosos que, com medo de ofenderem por esquecimento algum dos inumeráveis deuses cultuados em seu vasto império, construíram por precaução um templo dedicado ao mesmo tempo a todos os deuses, o Panteão.
E os Andradas por um acaso são deuses para terem lá o seu Panteão?
O caso é que os loucos imperadores romanos gostavam de ser cultuados em vida e adorados como deuses pelo povo, e após a sua morte, eram enterrados com pompas divinas. Daí o termo Panteão ter adquirido, por extensão, o significado de edifício onde se enterram os restos mortais das figuras ilustres da História de um povo.
Minha sorte foi uma das matronas ter na bolsa um Aurélio, que confirmou as minhas palavras.
E quanto a Pantaleão? O que é?
É nome próprio, como José, Rosa, João e tantos outros mais meio que esquecidos, pois a moda agora é ter nome de gente importante; é por isso que os brasileirinhos de hoje chamam-se Romário, Aírton, Upiudi ou Maiquijaquiçom.
Nosso povo iletrado é assim mesmo: sofre de dor no figo e de dilatação; quando sabem expressar melhor suas mazelas estão aperreados e avexados, que é ‘desse jeito aí como a senhora está vendo’, e o que a gente vê é mesmo muita miséria com o seu corolário interminável de desgraças.
A minha admiração durou pouco, pois a pobre afastou-se e as ricas continuaram a pantalear. Arrisquei uma frase com Panteão e elas cortaram-me a palavra de imediato:
- Pantaleão, querida. Panteão é coisa de grego.
Não me contive e comuniquei àquelas emproadas que o templo grego situado em Atenas e construído em homenagem à deusa da sabedoria chama-se Partenon.
Panteão é coisa dos romanos supersticiosos que, com medo de ofenderem por esquecimento algum dos inumeráveis deuses cultuados em seu vasto império, construíram por precaução um templo dedicado ao mesmo tempo a todos os deuses, o Panteão.
E os Andradas por um acaso são deuses para terem lá o seu Panteão?
O caso é que os loucos imperadores romanos gostavam de ser cultuados em vida e adorados como deuses pelo povo, e após a sua morte, eram enterrados com pompas divinas. Daí o termo Panteão ter adquirido, por extensão, o significado de edifício onde se enterram os restos mortais das figuras ilustres da História de um povo.
Minha sorte foi uma das matronas ter na bolsa um Aurélio, que confirmou as minhas palavras.
E quanto a Pantaleão? O que é?
É nome próprio, como José, Rosa, João e tantos outros mais meio que esquecidos, pois a moda agora é ter nome de gente importante; é por isso que os brasileirinhos de hoje chamam-se Romário, Aírton, Upiudi ou Maiquijaquiçom.
crônica - O voto
O doutor Rodrigo estava fascinado pelo brinde que ganhara de um laboratório que fabricava vitaminas para crianças.
Tratava-se de um pôster enorme, que ocupava quase toda a parede livre do consultório. Posavam para uma foto, em plena floresta, uma dezena de bichos lindamente desenhados.
Desde o primeiro dia em que colocou a bicharada na parede, as criancinhas ficavam olhando encantadas, rindo e fazendo os comentários mais interessantes.
E Rodrigo começou a fazer uma enquete entre os seus pequenos pacientes:
- Diga lá, de que bicho você gosta mais?
A coisa virou mania, tanto que o doutor tinha em sua gaveta uma planilha onde anotava a preferência da garotada. Observou que os menorzinhos e tímidos escolhiam o coelho e a coruja; os falantes e estabanados escolhiam a arara ou o macaco. Os que escolhiam o canguru ou a girafa pareciam ser os mais criativos. Já o tigre e o leão deixavam o doutor confuso: ele não decidira ainda se as crianças que escolhiam as feras eram líderes natos, ou crianças que queriam o poder para livrar-se de perseguições ou se eram agressivas, manifesta ou veladamente. O fato curioso é que ninguém, nem uma só criança votara no hipopótamo.
Quando Rodrigo era menino, em sua cidade havia uma fábrica de biscoitos que adotara o hipopótamo como seu símbolo e distribuía para a molecada bonequinhos, figurinhas e outros brindes com a aparência de um hipopótamo rosado e risonho, uma verdadeira gracinha. As crianças da cidade grande, porém, não sentiam nenhuma simpatia pela bocarra escancarada com imensos dentes.
Certa tarde, entrou no consultório pela primeira vez um garotinho aí de uns quatro anos, e Rodrigo, como de costume, sugeriu:
- Vota aí, escolhe um bicho.
O menino, contudo, cruzou os braços e ficou muito quieto, com uma carinha zangada.
- Vota, filho, o doutor tá mandando. - insistiu a mãe.
Mandando? O doutor sentiu-se desconfortável com o verbo:
- Não, não, não estou mandando nada. É uma brincadeira. Eu vou juntando os votos da criançada para saber qual é o bicho preferido. Então, que bicho você escolhe?
E o menino, decidido:
-Nenhum.
A mãe estava chateada:
- Escolhe um, filho. O doutor quer saber.
- Pois então ele já sabe. Eu não escolho nenhum e pronto.
O doutor achou engraçada a preocupação da mãe em agradar o médico e a determinação do menino de não arredar pé de sua opinião. Quis chegar ao fundo do mistério:
- Certo, você não escolhe nenhum. Posso saber por quê?
- É porque o meu bicho preferido é a tartaruga e aí não tem tartaruga.
Ali estava um garoto que sabia o que queria, que, na sua inocência, não se deixava influenciar pela opinião alheia, e que, sem dúvida, iria se tornar um adulto que não abriria mão de seus princípios.
Qualquer que fosse o fascínio especial da tartaruga, que qualidades esse bichinho cascudo e vagaroso possuía para encantar o menininho, o fato é que o doutor ficou a pensar que ali estava uma das maiores lições de civismo que recebera em sua vida. E falou em voz alta:
- Menino, você tem razão. Nas próximas eleições, também vou votar na tartaruga.
Tratava-se de um pôster enorme, que ocupava quase toda a parede livre do consultório. Posavam para uma foto, em plena floresta, uma dezena de bichos lindamente desenhados.
Desde o primeiro dia em que colocou a bicharada na parede, as criancinhas ficavam olhando encantadas, rindo e fazendo os comentários mais interessantes.
E Rodrigo começou a fazer uma enquete entre os seus pequenos pacientes:
- Diga lá, de que bicho você gosta mais?
A coisa virou mania, tanto que o doutor tinha em sua gaveta uma planilha onde anotava a preferência da garotada. Observou que os menorzinhos e tímidos escolhiam o coelho e a coruja; os falantes e estabanados escolhiam a arara ou o macaco. Os que escolhiam o canguru ou a girafa pareciam ser os mais criativos. Já o tigre e o leão deixavam o doutor confuso: ele não decidira ainda se as crianças que escolhiam as feras eram líderes natos, ou crianças que queriam o poder para livrar-se de perseguições ou se eram agressivas, manifesta ou veladamente. O fato curioso é que ninguém, nem uma só criança votara no hipopótamo.
Quando Rodrigo era menino, em sua cidade havia uma fábrica de biscoitos que adotara o hipopótamo como seu símbolo e distribuía para a molecada bonequinhos, figurinhas e outros brindes com a aparência de um hipopótamo rosado e risonho, uma verdadeira gracinha. As crianças da cidade grande, porém, não sentiam nenhuma simpatia pela bocarra escancarada com imensos dentes.
Certa tarde, entrou no consultório pela primeira vez um garotinho aí de uns quatro anos, e Rodrigo, como de costume, sugeriu:
- Vota aí, escolhe um bicho.
O menino, contudo, cruzou os braços e ficou muito quieto, com uma carinha zangada.
- Vota, filho, o doutor tá mandando. - insistiu a mãe.
Mandando? O doutor sentiu-se desconfortável com o verbo:
- Não, não, não estou mandando nada. É uma brincadeira. Eu vou juntando os votos da criançada para saber qual é o bicho preferido. Então, que bicho você escolhe?
E o menino, decidido:
-Nenhum.
A mãe estava chateada:
- Escolhe um, filho. O doutor quer saber.
- Pois então ele já sabe. Eu não escolho nenhum e pronto.
O doutor achou engraçada a preocupação da mãe em agradar o médico e a determinação do menino de não arredar pé de sua opinião. Quis chegar ao fundo do mistério:
- Certo, você não escolhe nenhum. Posso saber por quê?
- É porque o meu bicho preferido é a tartaruga e aí não tem tartaruga.
Ali estava um garoto que sabia o que queria, que, na sua inocência, não se deixava influenciar pela opinião alheia, e que, sem dúvida, iria se tornar um adulto que não abriria mão de seus princípios.
Qualquer que fosse o fascínio especial da tartaruga, que qualidades esse bichinho cascudo e vagaroso possuía para encantar o menininho, o fato é que o doutor ficou a pensar que ali estava uma das maiores lições de civismo que recebera em sua vida. E falou em voz alta:
- Menino, você tem razão. Nas próximas eleições, também vou votar na tartaruga.
crônica - O testamento
“O primeiro verme que saborear meus restos mortais saberá que é sem saudade que abandono esta existência ilusória, este mundo de valores invertidos que só trazem decepções, dores e mágoas.
A meu pai, deixo meus discos clássicos.
A minha mãe, minha coleção de pagodes.
Para minha irmã, minhas bonecas e todas as roupas que ela queira herdar.
Meus livros ficam para a Biblioteca Pública e meu gato angorá para meu namorado.
Não chorem por mim, serei feliz. Deixo este mundo com a certeza de que me aguarda a Eternidade.”
Que linhas mórbidas!
Esta folha estava sobre a cama de Alzira; li-a com emoção e procurei minha filha.
- Foi com o Osvaldo para o Clube de Vôo Livre experimentar uma nova asa delta - informou a caçula.
Dirigi como louca até o alto do morro. A turma estava a rir e a tagarelar, como sempre. Assustaram-se com minha presença:
- Cadê minha filha?
- Acabou de pular. Mas como a senhora está pálida!
Em minha imaginação, Alzira rolava precipício abaixo. Ela “acabara de pular” de asa delta e agora eu a via, gaivota frágil a piruetar no azul.
- Ela quer morrer! Deixou um bilhete...- engasguei.
- Ziza? Que bobagem!
- Deixou um bilhete de despedida - insisti - Ela vai matar-se, vai soltar-se dessa asa e despencar no asfalto.
- Impossível! - Osvaldo garantiu-me que seria impossível desamarrar as correias em vôo.
Puxei de lado Aninha, a melhor amiga:
- Não me esconda nada. A verdade. Alzira está grávida? Anda metida com drogas?
- Francamente, Da Neide!
- Ela está chegando, olhe!
Alzira estava a uns três metros da areia. Voltei ao carro e guiei como pude, entre lágrimas e tremores. Encontrei-a a sorrir, acenando para o grupo lá em cima.
- Minha filha, você não vai fazer isso!
- Mamãe!... Fazer o que?
- Aquele testamento horrível.
- Que testamento?
- Aquela bobagem toda que você escreveu sobre deixar esta ‘existência ilusória’ sem saudade e...
- Ah, aquilo! Mamãe, aquilo é a minha redação de português. O que você pensou que fosse?
- Redação? De português?
- É, Da Curiosa. A professora de literatura pediu para cada um escolher uma idéia original de Machado de Assis e desenvolver do jeito que quisesse. Aí eu escolhi Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Ao primeiro verme que primeiro roeu as carnes frias do meu cadáver...”. É o trecho machadiano mais original que já li!
A meu pai, deixo meus discos clássicos.
A minha mãe, minha coleção de pagodes.
Para minha irmã, minhas bonecas e todas as roupas que ela queira herdar.
Meus livros ficam para a Biblioteca Pública e meu gato angorá para meu namorado.
Não chorem por mim, serei feliz. Deixo este mundo com a certeza de que me aguarda a Eternidade.”
Que linhas mórbidas!
Esta folha estava sobre a cama de Alzira; li-a com emoção e procurei minha filha.
- Foi com o Osvaldo para o Clube de Vôo Livre experimentar uma nova asa delta - informou a caçula.
Dirigi como louca até o alto do morro. A turma estava a rir e a tagarelar, como sempre. Assustaram-se com minha presença:
- Cadê minha filha?
- Acabou de pular. Mas como a senhora está pálida!
Em minha imaginação, Alzira rolava precipício abaixo. Ela “acabara de pular” de asa delta e agora eu a via, gaivota frágil a piruetar no azul.
- Ela quer morrer! Deixou um bilhete...- engasguei.
- Ziza? Que bobagem!
- Deixou um bilhete de despedida - insisti - Ela vai matar-se, vai soltar-se dessa asa e despencar no asfalto.
- Impossível! - Osvaldo garantiu-me que seria impossível desamarrar as correias em vôo.
Puxei de lado Aninha, a melhor amiga:
- Não me esconda nada. A verdade. Alzira está grávida? Anda metida com drogas?
- Francamente, Da Neide!
- Ela está chegando, olhe!
Alzira estava a uns três metros da areia. Voltei ao carro e guiei como pude, entre lágrimas e tremores. Encontrei-a a sorrir, acenando para o grupo lá em cima.
- Minha filha, você não vai fazer isso!
- Mamãe!... Fazer o que?
- Aquele testamento horrível.
- Que testamento?
- Aquela bobagem toda que você escreveu sobre deixar esta ‘existência ilusória’ sem saudade e...
- Ah, aquilo! Mamãe, aquilo é a minha redação de português. O que você pensou que fosse?
- Redação? De português?
- É, Da Curiosa. A professora de literatura pediu para cada um escolher uma idéia original de Machado de Assis e desenvolver do jeito que quisesse. Aí eu escolhi Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Ao primeiro verme que primeiro roeu as carnes frias do meu cadáver...”. É o trecho machadiano mais original que já li!
artigo - O que você lê para seu filho?
Você já reparou como as crianças ficam fascinadas pela história de Chapéuzinho Vermelho? Você começa a contar a respeito de uma garotinha que morava próximo a uma floresta e tinha um chapéuzinho vermelho e a criança parece estar meio distraída quando, de repente, algo muito importante acontece, algo tão importante que a criança até pára de respirar, abre bem os olhos e pergunta ansiosamente ‘e aí, o que aconteceu?’. Pois Chapéuzinho Vermelho... desobedeceu à mamãe!
Chapéuzinho Vermelho fez algo tremendamente perigoso e com certeza vai se dar mal. E agora? É neste momento que a criança se identifica com a história, e passa a ser, ela mesma, a Chapéuzinho Vermelho, a menininha que desobedeceu à mamãe. Toda criança sente vontade de desobedecer à mamãe!
Outro tipo de história apreciado pelas crianças é do ciclo do tolo: um rei possui algo maravilhoso, uma fonte que canta ou uma árvore que dá frutos de ouro, a por algum motivo misterioso, a fonte pára de jorrar ou a árvore perde seus frutos. Os filhos mais velhos falham em resolver o problema e então o caçula pede para tentar, porém o rei não lhe dá atenção porque o considera tolo.
E neste instante captamos totalmente a atenção dos pequenos, pois a criança com freqüência sente que os adultos não dão importância ao que ela fala, pois a consideram muito tola!
As histórias de fadas, na realidade, não estão falando sobre florestas e castelos com objetos encantados, estão falando sobre acontecimentos muito mais importantes do universo infantil: o que acontece com quem desobedece à mamãe? O que fazer quando todos o consideram um tolo?
É freqüente as crianças se defrontarem com complicados problemas morais ao fazerem coisas sem nenhuma maldade: abrir uma mala, espiar dentro de uma gaveta, só por curiosidade e pronto! O que parecia inocente de repente se transforma em um drama, pois ela descobriu uma foto comprometedora, uma carta de amor, um revólver... e agora? Se contar brigarão com ela e alguém que ela ama poderá ficar em má situação; se não contar o peso do segredo a esmagará. Culpa, medo, angústia, decepção, sentimentos de impotência são esmagadoras conseqüências do que a princípio parecia só mais uma travessura.
Os contos de fadas consolam as crianças e lhes dão pistas do que fazer quando se defrontam com estes complicados princípios morais.
A Caixa de Pandora é um mito particularmente útil para alertar crianças de qualquer idade contra os perigos da curiosidade descontrolada. Com poucas exceções, como este e o do rei Minos, os mitos são inadequados para as crianças, pois falam sobre o dever, moldam o Super Ego, seu desfecho é trágico, punitivo, definitivo. Os mitos são emocionalmente perturbadores, pois não oferecem esperança, servem para inculcar a noção de dever e de submissão aos poderes maiores desta vida.
Um alerta: há bons motivos para a violência e a morte nos contos de fadas. Lembre-se de que os personagens destes contos são meros símbolos. Quando o Lobo Mau ou a Bruxa Malvada morrem, é o Mal que desaparece. E se você resolve modificar a história para que ela fique sem violência, e dá apenas umas palmadas no bumbum do Lobo, e foge da bruxa, você deixou o Mal à solta no mundo! A sensação de segurança que a história dá à criança porque o Mal foi destruído acabou-se! Quando um herói morre, como no caso de Os Tres Porquinhos, há um bom motivo para isso. Morrer significa crescer, evoluir, o fim de um ciclo de existência. O porquinho, que era bobinho, morre, quer dizer, cresce, pois surge o segundo porquinho, depois o terceiro, que finalmente atinge a maturidade e é capaz de construir uma casa de tijolos. Se você, como fez Wal Disney, deixa vivos os dois porquinhos tolos, acaba com a mensagem de crescimento e evolução certa, embutida na história! Confie na sabedoria popular. Para haver justiça no mundo infantil, os maus devem morrer, os tolos também e o Bem deve triunfar magnificamente.
Há outros fatores a serem considerados nos contos de fadas:
• são obras de arte, e estimulam o gosto pela literatura.
• aumentam o vocabulário da criança, por colocá-la em contato com palavras que ela não ouve no seu dia a dia: arauto, palácio, carruagem etc
• ampliam a visão de mundo da criança, colocando-a em contato com costumes de outros povos e outras épocas históricas
• a atenção carinhosa do contador de histórias proporciona momentos gratificantes de intimidade, aproxima gerações e dá segurança emocional à criança
• estimula a imaginação, a fantasia
Ofereça-se a oportunidade de compartilhar momentos mágicos de alegria com seus filhos!
Chapéuzinho Vermelho fez algo tremendamente perigoso e com certeza vai se dar mal. E agora? É neste momento que a criança se identifica com a história, e passa a ser, ela mesma, a Chapéuzinho Vermelho, a menininha que desobedeceu à mamãe. Toda criança sente vontade de desobedecer à mamãe!
Outro tipo de história apreciado pelas crianças é do ciclo do tolo: um rei possui algo maravilhoso, uma fonte que canta ou uma árvore que dá frutos de ouro, a por algum motivo misterioso, a fonte pára de jorrar ou a árvore perde seus frutos. Os filhos mais velhos falham em resolver o problema e então o caçula pede para tentar, porém o rei não lhe dá atenção porque o considera tolo.
E neste instante captamos totalmente a atenção dos pequenos, pois a criança com freqüência sente que os adultos não dão importância ao que ela fala, pois a consideram muito tola!
As histórias de fadas, na realidade, não estão falando sobre florestas e castelos com objetos encantados, estão falando sobre acontecimentos muito mais importantes do universo infantil: o que acontece com quem desobedece à mamãe? O que fazer quando todos o consideram um tolo?
É freqüente as crianças se defrontarem com complicados problemas morais ao fazerem coisas sem nenhuma maldade: abrir uma mala, espiar dentro de uma gaveta, só por curiosidade e pronto! O que parecia inocente de repente se transforma em um drama, pois ela descobriu uma foto comprometedora, uma carta de amor, um revólver... e agora? Se contar brigarão com ela e alguém que ela ama poderá ficar em má situação; se não contar o peso do segredo a esmagará. Culpa, medo, angústia, decepção, sentimentos de impotência são esmagadoras conseqüências do que a princípio parecia só mais uma travessura.
Os contos de fadas consolam as crianças e lhes dão pistas do que fazer quando se defrontam com estes complicados princípios morais.
A Caixa de Pandora é um mito particularmente útil para alertar crianças de qualquer idade contra os perigos da curiosidade descontrolada. Com poucas exceções, como este e o do rei Minos, os mitos são inadequados para as crianças, pois falam sobre o dever, moldam o Super Ego, seu desfecho é trágico, punitivo, definitivo. Os mitos são emocionalmente perturbadores, pois não oferecem esperança, servem para inculcar a noção de dever e de submissão aos poderes maiores desta vida.
Um alerta: há bons motivos para a violência e a morte nos contos de fadas. Lembre-se de que os personagens destes contos são meros símbolos. Quando o Lobo Mau ou a Bruxa Malvada morrem, é o Mal que desaparece. E se você resolve modificar a história para que ela fique sem violência, e dá apenas umas palmadas no bumbum do Lobo, e foge da bruxa, você deixou o Mal à solta no mundo! A sensação de segurança que a história dá à criança porque o Mal foi destruído acabou-se! Quando um herói morre, como no caso de Os Tres Porquinhos, há um bom motivo para isso. Morrer significa crescer, evoluir, o fim de um ciclo de existência. O porquinho, que era bobinho, morre, quer dizer, cresce, pois surge o segundo porquinho, depois o terceiro, que finalmente atinge a maturidade e é capaz de construir uma casa de tijolos. Se você, como fez Wal Disney, deixa vivos os dois porquinhos tolos, acaba com a mensagem de crescimento e evolução certa, embutida na história! Confie na sabedoria popular. Para haver justiça no mundo infantil, os maus devem morrer, os tolos também e o Bem deve triunfar magnificamente.
Há outros fatores a serem considerados nos contos de fadas:
• são obras de arte, e estimulam o gosto pela literatura.
• aumentam o vocabulário da criança, por colocá-la em contato com palavras que ela não ouve no seu dia a dia: arauto, palácio, carruagem etc
• ampliam a visão de mundo da criança, colocando-a em contato com costumes de outros povos e outras épocas históricas
• a atenção carinhosa do contador de histórias proporciona momentos gratificantes de intimidade, aproxima gerações e dá segurança emocional à criança
• estimula a imaginação, a fantasia
Ofereça-se a oportunidade de compartilhar momentos mágicos de alegria com seus filhos!
conto - O melhor médico
- Dr. Leôncio Rezende! É o nome que o nosso médico em São Paulo indicou-me para procurar aqui em Santos. Ele não está em casa esta noite, mas marquei para você uma consulta, amanhã. Você aguenta até amanhã, não é, querida?
O olhar da senhora F... suplicava socorro: derreada no sofá do saguão do hotel, a coitada nem falar podia. O Sr. F... ordenou:
Podem dispensar a ambulãncia.
- Não é possível, ela já está chegando... Quando vi sua senhora neste estado, achei prudente...
- Senhor gerente, já resolvi o caso: quero o melhor médico de Santos. Não entrego a vida de minha mulher para qualquer um, não confio em mediquinho de Pronto Socorro.
- No entanto, é uma emergência...
- Minha mulher tem essas crises sempre. Já a conheço. Aguenta bem até amanhã. Não é mesmo, querida?
A ‘querida’ resfolegou resignada.
Eis que entra o médico, de maleta em punho:
- Boa noite! Esta é a senhora doente, suponho.
O Sr. F.... se adianta:
- O doutor pode retirar-se. A situação já está resolvida.
-Como?
- Foi pura precipitação do gerente. O senhor compreende, minha senhora tem seu próprio médico, particular, compreende? Eu posso pagar pelo melhor. Não quero saber de Pronto Socorro.
O médico observa o semblante resignado da Sra. F.... e, ante a arrogância do marido, com um gesto discreto silencia o enfermeiro que o acompanha e faz meia volta.
O gerente sussurra ao ouvido do ricaço:
- Perdoe-me a curiosidade. Como é mesmo o nome do médico que o senhor disse ser o melhor de Santos?
- Dr. Leôncio Rezende.
- Pois o senhor acaba de expulsaro Dr. Leôncio Rezende deste recinto.
- Como? – e o Sr. F... grita: - Dr. Leônico Rezende!
O médico do Pronto Socorro pára e encara-o.
- É mesmo o senhor?
- Perfeitamente.
- Mas... Dr. Leôncio... Queira desculpar-me... Um médico de sua categoria andando por aí à noite, dando plantõezinhos... O Sr. Deveria restringir-se à sua clientela particular! O Sr. não precisa deste emprego, suponho!
- Os pacientes precisam.
- Não entendi.
- Por que eu deveria limitar-me a atender os ricos, meu amigo, quando são justamente os pobres os mais necessitados e os que mais sofrem?
O olhar da senhora F... suplicava socorro: derreada no sofá do saguão do hotel, a coitada nem falar podia. O Sr. F... ordenou:
Podem dispensar a ambulãncia.
- Não é possível, ela já está chegando... Quando vi sua senhora neste estado, achei prudente...
- Senhor gerente, já resolvi o caso: quero o melhor médico de Santos. Não entrego a vida de minha mulher para qualquer um, não confio em mediquinho de Pronto Socorro.
- No entanto, é uma emergência...
- Minha mulher tem essas crises sempre. Já a conheço. Aguenta bem até amanhã. Não é mesmo, querida?
A ‘querida’ resfolegou resignada.
Eis que entra o médico, de maleta em punho:
- Boa noite! Esta é a senhora doente, suponho.
O Sr. F.... se adianta:
- O doutor pode retirar-se. A situação já está resolvida.
-Como?
- Foi pura precipitação do gerente. O senhor compreende, minha senhora tem seu próprio médico, particular, compreende? Eu posso pagar pelo melhor. Não quero saber de Pronto Socorro.
O médico observa o semblante resignado da Sra. F.... e, ante a arrogância do marido, com um gesto discreto silencia o enfermeiro que o acompanha e faz meia volta.
O gerente sussurra ao ouvido do ricaço:
- Perdoe-me a curiosidade. Como é mesmo o nome do médico que o senhor disse ser o melhor de Santos?
- Dr. Leôncio Rezende.
- Pois o senhor acaba de expulsaro Dr. Leôncio Rezende deste recinto.
- Como? – e o Sr. F... grita: - Dr. Leônico Rezende!
O médico do Pronto Socorro pára e encara-o.
- É mesmo o senhor?
- Perfeitamente.
- Mas... Dr. Leôncio... Queira desculpar-me... Um médico de sua categoria andando por aí à noite, dando plantõezinhos... O Sr. Deveria restringir-se à sua clientela particular! O Sr. não precisa deste emprego, suponho!
- Os pacientes precisam.
- Não entendi.
- Por que eu deveria limitar-me a atender os ricos, meu amigo, quando são justamente os pobres os mais necessitados e os que mais sofrem?
crônica - O feitiço contra a feiticeira
Ao folhear um livro de magia Wicca, resolvi enfeitiçar uma colher de pau; uma de cabo longo, ótima para fazer doces e compotas.
Decorei as palavras rituais e, em uma noite de lua cheia, passei a colher nove vezes pelo fogo, sete vezes pela água, soprei-a cinco vezes e com ela atirei três punhados de sal marinho por cima do ombro esquerdo.
Testei a colher diversas vezes – fiz doces de abóbora, de leite, de cenoura, de batata roxa. Todos deliciosos.
Em um dia propício, segundo a astróloga, a taróloga e a numeróloga, convidei a vítima para jantar. O ‘espelho, espelho meu’ refletia um lar perfeito. O corvo empoleirado em meu ombro recitava Poe. Armei o cenário para a captura com flores, velas, fitas e aromas recomendados pelo Feng-Shui. Restava seguir o conselho da vovó: homem se agarra pelo estômago.
Vai daí que não encontrei minha colher de bruxa em lugar algum!
Então reparei em umas letrinhas minúsculas aos pés do encantamento: ‘ a colher de pau torna-se invisível quando seu uso possa resultar em algum malefício...’
Decorei as palavras rituais e, em uma noite de lua cheia, passei a colher nove vezes pelo fogo, sete vezes pela água, soprei-a cinco vezes e com ela atirei três punhados de sal marinho por cima do ombro esquerdo.
Testei a colher diversas vezes – fiz doces de abóbora, de leite, de cenoura, de batata roxa. Todos deliciosos.
Em um dia propício, segundo a astróloga, a taróloga e a numeróloga, convidei a vítima para jantar. O ‘espelho, espelho meu’ refletia um lar perfeito. O corvo empoleirado em meu ombro recitava Poe. Armei o cenário para a captura com flores, velas, fitas e aromas recomendados pelo Feng-Shui. Restava seguir o conselho da vovó: homem se agarra pelo estômago.
Vai daí que não encontrei minha colher de bruxa em lugar algum!
Então reparei em umas letrinhas minúsculas aos pés do encantamento: ‘ a colher de pau torna-se invisível quando seu uso possa resultar em algum malefício...’
crônica - O curioso
O macaquinho estava - coisa excepcional para um macaco - absolutamente imóvel, encolhido junto ao tronco da árvore.
O passarinho distraído pousou a seu lado e zupt - foi imediatamente agarrado e espremido entre as mãozinhas espertas.
O passarinho piou, o que excitou o macaquinho, que pos - se a pular e a agitar as mãos para cima e para baixo, com a vítima presa pelas asas abertas. Socou - a contra os galhos, contra o tronco, esfregou - a, apertou - a, atirou - a para o alto, na maior alegria.
Parando alguns momentos para coçar - se, o macaquinho largou uma das asas. A imobilidade do passarinho o intrigou. Era de ver - se o seu espanto, a tocar agora delicadamente o corpo inerte.
Aí começou a parte realmente interessante do fato. O macaquinho largou a presa e olhou - a, desconfiado. Cheirou - a. Cutucou - a de várias maneiras. Abriu - lhe o bico e espiou lá dentro. Puxou - lhe algumas penas. Deve ter encontrado alguns piolhos, pois pos - se a catar com os dedos alguma coisa muito pequena que levou à boca e mastigou com prazer. A seguir, aos gritinhos, atirou o pássaro para o ar como se brincasse de bola, deu - lhes tapas como a uma peteca, chutou - o e até pulou em cima dele.
A pele da avezinha rompeu - se com tamanho peso.
E aí o nosso macaco começou a dilacerar com cuidado o que restava de pele íntegra e a puxar para fora, com movimentos precisos e delicados, as vísceras, que apalpava e cheirava, olhava de todos os ângulos, lambia e tornava a examinar. Parecia não cansar - se daquilo, entretido com aquele exame como se fora tarefa importante.
Arrancava as penas, as penugens do peito e as maiores do rabo, observando - as uma a uma e colocando - as enfileiradas sobre o tronco.
Aí apareceu outro macaco. Briga na certa.
Que nada! O outro ficou por ali, sossegado, e daí a instantes estavam os dois a tocar, a apertar, a cutucar, a medir, a cheirar, a trocar grunhidos entre si como se conversassem, tão concentrados em suas macaquices que nem se davam conta de estarem sendo, por sua vez, observados.
E eu pensei comigo : estou a contemplar o Simius curiosus, na pré história da espécie que dominará a Terra daqui a alguns milhões de anos, talvez.
O passarinho distraído pousou a seu lado e zupt - foi imediatamente agarrado e espremido entre as mãozinhas espertas.
O passarinho piou, o que excitou o macaquinho, que pos - se a pular e a agitar as mãos para cima e para baixo, com a vítima presa pelas asas abertas. Socou - a contra os galhos, contra o tronco, esfregou - a, apertou - a, atirou - a para o alto, na maior alegria.
Parando alguns momentos para coçar - se, o macaquinho largou uma das asas. A imobilidade do passarinho o intrigou. Era de ver - se o seu espanto, a tocar agora delicadamente o corpo inerte.
Aí começou a parte realmente interessante do fato. O macaquinho largou a presa e olhou - a, desconfiado. Cheirou - a. Cutucou - a de várias maneiras. Abriu - lhe o bico e espiou lá dentro. Puxou - lhe algumas penas. Deve ter encontrado alguns piolhos, pois pos - se a catar com os dedos alguma coisa muito pequena que levou à boca e mastigou com prazer. A seguir, aos gritinhos, atirou o pássaro para o ar como se brincasse de bola, deu - lhes tapas como a uma peteca, chutou - o e até pulou em cima dele.
A pele da avezinha rompeu - se com tamanho peso.
E aí o nosso macaco começou a dilacerar com cuidado o que restava de pele íntegra e a puxar para fora, com movimentos precisos e delicados, as vísceras, que apalpava e cheirava, olhava de todos os ângulos, lambia e tornava a examinar. Parecia não cansar - se daquilo, entretido com aquele exame como se fora tarefa importante.
Arrancava as penas, as penugens do peito e as maiores do rabo, observando - as uma a uma e colocando - as enfileiradas sobre o tronco.
Aí apareceu outro macaco. Briga na certa.
Que nada! O outro ficou por ali, sossegado, e daí a instantes estavam os dois a tocar, a apertar, a cutucar, a medir, a cheirar, a trocar grunhidos entre si como se conversassem, tão concentrados em suas macaquices que nem se davam conta de estarem sendo, por sua vez, observados.
E eu pensei comigo : estou a contemplar o Simius curiosus, na pré história da espécie que dominará a Terra daqui a alguns milhões de anos, talvez.
conto - O crime perfeito
Não sei se culpo o FHC, que congelou meu salário, ou o Lula que manteve o congelamento. Eles são os culpados, não eu.
Eu julgava-me uma pessoa boa e nada em mim revelava o assassino.
Até o dia em que as finanças se complicaram e o parente próximo, do qual eu era herdeiro, mostrou-se absolutamente indiferente.
Caminhava eu à beira-mar, maldizendo as injustiças desta vida, quando ouço um amigo a concordar comigo:
- Dele, vivo, você não tira nada.
Neste momento, o planejador oculto em meu cérebro sussurrou um minha orelha esquerda: “morto, então.” A engrenagem do mal começou a girar lentamente e não havia a possibilidade do retorno. A idéia estava lá, em meu coração eu era já um assassino.
“O que eu penso..”, dizem as pessoas, porque se julgam donas de seus pensamentos. Ora, isto não é verdade. Os pensamentos estão à solta por aí, à nossa revelia. Posso provar o que digo. De tempos em tempos há uma geração de pessoas que se chamam Rafael ou Carolina, por exemplo. Há sempre uma geração de Matildes, ou Filipes, ou Carlos Augustos ou Marias Helenas. Cada pai afirma que escolheu cuidadosamente o nome de seu filho ou filha, porque queria um nome diferente. Como acontece, então, que entre centenas de nomes, todos os pais de uma geração escolhem ao mesmo tempo os mesmos nomes? Porque o pensamento referente àquele nome estava à solta, infectando os cérebros, entrando na freqüência de onda de cada pai ou mãe em potencial.
É assim que acontece. Os pensamentos nos comandam, nos fazem agir, mas a sociedade nos julga responsáveis, e assim somos rotulados pela vida afora por méritos e culpas que não nos pertencem.
Pois aí está. Acontecera.O pensamento infiltrou-se e, daquele momento em diante, minha vida nunca mais seria a mesma. Nada poderia mudar a realidade do fato.
Que angústia! Eu sentia-me pequenino, desprezível, meu rosto ao espelho mais se assemelhava ao de Dorian Gray. Se fosse possível, eu mesmo me esmagaria com o pé, verme hediondo.
Bem que eu abafava o planejador com máximas e citações e preces. O outro, paciente, espreitava através de meus olhos e aguardava.
“As dificuldades são o trampolim para um grande salto” – o calendário da Seicho-no-iê anunciava à porta do dentista.
E o planejador, lendo aquilo, comentava maroto:
- Salto? Aí está. Esta é uma idéia. Acidentes acontecem...
Eu corria, alucinado, e como tanta gente corre hoje em dias pelas praias e avenidas, eu era apenas mais um, tido como esportista ou adepto do jeito saudável de viver, praticando na única academia que o salário de um funcionário público comporta: a rua.
Eu nem visitava mais o avô , nem telefonava, para que minhas intenções, ou melhor, as intenções que não eram minhas, não, absolutamente, não se denunciassem ou, pior, para que o planejador não esbarrasse na oportunidade.
Perdi o sono e o apetite. A gasolina abaixou, o preço da cesta básica não arredou um centavo. A balança comercial do Brasil teve superávit, meu bolso em queda livre. Era o Pânico.
A poupança já se fora, bem como o computador, as ações e o carro. O cheque especial devorara os próximos salários.
E o planejador lá, à espreita.
Certa tarde encontro o Conde, não é título, não, é sobrenome mesmo, pois dizia eu que encontro o Conde à saída do trabalho, a caminho da Rua XV:
- Vamos à Cafeteria do Museu? Eu pago. Não sei de café melhor nesta cidade.
Abaixei a cabeça, deixei-me levar, em minha melhor performance de petista desiludido.
O Conde é o advogado do avô, colega de infância que a vida manteve por perto. Com um estalar de língua e um balanceio de cabeça, o Conde censurou-me:
- Rapaz sem juízo, é nisto que dá, não ouvir os conselhos dos mais velhos. As invés de fazer contabilidade, ou entrar pelos caminhos novos da informática, foi-se inflar de idealismo e ensinar, olha aí no que deu. Educação e Saúde são passivos, meu caro, sinônimos de prejuízo certo. O dinheiro vem pelos ativos. Mas você não entende nada de balancete, não é?
Tal cinismo desarmou-me. Eu estava tão cansado, bem que necessitava de um repouso. O planejador aproveitou-se de minha momentânea fragilidade e assumiu o comando.
Indefeso, eu ouvi seu riso cínico e assisti ao resto da conversa com o Conde, que prosseguiu:
- Aceite meu conselho, rapaz. Volte a visitar seu avô. O velho anda magoado, fala em fazer um testamento deixando tudo para o bisneto, colocar os imóveis intocáveis até a maioridade do garoto, reduzir você a um mero tutor da fortuna do menino. O velho é bem capaz de deixar você na rua da amargura.
- É onde eu estou, não é?
O Planejador garante ao Conde que vai visitar o avô no dia seguinte, e vai levar o bisneto, que o velho anda saudoso.
Eu me acalmo. Percebo o que Ele pretende e começo a concordar com Ele.
Afinal, é a maneira de garantir os estudos do menino e, de quebra, livrar-me tanto do Planejador quanto da dor e do remorso.
Acidentes acontecem.
Ninguém suspeitará de mim.
O velho vai cair da sacada, a trinta metros de altura, e o neto cairá a seguir, na aparente tentativa de salvá-lo, e deixará ao menos nesta Terra a fama de herói.
Outras idéias para o tema:
Se Deus, em sua sabedoria, dotou o Homem de um inconsciente, deve ter tido para isto sérias e incontáveis razões.
A intuição é a lâmpada de Aladim.
O sonho premonitório da pedra que caiu sobre a casa da tia Maria.
O litro de Continental.
O livro enviado pela Zélia.
Reflexões sobre Crime e Castigo.
O coração foi feito para ser quebrado.
O conhecimento é o castigo do pecador.
A ignorância é a proteção do ser humano.
Aquele que pensa, já pecou em seu coração.
Ou é amor ou é medo. Acima do Karma está a Graça.
Talvez amanhã eu acorde, já nem me lembre de nada, possa recomeçar minha jornada como você, criança inocente, acreditando que tenho escolhas, e ajo sempre da melhor maneira possível e com a melhor das intenções.
Eu julgava-me uma pessoa boa e nada em mim revelava o assassino.
Até o dia em que as finanças se complicaram e o parente próximo, do qual eu era herdeiro, mostrou-se absolutamente indiferente.
Caminhava eu à beira-mar, maldizendo as injustiças desta vida, quando ouço um amigo a concordar comigo:
- Dele, vivo, você não tira nada.
Neste momento, o planejador oculto em meu cérebro sussurrou um minha orelha esquerda: “morto, então.” A engrenagem do mal começou a girar lentamente e não havia a possibilidade do retorno. A idéia estava lá, em meu coração eu era já um assassino.
“O que eu penso..”, dizem as pessoas, porque se julgam donas de seus pensamentos. Ora, isto não é verdade. Os pensamentos estão à solta por aí, à nossa revelia. Posso provar o que digo. De tempos em tempos há uma geração de pessoas que se chamam Rafael ou Carolina, por exemplo. Há sempre uma geração de Matildes, ou Filipes, ou Carlos Augustos ou Marias Helenas. Cada pai afirma que escolheu cuidadosamente o nome de seu filho ou filha, porque queria um nome diferente. Como acontece, então, que entre centenas de nomes, todos os pais de uma geração escolhem ao mesmo tempo os mesmos nomes? Porque o pensamento referente àquele nome estava à solta, infectando os cérebros, entrando na freqüência de onda de cada pai ou mãe em potencial.
É assim que acontece. Os pensamentos nos comandam, nos fazem agir, mas a sociedade nos julga responsáveis, e assim somos rotulados pela vida afora por méritos e culpas que não nos pertencem.
Pois aí está. Acontecera.O pensamento infiltrou-se e, daquele momento em diante, minha vida nunca mais seria a mesma. Nada poderia mudar a realidade do fato.
Que angústia! Eu sentia-me pequenino, desprezível, meu rosto ao espelho mais se assemelhava ao de Dorian Gray. Se fosse possível, eu mesmo me esmagaria com o pé, verme hediondo.
Bem que eu abafava o planejador com máximas e citações e preces. O outro, paciente, espreitava através de meus olhos e aguardava.
“As dificuldades são o trampolim para um grande salto” – o calendário da Seicho-no-iê anunciava à porta do dentista.
E o planejador, lendo aquilo, comentava maroto:
- Salto? Aí está. Esta é uma idéia. Acidentes acontecem...
Eu corria, alucinado, e como tanta gente corre hoje em dias pelas praias e avenidas, eu era apenas mais um, tido como esportista ou adepto do jeito saudável de viver, praticando na única academia que o salário de um funcionário público comporta: a rua.
Eu nem visitava mais o avô , nem telefonava, para que minhas intenções, ou melhor, as intenções que não eram minhas, não, absolutamente, não se denunciassem ou, pior, para que o planejador não esbarrasse na oportunidade.
Perdi o sono e o apetite. A gasolina abaixou, o preço da cesta básica não arredou um centavo. A balança comercial do Brasil teve superávit, meu bolso em queda livre. Era o Pânico.
A poupança já se fora, bem como o computador, as ações e o carro. O cheque especial devorara os próximos salários.
E o planejador lá, à espreita.
Certa tarde encontro o Conde, não é título, não, é sobrenome mesmo, pois dizia eu que encontro o Conde à saída do trabalho, a caminho da Rua XV:
- Vamos à Cafeteria do Museu? Eu pago. Não sei de café melhor nesta cidade.
Abaixei a cabeça, deixei-me levar, em minha melhor performance de petista desiludido.
O Conde é o advogado do avô, colega de infância que a vida manteve por perto. Com um estalar de língua e um balanceio de cabeça, o Conde censurou-me:
- Rapaz sem juízo, é nisto que dá, não ouvir os conselhos dos mais velhos. As invés de fazer contabilidade, ou entrar pelos caminhos novos da informática, foi-se inflar de idealismo e ensinar, olha aí no que deu. Educação e Saúde são passivos, meu caro, sinônimos de prejuízo certo. O dinheiro vem pelos ativos. Mas você não entende nada de balancete, não é?
Tal cinismo desarmou-me. Eu estava tão cansado, bem que necessitava de um repouso. O planejador aproveitou-se de minha momentânea fragilidade e assumiu o comando.
Indefeso, eu ouvi seu riso cínico e assisti ao resto da conversa com o Conde, que prosseguiu:
- Aceite meu conselho, rapaz. Volte a visitar seu avô. O velho anda magoado, fala em fazer um testamento deixando tudo para o bisneto, colocar os imóveis intocáveis até a maioridade do garoto, reduzir você a um mero tutor da fortuna do menino. O velho é bem capaz de deixar você na rua da amargura.
- É onde eu estou, não é?
O Planejador garante ao Conde que vai visitar o avô no dia seguinte, e vai levar o bisneto, que o velho anda saudoso.
Eu me acalmo. Percebo o que Ele pretende e começo a concordar com Ele.
Afinal, é a maneira de garantir os estudos do menino e, de quebra, livrar-me tanto do Planejador quanto da dor e do remorso.
Acidentes acontecem.
Ninguém suspeitará de mim.
O velho vai cair da sacada, a trinta metros de altura, e o neto cairá a seguir, na aparente tentativa de salvá-lo, e deixará ao menos nesta Terra a fama de herói.
Outras idéias para o tema:
Se Deus, em sua sabedoria, dotou o Homem de um inconsciente, deve ter tido para isto sérias e incontáveis razões.
A intuição é a lâmpada de Aladim.
O sonho premonitório da pedra que caiu sobre a casa da tia Maria.
O litro de Continental.
O livro enviado pela Zélia.
Reflexões sobre Crime e Castigo.
O coração foi feito para ser quebrado.
O conhecimento é o castigo do pecador.
A ignorância é a proteção do ser humano.
Aquele que pensa, já pecou em seu coração.
Ou é amor ou é medo. Acima do Karma está a Graça.
Talvez amanhã eu acorde, já nem me lembre de nada, possa recomeçar minha jornada como você, criança inocente, acreditando que tenho escolhas, e ajo sempre da melhor maneira possível e com a melhor das intenções.
artigo - O cérebro criativo
Em minha opinião, a mais fantástica constatação que a tecnologia do século XX permitiu aos médicos foi a certeza de que os cérebros são diferentes.
O estômago de todos mundo digere, os pulmões respiram, já quantos aos cérebros, cada um faz o que pode.
O cérebro "padrão" seleciona cerca de sete estímulos por vez, entre as centenas de imagens, sons e percepções recebidas, para compor o pensamento.
Esta seleção de sete estímulos torna as pessoas comuns objetivas e previsíveis.
No entanto, dez por cento da população é geneticamente premiada com um cérebro diferente, sem a capacidade de filtrar as informações recebidas. Estas pessoas têm a atenção direcionada a centenas de estímulos simultaneamente; são hiperreativas, impulsivas e distraídas, para começar a conversa. O cérebro DDA - distúrbio da atenção - já recebeu vários rótulos: deficiência cerebral mínima, crise hipercinética, ausência de controle moral e outros.
Quando criança, o indivíduo DDA troca letras, derruba coisas, acha a escola um tédio, é desorganizado e ouve mais "não pode" e críticas do que seus
colegas. Estas pessoas crescem com a sensação de serem indesejadas e incompreendidas.
O cérebro DDA só se concentra quando a atenção é captada, ele necessita de jogos, músicas e elogios em penca. Uma vez captada a atenção surge outra característica notável: o hiperfoco, uma concentração concentrada.
Um notável cérebro DDA, Eisntein, péssimo aluno,focou vinte anos a questão do que acontece com os objetos à velocidade da luz. Outro sonhador, Gran Bell, levou anos para resolver como falar com alguém do outro lado do planeta. E que dizer do maluco que resolveu domesticar a eletricidade, a mortal energia dos raios? Convenhamos, as pessoas sensatas não se ocupam com estas tolices. Sorte da humanidade que haja cérebros DDA, pobres sofredores incompreendidos! Para eles, o mundo comum é tão pobre...
Quando amam, é tudo ou nada. Há um excesso de emoção e a tendência de idealizar o objeto amado. Verdade é que alguns DDA se apaixonam por suas
carreiras ou pela ciência. Artistas são DDA que sublimam a emoção em músicas, romances, poesias...
De Fernando Pessoa, cuja vida e obra encaixam-se no conceito de DDA, deixo a palavra com a psiquiatra Ana Beatriz da Silva, autora do livro Mentes
Inquietas:
Fernando Pessoa sinaliza em sua obra traços de uma mente com funcionamento DDA: inquietação, contradição, desorganização, devaneios, hiperconcentração, criatividade, intolerância ao tédio, dificuldades em seguir regras. Criou vários "eus", os famosos heterônimos, para descrever o mundo sob diversos ângulos.
Os desencontros amorosos estão presentes:
"Cobre-me um frio de janeiro/ no junho do meu carinho."
A baixa auto-estima aparece de maneira clara no poema Tabacaria:
"Não sou nada / Nunca serei nada / Não posso querer ser nada / À parte isso/ Tenho em mim todos os sonhos do mundo."
E, certamente, Fernando Pessoa nos fornece a receita do sucesso, nas palavras de Ricardo Reis:
"Para ser grande,sê inteiro/ nada teu exagera ou exclui/ Sê todo em cada coisa/ Põe quanto és no mínimo que fazes/ Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alto vive."
Pois é preciso agir ou o DDA corre o risco de passar pela vida anonimamente a observar estrelas, deixando atrás de si um rastro de roupas esparramadas,
gavetas abertas e corações partidos.
Einstein escreveu sua teoria da relatividade, publicou -a, fez conferências a respeito e tornou-se um criador. É verdade que a maioria dos mortais não entendeu nada, mas, já que o homem falou tanto, acharam melhor retirá-lo da Alemanha e dar-lhe um prêmio Nobel, por via das dúvidas.
Bem, reconhecimento — em vida — é ótimo!
Este é o desafio do cérebro DDA: ultrapassar a fase do sonhador e tomar atitudes práticas; sair do mundo das idéias e lançar fachos de luz sobre os habitantes da caverna.
O estômago de todos mundo digere, os pulmões respiram, já quantos aos cérebros, cada um faz o que pode.
O cérebro "padrão" seleciona cerca de sete estímulos por vez, entre as centenas de imagens, sons e percepções recebidas, para compor o pensamento.
Esta seleção de sete estímulos torna as pessoas comuns objetivas e previsíveis.
No entanto, dez por cento da população é geneticamente premiada com um cérebro diferente, sem a capacidade de filtrar as informações recebidas. Estas pessoas têm a atenção direcionada a centenas de estímulos simultaneamente; são hiperreativas, impulsivas e distraídas, para começar a conversa. O cérebro DDA - distúrbio da atenção - já recebeu vários rótulos: deficiência cerebral mínima, crise hipercinética, ausência de controle moral e outros.
Quando criança, o indivíduo DDA troca letras, derruba coisas, acha a escola um tédio, é desorganizado e ouve mais "não pode" e críticas do que seus
colegas. Estas pessoas crescem com a sensação de serem indesejadas e incompreendidas.
O cérebro DDA só se concentra quando a atenção é captada, ele necessita de jogos, músicas e elogios em penca. Uma vez captada a atenção surge outra característica notável: o hiperfoco, uma concentração concentrada.
Um notável cérebro DDA, Eisntein, péssimo aluno,focou vinte anos a questão do que acontece com os objetos à velocidade da luz. Outro sonhador, Gran Bell, levou anos para resolver como falar com alguém do outro lado do planeta. E que dizer do maluco que resolveu domesticar a eletricidade, a mortal energia dos raios? Convenhamos, as pessoas sensatas não se ocupam com estas tolices. Sorte da humanidade que haja cérebros DDA, pobres sofredores incompreendidos! Para eles, o mundo comum é tão pobre...
Quando amam, é tudo ou nada. Há um excesso de emoção e a tendência de idealizar o objeto amado. Verdade é que alguns DDA se apaixonam por suas
carreiras ou pela ciência. Artistas são DDA que sublimam a emoção em músicas, romances, poesias...
De Fernando Pessoa, cuja vida e obra encaixam-se no conceito de DDA, deixo a palavra com a psiquiatra Ana Beatriz da Silva, autora do livro Mentes
Inquietas:
Fernando Pessoa sinaliza em sua obra traços de uma mente com funcionamento DDA: inquietação, contradição, desorganização, devaneios, hiperconcentração, criatividade, intolerância ao tédio, dificuldades em seguir regras. Criou vários "eus", os famosos heterônimos, para descrever o mundo sob diversos ângulos.
Os desencontros amorosos estão presentes:
"Cobre-me um frio de janeiro/ no junho do meu carinho."
A baixa auto-estima aparece de maneira clara no poema Tabacaria:
"Não sou nada / Nunca serei nada / Não posso querer ser nada / À parte isso/ Tenho em mim todos os sonhos do mundo."
E, certamente, Fernando Pessoa nos fornece a receita do sucesso, nas palavras de Ricardo Reis:
"Para ser grande,sê inteiro/ nada teu exagera ou exclui/ Sê todo em cada coisa/ Põe quanto és no mínimo que fazes/ Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alto vive."
Pois é preciso agir ou o DDA corre o risco de passar pela vida anonimamente a observar estrelas, deixando atrás de si um rastro de roupas esparramadas,
gavetas abertas e corações partidos.
Einstein escreveu sua teoria da relatividade, publicou -a, fez conferências a respeito e tornou-se um criador. É verdade que a maioria dos mortais não entendeu nada, mas, já que o homem falou tanto, acharam melhor retirá-lo da Alemanha e dar-lhe um prêmio Nobel, por via das dúvidas.
Bem, reconhecimento — em vida — é ótimo!
Este é o desafio do cérebro DDA: ultrapassar a fase do sonhador e tomar atitudes práticas; sair do mundo das idéias e lançar fachos de luz sobre os habitantes da caverna.
conto - O castigo que está no pecado.
Vanessa virou minha melhor amiga – assim, da noite para o dia, para grande espanto meu.
Estamos as duas saindo da aula de pós-graduação quando ela me convida para um chop – até aí nada de mais.
O de mais aconteceu no bar, quando ela me despejou sua vida amorosa inteira entre um gole e outro, nos detalhes mais escabrosos e íntimos possíveis. E arremata:
- Hoje sou amante do padre Delmo.
- Quem? O carismático?
- Ele mesmo.
E vem a história toda de vez: que ela ia toda semana com a amiga Maria – esta sim, amiga desde a infância - visitar o padre, e na ultima semana, estando Maria com febre, ela foi sozinha, e o padre insistiu para que ela entrasse na sacristia, onde ele a puxou para si, começou a acariciá-la, insistiu em que ela subisse com ele para o quarto, disse que sabia o que estava fazendo e que tinha camisinha e tudo o mais que fosse preciso, e ela, encantada, que o padre é mesmo um pecado em forma de gente de tão bonito, subiu e tirou as teias de aranha.
- Teias de aranha?
Ela ri.
- Casa sem uso cria teias de aranha pelos cantos, não é? E depois do meu primo Paulinho, isso já faz mais de três anos, estou na seca. Ah, eu tinha de contar pra alguém. A história está trancada aqui na minha garganta, se eu não contasse pra alguém eu ia enlouquecer.
Antes que eu me sinta grata pela confiança, ela termina: só contei pra Maria e pra você.
E aí ela completa, e eu entendo porque não bastou contar pra Maria:
- A Maria ficou tão brava comigo que cortamos relações. Ela disse que eu tinha de criar juízo e acabar com esta besteira.
Concordo com Maria – não tenho nada a perder, não éramos amigas até duas horas antes – e completo: ele está usando você e deve ter outras amantes na paróquia.
Vanessa me garante que não, que é amor, que é só com ela, que ela sabe pelo brilho nos olhos dele.
Acompanho o auto-engano por meses a fio – o padre, quando sabe que ela contou pra Maria e pra mim, fica bravo, proíbe-a de falar dos encontros amorosos com outras pessoas, esse deveria ser o segredo deles – e, é claro, ela os comenta em todos os seus detalhes comigo, e com Maria, que afinal, voltou a falar com a amiga, na esperança de criar um pouco de juízo naquela cabeça oca.
Vanessa tem verborragia – as palavras saem da boca dela sozinhas, sabem o caminho do mundo antes mesmo que ela as pense. Aliás, Vanessa não pensa. Se pensasse saberia que um padre que tem camisinha guardada no quarto, à espera de que paroquiana bonita apareça sozinha pra falar com ele, está premeditando conquistas. A tolinha acredita ser a única e a primeira namorada do padre.
Divirto-me nas semanas seguintes a acompanhar a agonia do padre que tenta por todos os meios livrar-se da grudenta Vanessa, que o assedia a toda hora, por telefone ou em pessoa, e ignora todos os pedidos e intimações para que acabem o caso – coitadinho, está tão preocupado comigo, com medo de que eu me apaixone e me magoe, está tão preocupado em ser descoberto e perder a batina, mas, é claro que ele pode confiar em mim, não vou dar bandeira, está com medo de ele mesmo se apaixonar, mas é claro que ele já está caído de amores por mim, não é, a gente vê por aqueles olhinhos brilhantes de desejo...
Desejo que Vanessa traduz como amor, primeiro e único.
Maria descobre que o padre já foi expulso de duas outras paróquias por assediar paroquianas. Outra briga entre ela e Vanessa, esta mais séria, onde já se viu, Maria contando mentiras a respeito de meu amado e casto padre. Casto? Sim, até eu aparecer em cena, afirma Vanessa com convicção.
As meninas que Vanessa ocasionalmente encontra na casa do padre, são, é claro, alunas inocentes que aparecem para esclarecer dúvidas bíblicas. Seus olhos só vêem o que querem ver.
Descubro, divertida, que o padre pediu remoção para outra paróquia. Depois de Vanessa, ele vai ficar mais cauteloso em suas investidas eróticas, suponho.
A inconsolável Vanessa está certa de que a transferência foi fruto de perseguição do bispo. Padre Delmo, em confissão, deve ter contado sobre ela, e recebido como penitência a remoção e a obrigação de afastar-se. O coitadinho deve estar triste, arrependido de ter confessado, e louco de saudades dela, que não desiste até descobrir para onde ele foi – e ir atrás.
A cena de reencontro, contada por ela – e recontada secretamente em minha mente por minha pérfida veia teatral – é tragicômica. Quase vejo o sorriso amarelo do padre e sua patética tentativa de resistir ao sexo que se segue – furioso, selvagem, puro êxtase, na descrição de Vanessa, que vai continuar insistindo para que ele largue a batina e venha morar com ela – sem emprego, ( acrescento em minha mente, maldosamente: e sem outras menininhas), e com as benções de Deus, pois, é claro, depois de ele deixar a batina, podem os dois casar, não é mesmo?
Pobre padre Delmo! Tão carismático...convence qualquer um de qualquer coisa.
A vingança da vida foi colocar-lhe no caminho uma oponente à altura.
Estamos as duas saindo da aula de pós-graduação quando ela me convida para um chop – até aí nada de mais.
O de mais aconteceu no bar, quando ela me despejou sua vida amorosa inteira entre um gole e outro, nos detalhes mais escabrosos e íntimos possíveis. E arremata:
- Hoje sou amante do padre Delmo.
- Quem? O carismático?
- Ele mesmo.
E vem a história toda de vez: que ela ia toda semana com a amiga Maria – esta sim, amiga desde a infância - visitar o padre, e na ultima semana, estando Maria com febre, ela foi sozinha, e o padre insistiu para que ela entrasse na sacristia, onde ele a puxou para si, começou a acariciá-la, insistiu em que ela subisse com ele para o quarto, disse que sabia o que estava fazendo e que tinha camisinha e tudo o mais que fosse preciso, e ela, encantada, que o padre é mesmo um pecado em forma de gente de tão bonito, subiu e tirou as teias de aranha.
- Teias de aranha?
Ela ri.
- Casa sem uso cria teias de aranha pelos cantos, não é? E depois do meu primo Paulinho, isso já faz mais de três anos, estou na seca. Ah, eu tinha de contar pra alguém. A história está trancada aqui na minha garganta, se eu não contasse pra alguém eu ia enlouquecer.
Antes que eu me sinta grata pela confiança, ela termina: só contei pra Maria e pra você.
E aí ela completa, e eu entendo porque não bastou contar pra Maria:
- A Maria ficou tão brava comigo que cortamos relações. Ela disse que eu tinha de criar juízo e acabar com esta besteira.
Concordo com Maria – não tenho nada a perder, não éramos amigas até duas horas antes – e completo: ele está usando você e deve ter outras amantes na paróquia.
Vanessa me garante que não, que é amor, que é só com ela, que ela sabe pelo brilho nos olhos dele.
Acompanho o auto-engano por meses a fio – o padre, quando sabe que ela contou pra Maria e pra mim, fica bravo, proíbe-a de falar dos encontros amorosos com outras pessoas, esse deveria ser o segredo deles – e, é claro, ela os comenta em todos os seus detalhes comigo, e com Maria, que afinal, voltou a falar com a amiga, na esperança de criar um pouco de juízo naquela cabeça oca.
Vanessa tem verborragia – as palavras saem da boca dela sozinhas, sabem o caminho do mundo antes mesmo que ela as pense. Aliás, Vanessa não pensa. Se pensasse saberia que um padre que tem camisinha guardada no quarto, à espera de que paroquiana bonita apareça sozinha pra falar com ele, está premeditando conquistas. A tolinha acredita ser a única e a primeira namorada do padre.
Divirto-me nas semanas seguintes a acompanhar a agonia do padre que tenta por todos os meios livrar-se da grudenta Vanessa, que o assedia a toda hora, por telefone ou em pessoa, e ignora todos os pedidos e intimações para que acabem o caso – coitadinho, está tão preocupado comigo, com medo de que eu me apaixone e me magoe, está tão preocupado em ser descoberto e perder a batina, mas, é claro que ele pode confiar em mim, não vou dar bandeira, está com medo de ele mesmo se apaixonar, mas é claro que ele já está caído de amores por mim, não é, a gente vê por aqueles olhinhos brilhantes de desejo...
Desejo que Vanessa traduz como amor, primeiro e único.
Maria descobre que o padre já foi expulso de duas outras paróquias por assediar paroquianas. Outra briga entre ela e Vanessa, esta mais séria, onde já se viu, Maria contando mentiras a respeito de meu amado e casto padre. Casto? Sim, até eu aparecer em cena, afirma Vanessa com convicção.
As meninas que Vanessa ocasionalmente encontra na casa do padre, são, é claro, alunas inocentes que aparecem para esclarecer dúvidas bíblicas. Seus olhos só vêem o que querem ver.
Descubro, divertida, que o padre pediu remoção para outra paróquia. Depois de Vanessa, ele vai ficar mais cauteloso em suas investidas eróticas, suponho.
A inconsolável Vanessa está certa de que a transferência foi fruto de perseguição do bispo. Padre Delmo, em confissão, deve ter contado sobre ela, e recebido como penitência a remoção e a obrigação de afastar-se. O coitadinho deve estar triste, arrependido de ter confessado, e louco de saudades dela, que não desiste até descobrir para onde ele foi – e ir atrás.
A cena de reencontro, contada por ela – e recontada secretamente em minha mente por minha pérfida veia teatral – é tragicômica. Quase vejo o sorriso amarelo do padre e sua patética tentativa de resistir ao sexo que se segue – furioso, selvagem, puro êxtase, na descrição de Vanessa, que vai continuar insistindo para que ele largue a batina e venha morar com ela – sem emprego, ( acrescento em minha mente, maldosamente: e sem outras menininhas), e com as benções de Deus, pois, é claro, depois de ele deixar a batina, podem os dois casar, não é mesmo?
Pobre padre Delmo! Tão carismático...convence qualquer um de qualquer coisa.
A vingança da vida foi colocar-lhe no caminho uma oponente à altura.
crônica - O caso do Zé Picadinho
Quando meu professor de psiquiatria acabou comigo na frente da classe, a turma estava discutindo os casos do sujeito que botou fogo no índio – e justificou dizendo que pensara que ele era um mendigo, como se em mendigo fosse permitido botar fogo – e outros, como o do pai que jogou a filha pela janela, e da estudante de direito de dezenove anos, que assassinou os pais a facadas por motivo fútil.
Então o professor chamou-me de preconceituosa e outros epítetos mais. Eu, como não especialista, que poderia responder?
Tudo porque eu comentara que psicopatas não tem cura.
Depois de me espinafrar, a título de ilustrar sua opinião, meu professor contou uma história incrível, porque real, dos tempos em que ele trabalhara no presídio.
Lá tinha um assassino em série, o Zé Picadinho. O apelido carinhoso devia-se ao costume que tinha o criminoso de picar suas vitimas em pedacinhos dos quais ia se livrando aos poucos, uma perna aqui, uma mão ali...
Ora, no presídio, o Zé ficou mansinho, educado, uma verdadeira ‘moça’, no sentido antigo, quer dizer: gentil, que as moças de hoje, de dóceis não tem é nada, e algumas são bem incisivas e até agressivas.
Pois o psiquiatra responsável pelo Zé resolveu dar ao juiz seu parecer de cura – podiam soltar o homem sem perigo. O profissional tomou o cuidado de, em uma reunião com todos os outros colegas, debater a questão, e todos, em unanimidade, concordaram que o sujeito estava curado.
Um mês depois acharam uma mala na rodoviária, cheirando mal, com uns braços dentro... depois, uma cabeça, enterrada em um parque público... uma mulher desaparecida, depois outra, outra cabeça em outro parque, outros braços em outra mala... em tudo a marca do Zé Picadinho.
O psiquiatra que deu o parecer de cura perdeu o cargo, está respondendo a processo, o Zé foi de novo trancafiado, e adivinha – depois disso, nenhum outro psiquiatra teve coragem de dar alta para outro psicopata assassino, vai que o sujeito depois de solto voltasse a matar...
E aí, eu me pergunto: a história do professor não confirma o meu pós – e não pré – conceito (pois antes de dar minha opinião li um bocado a respeito do assunta) de que, uma vez psicopata, sempre psicopata?
Não questionei sua lógica – ou a falta dela.
Sei não - psiquiatras, melhor não contrariá-los.
Então o professor chamou-me de preconceituosa e outros epítetos mais. Eu, como não especialista, que poderia responder?
Tudo porque eu comentara que psicopatas não tem cura.
Depois de me espinafrar, a título de ilustrar sua opinião, meu professor contou uma história incrível, porque real, dos tempos em que ele trabalhara no presídio.
Lá tinha um assassino em série, o Zé Picadinho. O apelido carinhoso devia-se ao costume que tinha o criminoso de picar suas vitimas em pedacinhos dos quais ia se livrando aos poucos, uma perna aqui, uma mão ali...
Ora, no presídio, o Zé ficou mansinho, educado, uma verdadeira ‘moça’, no sentido antigo, quer dizer: gentil, que as moças de hoje, de dóceis não tem é nada, e algumas são bem incisivas e até agressivas.
Pois o psiquiatra responsável pelo Zé resolveu dar ao juiz seu parecer de cura – podiam soltar o homem sem perigo. O profissional tomou o cuidado de, em uma reunião com todos os outros colegas, debater a questão, e todos, em unanimidade, concordaram que o sujeito estava curado.
Um mês depois acharam uma mala na rodoviária, cheirando mal, com uns braços dentro... depois, uma cabeça, enterrada em um parque público... uma mulher desaparecida, depois outra, outra cabeça em outro parque, outros braços em outra mala... em tudo a marca do Zé Picadinho.
O psiquiatra que deu o parecer de cura perdeu o cargo, está respondendo a processo, o Zé foi de novo trancafiado, e adivinha – depois disso, nenhum outro psiquiatra teve coragem de dar alta para outro psicopata assassino, vai que o sujeito depois de solto voltasse a matar...
E aí, eu me pergunto: a história do professor não confirma o meu pós – e não pré – conceito (pois antes de dar minha opinião li um bocado a respeito do assunta) de que, uma vez psicopata, sempre psicopata?
Não questionei sua lógica – ou a falta dela.
Sei não - psiquiatras, melhor não contrariá-los.
conto - Noite de núpcias
Luizinha sentou - se na carruagem, sorrindo radiante para o marido. Marcos segurou - lhe as mãos e deu ordens ao cacheiro para partir.
Logo os adeuses da multidão ficaram para trás. Marcos inclinou - se para a esposa e beijou - a. Ruborizada, Luizinha encarou o companheiro. Bem bonito, o seu marido, e ela estava apaixonada por ele.
Luíza pensava em como era feliz em poder casar - se com o homem a quem amava. Algumas mulheres casavam - se por imposição dos pais.
- Luíza ainda não completou quinze anos . Ela não é muito nova para casar ? - objetara a mãe.
Ao que o pai respondera :
- O moço é de boa família. Já está estabelecido na vida e ela gosta dele. Melhor casar de uma vez, pois uma filha solteira causa muitas preocupações.
A alegria da moça diminuiu ao lembrar - se da mãe, que trancara - se no quarto com ela, a prepará - la para ir à igreja, encarando - a com inexplicável tristeza.
- Estou bonita, mãe? Mas... por que chora ? O que aconteceu ?
- O casamento é um pesado encargo para as mulheres, minha filha. É preciso... Você precisa entender uma coisa.
- O que. mãe ?
` - Faça tudo que seu marido mandar, entendeu ? Tudo. As mulheres devem obedecer a seus maridos.
- Sim, mamãe.
- Faça tudo que ele quiser de você. Por mais estranho que pareça. Mesmo que ele lhe peça algo ... nojento. Ou doloroso.
A mãe retirou - se com ar sombrio. Através da porta, chegou - lhe a voz severa do pai :
- Falou com Luíza ?
A carruagem parou e Luíza logo esqueceu - se do mal estar causado pelas palavras incompreensíveis da mãe. O marido ajudou - a a descer e carregou - a nos braços para atravessar a soleira.
Anoitecia.
Luíza foi trocar o vestido de noiva por um traje caseiro. Ao voltar à sala, pôs - se a admirar com orgulho o seu novo lar.
Marcos abrira uma garrafa de champagne e brindaram.
- Não sabes o quanto esperei por este momento - disse ele.
Passearam pelo jardim admirando as primeiras estrelas, conversando alegremente.
Marcos a beijou repetidas vezes, com uma expressão fixa no olhar que começou a deixar Luíza inquieta.
- Que tens, Marcos ?
- Tenho vontade de cobrir - te de beijos - respondeu ele - Amo - te muito.
Luíza sentia - se mole, quente, sensações novas a assaltavam quando Marcos a tocava.
- Vamos deitar - propôs ele, enfim.
Luíza, envolta em nuvens de rendas rosas, mirou - se feliz ao espelho. Marcos abraçou - a, dizendo:
- Linda... és linda...
Luíza sentiu que as mãos dele puxavam sua camisola para cima e empurrou -as. Ele pediu a ela que tirasse a camisola e tirou o pijama. Ela olhou espantada para o pênis ereto do marido e exclamou :
- O que é isso ?
O rapaz encarou - a perplexo e confuso.
A moça agarrou - se à sua boneca predileta, que trouxera da casa dos pais e colocara caprichosamente sobre a banqueta da penteadeira.
- Vá embora, eu monstro!
Percebendo que ele pretendia aproximar - se, Luizinha pulou pela janela aberta, sempre agarrada à boneca , e ganhou a rua.
Marcos chamou - a em vão. Apressadamente, vestiu - se, praguejando contra o maldito pudor das mulheres.
Luíza só pensava em fugir. Corria pela rua deserta, em direção à casa dos pais.
De repente, virando uma esquina, trombou com dois rapazes embriagados que a agarraram, empurraram - na para um beco e arrastaram - na para um pátio deserto.
Após o que pareceu - lhe um longo pesadelo, os malvados se foram.
Nua, Luíza gemia baixinho, agarrada à boneca. Alguns momentos mais tarde, o portão abriu - se e deu passagem a um guarda. A moça não se mexeu quando o guarda aproximou - se e cobriu - a com o casaco de seu uniforme.
Outro homem aproximou - se. Marcos.
- Luíza!
- É sua esposa, senhor ? - disse o guarda - Que desgraça! Ela parece estar bastante machucada.
À luz do luar, Luizinha balançava - se para a frente e para trás sempre abraçada à boneca, olhando para lugar nenhum, cantarolando baixinho, atitude que manteria pelos próximos vinte e cinco anos, até o momento de sua morte.
Logo os adeuses da multidão ficaram para trás. Marcos inclinou - se para a esposa e beijou - a. Ruborizada, Luizinha encarou o companheiro. Bem bonito, o seu marido, e ela estava apaixonada por ele.
Luíza pensava em como era feliz em poder casar - se com o homem a quem amava. Algumas mulheres casavam - se por imposição dos pais.
- Luíza ainda não completou quinze anos . Ela não é muito nova para casar ? - objetara a mãe.
Ao que o pai respondera :
- O moço é de boa família. Já está estabelecido na vida e ela gosta dele. Melhor casar de uma vez, pois uma filha solteira causa muitas preocupações.
A alegria da moça diminuiu ao lembrar - se da mãe, que trancara - se no quarto com ela, a prepará - la para ir à igreja, encarando - a com inexplicável tristeza.
- Estou bonita, mãe? Mas... por que chora ? O que aconteceu ?
- O casamento é um pesado encargo para as mulheres, minha filha. É preciso... Você precisa entender uma coisa.
- O que. mãe ?
` - Faça tudo que seu marido mandar, entendeu ? Tudo. As mulheres devem obedecer a seus maridos.
- Sim, mamãe.
- Faça tudo que ele quiser de você. Por mais estranho que pareça. Mesmo que ele lhe peça algo ... nojento. Ou doloroso.
A mãe retirou - se com ar sombrio. Através da porta, chegou - lhe a voz severa do pai :
- Falou com Luíza ?
A carruagem parou e Luíza logo esqueceu - se do mal estar causado pelas palavras incompreensíveis da mãe. O marido ajudou - a a descer e carregou - a nos braços para atravessar a soleira.
Anoitecia.
Luíza foi trocar o vestido de noiva por um traje caseiro. Ao voltar à sala, pôs - se a admirar com orgulho o seu novo lar.
Marcos abrira uma garrafa de champagne e brindaram.
- Não sabes o quanto esperei por este momento - disse ele.
Passearam pelo jardim admirando as primeiras estrelas, conversando alegremente.
Marcos a beijou repetidas vezes, com uma expressão fixa no olhar que começou a deixar Luíza inquieta.
- Que tens, Marcos ?
- Tenho vontade de cobrir - te de beijos - respondeu ele - Amo - te muito.
Luíza sentia - se mole, quente, sensações novas a assaltavam quando Marcos a tocava.
- Vamos deitar - propôs ele, enfim.
Luíza, envolta em nuvens de rendas rosas, mirou - se feliz ao espelho. Marcos abraçou - a, dizendo:
- Linda... és linda...
Luíza sentiu que as mãos dele puxavam sua camisola para cima e empurrou -as. Ele pediu a ela que tirasse a camisola e tirou o pijama. Ela olhou espantada para o pênis ereto do marido e exclamou :
- O que é isso ?
O rapaz encarou - a perplexo e confuso.
A moça agarrou - se à sua boneca predileta, que trouxera da casa dos pais e colocara caprichosamente sobre a banqueta da penteadeira.
- Vá embora, eu monstro!
Percebendo que ele pretendia aproximar - se, Luizinha pulou pela janela aberta, sempre agarrada à boneca , e ganhou a rua.
Marcos chamou - a em vão. Apressadamente, vestiu - se, praguejando contra o maldito pudor das mulheres.
Luíza só pensava em fugir. Corria pela rua deserta, em direção à casa dos pais.
De repente, virando uma esquina, trombou com dois rapazes embriagados que a agarraram, empurraram - na para um beco e arrastaram - na para um pátio deserto.
Após o que pareceu - lhe um longo pesadelo, os malvados se foram.
Nua, Luíza gemia baixinho, agarrada à boneca. Alguns momentos mais tarde, o portão abriu - se e deu passagem a um guarda. A moça não se mexeu quando o guarda aproximou - se e cobriu - a com o casaco de seu uniforme.
Outro homem aproximou - se. Marcos.
- Luíza!
- É sua esposa, senhor ? - disse o guarda - Que desgraça! Ela parece estar bastante machucada.
À luz do luar, Luizinha balançava - se para a frente e para trás sempre abraçada à boneca, olhando para lugar nenhum, cantarolando baixinho, atitude que manteria pelos próximos vinte e cinco anos, até o momento de sua morte.
Crônica de Natal
A casa estava cheia de segredos porque havia uma criança a encantar.
Mamãe encarregou - se da parte mais difícil : os passarinhos de espuma e plumas.
Rita e Mariana, que já sabiam usar a máquina de costura, confeccionaram 24 bonecas com retalhos coloridos.
E Carmem, que por ser a menor nem por isso era a menos habilidosa, trabalhou com cartolina, tintas e papel laminado, povoando as gavetas da cômoda com todo tipo de anjos.
O grande pinheiro foi levado para a sala enquanto a pequenina dormia e enfeitado com o trabalho de semanas. E, para finalizar, as luzes piscantes e cantantes.
Depois chamaram a pequena para a sala, onde ela entrou a correr e paralisou - se de surpresa. Com que emoção ela exclamou :
- Anjinhos ! Bonecas ! Passarinhos !
Então a mãe acendeu as luzes natalinas e aquela sacizinha fez uma coisa totalmente inesperada : sentou - se no chão a olhar, a olhar, a olhar que era um nunca mais acabar ... e suspirou.
Suspirou tão docemente ... suspirou tão de mansinho...
Foi o presente mais precioso que poderíamos ganhar !
Mamãe encarregou - se da parte mais difícil : os passarinhos de espuma e plumas.
Rita e Mariana, que já sabiam usar a máquina de costura, confeccionaram 24 bonecas com retalhos coloridos.
E Carmem, que por ser a menor nem por isso era a menos habilidosa, trabalhou com cartolina, tintas e papel laminado, povoando as gavetas da cômoda com todo tipo de anjos.
O grande pinheiro foi levado para a sala enquanto a pequenina dormia e enfeitado com o trabalho de semanas. E, para finalizar, as luzes piscantes e cantantes.
Depois chamaram a pequena para a sala, onde ela entrou a correr e paralisou - se de surpresa. Com que emoção ela exclamou :
- Anjinhos ! Bonecas ! Passarinhos !
Então a mãe acendeu as luzes natalinas e aquela sacizinha fez uma coisa totalmente inesperada : sentou - se no chão a olhar, a olhar, a olhar que era um nunca mais acabar ... e suspirou.
Suspirou tão docemente ... suspirou tão de mansinho...
Foi o presente mais precioso que poderíamos ganhar !
conto de Natal - O valor do dinheiro
Quem foi que disse que o dinheiro não traz felicidade ? Quem não teve em mãos o suficiente para dar alegria aos seus. Quem não passou necessidades ou não teve que trabalhar duramente para comprar um sonho.
Assim pensando, com a carteira recheada de dólares, lá vinha Henrique com excesso de planos em sua bagagem.
Há dois anos não passava o Natal em casa, quase não vira a família nesses duros anos de estudo no exterior.
Agora, diplomado, bem empregado, alto executivo, ah, agora retribuiria à família o apoio e incentivo que recebera deles.
Sabia que este fora um ano de vacas magras - uma geada imprevista, uma onda de calor fora de época, uma seca prolongada - as plantações sofreram, a safra fora mínima e uma política econômica toda inadequada piorara a situação dos agricultores.
“Não temos dívidas, mas também não tivemos lucros, escrevera o pai, Não precisamos vender nossas terras, como muitos. Mas estamos vivendo com simplicidade, sem luxos.”
Pois ele, Henrique, trazia dinheiro, muito dinheiro! Remodelaria a fazenda, tinha idéia de utilizar parte das terras num projeto turístico, um hotel ecológico voltado para excursões de crianças e adolescentes.
Daria ao pai um corro novo, financiaria para todos um cruzeiro pelas ilhas gregas, desejo há muito expressado pela mãe.
Desceu do avião feliz, coração generoso a engolfar em amplo abraço a família que o aguardava.
Não parava mais de falar, ávido por partilhar suas lembranças com os entes queridos, inquieto por novidades, emocionado com o sobrinho que não vira crescer.
Notou, contudo, um inexplicável desinteresse pelos seus presentes. O pai recusava o carro novo, a mãe renunciava à viagem, o irmão nada pedia para si.
- O melhor presente de Natal que você poderia nos dar é estar aqui conosco, filho - e as lágrimas corriam pelo rosto da mãe saudosa.
- Ah, meu filho, o melhor presente é ver o homem em que você se tornou, digno, generoso, honesto, bem - e o pai o estreitava em um abraço apertado, comovido.
O irmão sorriu, melancólico :
- Ver a família unida, em paz, todos se entendendo tão bem, com amizade e carinho, quem pode pedir mais?
Até mesmo o Juquinha se mostrou desinteressado nas visitas que fez ao Shopping com o tio na semana seguinte.
- Presente ? O que o senhor quiser dar está bom, tio, não quero nada em especial, não.
E assim o pobre Henrique sentia - se frustado, com os bolsos entulhados de uma riqueza inútil.
Aproximava - se o Natal. E ele ansioso por troca o excesso de seu dinheiro pela alegria dos seus.
Então, um dia, viu o Juquinha entregar ao carteiro um carta ao Papai Noel. Era a oportunidade esperada. E toca a perseguir o carteiro rua acima, a explicar a necessidade de ler aquela carta, pois o menino não revelara a ninguém o que queria de Papai Noel, insistira no segredo, ele tinha de ler aquela carta ! E o carteiro, compreensivo, entregou - lha.
Se o pai não queria o carro, a mãe abria mão da viagem, ele teria ao menos a satisfação de presentear o menino. Pois, afinal, para que mais serve o dinheiro senão para compartilhar e enriquecer a vida dos que nos são caros ? Principalmente as crianças ?
E esperançoso de poder, enfim, realizar seus generosos sonhos, Henrique rasgou o envelope e leu, entre desolado e comovido :
“Querido Papai Noel,
Eu quero agradecer por todos os bons momentos de todos os outros natais de minha vida e por todos os belos presentes que ganhei de você até hoje.
Este ano não quero nada para mim. Nem este ano nem nunca mais. Troco todos os presentes de todos os natais futuros por um milagre.
É porque meu pai tem câncer e vai morrer. Não há nenhuma cirurgia nem nenhum tratamento que dê jeito, ele só tem mais algumas semanas de vida.
Ninguém fala nisto lá em casa para não estragar o Natal. Não contaram para o tio Henrique, que chegou tão contente dos Estados Unidos e há dois anos não tem esta alegria de passar o Natal com a família .
Eles não sabem que eu sei, mas ouço os adultos conversando entre eles de madrugada, quando eles pensam que eu já fui dormir.
É por isso que não peço nada para mim. Só quero que meu pai fique bom. Faz este milagre para mim. Pede para Jesus atender o meu pedido.
Juquinha .”
Assim pensando, com a carteira recheada de dólares, lá vinha Henrique com excesso de planos em sua bagagem.
Há dois anos não passava o Natal em casa, quase não vira a família nesses duros anos de estudo no exterior.
Agora, diplomado, bem empregado, alto executivo, ah, agora retribuiria à família o apoio e incentivo que recebera deles.
Sabia que este fora um ano de vacas magras - uma geada imprevista, uma onda de calor fora de época, uma seca prolongada - as plantações sofreram, a safra fora mínima e uma política econômica toda inadequada piorara a situação dos agricultores.
“Não temos dívidas, mas também não tivemos lucros, escrevera o pai, Não precisamos vender nossas terras, como muitos. Mas estamos vivendo com simplicidade, sem luxos.”
Pois ele, Henrique, trazia dinheiro, muito dinheiro! Remodelaria a fazenda, tinha idéia de utilizar parte das terras num projeto turístico, um hotel ecológico voltado para excursões de crianças e adolescentes.
Daria ao pai um corro novo, financiaria para todos um cruzeiro pelas ilhas gregas, desejo há muito expressado pela mãe.
Desceu do avião feliz, coração generoso a engolfar em amplo abraço a família que o aguardava.
Não parava mais de falar, ávido por partilhar suas lembranças com os entes queridos, inquieto por novidades, emocionado com o sobrinho que não vira crescer.
Notou, contudo, um inexplicável desinteresse pelos seus presentes. O pai recusava o carro novo, a mãe renunciava à viagem, o irmão nada pedia para si.
- O melhor presente de Natal que você poderia nos dar é estar aqui conosco, filho - e as lágrimas corriam pelo rosto da mãe saudosa.
- Ah, meu filho, o melhor presente é ver o homem em que você se tornou, digno, generoso, honesto, bem - e o pai o estreitava em um abraço apertado, comovido.
O irmão sorriu, melancólico :
- Ver a família unida, em paz, todos se entendendo tão bem, com amizade e carinho, quem pode pedir mais?
Até mesmo o Juquinha se mostrou desinteressado nas visitas que fez ao Shopping com o tio na semana seguinte.
- Presente ? O que o senhor quiser dar está bom, tio, não quero nada em especial, não.
E assim o pobre Henrique sentia - se frustado, com os bolsos entulhados de uma riqueza inútil.
Aproximava - se o Natal. E ele ansioso por troca o excesso de seu dinheiro pela alegria dos seus.
Então, um dia, viu o Juquinha entregar ao carteiro um carta ao Papai Noel. Era a oportunidade esperada. E toca a perseguir o carteiro rua acima, a explicar a necessidade de ler aquela carta, pois o menino não revelara a ninguém o que queria de Papai Noel, insistira no segredo, ele tinha de ler aquela carta ! E o carteiro, compreensivo, entregou - lha.
Se o pai não queria o carro, a mãe abria mão da viagem, ele teria ao menos a satisfação de presentear o menino. Pois, afinal, para que mais serve o dinheiro senão para compartilhar e enriquecer a vida dos que nos são caros ? Principalmente as crianças ?
E esperançoso de poder, enfim, realizar seus generosos sonhos, Henrique rasgou o envelope e leu, entre desolado e comovido :
“Querido Papai Noel,
Eu quero agradecer por todos os bons momentos de todos os outros natais de minha vida e por todos os belos presentes que ganhei de você até hoje.
Este ano não quero nada para mim. Nem este ano nem nunca mais. Troco todos os presentes de todos os natais futuros por um milagre.
É porque meu pai tem câncer e vai morrer. Não há nenhuma cirurgia nem nenhum tratamento que dê jeito, ele só tem mais algumas semanas de vida.
Ninguém fala nisto lá em casa para não estragar o Natal. Não contaram para o tio Henrique, que chegou tão contente dos Estados Unidos e há dois anos não tem esta alegria de passar o Natal com a família .
Eles não sabem que eu sei, mas ouço os adultos conversando entre eles de madrugada, quando eles pensam que eu já fui dormir.
É por isso que não peço nada para mim. Só quero que meu pai fique bom. Faz este milagre para mim. Pede para Jesus atender o meu pedido.
Juquinha .”
crônica - Nas rodas do tempo
Os carros de minha infância eram vistoso, com nomes velozes: Impala, Jaguar. Havia o pretensioso Aero-Willis, com rabo de peixe, um luxo!
Passava um carro na rua, a molecada gritava – que, naquela época, a rua era o parque temático da infância. A gente corria à janela para espiar quem era o orgulhoso felizardo que fingia ignorar os olhares cobiçosos das mocinhas namoradeiras.
Saíam da moda os carros compactos com janelas estreitas e bancos inteiriços, ótimos para namorar. Imperavam os fusquinhas. Os remediados se contentavam com os pés-de-boi, sem acessórios, quase que só um banco sobre quatro rodas. Mas rodava!
E o que dizer daquele carrinho achatado com nome de iniciais, o DKV, que escondia o motorista quase rente ao chão? O distraído que se colocasse atrás de um caminhão corria o risco de acabar esmagado, pois ficava literalmente invisível.
Inesquecível o simpático Romiseta, o carro dos egoístas, onde só so apertava um.
Carros, como toda novidade, eram a fascinação do momento.
O formidável é que se estacionava em qualquer canto, o tráfego era livre, não havia pedágios nem flanelinhas nem consórcios. Os manobristas que nos recebiam à porta dos teatros, hotéis e restaurantes exibiam sorriso e uniforme, e a gente se sentia tolamente importante.
Passava um carro na rua, a molecada gritava – que, naquela época, a rua era o parque temático da infância. A gente corria à janela para espiar quem era o orgulhoso felizardo que fingia ignorar os olhares cobiçosos das mocinhas namoradeiras.
Saíam da moda os carros compactos com janelas estreitas e bancos inteiriços, ótimos para namorar. Imperavam os fusquinhas. Os remediados se contentavam com os pés-de-boi, sem acessórios, quase que só um banco sobre quatro rodas. Mas rodava!
E o que dizer daquele carrinho achatado com nome de iniciais, o DKV, que escondia o motorista quase rente ao chão? O distraído que se colocasse atrás de um caminhão corria o risco de acabar esmagado, pois ficava literalmente invisível.
Inesquecível o simpático Romiseta, o carro dos egoístas, onde só so apertava um.
Carros, como toda novidade, eram a fascinação do momento.
O formidável é que se estacionava em qualquer canto, o tráfego era livre, não havia pedágios nem flanelinhas nem consórcios. Os manobristas que nos recebiam à porta dos teatros, hotéis e restaurantes exibiam sorriso e uniforme, e a gente se sentia tolamente importante.
crônica - Mulher
Ah! Que saudades do tempo em que uma mulher podia ser apenas ela mesma.
Hoje a mulher precisa ser uma gata.
Hoje a mulher tem de ser um avião.
Como se a vida fosse algum aeroporto.
Atenção senhores passageiros para o embarque: transa 277 da CEEM - Casal Erótico Equivocado Moderno. Consultem o manula e boa viagem.
Ser mulher hoje em dia é mais difícil que ser cortesã na Índia dos marajás. O Kama Sutra exigia tantos atributos da mulher que era praticamente impossível não dominar ao menos uma meia dúzia deles. A arte dos arranjos florais ou o conhecimento dos perfumes, por exemplo.
Hoje em dia, não. Nada se exige da mulher. Os perfumes já vem prontos, as flores são entregues pela floricultura, a comida segue direto do freezer para o microondas e a música ambiente substitui (pobremente, a meu ver, mais que quereis, é o progresso) o som da cítara ao luar.
Da mulher hoje em dia só se deseja orgasmo.
Mais com O maiúsculo, alucinante, frenético, delírio, loucura, frenesi...
Da mulher de hoje deseja-se que satisfaça os anseios do homem - seus sonhos videotas fotoalimentados, habilmente hipertrofiados e manipulados pelos empresários da mídia.
Mulher hoje tem de ser nota dez!
Tem de ser gata e avião!
Fiquem sonhando, homens! Marionetes vítimas de propaganda!
Mulher, hoje, se tiver um pouquinho de juízo, vai embora cuidar da vida e deixa vocês falando sozinhos.
Ora, os homens!
Hoje a mulher precisa ser uma gata.
Hoje a mulher tem de ser um avião.
Como se a vida fosse algum aeroporto.
Atenção senhores passageiros para o embarque: transa 277 da CEEM - Casal Erótico Equivocado Moderno. Consultem o manula e boa viagem.
Ser mulher hoje em dia é mais difícil que ser cortesã na Índia dos marajás. O Kama Sutra exigia tantos atributos da mulher que era praticamente impossível não dominar ao menos uma meia dúzia deles. A arte dos arranjos florais ou o conhecimento dos perfumes, por exemplo.
Hoje em dia, não. Nada se exige da mulher. Os perfumes já vem prontos, as flores são entregues pela floricultura, a comida segue direto do freezer para o microondas e a música ambiente substitui (pobremente, a meu ver, mais que quereis, é o progresso) o som da cítara ao luar.
Da mulher hoje em dia só se deseja orgasmo.
Mais com O maiúsculo, alucinante, frenético, delírio, loucura, frenesi...
Da mulher de hoje deseja-se que satisfaça os anseios do homem - seus sonhos videotas fotoalimentados, habilmente hipertrofiados e manipulados pelos empresários da mídia.
Mulher hoje tem de ser nota dez!
Tem de ser gata e avião!
Fiquem sonhando, homens! Marionetes vítimas de propaganda!
Mulher, hoje, se tiver um pouquinho de juízo, vai embora cuidar da vida e deixa vocês falando sozinhos.
Ora, os homens!
conto - Nos braços de Morfeu
Há um período na vida de cada um em que a percepção do mundo íntimo torna-se clara e freqüente. As imagens interiores surgem aos borbotões e com tal nitidez que nos supomos a ponto de decifrar os grandes e eternos mistérios da existência. Cremo-nos profetas, eleitos, poetas ou loucos. É a fase do misticismo, do fervor religioso, da devoção aos grandes ideais. Neste momento nos é oferecida pela primeira vez a oportunidade de transcender nossos limites e decidir se seremos medíocres ou grandes. Este período, como o leitor já deve ter adivinhado, chama-se adolescência.
Helena atravessava esta passagem nebulosa, deslumbrada pelos altos picos e pelos insondáveis abismos da alma humana, quando uma de suas leituras apresentou-lhe a metáfora do sono.
As civilizações antigas já descreviam o homem como uma criatura ignorante da realidade espiritual. A maioria da humanidade ‘dorme’, acreditando credulamente na matéria; alguns ‘sonham’, compreendendo que este mundo é ilusório e suspeitando haver algo além das aparências; poucos são os sábios, conhecedores da Verdade, os que estão ‘acordados’.
Com poucas variações, a figura da sábio e do empenho da alma em buscar a Verdade estão presentes nas grandes religiões e nos mais importantes movimentos esotéricos através dos séculos.
Fosse imaginação ou apenas fruto da impressionabilidade juvenil, o fato é que Helena tornou-se, sem saber como, consciente de seus sonhos. A conseqüência de tão estranho faro foi que a sucessão previsível de vigília e repouso desapareceu de seu cotidiano, para ser substituída pela contínua consciência de estados mentais diversos.
O cansaço, aquela deliciosa sensação de músculos pesados, de pálpebras que se vão abaixando à nossa revelia, de sons que se distanciam um tanto abruptamente e de trevas acolhedoras que nos envolvem como acalanto materno, para Helena não significava mais uma pausa até a próxima manhã mas, sim, um desvio para paisagens insólitas e um tanto inquietantes.
Acontecia a Helena estar envolvida na tarefa mais corriqueira quando percebia estar sonhando. Com o passar das noites, começou a brincar com o fato, modificando com o pensamento o evoluir do sonho. Ela percebeu que podia, às vezes, escolher a seqüência onírica, visitar lugares e pessoas e até elaborar projetos.
Certa feita, resolveu, em sonhos, ler um gibi e entretinha-se com uma história de ficção científica quando alguém a acordou; resolveu que terminaria a leitura na outra noite e assim o fez: bastou-lhe adormecer para pegar da revista e terminar com prazer a leitura interrompida.
Familiarizou-se de tal forma com as incursões noturnas que não distinguia mais estar adormecida ou acordada. Suas duas vidas, a diurna e a noturna, mesclavam-se de maneira aterradora.
Digo aterradora porque Helena sentia medo de adormecer. Acumulava dezenas de atividades para manter-se ocupada e adiar para cada vez mais tarde o momento do sono. Pois os sonhos de Helena adquiriam para ela uma duração subjetiva de tal monta que lhe parecia estar mais tempo sonhando do que acordada.
Embora ela houvesse adquirido o poder de escolher quem visitar em sonhos, aonde ir, o que fazer e como, havia um detalhe em que ela não conseguia de modo algum influir: o momento de despertar.
Sendo uma garota inteligente, Helena guardara para si este segredo. Adolescentes já são vistos pelos adultos como esquisitos e suas vidas já são demasiado complicadas sem que seus pais conheçam as terríveis lutas que travam todos os dias contra todos os tipos de acontecimentos estranhos.
Foi, pois, com verdadeira alegria que Helena, ao acordar, naquela manhã em particular, correu a fechar a janela.
Helena deixara a janela do quarto aberta, para que a brisa noturna a refrescasse do calor e podia perceber a neblina espessa a que a luz da madrugada emprestava cintilações douradas.
Santos parecia mergulhada em nuvens. Mal se enxergava o outro lado da calçada. Não se sabia se o sol iria abrir - se em todo o seu esplendor ou se a garoa fria instalar - se - ia para ficar. Tempo imprevisível.
O ar estava frio e úmido e fe - la espirrar. O vento impertinente e brincalhão fazia dançar as cortinas.
Ela levantou - se para abaixar a vidraça e quase tropeçou na mala. Empurrou - a para o lado, descobrindo - a pesada. Abriu - a : repleta com suas melhores roupas.
Que faria ali a sua mala ?
Helena desceu. Os móveis da sala estavam encapados e outras malas aguardavam ao pé da escada.
Um cheirinho gostoso saía da cozinha e para lá dirigiu - se Helena, parando assombrada antes de entrar. Definitivamente, aquela não era a sua cozinha !
- Sente, filha.
E aquela não era a sua mãe.
Helena compreendeu e suspirou aliviada. Sonhava. Bastava acordar. Relanceou o olhar pela cozinha estranha, pela mulher estranha e encaminhou - se para o quarto. Alisou os móveis, observou a sala. Tudo tão real ! Apertou as almofadas do sofá, soergueu as pesadas bagagens. Que sensação, estar consciente dentro de um sonho !
Estou sonhando e sei que estou sonhando, repetia - se ela, ao subir a escada. Agora quero acordar.
Não acordava, e resolveu deitar - se para facilitar o despertar. Logo uma agradável sonolência a invadiu e ela sentiu - se mergulhar nas trevas da inconsciência.
- Mas não ! Quero acordar ! - reagiu.
Quase imediatamente um solavanco a sacudiu de leve, como quando sonhamos que despencamos de um precipício e acordamos de repente.
Helena, porém, sentia - se subindo e não caindo, leve como uma bolha de sabão. O teto parecia girar e ficava cada vez mais próximo.
Virando - se, a moça viu - se deitada e ao mesmo tempo flutuando no espaço, ligada ao corpo por um comprido cordão umbilical luminoso e prateado, pulsante e vibrátil.
Lembrou - se das palavras do Eclesiastes 12,6 : “ Antes que caiam os moleiros menos numerosos, antes que se rompa o cordão de prata ...”
- Não quero morrer !
Mas não, tratava - se apenas de uma viagem astral.
Apenas ? Como se fosse algo comum e corriqueiro, como passear na praia aos domingos! Q ueria acabar já com aquilo.
Continuava a vagar, a reparar no teto, aqui uma teia de aranha, ali alguns mosquitos, lá fora a névoa... Flutuou em direção à janela e deu - se conta de estar dez andares acima do solo. Tentou voltar para o quarto mas parecia não ter controle sobre aquele vôo. Pensou na luz e subiu veloz, a cidade ficou pequenininha lá embaixo.
O terror invadiu - a. Um terror absoluto, tal como nunca sentira antes.
Um puxão violento trouxe - a de volta ao corpo.
Sentiu -se pesada, sólida, e - graças a Deus - presa ao leito. Agarrou os lençóis com as mãos e respirou ruidosamente. O suor grudara - lhe a camisola ao corpo e o coração acelerara tanto que doía - lhe o peito.
- Bem, acabou. Acordei.
Ela abriu os olhos, ainda entorpecida. Com esforço, saltou do leito e correu ao interruptor acender a luz.
Abriu a janela e aspirou profundamente a brisa noturna. Decidiu permanecer acordada. Uma tênue claridade despontava no horizonte.
Um ruído arrastado fe - la voltar - se e lá estava , meio corpo saído de debaixo da cama, um jacaré.
Calafrios... Um espasmo de risos e soluços... Uma dor penetrante crânio adentro.
- Eu quero acordar. Eu quero acordar _ esforçava - se Helena.
O jacaré aproximava - se, ameaçador, os dentes afiados à mostra, agitando a cauda em meneios hostis.
Helena gemia, paralisada.
O animal estava prestes a cravar os dentes em sua canela quando uma pancada seca na porta a despertou e a voz confortadora do pai fez- se audível:
- Bom dia ! Seis horas.
- Bom dia, papai.
Que alívio !
Helena bocejou e esticou o braço para espreguiçar - se, quase derrubando o despertador no estouvamento do gesto. Ao recolocar o objeto no lugar, os ponteiros marcavam duas horas.
Ela quis levantar - se e não pode. Tentou mover as pernas _ impossível. Tentou mover as mãos, sem o conseguir. Tentou desesperadamente sair do lugar, sem êxito. Seu corpo parecia de pedra.
- Estou tendo um pesadelo, tudo o que tenho a fazer é acordar. Só preciso abrir os olhos.
As pálpebras não se abriam.
- Eu acordo e pronto.
Permaneceu estendida no escuro sob o calor dos cobertores por alguns instantes, e, então, deslizou para fora das cobertas com facilidade. Levantou - se com sede.
Girou a maçaneta da porta, porém a porta não se abriu. Procurou a chave, ausente da fechadura.
Embora certa de não haver trancado o quarto, acendeu a luz e olhou sobre os móveis. Nada. Também não encontrou a chave nas gavetas nem na bolsa nem na roupa usada na véspera.
Resolveu chamar os pais e a voz falhou. Gritou, sem contudo ouvir o som da própria voz. Amedrontada, esforçou - se ao máximo e um débil gemido veio de sua garganta :
- Mamãe ! Mamãe!
Batia à porta, chamando continuamente pela mãe. Por que a porta estava trancada ?
Debatia - se no leito, parecia - lhe que há horas estava a chamar.
- Mãe !
- Que foi, querida ?
Os braços firmes da mãe a sustentaram e ela suspirou profundamente, alisando a garganta dolorida.
- Ai, mãe, que pesadelo !
- Pronto, já passou. Durma, Denise.
Sua mãe errara o seu nome. Helena apalpou - lhe o rosto, examinou - a com atenção e concluiu : o pesadelo continuava.
Pessoas estranhas entraram no quarto e começaram a discutir sobre ela, fazendo planos para o futuro dela. À sua revelia. Helena percebeu que se apoderavam de sua mente e procurou resistir, firmando o pensamento em seus próprios desejos e aspirações.
Uma voz disse :
- É realmente engraçado, esta andróide pensa poder decidir sobre o seu destino.
Todos riram, exceto Helena, que a custo evitava responder, concentrando - se em despertar. Custasse o que custasse, precisava acordar. Acordar, acordar. Precisava acordar.
Mas uma dúvida nascia em seu espírito. Estaria ela dormindo mesmo ? Ou enlouquecera ?
- Quem sou ? Aonde estou ?
Mexeu as mãos, os pés... Tocou - se . Carne. Apertou - se. Dor.
- Que bobagem. Claro, eu estou viva e bem.
Ouvia os pássaros chilreando, os carros na rua ... A cidade despertava. Ela também despertava. Seus olhos, contudo, não se abriam.
A moça repetia em vão todos os gestos habituais do despertar. Espreguiçava - se, afastava as cobertas, jogava os pés para fora, apoiava - se nos cotovelos e permanecia deitada, imóvel, olhos cerrados. Recomeçava toda a seqüência de gestos, inutilmente.
Perdeu a paciência consigo mesma.
- Vamos. Não pode ser tão difícil assim. Há anos eu abro os olhos todas as manhãs.
E de tanto esforço, os olhos finalmente se abriram.
O corpo não reagia.
Os minutos sucediam - se inexoravelmente. Nada acontecia. Nada .
A porta abriu - se.
Uma moça aproximou - se de Helena. Trazia uma caixa de música:
- Aqui está sua alma, Helena. Esta é a sua vida. Só você pode desfazer o encantamento, fechando a tampa da caixa. Sua vida terminará quando terminar a música.
A moça deu corda e pousou a caixa, aberta, sobre a penteadeira. Saiu.
Que melodia tão bonita !
Helena persistia lutando contra o sono absurdo e incompreensível.
Situação deveras ridícula.
O corpo de pedra _ imóvel. Escuridão _ olhos hermeticamente fechados. Muda _ de sua garganta não escapava o mais débil gemido.
O frio penetrava pela ponta dos dedos e percorria - lhe os membros, até atingir - lhe o coração. O ar estagnava - se nos pulmões, a respiração tornava - se cada vez mais lenta , mais difícil.
E o sono ...
Maldito e incontrolável sono !
A música ia ralentando e o corpo imóvel de Helena teimava em permanecer adormecido.
Helena atravessava esta passagem nebulosa, deslumbrada pelos altos picos e pelos insondáveis abismos da alma humana, quando uma de suas leituras apresentou-lhe a metáfora do sono.
As civilizações antigas já descreviam o homem como uma criatura ignorante da realidade espiritual. A maioria da humanidade ‘dorme’, acreditando credulamente na matéria; alguns ‘sonham’, compreendendo que este mundo é ilusório e suspeitando haver algo além das aparências; poucos são os sábios, conhecedores da Verdade, os que estão ‘acordados’.
Com poucas variações, a figura da sábio e do empenho da alma em buscar a Verdade estão presentes nas grandes religiões e nos mais importantes movimentos esotéricos através dos séculos.
Fosse imaginação ou apenas fruto da impressionabilidade juvenil, o fato é que Helena tornou-se, sem saber como, consciente de seus sonhos. A conseqüência de tão estranho faro foi que a sucessão previsível de vigília e repouso desapareceu de seu cotidiano, para ser substituída pela contínua consciência de estados mentais diversos.
O cansaço, aquela deliciosa sensação de músculos pesados, de pálpebras que se vão abaixando à nossa revelia, de sons que se distanciam um tanto abruptamente e de trevas acolhedoras que nos envolvem como acalanto materno, para Helena não significava mais uma pausa até a próxima manhã mas, sim, um desvio para paisagens insólitas e um tanto inquietantes.
Acontecia a Helena estar envolvida na tarefa mais corriqueira quando percebia estar sonhando. Com o passar das noites, começou a brincar com o fato, modificando com o pensamento o evoluir do sonho. Ela percebeu que podia, às vezes, escolher a seqüência onírica, visitar lugares e pessoas e até elaborar projetos.
Certa feita, resolveu, em sonhos, ler um gibi e entretinha-se com uma história de ficção científica quando alguém a acordou; resolveu que terminaria a leitura na outra noite e assim o fez: bastou-lhe adormecer para pegar da revista e terminar com prazer a leitura interrompida.
Familiarizou-se de tal forma com as incursões noturnas que não distinguia mais estar adormecida ou acordada. Suas duas vidas, a diurna e a noturna, mesclavam-se de maneira aterradora.
Digo aterradora porque Helena sentia medo de adormecer. Acumulava dezenas de atividades para manter-se ocupada e adiar para cada vez mais tarde o momento do sono. Pois os sonhos de Helena adquiriam para ela uma duração subjetiva de tal monta que lhe parecia estar mais tempo sonhando do que acordada.
Embora ela houvesse adquirido o poder de escolher quem visitar em sonhos, aonde ir, o que fazer e como, havia um detalhe em que ela não conseguia de modo algum influir: o momento de despertar.
Sendo uma garota inteligente, Helena guardara para si este segredo. Adolescentes já são vistos pelos adultos como esquisitos e suas vidas já são demasiado complicadas sem que seus pais conheçam as terríveis lutas que travam todos os dias contra todos os tipos de acontecimentos estranhos.
Foi, pois, com verdadeira alegria que Helena, ao acordar, naquela manhã em particular, correu a fechar a janela.
Helena deixara a janela do quarto aberta, para que a brisa noturna a refrescasse do calor e podia perceber a neblina espessa a que a luz da madrugada emprestava cintilações douradas.
Santos parecia mergulhada em nuvens. Mal se enxergava o outro lado da calçada. Não se sabia se o sol iria abrir - se em todo o seu esplendor ou se a garoa fria instalar - se - ia para ficar. Tempo imprevisível.
O ar estava frio e úmido e fe - la espirrar. O vento impertinente e brincalhão fazia dançar as cortinas.
Ela levantou - se para abaixar a vidraça e quase tropeçou na mala. Empurrou - a para o lado, descobrindo - a pesada. Abriu - a : repleta com suas melhores roupas.
Que faria ali a sua mala ?
Helena desceu. Os móveis da sala estavam encapados e outras malas aguardavam ao pé da escada.
Um cheirinho gostoso saía da cozinha e para lá dirigiu - se Helena, parando assombrada antes de entrar. Definitivamente, aquela não era a sua cozinha !
- Sente, filha.
E aquela não era a sua mãe.
Helena compreendeu e suspirou aliviada. Sonhava. Bastava acordar. Relanceou o olhar pela cozinha estranha, pela mulher estranha e encaminhou - se para o quarto. Alisou os móveis, observou a sala. Tudo tão real ! Apertou as almofadas do sofá, soergueu as pesadas bagagens. Que sensação, estar consciente dentro de um sonho !
Estou sonhando e sei que estou sonhando, repetia - se ela, ao subir a escada. Agora quero acordar.
Não acordava, e resolveu deitar - se para facilitar o despertar. Logo uma agradável sonolência a invadiu e ela sentiu - se mergulhar nas trevas da inconsciência.
- Mas não ! Quero acordar ! - reagiu.
Quase imediatamente um solavanco a sacudiu de leve, como quando sonhamos que despencamos de um precipício e acordamos de repente.
Helena, porém, sentia - se subindo e não caindo, leve como uma bolha de sabão. O teto parecia girar e ficava cada vez mais próximo.
Virando - se, a moça viu - se deitada e ao mesmo tempo flutuando no espaço, ligada ao corpo por um comprido cordão umbilical luminoso e prateado, pulsante e vibrátil.
Lembrou - se das palavras do Eclesiastes 12,6 : “ Antes que caiam os moleiros menos numerosos, antes que se rompa o cordão de prata ...”
- Não quero morrer !
Mas não, tratava - se apenas de uma viagem astral.
Apenas ? Como se fosse algo comum e corriqueiro, como passear na praia aos domingos! Q ueria acabar já com aquilo.
Continuava a vagar, a reparar no teto, aqui uma teia de aranha, ali alguns mosquitos, lá fora a névoa... Flutuou em direção à janela e deu - se conta de estar dez andares acima do solo. Tentou voltar para o quarto mas parecia não ter controle sobre aquele vôo. Pensou na luz e subiu veloz, a cidade ficou pequenininha lá embaixo.
O terror invadiu - a. Um terror absoluto, tal como nunca sentira antes.
Um puxão violento trouxe - a de volta ao corpo.
Sentiu -se pesada, sólida, e - graças a Deus - presa ao leito. Agarrou os lençóis com as mãos e respirou ruidosamente. O suor grudara - lhe a camisola ao corpo e o coração acelerara tanto que doía - lhe o peito.
- Bem, acabou. Acordei.
Ela abriu os olhos, ainda entorpecida. Com esforço, saltou do leito e correu ao interruptor acender a luz.
Abriu a janela e aspirou profundamente a brisa noturna. Decidiu permanecer acordada. Uma tênue claridade despontava no horizonte.
Um ruído arrastado fe - la voltar - se e lá estava , meio corpo saído de debaixo da cama, um jacaré.
Calafrios... Um espasmo de risos e soluços... Uma dor penetrante crânio adentro.
- Eu quero acordar. Eu quero acordar _ esforçava - se Helena.
O jacaré aproximava - se, ameaçador, os dentes afiados à mostra, agitando a cauda em meneios hostis.
Helena gemia, paralisada.
O animal estava prestes a cravar os dentes em sua canela quando uma pancada seca na porta a despertou e a voz confortadora do pai fez- se audível:
- Bom dia ! Seis horas.
- Bom dia, papai.
Que alívio !
Helena bocejou e esticou o braço para espreguiçar - se, quase derrubando o despertador no estouvamento do gesto. Ao recolocar o objeto no lugar, os ponteiros marcavam duas horas.
Ela quis levantar - se e não pode. Tentou mover as pernas _ impossível. Tentou mover as mãos, sem o conseguir. Tentou desesperadamente sair do lugar, sem êxito. Seu corpo parecia de pedra.
- Estou tendo um pesadelo, tudo o que tenho a fazer é acordar. Só preciso abrir os olhos.
As pálpebras não se abriam.
- Eu acordo e pronto.
Permaneceu estendida no escuro sob o calor dos cobertores por alguns instantes, e, então, deslizou para fora das cobertas com facilidade. Levantou - se com sede.
Girou a maçaneta da porta, porém a porta não se abriu. Procurou a chave, ausente da fechadura.
Embora certa de não haver trancado o quarto, acendeu a luz e olhou sobre os móveis. Nada. Também não encontrou a chave nas gavetas nem na bolsa nem na roupa usada na véspera.
Resolveu chamar os pais e a voz falhou. Gritou, sem contudo ouvir o som da própria voz. Amedrontada, esforçou - se ao máximo e um débil gemido veio de sua garganta :
- Mamãe ! Mamãe!
Batia à porta, chamando continuamente pela mãe. Por que a porta estava trancada ?
Debatia - se no leito, parecia - lhe que há horas estava a chamar.
- Mãe !
- Que foi, querida ?
Os braços firmes da mãe a sustentaram e ela suspirou profundamente, alisando a garganta dolorida.
- Ai, mãe, que pesadelo !
- Pronto, já passou. Durma, Denise.
Sua mãe errara o seu nome. Helena apalpou - lhe o rosto, examinou - a com atenção e concluiu : o pesadelo continuava.
Pessoas estranhas entraram no quarto e começaram a discutir sobre ela, fazendo planos para o futuro dela. À sua revelia. Helena percebeu que se apoderavam de sua mente e procurou resistir, firmando o pensamento em seus próprios desejos e aspirações.
Uma voz disse :
- É realmente engraçado, esta andróide pensa poder decidir sobre o seu destino.
Todos riram, exceto Helena, que a custo evitava responder, concentrando - se em despertar. Custasse o que custasse, precisava acordar. Acordar, acordar. Precisava acordar.
Mas uma dúvida nascia em seu espírito. Estaria ela dormindo mesmo ? Ou enlouquecera ?
- Quem sou ? Aonde estou ?
Mexeu as mãos, os pés... Tocou - se . Carne. Apertou - se. Dor.
- Que bobagem. Claro, eu estou viva e bem.
Ouvia os pássaros chilreando, os carros na rua ... A cidade despertava. Ela também despertava. Seus olhos, contudo, não se abriam.
A moça repetia em vão todos os gestos habituais do despertar. Espreguiçava - se, afastava as cobertas, jogava os pés para fora, apoiava - se nos cotovelos e permanecia deitada, imóvel, olhos cerrados. Recomeçava toda a seqüência de gestos, inutilmente.
Perdeu a paciência consigo mesma.
- Vamos. Não pode ser tão difícil assim. Há anos eu abro os olhos todas as manhãs.
E de tanto esforço, os olhos finalmente se abriram.
O corpo não reagia.
Os minutos sucediam - se inexoravelmente. Nada acontecia. Nada .
A porta abriu - se.
Uma moça aproximou - se de Helena. Trazia uma caixa de música:
- Aqui está sua alma, Helena. Esta é a sua vida. Só você pode desfazer o encantamento, fechando a tampa da caixa. Sua vida terminará quando terminar a música.
A moça deu corda e pousou a caixa, aberta, sobre a penteadeira. Saiu.
Que melodia tão bonita !
Helena persistia lutando contra o sono absurdo e incompreensível.
Situação deveras ridícula.
O corpo de pedra _ imóvel. Escuridão _ olhos hermeticamente fechados. Muda _ de sua garganta não escapava o mais débil gemido.
O frio penetrava pela ponta dos dedos e percorria - lhe os membros, até atingir - lhe o coração. O ar estagnava - se nos pulmões, a respiração tornava - se cada vez mais lenta , mais difícil.
E o sono ...
Maldito e incontrolável sono !
A música ia ralentando e o corpo imóvel de Helena teimava em permanecer adormecido.
conto - Momentos preciosos
Os imponentes paredões das Montanhas Caribu espelhavam-se nas águas do Pacífico. À direita, no horizonte, os picos eternamente nevados das Whistlers pareciam flutuar acima das nuvens. À esquerda, a verdejante Grouse Mountain era um convite a ser trilhado. Do Parque Stanley ao Hotel Canadá Place, as centenas de embarcações alinhadas nas marinas que contornam a baía de Vancouver brilhavam em matizes amarelos, vermelhos, azuis, brancos...
Nesse perfeito ensolarado dia de verão, as vinte horas de claridade penetram e energizam alegremente as almas.
A brisa trouxe as vozes das filhas e Joana foi forçada a fechar os olhos da imaginação e a retornar bruscamente no cotidiano real, no qual as montanhazinhas da Serra do Mar desmaiam azuis, ladeando a baía de Santos.
Aos poucos, Joana adquiria prática em mesclar os dois mundos. Em alguns segundos de conversa já conseguia falar em português pensando em inglês, mirar sem ver o Atlântico enquanto voltava a aquecer-se ao sol do hemisfério norte, sorrindo. E já outra visão, agora a das Rochosas, com seus paredões escarpados, róseos à luz do sol nascente, estendia-se a 180° em seu horizonte imaginário.
Essas montanhas, com seu impressionante silêncio e sua majestosa presença, exercem uma inevitável e profunda influência sobre as pessoas. Uma vez tocado por elas, a transformação é inevitável.
Joana tivera o cuidado de cercar-se de lembranças. Em seu pulso, o relógio canadense mostrava as horas por entre folhas de plátano. Ao tocar o colo, uma jóia de jade lhe transmitia a pulsação de um solo distante.
Aos domingos, Joana trazia para seu lar os aromas da culinária canadense: salmão, cookies, muffins e brownies. Em seu fogão, chiavam as fofas panquecas que ela empilhava em camadas e regava generosamente com xarope de bordo.
No calendário de parede, ela revia os alces, as renas, as belugas e os ursos grizzli, enquanto saboreava seu chá na típica caneca com tampa, decorada com o figura de um corvo.
Objetos espalhavam pela casa os desenhos dos povos das primeiras nações da costa oeste do Pacífico. Da agenda de telefone ao cobertor, uma profusão de estilizados salmões, baleias, ursos e águias.
Joana colocava seu boné de baseball e passeava por esses tesouros como quem olha para um tesouro invisível para os outros.
A filha mais nova, a mais sensível, comentava como a mãe voltara feliz das prolongadas férias:
- Mamãe está feliz, feliz de verdade!
- Sim, mas.... – e a mais velha, prática, não conseguia colocar em palavras o que não compreendia.
Joana sorria; era o sorriso de uma estranha.
Aparentemente, ela estava ali, no entanto a luz em seu olhar refletia o brilho das geleiras nórdicas.
Joana não mais lia os jornais nem assitia a TV local. Acompanhava o noticiário de Quebec pela TV5 e sua estante povoava-se de livros e músicas canadenses.
Ao ligar o computador, suas filhas encontravam como plano de fundo o Lago Louise ou a Rio Kapilano, sob a famosa ponte.
Sobre a cama, um capricho de menina: um alce de pelúcia tão macia como um carinho de namorado.
O quarto, aliás, fora redecorado e nele ela passava agora boa parte do dia, entre seus novos ornamentos. Nas paredes, quadros tornavam presentes as estátuas Haida, os totens, o Monte Robson. Quase se tiritava de frio diante do pôster da eternamente gelada Icefield Glacier.
Ao viajar ao Canadá e conhecer as Montanhas Rochosas, Joana realizara um sonho há muito acalentado. Que momentos felizes!
Muito já se escreveu sobre o impacto dos momentos felizes na vida das pessoas.
Katherine Mansfield impressionou-me com a estória de uma mulher que se julgava perfeitamente feliz, desmorando em um segundo ao surpreender o marido beijando sua amiga – colocara sua felicidade na dependência de terceiros.
Monteiro Lobato, cuja crítica me remetera à autora da Nova Zelândia, escreve, por sua vez, o magistral ‘Negrinha’. Neste conto, uma criança órfã e judiada tem permissão para brincar com meninas tão lindas que pareciam anjos, e, quando as férias acabam e sua rotina retorna, o inevitável, segundo Lobato, acontece. Negrinha vai para o céu, pois , tendo conhecido de perto a vida dos anjos, não lhe era mais suportável viver nesta terra.
Já Dostoievski termina suas Noites Brancas com o personagem, ao ver partir a mulher amada, a perguntar-se se um momento de felicidade não seria o bastante para iluminar uma vida.
Entre a passividade agradecida de Dostoievski e o radical desespero de Lobato, tantas e tão estranhas reações são possíveis à felicidade!
Como afirma Clarice Lispector, viver é perigoso.
Divagações filosóficas e literárias à parte, o fato é que eu me perguntava se Joana enlouqueceria ao mergulhar em suas memórias felizes com tal persistência.
Ela não trouxera nenhuma estória para contar. Nenhum romance. Nenhum amigo em especial. Nada além da constatação de que existem no mundo pessoas com vidas agradáveis.
Os canadenses, dizia Joana, com uma pitada de ironia, são um povo realmente chato, pois nada fazem além de nascer, crescer, viver e morrer. No intervalo entre nascimento e morte, eles esquiam, remam, passeiam, ouvem música, cantam, dançam, lêem, fazem amigos, namoram, casam, tem filhos, estudam e trabalham do jeito que gostam, discretamente, respeitando os limites alheios. Uma vida absolutamente insípida, tediosa, monótona e previsível.
E o suspiro satisfeito que acompanhava as palavras ‘monótona’ e ‘tediosa’ era pura provocação. E ela completava, para me cutucar:
- Você sabe, a felicidade não dá boas estórias. Os escritores gostam das tragédias.
Joana foi vivendo com os pés no Brasil e o coração nas Rochosas durante meses e meses, até o dia em que, passaportes em punho, contrato de trabalho no bolso e filharada a tiracolo, como uma águia em extinção, voou.
Nesse perfeito ensolarado dia de verão, as vinte horas de claridade penetram e energizam alegremente as almas.
A brisa trouxe as vozes das filhas e Joana foi forçada a fechar os olhos da imaginação e a retornar bruscamente no cotidiano real, no qual as montanhazinhas da Serra do Mar desmaiam azuis, ladeando a baía de Santos.
Aos poucos, Joana adquiria prática em mesclar os dois mundos. Em alguns segundos de conversa já conseguia falar em português pensando em inglês, mirar sem ver o Atlântico enquanto voltava a aquecer-se ao sol do hemisfério norte, sorrindo. E já outra visão, agora a das Rochosas, com seus paredões escarpados, róseos à luz do sol nascente, estendia-se a 180° em seu horizonte imaginário.
Essas montanhas, com seu impressionante silêncio e sua majestosa presença, exercem uma inevitável e profunda influência sobre as pessoas. Uma vez tocado por elas, a transformação é inevitável.
Joana tivera o cuidado de cercar-se de lembranças. Em seu pulso, o relógio canadense mostrava as horas por entre folhas de plátano. Ao tocar o colo, uma jóia de jade lhe transmitia a pulsação de um solo distante.
Aos domingos, Joana trazia para seu lar os aromas da culinária canadense: salmão, cookies, muffins e brownies. Em seu fogão, chiavam as fofas panquecas que ela empilhava em camadas e regava generosamente com xarope de bordo.
No calendário de parede, ela revia os alces, as renas, as belugas e os ursos grizzli, enquanto saboreava seu chá na típica caneca com tampa, decorada com o figura de um corvo.
Objetos espalhavam pela casa os desenhos dos povos das primeiras nações da costa oeste do Pacífico. Da agenda de telefone ao cobertor, uma profusão de estilizados salmões, baleias, ursos e águias.
Joana colocava seu boné de baseball e passeava por esses tesouros como quem olha para um tesouro invisível para os outros.
A filha mais nova, a mais sensível, comentava como a mãe voltara feliz das prolongadas férias:
- Mamãe está feliz, feliz de verdade!
- Sim, mas.... – e a mais velha, prática, não conseguia colocar em palavras o que não compreendia.
Joana sorria; era o sorriso de uma estranha.
Aparentemente, ela estava ali, no entanto a luz em seu olhar refletia o brilho das geleiras nórdicas.
Joana não mais lia os jornais nem assitia a TV local. Acompanhava o noticiário de Quebec pela TV5 e sua estante povoava-se de livros e músicas canadenses.
Ao ligar o computador, suas filhas encontravam como plano de fundo o Lago Louise ou a Rio Kapilano, sob a famosa ponte.
Sobre a cama, um capricho de menina: um alce de pelúcia tão macia como um carinho de namorado.
O quarto, aliás, fora redecorado e nele ela passava agora boa parte do dia, entre seus novos ornamentos. Nas paredes, quadros tornavam presentes as estátuas Haida, os totens, o Monte Robson. Quase se tiritava de frio diante do pôster da eternamente gelada Icefield Glacier.
Ao viajar ao Canadá e conhecer as Montanhas Rochosas, Joana realizara um sonho há muito acalentado. Que momentos felizes!
Muito já se escreveu sobre o impacto dos momentos felizes na vida das pessoas.
Katherine Mansfield impressionou-me com a estória de uma mulher que se julgava perfeitamente feliz, desmorando em um segundo ao surpreender o marido beijando sua amiga – colocara sua felicidade na dependência de terceiros.
Monteiro Lobato, cuja crítica me remetera à autora da Nova Zelândia, escreve, por sua vez, o magistral ‘Negrinha’. Neste conto, uma criança órfã e judiada tem permissão para brincar com meninas tão lindas que pareciam anjos, e, quando as férias acabam e sua rotina retorna, o inevitável, segundo Lobato, acontece. Negrinha vai para o céu, pois , tendo conhecido de perto a vida dos anjos, não lhe era mais suportável viver nesta terra.
Já Dostoievski termina suas Noites Brancas com o personagem, ao ver partir a mulher amada, a perguntar-se se um momento de felicidade não seria o bastante para iluminar uma vida.
Entre a passividade agradecida de Dostoievski e o radical desespero de Lobato, tantas e tão estranhas reações são possíveis à felicidade!
Como afirma Clarice Lispector, viver é perigoso.
Divagações filosóficas e literárias à parte, o fato é que eu me perguntava se Joana enlouqueceria ao mergulhar em suas memórias felizes com tal persistência.
Ela não trouxera nenhuma estória para contar. Nenhum romance. Nenhum amigo em especial. Nada além da constatação de que existem no mundo pessoas com vidas agradáveis.
Os canadenses, dizia Joana, com uma pitada de ironia, são um povo realmente chato, pois nada fazem além de nascer, crescer, viver e morrer. No intervalo entre nascimento e morte, eles esquiam, remam, passeiam, ouvem música, cantam, dançam, lêem, fazem amigos, namoram, casam, tem filhos, estudam e trabalham do jeito que gostam, discretamente, respeitando os limites alheios. Uma vida absolutamente insípida, tediosa, monótona e previsível.
E o suspiro satisfeito que acompanhava as palavras ‘monótona’ e ‘tediosa’ era pura provocação. E ela completava, para me cutucar:
- Você sabe, a felicidade não dá boas estórias. Os escritores gostam das tragédias.
Joana foi vivendo com os pés no Brasil e o coração nas Rochosas durante meses e meses, até o dia em que, passaportes em punho, contrato de trabalho no bolso e filharada a tiracolo, como uma águia em extinção, voou.
crônica - Momentos mágicos
Foi uma festa a ida à praia à noite, de maiô, chinelinho, baldinho e pazinha.
Sim, era noite. Uma noite quente de verão, sem lua, o céu coalhado de estrelas e o forte aroma de damas da noite a enfeitiçar.
Minha tia estendeu a esteira de palhinha no passeio, e nós, crianças, atacamos a areia.
Os homens se afastaram, iam jogar futebol. Alguns carros estavam na areia. Naquela época, não havia ainda iluminação, e a luz dos automóveis é que clareava o local do jogo ou do churrasco. Senão, era a noite plena, o rugir do mar nas trevas abaixo do manto de estrelas.
Passou a hora de ir dormir – coisa inusitada – e nós brincando ferozmente, a construir ruas e ruas de casas moldadas nos baldinhos, com portas e janelas desenhadas com as pás e decoradas com conchas.
A tia contou estórias e cantou uma música incrível sobre um grão de areia que se apaixonara por uma estrela.
Quando os homens voltaram, tão ou mais sujos que nós, fomos todos ao mar. Os adultos fizeram uma roda, incluindo nós, crianças, intercaladas entre eles. Bem lá no fundo, além da zona de arrebentação, ouvindo as ondas que estouravam depois de passar por mim, firmemente segura pelos braços, eu flutuava na água escura e morna, oscilando nas marolas.
Quando senti aquela cosia deslizante e dormente em minha perna, que susto, como gritei! Cardumes pulavam à nossa volta, prateados e ariscos, e alguns peixes me tocavam e mordiscavam., fazendo cócegas.
Como rimos, adultos e crianças, saboreando aqueles três gigantes: o mar, o céu, a noite.
Em casa, mais tarde, o banho quente e o sono das pedras. Ainda sonho, como o poeta:
“Eu me lembro! Eu me lembro!
Era pequeno e brincava na praia...”
Sim, era noite. Uma noite quente de verão, sem lua, o céu coalhado de estrelas e o forte aroma de damas da noite a enfeitiçar.
Minha tia estendeu a esteira de palhinha no passeio, e nós, crianças, atacamos a areia.
Os homens se afastaram, iam jogar futebol. Alguns carros estavam na areia. Naquela época, não havia ainda iluminação, e a luz dos automóveis é que clareava o local do jogo ou do churrasco. Senão, era a noite plena, o rugir do mar nas trevas abaixo do manto de estrelas.
Passou a hora de ir dormir – coisa inusitada – e nós brincando ferozmente, a construir ruas e ruas de casas moldadas nos baldinhos, com portas e janelas desenhadas com as pás e decoradas com conchas.
A tia contou estórias e cantou uma música incrível sobre um grão de areia que se apaixonara por uma estrela.
Quando os homens voltaram, tão ou mais sujos que nós, fomos todos ao mar. Os adultos fizeram uma roda, incluindo nós, crianças, intercaladas entre eles. Bem lá no fundo, além da zona de arrebentação, ouvindo as ondas que estouravam depois de passar por mim, firmemente segura pelos braços, eu flutuava na água escura e morna, oscilando nas marolas.
Quando senti aquela cosia deslizante e dormente em minha perna, que susto, como gritei! Cardumes pulavam à nossa volta, prateados e ariscos, e alguns peixes me tocavam e mordiscavam., fazendo cócegas.
Como rimos, adultos e crianças, saboreando aqueles três gigantes: o mar, o céu, a noite.
Em casa, mais tarde, o banho quente e o sono das pedras. Ainda sonho, como o poeta:
“Eu me lembro! Eu me lembro!
Era pequeno e brincava na praia...”
crônica - O fogão da Madô
Minha amiga Madô comprou um fogão. Em estado de choque, demoro a digerir a notícia. Aí me lembro que Madô coleciona antiguidades. É isso! Com certeza este fogão tem duzentos anos, é de ferro esmaltado, tem grade removível e elegantes pezinhos curvos. Afinal Madô se alimenta de idéias, faz uma salada de estilos, sua melhor Marmita é um conto e seu Trivial Variado é um livro, sim, mas não de receitas. Além disso Madô nem sequer lava a louça! Tem o estranho hábito de inspirar-se com água e, é só abrir a torneira que ela, a bendita inspiração, chega esparramando imagens e minha amiga se retira a enxugar as mãos no avental (se é que ela tem algum), à procura de papel e caneta. Imagino que a louça vá se acumulando tarde após tarde, até o dia em que o filho resolva o problema.
Madô faz estórias deliciosas e qualquer tarde destas irei visitá-la para conhecer o fogão e conferir e perto a raridade, que com certeza nunca será usada, peça de colecionador destinada a ser conservada e exibida com orgulho, servida com sorrisos de cumplicidade, enquanto se aguarda a pizza encomendada por telefone, pois cozinhar, definitivamente, não é tarefa para escritores, estas estranhas pessoas tão distraídas que se esquecem até de comer.
Madô faz estórias deliciosas e qualquer tarde destas irei visitá-la para conhecer o fogão e conferir e perto a raridade, que com certeza nunca será usada, peça de colecionador destinada a ser conservada e exibida com orgulho, servida com sorrisos de cumplicidade, enquanto se aguarda a pizza encomendada por telefone, pois cozinhar, definitivamente, não é tarefa para escritores, estas estranhas pessoas tão distraídas que se esquecem até de comer.
crônica - Menino de cidade grande
“Girafa e elefante então existem de verdade? E eu pensava que eram bichos da terra do faz-de-conta” – confessou meu sobrinho, quando o levei ao zoológico pela primeira vez.
A verdade é que a tecnologia sofisticada de nossas cidades massificadas está de tal forma afastando o ser humano da natureza que não é de estranhar que hajam crianças que pensem que frango é um pacotinho que se compra no supermercado; pois até mesmo os desenhos infantis estão substituindo os animais por máquinas e alienígenas.
Achei que seria interessante levar meu sobrinho a um local “selvagem” - meu sítio, encravado na zona rural, onde ainda se pode olhar o céu e ver a Via Láctea, ouvindo sons absolutamente estranhos para ouvidos urbanos: grilos, cobras, pererecas e corujas.
Substituir a Internet pela pescaria com certeza devolveria as cores ao seu rosto pálido.
E lá fomos nós.
Chegamos sábado cedinho e pelo meio da tarde dei-me conta de que esquecera de trazer sal.
“Também não tem chocolate, tia. E a gente podia comprar umas lingüiças. E será que só isso de pão vai durar até segunda-feira?” – palpitou o garoto.
Comecei a lembrar-me de que a fome desesperada de um adolescente é muito, muito maior que o apetite discreto de uma senhora de meia idade. O jeito era completar a despensa com umas comprinhas de última hora. Assim, fomos até a cidade.
Anoiteceu cedo e a escuridão surpreendeu-nos no caminho.
O rapazinho a meu lado estava inquieto. Sem dúvida a noite plena com seus ruídos naturais parecia-lhe ameaçadora. O farol do carro iluminava apenas alguns metros à nossa frente.
“Não há perigo algum, conheço bem a estrada” – tranqüilizei-o.
“Seu celular caiu no chão”
“Não tenho celular”
“Há um celular neste carro e alguma coisa está empurrando ele para o meu pé.”
Ante o pânico em sua voz, freei.
Ele apontou-me a luz verdinha que piscava, fria, em ritmo lento, a intervalos regulares.
“Tem alguém escondido neste carro! Alguém que deixou cair o seu celular! Algum bandido!” – ele quase gritava – “Tia, faça alguma coisa!”
Eu fiz: abri a porta e libertei o vaga-lume.
A verdade é que a tecnologia sofisticada de nossas cidades massificadas está de tal forma afastando o ser humano da natureza que não é de estranhar que hajam crianças que pensem que frango é um pacotinho que se compra no supermercado; pois até mesmo os desenhos infantis estão substituindo os animais por máquinas e alienígenas.
Achei que seria interessante levar meu sobrinho a um local “selvagem” - meu sítio, encravado na zona rural, onde ainda se pode olhar o céu e ver a Via Láctea, ouvindo sons absolutamente estranhos para ouvidos urbanos: grilos, cobras, pererecas e corujas.
Substituir a Internet pela pescaria com certeza devolveria as cores ao seu rosto pálido.
E lá fomos nós.
Chegamos sábado cedinho e pelo meio da tarde dei-me conta de que esquecera de trazer sal.
“Também não tem chocolate, tia. E a gente podia comprar umas lingüiças. E será que só isso de pão vai durar até segunda-feira?” – palpitou o garoto.
Comecei a lembrar-me de que a fome desesperada de um adolescente é muito, muito maior que o apetite discreto de uma senhora de meia idade. O jeito era completar a despensa com umas comprinhas de última hora. Assim, fomos até a cidade.
Anoiteceu cedo e a escuridão surpreendeu-nos no caminho.
O rapazinho a meu lado estava inquieto. Sem dúvida a noite plena com seus ruídos naturais parecia-lhe ameaçadora. O farol do carro iluminava apenas alguns metros à nossa frente.
“Não há perigo algum, conheço bem a estrada” – tranqüilizei-o.
“Seu celular caiu no chão”
“Não tenho celular”
“Há um celular neste carro e alguma coisa está empurrando ele para o meu pé.”
Ante o pânico em sua voz, freei.
Ele apontou-me a luz verdinha que piscava, fria, em ritmo lento, a intervalos regulares.
“Tem alguém escondido neste carro! Alguém que deixou cair o seu celular! Algum bandido!” – ele quase gritava – “Tia, faça alguma coisa!”
Eu fiz: abri a porta e libertei o vaga-lume.
conto - Melodia interrompida
As pessoas comuns, no máximo, se relacionam pelo olhar e pelo tom de voz. Já os músicos têm um misterioso jeito próprio de se comunicar entre eles. É quase uma telepatia, uma mensagem, que apenas se adivinha, pensamentos se materializam no espaço, palpáveis, autônomos. Até mesmo sem se olhar, no palco, os músicos se comunicam tão perfeitamente em cada nota se encaixa, no ritmo, na harmonia, no timbre exato. E as emoções fluem, e cada qual pertence ao conjunto e não se sabe mais quem lidera e quem é liderado, a platéia hipnotizada apenas acompanha, capturada pela magia dos acordes.
Foi assim naquele jantar de aniversário.
As mocinhas cantaram, dedilharam, dançaram, animaram a festa. Seus risos e gestos infantis tinham, no entanto, a maturidade dos profissionais afeitos a horas de disciplinado treino.
A alegria permanecera após a saída dos convidados, na vivacidade dos passos e no brilho ardente do olhar de Verônica.
Até que, lá pelas tantas, a avó chupou os lábios e baixou a voz, a olhar pela janela:
- Essa aí não é companhia para você. Não quero mais essa garota esquisita em minha casa.
Verônica escondeu o rosto atrás da porta da geladeira, a acomodar com cuidado excessivo os frascos das sobras do almoço. Quando falou, os olhas estavam opacos e a voz era macia:
- Ela tocou tantas músicas do seu tempo, vovó! Pensei que a senhora fosse gostar. Minha amiga é uma pianista de talento, segunda violinista da Sinfônica Municipal. O que há de errado com a música dela?
- Nada há de errado com a música dela. Toca bem, a moça. Apenas...é uma mulher estranha. Ela não serve e fim.
Verônica não prolongou o assunto. Não convidou mais a amiga. Não citou mais o seu nome na presença da família.
Ia, contudo, à casa dela duas tardes por semana. Ficavam na sala, esparramadas nas almofadas pelo chão, as cortinas fechadas, a sussurrar na penumbra.
Aquilo durou até a tarde em que a outra levou uma mecha dos cabelos de Verônica aos lábios e a beijou com ternura.
Verônica estremeceu, tocou a face da amiga com a palma da mão, lembrou-se da avó e afastou-se.
A tensão aos poucos dissolveu-se e, naquele jeito misterioso dos músicos, entenderam-se.
No silêncio, o convite implícito, o assunto que nenhuma das duas ousou abordar com palavras.
Ora, as palavras! Quem precisa delas, afinal?
Uma descerrou as cortinas, outra voltou ao piano.
Foi assim naquele jantar de aniversário.
As mocinhas cantaram, dedilharam, dançaram, animaram a festa. Seus risos e gestos infantis tinham, no entanto, a maturidade dos profissionais afeitos a horas de disciplinado treino.
A alegria permanecera após a saída dos convidados, na vivacidade dos passos e no brilho ardente do olhar de Verônica.
Até que, lá pelas tantas, a avó chupou os lábios e baixou a voz, a olhar pela janela:
- Essa aí não é companhia para você. Não quero mais essa garota esquisita em minha casa.
Verônica escondeu o rosto atrás da porta da geladeira, a acomodar com cuidado excessivo os frascos das sobras do almoço. Quando falou, os olhas estavam opacos e a voz era macia:
- Ela tocou tantas músicas do seu tempo, vovó! Pensei que a senhora fosse gostar. Minha amiga é uma pianista de talento, segunda violinista da Sinfônica Municipal. O que há de errado com a música dela?
- Nada há de errado com a música dela. Toca bem, a moça. Apenas...é uma mulher estranha. Ela não serve e fim.
Verônica não prolongou o assunto. Não convidou mais a amiga. Não citou mais o seu nome na presença da família.
Ia, contudo, à casa dela duas tardes por semana. Ficavam na sala, esparramadas nas almofadas pelo chão, as cortinas fechadas, a sussurrar na penumbra.
Aquilo durou até a tarde em que a outra levou uma mecha dos cabelos de Verônica aos lábios e a beijou com ternura.
Verônica estremeceu, tocou a face da amiga com a palma da mão, lembrou-se da avó e afastou-se.
A tensão aos poucos dissolveu-se e, naquele jeito misterioso dos músicos, entenderam-se.
No silêncio, o convite implícito, o assunto que nenhuma das duas ousou abordar com palavras.
Ora, as palavras! Quem precisa delas, afinal?
Uma descerrou as cortinas, outra voltou ao piano.
crônica - Megera indomada
... e como todo homem que se interessa por mim deve ter um defeito, eu rotulei-o de chato.
‘Ele’ era um homem bem apanhado, culto e rica, que eu conhecera através de amigos. ‘Ele’ convidou-me para um concerto de piano e presenteou-me com um livro. Enquanto outras ganham flores e bombons, intelectuais como eu ganham livros. Como não ficar comovida com a gentileza?
Após o concerto, o jantar. A conversa mantinha-se tão impessoal e externa, que o clima romântico desapareceu. Provavelmente tal clima só existira mesmo em meu coração abóbora, que nunca perde a esperança de tropeçar na fada madrinha, transformar-se em carruagem e levar-me a um destino maravilhoso.
Pela sobremesa, após atalhos tortuosos, a conversa passara de Beethoven a Paulo Bonfim. Não suportei mais. Pedi cama.
- Leve-me para casa. Quero dormir.
‘Ele’ olhou-me incrédulo, Romeu que vê Julieta despencar do balcão com papelotes nos cabelos e olhos empapuçados.
Sou personagem ignorante dos palcos da vida. Atrapalho o enredo e detono o anti-clímax.
Até hoje, amigos por conveniência, adivinhando o embaraço um do outro, trocamos olhares atrapalhados e arredios.
‘Ele’ era um homem bem apanhado, culto e rica, que eu conhecera através de amigos. ‘Ele’ convidou-me para um concerto de piano e presenteou-me com um livro. Enquanto outras ganham flores e bombons, intelectuais como eu ganham livros. Como não ficar comovida com a gentileza?
Após o concerto, o jantar. A conversa mantinha-se tão impessoal e externa, que o clima romântico desapareceu. Provavelmente tal clima só existira mesmo em meu coração abóbora, que nunca perde a esperança de tropeçar na fada madrinha, transformar-se em carruagem e levar-me a um destino maravilhoso.
Pela sobremesa, após atalhos tortuosos, a conversa passara de Beethoven a Paulo Bonfim. Não suportei mais. Pedi cama.
- Leve-me para casa. Quero dormir.
‘Ele’ olhou-me incrédulo, Romeu que vê Julieta despencar do balcão com papelotes nos cabelos e olhos empapuçados.
Sou personagem ignorante dos palcos da vida. Atrapalho o enredo e detono o anti-clímax.
Até hoje, amigos por conveniência, adivinhando o embaraço um do outro, trocamos olhares atrapalhados e arredios.
30 de mai. de 2010
crônica - Uma solução para a Iugoslávia
Ah! Esses iugoslavos! Deveriam vir ao Brasil.
Um sérvio e um albanês começariam uma discussão e seriam imediatamente rodeados pela turma do deixa disso.
Nossos iugoslavos ficariam espantados em ver, juntos, um ariano, um semita, um nórdico, um árabe, um negro e um oriental. Mais espantados ainda ficariam ao ver o ariano bater amigavelmente no ombro do negro e contar uma piada, ‘aquela do judeu e do general nazista no campo de concentração’.
Entre muitas gargalhadas, o árabe retrucaria com ‘aquela do cristão cujo avião caiu no deserto e encontrou um muçulmano’. E o nórdico, a rir, continuar com ‘aquela do japonês que visitou a Bahia e entrou em um terreiro de candomblé’
A esta altura, alguém sugeriria aos novos amigos iugoslavos um ‘loira gelada’ e um brinde à Paz. E já em clima de confraternização, vocês conhecem ‘aquela do albanês e do sérvio que eram vizinhos e aí ...’
Aí os nossos iugoslavos seriam forçados a rir-se da imbecilidade humana e concordariam em deixar pra lá as suas diferenças, já que, vivendo todos no mesmo planeta, somos, todos, companheiros de viagem.
Um sérvio e um albanês começariam uma discussão e seriam imediatamente rodeados pela turma do deixa disso.
Nossos iugoslavos ficariam espantados em ver, juntos, um ariano, um semita, um nórdico, um árabe, um negro e um oriental. Mais espantados ainda ficariam ao ver o ariano bater amigavelmente no ombro do negro e contar uma piada, ‘aquela do judeu e do general nazista no campo de concentração’.
Entre muitas gargalhadas, o árabe retrucaria com ‘aquela do cristão cujo avião caiu no deserto e encontrou um muçulmano’. E o nórdico, a rir, continuar com ‘aquela do japonês que visitou a Bahia e entrou em um terreiro de candomblé’
A esta altura, alguém sugeriria aos novos amigos iugoslavos um ‘loira gelada’ e um brinde à Paz. E já em clima de confraternização, vocês conhecem ‘aquela do albanês e do sérvio que eram vizinhos e aí ...’
Aí os nossos iugoslavos seriam forçados a rir-se da imbecilidade humana e concordariam em deixar pra lá as suas diferenças, já que, vivendo todos no mesmo planeta, somos, todos, companheiros de viagem.
conto - As idéias de Maria
Maria passou por ele, no semáforo da Avenida 15. O que ela estaria fazendo pela periferia? Como seguisse pelo mesmo trajeto, João dispunha-se a chamar a atenção da mulher assim que o tráfego permitisse, quando ela virou... num motel.
João estacionou de chôfre, absolutamente perplexo. Nos 40 minutos seguintes ele conheceu o inferno.
Três homens desacompanhados entraram no motel depois de Maria, e nenhum deles saíra ainda. No entanto, era possível que o acompanhante de Maria houvesse chegado antes dela.
Passaram-se mais vinte minutos. Que diabos! Aquilo não era apenasuma traição, era uma orgia, com requintes de lascívia!
Mais meia hora e João, com um suor gelado a empapar-lhe a camisa, tomou uma resolução desesperada: entrou no motel.
_O senhor faça o favor de me informar em que quarto está a minha esposa, Maria dos Prazeres da Silva? – nunca antes o nome da mulher parecera-lhe tão ridículo. Ai do porteiro se viesse com gracinhas!
_Sua identidade.
_Como?
_É norma da casa – Eu anoto o RG das pessoas que entram aqui.
Ele entregou o documento, disposto a um escândalo, se o impedissem de entrar.
_O porteiro falou com alguém ao telefone e devolveu-lhe a identidade, solícito:
_Sua esposa o espera no 7, o terceiro à sua esquerda.
Era mesmo muita cara de pau da desavergonhada, dizer que o esperava. Com certeza o outro já saíra e ela queria evitar uma cena pública.
Noventa minutos bem contados. Em que ela desperdiçara tanto tempo?
...
Maria entrara no motel e pedira uma suíte luxo.
_Quem é o cavalheiro que a senhora está esperando?
_Estou sozinha.
_Sim, mas o seu acompanhante vai chegar daqui a pouco, suponha, e eu o enviarei a seu quarto.
_Estou sozinha e não espero ninguém.
_Compreendo – sem dúvida era uma daquelas mulheres independentes que queriam verificar o quarto antes de decidir-se.
Maria entrou, ligou o som, o vídeo, tirou a roupa, rolou no colchão de água redondo e admirou-se nos múltiplos espelhos. Ligou a hidromassagem e pediu pelo serviço de copa um champagne, duas taças e um bolo.
_Um bolo? – estranhou a copeira – Que tipo de bolo?
_É meu aniversário – explicou Maria – Um bolo confeitado, pequeno. De chocolate.
_Nós providenciaremos. Receio que demore uns vinte minutos.
_Tudo bem. Não tenho pressa.
Lá se iam vinte anos de casamento e o marido antiquado recusava-se a leva-la a passar uma tarde em um motel, como presente de aniversário.
_Eu tenho tanta curiosidade por conhecer um motel, João. Vamos?
_Mulher minha não entra em lugar frequentado por prostituta.
_Credo, homem! Prostituta também vai à feira, ao supermercado, ao cabeleireiro, ao cinema... e tanta amiga minha frequenta motel com o marido. Satisfaça este meu desejo. Vamos?
_Não, não e não.
Pois bem, então ela iria sozinha, resolvera.
Mergulhou na água morna e divertia-se a fazer espuma quando o telefone tocou pela primeira vez:
_Dona Maria, o Sr. A ... C... está procurando sua... amiga... É a senhora?
_Não, já lhe disse que não estou esperando ninguém.
Quando chegaram o bolo e o champagne, o telefone tornou a tocar:
_É para seu quarto que devo enviar o Sr. D .... M.... ?
_Não, não é!
Um pouco assustada, Maria serviu-se de champagne. Depois riu, ao ser surpreedida por um pensamento maroto: 'que conveniente, a gente chega sózinha e o porteiro fica a arrumar companhia...'
Quando o telefone tocou pela terceira vez, ela atendeu resiganada:
_Dona Maria, um certo João da Silva está aqui à sua procura.
_É meu marido!
_Vou mandá-lo entrar. – e a voz dele sova em triunfo, como se dissesse 'eu bem sabia que a senhora estava a esperar alguém.'
E agora?, pensou Maria, enquanto virava mais uma taça de champagne. Se João está aqui...
....
João entrou no quarto vazio. Na mesa, um bolo confeitado, uma taça de champagne limpa e uma garrafa quase vazia no gelo.
Seguiu até o banheiro.
_Entre, querido! Como você demorou! – imersa em espuma, uma taça nas mãos, a mulher jogou-lhe um beijo.
_Quer dizer que me esperava?
_Há mais de uma hora! Como você demorou!
_E como é que eu ia saber onde você estava?
_Ué, como você chegou aqui? Pelo recado que deixei no seu celular, que estava fora de área, para variar.
_Eu não recebi recado algum!
_Ora, João, não fique bravo, eu sei que você nào queria vir, mas é o meu aniversário. Até pedi um bolo.
_Eu não recebi seu recado.
_Certo, amor, então eu liguei no número errado e você me encontrou por telepatia, certo? Agora, me dê um beijinho, amor.
Ela levantou-se e dirigiu-se para ele, pingando, com flocos de espuma escorrendo pela pele.
_Maria, você bebeu!
_Estou tontinha, tontinha... alegrinha e doidinha por você...
Meia hora mais tarde, um João indeciso entre as delícias do paraíso e os tormentos da dúvida, perguntou:
_Maria, onde você aprendeu tanta novidade?
_Aqui mesmo, no vídeo, quer ver? – ela apertou um botão à cabeceira da cama – Passei um tempo assistindo uns filmes... cenas muito didáticas.
_Di – dáticas?
_Que aniversário maravilhoso, João. O melhor que já tive! Obrigado por ter vindo, querido!
O confuso marido rendeu-se.
João estacionou de chôfre, absolutamente perplexo. Nos 40 minutos seguintes ele conheceu o inferno.
Três homens desacompanhados entraram no motel depois de Maria, e nenhum deles saíra ainda. No entanto, era possível que o acompanhante de Maria houvesse chegado antes dela.
Passaram-se mais vinte minutos. Que diabos! Aquilo não era apenasuma traição, era uma orgia, com requintes de lascívia!
Mais meia hora e João, com um suor gelado a empapar-lhe a camisa, tomou uma resolução desesperada: entrou no motel.
_O senhor faça o favor de me informar em que quarto está a minha esposa, Maria dos Prazeres da Silva? – nunca antes o nome da mulher parecera-lhe tão ridículo. Ai do porteiro se viesse com gracinhas!
_Sua identidade.
_Como?
_É norma da casa – Eu anoto o RG das pessoas que entram aqui.
Ele entregou o documento, disposto a um escândalo, se o impedissem de entrar.
_O porteiro falou com alguém ao telefone e devolveu-lhe a identidade, solícito:
_Sua esposa o espera no 7, o terceiro à sua esquerda.
Era mesmo muita cara de pau da desavergonhada, dizer que o esperava. Com certeza o outro já saíra e ela queria evitar uma cena pública.
Noventa minutos bem contados. Em que ela desperdiçara tanto tempo?
...
Maria entrara no motel e pedira uma suíte luxo.
_Quem é o cavalheiro que a senhora está esperando?
_Estou sozinha.
_Sim, mas o seu acompanhante vai chegar daqui a pouco, suponha, e eu o enviarei a seu quarto.
_Estou sozinha e não espero ninguém.
_Compreendo – sem dúvida era uma daquelas mulheres independentes que queriam verificar o quarto antes de decidir-se.
Maria entrou, ligou o som, o vídeo, tirou a roupa, rolou no colchão de água redondo e admirou-se nos múltiplos espelhos. Ligou a hidromassagem e pediu pelo serviço de copa um champagne, duas taças e um bolo.
_Um bolo? – estranhou a copeira – Que tipo de bolo?
_É meu aniversário – explicou Maria – Um bolo confeitado, pequeno. De chocolate.
_Nós providenciaremos. Receio que demore uns vinte minutos.
_Tudo bem. Não tenho pressa.
Lá se iam vinte anos de casamento e o marido antiquado recusava-se a leva-la a passar uma tarde em um motel, como presente de aniversário.
_Eu tenho tanta curiosidade por conhecer um motel, João. Vamos?
_Mulher minha não entra em lugar frequentado por prostituta.
_Credo, homem! Prostituta também vai à feira, ao supermercado, ao cabeleireiro, ao cinema... e tanta amiga minha frequenta motel com o marido. Satisfaça este meu desejo. Vamos?
_Não, não e não.
Pois bem, então ela iria sozinha, resolvera.
Mergulhou na água morna e divertia-se a fazer espuma quando o telefone tocou pela primeira vez:
_Dona Maria, o Sr. A ... C... está procurando sua... amiga... É a senhora?
_Não, já lhe disse que não estou esperando ninguém.
Quando chegaram o bolo e o champagne, o telefone tornou a tocar:
_É para seu quarto que devo enviar o Sr. D .... M.... ?
_Não, não é!
Um pouco assustada, Maria serviu-se de champagne. Depois riu, ao ser surpreedida por um pensamento maroto: 'que conveniente, a gente chega sózinha e o porteiro fica a arrumar companhia...'
Quando o telefone tocou pela terceira vez, ela atendeu resiganada:
_Dona Maria, um certo João da Silva está aqui à sua procura.
_É meu marido!
_Vou mandá-lo entrar. – e a voz dele sova em triunfo, como se dissesse 'eu bem sabia que a senhora estava a esperar alguém.'
E agora?, pensou Maria, enquanto virava mais uma taça de champagne. Se João está aqui...
....
João entrou no quarto vazio. Na mesa, um bolo confeitado, uma taça de champagne limpa e uma garrafa quase vazia no gelo.
Seguiu até o banheiro.
_Entre, querido! Como você demorou! – imersa em espuma, uma taça nas mãos, a mulher jogou-lhe um beijo.
_Quer dizer que me esperava?
_Há mais de uma hora! Como você demorou!
_E como é que eu ia saber onde você estava?
_Ué, como você chegou aqui? Pelo recado que deixei no seu celular, que estava fora de área, para variar.
_Eu não recebi recado algum!
_Ora, João, não fique bravo, eu sei que você nào queria vir, mas é o meu aniversário. Até pedi um bolo.
_Eu não recebi seu recado.
_Certo, amor, então eu liguei no número errado e você me encontrou por telepatia, certo? Agora, me dê um beijinho, amor.
Ela levantou-se e dirigiu-se para ele, pingando, com flocos de espuma escorrendo pela pele.
_Maria, você bebeu!
_Estou tontinha, tontinha... alegrinha e doidinha por você...
Meia hora mais tarde, um João indeciso entre as delícias do paraíso e os tormentos da dúvida, perguntou:
_Maria, onde você aprendeu tanta novidade?
_Aqui mesmo, no vídeo, quer ver? – ela apertou um botão à cabeceira da cama – Passei um tempo assistindo uns filmes... cenas muito didáticas.
_Di – dáticas?
_Que aniversário maravilhoso, João. O melhor que já tive! Obrigado por ter vindo, querido!
O confuso marido rendeu-se.
conto infantil - Hoje é seu dia de sorte!
www.contandohistoria.com/Hoje_e_seu_dia_de_sorte.htm
vale a pena conferir a ilustração feita pela Vera no endereço acima.
Conta-se que, em Bagdá, os invejosos murmuravam:
Por que Aladim julga ser melhor do que nós? Ele é rico, casou-se com a filha do sultão, tem uma lâmpada maravilhosa... Pura sorte!
Até os ministros conspiravam:
Eu também, se tivesse um gênio a me servir...
Ora, Aladim resolveu fazer uma experiência e chamou o sultão e o grão-vizir como testemunhas. Esconderam-se em uma das curvas da estrada que ia para Bagdá e Aladim ordenou ao gênio:
Você vai conceder um desejo a cada pessoa que passar por esta estrada.
Logo passou o primeiro homem e o gênio apresentou-se:
Bom dia! Hoje é seu dia de sorte! Vou realizar um desejo seu.
Não me venha com brincadeiras! – o homem empurrou o gênio, zangado, e seguiu seu caminho.
O segundo a passar respondeu a rir:
Prove que você é um gênio. Faça aparecer em minhas mãos uma cesta de deliciosos figos.
Você já fez um pedido – o gênio desapareceu deixando o rapaz com uma cesta de figos nas mãos.
Mais tarde passou por ali uma jovem recém casada que desejava fazer uma bela viagem com seu amado marido e pediu:
Quero duzentas moedas de ouro!
O gênio suspirou.
Da cidade surgiu correndo uma velha a gritar:
Senhora, seu marido faleceu, mas deixou-lhe um seguro de vida no valor de duzentas moedas de ouro.
E o dia prosseguiu assim. As pessoas passavam e o gênio oferecia-se para realizar um pedido. Ao pôr-do-sol passou por ali um cego, que ao nascer fora abandonado na porta da mesquita e que vivia de esmolas.
Boa tarde! Hoje é seu dia de sorte! Sou um gênio e vou realizar um pedido seu. Um só.
O cego sorriu, pensou, pensou, e por fim decidiu:
Gênio, quero ver minha bela esposa e meus filhos passeando no jardim de minha mansão.
Alá seja louvado! – exclamou o sultão – Um homem assim inteligente deve ser meu conselheiro.
Um homem assim esperto eu quero para genro! – afirmou o grão-vizir.
E assim aconteceu.
Quando esta estória espalhou-se em Bagdá, o povo compreendeu que um gênio só é útil para quem sabe pedir.
Aladim, satisfeito, mandou esculpir nos muros de seu palácio os seguintes dizeres:
“A sorte de cada um depende de suas escolhas.”
vale a pena conferir a ilustração feita pela Vera no endereço acima.
Conta-se que, em Bagdá, os invejosos murmuravam:
Por que Aladim julga ser melhor do que nós? Ele é rico, casou-se com a filha do sultão, tem uma lâmpada maravilhosa... Pura sorte!
Até os ministros conspiravam:
Eu também, se tivesse um gênio a me servir...
Ora, Aladim resolveu fazer uma experiência e chamou o sultão e o grão-vizir como testemunhas. Esconderam-se em uma das curvas da estrada que ia para Bagdá e Aladim ordenou ao gênio:
Você vai conceder um desejo a cada pessoa que passar por esta estrada.
Logo passou o primeiro homem e o gênio apresentou-se:
Bom dia! Hoje é seu dia de sorte! Vou realizar um desejo seu.
Não me venha com brincadeiras! – o homem empurrou o gênio, zangado, e seguiu seu caminho.
O segundo a passar respondeu a rir:
Prove que você é um gênio. Faça aparecer em minhas mãos uma cesta de deliciosos figos.
Você já fez um pedido – o gênio desapareceu deixando o rapaz com uma cesta de figos nas mãos.
Mais tarde passou por ali uma jovem recém casada que desejava fazer uma bela viagem com seu amado marido e pediu:
Quero duzentas moedas de ouro!
O gênio suspirou.
Da cidade surgiu correndo uma velha a gritar:
Senhora, seu marido faleceu, mas deixou-lhe um seguro de vida no valor de duzentas moedas de ouro.
E o dia prosseguiu assim. As pessoas passavam e o gênio oferecia-se para realizar um pedido. Ao pôr-do-sol passou por ali um cego, que ao nascer fora abandonado na porta da mesquita e que vivia de esmolas.
Boa tarde! Hoje é seu dia de sorte! Sou um gênio e vou realizar um pedido seu. Um só.
O cego sorriu, pensou, pensou, e por fim decidiu:
Gênio, quero ver minha bela esposa e meus filhos passeando no jardim de minha mansão.
Alá seja louvado! – exclamou o sultão – Um homem assim inteligente deve ser meu conselheiro.
Um homem assim esperto eu quero para genro! – afirmou o grão-vizir.
E assim aconteceu.
Quando esta estória espalhou-se em Bagdá, o povo compreendeu que um gênio só é útil para quem sabe pedir.
Aladim, satisfeito, mandou esculpir nos muros de seu palácio os seguintes dizeres:
“A sorte de cada um depende de suas escolhas.”
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