PREFÁCIO
A EDUCAÇÃO E OS VALORES
Escrevo para meus netos, se um dia eu tiver algum, estórias sobre nossa família, pois acredito em nossa postura diante da vida.
Quando eu era criança e fazia alguma coisa errada, meu pai não gritava, não batia nem castigava. Ele me olhava direto nos olhos e no seu jeito carinhoso perguntava:
- Você acha que o que você fez está certo?
As lágrimas brotavam e eu soluçava arrependida. Eu faria qualquer coisa para agradar aquele homem bom.
Crianças pequenas fazem realmente qualquer coisa para agradar os adultos que amam. É nessa época que podemos influenciá-los. Na adolescência será tarde demais.
Hoje, quando minhas filhas dizem que a maioria faz/pensa/age assim ou achado eu respondo:
- Maioria quer dizer mediocridade. Para vocês eu quero o melhor.
Minha mãe por sua vez era uma disciplinadora rígida tão exigente quanto um treinador olímpico, a quem eu perguntava angustiada:
- Se todos treinam para ganhar e só há um primeiro lugar, o que acontece depois com os outros? – pois, para mim, aos derrotados só restava o suicídio.
Minha mãe, no entanto, não via humilhação na derrota:
- Ao menos tentaram. Só o fato de estar competindo nas Olimpíadas é uma glória. Eles podem carregar por toda a vida o orgulho de terem participado da competição, e sempre podem melhorar seu desempenho e tentar de novo. O importante é progredir.
Para aprender a acertar, é preciso errar. Acredito que as crianças aprendem a ser responsáveis quando fazem suas próprias escolhas e têm de arcar com as conseqüências de seus erros. Os erros nos direcionam para escolhas mais adequadas.
Assim, educar é ensinar a escolher.
Um ser humano saudável escolhe o sucesso. A vida é um constante aprimoramento pessoal, uma viagem em busca da excelência.
ÍNDICE
MANHÃ DE PÁSCOA 5
OS PRIMEIROS PASSOS 7
O DEUS DA PORCELANA 10
A FESTA DAS ESTRELAS 12
HISTÓRIA E FOLCLORE 16
CADERNOS DIVERTIDOS 18
POESIA PORTUGUESA 21
JORNAL MURAL 25
CARNAVAL NA FLORESTA 27
CALENDÁRIO DA PEDRA 33
VAMOS À ÓPERA? 30
ROTEIROS DE VIAGEM 35
GERTRUDE STEIN, MATISSE E PICASSO 44
PARA SEMPRE, MINHA PRINCESA 46
MANHÃ DE PÁSCOA
O cheiro de chocolate acordou Sofia. Aquele domingo era o seu dia preferido do ano, ansiosamente esperado e planejado.
Um coelhinho dourado, em trajes azul e vermelho sorriu para ela, na mesinha de cabeceira. Atrás dela, um ovo embrulhado em papel verde brilhante, da Kopenhagen. O coelhinho com certeza era presente da vovó e o ovo, do papai.
Sofia desembrulhou o coelho e mordeu-lhe a orelha, antes de começar a buscar pelas surpresas espalhadas pela casa. Ao ajoelhar-se no colchão para abrir a janela, a primeira surpresa. Seus pés esbarraram em uma caixa grande, com um cartão simples: ‘Feliz Páscoa, Sofia. Do Coelho da Páscoa.’
Curiosa, Sofia rasgou o embrulho e soltou uma exclamação de alegria: um tabuleiro de xadrez, com lindas peças entalhadas, umas em madeira clara e outras em madeira escura, cheirando a verniz.
Nas últimas férias, ela aprendera os primeiros lances com um garoto hospedado como ela em um hotel em Campos do Jordão. Era um jogo inteligente para pessoas inteligentes. Sofia levantou e correu ao quarto dos pais.
- Ai! – ao abrir a porta, dera de cabeça no ovo pendurado à frente, balançando na ponta de um barbante preso ao batente. Isto era coisa da mãe.
Cristina reclamou, sonolenta:
- Barulhenta! Volte para a cama!
- Hoje é Páscoa, você esqueceu?
- Olha! – Cristina já estava bem desperta, os olhos arregalados procurando do seu lado da cama o seu quinhão de chocolate.
- Sofia, o coelhinho trouxe um presente para mim. O caleidoscópio que eu queria!
Papai estava a caminho pelo corredor, e os três se abraçaram a rir e a falar ao mesmo tempo.
- Deixem mamãe dormir mais um pouco, meninas. Ainda é muito cedo.
Mas não era cedo demais para procurar ninhos. Na cozinha, no escritório ou na sala, em algum lugar havia ninhos de palha. Este ano eles estavam atrás do sofá, com um saco de deliciosos bombons para cada uma.
- Você está fervendo leite, pai? Bem quentão?
Pois o café da manhã da Páscoa era chocolate quente. As meninas derretiam pedaços de ovos de chocolate no leite fervente, com canela, granulado ou creme, ao gosto de cada uma. Claro que havia pão com queijo e frutas, como em todas as manhãs, mas o chocolate quente tornava esta refeição especial.
Desenhos de coelhos enfeitavam as portas dos armários e as paredes da cozinha; cestinhas de cartolina enfeitadas pelas meninas com purpurina e recortes de coelhos enfeitavam a mesa. Dentro dessas cestinhas havia ovos coloridos de vermelho e verde, ovos de galinha cozidos com beterraba ou espinafre para ficarem coloridos. As meninas não tinham dinheiro para presentes, assim elas enfeitavam a casa e ajudavam na comida. Sofia lera sobre os ovos cozidos em uma revista. Além disso, haviam feito na escola marcadores de livros com caras de coelho. Papai usaria estes marcadores em sua agenda durante o ano, e mamãe colocaria o seu no livro de receitas.
- Vamos levar café na cama para mamãe, meninas?
Papai arrumou a bandeja e as meninas foram atrás dele cantando as músicas de Páscoa que conheciam.
Mamãe, é claro, já acordara com a barulhada e estava se arrumando em frente à penteadeira quando elas entraram.
Nas mesas de cabeceira havia um ovo de cada lado e só de um lado, um coelhinho.
- Vovó não lhe deu um coelho, papai?
- Deu, sim, mas eu já comi.
- Acordei às duas da madrugada com o seu pai devorando o coelho – fofocou mamãe – Ele não pôde esperar até de manhã.
- Papai é guloso! Papai é guloso!
- Só eu, né? Vocês não comeram chocolate ainda, não?
- Só um pouquinho – riram as meninas.
Cristina pegou uma tesoura para cortar os barbantes dos ovos pendurados à porta do quarto. Depois elas abriram os ovos para olhar os bombons e procurar pelas surpresas – pequenos bichinhos de plástico. Sofia achou um urso e Cristina, um gato.
O almoço de Páscoa, na casa dos avós, reuniu os primos, os tios e alguns conhecidos da família, que ofereceram pequenos mimos às crianças.
Ao final da tarde, regressaram e Sofia correu à casa de sua melhor amiga e vizinha de porta, Rosa.
A mãe de Rosa era austríaca e suas receitas eram deliciosamente diferentes. Sua casa cheirava a tortas de maçãs e de ameixas. Havia vasos de cristais com belos arranjos de flores e peças de prata com guardanapos de linho branco ao lado de cada prato.
- Ganhei um jogo de xadrez, Rosa. Você vai aprender a jogar xadrez comigo.
- Xadrez? Eu também posso jogar? – perguntou Nélson, pai de Rosa.
- Claro, mas o senhor vai ganhar todas, deve saber jogar muito bem!
- Eu ganhei livros – contou Rosa – Livros do Monteiro Lobato.
As duas sentaram-se folheando com carinho aqueles preciosos objetos, admirando as gravuras.
- Qual vamos ler primeiro?
- O saci – sugeriu Sofia – Esse saci deve aprontar um monte!
Sofia era fascinada pela biblioteca de Nelson, aonde as meninas entravam pé ante pé, no maior respeito.
Na escrivaninha ao centro, Nelson tinha um globo, onde mostrava para as meninas os países e os oceanos do Planeta Água, o que sempre fazia Sofia sorrir e comentar:
- Terra, seu Nélson , senão a professora bomba a gente de ano.
- A professora não é muito observadora, não é? – e Nélson piscava os olhos para as meninas.
Naquelas estantes havia deliciosas histórias de aventuras, de viagens e de bichos, a coleção inteira do Tarzan, histórias de mistérios, de detetives, romances que elas não deviam ler ainda porque não era apropriado para a idade delas, Atlas, enciclopédias, dicionários, alguns livros estrangeiros, e – ai, que luxo! – uma pequena estante para os livros infantis de Rosa e sua irmã Rosália.
Fiona, a mãe de Rosa, guardava ali também os álbuns de fotos da família e sua caixa com riscos de bordados e recortes de revistas. Ela ensinou as meninas a usarem papel de seda transparente para copiarem os desenhos, e Rosa copiara alguns coelhinhos muito bonitos daquela coleção para usar nos desenhos que fizera em sua casa em papel branco e grosso, para depois colorir com tinta guache.
Sofia considerava Fiona e Nélson como segundos pais e Rosa como sua irmã. As duas meninas se conheciam desde sempre.
Às sete horas, como era domingo de Páscoa, não houve janta, e sim um belo lanche. Ao centro da mesa, um belíssimo bolo de chocolate, decorado com ninhos de fios de ovos recheados de confeitos coloridos.
- Eu só vou sentar para fazer companhia, senão expludo de tanto comer e a gula é pecado – explicou Sofia.
Fiona bondosamente colocou em um prato uma bela fatia de bolo e um pedaço de torta de maçã, um Apfelstrudel, nome que Sofia não conseguia pronunciar, e ofereceu:
- Leve para comer amanhã de manhã.
Os pedaços eram grandes o bastante para que toda a família de Sofia pudesse experimentar e a menina agradeceu satisfeita, suspirando de satisfação.
Como era bom estar rodeada de pessoas carinhosas e alegres, se divertindo juntas. Havia chocolate para muitos dias. O melhor fora o tabuleiro de xadrez, que a acompanharia pela vida afora, proporcionando-lhe inúmeras alegrias, como troféus, medalhas e viagens, na companhia de bons amigos, em torneios pelo estado afora, em sua adolescência.
OS PRIMEIROS PASSOS
Certa tarde de sábado Sofia e Rosa se trancaram na biblioteca de Nelson, com suas agendas. As agendas estavam em moda. Ao invés de escrever confidências melosas começadas com ‘meu querido diário’ as garotas colavam ali fotos, recortes de revistas, ingressos de cinema, convites, cartões, fazendo um resumo ilustrado de suas vidas. As agendas ficavam gordas com as colagens e nem fechavam direito, e algumas meninas ainda pintavam, desenhavam ou jogavam purpurina pelas páginas. É claro que também escreviam
- Eu fiz algumas poesias, Sofia. Quero que ouça. – e Rosa declamou:
PÃEZINHOS
Vou fazer pãezinhos
Bem pequenininhos
Vou ajudar a vovozinha
Que está ficando velhinha.
Faço pães de goiabada
E lambo os dedos, regalada !
Enrolo pães de torresmo,
Queijo, banana, passas ...
Não vai faltar nada mesmo
Para um gostoso lanchinho
Comer bem devagarinho.
Como é tão bom ajudar
A vovó pãezinhos assar !
- Quer ouvir a minha? – e Sofia leu, imitando as vozes dos feirantes em seus pregões:
MOÇA BONITA NÃO PAGA _ MAS TAMBÉM NÃO LEVA.
Aos quatro cantos
Da feira de Santos
O vendedor anuncia
Sua mercadoria :
- Olha o coco da Bahia !
- Olha a banana ouro !
- Laranjas de Bebedouro !
Os legumes - um encanto !
Todos bem arrumadinhos,
No capricho empilhadinhos.
Verduras por todo canto.
A barrada de flores
É uma festa de cores.
Lírios, palmas, rosas, cravos,
Tantos buquês perfumados !
Olha o menino guloso
Para a barraca de bolachas
Onde há delícias para todos os gostos :
Bolos, balas e cocadas.
E na saída da feira,
Sentadinha em uma esteira,
Vende a velhinha bordados,
Toalhas e panos de pratos.
- Dez, amiga! Agora mais uma das minhas:
SEGRÊDO
Mamãe me pediu para guardar um segredo
De perdê - lo tenho eu muito medo
Quase que estou a vê - lo
Esgueirar - se, silencioso
Para fora do meu bolso
Aonde guardá - lo ?
Na gaveta do quarto ?
É muito arriscado
Pode a maninha
Ir fazer - lhe cosquinha.
Vais ficar curioso
E até furioso
Mas não vou contar
Não irei revelar
O meu segredinho
Vou guarda - lo com carinho.
- Está muito engraçado, Rosa. Agora ouça esta:
CUCO
É o encanto da criançada
A janelinha fechada
Lá na parede da sala –
E de repente ela estala.
E por trás da janelinha
A gente logo adivinha
Um passarinho maluco
A saltitar: cuco! cuco!
Depressinha ele se esconde
Quem se distraiu, não viu!
Onde está ele? Onde? Onde?
Cantou ligeiro e sumiu!
Rosa aplaudiu:
- Amigas, nós somos boas! E se pedíssemos a opinião de meu pai?
- Por mim, tudo bem. Eu sei que ele vai gostar. Nós temos o dom. Vamos perguntar a ele.
Quando se levantaram, no entanto, foram surpreendidas por Nelson, que, deitado na rede, ria para elas.
- Suas convencidas! Eu estou aqui, ouvindo, e gostando do que ouço destas nada modestas mocinhas.
- Oh, papai, se nós disséssemos outra coisa estaríamos mentindo. E você estava nos espionando, que feio!
- Que idéia! Eu já estava aqui quando vocês entraram, tão entretidas com seus segredos que nem me enxergaram.
Rosa estava envergonhada. Sofia riu, as faces quentes e vermelhas:
- Nós seríamos péssimas espiãs, Rosa! Ainda bem que não temos nada a esconder.
Nélson sugeriu:
- Vocês poderiam declamar estas poesias no aniversário de Rosália e ver a reação das crianças. O melhor crítico é o público. E seria um presente diferente, não é?
Rosa vacilou, mas Sofia comprou a idéia no ato:
- Posso pegar umas frutas de plástico e alguns panos de prato da mamãe e me vestir com a velhinha da feira. E também podemos decorar algumas poesias infantis da Cecília Meireles, do Manuel Bandeira, tem umas legais traduzidas pela Tatiana Belinki no livro Di-Versos Russos... Vamos ensaiar. Rosa!
E como o aniversário de Rosália era na próxima semana, elas ensaiaram todos os dias, às escondidas. Nelson estudara teatro quando moço e ajudou as meninas a melhorarem gestos e vozes.
Rosa utilizou uma bandeja com pãezinhos que a mãe assara para a festa quando declamou sua poesia e assim ‘ilustrou’ o seu texto. Os pãezinhos sumiram quase que imediatamente para dentro de boquinhas gulosas.
Os pais presentes também aplaudiram e elogiaram as garotas, que se sentiram muito importantes com suas primeiras poesias e sua primeira apresentação pública.
O DEUS DA PORCELANA
A professora Adriana reunia as crianças e deixava a sala escura. Colocava uma criança no meio da sala e iluminava seu rosto com o facho de uma lanterna dizendo alguma coisa como:
- Raiva
E a criança tinha de fazer uma expressão de raiva. Algumas contorciam o rosto de um jeito bem engraçado. Para a próxima criança ela dizia algo completamente diferente, como:
- Surpresa!
Ninguém sabia qual emoção a professora ia pedir até que ela acendesse e lanterna e falasse: Prazer! Medo! Vergonha! Alívio! Alegria!
Em todas as aulas havia uma variação do jogo da mesa. Vinte objetos eram colocados sobre uma mesa e uma criança olhava com atenção por um minuto. Então algum colega a levava para fora da sala e a professora Adriana acrescentava um objeto. Ou retirava algum. Ou trocava dois objetos de lugar entre si. Ou movia apenas um dos objetos. Ou deixava tudo como estava e podia ou não movimentar alguma outra coisa na sala, como fechar as cortinas. Ao voltar, a criança tinha de dizer o que estava diferente. Ninguém sabia se o objeto seria trocado, retirado, acrescentado ou não. E às vezes a professora repetia o mesmo padrão duas ou três vezes seguidas. Era preciso prestar bastante atenção.
Isto acontecia no Conservatório Musical Lavignac, onde Sofia e Rosali aprendiam música. A professora Adriana chamava estas aulas de Iniciação Artística, Cleide dizia que eram aulas de mímica, Fiona achava que se tratava de expressão corporal e, para as meninas, tratava-se apenas de brincar. E como era bom!
Um dos melhores exercícios era quando todos se sentavam em círculo, a professora contava uma estória e dizia a todos que imaginassem a estória acontecendo no centro do círculo:
- Usem a imaginação, crianças.
Ela ilustrava a estória com sons de sinos, tambores, chocalhos etc Deixava que as crianças participassem da sonoplastia. Distribuía instrumentos de percussão como triângulos, pauzinhos, reco-recos, xilofones, e cada uma por vez era convidada a fazer os diversos sons: o canto de um passarinho, as pegadas de um urso, a chuva caindo, o vento, a tristeza, o medo, a pressa, a preguiça, o entusiasmo...
Às vezes a professora ensinava pequenos trechos musicais, onde cada instrumento tinha sua frase e sua hora, e todos tocavam juntos. De outra vezes uma criança criava um som para o colega e um dia cada uma escolheu um som para si mesma.
Sofia e Rosa repetiam os exercícios em casa, descobrindo sons para todas as estórias que conheciam e para todas as emoções que sentiam. Ás vezes usavam lápis de cores e juntavam sons e cores para se expressarem sem palavras.
Um dia Sofia disse que estava pluct.
- Como assim? O que é pluct?
- É que estou sentindo uma emoção nova, que ainda não tem nome.
- Bobagem! – reclamou Rosa – Toda emoção tem nome.
- Nenhuma emoção tinha nome até que alguém inventou um.
No dia seguinte, no entanto, foi Rosa quem entrou em casa de Sofia dizendo:
- Hoje estou absolutamente rauche! É uma mistura de raiva com uma enorme tristeza e assim uma vontade de dormir cem anos!
- Bem, eu acho que pluct foi assim uma mistura de alegria, preguiça e curiosidade.
- Puxa, Sofia, você não quer saber por que estou com raiva e triste?
- É porque você tirou a segunda melhor nota em matemática e a primeira nota foi da tonta da Isaura, que copiou a matéria do irmão mais velho.
- Como é que você sabe?
- Nós somos amigas, esqueceu?
Iam aprendendo piano e canto, sem tanto entusiasmo quanto aprendiam as coisas estranhas que Adriana ensinava.
Um dia, na aula de Iniciação Artística, elas dançaram com véus longos e vermelhos a furiosa dança do fogo. Outro dia correram como folhas ao vento. E a professora começou a organizar um teatro sem palavras, contando uma lenda muito antiga. E quando a peça estava bem ensaiada, as crianças se vestiram com malhas da cor da pele, por cima das quais iam colocando e tirando adereços, como lenços, colares, roupas coloridas etc. Os pais foram assistir e aplaudiram, pois a estória, que resumo aqui, comoveu a todos:
“Certa vez, em um país muito distante, a China, vivia um homem que fazia vasos. Ele se chamava Ching Liu. Fazia também pratos, xícaras, estátuas, tudo moldado em barro e pintado com cores vivas. Tão belas eram suas obras que gente de todo canto vinha procurá-lo para aprender a arte de moldar o barro ou comprar suas produções. Ching Liu aceitava como alunos os mais talentosos jovens de toda a China. Cobrava pelas aulas um preço razoável e vendia seus vasos por um preço elevado, e ia prosperando. Ora, na província vivia uma princesa, muito mimada e muito vaidosa, que queria conhecer de perto o artista de tão belas obras que adornavam muitas salas de seu palácio. Assim, ela foi procurar Ching Liu em sua própria casa e conhecer a oficina onde ele trabalhava. Ficou encantada, e falou:
- Vou encomendar a você um vaso, mas tem de ser o vaso mais lindo de todo o mundo. Deve ter as cores mais perfeitas, ser macio ao toque e as pessoas desenhadas nele devem parecer reais.
Ching Liu trabalhou muitos dias e muitas noites o barro mais macio que encontrou, triturou e misturou pedras e sementes escolhidas com o maior cuidado para fazer as tintas mais puras. Moldou o barro com toda a atenção, preparou o fogo com a lenha das mais perfumadas árvores e colocou o barro para cozer. Finalmente levou para a princesa o mais lindo vaso que jamais fizera.
A princesa, no entanto, olhou com enfado e afirmou:
É realmente um lindo vaso, mas não está perfeito. O oleiro voltou para a sua oficina e dedicou-se a fazer um outro vaso, ainda mais bonito que a anterior, para a insatisfeita princesinha. Depois de quinze dias retornou ao palácio, com um vaso tão belo que arrancava suspiros de admiração por onde quer que passasse. Todos os funcionários do imperador ficaram de boca aberta ante tão perfeita obra-prima. A princesa exigente, no entanto, bocejou:
- Ora, vê-se de longe que é um vaso, bonito como os outros, mas longe de ser perfeito.
Muito triste, o artista voltou para casa e tornou a preparar com capricho o barro mais puro e suave ao toque, as cores mais alegres e perfeitas. Moldou, desenhou, pintou e retocou a peça, deixando-a pronta para ir ao fogo. Mandou então um recado à princesa, para que ela o procurasse na manhã seguinte. Despediu todos os seus alunos e, sozinho em sua oficina, ajoelhou-se diante do forno e rezou ao fogo:
- Fogo, criador de belezas, purificador e transformador da vida! Eu te ofereço o meu bem mais precioso para que me dês em troca o vaso mais perfeito que alguém jamas viu neste mundo!
Na manhã seguinte, os alunos não encontraram o mestre em parte alguma. Abriram o forno e lá se depararam com um vaso perfeito, macio ao toque, encantador, pintado com as cores mais naturais. Nele os pássaros pareciam cantar, a grama parecia oscilar, a pele das moças que dançavam nos campos era da cor exata da pele humana e os olhos pareciam seguir a pessoa que olhava. Seus gestos eram tão naturais que pareciam pessoas de verdade, com roupas de verdade, em uma paisagem de verdade.
A princesa chegou e deu um grito de alegria:
- Perfeito! Era exatamente o que eu queria! – e sem nem ao menos perguntar pelo artista, ela pegou o vaso e retirou-se para o palácio.
Só então os alunos perceberam o montinho de cinzas em frente ao forno e compreenderam que o artista dera sua vida em troca da perfeição de sua arte.
Foi assim que Ching Liu tornou-se o deus da porcelana.”
Sofia e Rosa dançaram como o fogo que consumiu o artista, ajoelharam-se como alunos venerando o sábio professor. Não fizeram os papéis principais, mas ficaram emocionadas com a estória, que nunca esqueceram, do dedicado chinês que dera sua vida para atingir a perfeição.
Este curso de iniciação artística, mais do que o aprendizado da música em si, deixou marcas profundas na personalidade de cada uma, influenciando suas escolhas e seus valores, enriquecendo seu mundo interior para sempre. Como Nelson gostava de repetir: ‘quem tem vida interior nunca está sozinho.’
A FESTA DAS ESTRELAS
‘Há cerca de quatro mil anos 4000 anos, inspirados nas estrelas Veja e Altair, os chineses criaram uma estória. Uma certa princesa Orihime e seu amada Kengyu, assim conhecidos pelos japoneses, ao se conhecerem, dedicaram-se apenas às paixões, esquecendo-se completamente de suas obrigações. Por este motivo foram transformados em duas estrelas e separados pela Via Láctea, porém permitiu-se a ambos apenas um encontro anual num dia de julho, com a ajuda de pássaros. Baseado nesta lenda criou-se uma festa. Esta festa foi introduzida no Japão há aproximadamente 1300 anos com o nome de Tanabata Matsuri. Trata-se de uma das maiores manifestações de folclore oriental que se realiza na cidade de Sendai e passou a ser reproduzida em São Paulo, no bairro da Liberdade, desde 1979.’
Cleide estava lendo para Fiona um prospecto da festa.
Uma oficina de haicai, poesia de origem japonesa, organizava uma excursão para ir à festa. A família podia participar
Teruko Oda, haicaísta de renome, fora trazida pelo Sesc – o clube dos comerciários – para realizar uma oficina de Haicai em Santos, totalmente gratuita. O Sesc patrocinava muitos eventos culturais e era perto do prédio das meninas. Cleide estava participando desta oficina. Durante duas tardes de sábado, ouviram a teoria do haicai e ensaiaram as primeiras letras. No terceiro sábado fizeram um passeio poético. Foi assim: andaram pelos jardins e praças dos arredores, observando a natureza, e retornaram com as poesias feitas de improviso, na espontaneidade do momento, para apresentarem à mestra e ouvirem seus comentários e suas correções.
Cleide, que se sentira em casa com o simpático e alegre grupo, deu outras informações sobre a festa:
- Vai haver desfiles de grupos de danças japonesas, músicas, cantores e muita comida típica. Nós participaremos de um concurso de haicai. e qualquer pessoa pode colocar um tanzaku em um sassadake.
- Um o que?
- Um tanzaku é uma tira de papel colorido onde as pessoas escrevem seus desejos. E sassadake é bambu.
- Então as pessoas escrevem seus pedidos e colocam estes papeizinhos pendurados nos ramos de bambu para os deuses chineses?
- A festa é japonesa? Ou chinesa?
- Os pedidos são para as estrelas. É uma festa folclórica. – explicou Cleide – é como aqui no Brasil, quando as moças colocam batatas debaixo do travesseiro. É uma brincadeira, nada de religioso. Eu acho.
- Se você nos ensinar como se faz haicai, a gente pode participar do concurso?
- Qualquer pessoa pode participar – disse Cleide – mas fazer haicais não é tão simples quanto parece. A idéia é poética, mas não há rimas. É preciso haver referência a uma palavra da natureza, chamada kigo, que pode ser uma flor, uma planta, um detalhe da estação do ano. A métrica é de dezessete síllabas, cinco – sete – cinco.
- Como?
- Cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro Assim, vou dar um exemplo:
No vidro, o convite_
O orvalho da madrugada
É úmida tela.
- O segundo verso tem oito sílabas, mãe – disse Sofia.
Cleide explicou que o ‘o’ de orvalho ligava-se ao ‘o’ do começo da frase para formar uma única sílaba, duas vogais juntas se juntam sempre que não são hiatos e contam como uma só. É um recurso poético.
Como as meninas se interessaram, as mais velhas pelos versos, as mais novas pelas danças e comilanças, as duas famílias subiram no sábado à tarde para São Paulo.
Durante a semana, todas tentaram fazer haicais, e conseguiram escrever alguns até bonitinhos, como:
Calor e alegria_
A luz invade a manhã
Mudando o cenário.
Madrugada ainda
E a cigarra entusiamada
Canta, canta, canta...
Cadê o vermelho?
No girar do catavento
Tudo fica branco.
Goiaba madura
Pés descalços no capim
Menino feliz.
As danças foram bonitas. Houve uma dança com leques da qual Cleide gostou bastante. Houve danças com crianças, também, e outras com moças e rapazes. Todas muito bonitas, com quimonos coloridos em matizes alegres.
As comidas eram bem diferentes no paladar. Doces de arroz, bolinhos recheados de feijão azuki, um amendoim muito apreciado pelas crianças, macarrão com legumes e camarão empanado com molho doce, de sabor exótico, bom.
Todos escreveram seus desejos nos tanzakus coloridos. Nas cores, os tipos de desejos: rosa para os afetos, amarelo para dinheiro, branco para paz etc. penduraram os pedidos nos ramos dos bambus com fitinhas também coloridas.
Ao final da tarde seria divulgado o resultado do concurso de haicai. Os prêmios , é claro, ficaram para os mestres japoneses, como Goga, Hanka e a própria Teruko Oda. Citemos alguns:
Tantas mariposas
Vem roubar único lume
Da minha cabana
H. Masuda Goga
Da menina triste
Leva, leve, o riso breve_
Bolha de sabão
Teruko Oda
Alguns dias depois da festa, as duas famílias reunidas na sala de Nelson conversaram sobre haicais.
- Andei lendo sobre haicais, pois fiquei curioso – confessou Nelson – E achei um haicai de Bashô, o grande mestre japonês, em uma tradução do nosso poeta Manuel Bandeira. Ouçam meninas, como Manuel Bandeira dá um toque mais ocidental ao poema:
Ouçam a cigarra
Ninguém percebe ao ouvi-la
Que ela vai morrer
- Que demais! – exclamou Sofia.
- Que triste! – disse Rosa.
- Garotas, eu acho que vocês devem saber alguma coisa a mais sobre haicais. Como vocês sabem, há algumas culturas muito tradicionais e outras muito criativas. Nas tradicionais os antepassados falam ‘é assim’ e as pessoas repetem porque sempre foi assim e assim é o jeito certo. A cultura japonesa é bastante tradicional. Haiku é haiku em todos os países, no Brasil virou haicai.
- Vai daí que o Brasil é muito criativo. – disse Cristina.
Nelson sorriu:
- O brasileiro é criativo e adora buscar um jeito diferente de fazer as coisas. Quanto mais opções, melhor.
- Ainda bem, se tudo fosse sempre igual, como seria chato! – comentou Rosália.
- Bem, existe uma certa segurança em saber que as coisas serão do jeito que sempre foram, há um certo conforto nisso – disse Rosa.
- Aposto que existe haicai brasileiro – sugeriu Sofia.
- No plural, Sofia, vários tipos de haicais brasileiros, para horror dos tradicionalistas. Vou apresentar a vocês o haicai guilhermino, criado pelo poeta Guilherme de Almeida , com título e rima. – e Nelson leu para todos:
Infância
Um gosto de amora
Comida com sol
A vida chamava-se agora.
- Quais são os outros, pai? – perguntou Rosa.
- Tem Leminski. Paulo Leminski. Seus haicais têm uma força criativa tão grande que deixam todas as discussões menores Este irreverente e sensacional poeta escreve coisas assim, ignorando a métrica:
Abrindo um caderno antigo
Foi que descobri:
Antigamente eu era eterno
Esta vida é uma viagem
Pena eu estar
Só de passagem
Nadando num mar de gente
Deixei lá atrás
Meu passo à frente
As meninas apreciaram.
- O kigo evaporou. – observou Cristina.
Marcelo, que estava lendo as anotações de Nelson, acrescentou:
-É interessante saber o que Leminski pensava da poesia. Vou ler um pouquinho para vocês: ‘nós temos de trabalhar em cima dos lugares comuns, criar coisas boas sobre fórmulas manjadíssimas. O projeto de uma criatividade absoluta é uma utopia. Ou você se faz entender ou não está dizendo absolutamente nada.’ - Alguns pintores modernos deviam meditar sobre isto – comentou Fiona.
- A verdade é que os lugares comuns se tornam outra coisa depois que os criativos detonam com eles. – pensou Sofia em voz alta – eles se tornam lugares incomuns.
Todos concordaram.
Então Nelson mostrou a elas um livro de bolso do Millôr Fernandes chamado ‘Hai-kais’
- Ouçam lá:
Eu vim com pão, azeite, aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu faço.
Por que lutam os bravos?
Querer liberdade
É coisa de escravos.
- É muito bom mesmo – Sofia entusiasmada bateu palmas – vivas para nós brasileiros. Mas isto aí são escolas completamente diferentes, isto é poesia engajada, política. O haiku é uma coisa assim ingênua, ligada à natureza, é como uma prece, uma meditação, um jeito de ligar o ser humano ao cosmos.
Fez-se silêncio. Todos ficaram pensativos. Cleide estava admirada por ouvir um comentário tão filosófico vindo da filha que ela julgava ainda criança. Ou, pensou ela, as crianças entendem muito mais do que os adultos pensam, se a gente lhes der oportunidade de conhecer as coisas, e entendem até muito bem.
Cristina, que estava folheando o livro de Millôr, acrescentou alguns humorísticos que foram mais do seu agrado:
Roubaram a carteira
Do imbecil
Que olhava a crejeira
Eu vi meu retrato
Bem no fundo do lago
Diz o olhar do pato.
- Eu também estive lendo sobre haicais – disse Fiona – e encontrei alguns da poetisa Alice Ruiz, que por acaso, foi esposa de Leminski.
- Até você, mamãe? – admirou-se Rosa – encontrando tempo para ler?
- Eu preciso me manter atualizada se eu quiser acompanhar as conversas de vocês. Anotei na minha agenda, aqui está:
por uma só fresta
entra toda a vida
que o sol empresta
luzes acesas
vozes amigas
chove melhor
E assim a arte ia criando laços, estreitando ligações e embelezando aqueles momentos felizes
As conversas nunca ficavam chatas ou solenes, porque alguém sempre quebrava o clima sério com algum comentário engraçado, como aconteceu depois da pergunta de Cristina:
- Bem, se a poesia se chama haiku no mundo todo porque no Brasil tinha de mudar de nome?
Rosália foi rápida na resposta :
- Esta é fácil, haicai soa bonitinho, mas a sílaba final de haiku tem um som obsceno que nos ouvidos gaiatos dos brasileiros não tem nada de poético.
Até mesmo Fiona teve de rir com a espontaneidade da resposta, e Nelson tentou manter um ar sério e disciplinador ao responder:
- É isso. Falou minha filha Rosália.
HISTÓRIA E FOLCLORE
‘Ci, a mãe de todas as coisas, ficou com pena dos homens, que viviam dentro da terra, no frio e no escuro. Ainda não havia Jaci, o sol, nem Araci, a lua, nem dia, nem noite... a Cobra Grande era dona do fogo e...’
Sofia e Rosa estavam sentadas no palanque armado na praia de Itararé, assistindo uma peça teatral ao ar livre.
Era noite.
Os ‘homens’ começaram a rastejar pela areia, em direção ao mar, saindo de debaixo das arquibancadas.
O pajé, que contava a estória da criação do mundo e dos primeiros homens para os curumins, acendeu tochas de fogo e começou a dançar com elas, ao som de uma música indígena.
Aquela apresentação acontecia em comemoração ao aniversário de São Vicente, a primeira vila do Brasil, e se repetiria a cada noite durante uma semana inteira de festejos.
Rosa e Sofia assistiam atentas, apesar dos bancos de tábuas e do vento frio da noite.
A representação prosseguiu com centenas de figurantes levantando na areia tabas improvisadas, dançando e cantando como índios – alguns, como o pajé, eram realmente índios – simbolizando guerras e recriando as lendas do folclore.
Mais tarde foi a vez dos artistas profissionais, representando Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha e Martim Afonso de Souza, entre outros, contarem a versão portuguesa. Vinham vestidos a caráter. Os figurantes da corte também usavam trajes vistosos.
O ponto alto da representação foi a caravela de Martim Afonso, que veio do mar até fundear na praia. Os primeiros portugueses a chegar a São Vicente desceram em um bote e na areia foram recebidos por índios que acompanhavam o Barão de Cananéia, que já fundara um povoado por estas bandas.
A representação durou quase duas horas e agradou. Sofia e Rosa, com as irmãs mais novas, os pais e mães ao lado, pouco conversaram, tão interessadas estavam em cada detalhe.
- Eu queria ser um daqueles curumins – disse Cristina – ali descalça na areia, entrando no mar, ah, que delícia!
Quando a representação terminou, o povo saiu lentamente. A arquibancada era imensa. Do lado de fora, uma multidão lotara a praça e as ruas próximas, pois o prefeito mandara instalar dois telões bem no alto, para que quem não pudesse pagar ingresso também pudesse assistir.
Todas aquelas pessoas circulavam por ali, algumas à procura de condução para voltar para casa, outras passeando.
Os ônibus e peruas passavam lotados; táxi, nem sombra. O jeito era voltar para casa. O jeito era voltar andando.
Nelson sugeriu que fossem todos comer uma pizza. Assim, chegando ao Gonzaguinha, entraram na Hirondelle.
- Quando acabarmos de comer, certamente encontraremos um ônibus vazio – ponderou Fiona.
- Se estiver vazio não anda – respondeu Marcelo, pai de Sofia – Espero que pelo menos o motorista esteja dentro dele.
Marcelo costumava dizer essas coisas engraçadas para divertir as crianças.
- Papai – perguntou Sofia – não é meio muito dizer que este é o maior espetáculo da Terra?
Com ‘meio muito’ ela queria dizer ‘exagero’. Marcelo retrucou:
- Eu repeti o que li no jornal: esta é a maior representação teatral ao ar livre do mundo. O fato é que a gente não deve acreditar em tudo o que lê. Se o jornalista citar a fonte, quem disse, quando e onde, aí é diferente. Senão pode ser apenas a opinião pessoal dele.
- Os gregos faziam seus teatros ao ar livre – comentou Nelson – eles deixavam o palco sempre na frente de uma paisagem incrível, uma montanha, o mar, um rio, para que as pessoas se lembrassem de que a história fazia parte de uma realidade maior. O homem estava sempre inserido dentro do Universo.
- Não fale tão difícil, Nelson. As meninas são muito novas para os seus inseridos – sugeriu Cleide, mão de Sofia.
- Afinal, porque vocês levam a gente para estas coisas educativas? – perguntou Rosália.
- Cultura é a única coisa que um pai pode deixar para um filho – respondeu Marcelo – Você pode perder dinheiro, mas não pode perder cultura. Podem roubar seu dinheiro mas não o seu conhecimento.
- Isto é verdade – concordou Nelson – E se você tem conhecimento, pode arrumar trabalho, ganhar dinheiro, investir e progredir na vida.
Marcelo e Nelson se revezaram durante o verão levando as meninas ao cinema, ao teatro e a outros programas interessantes.
Marcelo gostava mais de filmes e de música, e as menores sempre o convenciam a terminar o programa na Confeitaria Viena. Já Nelson preferia o teatro, e com ele as meninas aprenderam a valorizar o autor do texto. Ele lhes contou o que sabia da biografia e da obra de Oscar Von Pfhul, Tatiana Belinki e Ana Maria Clara Machado. E no final ele pagava um suco de frutas ou água de coco, sempre algo natural e saudável.
Nas tardes muito quentes, quando estava muito desconfortável para andar de bicicleta ou brincar ao ar livre, as meninas se reuniam para brincar de espetáculo. Colocavam música na vitrola e cantavam. Decoravam os textos teatrais de Monteiro Lobato e brincavam de Sítio do Pica-pau Amarelo. Sofia gostava de ser o Visconde, Rosa preferia ser a Narizinho, Rosália e Cristina se revezavam para ser a Emília e ninguém queria ser o Pedrinho. Assim, elas colocavam algumas bonecas participando da brincadeira, e algumas vezes faziam seus teatros usando fantoches.
À noite estavam sempre cansadas de tanto brincar e adormeciam rapidamente, dormindo o sono das pedras.
CADERNOS DIVERTIDOS
Nas tardes chuvosas da última semana das férias de verão, Sofia e Rosa sentaram-se em frente a cadernos, recortes, livros e revistas e escreveram, recortaram e colaram furiosamente. Onde as meninas mais velhas estavam, afinal, sempre havia montes de papel, tesoura e cola.
- Que mistério é este? – perguntavam Cristina e Rosália, mas as irmãs mais velhas respondiam misteriosamente:
- Coisas de gente grande, pirralhinhas.
Fiona e Cleide a princípio pensaram que elas se ocupavam com as agendas.
Era verdade. As meninas haviam recortado e colado nos dias correspondentes todas as atividades interessantes que haviam documentado naquele começo de ano. As entradas para espetáculos teatrais, por exemplo. Lá constavam, ao lado de uma resumo da história feito a mão, as entradas para A Princesa e a Lua, de Tatiana Belinki e O Fantasminha Pluft, de Oscar Von Pfhul. O prospecto da apresentação da festa de aniversário de São Vicente, com os quadros de Benedito Calixto representado as caravelas de Martim Afonso, ao lado de um recorte de jornal em que a historiadora santista Wilma Therezinha falava sobre o Barão de Cananéia.
As inevitáveis fotos de artistas de artistas e letras de músicas do momento, bem como piadas e poesias recortadas de revistas para adolescentes, também estavam lá, com destaque, entre trechos escritos pelas próprias meninas, como este de Sofia, a respeito da recente guerra na Bósnia:
Uma solução para a Iugoslávia
Ah! Esses iugoslavos! Deveriam vir ao Brasil.
Um sérvio e um albanês começariam uma discussão e seriam imediatamente rodeados pela’ turma do deixa disso.’
Nossos iugoslavos ficariam espantados em ver, juntos, um ariano, um semita, um nórdico, um árabe, um negro e um oriental. Mais espantados ainda ficariam ao ver o ariano bater amigavelmente no ombro do negro e contar uma piada, ‘aquela do judeu e do general nazista no campo de concentração’.
Entre muitas gargalhadas, o árabe retrucaria com ‘aquela do cristão cujo avião caiu no deserto e encontrou um muçulmano’. E o nórdico, a rir, continuar com ‘aquela do japonês que visitou a Bahia e entrou em um terreiro de candomblé’
A esta altura, alguém sugeriria aos novos amigos iugoslavos um ‘loira gelada’ e um brinde à Paz. E já em clima de confraternização, vocês conhecem ‘aquela do albanês e do sérvio que eram vizinhos e aí ...’
Aí os nossos iugoslavos seriam forçados a rir-se da imbecilidade humana e concordariam em deixar pra lá as suas diferenças, já que, vivendo todos no mesmo planeta, somos, todos, companheiros de viagem.
- Sofia leva jeito – sorria Marcelo, todo orgulhoso da filha mais velha.
- Ela escreve muito mal – dizia Cristina, enciumada.
- Ela pinta mal – corrigia Marcelo para Sofia, cúmplice – Eu tenho uma filha escritora e uma filha pintora, e não se pode fazer de tudo bem nesta vida, porque gente perfeita vai para o céu, que a terra é para os imperfeitos.
- Para música é que ninguém leva jeito – suspirava Sofia, que amava o Conservatório mas não conseguia se entender com os dedos.
- Sempre será útil o que você aprender lá – consolava Marcelo.
As meninas já haviam colocado em dia suas agendas, mas as misteriosas confabulações giravam em torno de certos cadernos de questionário, que estavam em moda desde o final do ano. Sofia e Rosa estavam escolhendo as perguntas para que seus cadernos não ficarem iguais.
No alto de cada página colocavam uma pergunta. Nas linhas seguintes, a cada duas linhas, colocavam os números em seqüência: 1,2 etc...
O número um era a pessoa dona do caderno, pois quem fosse responder também gostaria de saber alguma coisa sobre a amiga. Era como um jogo da verdade por escrito. As perguntas começavam por nome, idade, endereço e prosseguiam com generalidades como:
Qual sua música favorita?
Que livro você mais gostou de ler?
Você tem animal de estimação? Qual?
Sofia estava colocando perguntas assim: Você sonha colorido ou em preto e branco? Quantos sonhos você tem por noite? Você costuma se lembrar de seus sonhos?
Rosa perguntava: De que cor é a sua raiva? O que você vê quando ouve música de olhos fechados? Você morreria por um ideal?
Ambas colocaram sugestões como: Escreva um ditado popular de sua preferência e Deixe aqui o pensamento de alguém famoso que você aceita como verdadeiro.
Fiona leu os cadernos e os devolveu dizendo:
-Aposto que nos outros cadernos das outras garotas há perguntas que vocês não querem que eu leia.
Sofia e Rosa encabularam:
-Tem gente que pergunta sobre beijos e namorados, mãe. – confessou Rosa – eu não pretendo namorar antes dos quinze e só tenho onze ainda.
Fiona sorriu:
-Eu espero que você me apresente o rapazinho antes de começar a namorar. Se um rapaz não quer conhecer a sua família, fique esperta, tem algo errado aí.
Sofia disse:
- Os meninos gostam das garotas bobas, aquelas que dão risadas bobas das piadas bobas que eles contam, das mais altas e das que sabem dançar bem.
- Meninos que contam piadas bobas são bobos. – comentou Cleide. – e sempre há um garoto esperto que dê mais valor ao coração que a um corpo bonito.
- Isso é legal de dizer aos cinqüenta anos, aos quinze sempre há dúzias de meninas lindas e simpáticas por toda parte. A gente fica sobrando. – queixou-se Rosa.
- Em primeiro lugar vocês são muito bonitas. Em segundo lugar, para estar sobrando você teria de ter quinze e só tem onze – lembrou Fiona.
Mas havia mais coisas nos recortes misteriosos de Sofia e Rosa.
Elas estavam decorando o caderno de classe, que servia de rascunho para as anotações diárias, com pensamentos positivos escritos em vermelho no alto de cada página. Era isto que estava tomando mais tempo, pois tinham de procurar nos livros e almanaques pelos pensamentos dos mais variados para escolher os mais alegres e motivadores.
- Eu pensei que todos os pensadores só dissessem coisas bonitas – comentou Cristina.
- Que nada! – explicou Rosa – Tem uns cabeças de porco que dizem coisas horríveis como ‘mulheres são criaturas de cabelos longos e idéias curtas’
- E tem uns que dizem coisas verdadeiras mas que não ajudam muito, até deixam a gente mais triste, como esta frase de Victor Hugo: Nunca respeito um homem por seus cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem.
- Uau!
- De onde vocês tiraram esta idéia? – perguntou Rosália.
- A nossa vizinha do segundo andar, a Márcia, estava contando que a prima dela faz cadernos de pensamentos, aí a gente teve a idéia de fazer um também.
E as meninas leram para a família algumas das frases que estavam colecionando:
Traçarás os teus projetos e terás êxito; e a luz brilhará em todas as tuas veredas – Jó 22,28
A vida é agradável e divertida e estou inteiramente disposta a aproveitá-la.
Recolhe no que puderes a alegria – Shakespeare
Tudo em minha agora está em harmonia e voltado para o bem.
A esperança mais ousada e mais ridícula foi muitas vezes a causa de suceeso extraordinário - Vauvenargues
A mais distante meta é atingida por quem tem uma sábia esperança – Lope de Veja
Onde há uma vontade há um caminho.
Os amigos parecem-se com os tesouros que são mui raros e andam escondidos – Manuel Bernardes
Amar alguém é ser o único a ver um milagre invisível para os outros. – François Mauriac
Terás cada vez mais segurança em ti mesmo se praticares cada ato de tua vida como se fosse o último - Marco Aurélio
Cristina falou para Rosália;
- Quer saber? Nós também podemos fazer uns cadernos legais, mas eu prefiro colecionar piadas.
E as duas menores dispararam para pegar seus próprios cadernos. Dali a pouco estavam de volta, mostrando seus achados. Coisas assim:
Quando você pensa que sabe todas as respostas, vem a vida e muda as perguntas.
Todos sorriram, e Rosa comentou com a amiga:
- É sempre assim, Sofia, quando a gente pensa que está em paz, vem a irmã caçula perturbar...
POESIA PORTUGUESA
- Sofia, quer ir ao teatro esta sexta?
- Eu sempre quero ir ao teatro, Rosa. Sesc?
- Sesc. Aquela atriz engraçada da novela das oito, a Zezé Polessa...
- A vizinha do cigano?
- Essa mesma. Ela faz Florbela Espanca, meu pai diz que é uma poetisa e tanto.
As meninas estavam na cozinha enrolando brigadeiros. Sofia olhou para a área de serviço, onde Nelson estava a trocar a água dos bebedouros para beija-flores. E quando Nelson repetiu o convite, Sofia suspirou e deixou escapar seu pensamento:
- Muito obrigada, seu Nelson, mas poeta português eu ‘passo’. Portugal só tem escritor chato. Camões, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, uma chatice só! E ainda falam de boca cheia: os grandes autores portugueses! Quem é Eça perto de um Dumas? De um Victor Hugo? De um Tchecov? De um Dostoievsk? Perto dos autores russos, franceses, ingleses, os coitados dos portugueses viram formiguinhas. Daquelas bem pequenininhas, de se esmagar com o pé sem dó nem piedade.
- Já vi que você não leu Fernando Pessoa.
- Não li nem quero ler. bem, eu serei obrigada a ler por causa da escola. – e Sofia gemeu, afundando o rosto entre as mãos.
Rosa concordou com a amiga:
- Não há aventuras gostosas nem mistérios nos romances portugueses. Nenhuma surpresa. Nenhuma classe. Tudo muito cru e rude. Eça descreve uma mocinha falando de seus beiços. Beiços, pai, como se gente fosse vaca! E Camões, como não houvesse folclore que valesse a pena em Portugal, pegou emprestado os deuses gregos e romanos, tentando imitar Homero, como se isto fosse possível. Não fique triste, pai, mas é o que a gente pensa.
Nelson sorriu, bem humorado:
- Eu sei exatamente como vocês se sentem. Acho que entendo, sim.
As meninas se entreolharam, um pouco envergonhadas. Afinal, Nelson parecia tão contente com a novidade! Ele caminhou até o meio da sala e declamou com sua voz bem modulada de baixo:
- Não, não vou por aí!
E para espanto das meninas, continuou:
‘Vem por aqui’ – dizem-me alguns com olhos doces,
estendendo-me os braços e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
quando me dizem: ‘Vem por aqui’!
eu olho-os com olhos lassos.
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
e cruzo os braços.
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- que eu vivo com o mesmo sem-vontade
com que rasguei o ventre de minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: ‘vem por aqui?’
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem.
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios,
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-me como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios.
Deus e o Diabo é quem me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: ‘Vem por aqui’!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onde que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou.
Não sei por onde vou.
Não sei para onde vou.
- Só sei que não vou por aí!’
Nelson explicou:
- Apresento-lhes José Régio, poeta português
Rosa aplaudiu e olhou para a amiga como quem diz: ‘meu pai não é demais?’ Sofia não conteve a admiração:
- Este tal de José Régio é forte. Poderoso.
Nelson acrescentou:
– Talvez vocês tenham ainda um pouquinho de paciência para ouvir uma poesia curta de Florbela Espanca. Se vocês gostaram de José Régio, vão gostar de Florbela, eu garanto.
- Estou curiosa.
- Fale, pai.
E ele recitou para elas:
‘O que é a vida e a morte
Aquela infernal inimiga
A vida é o sorriso
E a morte da vida a guarida
A morte tem os desgostos
A vida tem os felizes
A cova tem a tristeza
A cova tem as raízes
A vida e a morte são
O sorriso lisonjeiro
E o amor tem o navio
E o navio o marinheiro.’
- Florbela escreveu esta poesia aos oito anos.
Sofia começou a rir:
- O senhor fez de propósito, seu Nelson! O senhor nos enganou. Depois disso, é claro que vamos ver a peça.
Rosa estava pensativa:
- Por que no colégio só nos mostram a parte chata da literatura?
- Porque eu não sou ministro da cultura. Eu seria um excelente ministro. O país nem sabe o que está perdendo...
Na noite de sexta-feira, platéia lotada, enquanto aguardavam a peça começar, as meninas folhearam o impresso, com fotos e textos referentes ao espetáculo, que estava sendo distribuído na entrada do teatro. Ficaram sabendo que Florbela era conhecida como A Bela do Alentejo. Havia muitos poemas bonitos.
Rosa leu para o pai:
- ‘Ter um pai! É ter na vida
Uma luz por entre escolhos
É ter dois olhos no mundo
Que vêem pelos nossos olhos! ‘
- Parece feito de encomenda para você, papai.
Nelson beijou a testa da filha, emocionado
- É difícil fazer um monólogo. Decorar páginas e páginas de texto, e ter a responsabilidade de prender a atenção da platéia sozinho... é preciso ter muito talento para isso – comentou Rosa.
O diretor da peça era Miguel Falabella, que as meninas conheciam da televisão. Na segunda metade do século vinte a televisão era o grande veículo de comunicação.
Zezé Polessa estava elegante em um traje preto e colar de pérolas. Provocou lágrimas em Rosa ao declarar:
‘Eu odeio os felizes, sabe? Odeio-os do fundo de minha alma, tenho por eles o desprezo e o horror que se tem por um réptil que dorme sossegadamente. Eu não sou feliz mas nem ao menos te sei dizer porquê. Nasci num berço de rendas rodeada de afetos, cresci despreocupada e feliz, rindo de tudo, contente da vida que não conhecia, e de repente, amiga, ao alvorecer dos meus dezesseis anos, compreendi muita coisa que até ali não tinha compreendido e parece-me que desde esse instante cá dentro se fez noite. Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam-se hoje sentar-se num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era...É esta a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes.’
Já Sofia comoveu-se com o soneto ‘Ser Poeta’.
‘Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
E ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
E ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito
E é amar-te assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!’
O espetáculo passou sem que percebessem o tempo, fazendo com que a platéia se admirasse ao final “mas, já acabou?”; deixando um gostinho de ‘quero mais’.
Não se levantaram de imediato porque a platéia estava lotada e Nélson comprara excelentes lugares na terceira fila. As mocinhas fecharam os olhos e suspiraram, felizes.
- Bem, garotas – gaguejou Nelson, a esconder o riso – Vocês devem me desculpar porque eu trouxe você a uma peça maçante sobre aquela horrível poesia portuguesa.
- Ora, seu Nélson, não vale! O senhor está rindo de nós! – desculpou-se Sofia.
- Acho...não, tenho certeza. A gente não conhece bem a poesia portuguesa. A gente falou sem ‘conhecimento de causa’ – confessou Rosa – É como diz aquela nova professora de História, a Clotilde Paul – e Sofia juntou-se à amiga para completar a citação – ‘pouca cultura é pior do que nenhuma’.
- É bem melhor a gente se informar antes de criticar para não falar bobagem. E agora, se vocês quiserem, nós podemos ir tomar uma água de coco antes de voltar para casa.
JORNAL MURAL
Naquele ano, a classe de Sofia e Rosa resolvera fazer um jornal mural, e, a cada mês, um grupo diferente ficava encarregada de fazer as matérias.
Quando chegou a vez de Sofia e Rosa, elas chamaram a vizinha do segundo andar, que também estudava na mesma classe, para ajudar.
Márcia achou que uma página de horóscopo era simplesmente indispensável, e trouxe um pouco de humor; leu em voz alta para Sofia e Rosa, que ficaram rindo.
Provérbios Dos Signos
Áries (21/03 a 20/04)
Não sei bem o que quero, só sei que quero JÁ!
Touro (21/04 a 20/05)
Amor numa cabana? Só se for 5 ESTRELAS.
Gêmeos (21/05 a 20/06)
Odeio fofocas.... masssss..... já te contei a ÚLTIMA?
Câncer (21/06 a 21/07)
Lar,....meu doce LAR!
Leão (22/07 a 22/08)
Antigamente EU era vaidoso, mas agora me curei e estou PERFEITO!
Virgem (23/08 a 22/09)
Já te disse que sou SUPER DEMOCRATA, mas porque ainda não fizestes o que te MANDEI?
Libra (23/09 a 22/10)
A justiça tarda mas não falha, pois está sempre COMIGO.
Escorpião (23/10 a 21/11)
Sou super LIBERAL... mas onde tu fostes, MESMO?
Sagitário (22/11 a 21/12)
Já te disse 1.000.000 de vezes que NUNCA EXAGERO!
Capricórnio (22/12 a 20/01)
HOJE, assumi o cargo de vice-diretor de uma empresa que ORGANIZAREI, e será sucesso daqui a 10 ANOS.
Aquário (21/01 a 19/02)
Já estou guardando grana, para construir a NOSSA bela casa lá na LUA.
Peixes (20/02 a 20/03)
Ontém tinha DÚVIDAS, hoje......NÃO SEI!
Os Adesivos Para Carros Dos Signos
Áries
j) "Não tenho tudo que amo... mas vou conseguir já, já"
Touro
) "Não tenho tudo que amo, mas e' uma questão de tempo e
paciência"
Gêmeos
c) "não me siga, posso mudar de destino a qualquer momento"
Câncer
j) "não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho"
Leão
g) "Siga-me. Sei o que e' melhor para você"
Virgem
f) "não tenho tudo que examino, mas examino tudo que tenho"
Libra
e) "não me siga. Ou melhor, siga. Ah, sei lá. Ce que sabe"
Escorpião
h) "não me siga, vai ser pior para você, estou avisando!"
Sagitário
j) "não tenho tudo que amo, mas também nada que me ama me tem"
Capricórnio
e) "Tenho tudo que amo, e trabalho para ter mais ainda"
Aquário
h) "não tenho tudo que amo, mas estou pouco me lixando para posses"
Peixes
i) "não me siga. também não me lembro para onde estava indo"
- Eu sei que a parte cultural do jornal vai ficar dez com vocês duas, então eu pensei em dar uma força na parte do humor.
- Isso porque nós cometemos o pecado mortal da seriedade – constatou Rosa.
- Bem, eu acho que vou acrescentar uma seção sobre Saúde antes da sua página de humor, Márcia, e esta seção de saúde vai ter uma única frase, em destaque gigante: Rir é o melhor remédio.
- Que clichê, Sofia! Vai ficar parecendo aquela seção da Seleções do Reader’s Digest.
- É essa a idéia. Lugar-comum que toda gente entenda. E parodiar a Seleções não é tão mau...
As meninas elaboraram um jornal todo colorido, escrito com letras enormes e diferentes para cada artigo. Na seção de esportes, Sofia colocou sua própria foto nos Jogos Abertos de Xadrez competindo pela cidade de Santos e sua classificação no Torneio Interescolar, na equipe da escola.
Rosa também estava em destaque por ter participado das Olimpíadas Estaduais de Matemática.
- Parece que agente está querendo se exibir, mas afinal a gente estava realmente representando a escola... – constatou Sofia.
Sempre seria possível colocar a fotografia de Marli, que estava concorrendo a Miss Santos, de Solange que dera um recital de piano e citar Angélica que faria uma pontinha em uma peça teatral de um grupo amador. Mas continuava faltando algo...
Rosa, que era mais diplomática, contornou a questão acionando Regininha, a palhaça da classe, para um serviço de espionagem, ou, em outras palavras, para fazer a sessão de fofocas, muito apreciada por todos. Só Sofia ficou brava ao ler a sessão, porque Regininha descolou uma fofoca que as outras garotas da classe degustaram com gargalhadas impiedosas.
Nos Jogos Abertos do Interior, nossa colega Sofia feriu o coração do mais badalado tenista da cidade, que não a deixava um só segundo. Perguntada se havia beijado o rapaz, a colega negou, e explicou a resistência: ‘ele é realmente muito bonito, até que abre a boca...’. Bem, cada uma pode concluir o que quiser...
- O que eu quis dizer é que o garoto é muito burro, Rosa.
Mas, como Sofia descobriria, o que ela queria dizer era o que menos importava. Assim é a maldade do mundo e a inconseqüência da juventude.
CARNAVAL NA FLORESTA
- Eu nunca brinquei Carnaval – contou Márcia, a vizinha do segundo andar, para Sofia e Rosa.
- O que? Você quer dizer que nunca assistiu os blocos desfilarem, nem as escolas de samba na avenida da praia, nem saiu fantasiada jogando serpentina nos amigos? – exclamou Rosa.
- Não. No Carnaval papai nós fazemos retiro com o pessoal da igreja. Eles ficam trancados em um colégio enorme e muito bonito em São Vicente, os grupos lêem a Bíblia, cantam hinos, há um pátio para as crianças correrem e jogarem o que quiserem: queimada, futebol, pode até levar bicicleta mas tem de emprestar para quem não tem.
- Eu cada ano me fantasio de uma coisa diferente – contou Sofia – E guardo as fantasias para brincar depois. Já fui havaiana, índia, baiana, grega e até odalisca.
- Eu ainda tenho um saquinho de confete que sobrou do Carnaval passado. Nós podemos colocar os discos de Carnaval na vitrola, fazer uma batalha de confete e eu ensino você a dançar frevo. Quer? A gente empresta alguma fantasia para você, Márcia.- propôs Rosa.
- Rosália e Cristina vão querer brincar também – disse Sofia – e nós temos maracá, pandeiro e apito para agitar.
- Meu pai diz que nos salões têm diabo à solta – comentou Márcia – É verdade?
- Verdade verdadeira. Tem diabo, fada, bruxa, cigana e até pirata. – zombou Sofia.
Foi muito bom que as meninas se divertissem naquele dia, pois a partir daquele ano, as duas famílias começaram a viajar nos feriados de Carnaval, pois uma onda de violência se alastrou pelo país tornando perigoso freqüentar lugares abertos e multidões festivas. Enquanto a onda de violência persistiu, os adultos acharam mais prudente proteger as famílias.
Naquele ano fizeram reservas na Pousada do Júlio, que findava onde começava uma parte da Reserva da Mata Atlântica, no município de Tapiraí. . Contrataram um guia competente para embrenhar-se com eles na floresta.
O sítio era cuidado por um casal de alemães, todo florido com encantadores detalhes como os alemães gostam – floreiras em troncos derrubados por raios, vasos improvisados em louças e metais antigos etc
No meio de um lago artificial, uma ilha artificial onde se podia chegar de barco ou pedalinho, com mesas e assentos de madeira, churrasqueira, quiosque protegido do sol, ancoradouro para pescadores, pia com água potável, encanada por debaixo do lago... ali almoçaram algumas vezes.
Andaram de barco até cansar e seguiram todas as trilhas possíveis na floresta, que agora seria preservada para sempre por lei, protegida do bicho mais selvagem de todos, que é o homem civilizado.
Viram pegadas de anta, mas não antas de verdade; viram uma plantinha de frutos arroxeados que as antas gostam de comer, flores chamadas bromélias (parecidas com abacaxis) e caités; visitaram o Rio das Corujas e a Cachoeira do Alecrim. Conheceram uma árvore chamada pau d’alho porque sua casca exala um cheiro forte parecido com alho e também um enorme ceboleiro, tão grande que duas pessoas cabiam em seu interior oco. Sua casca descasca com uma cebola. O guia explicou que aquela árvore provavelmente crescera em torno de outra menor, que morrera, apodrecera e deixara então aquela espécie de caverna no tronco do ceboleiro. Também explicou que o ceboleiro não era uma espécie parasita, coma as figueiras mata-paus.
Tapiraí na língua dos índios quer dizer rio das antas, pois tapir é anta e í é rio.
Imaginem que de toda a Mata Atlântica que existia pela época do descobrimento, hoje só restam 7% da floresta original. Este é um dos poucos trechos que ainda ficaram intactos.
Tem bem pouco passarinho por aqui – comentou Rosália – não ficou tão intacto assim..
À noite, além do espetáculo já esperado das estrelas, uma surpresa: um festival de vaga-lumes. As meninas nem queriam dormir, para admirar só mais um pouquinho aquelas incríveis luzinhas voadoras.
O guia explicou que a terra em Tapiraí não se mostrou boa nem para o café nem para o plantio do chá, então as pessoas viviam de extrair madeira e palmito da mata. Algumas pessoas estavam também plantando gengibre. Exportavam gengibre para o Japão, e um uma lojinha local vendia-se gengibre cristalizado, gengibre coberto de chocolate, licor de gengibre etc. Agora o governo investe um educação, para que os palmiteiros e madeireiros possam transformar-se em guias turísticos.
Eles conhecem melhor do que ninguém as trilhas, precisam aprender a respeitar a ecologia do sistema para orientar os turistas e ganharem o seu sustento.
Em uma comunidade cabocla próxima, puderam ver um monjolo em funcionamento e ver trabalhos artesanais feitos com palha – balaios, cestos, bolsas, esteiras... As tintas utilizadas eram extraídas por eles mesmo de plantas e raízes, por exemplo, a tinta amarela vinha do gengibre.
O monjolo é um pau longo e diferente em cada ponta. Uma das pontas é um pilão, um pau que soca o milho com força na travessa abaixo dele para fazer a farinha. A outra ponta é larga, cavada como uma cuia, e fica debaixo de uma queda d’água. A peso da água enche a cuia e faz o monjolo descer e esvaziar a cuia;com a cuia vazia, o monjolo fica leve e sobe com força, e o pilão na outra ponta soca o milho. Aí a água enche a cuia e começa tudo de novo. Antes de colocar o milho para ser socado, os grãos ficam de molho na água até inchar. A farinha de milho é muito saborosa para fazer broas e bolos.
Na casa de um dos caboclos, viram um catitu, um porco do mato selvagem que costuma ser muito bravo, mas aquele fora criado por ali desde pequenininha e era mansinho como um cachorrinho. Até se encostava ao dono pedindo carinho.
O guia explicou:
A Mata Atlântica tem solo muito fértil, sua camada de húmus chega a ter 30 cm, e portanto a biodiversidade (o número de espécies tanto da fauna como da flora) é grande, maior até que a da Amazônia, um tipo de floresta mais recente e de solo mais pobre.
A Mata Atlântica é um paraíso onde viviam milhares de insetos, pássaros, plantas, índios, mamíferos variados, todos se entendendo perfeitamente bem até que chegou o homem branco.
Nós? – Cristina arregalou os olhos.
Nossos bisavós. O europeu chegou destruindo tudo e muitas espécies se perderam; outras não são conhecidas, pois ainda não entendemos e pesquisamos a floresta.
Pobre floresta!
Pobres bichos!
A floresta está desmatada, doente. Muitas pessoas percebem que é necessário proteger a floresta com suas flores, bichos, árvores e nascentes. Afinal, as plantas e animais tem tanto direito à vida quanto nós. E porque muitas pessoas começaram a defender a floresta, hoje o governo fez leis. Hoje não se pode mais mexer na floresta que ainda está aí.
Ué, nós entramos nela... – provocou Rosália.
Entramos mas não mexemos. Olhamos. Não jogamos lixo, não colhemos plantas.
Deixe ver se entendi – disse Sofia – A gente pode penetrar na floresta, tomar banho no rio, mas não pode destruir, arrancar árvore, matar passarinho, pescar nem levar mudas de samambaia para casa, este tipo de coisa.
Exatamente. Isso se chama Preservação Ambiental.
Neste momento dois beija-flores lá no alto começaram uma briga por território. Pequeninos e valentes, voavam e se bicavam com incrível rapidez e quatro pares de curiosos olhos infantis de distraíram com a cena, enquanto o guia continuava a contar para os adultos:
Preservar é tomar conta. O ambiente é o local que você quer preservar. Preservação Ambiental é tomar conta da casa em que você mora. você não bota fogo em sua casa, não joga sujeira no chão, nem sai quebrando as janelas. A Terra é nossa casa, é o lugar onde a gente vive. Se cada um de nós tomar conta deste planetinha, respeitando a Vida, todas as coisas vivas, deixando a água e o ar limpos, a floresta vai-se recuperar.
Nelson tentava chamar a tenção das meninas para o guia, mas Marcelo o cutucou discretamente, sussurrando:
Este é um momento mágico. Você vê quantos colibris por dia, hein?
É tão importante que elas se conscientizem desta Preservação...
Bah, não esquenta, o exemplo é tudo. Se a gente respeita a natureza, elas respeitarão também. Relaxe.
O guia concluiu:
O desmatamento desenfreado mudou o jeitão da floresta. Agora, com a criação do Parque Nacional da Mata Atlântica, ela começa a se recuperar. Nas áreas de maior impacto, vê-se muitos manacás, aquele arbusto de flores roxas, que é uma vegetação de mata primária, mata aberta, exposta ao sol. Aos poucos, onde a floresta vai-se recuperando, surgem as árvores mais copadas e de tronco mais largo, que necessitam de muita sombra para crescer, e os manacás diminuem. A recuperação da floresta se faz sozinha, quanto menos o ser humano interferir melhor.
A região aqui começa a sobreviver do turismo, dos sítios ecológicos como a Pousada do Júlio. O ecoturismo é a saída, já que o solo aqui não é bom para chá nem para café. Algumas pessoas estão cultivando o palmito pupunha e os palmiteiros, que conhecem os segredos da floresta, serão treinados para servir de trilheiros para os turistas.
À noite, enquanto repassava óleo de citronela no rosto e nas mãos, para afastar os mosquitos, Cristina revelou sua decepção:
Ora, pai, eu queria ver um bicho perigoso. Nem passamos perto de onça nem nada!
Bem, aposto que você não sabe qual é o bicho mais perigoso da floresta.
As meninas disseram em coro:
Onça!
Erraram. É o mosquito.
Ora, não brinque.
Quem tem medo de um mosquito bobo?
Bem, em primeiro lugar, a gente nem vê o mosquito bobo. De
pois, mosquito não tem medo de gente. Vem e pica. São centenas e centenas de mosquitos por toda parte, e mesmo com repelente de insetos a gente acaba levando uma ou outra picada.
É verdade – disseram todos, coçando-se gostosamente.
Grande coisa. Só dá uma coceirinha...
Aí é que você se engana, pois alguns destes mosquitos transmitem doenças que matam como malária, dengue, febre amarela, leishmaniose e encefalites. Este é o nosso grande inimigo, meninas: o mosquito.
Rosa falou pensativa:
Que coisa, eu nunca tive medo de mosquito até agora.
E todas concordaram:
Passear na floresta é uma delícia. Vamos fazer isso mais vezes, está bem?
Podemos conhecer todas as reservas nacionais, não seria maravilhoso?
E dormiram com o concerto dos sapos nos ouvidos: o sapo-boi, o sapo tanoeiro, as perereca, vez por outra, o violino de algum pernilongo.
CALENDÁRIO DA PEDRA
Certa sexta-feira à tarde, as meninas estavam dançando e cantando na sala de estar de Nelson, pois Rosália descobrira como ‘puxar’ da Internet um programa de karaokê. Até Fiona viera cantar, usando a colher de pau como microfone. Nisto entrou Nelson com ar de novidade. Rosália torceu o nariz:
- Pai, nem sei o que é, mas estou fora.
- Está. Este é um programa para as meninas maiores. – e ele disse para Rosa e Sofia – este fim de semana vem a Denise Stoklos apresentar-se no teatro do Sesc e eu reservei entradas para nós. Ela traz um monólogo chamado Calendário da Pedra.
- Monólogo, pai? Como ‘As mãos de Eurídice?’ – Rosa torceu o nariz.
A professora de português levara a classe para assistir As mãos de Eurídice, monólogo que consagrou o ator Rodolfo Mayer. O texto, escrito em 1949 por Pedro Bloch, foi o primeiro texto do dramaturgo e seu maior sucesso. Sofia adorara. Rosa detestara.
- Um verdadeiro horror! – insistia Rosa – aquele homem repetindo duzentas vezes em cima do palco ‘dorémifásolfámirédorémifásolfámirédo’...
Sofia, Fiona e Nelson, rindo, completaram cantando:
-‘Ainda mato essa me-ni-naaaaa...’
-Suponho que são quatro entradas, não? – perguntou Fiona.
-Evidente que sim! – confirmou Nelson com exagerada ênfase. Rosa tinha quase certeza de que seu pai telefonaria da esquina para o Sesc para reservar um lugar a mais. Fiona era tão caseira! Se ela queria ir, a peça prometia ser especial. -Eu assisti Mary Stuart na versão da Denise Stoklos - explicou Fiona – vocês ainda eram pequenas. Essa atriz é mímica. Ela construiu a cela da prisão no ar com as mãos, que coisa mais incrível! É ela o espetáculo.
Dessa forma, no sábado, foram os quatro ao teatro, enquanto Marcelo e Cleide levavam Rosália e Cristina à quermesse na praia.
Durante o trajeto, foram conversando:
-Vocês sabiam que os antigos gregos pensavam que um homem doente tem emoções doentes? Eu li que, no templo de Asclépio, o deus da medicina, os pacientes iam para sonhar. Os médicos também contavam estórias e receitavam teatro.- começou Nelson.
-Como assim, receitavam teatro?- quis saber Rosa.
-Sim, eles receitavam uma poção e uma peça teatral. As pessoas deviam assistir a peça e tomar a poção. O teatro curava a alma.
-É a tal da catarse, eu sei. – exibiu-se Sofia.
-Os médicos gregos estavam preocupados com doenças como a falta de compaixão, que provoca grandes dores e gera perversões, inclusive perversões sociais.
-O ponto é: a falta de compaixão gera dores nos outros, o egoísta fica é muito bem – -opinou Fiona.
-Realmente – concordou Sofia – as perversões sociais são sentidas pelas vítimas, não pelos criminosos.
-Pois para os gregos o teatro nos redime, pede por transformação, por evolução.
-Não concordo. Nem todo teatro é assim. – disse Rosa. – alguns são pura baixaria e comédia pastelão.
-Estou falando do teatro grego. Aliás, aonde nasceu o teatro, meninas? – provocou Nelson.
-Não foi na Grécia? - sugeriu Rosa, cautelosa, pois a voz do pai parecia armar uma armadilha.
-Os outros povos então não tinham teatro? – perguntou Sofia.
-Bem, Sofia tocou no ponto. Na Grécia nasceu o teatro grego. É exclusivamente do teatro grego que estou falando. Os chineses tinham lá seu teatro, nada de comum com o teatro dos gregos. Até os nossos tupiniquins faziam teatro, e nenhum grego que eu saiba veio até a América ensinar teatro para eles.
-Sei, então o teatro importante è o grego. – falou Rosa.
-Não. Os outros também têm importância. O teatro grego é o teatro da transformação interior, é grego o teatro que têm como objetivo a catarse, a depuração dos sentimentos. Um teatro cômico ou didático pode ser bom e não causar nenhuma transformação, apenas trazer informação e alegria. E isso não é necessariamente pior ou melhor, só diferente.
-Bem, vai daí que a Denise Stoklos faz teatro grego.
- Ela faz teatro brasileiro mesmo, mas segue a linha da transformação.vocês vão perceber que ela é um bocado politizada. Ela convida o espectador a mudar. Mudar para melhor, bem entendido. A agir. A ser um aliado e não um alienado.
Chegaram em tempo e procuraram seus lugares com calma. Quando as luzes se apagaram, fez-se silêncio e o espetáculo começou, com uma voz invisível falando:
‘Pedra: corpo duro e sólido, da natureza das rochas. Sentido figurado: base, fundamento.’
A aparência da atriz era marcante. Cabelos loiros espetados, o corpo magro, os olhos expressivos, as mãos eloqüentes. Ah, que mãos! Construíam no ar quase tudo, até o absurdo. E, na sua comicidade, os dramas cotidianos ficavam draminhas, que com coragem qualquer um supera.
Ao final da peça, o presidente da Comissão de Teatro da Prefeitura de Santos, em pessoa, anunciou que Denise Stoklos ficaria mais uma hora para um bate papo com os interessados. Havia cerca de cinqüenta atores, atrizes e diretores de grupos teatrais amadores e profissionais, além de alguns curiosos.
- Fazemos parte das pessoas interessadas – Rosa e Sofia informaram a Nelson.
Enquanto aguardavam que a atriz trocasse de roupa e reaparecesse no palco, Nelson foi até a mesinha colocada à frente da proscênio e comprou um livro, para mais tarde pegar o autógrafo da autora. Nelson tinha uma coleção de preciosos livros autografados.
Rosa e Sofia ficaram conversando sobre a peça.
Sofia gostara especialmente da cena em que Denise abria um jornal e lia as novidades do dia:
‘O cidadão do morro, Sísifo, vulgo Rola-pedra, dá queixa em delegacia trabalhista. Alegando ser seu ofício ingrato, pede aposentadoria compulsória.
Tragédia em família: filho mata o pai e tem relações sexuais com a mãe, depois arranca os próprios olhos.
Menor de rua judeu mata gigante estrangeiro. Davi, com um estilingue, acerta uma pedra em Golias’
Já Rosa gostara quando a personagem tentou pegar uma música no ar:
‘Ouço música! Onde ela está?’
E ambas concordaram que havia frases de efeito tremendas, como: ‘sair da mediocridade já seria um passo razoavelmente válido para todos’.
Denise Stoklos descreveu como tivera dificuldade em encontrar uma pessoa interessada em escutar o seu novo texto. Após diversas tentativas, um dia recebeu a visita de uma amiga que se dispôs a ouvir. Então, para sua surpresa, a amiga ria sem parar do texto que ela escrevera como tragédia, mas sua interpretação era percebida como cômica. Ela resumiu dizendo que o importante era ter conseguido passar a sua mensagem e finalmente levar a peça ao palco.
Contou que exercia o talento de contar estórias desde pequena, que a família a chamava para contar filmes e peças porque ela interpretava todos os papéis, gesticulava, mudava a voz...ela foi-se sentindo responsável por não decepcionar a platéia. Treinava em frente ao espelho e tentava diferentes vozes e gestos até encontrar o mais adequado. Assim foi-se aperfeiçoando.
Falou da importância política do ator, de buscar o auto-aperfeiçoamento, de questionar, de propor mudanças.
Para Stoklos o teatro leva a platéia a pensar em como ser um ser humano melhor.
Stoklos aprofunda o que chama de teatro essencial, que usa um mínimo de elementos cênicos e explora ao máximo o corpo e a voz do ator - há muito tempo seu trabalho transbordou a fronteira da mímica: "Este foi o meu começo, mas parti para sua desconstrução a fim de não reproduzir a realidade mas exteriorizar as emoções", adianta ela. "Não estou interessada num teatro de ficção, em que o espectador decifra um personagem e sim no convite energético em que o público encontra a si mesmo. O texto é um trilho para essa viagem."
A peça Calendário da Pedra baseou-se em um poema de Gertrude Stein, uma judia americana que vivera muitos anos em Paris, milionária e intelectual, amiga de Picasso, Matisse, Hemingway e outros papas da arte naquela época. Denise gostara da idéia de escrever algo dia após dia, acorrentando o ser humano a um esquema implacável, e colocar o ‘da pedra’, era uma maneira de fazer referância ao mesmo tempo à inflexibilidade do esquema e a Gertrude Stein, porque stein quer dizer pedra em alemão.
Ela finalizou:
"Para mim, é de lei não repetir um esquema que deu certo antes. Parto de uma estrutura e vou desconstruindo até chegar no cerne do que estou buscando", diz ela. "Aí há várias camadas de percepção. Quem quiser pode ficar só no clownesco, mas há quem prefira descer a outras camadas."
Ao voltarem para casa, Sofia decidiu:
-Quero contar estórias tão bem quanto ela.
-Uma mulher desse calibre ter dificuldades para divulgar seu texto! Bem, já fico mais consolada se minhas colegas de classe não têm paciência para ouvir minhas poesias – desabafou Rosa.
-Nós fomos publicadas em A Tribuninha – lembrou Sofia.
-A Tribuna publicava tudo porque éramos crianças. Quero ver se publicam nossos textos agora que somos adultas. – retrucou Rosa.
-Devagar aí com o andor! – interrompeu Nelson – Não fui convidado para a festa dos dezoito anos nem sequer para o baile dos quinze.
- Isso não muda o fato de sermos responsáveis pelo que fazemos. Eu me sinto sensata e equilibrada em qualquer idade.
- Eu também.
Nelson sorriu para elas, concordando.
VAMOS À ÓPERA?
O século vinte viu nascer a televisão, e ficou conhecido como a Era da Comunicação.
Uma das vantagens da telinha é colocar a cultura ao alcance de toda gente. É só escolher. O inconveniente dos horários inadequados desapareceu com a invenção de outro aparelho maravilhoso: o gravador videocassete. Basta programar o dia e a hora do programa, gravar e assistir depois.
Assim, Marcelo e Nelson gravavam para as filhas as excelentes miniséires que iam ao ar às onze da noite, como Morte e Vida Severina, O Tempo e o Vento, Memorial de Maria Moura, Chiquinha Gonzaga e tantas outras.
As professoras recomendavam que as alunas assistissem, apesar do adiantado da hora, e que também lessem a obra impressa, o que nem todas conseguiam. Como dizia Cristina: ‘o vídeo conta uma estória em duas horas, o livro eu arrasto por semanas.’
Uma colega de escola comentara que tais programas passavam tarde de propósito para que ninguém visse. As emissoras realizaram estas produções maravilhosas para concorrer a prêmios internacionais – e ganhavam – e o regulamento dos concursos exigia a exibição dos programas em canal aberto. Assim, as emissoras colocavam estes programas no ar bem tarde, para não atrapalhar a programação normal.
- Será verdade, papai? – perguntou Rosa.
- É bem possível, filha. A maioria das pessoas é viciada em futebol e telenovelas. Este é um país estranho, onde o dinheiro fala mais alto e a mediocridade impera.
A TV Cultura durante alguns meses filmou e retransmitiu com legendas e comentários as melhores óperas do mundo. Carmen e Aída entre elas.
A videoteca das mocinhas estava começando a rivalizar com a biblioteca.
Foi por esta época que Cleide trouxe a notícia: o maestro Luiz Gustavo Petri, regente da Orquestra Sinfônica de Santos, juntamente com o Coral Municipal, estava elaborando o projeto Le Nozze di Figaro.
- Santos comporta uma ópera, mãe? – admirou-se Sofia.
- Bem, será um ópera, não uma ÓPERA!!!... o palco é pequeno, o figurino não é luxuoso, mas as vozes e os instrumentos dão conta do recado. E haverá uma novidade: o letreiro, para quem não souber italiano.
- Letreiro?
Ninguém imaginava como poderia haver legendas no palco.
No dia do espetáculo, as duas famílias sentaram-se lado a lado, curiosas. Do teto pendia uma minitela, que ficava suspensa sobre o palco e nela eram projetadas as legendas com a tradução das falas dos cantores.
Ao som da música do Mozart desenrolou-se uma grande confusão entre os desencontros amorosos dos casais principais e alguns enredos paralelos, engraçados mal entendidos.
Sofia e Rosa levaram cuidadosamente seus livretos para guardar junto ao de Florbela Espanca, para se lembrarem por muito tempo destas noites estimulantes. Além do mais, as professoras do Conservatório haviam recomendado aos alunos que assistissem a ópera e até haviam proposto um trabalho para aqueles que quisessem melhorar sua nota.
-Eu até me sinto mais elegante – brincou Rosa – já posso dizer que fui a uma ópera de verdade.
-Mesmo sem luvas, chapéu e leque – observou Sofia, sonhadora – sem senhores de cartola e binóculo nem frisas.
-Quando eu era moça – contou Fiona – assisti a ópera O Guarani no Teatro Coliseu, que, naquela época, era lindo. Os barões do café usavam binóculos, as mulheres luvas, todos muito empinados, pois Santos já foi uma cidade de gente rica. O Teatro Coliseu tem frisas e os lustres eram de cristal.
As meninas suspiraram ao ouvir a descrição detalhada do teatro agora em ruínas. Elas só conheciam o esplendor antigo por fotografias. A prefeitura pensava em reconstruir e restaurar, o que levaria anos, em um país pobre em dinheiro e rico em burrocracia, como diziam os adultos.
-Diz-se que a ópera não admite meio termo – comentou Marcelo – Assistir uma ópera é uma experiência tão intensa que ou a pessoa ama ou odeia.
-Eu passo – bocejou Cristina – Prefiro um filme.
Rosa, Sofia e Cristina gostaram e pediram mais.
-Nas férias de verão poderemos combinar e ir a São Paulo, conseguindo ingressos mais baratos por ser temporada – propôs Cleide.
E Marcelo sugeriu:
-Já que a noite de hoje é italiana, que tal uma pizza?
-Para manter o clima italiano, podemos ir ao Stromboli – propôs Cleide.
E o sábado terminou em pizza.
ROTEIROS DE VIAGEM
-Neste verão já choveu por duzentos e trinta dias! – desabafou Sofia, furiosa, no maior mau humor.
-E continuará chovendo por mais duzentos e sessenta! – respondeu Rosa, no mesmo tom.
As meninas menores começaram a rir. Elas sempre riam quando as maiores estavam infelizes ou zangadas.
-Todo mundo sabe que o verão não tem duzentos dias, Sofia – corrigiu Cleide, gentilmente.
-Ah, mamãe, eu já estou toda embolorada por dentro.
-É verdade, até os lençóis parecem molhados quando vou-me deitar – comentou Fiona – mas ninguém pode ainda controlar o tempo.
Estavam todas na cozinha de Fiona, as meninas enrolando brigadeiros e cortando biscoitos; as mães confeitando um bolo.
Fiona começara a fazer um curso de confeiteiro. A cada quinta-feira ela batia dois bolos, recheava e levava para a aula, trazendo o bolo confeitado no final da tarde. Nas primeiras semanas foi uma festa; após três meses ninguém mais agüentava comer bolo, e ela começou a vender para os familiares e vizinhos, com tanto sucesso que estava recebendo encomendas quase todas as semanas. Assim, Cleide começou a ajudar, e aprendia as novidades.
-Já jogamos todos os nossos jogos, ouvimos todos os nossos discos, cansamos de ler, de papear ao telefone com as amigas, de desenhar e de jogar xadrez. Chega! Quero ir lá fora nadar, andar de bicicleta, tomar um sol, jogar amarelinha, qualquer coisa diferente! – continuou Sofia.
-Nós também – concordaram as outras em coro.
Cleide pensou um pouco:
-Bem, a mim parece que vocês podem ir brincar na chuva, desde que tomem banho imediatamente quando entrarem em casa, para não ficarem doentes.
As meninas não quiseram. A chuvinha miúda estava fria, seria desconfortável.
- Eu sei o que poderíamos fazer – sugeriu Fiona – poderíamos por em ordem os álbuns de fotografias. Poderíamos escrever aqueles roteiros de férias que sempre ficam em projetos.
- Podemos fazer um concurso e ver quem faz o roteiro mais interessante – disse Rosália. – mas cada uma escreve sobre uma viagem diferente, certo?
Sempre era melhor que ficar reclamando à toa, assim, depois de terminarem de cozinhar, as duas mães trouxeram as fotos para a sala e separaram as fotos em bloquinhos, um para cada viagem que haviam feito.
Durante a semana, este trabalho manteve as mocinhas ocupadas, recortando fotos de revistas, consultando prospectos, organizando as fotos. No sábado, já haviam adiantado muita coisa, e, na semana seguinte, mostraram o resultado.
A primeira a ler seu roteiro foi Rosália, que usou os slides da família para ir animando a leitura, um tanto fora de ordem, sobre o que ela lembrava da viagem ao Espírito Santo:
FÉRIAS DE-LI-CI-O-SAS....
Curtimos um sol legal em Vitória, neste verão.
Fomos de avião e ficamos em um hotel chamado Porto do Sol, na praia de Camburi.
Coisas divertidas aconteceram nesta viagem.
No avião, uma garotinha engraçada dizia para a sua mãe:
-Mãe, eu quero um pouquinho daquele algodão doce lá fora.
-São nuvens, querida.
-Mamãe, quero comer nuvem.
Depois a garotinha disse:
- Pensei que o avião batia asas como uma borboleta.
Pode?
Tomamos sol. Bebemos muita água de coco. A gente mora no litoral, mas a água de coco que a gente bebe como turista na praia dos outros é mais saborosa, não sei porquê.
Comemos moqueca, um ensopado da terra, que o pessoal cozinha em pesadas panelas de pedra. É claro que a minha mãe teve de comprar uma das tais panelas.
Nós paramos em frente ao elevador do hotel, logo na chegada, conversando, conversando, conversando, meu pai fazendo as perguntas que queria para o empregado do hotel que fica montando guarda em frente ao elevador para os hóspedes não fugirem sem pagar a conta, e nada do elevador chegar.
Meu pai:
-O elevador é sempre demorado?
-Não, senhor, o elevador é bem rápido.
-Porque hoje está demorando a descer?
-Porque o senhor precisa apertar o botão aí no painel.
Pois não é que ninguém tinha chamado o elevador? Meu pai ficou vermelho, Rosa e eu sufocamos de tanto rir...
Domingo fomos jantar fora, e não sabíamos que haveria uma tal de ‘noite árabe’ no hotel. Eu adoro comida árabe. Bem, quando chegamos o maître perguntou:
-Vão jantar?
Papai disse que já havíamos jantado, mas que íamos comer a sobremesa. Vai daí eu e Rosa fomos ao salão e não resistimos. Voltamos com dois enormes pratos com quibes, esfirras, homus, pão sírio, charutinhos, comemos e comemos e depois retornamos com dois outros pratos imensos cheios de pastéis de amêndoas, doces de gengibre, de macarrão, de nozes e balas de goma.
O maître ficou observando e eu não resisti:
-Comemos pouco porque já havíamos jantado...
Mamáe disse que nós exageramos. Mas estava tão bom...
Rosa está dizendo que esqueci as coisas importantes, que não falei das areias monazíticas da praia de Guarapari. Uma areia escura, radioativa, que dizem fazer bem para quem tem reumatismo.
Rosa começaria seu relato de viagem assim:
‘Palavras derivadas do tupi: capixaba, o que lida com a terra; guarapari, armadilha para guará. Para quem não sabe, eu não sabia, guará é um passarinho lá daquele local.’
Só minha impossível irmã para se ligar nestas gramatiquices!
Vimos uma enorme aranha caranguejeira em Vila Velha, quando subíamos para o Convento da Penha, e, é claro, paramos respeitosamente para a importante senhora atravessar bem sossegada.
E o melhor da viagem foi conhecer a fábrica de chocolates Garoto e é claro que nos entupimos de chocolate.
Valeu!
O relato de Rosa veio a seguir:
UMA AVENTURA DIGNA DE PIONEIROS
Quando visitamos o Itaimbezinho ainda não existia o Parque Nacional dos Aparados da Serra, cujo projeto estava no papel. Ainda não havia portanto placas, guardas, asfalto nas estradas de acesso nem lanchonetes, guias e outras coisas civilizadas.
Saímos da cidade de São Francisco de Paula, no estado do rio Grande do Sul, de manhã bem cedinho, com tudo o que pudéssemos precisar: água, comida, corda, estepe, estojo de primeiros socorros e espírito pioneiro.
Foram mais de duas horas de verdadeiro deserto. Coxilhas e mais coxilhas, como dizem os gaúchos, sem ver casa nem gente, um ermo, coxilhas até enjoar!
Itaimbé vem do tupi e quer dizer pedra (ita) afiada (imbé).
Nosso passeio foi emocionante, pois ainda não havia por lá muros de proteção, grades, guardas, nada, a sensação de estar sozinho em um local selvagem e perigoso é incrível!
Se eu cometesse um crime por lá, derrubasse alguém desfiladeiro abaixo, ninguém descobriria. Era o cenário perfeito para uma história de crime.
Cheguei bem pertinho do abismo, até dava tonturas e tirei fotos de borboletas, flores e da paisagem, é claro, com a lente zoom do papai. Algumas saíram ótimas.
Claro que hoje, com o Parque Nacional dos Aparados da Serra bem estruturado, o turista tem segurança e conforto.
Conforto eu gosto, mas segurança eu passo, se tirar a emoção da descoberta. Eu não troco por nada essa deliciosa visita a uma região selvagem que guardarei com emoção em minha memória por toda a vida.
E segue aí embaixo algumas informações sobre o Parque.
ATRAÇÕES
O maior cânion do parque é o Itaimbezinho, com 5,8km de extensão. Trilhas levam até as suas bordas e de lá, em dias claros, pode-se ter uma visão até do litoral do Rio Grande do Sul. Os mais aventureiros podem seguir trilhas que levam ao vale dos rios. Uma caminhada de oito horas até o Vale do Rio do Boi, leva a um lugar conhecido como Cruz, onde se vê uma das curvas formadas pelas fendas na montanha.
Cachoeiras despencam das bordas dos cânions. A mais famosa delas é a Véu de Noiva com 720m de altura. Além disso, observar a rara Floresta de Araucária e os animais ameaçados de extinção pode ser uma boa experiência.
O Cânion Itaimbezinho localizado entre as cidades de Cambará do Sul, e Praia Grande, é o principal atrativo do Parque Nacional Aparados da Serra. Com Altura das Paredes de até 720 metros, largura de aproximadamente 600 metros e uma extensão de 5.800 metros
Na borda do Cânion – parte alta do Parque – é possível percorrer duas trilhas: a Trilha do Vértice e a Trilha do Cotovelo.
A Trilha do Vértice são 1,1 km de ida e volta. Pode-se observar cerca de 30% do Cânion, a Cascata das Andorinhas e a Cachoeira Véu de Noiva.
ASPECTOS NATURAIS
Um derrame de lavas há 130 milhões de anos se espalhou pela superfície em forma de crosta. Essa crosta rachou ao meio, formando bordas afiadas que parecem ter sido esculpidas. Assim surgiram os cânions da região, possuindo uma profundidade média de 600m. O nevoeiro que quase sempre envolve essas formações se deve à grande diferença de temperatura.
A flora do parque constitui-se de trechos de Floresta de Araucária, campos e floresta pluvial atlântica. Seus principais representantes são, respectivamente, o pinheiro-do-paraná, gramíneas e ervas, e árvores de grande porte como a cangerana.
Entre os mamíferos que constituem a fauna estão o puma, o lobo-guará, o graxaim e o veado-campeiro. O parque abriga três espécies de aves ameaçadas de extinção: o gavião-pato, o gavião-pega-macaco e a águia-cinzenta.
Rosália escolheu documentar a viagem que haviam feito a Minas Gerais em um feriado prolongado de sete de setembro.
GRUTAS
Diz a lenda que um homem louro, fugitivo, se escondeu na gruta e ficou morando por ali. Ficou conhecido como Rei do Mato e daí veio o nome da gruta, que só foi aberta para visitantes muito mais tarde, depois que os técnicos do governo colocaram passarelas, escadas de concreto e iluminação lá dentro.
Esta gruta fica perto de Belo Horizonte e é diferente das outras por ser muito grande messsssmo, com abismos profundos, salões imensos. Não seria possível percorrê-la sem as pontes em alguns locais, e as grades de proteção são realmente necessárias. Imagine que um de seus salões tem vinte metros de altura! E há um abismo sobre um lago subterrâneo! Seus belos cristais de calcita chegam a ter trinta centímetros de diâmetro.
O conjunto de formações dentro de uma caverna recebe o nome de Espeleotemas. Neste salão encontramos diversas formações, dentre elas uma estalagmite, (cresce de baixo para cima) denominada "Torre de Pisa"e varias estalactites, (crescem de cima para baixo). Do encontro dessas duas formações resultam as colunas.
Meus pais não sei porque resolveram bancar os espeleólogos naqueles feriados, pois visitamos também Lapinha e Maquiné, outras grutas que também ficam em Minas Gerais.
Uma visita à Lapinha é também um passeio pela história de um dinamarquês que é conhecido como o pai da paleontologia no Brasil:Peter Wilhelm Lund (1801-1880). Dentro da gruta não foram encontrados fósseis mas na sua área de abrangência foi descoberto o primeiro fóssil humano que viveu na região há 12 mil anos
Tivemos sorte de visitar Maquiné sem guia e sem a presença de outras pessoas porque pudemos experimentar sentar em silêncio por alguns minutos debaixo da terra. Que sensação! Ouvi meu próprio coração, o ar entrando em meus pulmões. O silêncio chegava a doer em minhas orelhas. Nem um bebezinho na barriga da mãe se sente assim, pois o bebezinho ouve o coração da mãe e a gente debaixo da terra não ouve é nada. Para não sentir a solidão abri os olhos e olhei para a minha família, sentindo-me segura e protegida ali dentro.
Ah, que aventura! Foi muito bom!
- Estamos empatados, não? – falou Rosa – Todas as viagens foram gostosas e todos os roteiros estão bonitinhos. E vocês, adultos, o que vão mostrar?
Os adultos buscaram suas fotos e postais de viagens antigas, e foi divertido ver as roupas diferentes que se usava em outros tempos. Cleide estava levitando em uma saia rodada enorme, a dançar em uma praça em São Carlos.
- Essa é uma saia godê guarda-chuva – explicou ela.
Marcelo estava muito engraçado em uma calça de cintura alta, com botões enormes no cinto:
- As calças toureiros estavam em moda – sorriram os homens – a gente as usava com camisas desabotoadas, mostrando o peito e correntes de prata, como ciganos.
- Mamãe roubou a calça da irmã menor! – exclamou Rosália, rindo de uma foto em que Fiona usava calças curtas e estreitas, chamadas de ‘pescar-siri’.
- E estas bermudas longas até a curva do joelho, então! – mostrou Nélson.
- Gente, a coisa mais legal de se fazer em dias de chuva nós esquecemos de fazer! – gritou Rosália, assustando todo mundo.- Bolinhos de chuva!
- Bolinhos com banana!
- Não! Com erva-doce!
- Com bastante farofinha de canela e açúcar espalhada por cima! Faz, mamãe!
- E como está muito úmido, nós podíamos também fazer chocolate quente – atiçou Nélson – servido com chantilly para quem gostar.
-Hummm... Que delícia!
-Finalmente um programa que não acaba em pizza! – brincou Sofia.
-Alguém aqui lembra que está chovendo lá fora?
E a tarde acabou saborosa, mais uma lembrança feliz para ser armazenada na memória.
GERTRUDE STEIN, MATISSE E PICASSO
Desde o dia em que assistiram pela primeira vez a atriz Denise Stoklos, Sofia e Rosa se perguntavam quem seria Gertrude Stein.
Os anos se passavam sem que procurassem por uma resposta, até o dia em que Rosa leu a programação cultural mensal na revista do Sesc e encontrou:
- A peça de teatro que vai ao palco dia quinze chama-se Gertrude Stein, Matisse e Picasso.
Em seguida leu no resumo:
- ‘De Gertrude Stein é comum dizer-se que "descobriu " Picasso, que inventou a expressão "geração perdida", aplicada a Hemingway e Fitzgerald, que aconselhou Paul Bowles a dedicar-se à música e que se considerava um gênio. Sabe-se também que possuía uma das maiores e mais ricas colecções de arte do século XX e que essas obras se encontram, agora, espalhadas por vários museus. No seu apartamento, em Paris, acotovelavam-se personagens do mundo artístico e da sociedade da época.’
Sofia comentou:
-Quem foi Matisse nós sabemos, Picasso também, embora eu pinte melhor que ele e não queira ganhar um quadro dele nem de graça.
-Pois eu queria – falou Rosa – Vendia no dia seguinte a qualquer museu por um bom dinheirinho e fazia um montão de compras.
Rosa retirou da estante os livros de arte. Reviram os quadros de Matisse, com suas cores vibrantes e alegres e folhearam o Picasso sem grande paixão.
-Este aqui é famoso, o tal de Guernica – mostrou Rosa – você se lembra, Sofia?
-Que eu me lembre, nunca fui à Espanha – brincou Sofia.
-Ah, você lembra, sim. Neste quadro Picasso pintou os horrores da guerra. Li uma piadinha a respeito. Um general alemão estava lá admirando os painéis quando Picasso chegou e o alemão indelicado provoca o pintor:’foi você quem fez isso?’ e Picasso responde rapidamente: ‘foram vocês’.
-Resposta dez! – riu Sofia – Bem, Picasso acaba de subir um ponto no meu conceito.
-Olhe! – exclamou Rosa – o retrato de Gertrude Stein! – e olharam o rosto com dois olhos ao mesmo lado do nariz, totalmente desproporcionado.
Sofia leu:
- ‘A imagem de Gertrude Stein ficará sempre associada ao retrato que Picasso fez dela: uma forma mais ligada à escultura do que à pintura, uma figura sólida, maciça, que nos olha com o ar remoto de um monge tibetano. A sua forte personalidade marcou indestrutivelmente todos os que com ela privaram. “Eu fiquei e ainda estou satisfeita com o meu retrato, para mim, sou eu, e é a única reprodução minha que é sempre eu, para mim” (Declaração de Gertrude Stein, em 1938, sobre seu quadro feito por Picasso. Apud Revista Folha n°222).’
-Se um amigo meu me pintasse assim, seria o fim da amizade – disse Rosa.
Mas Sofia foi mais flexível:
-É preciso perdoar as esquisitices dos amigos, não seja tão radical, Rosa.
Fiona e Cleide se perguntaram se a peça não era adulta demais para as garotas.
-Não há censura – disse Nelson – além disso, Rosa e Sofia já tem quatorze anos, quase quinze, e são bastante inteligentes.
-Não sei se estou inteiramente de acordo, porque...parece que há alguma coisa irregular na vida desta mulher... – falou Cleide – mas acho que esta peça vai abordar mais os pontos artísticos da Gertrude.
Os adultos resolveram assisti a peça na sexta-feira, e se aprovassem, as meninas iriam na sessão de sábado. Aprovaram.
A peça contava as experiências de Gertrude Stein, Picasso e Matisse em Paris, durante a Segunda Grande Guerra. Ideais, postura política e arte em mistura a emoções e crises existenciais.
Gertrude disse ter enviado o seu livro mais importante para mais de vinte e duas editoras, que o recusaram. Seu próprio irmão afirmou tratar-se do livro mais chato jamais escrito. E no entanto foi reconhecido como um importante livro em seu gênero.
Diz-se de Gertrude que “era atraente de uma forma positiva e generosa, apesar da sua amplitude física. Parecia apreciar a sua própria gordura, uma atitude que é sempre uma ajuda, no sentido de se ser aceite por outras pessoas. Não possuía nem um traço daquele embaraço tonto que os anglo-saxónicos demonstram em relação à carne. Ela glorificava a sua."
Gertrude Stein foi mais do que uma senhora ( com um ar bastante masculino ) que dava ótimas festas e entretinha os seus amigos e convidados com ditos espirituosos e inteligentes, ao mesmo tempo que os deliciava com os famosos cozinhados da sua companheira. Foi uma escritora que inovou em literatura e uma importante mentora da arte moderna. Diz-se que ela fez com as palavras o que Picasso fez com as tintas.
Apesar do teor sério e intelectualizado da peça, as meninas gostaram de conhecer Gertrude, já que estavam curiosas há anos, por causa do Calendário de Stoklos. A vida desta autora foi uma lição de determinação e persistência.
-Lição número um – disse Sofia, impressionada com as vinte e duas recusas – ‘não confie no mau gosto dos outros.’
-Lição número dois: insista. Aos chatos, o troféu. – brincou Rosa – Ao contrário do que ensinam em nossas aulas de boas maneiras, os chatos têm mais chances de sucesso.
Nélson comentou:
-Que coisa curiosa. As editoras publicam muita coisa de má qualidade porque vende. Muitos bons escritores não são divulgados como deveriam. Li em algum lugar que o livro mais vendido de Drummond teve uma edição de três mil exemplares apenas. E certos livrinhos de bolso, romances de má qualidade cujos autores nem sequer assinam o nome verdadeiro, usam pseudônimos estrangeiros, vendem aos milhares.
-Lição número três: quantidade não é qualidade.- continuou Sofia.
-Lição número quatro: escrever não deixa ninguém rico.- falou Rosa.
-Monteiro Lobato também pensava assim, e foi explorar petróleo para ganhar dinheiro e custear seus livros. E vocês sabem o que aconteceu. – disse Nélson.
-Sabemos. – respondeu Sofia – ele diz ter sido o único brasileiro que conseguiu duas coisas impossíveis: ganhou dinheiro com livros e perdeu dinheiro com petróleo.
-É, a vida é cheia de surpresas...quem sabe o que nos reserva, não é? – completou Rosa – contanto que o reconhecimento de nossos esforços chegue em vida...
Pois Gertrude Stein não fora reconhecida em vida, talvez por ser uma mulher atuante em uma sociedade que das mulheres esperava passividade; talvez por ser criativa e irreverente, talvez por outros motivos. O certo é que, como constava do resumo da peça:
‘Em 1999, cento e vinte e cinco anos depois do seu nascimento, sucederam-se as manifestações de apreço, análise, recuperação da sua obra: teatro, ficção, poesia, biografia, ópera. O século passado terminava, assim, com uma "revisão da matéria" lançada aos ventos por Stein. A partir do estudo da sua obra e personalidade, noções como modernismo e pós-modernismo, etnicismo, lesbianismo, elitismo, estética, nunca mais foram as mesmas’
PARA SEMPRE, MINHA PRINCESA
Aquela segunda-feira era o primeiro dia das férias de Nélson, que deixou-se ficar na cama até tarde. As sentar-se para ler o jornal, logo após o café-quase-aperitivo-antes-do-almoço, deparou-se com a foto das filhas e de Sofia, de biquínis, na primeira página do jornal. Pálido, chamou:
- Fiona! Você sabia disso?
- Que foi, Nélson? Ah, esta foto. O repórter teve o bom gosto de escolher nossas filhas, entre tantas mocinhas bonitas.
- Você sabia!
- Claro, eu fui com elas comprar os trajes de banho.
Nélson ficou calado; parecia um animalzinho ferido. É desta maneira que os pais se sentem quando percebem que suas menininhas se transformaram em mulheres.
- Tem mais alguma coisa que eu não sei, Fiona?
A esposa respondeu em tom casual:
- Rosa está namorando. O rapaz esteve aqui ontem à tarde. Ele estuda violino e pretende ser maestro. Eles são amigos há anos, é o menino que fez o deus da porcelana naquela peça, anos atrás, você deve lembrar. Ele me perguntou se poderia dançar a valsa de quinze anos com Rosa, ou se ela vai dançar com você, ou se Rosa vai ter uma dessas festas modernas em alguma pizzaria ou discoteca barulhenta.
- E você respondeu...
- Que nossa família é tradicional, e Rosa me interrompeu dizendo detestar discotecas e que pretende dançar com o pai em primeiro lugar e quer uma festa aqui em casa sem muito luxo.
- Ah!...ela já vai fazer quinze, eu nem percebi que já estava tão perto, mas... namoro? E eu fico sabendo por você? Ela não vai contar para mim?
- Nélson, você está com ciúmes!
- Bem, eu não quero minha filha por aí...rapazes, biquínis , o que vai vir por aí depois?
- Ora, não é você quem diz que as meninas devem tomar suas próprias decisões? Relaxe, elas são responsáveis, querido. Por favor! Sua filha mais velha discute filosofia e história melhor que muita gente grande, tira as melhores notas da classe, ganha prêmios em concursos de matemática...Sofia ganha medalhas no xadrez...são quase adultas.
- São um desastre em música.
- Que bom, assim ficam um pouquinho humildes, conhecem um pouco as dificuldades que pessoas não tão inteligentes experimentam ao aprender, dão valor ao esforço e à dedicação.... confio nelas. Nós demos a elas a melhor educação que pudemos e elas correspondem. Elas tomarão as melhores decisões, tenho certeza.
Neste momento, as meninas entraram, voltando da praia.
-Sofia, seu pai viu o jornal de hoje? – perguntou Nélson.
- Sofia olhou para Rosa:
- Acho que seu pai já viu o jornal.
- Bem, eu vi. O que Marcelo diz disto que você está usando, Sofia?
- Ele diz que é bonito. O senhor sabe o que meu pai pensa. Meu pai sempre diz que proibir as coisas é a maneira mais garantida de fazer as pessoas cometerem pecados. Ele diz que os índios andam nus e são inocentes, que a maldade está na mente de quem olha e que os costumes mudam com o tempo. Na época de minha avó mulher não usava nem calça comprida nem saias curtas, hoje se alguém sair por aí de roupa atacada no pescoço vai chamar a atenção e provocar o riso.
- Foi o que eu disse, os costumes mudam – concordou Fiona – a gente precisa se atualizar. A geração de Nélson viu o pós-guerra, o lema deles era um horrível ‘sexo, drogas e rock’...já a geração de vocês viverá no século XXI, a Nova Era de amor e liberdade, a esperança de que finalmente o homem consiga viver em harmonia com a natureza.
- A mamãe está falante hoje... – reparou Rosa.
- É porque as mães ficam orgulhosas quando suas filhas crescem – sugeriu Rosália.
- Eu sempre disse que os pais devem parar de tomar decisões pelos filhos quando percebem que os filhos já são capazes de fazer suas próprias escolhas – suspirou Nélson, com jeito de quem se vê preso na própria armadilha.
Enquanto deixamos Nélson a pensar em como o tempo passara rápido, relembro as palavras de Mark Twain, que afirmou: o escritor que conta uma estória sobre crianças deve saber onde parar – antes que fiquem adultas. Então é agora que devo finalizar este relato, quando Nélson, e seguramente também Marcelo, conclui:
- Mas em meu coração, vocês serão sempre minhas amadas princesinhas.