13 de dez. de 2014
27 de ago. de 2014
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23 de ago. de 2014
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11 de ago. de 2014
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Cotidiano
Maré vai, maré vem, a orla é sempre a mesma. Pescadores e gaivotas sabem que peixes bons estão nas profundezas, ocultos. Maré vai, o barco parte. Maré vem, nem sempre o barco regressa.
Abaixo a vergonha
O lógico e cínico senhor Karl não acreditou quando Günter Schabowski anunciou a imediata abertura do muro de Berlim, claro estava ser um engano, e foi dormir. Perdeu a alegria com que festejaram os que preferiram acreditar no improvável.
Abaixo a vergonha
O lógico e cínico senhor Karl não acreditou quando Günter Schabowski anunciou a imediata abertura do muro de Berlim, claro estava ser um engano, e foi dormir. Perdeu a alegria com que festejaram os que preferiram acreditar no improvável.
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10 de ago. de 2014
7 de ago. de 2014
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5 de ago. de 2014
Poemas ilustrados
2014 - primavera em Vancouver, foto minha.
Este foi pintado na porta de entrada do Sesc, na Trilha de Haicai, exposta em 2012.
2014 - passeando em Vancouver, primavera chuvosa.
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3 de jul. de 2014
Petmania
Já dizia Magri...lembram-se dele? Poucas figuras políticas foram tão engraçadas como o ministro Magri. Sua ascensão meteórica de líder sindical ao mais alto escalão do governo surpreendeu a ele próprio, que, ante a nação estupefata vociferou, indignado: "A situação do trabalhador brasileiro é inadimissível! A stiuação tem de mudar! Alguém tem de fazer alguma coisa!". E no silêncio constrangedor que antecedeu a gargalhada nacional, um jornalista sugeriu ao ministro que esse alguém era ele mesmo, o então Ministro do Trabalho.
O ministro provocou uma corrida nacional ao dicionário ao declarar que o salário do trabalhador era 'imexível'. Na manhã seguinte, as manchetes todas eram variações de "Aurélio, acrescenta aí uma palavrinha nova no seu léxico"
A afirmação mais simpática e no entanto a mais polêmica, que cindiu em duas partes a população, foi sua desastrada, inflamada, categórica afirmação "cachorro também é ser humano"...
Definição biológica à parte, o que o ministro colocou a nu foi a tendência patológica que se alastra pelos bondosos corações de nossa espécie. Sim, os humanos são animais. Inverter as premissas é um êrro de lógica. Na filosofia, ao contrário da multiplicação matemática, trocar os fatores altera sim o produto.
Alguns cachorrófilos aclamaram: "Em verdade, os cachorros são é melhores que os humanos!"
Desta data para cá, lancei meu olhar curioso e atento, não para a afirmação, evidentemente metafórica, e sim para o comportamento das pessoas com seus animais.
Ser bondoso com todos os seres é preceito budista. Respeitar a natureza, em qualquer de suas formas, é respeitar a si mesmo. Gosto do lema 'deixa que a vida selvagem continue selvagem', que leva à criação de reservas e santuários bilógicos pelo planeta.
O problema começa quando nós, humanos, trazemos outra espécie para nosso convívio. Aparecem doenças, alteram-se dietas, modificam-se hábitos. O animal criado em cativeiro modifica-se e não mais consegue sobreviver em seu ambiente original. O lobo virou cão.
Fantástica simbiose, esta do lobo com o homem, mais intensa que a da rêmora com o tubarão, pois, no processo, surgiu um novo espécime 'canis' e centenas de raças.
Há séculos homens e cães mutuamente se protegem, se aconchegam e trocam favores.
Abro um parênteses: vamos nos esquecer por um momento daquele povo que come carne de cachorro, pois mesmo entre eles há um diferencial, só comem uma determinada raça, criada para isso; nem vamos falar dos que maltratam os bichos, e que, por força das ONGs e das leis, são em número cada vez menor. Quero falar dos que realmente gostam de animais, e são mesmo profundamente ligados aos seus.
É muito saudável conviver com cães. Eles enriquecem nossa vida. Trazem alegria ao ambiente. Despertam nossa compaixão. Afastam nossa tristeza. Há psicólogos que afirmam que brincar com cães ajudam crianças com dificuldades de aprendizagem. Há médicos que indicam a convivência com cachorros para melhorar a comunicação de autistas e outros deficientes. Há até cachorros usados em terapias de pacientes terminais.
Há séculos nossos amados companheiros de jornada vivem lado a lado conosco, até recentemente em nossos quintais, abrigados em casinhas, canis ou simples forro no chão das varandas, eram alimentados com carnes variadas, sobras da mesa ou rações, conforme a índole ou o bolso do proprietãrio. Mais recentemente têm a seu dispor veterinários, vacinas, medicamentos.
No entanto insidiosamente, em nossa sociedade doente, distorceu-se de tal forma esta relação que surgiu esta aberração que o ministro Magri revelou ao proferir este inusitado comentário: "cachorro também é humano". (acredito que alguns psiquiatras mais atentos já deviam ter se deparado com este quadro bizarro)
Comecei, então, a lembrar de como o mundo rodou e involuiu, de como as famílias foram desalojadas de casas com quintais e socadas em 'apertamentos'; de como se retirou da grade escolar a filosofia e a educação focou na massificação ao invés de estimular a individualidade; de como o romance virou sexo, liberdade virou irresponsabilidade, opinião própria virou rebeldia, integridade passou a ser sinônimo de idiotice, sinceridade tornou-se tolice e pensar caiu em desuso.
E o que aconteceu com os cachorros? Seus donos os trouxeram para dentro de seus cubículos, companheiros de cela, fiéis como no tempo em que corriam livres pelas ruas, a perseguir carros e gatos.
Verifico que, no momento em que perdemos espaço, nossa taxa de natalidade diminuiu. As pessoas casam-se mais tarde, e como o tempo passa e a situação econômica persiste no nível de sobrevivência, resolvem ter apenas um, ou nenhum rebento. E aquela impulsão arquetípica de amor e doação, para onde é canalizada? Para o animalzinho da casa.
E eis aí a nova estranha função de nosso amigo: filho substituto. Confusão à vista, para homens e cães!
Enquanto o homem encarnava o papel de macho alfa da matilha, e permaneceu no comando da relação, a simbiose manteve-se equilibrada.
Atualmente observa-se a inversão: é o animal que escolhe o dono, ainda no canil. E o animal no comando decide, entre olhares ardilosos ou rosnados claros, o que quer comer, quando quer passear, onde dormir e se vai ou não ficar sozinho.
No século XX perdemos a capacidade de educar filhos e fizemos a fortuna de psicólogos, gastando o que não tínhamos em livros que ensinam o óbvio. Jovens mães sequer sabiam amamentar!
No século XXI perdemos o rumo com nossos animais de estimação - porquinhos, fuínhas, gatos, e, em especial, com os cães.
Em minha meninice não havia cães obesos, neuróticos, cancerosos, diabéticos. Os animais vivaim saudavelmente no quintal ate o dia em que não acordavam ou sofriam algum acidente. Hoje a regra virou exceção. Adoecemos nossos melhores amigos.
Nossos cães, que hoje estão no comando de seus donos, submissos aos caninos caprichos, pagaram o alto preço da liberdade; confinados, sem sol, sem espaço de lazer, estressados e mal alimentados.
Cães, hoje, recebem, mais do que nunca, alimentos diretamente do prato dos humanos - batatas fritas, pães, doces, molhos, sorvetes, não mais às escondidas, das màos do caçulinha, por debaixo da mesa. Para os cães compram-se ovos de Páscoa, panetones, bolos confeitados, tudo embalado em padarias especializadas. E a propaganda, como para os produtos humanos, é a mesma mentiralhada, leia os rótulos! Corantes, conservantes, aditivos, gosto e sabor altificial de carne.
Considerado parte da família, o dono se sente na obrigação de alimentar e presentear seu bichinho de maneira humana, em restaurantes, hotéis e festas. Há praias para cães. Clubes para cães. Spas para cães. Só não temos para eles o ambiente natural dos cães. Do mesmo modo como já não nos lembramos mais do que foi um dia o ambiente natural humano (o céu, por exemplo, tinha estrêlas).
As roupas caninas não servem para agasalhar; têm griffe, estampas e dizeres significativos para os donos, seja o símbolo do time esportivo, a bandeira do país, dizeres engraçados, cores em voga.
A antropomorfização vai dos objetos aos diálogos. Os comandos e carinhos há muito saíram do bate papo e passaram ao terreno minado das confidências. O dono, pressionado pelo patrão, pelo governo, pela lei, e, quando a tem, pela família, chega em casa e despeja sua agonia naquele que é 'o único ser que me compreende' - ou seja, que não o critica. E acredita piamente nisso, pois, quando o cão morre - eles sempre morrem antes - o sujeito sente que perdeu a alma que o conhecia a fundo.
Esta atenção deslocada, exagerada e obsessiva pode até servir de terapia barata ao pobre trapo humano, mas, para os cães, em que os beneficia?
Pobre cão, que resta em casa sozinho por longas horas, esperando ansiosamente pelos poucos minutos em que receberá as migalhas de atenção do dono. Dono esse que ainda dirá, contando no relógio, algumas frases absurdas como 'o veterinário recomendou 60 minutos de passeio, pelo menos'. Se perguntado, aposto que o cãozinho mijaria nos 60 minutos. O animal sacrifica sua natureza para dar significado à vida humana e recebe em troca um mínimo de responsabilidade da parte de seu dono. Repete-se com o animal o erro que o pai tradicional cometia com seus filhos, ao afirmar hipocritamente : 'passo o dia todo longe mas penso nele a cada minuto'.
Comparo porque há motivos comuns para as pessoas quererem filhos e cães: querem um amor compartilhado, querem doar-se, querem oferecer e receber proteção, companhia e auxílio, ter a criatividade estimulada, adquirir senso de responsabilidade, evoluir emocionalmente, encontrar significado para suas miseráveis vidas, enfim, querem ser felizes.
Detalhe importante, contudo: filhos são pessoas e cachorros são animais. E aí algumas pessoas fazem alguns comentários esclarecedores.
Animais ficam sozinhos. Animais não usam drogas, não viram psicopatas ou piromaníacos - o máximo de suas neuroses é roer a perna do sofá ou morder o carteiro.
Filhos são mais complicados. Nào podem ser deixados sozinhos, nem se pode bater neles ou colocá-los a trabalhar, pois é contra a lei atual. Não se pode ir a um depósito de filhos e escolher o seu pedigree - é sempre, boa ou má, uma surpresa. Filhos questionam os pais, forçam tomadas de posição, demandam sacrifícios, recebem nossas tradições e logo denunciam quantos esqueletos encontraram nos armários, são seres exigentes que podem provocar culpa, tanto como promover nossa evolução espiritual. Doar-se a um filho é contribuir para construir o mundo, e a incômoda pergunta desassossega os homens de boa vontade: 'será que eu consegui criar um ser humano decente?'
Há muitos outros motivos, que posso considerar egoístas, porém constituem motivos honestos, claros e válidos: quem tem filhos perde, e muito.
Perde noites de sono. Perde convites para festas, vira assim uma espécie de pária social. Algumas mulheres temem a deformação estética (essas já são tão feias por dentro que só lhes resta mesmo e ilusão do corpo). Corre-se o risco de ser excluído do mercado de trabalho, de perder a indicação daquela promoção tão desejada. Os mais sinceros e esclarecidos compreendem que, para lá de todo o sacrifício intangível, o filho é, nesses dias de devoção a Pluto, o 'devorador de patrimônio'.
Enfim, o medo modifica a sociedade humana. O medo de empobrecer financeira, social e intelectualmente. O medo de não estar à altura da responsabilidade. O medo de encontrar-se só diante da tarefa estafante sem rede de apoio, sem tempo suficiente, sem local adequado.
Acho que é cedo para perder completamente a esperança no futuro da humanidade. Embora cada vez menos gente escolha ter filhos, e cada vez mais egoístas escolham cães, é melhor assim. Na próxima década, teremos mais crianças desejadas e ajustadas, uma população humana menor e melhor.
Em contrapartida, haverá uma multidão de velhos solitários - seus cães morrerão antes, lembram-se? - e não faltarão empregos nas áreas voltadas às necessidades caninas, inclusive cemitérios.
Ainda não concordo com Magri.
Os cães não são seres humanos.
Alguns humanos é que perderam a sua humanidade.
O ministro provocou uma corrida nacional ao dicionário ao declarar que o salário do trabalhador era 'imexível'. Na manhã seguinte, as manchetes todas eram variações de "Aurélio, acrescenta aí uma palavrinha nova no seu léxico"
A afirmação mais simpática e no entanto a mais polêmica, que cindiu em duas partes a população, foi sua desastrada, inflamada, categórica afirmação "cachorro também é ser humano"...
Definição biológica à parte, o que o ministro colocou a nu foi a tendência patológica que se alastra pelos bondosos corações de nossa espécie. Sim, os humanos são animais. Inverter as premissas é um êrro de lógica. Na filosofia, ao contrário da multiplicação matemática, trocar os fatores altera sim o produto.
Alguns cachorrófilos aclamaram: "Em verdade, os cachorros são é melhores que os humanos!"
Desta data para cá, lancei meu olhar curioso e atento, não para a afirmação, evidentemente metafórica, e sim para o comportamento das pessoas com seus animais.
Ser bondoso com todos os seres é preceito budista. Respeitar a natureza, em qualquer de suas formas, é respeitar a si mesmo. Gosto do lema 'deixa que a vida selvagem continue selvagem', que leva à criação de reservas e santuários bilógicos pelo planeta.
O problema começa quando nós, humanos, trazemos outra espécie para nosso convívio. Aparecem doenças, alteram-se dietas, modificam-se hábitos. O animal criado em cativeiro modifica-se e não mais consegue sobreviver em seu ambiente original. O lobo virou cão.
Fantástica simbiose, esta do lobo com o homem, mais intensa que a da rêmora com o tubarão, pois, no processo, surgiu um novo espécime 'canis' e centenas de raças.
Há séculos homens e cães mutuamente se protegem, se aconchegam e trocam favores.
Abro um parênteses: vamos nos esquecer por um momento daquele povo que come carne de cachorro, pois mesmo entre eles há um diferencial, só comem uma determinada raça, criada para isso; nem vamos falar dos que maltratam os bichos, e que, por força das ONGs e das leis, são em número cada vez menor. Quero falar dos que realmente gostam de animais, e são mesmo profundamente ligados aos seus.
É muito saudável conviver com cães. Eles enriquecem nossa vida. Trazem alegria ao ambiente. Despertam nossa compaixão. Afastam nossa tristeza. Há psicólogos que afirmam que brincar com cães ajudam crianças com dificuldades de aprendizagem. Há médicos que indicam a convivência com cachorros para melhorar a comunicação de autistas e outros deficientes. Há até cachorros usados em terapias de pacientes terminais.
Há séculos nossos amados companheiros de jornada vivem lado a lado conosco, até recentemente em nossos quintais, abrigados em casinhas, canis ou simples forro no chão das varandas, eram alimentados com carnes variadas, sobras da mesa ou rações, conforme a índole ou o bolso do proprietãrio. Mais recentemente têm a seu dispor veterinários, vacinas, medicamentos.
No entanto insidiosamente, em nossa sociedade doente, distorceu-se de tal forma esta relação que surgiu esta aberração que o ministro Magri revelou ao proferir este inusitado comentário: "cachorro também é humano". (acredito que alguns psiquiatras mais atentos já deviam ter se deparado com este quadro bizarro)
Comecei, então, a lembrar de como o mundo rodou e involuiu, de como as famílias foram desalojadas de casas com quintais e socadas em 'apertamentos'; de como se retirou da grade escolar a filosofia e a educação focou na massificação ao invés de estimular a individualidade; de como o romance virou sexo, liberdade virou irresponsabilidade, opinião própria virou rebeldia, integridade passou a ser sinônimo de idiotice, sinceridade tornou-se tolice e pensar caiu em desuso.
E o que aconteceu com os cachorros? Seus donos os trouxeram para dentro de seus cubículos, companheiros de cela, fiéis como no tempo em que corriam livres pelas ruas, a perseguir carros e gatos.
Verifico que, no momento em que perdemos espaço, nossa taxa de natalidade diminuiu. As pessoas casam-se mais tarde, e como o tempo passa e a situação econômica persiste no nível de sobrevivência, resolvem ter apenas um, ou nenhum rebento. E aquela impulsão arquetípica de amor e doação, para onde é canalizada? Para o animalzinho da casa.
E eis aí a nova estranha função de nosso amigo: filho substituto. Confusão à vista, para homens e cães!
Enquanto o homem encarnava o papel de macho alfa da matilha, e permaneceu no comando da relação, a simbiose manteve-se equilibrada.
Atualmente observa-se a inversão: é o animal que escolhe o dono, ainda no canil. E o animal no comando decide, entre olhares ardilosos ou rosnados claros, o que quer comer, quando quer passear, onde dormir e se vai ou não ficar sozinho.
No século XX perdemos a capacidade de educar filhos e fizemos a fortuna de psicólogos, gastando o que não tínhamos em livros que ensinam o óbvio. Jovens mães sequer sabiam amamentar!
No século XXI perdemos o rumo com nossos animais de estimação - porquinhos, fuínhas, gatos, e, em especial, com os cães.
Em minha meninice não havia cães obesos, neuróticos, cancerosos, diabéticos. Os animais vivaim saudavelmente no quintal ate o dia em que não acordavam ou sofriam algum acidente. Hoje a regra virou exceção. Adoecemos nossos melhores amigos.
Nossos cães, que hoje estão no comando de seus donos, submissos aos caninos caprichos, pagaram o alto preço da liberdade; confinados, sem sol, sem espaço de lazer, estressados e mal alimentados.
Cães, hoje, recebem, mais do que nunca, alimentos diretamente do prato dos humanos - batatas fritas, pães, doces, molhos, sorvetes, não mais às escondidas, das màos do caçulinha, por debaixo da mesa. Para os cães compram-se ovos de Páscoa, panetones, bolos confeitados, tudo embalado em padarias especializadas. E a propaganda, como para os produtos humanos, é a mesma mentiralhada, leia os rótulos! Corantes, conservantes, aditivos, gosto e sabor altificial de carne.
Considerado parte da família, o dono se sente na obrigação de alimentar e presentear seu bichinho de maneira humana, em restaurantes, hotéis e festas. Há praias para cães. Clubes para cães. Spas para cães. Só não temos para eles o ambiente natural dos cães. Do mesmo modo como já não nos lembramos mais do que foi um dia o ambiente natural humano (o céu, por exemplo, tinha estrêlas).
As roupas caninas não servem para agasalhar; têm griffe, estampas e dizeres significativos para os donos, seja o símbolo do time esportivo, a bandeira do país, dizeres engraçados, cores em voga.
A antropomorfização vai dos objetos aos diálogos. Os comandos e carinhos há muito saíram do bate papo e passaram ao terreno minado das confidências. O dono, pressionado pelo patrão, pelo governo, pela lei, e, quando a tem, pela família, chega em casa e despeja sua agonia naquele que é 'o único ser que me compreende' - ou seja, que não o critica. E acredita piamente nisso, pois, quando o cão morre - eles sempre morrem antes - o sujeito sente que perdeu a alma que o conhecia a fundo.
Esta atenção deslocada, exagerada e obsessiva pode até servir de terapia barata ao pobre trapo humano, mas, para os cães, em que os beneficia?
Pobre cão, que resta em casa sozinho por longas horas, esperando ansiosamente pelos poucos minutos em que receberá as migalhas de atenção do dono. Dono esse que ainda dirá, contando no relógio, algumas frases absurdas como 'o veterinário recomendou 60 minutos de passeio, pelo menos'. Se perguntado, aposto que o cãozinho mijaria nos 60 minutos. O animal sacrifica sua natureza para dar significado à vida humana e recebe em troca um mínimo de responsabilidade da parte de seu dono. Repete-se com o animal o erro que o pai tradicional cometia com seus filhos, ao afirmar hipocritamente : 'passo o dia todo longe mas penso nele a cada minuto'.
Comparo porque há motivos comuns para as pessoas quererem filhos e cães: querem um amor compartilhado, querem doar-se, querem oferecer e receber proteção, companhia e auxílio, ter a criatividade estimulada, adquirir senso de responsabilidade, evoluir emocionalmente, encontrar significado para suas miseráveis vidas, enfim, querem ser felizes.
Detalhe importante, contudo: filhos são pessoas e cachorros são animais. E aí algumas pessoas fazem alguns comentários esclarecedores.
Animais ficam sozinhos. Animais não usam drogas, não viram psicopatas ou piromaníacos - o máximo de suas neuroses é roer a perna do sofá ou morder o carteiro.
Filhos são mais complicados. Nào podem ser deixados sozinhos, nem se pode bater neles ou colocá-los a trabalhar, pois é contra a lei atual. Não se pode ir a um depósito de filhos e escolher o seu pedigree - é sempre, boa ou má, uma surpresa. Filhos questionam os pais, forçam tomadas de posição, demandam sacrifícios, recebem nossas tradições e logo denunciam quantos esqueletos encontraram nos armários, são seres exigentes que podem provocar culpa, tanto como promover nossa evolução espiritual. Doar-se a um filho é contribuir para construir o mundo, e a incômoda pergunta desassossega os homens de boa vontade: 'será que eu consegui criar um ser humano decente?'
Há muitos outros motivos, que posso considerar egoístas, porém constituem motivos honestos, claros e válidos: quem tem filhos perde, e muito.
Perde noites de sono. Perde convites para festas, vira assim uma espécie de pária social. Algumas mulheres temem a deformação estética (essas já são tão feias por dentro que só lhes resta mesmo e ilusão do corpo). Corre-se o risco de ser excluído do mercado de trabalho, de perder a indicação daquela promoção tão desejada. Os mais sinceros e esclarecidos compreendem que, para lá de todo o sacrifício intangível, o filho é, nesses dias de devoção a Pluto, o 'devorador de patrimônio'.
Enfim, o medo modifica a sociedade humana. O medo de empobrecer financeira, social e intelectualmente. O medo de não estar à altura da responsabilidade. O medo de encontrar-se só diante da tarefa estafante sem rede de apoio, sem tempo suficiente, sem local adequado.
Acho que é cedo para perder completamente a esperança no futuro da humanidade. Embora cada vez menos gente escolha ter filhos, e cada vez mais egoístas escolham cães, é melhor assim. Na próxima década, teremos mais crianças desejadas e ajustadas, uma população humana menor e melhor.
Em contrapartida, haverá uma multidão de velhos solitários - seus cães morrerão antes, lembram-se? - e não faltarão empregos nas áreas voltadas às necessidades caninas, inclusive cemitérios.
Ainda não concordo com Magri.
Os cães não são seres humanos.
Alguns humanos é que perderam a sua humanidade.
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24 de fev. de 2014
Reflexões sobre um tema de Kipling
Kipling tem razão em seu poema: ‘não se deixe iludir pela derrota nem pelo sucesso, estes dois impostores’. A vida está além do fracasso. A vida está além do sucesso. A vida acontece em um tempo for a do tempo. É o eterno retorno de Nietzsche. É o tempo do sonho dos aborígenes. É o estado meditative de um Buda. Vá a um lugar selvage, sente-se no interior de um bosque, fique lá bem quieto ouvindo os pássaros, observe as águas de um lago, sinta-se parte da natureza: isto é a vida.
Meu curso de ingles me introduziu aos discursos de famosos nas formaturas de grandes universidades; excelente recurso para acostumar os ouvidos às frases complexas do idioma, for a do context literário. Primeiro, Steve Jobs, a seguir Ophra e Rowlings. Curiosamente, todas estas pessoas falaram sobre o fracasso.
Reformularam o conceito de fracasso para aprendizado, oportunidade para iniciar um novo caminho, um sinal enviado pela vida avisando que é hora de mudar. O foco, no entanto, continuava a ser o sucesso, postergado para um pouco mais adiante, enquanto a pessoa amadurece e fica pronto para receber o premio pelo seu trabalho.
O fracasso, na compreensão popular, é, apesar de todos os esfroços, não atingir o alvo; é morrer na praia, como diz o povo.
Afirmava Jung que, no destino de cada homem, há um fato desconhecido, imprevisível, além de toda lógica, perturbador.
Minha geração, que viveu a década perdida do século vinte, conhece bem o assunto. Depois de anos de estudo, esforço, dedicação ( e esperanças malogradas), muitos iniciaram novos empreendimentos, muitos mudaram de profissão – novos anos de aprendizado, estudo, esforço, dedicação. Seguimos à risca a cartilha. Persistência e coragem não nos faltou. Nem desafios, sobretudo os econômicos. Se lucramos, foi espiritualmente. Ficamos mais simples, mais humildes, mais tolerantes, mais compassivos.
Como não valorizar o lazer familiar se o dinheiro era curto? Como não perceber que as melhores coisas do universo são gratuitas, se não havia outra opção? Lá íamos nós com os filhos, para a praia, a tomar sol, pelos jardins públicos, admirando os pássaros…lazer gratuito. Como não passar bastante tempo brincando com as crianças, de preferência com jogos verbais, atividades físicas, brincadeiras tradicionais, canções e arte com sucata, se precisávamos poupar cada moeda para evitar as dívidas? E, como não queríamos crianças deprimidas e ansiosas, sorríamos e assumíamos o discurso da coragem: o amor é o mais importante, unidos superaremos todas as crises, somos afortunados se temos o necessário. (na verdade, chorávamos no banheiro)
A guerra econômica destruiu muitas carreiras, talentos e sonhos. Minha geração ainda trabalha duro, além dos sessenta anos, sem conseguir enriquecer, sem usufruir os frutos de seus esforços, porque investimos – alguns ainda estão investindo – tudo o que o imposto e a inflação n ão devorava, na educação de nossos filhos.
Filhos que encontraram um mundo com mercado de trabalho promissor em áreas novas, como informática – o computador pessoal é recente – e economia estável. Filhos que têm seu talento reconhecido, que se firmam economicamente aos 20 anos e aos 30 têm um nível de vida excelente – casa, carro, parafernálias eletrônicas e aplicações rendosas no banco. Hoje há leis de proteção ao patrimônio e o governo não pode confiscar seu dinheiro, como ocorreu no passado.
Sinto uma tristeza enorme ao ver essa geração arrogante olhar para nós, os velhos, que não conseguem se aposentar, alguns arcando com pais idosos e doentes, outros ainda pagando prestações da casa própria ou pela educação dos filhos mais novos; essa geração, dizia eu, olha para nós, os velhos, como fracassados. Para eles, não fomso ‘espertos’ o suficiente. Mesmo porque gente como eu costumava aprender no berço o que se chama ética.
Muitos de minha geração moram com os filhos, estes ‘devoradores de patrimônio’, para cuja formação porfissional canalizaram a sofrida poupança.
Esta geração que está aí não valoriza nossa experiência porque hoje tudo se goggle – verbo gogglar – desprezam os mais velhos por medirem o valor das pessoas por sua conta bancária. Não percebem, até mesmo desconsideram os noticiários, tantos ‘bem sucedidos’ e famosos, cujo mérito único consiste em praticar um esporte ou ter um corpo lindo, que se destróem pelas drogas, pela promiscuidade, pelo comportamento equivocado que leva alguns ao suicídio e até mesmo ao crime. Não percebem que aqueles que aqueles que permanecem equilibrados e felizes com a fama o seriam, mesmo sem a riqueza, por terem valores mais sólidos. Compreendo , contudo, sua avidez pelo dinheiro, pois meus filhos viveram a pobreza, que é tudo, menos romântica.
Fico triste porque meus anos de estudo e trabalho não me trouxeram o lucro almejado, a casa idealizada. Não acredito que eu seria menos humana, espiritualizada ou amorosa, se houvesse enriquecido. Do meu ponto de vista, o dinheiro não corrompe, revela. Concordo com Machado de Assis: ‘a ocasião faz o furto, o ladrão já nasce feito’. Eu seria como Ophra, e outros tantos ricos atuantes nas causas dignificantes do mundo.
Sim, Kipling, o sucesso e o fracasso são dois impostores. O valor de um homem está em sua alma.No entanto, deste impostor, o fracasso, cujo sentido não consigo reformular, fica o sentimento bem traduzido na poesia de Drummond:
‘… mas como dói!’.
Reformularam o conceito de fracasso para aprendizado, oportunidade para iniciar um novo caminho, um sinal enviado pela vida avisando que é hora de mudar. O foco, no entanto, continuava a ser o sucesso, postergado para um pouco mais adiante, enquanto a pessoa amadurece e fica pronto para receber o premio pelo seu trabalho.
O fracasso, na compreensão popular, é, apesar de todos os esfroços, não atingir o alvo; é morrer na praia, como diz o povo.
Afirmava Jung que, no destino de cada homem, há um fato desconhecido, imprevisível, além de toda lógica, perturbador.
Minha geração, que viveu a década perdida do século vinte, conhece bem o assunto. Depois de anos de estudo, esforço, dedicação ( e esperanças malogradas), muitos iniciaram novos empreendimentos, muitos mudaram de profissão – novos anos de aprendizado, estudo, esforço, dedicação. Seguimos à risca a cartilha. Persistência e coragem não nos faltou. Nem desafios, sobretudo os econômicos. Se lucramos, foi espiritualmente. Ficamos mais simples, mais humildes, mais tolerantes, mais compassivos.
Como não valorizar o lazer familiar se o dinheiro era curto? Como não perceber que as melhores coisas do universo são gratuitas, se não havia outra opção? Lá íamos nós com os filhos, para a praia, a tomar sol, pelos jardins públicos, admirando os pássaros…lazer gratuito. Como não passar bastante tempo brincando com as crianças, de preferência com jogos verbais, atividades físicas, brincadeiras tradicionais, canções e arte com sucata, se precisávamos poupar cada moeda para evitar as dívidas? E, como não queríamos crianças deprimidas e ansiosas, sorríamos e assumíamos o discurso da coragem: o amor é o mais importante, unidos superaremos todas as crises, somos afortunados se temos o necessário. (na verdade, chorávamos no banheiro)
A guerra econômica destruiu muitas carreiras, talentos e sonhos. Minha geração ainda trabalha duro, além dos sessenta anos, sem conseguir enriquecer, sem usufruir os frutos de seus esforços, porque investimos – alguns ainda estão investindo – tudo o que o imposto e a inflação n ão devorava, na educação de nossos filhos.
Filhos que encontraram um mundo com mercado de trabalho promissor em áreas novas, como informática – o computador pessoal é recente – e economia estável. Filhos que têm seu talento reconhecido, que se firmam economicamente aos 20 anos e aos 30 têm um nível de vida excelente – casa, carro, parafernálias eletrônicas e aplicações rendosas no banco. Hoje há leis de proteção ao patrimônio e o governo não pode confiscar seu dinheiro, como ocorreu no passado.
Sinto uma tristeza enorme ao ver essa geração arrogante olhar para nós, os velhos, que não conseguem se aposentar, alguns arcando com pais idosos e doentes, outros ainda pagando prestações da casa própria ou pela educação dos filhos mais novos; essa geração, dizia eu, olha para nós, os velhos, como fracassados. Para eles, não fomso ‘espertos’ o suficiente. Mesmo porque gente como eu costumava aprender no berço o que se chama ética.
Muitos de minha geração moram com os filhos, estes ‘devoradores de patrimônio’, para cuja formação porfissional canalizaram a sofrida poupança.
Esta geração que está aí não valoriza nossa experiência porque hoje tudo se goggle – verbo gogglar – desprezam os mais velhos por medirem o valor das pessoas por sua conta bancária. Não percebem, até mesmo desconsideram os noticiários, tantos ‘bem sucedidos’ e famosos, cujo mérito único consiste em praticar um esporte ou ter um corpo lindo, que se destróem pelas drogas, pela promiscuidade, pelo comportamento equivocado que leva alguns ao suicídio e até mesmo ao crime. Não percebem que aqueles que aqueles que permanecem equilibrados e felizes com a fama o seriam, mesmo sem a riqueza, por terem valores mais sólidos. Compreendo , contudo, sua avidez pelo dinheiro, pois meus filhos viveram a pobreza, que é tudo, menos romântica.
Fico triste porque meus anos de estudo e trabalho não me trouxeram o lucro almejado, a casa idealizada. Não acredito que eu seria menos humana, espiritualizada ou amorosa, se houvesse enriquecido. Do meu ponto de vista, o dinheiro não corrompe, revela. Concordo com Machado de Assis: ‘a ocasião faz o furto, o ladrão já nasce feito’. Eu seria como Ophra, e outros tantos ricos atuantes nas causas dignificantes do mundo.
Sim, Kipling, o sucesso e o fracasso são dois impostores. O valor de um homem está em sua alma.No entanto, deste impostor, o fracasso, cujo sentido não consigo reformular, fica o sentimento bem traduzido na poesia de Drummond:
‘… mas como dói!’.
Se as cartas mentirem, vale uma ajudinha.
(em homenagem a Machado de Assis)
Corria o ano da grace de 1870, quando, em uma casa da rua da Guarda Velha, bem conhecida pelos amantes sofredores, entrou uma moça de aparência frágil e roupas elegantes.
Séria, decidida, passou pelo portão sem olhar para os lados, sem pressa nem vagar, ao contrário da freguesia habitual, parecia não esconder-se nem temer a ninguém.
A cartomante abriu a porta, estudou a visitante rapidamente, com olho profissional, e, levemente entediada, indicou-lhe onde sentar e pegou o baralho.
- Primeiro me diga o preço.
- A senhora me dê a quantia que agradar a seu coração.
- Não, isso não está certo, eu trouxe um pouco de dinheiro, mas, se achar o preço caro, desisto agora.
- São dois mil réis – a cigana escondeu a decepção; era depois das consultas, satisfeitos, que os clients mostravam-se mais generosos. Talvez, afinal, não fosse cigana, mas usava o lenço, a saia colorida e os colares característicos, para compor o visual que ajudava na profissão.
A moça lançou-lhe um olhar agudo, quase acusador:
- Era você que deitava as cartas para a Rita?
- Que Rita?
- Minha prima Rita, esposa do Vilela, que morava lá pelos lados de Botafogo.
- Você não me disse o seu nome nem eu perguntei; muitos clients preferem assim.
- Rita foi assassinada, não soube? Há alguns meses.
- Sinto muito.
- Ela havia consultado uma cartomante, algumas semanas antes de morrer. Foi você?
- Como vou saber? Muitos clientes, como eu disse, não me dizem o nome.
- Esta cartomante errou feio, disse para minha prima que tudo estava bem, e o marido o tempo todo desconfiado do amante.
- É por isso que a menina veio hoje? Pelo amante?
- Que idéia! Sou solteira e honesta.
- Há um rapaz muito bom interessado em você – começou a cartomante, virando a primeira carta.
- Espere, primeiro me prove que diz a verdade.
- O futuro…
- Fale-me do passado, do presente.
_ ….
_ Se você acertar o passado e o presente, sei que poderei confiar no que me disser do futuro.
A cartomante, olhos baixos, retirou a segunda carta:
- A mocinha sofreu recentemente um grande desapontamento… - pausa.
A outra, calada, não descartou nem confirmou. Veio a Terceira carta:
- Vejo a seu lado uma mulher mais velha, que apóia sua atitude…
- Mais clareza, por favor! Atitude! Que atitude? Desapontamento… não consegui minhas entradas para meu lugar favorite no teatro? Meu time de futebol perdeu? Que me desapontou, família, trabalho, amigos, quem?
- Desapontamento no amor, no amor – exclamou a cigana.
- Não diga! E esta mulher mais velha, quem seria? Vizinha, parente?
- Sua irmã.
- Muito bem, eu então sofri um desapontamento amoroso e minha irmã apoiou minha atitude, seja lá o que você queira dizer com isso, e quanto ao presente?
- Presente?
- Sim, presente, agora, depois que minha irmã secou minhas lágrimas, o que acontece?
- Neste momento… há um homem mais velho interessado em você.
- Bobagem! Mais velho! Idade de meu avô, ou apenas um dia mais velho? Quem sabe, uma hora mais velho?
- Alguns anos mais velho. – a cartomante pegou o lenço e enxugou o sour que começava a correr pela testa. Seus clientes rotineiramente eram vítimas masi dóceis.
- E o que faz esse homem mais velho?
- Tem um amor sincere por sua pessoa.
- Muito bem, agora o futuro, afinal, é pelo futuro que eu vim aqui, para que me fale do futuro.
Novo embaralhar de cartas. Nova leitura dos arcanos.
- Uma longa viagem em futuro próximo, possivelmente ainda este ano, provavelmente para um país exótico do oriente.
A garota suspirou:
- Que mais?
- Dinheiro, não muito, mas o suficiente para resolver os seus problemas financeiros…
- Tolice, sou rica, não tenho problemas financeiros. Quero a resposta ao que me trouxe aqui.
A adivinhadora embatucou. Falara de amor, de dinheiro, de viagens… o que faltava?
- Sua saúde está perfeita. Este probleminha de momento é apenas uma indisposição passageira, como o seu medico…
- Ora, por favor! A minha resposta!
- Mas, afinal, criatura de Deus, o que deseja saber?
- Tudo. Bem que o Machado avisou: é charlatanice, lembra do que aconteceu com a pobre da Rita, e possivelmente com o Camilo…
- Camilo?
- O amante. Morreu no mesmo dia, assassinados os dois pelo marido.
- Há muitas outras cartomantes aqui no Rio, muitas outras por aqui mesmo, nesta mesma rua. Certamente não é de mim que você fala. Eu sempre acerto.
- Sempre engana, isso sim! Eu nunca tive decepção amorosa nenhuma, sou muito feliz com meu vizinho e primeiro namorado, de quem estou noiva. Sou filha única, pelo que sei. E com meu pai acamado, dependendo de mim para tudo, não posso sair da cidade, quanto mais ir ao oriente… E nunca estive melhor de saúde.
A falsa cigana ergueu a voz, revirando os olhos, com gestos amplos:
- Sua descrente. Seu desdém confundiu as cartas. Seu pensamento negativo …
- Exigo meu dinheiro de volta!
- De jeito nenhum! E a hora que perdi com você?
- Eu é que perdi minha tarde. O que eu queria saber é se a editor vai aceitar os originais de meu livro!
- Livro?
- Sim, eu sou escritora, e meu amigo Marcos, um crédulo supersticioso adorável, insistiu para que eu viesse aqui, já que mal não faz…
Tanta mulher poderia ter aparecido nesta tarde, como em tantas outras, perguntando das mazelas do cotidiano, mas quis o azar que a cliente fosse uma dessas mulheres liberais, com idéias! O rosto da cartomante empalideceu, amarelou, depois arroxeou horrivelmente, quando a moça acrescentou um último insulto:
- Uma fraude, é o que você é. Incapaz de prever o future de um mosquito que seja.
- Pois eu prevejo sua morte em breve. Assassinada.
A mocinha riu, mas por pouco tempo. A cartomante pulou em sua direção, agarrou seu pescoço e a esganou.
Séria, decidida, passou pelo portão sem olhar para os lados, sem pressa nem vagar, ao contrário da freguesia habitual, parecia não esconder-se nem temer a ninguém.
A cartomante abriu a porta, estudou a visitante rapidamente, com olho profissional, e, levemente entediada, indicou-lhe onde sentar e pegou o baralho.
- Primeiro me diga o preço.
- A senhora me dê a quantia que agradar a seu coração.
- Não, isso não está certo, eu trouxe um pouco de dinheiro, mas, se achar o preço caro, desisto agora.
- São dois mil réis – a cigana escondeu a decepção; era depois das consultas, satisfeitos, que os clients mostravam-se mais generosos. Talvez, afinal, não fosse cigana, mas usava o lenço, a saia colorida e os colares característicos, para compor o visual que ajudava na profissão.
A moça lançou-lhe um olhar agudo, quase acusador:
- Era você que deitava as cartas para a Rita?
- Que Rita?
- Minha prima Rita, esposa do Vilela, que morava lá pelos lados de Botafogo.
- Você não me disse o seu nome nem eu perguntei; muitos clients preferem assim.
- Rita foi assassinada, não soube? Há alguns meses.
- Sinto muito.
- Ela havia consultado uma cartomante, algumas semanas antes de morrer. Foi você?
- Como vou saber? Muitos clientes, como eu disse, não me dizem o nome.
- Esta cartomante errou feio, disse para minha prima que tudo estava bem, e o marido o tempo todo desconfiado do amante.
- É por isso que a menina veio hoje? Pelo amante?
- Que idéia! Sou solteira e honesta.
- Há um rapaz muito bom interessado em você – começou a cartomante, virando a primeira carta.
- Espere, primeiro me prove que diz a verdade.
- O futuro…
- Fale-me do passado, do presente.
_ ….
_ Se você acertar o passado e o presente, sei que poderei confiar no que me disser do futuro.
A cartomante, olhos baixos, retirou a segunda carta:
- A mocinha sofreu recentemente um grande desapontamento… - pausa.
A outra, calada, não descartou nem confirmou. Veio a Terceira carta:
- Vejo a seu lado uma mulher mais velha, que apóia sua atitude…
- Mais clareza, por favor! Atitude! Que atitude? Desapontamento… não consegui minhas entradas para meu lugar favorite no teatro? Meu time de futebol perdeu? Que me desapontou, família, trabalho, amigos, quem?
- Desapontamento no amor, no amor – exclamou a cigana.
- Não diga! E esta mulher mais velha, quem seria? Vizinha, parente?
- Sua irmã.
- Muito bem, eu então sofri um desapontamento amoroso e minha irmã apoiou minha atitude, seja lá o que você queira dizer com isso, e quanto ao presente?
- Presente?
- Sim, presente, agora, depois que minha irmã secou minhas lágrimas, o que acontece?
- Neste momento… há um homem mais velho interessado em você.
- Bobagem! Mais velho! Idade de meu avô, ou apenas um dia mais velho? Quem sabe, uma hora mais velho?
- Alguns anos mais velho. – a cartomante pegou o lenço e enxugou o sour que começava a correr pela testa. Seus clientes rotineiramente eram vítimas masi dóceis.
- E o que faz esse homem mais velho?
- Tem um amor sincere por sua pessoa.
- Muito bem, agora o futuro, afinal, é pelo futuro que eu vim aqui, para que me fale do futuro.
Novo embaralhar de cartas. Nova leitura dos arcanos.
- Uma longa viagem em futuro próximo, possivelmente ainda este ano, provavelmente para um país exótico do oriente.
A garota suspirou:
- Que mais?
- Dinheiro, não muito, mas o suficiente para resolver os seus problemas financeiros…
- Tolice, sou rica, não tenho problemas financeiros. Quero a resposta ao que me trouxe aqui.
A adivinhadora embatucou. Falara de amor, de dinheiro, de viagens… o que faltava?
- Sua saúde está perfeita. Este probleminha de momento é apenas uma indisposição passageira, como o seu medico…
- Ora, por favor! A minha resposta!
- Mas, afinal, criatura de Deus, o que deseja saber?
- Tudo. Bem que o Machado avisou: é charlatanice, lembra do que aconteceu com a pobre da Rita, e possivelmente com o Camilo…
- Camilo?
- O amante. Morreu no mesmo dia, assassinados os dois pelo marido.
- Há muitas outras cartomantes aqui no Rio, muitas outras por aqui mesmo, nesta mesma rua. Certamente não é de mim que você fala. Eu sempre acerto.
- Sempre engana, isso sim! Eu nunca tive decepção amorosa nenhuma, sou muito feliz com meu vizinho e primeiro namorado, de quem estou noiva. Sou filha única, pelo que sei. E com meu pai acamado, dependendo de mim para tudo, não posso sair da cidade, quanto mais ir ao oriente… E nunca estive melhor de saúde.
A falsa cigana ergueu a voz, revirando os olhos, com gestos amplos:
- Sua descrente. Seu desdém confundiu as cartas. Seu pensamento negativo …
- Exigo meu dinheiro de volta!
- De jeito nenhum! E a hora que perdi com você?
- Eu é que perdi minha tarde. O que eu queria saber é se a editor vai aceitar os originais de meu livro!
- Livro?
- Sim, eu sou escritora, e meu amigo Marcos, um crédulo supersticioso adorável, insistiu para que eu viesse aqui, já que mal não faz…
Tanta mulher poderia ter aparecido nesta tarde, como em tantas outras, perguntando das mazelas do cotidiano, mas quis o azar que a cliente fosse uma dessas mulheres liberais, com idéias! O rosto da cartomante empalideceu, amarelou, depois arroxeou horrivelmente, quando a moça acrescentou um último insulto:
- Uma fraude, é o que você é. Incapaz de prever o future de um mosquito que seja.
- Pois eu prevejo sua morte em breve. Assassinada.
A mocinha riu, mas por pouco tempo. A cartomante pulou em sua direção, agarrou seu pescoço e a esganou.
Toc-toc!
(TOC = transtorno obssessivo compulsivo)
Afinal, fui premiada com mãe e filha ‘contempladas’, a síndrome pulou minha geração.
Você entra na cozinha, pega um queijo na geladeira, faz o seu sanduíche, e quando se vira para guardar o queijo, encontra sua filha esfregando vigorosamente um produto de limpeza no exato local da porta onde você colocou suas mãos.
Eles lavam e esfregam o fogão ANTES de começar a preparar o jantar, tomam um banho demorado ANTES de ir para a praia, filtram a água filtrada, e por aí vai.
Voltando de Singapura um dia antes de meu genro, minha filha foi tomar banho e eu lavei a cozinha e o corredor, pois havíamos ficado dez dias for a e havia, é claro, um pouco de poeira. Quando me dou conta, ela aparece com balde, esfregão, sabão, e começa a faxina. Explico que acabei de limpar o chão, e ela me responde:
- Não está bem limpo, com certeza.
Quando acaba, ela entra no banho, chega meu genro - só ele poderia compreender a Fefe e vice-versa) e fala:
- Vou aproveitar enquanto espero a Fefe sair do banho e dar um trato nesta cozinha imunda – e, enquanto eu me pergunto se ele é míope, lá vem mais água, balde, esfregão, desinfetante…
Eles tem as casas mais limpas do planeta, as mãos mais assépticas da turma, as mesas mais organizadas do escritório, e, deprimidos, ficam sem entender porque são odiados pelos subordinados, e porque aquela promoçao tão perseguida e desejada é sistemáticamente oferecida a outro com menos competência que eles. Afinal, eles é que são capazes de encontrar aquela única teia de aranha pequenina e leve, oculta por uma trave alta no teto, pertinho do canto, onde um insetinho teimoso reconstrói a armadilha que a faxineira azarada da firma acabou de limpar.
Não tente dialogar com eles. Não tente indicar aquele excelente psiquiatra que você conhece. Eles são perfeitos, e se a medicina atual classifica perfeição como sintoma, é a ciência que está errada e não eles.
Afinal, quem tem TOC não se sente de maneira nenhuma incomodado pelos seus exagerados e bizarros (na opinião dos outros) comportamento. Os outros é que se sentem incomodados com eles.
(ah, sim, eu fui ao psiquiatra; ele riu e me assegurou que eu sou NORMAL e, eles, definitivamente, são casos perdidos.)
Como diz o ditado: ‘os incomodados que se mudem’.
18 de jan. de 2014
O Sonho continua…em um tempo fora do tempo.
(os asteriscos tem notas de rodapé, a abaixo segue a bibliografia utilizada)
Pessoas criativas são a exceção; são elas que fazem ciência, criam arte,
alavancam as civilizações. Pessoas assim são úteis nas crises, nas calamidades,
nos inesperados eventos da vida. A esta elite pensante pertenceram Pitágoras, o
anônimo criador da roda, o genial inventor do alfabeto, e outras figures que iniciaram nossa mágica jornada rumo ao
mundo virtual, onde nos encontramos atualmente. Curiosamente, um antropólogo
australiano * declarou que o sucesso de uma civilização se mede pela sua
permanência, e, sob esta óptica, os aborígenas, que há 40 000 anos expressam-se
através dos pontinhos que Signac só descobriria no século XIX, são a
civilização mais bem adaptada do planeta.
Um estudo recente ** parece indicar que nos genes aborígenas não estão presentes nenhuma das mutações constatadas em outras etnias; conjectura-se que eles tenham vindo diretamente da África durante a última glaciação, antes que os parentes de Lucy*** debandassem para o oriente, e, após o degelo, ficaram isolados, protegidos, cercados de marsupiais, sonhando seu peculiar paraíso.
Tudo o que um aborígena precisa saber, ele aprende nas histórias de seus ancestrais, figuras meio bichos, meio gente, como o homem-canguru.
A educação de um aborígenafaria a felicidade de Freud: “É assim, e se você desobedecer, vira pedra que nem o seu tatatatataravô”. A paisagem australiana está cheia de pedras desobedientes.
Os Aborígenas tem o que os antropólogs chamam de ‘culturas rígidas’, que não admitem mudanças, em contraste com as ‘culturas flexíveis’. A seleção natural se encarrega de escolher o que dá mais certo, e não é por acaso que o mundo de hoje é uma miscelânea de tudo o que há de melhor em cada povo.
Nascer aborígena, portanto, seria um sofrimento para as mentes inquietas, como Einstein, Da Vinci e o pequeno Bungaree.
A história que se passou com Bungaree e seu amigo maori aconteceu séculos antes dos europeus navegarem por aqui, e eu fiquei sabendo porque fui passear na Austrália e o vento que sopra nas árvores retorcidas de Ku Ring Gai a sussurrou em meus ouvidos.
Contudo… espera aí! Amigo maori?
Sim, os maoris moram na Nova Zelândia, um conjunto de simpáticas ilhazinha geladas um pouco mais ao sul. Embora descendam dos polinésios, ao chegar em Aotearoa perderam o gosto de vagabundear pelos mares do mundo e nunca cogitaram em voltar a seu paraíso tropical. Provavelmente pensavam como eu, para quem um calor de 40 graus está mais perto do conceito de portal do inferno, e não há água de coco gelada que mude minha opinião. Imagino o grupinho que chegou na primeira canoa contando sua saga assim:
“Era uma vez uma ilha rodeada por ferozes tubarões, onde os sobreviventes que não morriam de insolação eram periódicamente lançados aos deuses dos vulcões… até que conseguimos fugir e o mar nos trouxe a este belíssimo lugar de paisagens deslumbrantes e clima agradável”.
O pequeno Kupe, que recebeu seu nome em homenagem ao navegador polinésio que guiou o primeiro grupo vindo de Hawaiki, perguntava insistentemente porque não voltavam para visitar os seus ancestrais, pois ele bem que gostaria de conhecer ilha de origem de tupuna, ou seja dos ancestrais de seu povo. Sua teimosia irritou toda a família e também os anciões, os homens sábios da aldeia, que lhe disseram, quando ele chegou à adolescência, pronto para ser recebido no wharemi, a casa de reunião, como um adulto: “Antes de ser declarado adulto, pegue sua canoa a parta; procure Hawaiki, e quando voltar, nunca mais toque no assunto”
Ora, Kupe passara anos observando as correntes marítimas, e ficou feliz com a incumbência; preparou sua canoa , colocou remos sobressalentes, água, frutas, anzóis, e, emu ma bela noite de luz cheia, partiu oceano afora, seguindo as rotas do pequenos pinguins. Kupe imaginou que os animaizinhos migravam para onde houvesse abrigo e comida.
Abrigado em seu cloak, um longo e quente casaco maori, confiante em seus anzóis (nome maori) e em seu sonho, o rapazinho, algum tempo depois, avistou terra, e foi bem a tempo, pois sua provisão de água terminara no dia anterior.
Não é intrigante que, em sua peregrinação, tenham os polinésios chegado à Nova Zelândia, Papua, Vahuatu, e tantas outra ilhotas, e passado ao largo pela Tasmânia e o continente australiano? Bem, talvez não tenha sido exatamente assim, como nesta história que as folhas farfalhantes dos eucaliptos, em Sydney, me revelaram.
A canoa de Kupe aportou onde hoje fica o Chase National Park e que a tribo da região chamava Ku Ring Gai. Lá ele encalhou e buscou água.
Ora, naquela mesma noite, um tjitji, ou adolescente, em vias de se tornar um wati, ou seja, um homem de verdade, praparava-se para seu rito de iniciação. Esse tjitji chama-se Bungaree. Esse adolescente aborígena há muito desconfiava de que essa história de punição ancestral era engôdo dos mais velhos, para controlarem a geração mais jovem, pois, em várias ocasiões, às escondidas, ele galgara montes proibidos, entrara em cavernas sagradas, e nada lhe acontecera. A serpent do arco-íris não surgira para engolí-lo e nenhum homem-lagarto ameaçara castigá-lo. Agora, Bungaree, para seu imenso deleite, fora enviado sozinho para fazer a travessia, refazendo os passos de seus ancestrais , e, no momento, cismava à beira de um billabong, quer dizer, uma mina d’água, quando avistou a mais surpreendente das criaturas: pele branca, rosto sulcado de preto, musculoso, alto e com odor estranho: uma mistura de sal, suor e peixe fresco. Bungaree conjecturou se aquilo faria parte de seu rito de iniciação.
Kupe, sedento, encontrou a água pelo instinto e pelo olfato, já que o billabong de águas tranqüilas ocultava-se em uma fenda entre pedras. Ao chegar perto avistou uma grotesca criatura: nu, pele escura, nariz imenso, o rosto sapecado com uma gosma branca, exalando um odor bizarro. Seria ele um habitante de Hawaiki? Na esperança de que o povo original ainda usasse as mesmas palavras e tradições de seus descendentes em Aotearoa, Kupe resolveu dançar a cantar o powhiri, o ritual de chegada e boas vindas.
Bungaree, assustado com os gestos e sons estranhos, foi rápido no atirar o bumerangue na direção do outro menino, pois Bungaree não permitiria que nenhum homem-pinguim o punisse por seus pensamentos rebeldes. Quando o outro se esquivou, Bungaree gritou para que ele se identificasse.
Um estudo recente ** parece indicar que nos genes aborígenas não estão presentes nenhuma das mutações constatadas em outras etnias; conjectura-se que eles tenham vindo diretamente da África durante a última glaciação, antes que os parentes de Lucy*** debandassem para o oriente, e, após o degelo, ficaram isolados, protegidos, cercados de marsupiais, sonhando seu peculiar paraíso.
Tudo o que um aborígena precisa saber, ele aprende nas histórias de seus ancestrais, figuras meio bichos, meio gente, como o homem-canguru.
A educação de um aborígenafaria a felicidade de Freud: “É assim, e se você desobedecer, vira pedra que nem o seu tatatatataravô”. A paisagem australiana está cheia de pedras desobedientes.
Os Aborígenas tem o que os antropólogs chamam de ‘culturas rígidas’, que não admitem mudanças, em contraste com as ‘culturas flexíveis’. A seleção natural se encarrega de escolher o que dá mais certo, e não é por acaso que o mundo de hoje é uma miscelânea de tudo o que há de melhor em cada povo.
Nascer aborígena, portanto, seria um sofrimento para as mentes inquietas, como Einstein, Da Vinci e o pequeno Bungaree.
A história que se passou com Bungaree e seu amigo maori aconteceu séculos antes dos europeus navegarem por aqui, e eu fiquei sabendo porque fui passear na Austrália e o vento que sopra nas árvores retorcidas de Ku Ring Gai a sussurrou em meus ouvidos.
Contudo… espera aí! Amigo maori?
Sim, os maoris moram na Nova Zelândia, um conjunto de simpáticas ilhazinha geladas um pouco mais ao sul. Embora descendam dos polinésios, ao chegar em Aotearoa perderam o gosto de vagabundear pelos mares do mundo e nunca cogitaram em voltar a seu paraíso tropical. Provavelmente pensavam como eu, para quem um calor de 40 graus está mais perto do conceito de portal do inferno, e não há água de coco gelada que mude minha opinião. Imagino o grupinho que chegou na primeira canoa contando sua saga assim:
“Era uma vez uma ilha rodeada por ferozes tubarões, onde os sobreviventes que não morriam de insolação eram periódicamente lançados aos deuses dos vulcões… até que conseguimos fugir e o mar nos trouxe a este belíssimo lugar de paisagens deslumbrantes e clima agradável”.
O pequeno Kupe, que recebeu seu nome em homenagem ao navegador polinésio que guiou o primeiro grupo vindo de Hawaiki, perguntava insistentemente porque não voltavam para visitar os seus ancestrais, pois ele bem que gostaria de conhecer ilha de origem de tupuna, ou seja dos ancestrais de seu povo. Sua teimosia irritou toda a família e também os anciões, os homens sábios da aldeia, que lhe disseram, quando ele chegou à adolescência, pronto para ser recebido no wharemi, a casa de reunião, como um adulto: “Antes de ser declarado adulto, pegue sua canoa a parta; procure Hawaiki, e quando voltar, nunca mais toque no assunto”
Ora, Kupe passara anos observando as correntes marítimas, e ficou feliz com a incumbência; preparou sua canoa , colocou remos sobressalentes, água, frutas, anzóis, e, emu ma bela noite de luz cheia, partiu oceano afora, seguindo as rotas do pequenos pinguins. Kupe imaginou que os animaizinhos migravam para onde houvesse abrigo e comida.
Abrigado em seu cloak, um longo e quente casaco maori, confiante em seus anzóis (nome maori) e em seu sonho, o rapazinho, algum tempo depois, avistou terra, e foi bem a tempo, pois sua provisão de água terminara no dia anterior.
Não é intrigante que, em sua peregrinação, tenham os polinésios chegado à Nova Zelândia, Papua, Vahuatu, e tantas outra ilhotas, e passado ao largo pela Tasmânia e o continente australiano? Bem, talvez não tenha sido exatamente assim, como nesta história que as folhas farfalhantes dos eucaliptos, em Sydney, me revelaram.
A canoa de Kupe aportou onde hoje fica o Chase National Park e que a tribo da região chamava Ku Ring Gai. Lá ele encalhou e buscou água.
Ora, naquela mesma noite, um tjitji, ou adolescente, em vias de se tornar um wati, ou seja, um homem de verdade, praparava-se para seu rito de iniciação. Esse tjitji chama-se Bungaree. Esse adolescente aborígena há muito desconfiava de que essa história de punição ancestral era engôdo dos mais velhos, para controlarem a geração mais jovem, pois, em várias ocasiões, às escondidas, ele galgara montes proibidos, entrara em cavernas sagradas, e nada lhe acontecera. A serpent do arco-íris não surgira para engolí-lo e nenhum homem-lagarto ameaçara castigá-lo. Agora, Bungaree, para seu imenso deleite, fora enviado sozinho para fazer a travessia, refazendo os passos de seus ancestrais , e, no momento, cismava à beira de um billabong, quer dizer, uma mina d’água, quando avistou a mais surpreendente das criaturas: pele branca, rosto sulcado de preto, musculoso, alto e com odor estranho: uma mistura de sal, suor e peixe fresco. Bungaree conjecturou se aquilo faria parte de seu rito de iniciação.
Kupe, sedento, encontrou a água pelo instinto e pelo olfato, já que o billabong de águas tranqüilas ocultava-se em uma fenda entre pedras. Ao chegar perto avistou uma grotesca criatura: nu, pele escura, nariz imenso, o rosto sapecado com uma gosma branca, exalando um odor bizarro. Seria ele um habitante de Hawaiki? Na esperança de que o povo original ainda usasse as mesmas palavras e tradições de seus descendentes em Aotearoa, Kupe resolveu dançar a cantar o powhiri, o ritual de chegada e boas vindas.
Bungaree, assustado com os gestos e sons estranhos, foi rápido no atirar o bumerangue na direção do outro menino, pois Bungaree não permitiria que nenhum homem-pinguim o punisse por seus pensamentos rebeldes. Quando o outro se esquivou, Bungaree gritou para que ele se identificasse.
- Nyuntu ini ngananya?
Kupe nunca vira uma arma voadora. Contudo, sabia que a melhor defesa é assustar o inimigo, e para isso os maoris dançam a haka, uma dança guerreira, de gestos ameaçadores, amplos, decididos, acompanhados de palavras ferozes que poderiam ser traduzidas como ‘vou esquartejar você, arrancar suas tripas para fora e comer o seu fígado’, acompanhadas de bizarros reviramentos de olhos e terminando por mostrar a língua.
Ora, Bungaree fez o que todo adolescente de qualquer época e de qualquer lugar faz nos momentos mais inadequados: riu. Seu riso desconcertou o garoto maori, que, sentindo-se, pela primeira vez, ridículo e inadequado, também riu. Riram tanto que chegaram às lágrimas e, às gargalhadas, aproximaram-se, apoiaram-se um no braço do outro, olharam-se olhos nos olhos e procuraram entender-se de alguma forma.
Bungaree, acostumado a entender-se através de sinais com as mais de 500 línguas Aborígenas, foi mais fácil. Para começar, ele ofereceu água ao outro, que bebeu como bebem os náufragos e os desidratados; a seguir, muito educadamente, ofereceu Tharunka, o bastão de mensagem, que o outro, supondo-se que conhecesse os costumes, deveria devolver ao fim da sua visita, supondo-se que se tratasse de uma visita. (um erro muito humano, o de achar que os outros têm a mesma interpretação de mundo que nós, o que gera toda sorte de desentendimentos)
O maori entendeu o significado do gesto, e retribuiu fazendo hongi: agarrando o Aborígenapelos ombros e esfregando o seu nariz contra o dele. O coração de Bungaree quase enfartou de susto! Como o outro o largou quase em eguida e sentou-se, abrindo o seu cestinho com peixes, o Aborígenaentendeu que aquela esfregação de narizes era a maneira do outro dizer olá, e sentou- se também, tirando de seu coolamon (uma espécie de bolsa trançada com talos de plantas) outros tantos peixinhos e mais seus apetrechos de fazer fogo. E foi assim, à luz das estrelas austrais , que aconteceu a estranhíssima conversa.
Kupe estava contente – havia uma fogueira para cozinhar seus peixes, água fresca, um amigo para converser e uma terra de clima quente e agradável para explorar. Bungaree estava igualmente satisfeito – acontecia, afinal, em seu cotidinao tedioso e previsível, uma novidade!
Primeiro comeram, em silêncio. Depois de limparem as mãos, Kupe tentou explicar-se através de desenhos: riscou no chão uma ilha comprida, abaixo de uma longa nuvem e falou:
- Aotearoa – que, na língua maori, significa a ilha de longas nuvens brancas, e é o nome que eles dão à Nova Zelândia.
Bungaree olhou, fascinado. Então existiam outras ilhas distantes! Ele apontou para a ilha próxima, que hoje se chama Ilha do leão, e o maori fez um gesto que pretendia confirmar: sim, uma ilha, mas muito, muito maior e muito longe daqui; e desenhou na areia 3 sóis e 3 luas a uma canoa, para indicar que viajara por 3 dias e 3 noites, e apontou para onde estava a waka, sua canoa.
Bungaree correu na direção do mar e tocou, emocionado, os remos originais, a proa esculpida da waka, a canoa maori, e queira saber quem era aquele outro rapazinho não sonhado pelos ancestrais.
Kupe desenhou outras ilhas e outras canoas, foi apontando para si mesmo, para as ilhas, riscando o chão e contando sobre Hawaiki com seus vulcões e deuses que devoravam gente ( como Bungaree não conhecia vulcões, imaginou tempestades de areia saindo do interior da terra, e, como não entendia essa coisa de pessoas sendo jogadas aos deuses, pensou em pessoas distraídas que despnecavam das pedras molhadas). Kupe desenhou a viagem de seus tatatataravós, desenhou a moa e o kiwi, pássaros lá de sua região, explicando, também, que Aotearoa era um lugar muito frio.
Bungaree desejou conhecer essa ilha gelada, coberta de nuvens brancas, com sua gente diferente, suas histórias e e seus costumes.
Os meninos esticaram seus braços e compararam suas peles, suas cores, seus enfeites, suas tatuagens (Kupe achava que Bungaree usava uma tatuagem mal feita, que saía ao toque). Kupe a princípio pensou em levar o amigo na volta para casa, mas lembrou-se a tempo de que sua tribo canibal considerava um acepipe o cérebro dos inimigos, e percebeu ser esta uma péssima idéia, pois Bungaree, ainda mais se levasse sua arma voadora, seria considerado um inimigo, e dos mais perigosos, portanto, delicioso. E também pensou que os parentes de Bungaree poderiam invadir a ilha, iniciar uma guerra…naquelas duas grandes ilhas isoladas, seguidas por suas poucas ilhazinhas acessórias, nenhum desses povos tinha idéia do que fosse comércio, como entendemos hoje, o comércio que leva os povos a buscarem se entender para o bem de todos e lucro de alguns.
A idéia de trocar objetos diferentes e extravagantes estava a nascer no pensamento de Kupe, que foi bruscamente arrancado de seu devaneio por Bungaree, que levantara-se agil e rapidamente pegara sua woomera, um cano longo, com o qual lançou uma lança na direção do pé de Kupe, atingindo uma cobra – venenosíssima! - que se aproximara demais. Esse bichinho fino e comprido foi tocado com curiosidade por Kupe, que parecia não ter noção do que fosse uma cobra, e parecia não entender o que queria dizer veneno. A explicação de Bungaree perdeu-se no meio de uma frase, pois Kupe apontou para cima, maravilhado, e Bungaree, pasmo, via apenas pacatos coalas nos eucaliptos acima deles. Kupe continuava a apontar, agitado, como se nunca houvesse visto coalas antes, contudo, quando este idéia passou pela mente de Bungaree, o maori praticamente convulsionou de pânico, ao ver o que ele considerou espíritos do mal: as mamães cangurus que passeavam por ali com suas crias em suas bolsas.
Bungaree bem que tentou sossegar o amigo, temendo a aproximação de manpanpa, o feiticeiro, que, por encanto, como é do hábito dos feiticeiros, materializou-se a seu lado. (quem sabe o feiticeria estivesse lá o tempo todo, metamorfoseado de lagarto, observando como Bungaree se sairia em sua jornada iniciática.)
- Ah, feiticeiro, eu nada fiz, não sei porque ele grita.
- Porque ele pensa que os cangurus tem duas cabeças, um em cima dos ombros e outra na barriga.
A idéia de um animal de duas cabeças provocou um sorriso em Bungaree, que percebeu duas coisas fora do contexto: primeiro, o feiticeiro não estava bravo, o que queria dizer que Bungaree não seria punido; segundo, o feiticeiro não estava espantado – mesmo supondo que feiticeiros são sábios, Bungaree ficou preocupado em pensar que o feiticeiro podia saber e esconder dos outros, sobre outras ilhas e sobre aquele outro povo. Outro povo ou outros povos? Um turbilhão de possibilidades perigosamente invadiu as celulazinhas cinzentas do garoto, e um cérebro adolescente turbinado é um desafio e tanto em qualquer época, na da cibernética como no paleolítico.
Kupe, na presença do feiticeiro, se aquietou, sentindo-se protegido, ao menos momentaneamente, tendo aquele ancião por perto.
O velho esfregou seu nariz no de Kupe, e disse, apontando para a cobra:
- Perigo. – e explicou - Em Aotearoa não há cobras, Bungaree.
- Não? Que lugar maravilhoso deve ser esta Aotearoa.
- Também não há cangurus nem coalas.
- Oh, talvez não seja tão maravilhosa assim. Como, feiticeiro, os ancestrais de Kupe foram a tantas ilhas pequenas e passaram ao largo de nossa terra, tão grande?
- Nossa ilha está invisível, Bungaree. Kupe também não viu nossa ilha. Ele seguiu os pinguins e só percebeu a ilha quando os pinguins chegaram à praia e a waka, a canoa dele, encalhou. Eu não posso colocar feitiço nos pinguins, pois essa é a casinha de inverno deles.
Bungaree arregalou os olhos:
- Como assim? Ninguém pode nos ver? Por que, feiticeiro?
- Porque aqui é o sonho, e lá fora é o pesadelo.
O velho homem fechou os olhos, considerando tudo o que conhecia do universo.
- Nós vivemos em harmonia com o cosmos – falou o feiticeiro. – Somos felizes. Temos tudo o que precisamos: ar puro, água fresco, comida suficiente, bastante espaço…nossas famílias são amorosas, nossos vizinhos generosos, nossa crianças saudáveis e alegres.
- Eu quero tanto saber o que há de diferente lá fora!
- Lá fora, curioso, descobriram os metais, as armas, o dinheiro. Há ganância, escravidão…Você não entenderia, é melhor não saber dessas coisas.
Bungaree empurrava para lá e para cá um toquinho de madeira, enquanto ouvia o mais velho. E falou:
- Sabe, eu às vezes penso em coisas … como esses pauzinhos rodam, e os troncos rodam, e se a gente deixasse pedacinhos redondos bem lisinhos, pusesse em cima uma canoa, talvez a gente pudesse carregar nossas coisas, até usar os cangurus para ir mais rápido…
- Uma biga de cangururus! Francamente, Bungaree, você é realmente o tipo de rapaz inteligente o bastante para inventar a roda! Logo era capaz de inventar dinheiro, também!
Bungaree, pensou o feiticeiro, era engenhoso bastante para ajuntar uma alavanca a uma roda, e criar um sistema hidráulico para tirar água dos billabongs, além de imaginar bigas feitas de canoas atreladas a cangurus. Adeus, sossego! O modo de vida ancestral estaria para sempre perdido. Um Sonho que se acabaria… A imaginação de Bungaree disparara, e ele continuou:
- Se esse meu amigo maori quisesse o meu bumerangue, e eu quisesse alguma coisa lá da terra dele, a gente poderia trocar, mas como ele iria demorar para voltar aqui, a gente poderia trocar por alguma pedrinha brilhante e colorida, como um sinal da troca…
- Isso é dinheiro, menino! Quando se troca coisas usáveis por coisas que ficam de sinal, para trocar mais tarde, e aí vem a idéia de acumular…
- E não seria bom? A gente pode ir juntando, e um belo dia, tem um montão de pedrinhas e pode comprar logo várias canoas e remos e ir viajar para a terra gelada dele, passear…
- Isso é turismo!
- Como fui eu quem teve a idéia, as pedrinhas ficam comigo…
- E aí vem algum invijoso e mata você por causa das pedrinhas, temos guerras, inveja, ganância, muita confusão e é exatamente o que não precisamos por aqui! O povo lá de fora quanto mais tem mais quer ter, e ajuntam toda sorte de coisas desnecessárias.
- Eles são maus?
- São tolos! Curiosos como você e este outro aí. Olham para o céu e descobrem mais do que as leis dos astros. Contam coisas e inventam matemáticas. Criam um sistema de anotar os nomes das coisas que se chama escrita, e, a partir daí, desenvikvem uma tal de ciência : quebram e destroem tudo que encontram para ver como funciona, até os bichos e as plantas.
- Como esses desenhos na areia? O Kupe me contou uma história com esses desenhos e eu acho que posso melhorar esses sinaizinhos para..
- Não, senhor! – o feiticeira zangou-se.
- Isto não é bom?
- Bom é amor com sabedoria. Bom é a vida simples. Como a nossa.
- ???
- Conhecimento demais é perigoso. Esses povos lá de fora matam seus homens sábios. Confúcio, Sêneca, Jesus…Só pensam no poder.
- O que é poder?
- É mandar nos outros. Quem não sabe amar, precisa de poder para conseguir coisas materiais.
- E se a gente fosse lá e ensinasse a eles…
- Sócrates tentou ensinar e eles o mataram, Platão tentou e foi escravizado. Ah, eles são inquietos! Como você, aliás. Eles não ouviram nem Buda, nem Cristo, nem os outros sábios deles. Lá fora impera o mal: os fortes judiam dos fracos. Cada um por si, pilhando e destruindo, até o dia em que acabarão com o planeta.
- Feiticeiro, você esteve lá!
- Eu vivo no tempo do Sonho. Vejo cada momento que esta terra cria e recria. Vi os objetos que eles usam , de coisas chamadas plástico, isopor, materiais que, uma fez criados, não voltam à terra e interrompem o ciclo da vida.
- Que mais, feiticeiro?
- Eles usam a energia dos raios para ter luz em suas casas durante a noite e esquecem de repousar. Colocam todo o conhecimento no ar, em forma de ondas invisíveis que aparecem quando eles querem, aonde querem, bastando apertar nos lugares certos umas plaquinhas que eles carregam consigo para toda parte. Chamam isso de mundo virtual, ciberespaço, rede mundial de computadores…
Bungaree ficou pensando…
- Com uma plaquinha dessas eu posso saber o caminho até Uluru sem decorar as canções das trilhas, ver se estará chovendo no dia da viagem, chamar meus amigos que estão caçando emu para irem lá me encontrar, quem sabe até converser com meninas bonitas para ver com qual delas eu vou casar?
O feiticeiro suspirou, entre bravo e desiludido.
- Entendeu tudo até bem demais…se fosse só isso, seria bom. O problema é que essas plaquinhas engolem as pessoas. Os homens ficam tão fascinados com o que estão vendo, que ficam parados, olhando para elas, e se esquecem da vida. Não se olham mais nos olhos, não se tocam, não se ocupam das crianças e dos doentes, fazem o necessário bem rapidinho para logo voltarem a olhar para suas plaquinhas, fascinados. Mas só algumas pessoas tem as tais plaquinhas.
- E as outras?
- Há os escravizados, os famintos, os doentes, os drogados, há florestas destruídas e animais mortos porque eles precisam de uns metais enterrados na terra para fazer seus brinquedinhos. Bungaree, por um pouquinho de conforto, uma roupinha bonita, uma casinha confortável, um cheirinho gostoso, você acabaria com nossos bichos? Jogaria lama em nossos billabongs? Deixaria de lado os doentes e fracos e só se ocuparia da linda garotinha que quer namorar e que está olhando você de dentro de uma tabuinha mágica?
- Feiticeiro, está tudo confuse em minha mente! Como é que uma novidade pode ser ruim? Eu gosto de novidades.
Durante este tempo, Kupe, exausto da viagem, sonolento após a refeição, havia-se enroscado sobre um montinho de folhas, e olhava, admirado, o velho a discursar. O feiticeiro jogou algumas folhas no fogo, fez um gesto, e, ao respirar a fumaça que foi em sua direção, Kupe adormeceu.
- Feiticeiro, eu lhe entreguei o bastão de boas vindas. Comemos juntos. O que vai fazer com ele?
- Sossegue. Ele não se lembrará de nós ao acordar. Vou dirigir a canoa dele para a ilha Te Puia o Whakaari' onde há um vulcão está prestes a explodir. Vulcão, antes que me pergunte, é um buraco que se abre na terra cuspindo fogo . Seu amigo vai presenciar uma formidável explosão, seguida de um tsunami que vai larga-lo na Te Ke a Maui, a ilha norte, lá no país dele mesmo, nas imediações de um caminho que o levará a Rotorua.
- Ro to ru a?
- É um vulcão mais modesto, com jatos perenes de água fumegante, fumaça saindo da terra, poços de lama borbulhantes…
- Parece assustador.
- Assustador o bastante para convencer este jovenzinho de que sua ilha é o melhor lugar para ele ficar; se as ilhas de origem fossem boas para eles, seus antepassados teriam retornado para lá. E vou apagar da mente dele esta idéia esperta de seguir os pinguins, colocando em sua memória alguns tubarões perigosamente próximos a ele, me alto mar.
- Feiticeiro, posso ir com ele?
- Bungaree, ele não lhe contou? A gente dele come os miolos dos estranhos. Eles quebrariam sua cabeça para arrancar seu cérebro. E seus músculos dariam a eles uma sobremesa deliciosa.
Bungaree gritou, horrorizado:
- Eles comem gente? E não viram pedra? Não são punidos por isso?
O velho quase explicou que os deuses deles…mas percebeu a tempo qe a conversa ia tomando um rumo perigoso. Quando um adolescente percebe crenças diferentes das suas, está a um passo da filosofia, aquele mesma filosofia que levou Sócrates à morte e Platão à cadeia, e outros tantos à fogueira. Sem contar que um filósofo atria discípulos, leva outros a pensarem, e discípulos de filósofos são péssimos caçadores e piores maridos. Haveria uma rebelião na tribo, e muita confusão à vista.
Bungaree sentiu-se desconfortável com o ensimesmar do ancião, e sussurrou:
- Eu vou ser punido? Eu não chamei o outro menino para cá. Eu…
O feiticeiro sorriu.
- Você não foi punido quando entrou na caverna proibida.
- Ah, feiticeiro! Eu bem que desconfieie quando vi aquele lagartinho que não deveria estar lá!
- Na verdade, Bungaree, eu era um morcego, naquele dia, e também estranhei o tal lagartinho…o menino não acha que eu ia assumir um disfarce tão óbvio, não é mesmo?
O garoto tornou a murmurar, com um fio de voz:
- O que vai ser de mim, feiticeiro?
Kupe nunca vira uma arma voadora. Contudo, sabia que a melhor defesa é assustar o inimigo, e para isso os maoris dançam a haka, uma dança guerreira, de gestos ameaçadores, amplos, decididos, acompanhados de palavras ferozes que poderiam ser traduzidas como ‘vou esquartejar você, arrancar suas tripas para fora e comer o seu fígado’, acompanhadas de bizarros reviramentos de olhos e terminando por mostrar a língua.
Ora, Bungaree fez o que todo adolescente de qualquer época e de qualquer lugar faz nos momentos mais inadequados: riu. Seu riso desconcertou o garoto maori, que, sentindo-se, pela primeira vez, ridículo e inadequado, também riu. Riram tanto que chegaram às lágrimas e, às gargalhadas, aproximaram-se, apoiaram-se um no braço do outro, olharam-se olhos nos olhos e procuraram entender-se de alguma forma.
Bungaree, acostumado a entender-se através de sinais com as mais de 500 línguas Aborígenas, foi mais fácil. Para começar, ele ofereceu água ao outro, que bebeu como bebem os náufragos e os desidratados; a seguir, muito educadamente, ofereceu Tharunka, o bastão de mensagem, que o outro, supondo-se que conhecesse os costumes, deveria devolver ao fim da sua visita, supondo-se que se tratasse de uma visita. (um erro muito humano, o de achar que os outros têm a mesma interpretação de mundo que nós, o que gera toda sorte de desentendimentos)
O maori entendeu o significado do gesto, e retribuiu fazendo hongi: agarrando o Aborígenapelos ombros e esfregando o seu nariz contra o dele. O coração de Bungaree quase enfartou de susto! Como o outro o largou quase em eguida e sentou-se, abrindo o seu cestinho com peixes, o Aborígenaentendeu que aquela esfregação de narizes era a maneira do outro dizer olá, e sentou- se também, tirando de seu coolamon (uma espécie de bolsa trançada com talos de plantas) outros tantos peixinhos e mais seus apetrechos de fazer fogo. E foi assim, à luz das estrelas austrais , que aconteceu a estranhíssima conversa.
Kupe estava contente – havia uma fogueira para cozinhar seus peixes, água fresca, um amigo para converser e uma terra de clima quente e agradável para explorar. Bungaree estava igualmente satisfeito – acontecia, afinal, em seu cotidinao tedioso e previsível, uma novidade!
Primeiro comeram, em silêncio. Depois de limparem as mãos, Kupe tentou explicar-se através de desenhos: riscou no chão uma ilha comprida, abaixo de uma longa nuvem e falou:
- Aotearoa – que, na língua maori, significa a ilha de longas nuvens brancas, e é o nome que eles dão à Nova Zelândia.
Bungaree olhou, fascinado. Então existiam outras ilhas distantes! Ele apontou para a ilha próxima, que hoje se chama Ilha do leão, e o maori fez um gesto que pretendia confirmar: sim, uma ilha, mas muito, muito maior e muito longe daqui; e desenhou na areia 3 sóis e 3 luas a uma canoa, para indicar que viajara por 3 dias e 3 noites, e apontou para onde estava a waka, sua canoa.
Bungaree correu na direção do mar e tocou, emocionado, os remos originais, a proa esculpida da waka, a canoa maori, e queira saber quem era aquele outro rapazinho não sonhado pelos ancestrais.
Kupe desenhou outras ilhas e outras canoas, foi apontando para si mesmo, para as ilhas, riscando o chão e contando sobre Hawaiki com seus vulcões e deuses que devoravam gente ( como Bungaree não conhecia vulcões, imaginou tempestades de areia saindo do interior da terra, e, como não entendia essa coisa de pessoas sendo jogadas aos deuses, pensou em pessoas distraídas que despnecavam das pedras molhadas). Kupe desenhou a viagem de seus tatatataravós, desenhou a moa e o kiwi, pássaros lá de sua região, explicando, também, que Aotearoa era um lugar muito frio.
Bungaree desejou conhecer essa ilha gelada, coberta de nuvens brancas, com sua gente diferente, suas histórias e e seus costumes.
Os meninos esticaram seus braços e compararam suas peles, suas cores, seus enfeites, suas tatuagens (Kupe achava que Bungaree usava uma tatuagem mal feita, que saía ao toque). Kupe a princípio pensou em levar o amigo na volta para casa, mas lembrou-se a tempo de que sua tribo canibal considerava um acepipe o cérebro dos inimigos, e percebeu ser esta uma péssima idéia, pois Bungaree, ainda mais se levasse sua arma voadora, seria considerado um inimigo, e dos mais perigosos, portanto, delicioso. E também pensou que os parentes de Bungaree poderiam invadir a ilha, iniciar uma guerra…naquelas duas grandes ilhas isoladas, seguidas por suas poucas ilhazinhas acessórias, nenhum desses povos tinha idéia do que fosse comércio, como entendemos hoje, o comércio que leva os povos a buscarem se entender para o bem de todos e lucro de alguns.
A idéia de trocar objetos diferentes e extravagantes estava a nascer no pensamento de Kupe, que foi bruscamente arrancado de seu devaneio por Bungaree, que levantara-se agil e rapidamente pegara sua woomera, um cano longo, com o qual lançou uma lança na direção do pé de Kupe, atingindo uma cobra – venenosíssima! - que se aproximara demais. Esse bichinho fino e comprido foi tocado com curiosidade por Kupe, que parecia não ter noção do que fosse uma cobra, e parecia não entender o que queria dizer veneno. A explicação de Bungaree perdeu-se no meio de uma frase, pois Kupe apontou para cima, maravilhado, e Bungaree, pasmo, via apenas pacatos coalas nos eucaliptos acima deles. Kupe continuava a apontar, agitado, como se nunca houvesse visto coalas antes, contudo, quando este idéia passou pela mente de Bungaree, o maori praticamente convulsionou de pânico, ao ver o que ele considerou espíritos do mal: as mamães cangurus que passeavam por ali com suas crias em suas bolsas.
Bungaree bem que tentou sossegar o amigo, temendo a aproximação de manpanpa, o feiticeiro, que, por encanto, como é do hábito dos feiticeiros, materializou-se a seu lado. (quem sabe o feiticeria estivesse lá o tempo todo, metamorfoseado de lagarto, observando como Bungaree se sairia em sua jornada iniciática.)
- Ah, feiticeiro, eu nada fiz, não sei porque ele grita.
- Porque ele pensa que os cangurus tem duas cabeças, um em cima dos ombros e outra na barriga.
A idéia de um animal de duas cabeças provocou um sorriso em Bungaree, que percebeu duas coisas fora do contexto: primeiro, o feiticeiro não estava bravo, o que queria dizer que Bungaree não seria punido; segundo, o feiticeiro não estava espantado – mesmo supondo que feiticeiros são sábios, Bungaree ficou preocupado em pensar que o feiticeiro podia saber e esconder dos outros, sobre outras ilhas e sobre aquele outro povo. Outro povo ou outros povos? Um turbilhão de possibilidades perigosamente invadiu as celulazinhas cinzentas do garoto, e um cérebro adolescente turbinado é um desafio e tanto em qualquer época, na da cibernética como no paleolítico.
Kupe, na presença do feiticeiro, se aquietou, sentindo-se protegido, ao menos momentaneamente, tendo aquele ancião por perto.
O velho esfregou seu nariz no de Kupe, e disse, apontando para a cobra:
- Perigo. – e explicou - Em Aotearoa não há cobras, Bungaree.
- Não? Que lugar maravilhoso deve ser esta Aotearoa.
- Também não há cangurus nem coalas.
- Oh, talvez não seja tão maravilhosa assim. Como, feiticeiro, os ancestrais de Kupe foram a tantas ilhas pequenas e passaram ao largo de nossa terra, tão grande?
- Nossa ilha está invisível, Bungaree. Kupe também não viu nossa ilha. Ele seguiu os pinguins e só percebeu a ilha quando os pinguins chegaram à praia e a waka, a canoa dele, encalhou. Eu não posso colocar feitiço nos pinguins, pois essa é a casinha de inverno deles.
Bungaree arregalou os olhos:
- Como assim? Ninguém pode nos ver? Por que, feiticeiro?
- Porque aqui é o sonho, e lá fora é o pesadelo.
O velho homem fechou os olhos, considerando tudo o que conhecia do universo.
- Nós vivemos em harmonia com o cosmos – falou o feiticeiro. – Somos felizes. Temos tudo o que precisamos: ar puro, água fresco, comida suficiente, bastante espaço…nossas famílias são amorosas, nossos vizinhos generosos, nossa crianças saudáveis e alegres.
- Eu quero tanto saber o que há de diferente lá fora!
- Lá fora, curioso, descobriram os metais, as armas, o dinheiro. Há ganância, escravidão…Você não entenderia, é melhor não saber dessas coisas.
Bungaree empurrava para lá e para cá um toquinho de madeira, enquanto ouvia o mais velho. E falou:
- Sabe, eu às vezes penso em coisas … como esses pauzinhos rodam, e os troncos rodam, e se a gente deixasse pedacinhos redondos bem lisinhos, pusesse em cima uma canoa, talvez a gente pudesse carregar nossas coisas, até usar os cangurus para ir mais rápido…
- Uma biga de cangururus! Francamente, Bungaree, você é realmente o tipo de rapaz inteligente o bastante para inventar a roda! Logo era capaz de inventar dinheiro, também!
Bungaree, pensou o feiticeiro, era engenhoso bastante para ajuntar uma alavanca a uma roda, e criar um sistema hidráulico para tirar água dos billabongs, além de imaginar bigas feitas de canoas atreladas a cangurus. Adeus, sossego! O modo de vida ancestral estaria para sempre perdido. Um Sonho que se acabaria… A imaginação de Bungaree disparara, e ele continuou:
- Se esse meu amigo maori quisesse o meu bumerangue, e eu quisesse alguma coisa lá da terra dele, a gente poderia trocar, mas como ele iria demorar para voltar aqui, a gente poderia trocar por alguma pedrinha brilhante e colorida, como um sinal da troca…
- Isso é dinheiro, menino! Quando se troca coisas usáveis por coisas que ficam de sinal, para trocar mais tarde, e aí vem a idéia de acumular…
- E não seria bom? A gente pode ir juntando, e um belo dia, tem um montão de pedrinhas e pode comprar logo várias canoas e remos e ir viajar para a terra gelada dele, passear…
- Isso é turismo!
- Como fui eu quem teve a idéia, as pedrinhas ficam comigo…
- E aí vem algum invijoso e mata você por causa das pedrinhas, temos guerras, inveja, ganância, muita confusão e é exatamente o que não precisamos por aqui! O povo lá de fora quanto mais tem mais quer ter, e ajuntam toda sorte de coisas desnecessárias.
- Eles são maus?
- São tolos! Curiosos como você e este outro aí. Olham para o céu e descobrem mais do que as leis dos astros. Contam coisas e inventam matemáticas. Criam um sistema de anotar os nomes das coisas que se chama escrita, e, a partir daí, desenvikvem uma tal de ciência : quebram e destroem tudo que encontram para ver como funciona, até os bichos e as plantas.
- Como esses desenhos na areia? O Kupe me contou uma história com esses desenhos e eu acho que posso melhorar esses sinaizinhos para..
- Não, senhor! – o feiticeira zangou-se.
- Isto não é bom?
- Bom é amor com sabedoria. Bom é a vida simples. Como a nossa.
- ???
- Conhecimento demais é perigoso. Esses povos lá de fora matam seus homens sábios. Confúcio, Sêneca, Jesus…Só pensam no poder.
- O que é poder?
- É mandar nos outros. Quem não sabe amar, precisa de poder para conseguir coisas materiais.
- E se a gente fosse lá e ensinasse a eles…
- Sócrates tentou ensinar e eles o mataram, Platão tentou e foi escravizado. Ah, eles são inquietos! Como você, aliás. Eles não ouviram nem Buda, nem Cristo, nem os outros sábios deles. Lá fora impera o mal: os fortes judiam dos fracos. Cada um por si, pilhando e destruindo, até o dia em que acabarão com o planeta.
- Feiticeiro, você esteve lá!
- Eu vivo no tempo do Sonho. Vejo cada momento que esta terra cria e recria. Vi os objetos que eles usam , de coisas chamadas plástico, isopor, materiais que, uma fez criados, não voltam à terra e interrompem o ciclo da vida.
- Que mais, feiticeiro?
- Eles usam a energia dos raios para ter luz em suas casas durante a noite e esquecem de repousar. Colocam todo o conhecimento no ar, em forma de ondas invisíveis que aparecem quando eles querem, aonde querem, bastando apertar nos lugares certos umas plaquinhas que eles carregam consigo para toda parte. Chamam isso de mundo virtual, ciberespaço, rede mundial de computadores…
Bungaree ficou pensando…
- Com uma plaquinha dessas eu posso saber o caminho até Uluru sem decorar as canções das trilhas, ver se estará chovendo no dia da viagem, chamar meus amigos que estão caçando emu para irem lá me encontrar, quem sabe até converser com meninas bonitas para ver com qual delas eu vou casar?
O feiticeiro suspirou, entre bravo e desiludido.
- Entendeu tudo até bem demais…se fosse só isso, seria bom. O problema é que essas plaquinhas engolem as pessoas. Os homens ficam tão fascinados com o que estão vendo, que ficam parados, olhando para elas, e se esquecem da vida. Não se olham mais nos olhos, não se tocam, não se ocupam das crianças e dos doentes, fazem o necessário bem rapidinho para logo voltarem a olhar para suas plaquinhas, fascinados. Mas só algumas pessoas tem as tais plaquinhas.
- E as outras?
- Há os escravizados, os famintos, os doentes, os drogados, há florestas destruídas e animais mortos porque eles precisam de uns metais enterrados na terra para fazer seus brinquedinhos. Bungaree, por um pouquinho de conforto, uma roupinha bonita, uma casinha confortável, um cheirinho gostoso, você acabaria com nossos bichos? Jogaria lama em nossos billabongs? Deixaria de lado os doentes e fracos e só se ocuparia da linda garotinha que quer namorar e que está olhando você de dentro de uma tabuinha mágica?
- Feiticeiro, está tudo confuse em minha mente! Como é que uma novidade pode ser ruim? Eu gosto de novidades.
Durante este tempo, Kupe, exausto da viagem, sonolento após a refeição, havia-se enroscado sobre um montinho de folhas, e olhava, admirado, o velho a discursar. O feiticeiro jogou algumas folhas no fogo, fez um gesto, e, ao respirar a fumaça que foi em sua direção, Kupe adormeceu.
- Feiticeiro, eu lhe entreguei o bastão de boas vindas. Comemos juntos. O que vai fazer com ele?
- Sossegue. Ele não se lembrará de nós ao acordar. Vou dirigir a canoa dele para a ilha Te Puia o Whakaari' onde há um vulcão está prestes a explodir. Vulcão, antes que me pergunte, é um buraco que se abre na terra cuspindo fogo . Seu amigo vai presenciar uma formidável explosão, seguida de um tsunami que vai larga-lo na Te Ke a Maui, a ilha norte, lá no país dele mesmo, nas imediações de um caminho que o levará a Rotorua.
- Ro to ru a?
- É um vulcão mais modesto, com jatos perenes de água fumegante, fumaça saindo da terra, poços de lama borbulhantes…
- Parece assustador.
- Assustador o bastante para convencer este jovenzinho de que sua ilha é o melhor lugar para ele ficar; se as ilhas de origem fossem boas para eles, seus antepassados teriam retornado para lá. E vou apagar da mente dele esta idéia esperta de seguir os pinguins, colocando em sua memória alguns tubarões perigosamente próximos a ele, me alto mar.
- Feiticeiro, posso ir com ele?
- Bungaree, ele não lhe contou? A gente dele come os miolos dos estranhos. Eles quebrariam sua cabeça para arrancar seu cérebro. E seus músculos dariam a eles uma sobremesa deliciosa.
Bungaree gritou, horrorizado:
- Eles comem gente? E não viram pedra? Não são punidos por isso?
O velho quase explicou que os deuses deles…mas percebeu a tempo qe a conversa ia tomando um rumo perigoso. Quando um adolescente percebe crenças diferentes das suas, está a um passo da filosofia, aquele mesma filosofia que levou Sócrates à morte e Platão à cadeia, e outros tantos à fogueira. Sem contar que um filósofo atria discípulos, leva outros a pensarem, e discípulos de filósofos são péssimos caçadores e piores maridos. Haveria uma rebelião na tribo, e muita confusão à vista.
Bungaree sentiu-se desconfortável com o ensimesmar do ancião, e sussurrou:
- Eu vou ser punido? Eu não chamei o outro menino para cá. Eu…
O feiticeiro sorriu.
- Você não foi punido quando entrou na caverna proibida.
- Ah, feiticeiro! Eu bem que desconfieie quando vi aquele lagartinho que não deveria estar lá!
- Na verdade, Bungaree, eu era um morcego, naquele dia, e também estranhei o tal lagartinho…o menino não acha que eu ia assumir um disfarce tão óbvio, não é mesmo?
O garoto tornou a murmurar, com um fio de voz:
- O que vai ser de mim, feiticeiro?
- Bungaree, você vai para a Lutruwita (o nome dos aborígenes locais para aTasmânia). Nesta ilha tem um bicho que você vai adorar, purinina (atualmente conhecido como diabo da Tasmânia, ou, carinhosamente, Taz), e espero que seja suficiente para satisfazer sua ânsia por novidades. E meu amigo feiticeiro lá em Putalina vai apresentar a você uma mocinha alegre, perfeita para sua esposa.
- Onde fica esta tal Tasmânia?
- Bem longe, é para onde nós, os feiticeiros, enviamos os dissidentes e os rebeldes. E, é claro, você vai esquecer tudo o que se passou aqui esta noite.
Antes que o mocinho atirasse alguma outra pergunta, o feiticeiro jogou outro maço de folhas na fogueira. Bungaree adormeceu.
O feiticeiro falou em voz alta:
- Temos o nosso Sonho, nosso planeta tão perfeito. Temos consciência de que somos os guardiões do planeta, e nosso pensamento é poderoso. Pena que o ser humano não esteja pronto para a sabedoria. Enquanto eu estiver vivo, e meus sucessores em feitiçaria estiverem vivos, nós defenderemos a Austrália, tornando nossa terra invisível. Por muitos séculos ainda, os navegantes passarão ao largo…enquanto cantamos as canções do Sonho, a Criação continua de tudo o que existe.
Esta
foi a história que sussurrou em meus ouvidos o vento farfalhante que vinha do mar.
Caía a tarde. Uma grande tristeza se apossou de mim. Por longo tempo, fiquei lá, ouvindo as kookaburras**** que se recolhiam a seus galhos. Aos poucos, o aborígenaà espreita em mim, sorriu, e tudo fez sentido. Eu me lembrei.
Eu, o renomado físico quântico, um dos mais brilhantes discípulo Niels Bohr. Eu, o ambientalista dinamarquês. Eu, o rico viajante que percorrera tantos países, assimilando o conhecimento e estudando as culturas de tão diferentes povos. Eu, o iogue. Eu, o cientista enviado em missão quase diplomática para as rodadas de Doha. Eu, o feiticeiro reencarnado.
Os povos bárbaros da civilização do plástico desprezariam o aborígena, mas certamento ouvirão o renomado cientista. Eu estou exatamente onde deveria estar. E, agora, que a terra sagrada dos antepassados despertou minha memória, eu sei exatamente o que fazer.
Ainda há tempo.
Caía a tarde. Uma grande tristeza se apossou de mim. Por longo tempo, fiquei lá, ouvindo as kookaburras**** que se recolhiam a seus galhos. Aos poucos, o aborígenaà espreita em mim, sorriu, e tudo fez sentido. Eu me lembrei.
Eu, o renomado físico quântico, um dos mais brilhantes discípulo Niels Bohr. Eu, o ambientalista dinamarquês. Eu, o rico viajante que percorrera tantos países, assimilando o conhecimento e estudando as culturas de tão diferentes povos. Eu, o iogue. Eu, o cientista enviado em missão quase diplomática para as rodadas de Doha. Eu, o feiticeiro reencarnado.
Os povos bárbaros da civilização do plástico desprezariam o aborígena, mas certamento ouvirão o renomado cientista. Eu estou exatamente onde deveria estar. E, agora, que a terra sagrada dos antepassados despertou minha memória, eu sei exatamente o que fazer.
Ainda há tempo.
Asterisco 1 -
W. H. Edwards, An introduction to Bungareeriginal Societies
asterisco 2 – Projeto Genográfico – em estudo desde 2005 - National Geographic Explorer-in-Residence Dr. Spencer Wells - O trabalho científico conta com o respaldo da Waitt Family Foundation. O projeto está previsto para ser concluído em 2014.
asterisco 3 – Lucy é o apelido que os paleontólogos deram a um fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974 pelo professor Donald Johanson , nas areias da Etiópia
http://www.gibberagon-e.schools.nsw.edu.au/resources/Resources/ABStudies_TRB.pdf
asterisco 4 – kookaburra é um pássaro típico da Austrália.
asterisco 2 – Projeto Genográfico – em estudo desde 2005 - National Geographic Explorer-in-Residence Dr. Spencer Wells - O trabalho científico conta com o respaldo da Waitt Family Foundation. O projeto está previsto para ser concluído em 2014.
asterisco 3 – Lucy é o apelido que os paleontólogos deram a um fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974 pelo professor Donald Johanson , nas areias da Etiópia
http://www.gibberagon-e.schools.nsw.edu.au/resources/Resources/ABStudies_TRB.pdf
asterisco 4 – kookaburra é um pássaro típico da Austrália.
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