18 de jan. de 2014

O Sonho continua…em um tempo fora do tempo.


(os asteriscos tem notas de rodapé, a abaixo segue a bibliografia utilizada)
                          Pessoas criativas são a exceção; são elas que fazem ciência, criam arte, alavancam as civilizações. Pessoas assim são úteis nas crises, nas calamidades, nos inesperados eventos da vida. A esta elite pensante pertenceram Pitágoras, o anônimo criador da roda, o genial inventor do alfabeto, e outras figures  que iniciaram nossa mágica jornada rumo ao mundo virtual, onde nos encontramos atualmente. Curiosamente, um antropólogo australiano * declarou que o sucesso de uma civilização se mede pela sua permanência, e, sob esta óptica, os aborígenas, que há 40 000 anos expressam-se através dos pontinhos que Signac só descobriria no século XIX, são a civilização mais bem adaptada do planeta.
                Um estudo recente ** parece indicar que nos genes aborígenas não estão presentes  nenhuma das mutações constatadas em outras etnias; conjectura-se que eles tenham vindo diretamente da África durante a última glaciação, antes que os parentes de Lucy*** debandassem para o oriente, e, após o degelo, ficaram isolados, protegidos, cercados de marsupiais, sonhando seu peculiar paraíso.
Tudo o que um aborígena precisa saber, ele aprende nas histórias de seus ancestrais, figuras meio bichos, meio gente, como o homem-canguru.
               A educação de um aborígenafaria a felicidade de Freud: “É assim, e se você desobedecer, vira  pedra que nem o seu tatatatataravô”. A paisagem australiana está cheia de pedras desobedientes.
              Os Aborígenas tem o que os antropólogs chamam de ‘culturas rígidas’, que não admitem mudanças, em contraste com as ‘culturas flexíveis’. A seleção natural se encarrega de escolher o que dá mais certo, e não é por acaso que o mundo de hoje é uma miscelânea de tudo o que há de melhor em cada povo.
              Nascer aborígena, portanto, seria um sofrimento para as mentes inquietas, como Einstein, Da Vinci e o pequeno Bungaree.
             A história que se passou com Bungaree e seu amigo maori aconteceu séculos antes dos europeus navegarem por aqui, e eu fiquei sabendo porque fui passear na Austrália e o vento que sopra nas árvores retorcidas de Ku Ring Gai a sussurrou em meus ouvidos.
             Contudo… espera aí! Amigo maori?
             Sim, os maoris moram na Nova Zelândia, um conjunto de simpáticas ilhazinha geladas um pouco mais ao sul. Embora descendam dos polinésios, ao chegar em Aotearoa perderam o gosto de vagabundear pelos mares do mundo e nunca cogitaram em voltar a seu paraíso tropical. Provavelmente pensavam como eu, para quem um calor de 40 graus está mais perto do conceito de portal do inferno, e não há água de coco gelada que mude minha opinião. Imagino o grupinho que chegou na primeira canoa contando sua saga assim:
              “Era uma vez uma ilha rodeada por ferozes tubarões, onde os sobreviventes que não morriam de insolação eram periódicamente lançados aos deuses dos vulcões… até que conseguimos fugir e o mar nos trouxe a este belíssimo lugar de paisagens deslumbrantes e clima agradável”.
              O pequeno Kupe, que recebeu seu nome em homenagem ao navegador polinésio que guiou o primeiro grupo vindo de Hawaiki, perguntava insistentemente porque não voltavam para visitar os seus ancestrais, pois ele bem que gostaria de conhecer ilha de origem de tupuna, ou seja dos ancestrais de seu povo. Sua teimosia irritou toda a família e também os anciões, os homens sábios da aldeia, que lhe disseram, quando ele chegou à adolescência, pronto para ser recebido no wharemi, a casa de reunião, como um adulto: “Antes de ser declarado adulto, pegue sua canoa a parta; procure Hawaiki, e quando voltar, nunca mais toque no assunto”
             Ora, Kupe passara anos observando as correntes marítimas, e ficou feliz com a incumbência; preparou sua canoa , colocou remos  sobressalentes, água, frutas, anzóis, e, emu ma bela noite de luz cheia, partiu oceano afora, seguindo as rotas do pequenos pinguins. Kupe imaginou que os animaizinhos migravam para onde houvesse abrigo e comida.
                 Abrigado em seu cloak, um longo e quente casaco maori, confiante em seus anzóis (nome maori) e em seu sonho, o rapazinho, algum tempo  depois, avistou terra, e foi bem a tempo, pois sua provisão de água terminara no dia anterior.
                Não é intrigante que, em sua peregrinação, tenham os polinésios chegado à Nova Zelândia, Papua, Vahuatu, e tantas outra ilhotas, e passado ao largo pela Tasmânia e o continente australiano? Bem, talvez não tenha sido exatamente assim, como nesta história que as folhas farfalhantes dos eucaliptos, em Sydney, me revelaram.
              A canoa de Kupe aportou onde hoje fica o Chase National Park e que a tribo da região chamava Ku Ring Gai. Lá ele encalhou e buscou água.
            Ora, naquela mesma noite, um tjitji, ou adolescente, em vias de se tornar um wati, ou seja, um homem de verdade, praparava-se para seu rito de iniciação. Esse tjitji chama-se  Bungaree. Esse adolescente aborígena há muito desconfiava de que essa história de punição ancestral era engôdo dos mais velhos, para controlarem a geração mais jovem, pois, em várias ocasiões, às escondidas, ele galgara montes proibidos, entrara em cavernas sagradas, e nada lhe acontecera. A serpent do arco-íris não surgira para engolí-lo e nenhum homem-lagarto ameaçara castigá-lo. Agora, Bungaree, para seu imenso deleite, fora enviado sozinho para fazer a travessia, refazendo os passos de seus ancestrais , e, no momento, cismava à beira de um billabong, quer dizer, uma mina d’água, quando avistou a mais surpreendente das criaturas:  pele branca, rosto sulcado de preto, musculoso, alto e com odor estranho: uma mistura de sal, suor e peixe fresco. Bungaree conjecturou se aquilo faria parte de seu rito de iniciação.
                  Kupe, sedento, encontrou a água pelo instinto e pelo olfato, já que o billabong de águas tranqüilas ocultava-se em uma fenda entre pedras. Ao chegar perto avistou uma grotesca criatura: nu, pele escura, nariz imenso, o rosto sapecado com uma gosma branca, exalando um odor bizarro. Seria ele um habitante de Hawaiki? Na esperança de que o povo original ainda usasse as mesmas palavras e tradições de seus descendentes em Aotearoa, Kupe resolveu dançar a cantar o powhiri, o ritual de chegada e boas vindas.
                 Bungaree,  assustado com os gestos e sons estranhos, foi rápido no atirar o bumerangue na direção do outro menino, pois Bungaree não permitiria que nenhum homem-pinguim o punisse por seus pensamentos rebeldes. Quando o outro se esquivou, Bungaree gritou para que ele se identificasse.

                  - Nyuntu ini ngananya?
                Kupe nunca vira uma arma voadora. Contudo, sabia que a melhor defesa é assustar o inimigo, e para isso os maoris dançam a haka, uma dança guerreira, de gestos ameaçadores, amplos, decididos, acompanhados de palavras ferozes que poderiam ser traduzidas como  ‘vou esquartejar você, arrancar suas tripas para fora e comer o seu fígado’, acompanhadas de bizarros reviramentos de olhos e terminando por mostrar a língua.
                 Ora, Bungaree fez o que todo adolescente de qualquer época e de qualquer lugar faz nos momentos mais inadequados: riu. Seu riso desconcertou o garoto maori, que, sentindo-se, pela primeira vez, ridículo e inadequado, também riu. Riram tanto que chegaram às lágrimas e, às gargalhadas, aproximaram-se, apoiaram-se um no braço do outro, olharam-se olhos nos olhos e procuraram entender-se de alguma forma.
                  Bungaree, acostumado a entender-se através de sinais com as mais de 500 línguas Aborígenas, foi mais fácil. Para começar, ele ofereceu água ao outro, que bebeu como bebem os náufragos e os desidratados; a seguir, muito educadamente, ofereceu  
Tharunka, o bastão de mensagem, que o outro, supondo-se que conhecesse os costumes, deveria devolver ao fim da sua visita, supondo-se que se tratasse de uma visita. (um erro muito humano, o de achar que os outros têm a mesma interpretação de mundo que nós, o que gera toda sorte de desentendimentos)
             O maori entendeu o significado do gesto, e retribuiu fazendo hongi: agarrando o Aborígenapelos ombros e esfregando o seu nariz contra o dele. O coração de Bungaree quase enfartou de susto! Como o outro o largou quase em eguida e sentou-se, abrindo o seu cestinho com peixes, o Aborígenaentendeu que aquela esfregação de narizes era a maneira do outro dizer olá, e sentou- se também, tirando de seu coolamon (uma espécie de bolsa trançada com talos de plantas) outros tantos peixinhos e mais seus apetrechos de fazer fogo. E foi assim, à luz das estrelas austrais  , que aconteceu a estranhíssima conversa.
                Kupe estava contente – havia uma fogueira para cozinhar seus peixes, água fresca, um amigo para converser e uma terra de clima quente e agradável para explorar. Bungaree estava igualmente satisfeito – acontecia, afinal, em seu cotidinao tedioso e previsível, uma novidade!
              Primeiro comeram, em silêncio. Depois de limparem  as mãos, Kupe tentou explicar-se através de desenhos: riscou no chão uma ilha comprida, abaixo de uma longa nuvem e falou:
- Aotearoa – que, na língua maori, significa a ilha de longas nuvens brancas, e é o nome que eles dão à Nova Zelândia.
               Bungaree olhou, fascinado. Então existiam outras ilhas distantes! Ele apontou para a ilha próxima, que hoje se chama Ilha do leão,  e o maori fez um gesto que pretendia confirmar: sim, uma ilha, mas muito, muito maior e muito longe daqui; e desenhou na areia 3 sóis e 3 luas a uma canoa, para indicar que viajara por 3 dias e 3 noites, e apontou para onde estava a waka,  sua canoa.
                     Bungaree correu na direção do mar e tocou, emocionado, os remos originais, a proa esculpida da waka, a canoa maori, e queira saber quem era aquele outro rapazinho não sonhado pelos ancestrais.
                 Kupe desenhou outras ilhas e outras canoas, foi apontando para si mesmo, para as ilhas, riscando o chão e contando sobre Hawaiki com seus vulcões e deuses que devoravam gente ( como Bungaree não conhecia vulcões, imaginou tempestades de areia saindo do interior da terra, e, como não entendia essa coisa de pessoas sendo jogadas aos deuses, pensou em pessoas distraídas que despnecavam das pedras molhadas). Kupe desenhou a viagem de seus tatatataravós, desenhou a moa e o kiwi, pássaros lá de sua região, explicando, também, que Aotearoa era um lugar muito frio.
             Bungaree desejou conhecer essa ilha gelada, coberta de nuvens brancas, com sua gente diferente, suas histórias e  e seus costumes.
              Os meninos esticaram seus braços e compararam suas peles, suas cores, seus enfeites, suas tatuagens (Kupe achava que Bungaree usava uma tatuagem mal feita, que saía ao toque). Kupe a princípio pensou em levar o amigo na volta para casa, mas lembrou-se a tempo de que sua tribo canibal considerava um acepipe o cérebro dos inimigos, e percebeu ser esta uma péssima idéia, pois  Bungaree, ainda mais se levasse sua arma voadora, seria considerado um inimigo, e dos mais perigosos, portanto, delicioso. E também pensou que os parentes de Bungaree poderiam invadir a ilha, iniciar uma guerra…naquelas duas grandes ilhas isoladas, seguidas por suas poucas ilhazinhas acessórias, nenhum desses povos tinha idéia do que fosse comércio, como entendemos hoje, o comércio que leva os povos a buscarem se entender para o bem de todos e lucro de alguns.
                      A idéia de trocar objetos diferentes e extravagantes estava a nascer no pensamento de Kupe, que foi bruscamente arrancado de seu devaneio por Bungaree, que levantara-se agil  e rapidamente pegara sua woomera, um cano longo,  com o qual lançou uma lança na direção do pé de Kupe, atingindo uma cobra – venenosíssima! -  que se aproximara demais. Esse bichinho fino e comprido foi tocado com curiosidade por Kupe, que parecia não ter noção do que fosse uma cobra, e parecia não entender o que queria dizer veneno. A explicação de Bungaree perdeu-se no meio de uma frase, pois Kupe apontou para cima, maravilhado, e Bungaree, pasmo, via apenas pacatos coalas nos eucaliptos acima deles. Kupe continuava a apontar, agitado, como se nunca houvesse visto coalas antes, contudo, quando este idéia passou pela mente de Bungaree,  o maori praticamente convulsionou de pânico, ao ver o que ele considerou espíritos do mal: as mamães cangurus que passeavam por ali com suas crias em suas bolsas.
                       Bungaree bem que tentou sossegar o amigo, temendo a aproximação de manpanpa, o feiticeiro, que, por encanto, como é do hábito dos feiticeiros, materializou-se a seu lado. (quem sabe o feiticeria estivesse lá o tempo todo, metamorfoseado de lagarto, observando como Bungaree se sairia em sua jornada iniciática.)
             - Ah, feiticeiro, eu nada fiz, não sei porque ele grita.
             - Porque ele pensa que os cangurus tem duas cabeças, um em cima dos ombros e outra na barriga.
           A idéia de um animal de duas cabeças provocou um sorriso em Bungaree, que percebeu duas coisas fora do contexto: primeiro, o feiticeiro não estava bravo, o que queria dizer que Bungaree não seria punido;  segundo, o feiticeiro não estava espantado – mesmo supondo que feiticeiros são sábios, Bungaree ficou preocupado em pensar que o feiticeiro podia saber e esconder dos outros, sobre outras ilhas e sobre aquele outro povo. Outro povo ou outros povos? Um turbilhão de possibilidades perigosamente invadiu as celulazinhas cinzentas do garoto, e um cérebro adolescente turbinado é um desafio e tanto em qualquer época, na da cibernética como no paleolítico.
             Kupe, na presença do feiticeiro, se aquietou, sentindo-se protegido, ao menos momentaneamente, tendo aquele ancião por perto.
             O velho esfregou seu nariz no de Kupe, e disse, apontando para a cobra:
             - Perigo. – e explicou -  Em Aotearoa não há cobras, Bungaree.
             - Não? Que lugar maravilhoso deve ser esta Aotearoa.
             - Também não há cangurus nem coalas.
             - Oh, talvez não seja tão maravilhosa assim. Como, feiticeiro, os ancestrais de Kupe foram a tantas ilhas pequenas e passaram ao largo de nossa terra, tão grande?
            - Nossa ilha está invisível, Bungaree. Kupe também não viu nossa ilha. Ele seguiu os pinguins e só percebeu a ilha quando os pinguins chegaram à praia e a waka, a canoa dele, encalhou. Eu não posso colocar feitiço nos pinguins, pois essa é a casinha de inverno deles.
Bungaree arregalou os olhos:
            - Como assim? Ninguém pode nos ver? Por que, feiticeiro?
           - Porque aqui é o sonho, e lá fora é o pesadelo.
           O velho homem fechou os olhos, considerando tudo  o que conhecia do universo.
          - Nós vivemos em harmonia com o cosmos – falou o feiticeiro. – Somos felizes. Temos tudo o que precisamos: ar puro, água fresco, comida suficiente, bastante espaço…nossas famílias são amorosas, nossos vizinhos generosos, nossa crianças saudáveis e alegres.
                   - Eu quero tanto saber o que há de diferente lá fora!
                   - Lá fora, curioso, descobriram os metais, as armas, o dinheiro. Há ganância, escravidão…Você não entenderia, é melhor não saber dessas coisas.
                 Bungaree empurrava para lá e para cá um toquinho de madeira, enquanto ouvia o mais velho.  E falou:
              - Sabe, eu às vezes penso em coisas … como esses pauzinhos rodam, e os troncos rodam, e se a gente deixasse pedacinhos redondos bem lisinhos, pusesse em cima uma canoa, talvez a gente pudesse carregar nossas coisas, até usar os cangurus para ir mais rápido…
             - Uma biga de cangururus! Francamente, Bungaree, você é realmente o tipo de rapaz inteligente o bastante para inventar a roda! Logo era capaz de inventar dinheiro, também!
Bungaree, pensou o feiticeiro, era engenhoso bastante para ajuntar uma alavanca a uma roda, e criar um sistema hidráulico para tirar água dos billabongs, além de imaginar bigas feitas de canoas atreladas a cangurus. Adeus, sossego! O modo de vida ancestral estaria para sempre perdido. Um Sonho que se acabaria… A imaginação de Bungaree disparara, e ele continuou:
             - Se esse meu amigo maori quisesse o meu bumerangue, e eu quisesse alguma coisa lá da terra dele, a gente poderia trocar, mas como ele iria demorar para voltar aqui, a gente poderia trocar por alguma pedrinha brilhante e colorida, como um sinal da troca…
              - Isso é dinheiro, menino! Quando se troca coisas usáveis por coisas que ficam de sinal, para trocar mais tarde, e aí vem a idéia de acumular…
            - E não seria bom? A gente pode ir juntando, e um belo dia, tem um montão de pedrinhas e pode comprar logo várias canoas e remos e ir viajar para a terra gelada dele, passear…
              - Isso é turismo!
             - Como fui eu quem teve a idéia, as pedrinhas ficam comigo…
            - E aí vem algum invijoso e mata você por causa das pedrinhas, temos guerras, inveja, ganância, muita confusão e é exatamente o que não precisamos por aqui! O povo lá de fora quanto mais tem mais quer ter, e ajuntam toda sorte de coisas desnecessárias.
              - Eles são maus?
             - São tolos! Curiosos como você e este outro aí. Olham para o céu e descobrem mais do que as leis dos astros. Contam coisas e inventam matemáticas. Criam um sistema de anotar os nomes das coisas que se chama escrita, e, a partir daí, desenvikvem uma tal de ciência : quebram e destroem tudo que encontram para ver como funciona, até os bichos e as plantas.
              - Como esses desenhos na areia? O Kupe me contou uma história com esses desenhos e eu acho que posso melhorar esses sinaizinhos para..
            - Não, senhor! – o feiticeira zangou-se.
            - Isto não é bom?
           - Bom é amor com sabedoria. Bom é a vida simples. Como a nossa.
           - ???
           - Conhecimento demais é perigoso. Esses povos lá de fora matam seus homens sábios. Confúcio, Sêneca, Jesus…Só pensam no poder.
          - O que é poder?
          - É mandar nos outros. Quem não sabe amar, precisa de poder para conseguir coisas materiais.
         - E se a gente fosse lá e ensinasse a eles…
         - Sócrates tentou ensinar e eles o mataram, Platão tentou e foi escravizado.  Ah, eles são inquietos! Como você, aliás. Eles não ouviram nem Buda, nem Cristo, nem os outros sábios deles. Lá fora impera o mal: os fortes judiam dos fracos. Cada um por si, pilhando e destruindo, até o dia em que acabarão com o planeta.
            - Feiticeiro, você esteve lá!
          - Eu vivo no tempo do Sonho. Vejo cada momento que esta terra cria e recria. Vi os objetos que eles usam , de coisas chamadas plástico, isopor, materiais que,  uma fez criados, não voltam à terra e interrompem o ciclo da vida.
             - Que mais, feiticeiro?
             - Eles usam a energia dos raios para ter luz em suas casas durante a noite e esquecem de repousar. Colocam todo o conhecimento no ar, em forma de ondas invisíveis que aparecem quando eles querem, aonde querem, bastando apertar nos lugares certos umas plaquinhas que eles carregam consigo para toda parte. Chamam isso de mundo virtual, ciberespaço, rede mundial de computadores…
             Bungaree ficou pensando…
           - Com uma plaquinha dessas eu posso saber o caminho até Uluru sem decorar as canções das trilhas, ver se estará chovendo no dia da viagem, chamar meus amigos que estão caçando emu para irem lá me encontrar, quem sabe até converser com meninas bonitas para ver com qual delas eu vou casar?
                O feiticeiro suspirou, entre bravo e desiludido.
              - Entendeu tudo até bem demais…se fosse só isso, seria bom. O problema é que essas plaquinhas engolem as pessoas. Os homens ficam tão fascinados com o que estão vendo, que ficam parados, olhando para elas, e se esquecem da vida. Não se olham mais nos olhos, não se tocam, não se  ocupam das crianças e dos doentes, fazem o necessário bem rapidinho para logo voltarem a olhar para suas plaquinhas, fascinados. Mas só algumas pessoas tem as tais plaquinhas.
           - E as outras?
           - Há os escravizados, os famintos, os doentes, os drogados, há florestas destruídas e animais mortos porque eles precisam de uns metais enterrados na terra para fazer seus brinquedinhos. Bungaree, por um pouquinho de conforto, uma roupinha bonita, uma casinha confortável, um cheirinho gostoso, você acabaria com nossos bichos? Jogaria lama em nossos billabongs? Deixaria de lado os doentes e fracos e só se ocuparia da linda garotinha que quer namorar e que está olhando você de dentro de uma tabuinha mágica?
                - Feiticeiro, está tudo confuse em minha mente! Como é que uma novidade pode ser ruim? Eu gosto de novidades.
                Durante este tempo, Kupe, exausto da viagem, sonolento após a refeição, havia-se enroscado sobre um montinho de folhas, e olhava, admirado, o velho a discursar. O feiticeiro jogou algumas folhas no fogo, fez um gesto, e,  ao respirar a fumaça que foi em sua direção, Kupe adormeceu.
               - Feiticeiro, eu lhe entreguei o bastão de boas vindas. Comemos juntos. O que vai fazer com ele?
               - Sossegue. Ele não se lembrará de nós ao acordar. Vou dirigir a canoa dele para a ilha
Te Puia o Whakaari' onde há um vulcão está prestes a explodir. Vulcão, antes que me pergunte, é um buraco que se abre na terra cuspindo fogo . Seu amigo vai presenciar uma formidável explosão, seguida de um tsunami que vai larga-lo na Te Ke a Maui, a ilha norte, lá no país dele mesmo, nas imediações de um caminho que o levará a Rotorua.
              - Ro to ru a?
             - É um vulcão mais modesto, com jatos perenes de água fumegante, fumaça saindo da terra, poços de lama borbulhantes…
               - Parece assustador.
                - Assustador o bastante para convencer este jovenzinho de que sua ilha é o melhor lugar para ele ficar; se as ilhas de origem fossem boas para eles, seus antepassados teriam retornado para lá. E vou apagar da mente dele esta idéia esperta de seguir os pinguins, colocando em sua memória alguns tubarões perigosamente próximos a ele, me alto mar.
               - Feiticeiro, posso ir com ele?
               - Bungaree, ele não lhe contou? A gente dele come os miolos dos estranhos. Eles quebrariam sua cabeça para arrancar seu cérebro. E seus músculos dariam a eles uma sobremesa deliciosa.
               Bungaree gritou, horrorizado:
               - Eles comem gente? E não viram pedra? Não são punidos por isso?
              O velho quase explicou que os deuses deles…mas percebeu a tempo qe a conversa ia tomando um rumo perigoso. Quando um adolescente percebe crenças diferentes das suas, está a um passo da filosofia, aquele mesma filosofia que levou Sócrates à morte e Platão à cadeia, e outros tantos à fogueira. Sem contar que um filósofo atria discípulos, leva outros a pensarem, e discípulos de filósofos são péssimos caçadores e piores maridos. Haveria uma rebelião na tribo, e muita confusão à vista.
                Bungaree sentiu-se desconfortável com o ensimesmar do ancião, e sussurrou:
                 - Eu vou ser punido? Eu não chamei o outro menino para cá. Eu…
                O feiticeiro sorriu.
                 - Você não foi punido quando entrou na caverna proibida.
                - Ah, feiticeiro! Eu bem que desconfieie quando vi aquele lagartinho que não deveria estar lá!
               - Na verdade, Bungaree, eu era um morcego, naquele dia, e também estranhei o tal lagartinho…o menino não acha que eu ia assumir um disfarce tão óbvio, não é  mesmo?
               O garoto tornou a murmurar, com um fio de voz:
              - O que vai ser de mim, feiticeiro?

              - Bungaree, você vai para a Lutruwita (o nome dos aborígenes locais  para aTasmânia). Nesta ilha tem um bicho que você vai adorar, purinina (atualmente conhecido como diabo da Tasmânia, ou, carinhosamente, Taz), e espero que seja suficiente para satisfazer sua ânsia por novidades. E meu amigo feiticeiro lá em Putalina  vai apresentar a você uma mocinha alegre, perfeita para sua esposa.
            - Onde fica esta tal Tasmânia?
             - Bem longe, é para onde nós, os feiticeiros, enviamos os dissidentes e os rebeldes.  E, é claro, você vai esquecer tudo o que se passou aqui esta noite.
              Antes que o mocinho atirasse alguma outra pergunta, o feiticeiro jogou outro maço de folhas na fogueira. Bungaree adormeceu.
             O feiticeiro falou em voz alta:
           - Temos o nosso Sonho, nosso planeta tão perfeito. Temos consciência de que somos os guardiões do planeta, e nosso pensamento é poderoso. Pena que o ser humano não esteja pronto para a sabedoria.    Enquanto eu estiver vivo, e meus sucessores em feitiçaria estiverem vivos, nós defenderemos a Austrália, tornando nossa terra invisível. Por muitos séculos ainda, os navegantes passarão ao largo…enquanto cantamos as canções do Sonho, a Criação continua de tudo o que existe.

               Esta foi a história que sussurrou em meus ouvidos o vento farfalhante que vinha do mar.
Caía a tarde. Uma grande tristeza se apossou de mim. Por longo tempo, fiquei lá, ouvindo as kookaburras**** que se recolhiam a seus galhos. Aos poucos, o aborígenaà espreita em mim, sorriu, e tudo fez sentido. Eu me lembrei.

               Eu, o renomado físico quântico, um dos mais brilhantes discípulo
Niels Bohr. Eu, o ambientalista dinamarquês. Eu, o rico viajante que percorrera tantos países, assimilando o conhecimento e estudando as culturas de tão diferentes povos. Eu, o iogue. Eu, o cientista enviado em missão quase diplomática para as rodadas de Doha. Eu, o feiticeiro reencarnado.
            Os povos bárbaros  da civilização do plástico desprezariam o aborígena, mas certamento ouvirão o renomado cientista. Eu estou exatamente onde deveria estar. E, agora, que a terra sagrada dos antepassados despertou minha memória, eu sei exatamente o que fazer.
            Ainda há tempo.

Asterisco 1 - W. H. Edwards, An introduction to Bungareeriginal Societies
asterisco 2 – Projeto Genográfico – em estudo desde 2005 -
 National Geographic Explorer-in-Residence Dr. Spencer Wells - O trabalho científico conta com o respaldo da  Waitt Family Foundation. O projeto está previsto para ser concluído em 2014.
asterisco 3 – Lucy é o apelido que os paleontólogos deram a
 um fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974 pelo professor Donald Johanson , nas areias da Etiópia
http://www.gibberagon-e.schools.nsw.edu.au/resources/Resources/ABStudies_TRB.pdf
asterisco 4 – kookaburra é um pássaro típico da Austrália.


11 de jan. de 2014

Nova voz, nova vida.



         Lucas chegou ao trabalho ressabiado porque neste dia terminava seu período de experiência em seu novo emprego. Passara no concurso dos Correios, e, pela primeira vez, apesar de ser quem era, conseguia trabalhar. 
         Seu chefe parecia contente com ele, e os colegas o tratavam bem, embora o chamassem de fanho, o que parecia ser inevitável, com a voz que ele tinha! O melhor de seu emprego é que não precisava falar com ninguém, simplesmente saía a entregar as cartas, com a sacolinha nas costas, e, nas portarias dos prédios, mostrava os recibos e esperava que os porteiros os assinassem, interfonassem aos moradores, e sorria em resposta.    Raramente precisava falar, o que era um alívio!
         Lucas sabia que, em empresas públicas, onde se ingressava por concurso, após o primeiro trimestre, havia estabilidade. O que significava que, se ele não cometesse um crime dentro da empresa, roubando, ou batendo em alguém, não poderiam mandá-lo embora, o que lhe garantia o sustento pelo resto da vida. Ele recebia nos Correios um bom vale alimentação, uma excelente cesta básica, convênio médico e odontológico de boa qualidade; e o trabalho era em local agradável, havia sido enviado para um bairro perto da praia, bem bonito.
       A primeira parte da manhã passou rápida. Os colegas admitidos pelo mesmo concurso  estavam já festejando a estabilidade, certos de que permaneceriam ali. 
       Então, no intervalo do lanche matinal, o chefe o chamou e entregou-lhe uma intimação: ele estava sendo chamado ao ambulatório médico.
      - Você está dispensado por hoje, para ir falar com o médico.
       Lucas sentiu-se gelar por dentro. O chefe estava sorrindo, mas isto não queria dizer nada, ele poderia estar completamente indiferente à demissão de Lucas.
      - Vá logo, rapaz, o que está esperando? Vá, vá...
      Lucas não gostara do médico, desde a primeira vez que o encontrara, em seu exame admissional. O sujeito o fizera abrir a boca e comentara:
     - Ah, é por isso então que você fala assim... nunca fez cirurgia pra corrigir isso?
     Lucas negara, balançando a cabeça.
     - Já nasceu assim, não é? Porque não foi operado quando era bebê?
     - Eu nasci em casa, doutor. Sou lá do vale do Jequitinhonha, não tem médico, não...depois, eu fui vivendo assim e me acostumei.
     O médico fizera uma careta.
     - Bem, então você não tinha nada nos lábios, só na goela.
     Lucas não disse nada, não compreendera.
     - Isso que você tem é um lábio leporino incompleto, nunca ouviu falar de lábio leporino?  Nunca viu outras pessoas com marca de cirurgia nos lábios?
     Lucas não respondera, pois não compreendera o comentário sobre os  lábios diferentes. E o médico continuara:
     - Não seria bom comer sem engasgar? Falar como toda gente? Poder ir aos bailes e ir falar com as moças sem medo de que elas riam de você?
    Aí Lucas ficou mesmo muito zangado, pois era isto mesmo que acontecia com ele, e o médico não tinha nada a ver com a vida dele, porém, continuara quieto.
      - Agora você vai ter convênio médico, rapaz.
      Lucas não entendia o que o convenio médico da empresa tinha a ver com a garganta dele, deu de ombros, pegou seu ASO apto e retirou-se. Tivera medo de ser reprovado!
      Agora, três meses depois, este novo chamado...
     A secretária do ambulatório já o esperava:
     - Oi, Lucas, o doutor está esperando você, pode entrar.
     E o médico lhe comunicou, à queima roupa, no jeito apressado dos médicos:
     - Rapaz, marquei uma consulta pra você dia 15 do mês que vem, e temos então umas duas semanas pela frente para agilizar os exames preliminares: avaliação com o dentista, com o cardiologista, exames de laboratório gerais, agendar sua condução, programar sua internação...Claro que se você não puder nesta data, a gente agenda outra, caso você tenha um compromisso inadiável ou algo assim, por isso o chamei aqui.
     E como Lucas nada respondesse, o médico o encarou:
     - Lucas, eu consegui uma consulta para você em Bauru, em um hospital de cirurgia plástica especializado em casos como o seu. Não é ótimo?
     - Como?
     E a cada vez que o médico explicava, Lucas abanava a cabeça e teimava:
     - Olha, doutor, eu estou bem do jeito que eu sou, não quero operar, não, comecei agora, vou perder meu emprego.
     O doutro riu.
     - Pois foi por isso que eu só o chamei agora, pois agora você tem estabilidade e pode usar o convenio para operar! O seu chefe já está sabendo, aliás, e já sabe que vai ficar sem você por umas semanas.
      - Semanas?  Bauru? Eu nem sei onde fica isso...
      Lucas sentiu-se desconfortável. Aos dezenove anos, era um caipirão, pois passara quase toda sua vida entre gente simples, a maioria analfabeta, e saíra da casa da família depois do concurso que o colocara neste emprego. Ainda estava bem desconfortável na cidade grande, onde todos pareciam tão mais espertos que ele. Mas o doutor parecia ter resposta para tudo:
      - Claro que não sabe! E por isso nós vamos ajudar você com todos estes detalhes. Você vai agora conversar com a assistente social da empresa, a Lúcia, e ela vai explicar tudo a você, marcar as consultas, os exames, agendar a condução, porque você não vai sozinho, seria muito complicado. E a empresa quer ter certeza de que você foi bem tratado e não se perdeu pelo caminho. Hehehe... Vai ser ótimo poder comer direito e falar como toda gente, não?
     Lucas, que volta e meia se engasgava, e comia cautelosamente, sem falar na vergonha que sentia em se aproximar das moças, suspirou. O médico se levantara e o encaminhava para a porta:
     - Vá com a Lúcia, agora.
     A secretária se adiantou e disse a ele:
     - A Lúcia espera você na sala dela, ali adiante, vou mostrar onde é.
     Toda esta atenção estava deixando o rapaz inibido. Ele não estava  habituado a tanta cordialidade. Três salas adiante, uma senhora de óculos, forte, de aparência decidida, falou-lhe longamente sobre várias coisas que o deixaram tonto. O que ele entendeu é que, só Deus sabe porquê, a empresa decidira que ele seria operado o mais rápido possível, e auxiliado em tudo o que fosse preciso.
      Lucas começou a acreditar que tinha um anjo da guarda, afinal. E começou a sonhar com a cura.
     Passaram-se três meses, findo os quais, um rapaz entrou com andar firme no ambulatório. Seu sorriso era alegre, sua voz modulada e confiante:
     - Boa tarde, Raquel, estou de volta!
     A secretária olhou admirada para o rapaz:
     - Lucas! Você parece ótimo, garoto!
     Pelos próximos cinco minutos, Lucas conversou com a secretária, animadamente, e, ao cabo, foi chamado pelo médico.
     - E aí, rapaz? Arrebentando corações? Alto, bonito, e agora, bem falante... tem chances!
     Lucas comentou:
     - Posso voltar ao trabalho? Eu fiz o melhor que pude para passar neste concurso para ter uma vida melhor. Eu sempre achei que um bom emprego mudaria a minha vida. Só não pensei que a mudança seria tão grande. Agora tenho de me esforçar para ser o melhor funcionário desta empresa!
     O médico disse:
     - Bem, eu estou feliz de ver que a cirurgia correu bem, e você está curado e todo animado para voltar ao batente.
     Lucas, tímido, completou, à guisa de agradecimento:
     - O senhor mudou a minha vida, doutor!
     - É, por detrás desta mesa de médico do trabalho, às vezes eu tenho estas oportunidades...

Sobre a renúncia do Papa


A decisão

Se Deus, em sua sabedoria, dotou o Homem de um inconsciente, deve ter tido para isto sérias e incontáveis razões.

 

         O Papa perdeu a fé!
         Acordou certa manhã convencido de que Jesus era um avatar de Brahma e procurou avidamente pelos livros antigos do Oriente existentes na biblioteca do Vaticano.
         À sua memória vinha a imagem do Dalai Lama, seu sorriso simples, seu olhar alegre, como o do Papa nunca fora, e as palavras do Dalai Lama lhe pareciam mais apropriadas, mais verdadeiras que as suas.
         Por outro lado, recentemente, encontrara-se com os mais sábios rabinos, estudiosos da Torah, e lhe parecia que eles entendiam melhor que ele, Papa, o Antigo Testamento e o tal Jeovah.
         Quanto mais pensava, mais o Papa se confundia, a ponto de achar que a magnífica pintura da Criação na Capela Sistina se referia a Zeus a à primeira geração de homens.
          O Papa sonhava estar em Mu, em Atlântida, à beira de um vulcão polinésio, reverenciando estranhos animais em coloridos totens.
          Enfim, parecia ao Papa que todos os símbolos eram valiosos, e que as religiões pagãs reivindicavam a posse de sua alma, enquanto as escrituras cristãs empalideciam como falsificações baratas. 
           Estamos no reino pagão de Manon, entre povos que cultuam Pluto e Afrodite, dissera-lhe o sábio rabino  Adin Steinsaltz, em uma conversa lligeira em que discutiam sobre o Talmude.

             Olhando a seu redor, para qualquer país do mundo, o Papa encontrava os cultos ao corpo, ao sexo, aos prazeres dos sentidos, aos ritos religiosos apenas aparentes.
          Basta calar-se e ouvir o seu coração, pois dentro dele está a Verdade – sussurra-lhe da estante do Vaticano, a biografia de Sidarta Gautama.
        E todo aquele ouro, todo aquele luxo do Vaticano, todas aquelas preciosas peças de arte, o que aquilo tinha a ver com o humilde carpinteiro de Nazaré? – gritava-lhe a voz da própria consciência.
          Quando olhava para os seus pares, o pontífice via todos os vícios, da vaidade à pedofilia, e, em todos aqueles rostos orgulhosos, como pecado maior, a ignorância. Justamente a ignorância que os budistas afirmavam ser a causa de toda infelicidade neste mundo.
          O Papa não queria mais ser ignorante, não queria mais sofrer.
          No Vazio de seu coração, o Papa sofria, por entender o que entendia e por não entender o que queria tanto entender.
           Quanto mais pensava, menos compreendia, e sentia-se louco.
          Um louco que desejava amor, luz, fé.
          Um louco que precisava desesperadamente de coerência em suas duas vidas, a interna e a externa.
          O Papa descobriu que não era livre. Seus pares, seus ritos, seu país o aprisionavam. A única rota possível era para dentro.
           Em seu coração, o Papa procurava Deus.
           Deus estava lá, simples, bom, acolhedor, e parecia lhe dizer:
         Meu filho, quanta loucura! Eu não escrevi esses livros, não me meti nesses assuntos espinhosos, eu lhe disse tão claramente para que se ocupasse apenas com as coisas de Deus!
       O Papa, que já não sabia mais do que se tratavam essas coisas de Deus, ou talvez soubesse por fim, impotente, renunciou.uncia 

Reflexões sobre um tema de Kipling

                                               Reflexões sobre um tema de Kipling


          Kipling tem razão em seu poema: ‘não se deixe iludir pela derrota nem pelo sucesso, estes dois impostores’. A vida está além do fracasso. A vida está além do sucesso. A vida acontece em um tempo for a do tempo. É o eterno retorno de Nietzsche. É o tempo do sonho dos aborígenes. É o estado meditative de um Buda. Vá a um lugar selvage, sente-se no interior de um bosque, fique lá bem quieto ouvindo os pássaros, observe as águas de um lago, sinta-se parte da natureza: isto é a vida.
Meu curso de ingles me introduziu aos discursos de famosos nas formaturas de grandes universidades; excelente recurso para acostumar os ouvidos às frases complexas do idioma, for a do context literário. Primeiro, Steve Jobs, a seguir Ophra e Rowlings. Curiosamente, todas estas pessoas falaram sobre o fracasso.
          Reformularam o conceito de fracasso para aprendizado, oportunidade para iniciar um novo caminho, um sinal enviado pela vida avisando que é hora de mudar. O foco, no entanto, continuava a ser o sucesso, postergado para um pouco mais adiante, enquanto a pessoa amadurece e fica pronto para receber o premio pelo seu trabalho.
          O fracasso, na compreensão popular,  é, apesar de todos os esfroços,  não atingir o alvo; é morrer na praia, como diz o povo.
          Afirmava Jung que, no destino de cada homem, há um fato desconhecido, imprevisível, além de toda lógica, perturbador.
          Minha geração, que viveu a década perdida do século vinte, conhece bem o assunto. Depois de anos de estudo, esforço, dedicação ( e esperanças malogradas), muitos iniciaram novos empreendimentos, muitos mudaram de profissão – novos anos de aprendizado, estudo, esforço, dedicação. Seguimos à risca a cartilha. Persistência e coragem não nos faltou. Nem desafios, sobretudo os econômicos. Se lucramos, foi espiritualmente. Ficamos mais simples, mais humildes, mais tolerantes, mais compassivos.
          Como não valorizar o lazer familiar se o dinheiro era curto? Como não perceber que as melhores coisas do universo são gratuitas, se não havia outra opção? Lá íamos nós com os filhos, para a praia, a tomar sol, pelos jardins públicos, admirando os pássaros…lazer gratuito. Como não passar bastante tempo brincando com as crianças, de preferência com jogos verbais, atividades físicas, brincadeiras tradicionais, canções e arte com sucata, se precisávamos poupar cada moeda para evitar as dívidas? E, como não queríamos crianças deprimidas e ansiosas, sorríamos e assumíamos o discurso da coragem: o amor é o mais importante, unidos superaremos todas as crises, somos afortunados se temos o necessário. (na verdade, chorávamos no banheiro)
          A guerra econômica destruiu muitas carreiras, talentos e sonhos. Minha geração ainda trabalha duro, além dos sessenta anos, sem conseguir enriquecer, sem usufruir os frutos de seus esforços, porque investimos – alguns ainda estão investindo – tudo o que o imposto e a inflação n               ão devorava, na educação de nossos filhos.
        Filhos que encontraram um mundo com mercado de trabalho promissor em áreas novas, como informática – o computador pessoal é recente – e economia estável. Filhos que têm seu talento reconhecido, que se firmam economicamente aos 20 anos e aos 30 têm um nível de vida excelente – casa, carro, parafernálias eletrônicas e aplicações rendosas no banco.  Hoje há leis de proteção ao patrimônio e o governo não pode confiscar seu dinheiro, como ocorreu no passado.
          Sinto uma tristeza enorme ao ver essa geração arrogante olhar para nós, os velhos, que não conseguem se aposentar, alguns arcando com pais idosos e doentes, outros ainda pagando prestações da casa própria ou pela educação dos filhos mais novos; essa geração, dizia eu, olha para nós, os velhos, como fracassados. Para eles, não fomso ‘espertos’ o suficiente. Mesmo porque gente como eu costumava aprender no berço o que se chama ética.
          Muitos de minha geração moram com os filhos, estes ‘devoradores de patrimônio’, para cuja formação profissional canalizaram a sofrida poupança.
          Esta geração que está aí não valoriza nossa experiência porque hoje tudo se goggle – verbo gogglar – desprezam os mais velhos por medirem o valor das pessoas por sua conta bancária. Não percebem, até mesmo desconsideram os noticiários, tantos ‘bem sucedidos’ e famosos, cujo mérito único consiste em praticar um esporte ou ter um corpo lindo, que se destróem pelas drogas, pela promiscuidade, pelo comportamento equivocado que leva alguns ao suicídio e até mesmo ao crime. Não percebem que aqueles que aqueles que permanecem equilibrados e felizes com a fama o seriam, mesmo sem a riqueza, por terem valores mais sólidos. Compreendo , contudo, sua avidez pelo dinheiro, pois meus filhos viveram a pobreza, que é tudo, menos romântica.
          Fico triste porque meus anos de estudo e trabalho não me trouxeram o lucro almejado, a casa idealizada. Não acredito que eu fosse menos humana, espiritualizada ou amorosa, se houvesse enriquecido. Do meu ponto de vista, o dinheiro não corrompe, revela. Concordo com Machado de Assis: ‘a ocasião  faz o furto, o ladrão já nasce feito’. Eu seria como Ophra, e outros tantos ricos atuantes nas causas dignificantes do mundo.
          Sim, Kipling, o sucesso e o fracasso são dois impostores. O valor de um homem está em sua alma.No entanto, deste impostor, o fracasso, cujo sentido não consigo reformular, fica o sentimento bem traduzido na poesia de Drummond:
‘… mas como dói!’.

Se as cartas mentirem, vale uma ajudinha.

( brincando com um tema de Machado )

Corria o ano da grace de 1870, quando, em uma casa da rua da Guarda Velha, bem conhecida pelos amantes sofredores, entrou uma moça de aparência frágil e roupas elegantes.
Séria, decidida, passou pelo portão sem olhar para os lados, sem pressa nem vagar, ao contrário da freguesia habitual, parecia não esconder-se nem temer a ninguém.
A cartomante abriu a porta, estudou a visitante rapidamente, com olho profissional, e, levemente entediada, indicou-lhe onde sentar e pegou o baralho.
- Primeiro me diga o preço.
- A senhora me dê a quantia que agradar a seu coração.
- Não, isso não está certo, eu trouxe um pouco de dinheiro, mas, se achar o preço caro, desisto agora.
- São dois mil réis – a cigana escondeu a decepção; era depois das consultas, satisfeitos, que os clients mostravam-se mais generosos.  Talvez, afinal, não fosse cigana, mas usava o lenço, a saia colorida e os colares característicos, para compor o visual que ajudava na profissão.
A moça lançou-lhe um olhar agudo, quase acusador:
- Era você que deitava as cartas para a Rita?
- Que Rita?
- Minha prima Rita, esposa do Vilela, que morava lá pelos lados de Botafogo.
- Você não me disse o seu nome nem eu perguntei; muitos clients preferem assim.
- Rita foi assassinada, não soube? Há alguns meses.
- Sinto muito.
- Ela havia consultado uma cartomante, algumas semanas antes de morrer. Foi você?
- Como vou saber? Muitos clientes, como eu disse, não me dizem o nome.
- Esta cartomante errou feio, disse para minha prima que tudo estava bem, e o marido o tempo todo desconfiado do amante.
- É por isso que a menina veio hoje? Pelo amante?
- Que idéia! Sou solteira e honesta.
- Há um rapaz muito bom interessado em você – começou a cartomante, virando a primeira carta.
- Espere, primeiro me prove que diz a verdade.
- O futuro…
- Fale-me do passado, do presente.
_ ….
_ Se você acertar o passado e o presente, sei que poderei confiar no que me disser do futuro.
A cartomante, olhos baixos, retirou a segunda carta:
- A mocinha sofreu recentemente um grande desapontamento… - pausa.
A outra, calada, não descartou nem confirmou. Veio a Terceira carta:
- Vejo a seu lado uma mulher mais velha, que apóia sua atitude…
- Mais clareza, por favor! Atitude! Que atitude? Desapontamento… não consegui minhas entradas para meu lugar favorite no teatro? Meu time de futebol perdeu? Que me desapontou, família, trabalho, amigos, quem?
- Desapontamento no amor, no amor – exclamou a cigana.
- Não diga! E esta mulher mais velha, quem seria? Vizinha, parente?
- Sua irmã.
- Muito bem, eu então sofri um desapontamento amoroso e minha irmã apoiou  minha atitude, seja lá o que você queira dizer com isso, e quanto ao presente?
- Presente?
- Sim, presente, agora, depois que minha irmã secou minhas lágrimas, o que acontece?
- Neste momento… há um homem mais velho interessado em você.
- Bobagem! Mais velho! Idade de meu avô, ou apenas um dia mais velho? Quem sabe, uma hora mais velho?
- Alguns anos mais velho. – a cartomante pegou o lenço e enxugou o sour que começava a correr pela testa. Seus clientes rotineiramente eram vítimas masi dóceis.
- E o que faz esse homem mais velho?
- Tem um amor sincere por sua pessoa.
- Muito bem, agora o futuro, afinal, é pelo futuro que eu vim aqui, para que me fale do futuro.
Novo embaralhar de cartas. Nova leitura dos arcanos.
- Uma longa viagem em futuro próximo, possivelmente ainda este ano, provavelmente para um país exótico do oriente.
A garota suspirou:
- Que mais?
- Dinheiro, não muito, mas o suficiente para resolver os seus problemas financeiros…
- Tolice, sou rica, não tenho problemas financeiros. Quero a resposta ao que me trouxe aqui.
A adivinhadora embatucou. Falara de amor, de dinheiro, de viagens… o que faltava?
- Sua saúde está perfeita. Este probleminha de momento é apenas uma indisposição passageira, como o seu medico…
- Ora, por favor! A minha resposta!
- Mas, afinal, criatura de Deus, o que deseja saber?
- Tudo. Bem que o Machado avisou: é charlatanice, lembra do que aconteceu com a pobre da Rita, e possivelmente com o Camilo…
- Camilo?
- O amante. Morreu no mesmo dia, assassinados os dois pelo marido.
- Há muitas outras cartomantes aqui no Rio, muitas outras por aqui mesmo, nesta mesma rua. Certamente não é de mim que você fala. Eu sempre acerto.
- Sempre engana, isso sim! Eu nunca tive decepção amorosa nenhuma, sou muito feliz com meu vizinho e primeiro namorado, de quem estou noiva. Sou filha única, pelo que sei. E com meu pai acamado, dependendo de mim para tudo, não posso sair da cidade, quanto mais ir ao oriente… E nunca estive melhor de saúde.
A falsa cigana ergueu a voz, revirando os olhos, com gestos amplos:
- Sua descrente. Seu desdém confundiu as cartas. Seu pensamento negativo …
- Exigo meu dinheiro de volta!
- De jeito nenhum! E a hora que perdi com você?
- Eu é que perdi minha tarde. O que eu queria saber é se a editor vai aceitar os originais de meu livro!
- Livro?
- Sim, eu sou escritora, e meu amigo Marcos, um crédulo supersticioso adorável, insistiu para que eu viesse aqui, já que mal não faz…
Tanta mulher poderia ter aparecido nesta tarde, como em tantas outras, perguntando das mazelas do cotidiano, mas quis o azar que a cliente fosse uma dessas mulheres liberais, com idéias! O rosto da cartomante empalideceu, amarelou, depois arroxeou horrivelmente, quando a moça acrescentou um último insulto:
- Uma fraude, é o que você é. Incapaz de prever o future de um mosquito que seja.
- Pois eu prevejo sua morte em breve. Assassinada.
A mocinha riu, mas por pouco tempo. A cartomante pulou em sua direção, agarrou seu pescoço e a esganou.