30 de nov. de 2010

computador de arqueólogo

O computador de meu trabalho é egípcio, creio, pois em sua barra, na área de trabalho, só há hieróglifos. Para começar, o olho de Hórus, que revela o número IP de minha máquina. Ao lado, uma tábua de passar roupa com um gorro verde na ponta – ou será uma língua lambendo um confeito verde? – ao lado de um reco-reco, ou talvez seja um ralador de legumes, que não tenho a menor idéia do que representa.


Vem a seguir um escafandrista ferido - pois exibe uma ponta vermelha para fora do visor, como sangue ou labareda, e a miniatura que parece o robozinho simpático do filme Guerra nas Estrelas, na sequência.


Completa a minha particular pedra de Roseta uma xícara de chá fumegante que descubro representar o tal do JAVA.Chamo o helpdesk, que, para meu espanto, pede o numero IP, que, por que motivo eu não sei, está estampado em letras enormes na tela de abertura, tornando o olho de Horus redundante. Diante desta barra de trabalho tão inútil, sorrio, pois, apesar de, ou por causa de sua aparência exótica, ela é bem bonitinha.

6 de jun. de 2010

crônica - Zupt!

Todos os dias saio com elegantes bijuterias de boa qualidade, que só de perto se diferenciam do ouro, aos olhos de um conhecedor.
Ora, em cinqüenta anos, nunca fui assaltada, ponderei, portanto, porque o seria justo neste dia em particular, em que senti desejo de exibir meu ouro? O uso de bijuterias não previne assaltos, já que o ladrão não dispõe de tempo para examinar de perto a mercadoria antes do bote, age apostando na probabilidade.
Admirei portanto minha corrente de ouro mais bela, e ponderei que o encontro daquela tarde era importante, dele dependendo a aprovação de meu projeto. A entrevistadora era pessoa de classe, eu iria produzida, a bijuteria destoaria do conjunto.
Bem que vacilei, quase optei pela simplicidade total, mas a vaidade venceu.
No caminho de todos os dias, como tenho o hábito de vestir-me com elegância, minha aparência não chamava a atenção dos porteiros habituais.
Foi ao chegar à esquina que surgiram num repente os três ciclistas. Nem tive tempo de levar a mão ao peito, o gesto ia a meio quando um deles atingiu-me, tão mestre em sua arte que nem me desequilibrou. Quando completei o gesto apalpei o colo nu e até cheguei a pensar que bom que resolvi sair sem jóias, então a lembrança do demorado dilema frente ao espelho retornou e eu pensava, mas não, justo hoje eu botei meu ouro, afinal de que me serve ter algo se não uso, seria muito azar se, justamente hoje, sim, mas justamente hoje o assaltante voara sobre meu peito como se atraído por um ímã e eu não podia parar de pensar que pusera meu ouro expressamente para aquele assalto, que eu e o assaltante, ligados por alguma força cósmica, estávamos destinados àquele encontro àquele dia àquela hora.
Antes isso, filosofei, concentrando meu pensamento na importância do encontro iminente, cujo resultado foi nulo e para o qual a bijuteria ou o ouro não fariam de fato diferença outra que não a psicológica.
Impressionara-me contudo a imponência do agressor, magnífico em sua ousadia, majestoso como um Àtila a cavalgar pelas estepes, em um de seus momentos de glória, nem rei nem mero líder apenas um sobrevivente hoje, possivelmente um baleado amanhã; marcou-me sua aparição fantástica como um deus do crime, a pedalar louca e livremente.
Também fui moça e ciclista, também senti a sensação de liberdade nos meus cabelos ao vento, na época em que era permitido pedalar na areia da praia, brincando de ziguezague com as ondas à beira mar, nas manhãs ensolaradas.
Naquele tempo os muros eram baixos, as portas ficavam encostadas e os homens que viravam a esquina, de bicicleta, se atingiam o peito de alguma mulher, a culpa, já se sabe, era das flechas de Cupido.

poesia - Vida de viúva

Vida de viúva é que é de se invejar.
É só ir à praia e você pode constatar :
O sol levanta, o sono logo espanta
E lá vão as velhinhas pela praia a caminhar.

Se ela é pobre faz excursões de um dia,
Sai com as amigas, curte a vida com alegria ;
Se ela é rica a história é diferente,
Faz a mala e segue em frente para a Europa bem contente.

refrão : E esse povo de mais de oitenta e cinco
Tem mais disposição que muitos de vinte e cinco

Mariazinha até planta bananeira
E aos sábados, faceira, ao clube vai dançar.
Para os velhinhos, ao ve -la , é um milagre,
Sentem a mocidade ao corpo retornar.

Esquecem as dores e o reumatismo
Não gastam o tempo a se lamentar
O melhor mesmo é fazer turismo
A vida é muito boa, vamos aproveitar.

crônica - Para não dar vexame

Era uma dona emproada, dessas que se denominam uma senhora distinta, de classe; o tipo cuja casa parece uma exposição de tão impecavelmente arrumadinha, repleta de bibelots, paninhos de crochet e arranjos de flores para tudo quanto é canto.
A respeitável velhinha de nossa história já passava dos 65, vendendo saúde. Muito vaidosa, fazia diariamente a sua ginástica, frequentava com assiduidade o cabeleireiro e vestia - se com elegância. Ultimamente caprichava mais no visual porque conhecera um charmoso viúvo, de cabelo todo branquinho mas sem um pingo de barriga, um belo tipo. C onhecera - o no baile de formatura da neta, que o havia apresentado como um exímio dançarino, e o par havia arrasado no salão.
Aconteceu que, certa tarde, vovó fora à casa das netas preparar umas sementeiras no quintal e para isso vestira uns trajes bem velhos e protegera os cabelos com um medonho turbante. Suada e suja de terra, acabado o trabalho, ela ia para o banho quando a neta caçula chamou - a para ver qualquer coisa na TV.
E lá estava ela na sala de TV quando ele chegou e foi introduzido na sala de visitas antes que vovó pudesse aprontar - se para ser vista. ( pois a nossa vovó ficara agradavelmente impressionada com o ex - professor da neta, caso o leitor não tenha ainda compreendido )
Para dirigir - se ao banheiro, contudo, ela precisava atravessar a outra sala, e nada de a neta levar o homem para a varanda ou para a biblioteca.
O tempo corria e vovó se conformava em desistir do encontro. Paciência, uma oportunidade perdida ! Ser vista naqueles trajes, com aquele aspecto, nem pensar !
Se ela ao menos pudesse dar a volta à casa e entrar pelos fundos...
Então, a natureza fez - se sentir. Era imperioso ir ao banheiro sem mais delongas. E lá na sala de visitas a prosa se prolongava, animada.
E a venhinha sem saber o que fazer, não podia protelar por muito mais tempo a satisfação de suas necessidades fisiológicas. E nem pensar em aparecer na frente do pretendente naquele desalinho.
Que dilema !
Os minutos passavam, longos, e,justo no momento em que ele se despedia e assomava à porta da rua, a senhora tomou uma decisão desesperada : pulou a janela.
E caiu em seus braços.

conto - O veredicto

A princípio parecia tudo normal. As pessoas mostravam - se educadas como de costume. Aos poucos ela deu - se conta do muro de polidez gelada que se erguia a seu redor. As conversas não se tornavam mais pessoais, congelavam em torno de banalidades com o tempo, esportes ou decoração.
Não recebia mais convites para festas. E, quando, no seu aniversário, ninguém compareceu, todos dando desculpas socialmente adequadas, ela, finalmente, começou a compreender.
Tratava - se de uma dessas ridículas situações que, quanto mais se explica, mais complica. O fato é que todas as evidências conspiravam contra ela.
Houvera alguns comentários ostensivos sobre a justiça divina, que, esta sim, não falha. Olhares de soslaio quando ela chegava. Insinuações sutis sobre certas mulheres dissimuladas, perigosas como cobras.
O marido afastara - se, pedindo um tempo para repensar uma relação que não lhe era mais conveniente, retirando - se para o apartamento em Ribeirão Preto. E a filha o acompanhara, dizendo que em Ribeirão havia melhores colégios e, além disso, lá ninguém a conhecia. Interrogada sobre este súbito desejo de anonimato, a garota explicara que não suportava mais a situação constrangedora, a vergonha de ouvir comentários sobre a mãe.
Horrorizada, ela notou que a adolescente a julgava culpada, bem como o marido, bem como o pai. Pior, recusavam - se a esclarecer a situação.
- Não adianta repisar o assunto, filha. Você vai ter mesmo que viver com isto para o resto de sua vida. - e ela percebeu, consternada, que nem a mãe acreditava nela.
O ostracismo total só não acontecera ainda devido ao cargo político que ela ocupava. Precisavam dela. Dependiam de sua atuação, de sua aprovação, de seu trabalho. Quando acabasse o mandato do atual prefeito, a dispensariam sem mais aquela.
O desprezo a seu redor tornava - se palpável. Os sorrisos irônicos, os olhares cruéis, os ditos de duplo sentido cada vez mais acintosos feriam mais pelo fato de ela não poder prová - los.
Impossível esclarecer um assunto do qual, explicitamente, ninguém falava.
Ela procurou o juiz, pedindo um inquérito.
- Veja bem, só posso abrir um processo a pedido da promotoria e, que eu saiba, ninguém a está acusando. Você deve pensar que sua insistência em provar inocência será tomada como prova incontestável de culpa. E se houver um processo e você for absolvida, sabe o que dirão as más línguas ? Que você foi de fato muito esperta. Tudo o que conseguirá provar é que tem um álibi perfeito.
Ela ponderou que o juiz tinha razão.
- Legalmente você não está ameaçada - e ele concluiu comentando que “a coisa fora muito bem tramada” e deu - lhe uma piscadela cúmplice que a fez sair dali com o coração mais pesado do que quando entrara.
Sua melhor amiga deixara de visitá - la , não atendia a seus telefonemas e inventava desculpas para não recebe - la.
Há anos ela cultivava boas relações nos melhores círculos sociais, gente de bom nível cultural e moral, mas estas excelentes pessoas demonstraram completa incapacidade de seguir os preceitos religiosos da caridade e da justiça. Aliás, protestantes, católicos e espíritas demonstraram um curioso ponto em comum : quanto mais ostensivamente religiosos, mais intolerantes e menos dispostos a conceder - lhe o benefício da dúvida.
- O importante é estar em paz com sua consciência - esquivou - se um padre, alegando pressa e sugerindo, para seu espanto, que ela se mantivesse longe de sua igreja.
A questão era mais prosaica do que estar em paz consigo mesma. Tratava - se do fato simples de que um ser humano precisa de contato com outros seres humanos.
Então ela conheceu a escultora belga, que a procurou para organizar uma exposição e com quem ela passou uma tarde inteira conversando, a abrir o coração. Que pessoa simpática e alegre! Marcou um passeio para sábado, e quando a outra ligou desmarcando friamente constatou que a cidade fora rápida em seu trabalho de difamação.
Depois deste fato ela perdeu a esperança. Não adiantava lutar. A sua era uma causa perdida.
Na noite de Natal ela suportou estoicamente a representação, os parentes se esmerando em fingir que a tratavam como antes, quando por detrás dos gestos e falas rituais adivinhava - se o desdém. Nenhum afeto transparecia em seus olhares.
Em dado momento alguém afirmou que coração de mãe não se engana. Ela sorriu tristemente ao ouvir tal frase e foi só neste momento, observando - a , que a mãe deu -se conta da verdade. Não teve, porém , oportunidade de contar à filha que acreditava em sua inocência , pois nesta noite ela tomou veneno e amanheceu morta.
A mãe inventou para o médico um reumatismo de infância mal curado e certas crises de taquicardia, para induzi - lo a atestar morte natural. Assim, ao menos, nenhum cristão poderia insinuar, maldosamente, que o remorso a levara ao suicídio.

conto erótico - Vocação

_Quanto?
Risonha e distraída, ela acompanhava há vários minutos, sem se dar conta do que fazia, a caminhada daquela criatura máscula, para quem agora dirigia um olhar de espanto.
_Meu nome é Vítor P... Estou hospedado ali no Hotel Jequitimar. Quanto você cobra para vir comigo agora?
Ela reteve fôlego, sentindo as faces em brasa, e afastou-se a correr.
Bem que ouvira comentários sobre as “mariposas” que se ofereciam nos pontos de ônibus, mas ela pensava que essas coisas só aconteciam à noite.
Ela olhou para trás. Ele ria. Ela riu também. Ele enviou-lhe um beijo com a ponta dos dedos. Espantada com a própria ousadia, ela acenou em despedida, o coração aos pinotes.
Pensou no atrevimento durante todo o trajeto para casa. Decerto ele era estrangeiro, tinha um forte sotaque. E se ela se encontrasse com ele, ninguém saberia.
Entrou em casa e apanhou um jornal. Uma idéia marota brincava com seus princípios. Procurou nos classificados pessoais do jornal. Dizia-se que esses estrangeiros pagavam bem e em dólares. Lá estava:
“US$700 – Apartamento próprio. Só para executivos”
US$700! E ela, que ganhava um mínimo! Porém a moça tinha apartamento próprio, com certeza usava perfume francês e usava roupas finas.
“Mas é paga para trabalhar despida” – explicou a idéia maliciosa – “e você também tem um frasco de perfume francês”
“US500 – 18 anos. Tudo o que a sua imaginação ousar.”
“US$200 -Trivial simples. Loirinha”
“US$300 – Mulata. Tudo em cima. Mãos e bocas de ouro”
Ela sentou um arrepio percorrer-lhe o corpo. Tudo o que a sua imaginação ousar... Pensou em um chicote, cachorros, sabe-se lá. O trivial simples desatou-lhe o riso e pareceu-lhe aceitável.
US$200 em uma única tarde, e de repente um trivial simples poderia ser bem agradável. Imaginou-se nos braços do atraente italiano, a suspirar. Passeou pela casa silenciosa, observando a mobília simples de família pobre mas honrada e pensou em seu futuro. Se ganhasse US$200 por semana, em dois anos poderia comprar uma casinha e voltar à vida normal. As “mariposas” gastavam em bebidas, em drogas, ou deixavam-se explorar por algum gigolô. Ela guardaria o dinheiro sob a capa protetora da Bíblia e manteria suas saídas em segredo.
Bem, não custava experimentar, não é? Se não gostasse, pararia nos primeiros US$200.
E se ele achasse caro? Ora, ela tinha que tentar!
Quando suas mãos pegaram o fone, ela assustou-se. Até então era apenas uma fantasia, nada para ser levado a sério, mas .. por que não? O diabo da idéia tentadora e a lembrança do belo homem estacionaram em sua mente. Por que não?
Ligou para o Hotel Jequitimar.
_Um amigo meu está hospedado aí, chama-se Vítor P...
Ele não atenderia, ela enterraria a idéia maluca na prisão mental onde devem ficar trancafiadas tais idéias perigosas e fim.
_Alô? – ele atendeu.
Após marcar o encontro, ela abaixou o fone, sem poder acreditar no que fizera. Viu-se a subir as escadas, banhar-se, colocar o perfume francês e a calcinha de renda preta. Sorriu para a mocinha ingênua do espelho que piscou para ela, divertida, e na bolsa colocou o batom vermelho que só usava no Carnaval, para retocar os lábios quando entrasse no elevador do hotel.
Ensaiou um andar provocante, gestos lânguidos, e decidiu-se pelo seu próprio aspecto de moça simples.
US$200! Ganhar em uma tarde o salário de dois meses!
Viu-se a caminho, cumprimentou um conhecido que passava como se fosse a coisa mais natural do mundo ela entrar em um hotel, sentindo-se estranhamente alegre, leve. Andou pelos corredores com a segurança de quem está na própria casa e aproveitou um momento em que o corredor ficara vazio para empurrar a porta de quarto 415, como ele a instruíra.
Sentado em frente à TV, saboreando uma caipirinha, ele fez com a mão sinal para que ela trancasse a porta.
Ela abriu um sorriso de criança travessa e esperta:
_Pagamento adiantado.
Ao sair do hotel, feliz, sentindo o corpo satisfeito e relaxado, ela ponderou que era bom e agradável o tal trivial simples. Parou por um momento no ponto de ônibus e observou os homens que passavam, demorando-se na figura alta e viril de um marinheiro ruivo. Sorriu quando ele aproximou-se e correu a mão pelos cabelos em um gesto que era pura provocação. Ele parou em frente a ela, que, desta vez, respondeu prontamente quando ele perguntou:
_Quanto?

5 de jun. de 2010

crônica - Uma questão de classe

Chovia que era uma beleza. Um Turner se quedaria deliciado ante os matizes caleidoscópicos do mar em fúria.
Um dia em que um assalariado de juízo restaria em casa a prevenir-se da gripe. Mas não Luizinha, funcionária responsável, ciente de suas obrigações.
Luizinha embarcava pontualmente na barca das 6:30 e atravessava o Atlântico rumo à favela onde trabalhava.
Ela só faltara uma vez, quando ventos acima dos 60 km/h impediram a navegação das balsas.
Ela enfrentava estóicamente, a depender do tempo, dez quadras de pó ou lama para garantir o emprego federal arduamente conquistado após meses de estudo e insônia.
A seu lado aglomeravam-se os miseráveis habitantes do cortiço, maltrapilhos, fétidos, piolhentos, encarando com rancor seu corpo bem nutrido e bem cuidado. Por mais que se vestisse com simplicidade, ela sobressaía na multidão, deslocada de seu meio, de suas raízes.
Largando por um momento o guarda-chuva a seu lado, Luíza buscou na bolsa um lenço e assoou o nariz.
A travessia terminava. A moça tateou pelo banco em vão até encontrar o olhar duro da corpulenta mulher ao lado, que a fixava agressiva, segurando nas mãos o precioso guarda-chuva.
A cena armada para o escândalo.
Luizinha pensou em protestar, mas quem disse que a voz lhe obedeceu?
E o olho mau da ladra insolente, provocador, zombeteiro...
A raiva aflorou no rosto da moça sob a forma de lágrimas. Todos os seus músculos contraíram-se em um patético esboço de reação.
Muda de espanto, Luizinha observou a outra afastando-se imponente, imensa, ameaçadora, a encarnação dos protestos da Miséria contra a Abastança.
E Luíza lá, imóvel.
Uma mulher desprotegida exposta à tempestade.

conto infantil - Uma lenda chinesa

Quando a prima Lúcia chegava, distribuindo sorrisos e abraços, Juquinha e os irmãos corriam para ela, contando as novidades e pedindo estórias.
Pois a prima Lúcia, que nunca beliscava as bochechas das crianças nem perguntava ‘o que você vai ser quando crescer?’, contava lindas estórias. Narrativas especiais que pareciam não ter fim, porque Juquinha ficava dias pensando nas perguntas que apareciam em sua cabecinha por causa das tais estórias.
Naquela tarde, como as crianças estivessem brincando com massinha de modelar,a prima contou a estória de Ching Liu, o chinesinho que gostava de modelar no barro vasos, estátuas e enfeites de todos os tipos.
“Ora, o imperador passou pela aldeia e convidou Ching Liu para trabalhar no palácio.
As estátuas perfeitas que Ching Liu colocava nos jardins confundiam os visitantes, que se dirigiam a elas pensando que fossem pessoas de verdade.
O cozinheiro real chateava-se porque os convidados elogiavam mais a louça do que as iguarias servidas nas festas da Corte.
Ching Liu misturava as tintas com maestria, até obter o matiz exato das manhãs de verão ou das tardes de primavera e o branco idêntico ao da neve das montanhas.
Certo dia, a princesa chamou Ching Liu a seus aposentos e pediu-lhe um vaso que fosse o mais maravilhoso de quantos se tivesse notícia.
- Que os pásssaros pareçam voar, que as folhas pareçam tremular ao vento e que a pele das pessoas tenha a textura e a cor da pele humana. – exigiu a princesa.
Ching Liu pôs-se imediatamente ao trabalho. Modelou e cozeu dezenas de vasos, até obter o traço leve que imitava os pássaros em vôo e a brisa refrescante à beira do lago.
Finalmente Ching Liu preparou o vaso para a princesa, sentou-se em frente ao forno e dirigiu-se ao fogo:
- Eu darei a minha alma para que este vaso seja perfeito, tão perfeito que as figuras nele pintadas tenham a cor e a textura da pele humana.
Pela manhã, na oficina do mestre, os moradores do palácio encontraram um montinho de cinzas e um vaso maravilhoso, onde a paisagem parecia real e as figuras pareciam vivas.
E foi assim que Ching Liu tornou-se o deus da porcelana.”
Juquinha, fascinada, ficou pensando... Ching Liu poderia ter-se recusado a deixar a aldeia, poderia ter dito à princesa que desconhecia a tinta que imitava a pele humana, mas não! Ching Liu, curioso, gostava de desafios; tentava, tentava até conseguir o que queria.
- O deus já estava dentro de Ching Liu quando ele nasceu! – exclamou Juquinha, como se houvesse descoberto um grande segredo – Assim como a semente já carrega a promessa da flor antes de ser plantada!
O menino admirava-se de que tantos pensamentos importantes surgissem em sua cabecinha depois de ouvir as estórias da prima Lúcia. Pensando nestas coisas ele sentia o coração bater feliz.
Por essas e outras a família chamava Juquinha de pequeno filósofo.

4 de jun. de 2010

conto - Um assalto

O moleque subiu no ônibus e sentou-se no último banco, as lado do rapaz bem vestido de pasta de couro no colo. Sentou-se, achegou-se e sussurrou:
‘Fica quieto e passa a grana e o relógio’
O outro nem piscou.
O moleque olhou para os lados, ressabiado e repetiu a frase, um pouco mais alto, engrossando a voz.
O outro, nada.
O moleque ficou nervoso:
‘O meu, não entendeu, não? É um assalto, cara’.
‘Ah, é? Então mostra a arma.’
O malandro, assustado, recuou um pouco, inda tentando manter a pose de agressor.
‘Colabora que é melhor...’
O rapaz bem vestido agora falou alto e bom som:
‘Você disse que é um assalto. Pois então. Quero ver a arma. Cadê a arma?’
O cobrador e os demais passageiros, no maior silêncio, voltaram os olhos para a dupla. O moleque, meio desenxabido, suando frio, levantou-se e ficou em pé em frente à porta, indeciso.
O motorista encostou, freando em frente ao ponto e abriu as portas.
Foi então que o moço bem vestido, com um gesto vigoroso, catou o moleque pela gola e pelos fundilhos e o arremessou porta afora.
Grande gritaria do povo na calçada, ante o garoto que se estatelou de boca no chão.
O motorista fechou imediatamente a porta. O cobrador voltou-se para o seu jornal, os passageiros se voltaram para frente e o ônibus partiu.
Lá no último banco, o sorriso feliz do mocinho, agora um homem.

crônica - um antídoto, já!

Fui envenenada por FHC. Veneno mais tóxico que o BHC, FHC corrói aquele lugarzinho secreto responsável pelo bem-estar e pela paz de espírito, que os místicos chamam de ‘alma’, os junguianos ‘self’ e o cidadão coomum simplesmente ‘bolso’. Questão de ponto de vista.
Ainda convalescente da última mordida do Leão, reajo mal a 43 anos de brasilidade.
Devo à CEF, onde fui trocar de pesadelo (do pesadelo do aluguel para o pesadelo da casa própria) uma úlcera de stress, noites de insônia e sessenta dias de completa esterilidade mental – as idéias todas debandaram, em pânico.
Recupero-me aos poucos, na esperança bem brasileira de conseguir pagar juros absurdos com salários congelados há mais de três anos. Valei-me, Santa Rita dos Impossíveis!
As próximas eleições? Meu voto é ecológico, que a vida é para todos e o dinheiro também. Quero respirar!
Agora, com licença, vou fazer pipocas, assistir ao final da Copa do Mundo e tentar convencer o caçula a desistir daquela universidade a R$1000,00 por mês com garantia de desemprego certo:
_ Vai jogar futebol, meu filho!

conto - Um amigo indiscreto

Seria uma história preciosa , caso o jornalista pudesse contá-la, mas ele comportara-se estupidamente, e, estando preso àquela promessa, não poderia fazê-lo. Zezinha estava vingada.
Conto-lhes em rápidas palavras o sucedido:
Zezinha, a poetisa, sofrera de paralisia infantil e desejava conhecer pessoalmente o Dr. Sabin, que visitava o Brasil.
- Sendo a senhora quem é, isto é facílimo! – retrucou o Campos.
Zezinha ficou a especular se o ‘sendo a senhora quem é’ referia-se a suas poesias ou ao fato de ter ela sido acometida pela doença.. Havia um outro porém: ela não falava inglês.
O Campos tranquilizou-a:
- Nem precisa. O doutor fala fluentemente o português. Ele é casado com uma brasileira, não sabia?
Acertada a visita, um amigo jornalista resolveu ‘pegar carona’ na entrevista e ofereceu-lhe o carro. Zezinha bem que percebeu a marotice, mas o amigo parecia um menininho em visita a Papai Noel e ela não teve coragem de negar:
- Mas olhe lá! Não vá transformar a visita em assunto de reportagem! Proíbo-lhe!
Ora, esta era justamente a intenção do jornalista, mas ele cedeu: contentava-se com a glória de ver de perto a celebridade.
Zezinha e Sabin estavam a comentar a grande sorte das gerações atuais, pois há oito anos não se registrava sequer um caso de poliomielite no Brasil, quando o nosso jornalista, não conseguindo segurar a língua, sai-se com esta ‘pérola’:
- O senhor, evidentemente, enriqueceu, não foi?
Zezinha sentiu o rosto quente de indignação e vergonha.
Sabin exclamou, veemente:
- Meu senhor, certamente os laboratórios que comercializaram a vacina enriqueceram. Quanto a mim... as descobertas dos cientistas pertencem à Humanidade!
Seguiu-se um silêncio constrangedor.
O jornalista interessara-se subitamente pelo intrincado desenho do tapete persa sob seus pés. A amiga o encarava, muito digna.
O cientista levantou-se e, em voz pausada, contou-lhes :
-Estive recentemente na Inglaterra... Fui recebido na corte... Vocês sabem, o protocolo inglês é severo... Quando a rainha entra, todos se levantam e a reverenciam... Pois lá estava eu, em meio a todos aqueles lordes... E a rainha inclinou-se e beijou-me as mãos... Isto me basta.

poesia - Um Dia

Era uma vez, um dia, Maria,
Que amava José, que amava Lia,
Que amava Otávio, que a corte fazia
À charmosa e alegre Bia
E nenhum deles sabia
Do mal que os consumia,
Pois,em uma cirurgia,
Há muitos anos atrás, havia
Um vírus, que em Maria
Pelo sangue se introduzia
E assim, por essa via
A vida de todos se esvaía
Aos poucos - e pouco havia
A fazer agora por Maria,
Por José, por Lia ...

Trovas - bem, tentativas de.

Primavera...és bem vinda
Afasta de mim a dor
Diz - me que é tempo ainda
De viver um grande amor


Eu sinto a primavera
Na brisa e no som do mar
Meu coração te espera
É sempre tempo de amar

Borboletas entre as flores
Dançam a dança das cores
Vem, esqueçamos as dores
É o tempo dos amores

Alegra meu coração
Que chora só, de saudade,
Pleno da recordação
De nossa felicidade

É uma questão de treino
E se você leva jeito
Fica logo todo prosa
Pois já sabe fazer trova

Brisa cheirosa do campo
Vem afagar meu amor
Leva até ele o meu canto
Segue - o aonde ele for

Depois do inverno tristonho
Que tanta tristeza encerra
Há esperança e sonho
Ao florir da primavera


Minha alma não resiste
Parto alegre a navegar
Quero saber o que existe
Do outro lado do mar

Ó mar, lá vai a gaivota
Alegre, longe, a voar
Vai traçando a sua rota
Como eu, a navegar

Mar das ondas cor de prata
Onde alegre vou pescar
Minha amada lá na praia
Parece que vai chorar

Mar, quantas lágrimas minhas
Salgaram as tuas águas!
Mar, quantas ondas amigas
Lavaram as minhas mágoas!

À beira mar me sorria
Seu belo canto inda ouço
Por sobre a areia corria
Seguindo a gaivota em vôo

Sem sentido corre a vida
Vazia, tão sem calor
Entretida em minha lida
Suspiro por teu amor

Suspiro por teu amor
Brincas com esta paixão
Mal te dás conta da dor
Que destrói meu coração

Tenho muito amor a dar
E ninguém que o queira ter
Não posso rir nem cantar
Estou só - só sei sofrer

Sendo rica, sou mendiga
Longe estou do teu calor
De nada me vale a vida
Se não tenho o teu amor

conto - Um litro de Continental

_Afinal, o que é que vai ser?
_Já disse, um litro de Continental.
_Freguês, decida-se. Vai o leite ou vai o cigarro?
Acho que arregalei os olhos de surpresa. Desde a tarde anterior eu estava doido por uma tragada.
Naquela manhã eu estava tão desesperado para fumar que nem café tomei. Empurrei Míriam com brutalidade quando ela veio dizer que acabara o leite e pedir para inteirar uns trocados para a mamadeira. Virei bicho. Nosso dinheiro é guardado em uma caixa, cada centavo cuidadosamente separado: para aluguel, luz, condução, meus cigarros, feira, gás, o leite do bebê e o resto sai do salário dela. Nada mais justo, já que o moleque é dela. Quando ela veio morar comigo, já estava de barriga.
Eu disse a ela que se virasse, pois se o dinheiro do leite acabara, ela o gastar em alguma outra coisa. Se ela não sabe cuidar o dinheiro, azar dela.
Eu era assim, grosso, estúpido – um ignorantão. Mas eu estava cheio de razão. Levanto de madrugada, me ralo de trabalhar, tenho direito a meu prazer, não é certo?
Assim convencido, e doido para fumar, respondi ao homem no balcão:
_Vai o leite.
_E o cigarro?
_Parei.
Minha voz estava baixa e triste. Que diabos! Eu queria e muito uma boa tragada!
Voltei para casa confuso, sentindo-me leve. Entrei na cozinha e falei:
_Taí o leite do menino.
Então pequei o bacorinho no colo e foi como se o visse pela primeira vez.
A voz da companheira saiu engasgada e tímida:
_Não carecia. O menino não é teu.
_Deixe de falar bobagem, mulher. Pai não é quem faz, não, é quem cria.
Deitei o menino no berço e fui buscar o resto do dinheiro do cigarro. Coloquei o rolo de notas em cima da mesa e expliquei:
_Este dinheiro aqui é para leite, fruta e alguma coisinha de que nosso filho precise.
Míriam mexia o mingau no fogão muito quieta, de olhos fixos na colher de pau.
_Sabe como é, mulher, já que eu vou fazer isso, é melhor fazer direito. – eu estava gaguejando, e aí saí-me com esta doideira – Eu faço questão de dar bom exemplo, e comecei hoje, parando de fumar.
Já se passaram três anos e eu nunca mais fumei. E quer saber? Foi a partir desse dia que eu acertei na vida.

conto -Um milagre

Até a idade de trinta anos o Dr. Hélio não acreditava em milagres.
Ele clinicava em Terra Roxa, cidadezinha situada em um lindo vale distante vinte e cinco quilômetros de Bebedouro, centro regional, à qual se ligava por estradas de terra íngremes e sinuosas, intransitáveis durante as chuvas, quando testemunhou um fato extraordinário.
Uma mulher trouxe para consulta seu filho de três anos. O Dr. Hélio notou uma cicatriz extensa no lado esquerdo do abdome do garoto, uma cicatriz pálida e retilínea, como a de uma cirurgia antiga, e perguntou o motivo daquela marca. Ouviu então uma estranha estória, no português cheio de erros dos caipiras:
“Doutor, eu nem sei o que lhe diga, nem eu mesma entendo o acontecido. O ano passado teve uma vez que caiu uma chuvarada que durou três dias. Nós mora a três quilômetros daqui, nós num tem carro, não, quando precisa tem a caminhonete do patrão, mas num dava jeito nem de a gente sair à procura do patrão tanta era a água que chovia, tudo era uma lama só, de noite, um breu que só vendo e o menino dana a se queimar de febre. Um febrão que dava inté medo. Como eu chorei aquela madrugada e me apeguei com minha Santa Rita a rezar por meu menino. De manhã cedinho o moleque aquietou-se e dormiu. A gente esperou um pouco até a água abaixar e fomo pra casa do patrão, que trouxe nós até o hospital. Daí quando eu vou abrir a camisa do moleque pro outro doutor examinar, dou um grito de susto, tava esta marca aí, só que vermelha e grossa, assim como uma carne inflamada e o médico perguntou:
- Que cirurgia foi essa?
- Mas num foi cirurgia nenhuma, não. Até ontem de noite num tinha nada aí, meu filho é sadio, nunca operou de nada, não.
- Como não tinha nada? Isso aqui é marca de cirurgia recente.
Eu fiquei toda arrepiada. O menino tava espertinho, sem febre, querendo comer, o doutor não achou nada e nós fomo embora, ainda levando bronca por não saber explicar que marca era aquela e ocupar o tempo do médico à toa.
Ora, vai que uma prima minha sabe da estória e diz que ouviu falar de um centro espírita e eu não queria ir não, que eu sou católica e não gosto dessas coisas de terreiro, não, mas tava encafifada e fui. Chegamo lá um senhor muito distinto olhou o meu menino, me olhou, eu nem falei nada, não, eu tava quieta, com medo, e o menino assim no meu colo, vestido e tudo. Pois o tal senhor distinto me diz:
- Você foi abençoada, filha. Essa marca em seu menino é de uma cirurgia espiritual. O menino teve uma inflamação no intestino, ia morrer, era de noite, chovia forte, você não tinha como chegar na cidade, então os espíritos operaram ele para salvar a vida dele. Agradeça a Deus, minha filha.
Eu tremia tanto que nem falar podia. Como é que aquele homem podia saber daquilo se eu nem falei nem mostrei nada?
Com o tempo a marca foi afinando, abaixando, agora está assim, este risquinho branco tão reto que inté parece feito com régua.
Eu nunca mais que voltei no centro.
Rezo toda noite a Deus agradecendo a vida de meu menino, mas não sei de explicação pra isso não. A minha Santa Rita dos Impossíveis é quem deve saber.”

conto - Um personagem de Kafka

Ah! Como eu entendo Kafka!
Todo filho único de mãe perfeccionista entende Kafka.
Condenado sem culpa antes de qualquer julgamento, o filho único de mãe perfeccionista jamais conhecerá a metamorfose que o tornaria humano.
É execrado pelos colegas desde o berçário por sua precocidade genial e seu vocabulário corretíssimo.
Este menino ou menina aos quatro anos de idade faz um rabisco à la Picasso usando cores como Matisse, em vão. Sua mãe torce o nariz: ‘para sua idade, até que está bom...’
Aos sete, ele ou ela desenha usando perspectiva, planos de fundo e sombreado que obedece rigorosamente a posição da luz. Nem os pintores italianos anteriores a Da Vinci coloriam tão bem, porém a mãe boceja com enfado: ‘razoável’.
Em vão esta criança se aplica aos estudos. Se tira nove, poderia fazer melhor, se tira dez, não fez mais do que sua obrigação.
Se atleta, ao exibir orgulhoso o título de campeão estadual, ouve da mãe o comentário: ‘o campeão brasileiro, na sua idade, bateu o recorde mundial e o campeão sul-americano é mais novo que você’.
Ela nunca aplaude, para não ‘estragar’ o rebento.
Caso ganhe o ouro olímpico, a mãe afirma que ele está abaixo de suas possibilidades, que seu desempenho poderia ter sido melhor, pois ela, que o criou, sabe como ele é preguiçoso, contentando-se com um resultado inferior a seu potencial.
Quando a cumprimentam, ela recebe os louros especificando quantas horas sacrificou-se acompanhando o herdeiro a treinos e competições, frisando o quão dedicada foi e ainda é, saboreando sua fatia no triunfo do filho.
Filho que trocaria todos os prêmios, troféus, diplomas e medalhas pelo único elogio que ela nunca pronunciará.
E se um dia, ele, desesperado, pular no pescoço da mãe, apertando, estrangulando, sacudindo, confirmará ser um filho ingrato que não reconhece o quanto ela faz por ele.

conto - Um peixe no pomar

- Bebedouro ? Nunca ouvi falar nesssa cidade.
- Como não ? É a capital da laranja.
- E como é que você foi trocar nossas praias pelos laranjais ?
- Lá tem emprego, coisa que aqui no Rio anda difícil.
Fiquei pensando nas palavras de minha amiga. Visitei - a nas férias. E no ano seguinte, eu também estava em Bebedouro.
Deixei a insegurança das ruas, o medo dos assaltos e o trânsito enlouquecedor para trás. Troquei o apartamento, grades, trancas e chaves, por uma casinha com jardim e quintal.
Mantive o mesmo emprego, porém, que diferença no padrão de vida! Que saudável sossego!
Logo na primeir semana fui à secretaria do clube .
- Quero comprar um título.
- Mas eu não sei quem a senhora é.
- Não pode ao menos informar o preço ?
- No momento não temos títulos à venda.
Mas no dia seguinte, meu vizinho bebedourense acompanhou - me ao clube, apresentou - me e apareceu um título disponível para a amiga do Geraldo.
Aonde quer que eu fosse, sentia - me estrangeira.
- A senhora é de Bebedouro ?
- Não.
- Logo vi. Não a conheço.
O sorriso congelava na face e eu podia quase tocar o muro de polida indiferença que se erguia à minha frente.
Até que aprendi com uma amiga a contar uma mentirinha.
- A senhora é de Bebedouro ?
- Nascida e criada.
- Como não a conheço ?
- É que saí para estudar fora.
- Ah!
Mas era um ah! cheio de simpatia!
Logo fui - me infiltrando aqui e ali e em breve tinha um bom círculo de relações. Só me faltava mesmo um namorado.
- Você veio para a cidade errada - dizia a minha amiga carioca - Aqui não se arranja ninguém.
Havia um solteiro em meu emprego, mas, definitivamente, nada tínhamos a ver um com o outro. E um vizinho, francamente hostil a minhas tentativas de aproximação.
Comecei a sair. Para descobrir que a noite é dos pivetes e dos mal casados.
Perguntei para as comprometidas como haviam conhecido seus maridos e namorados e obtive dois tipos de respostas :
- Estudamos juntos.
- Alguém nos apresentou.
É isto ! Em uma cidade de valores tão tradicionais é preciso ser apresentada. E saí à cata de uma apresentação junto às pessoas mais chegadas.
- Afinal, eu preciso conhecer alguém de acordo.
As pessoas colaboraram. E fui apresentada a irmãos, primos, cunhados e amigos de família.
. Eu não entrosava com ninguém.
- É impossível ! Você esqueceu como namorar !
- Não é isso. É que não há afinidades.
Aí alguém lembrou de um astrólogo que analisava a personalidade das pessoas por computador.
- Se ele não for capaz de arrumar um companheiro para você, ninguém pode.
E assim, em uma bela tarde de sábado, recebi das mãos do tal astrólogo uma lista com três datas.
- O marido ideal para você nasceu em um desses três dias.
- Só ?
Também não precisava ser tão ideal assim...
- Seu caso é muito especial. - essas foram as exatas palavras dele - Se nós excluirmos os casados, os não brancos , os pobres, as crianças e os velhos, você tem uma chance em dezoito mil de encontrar um homem afim com você.
E ante o meu olhar de espanto, ele completou :
- Quase impossível. Por que você não procura no cartório ? Diga que eu pedi.
E assim, lá fui eu ao cartório. Voltei com dez nomes.
- Este mudou - se. Este casou. Este morreu. Este...
Esgotou -se a lista. Nenhum disponível.
Desanimador!
Não desisti, porém, de procurar. E certa manhã, no lago, passou por mim um exemplar masculino da idade certa, atraente e charmoso. Passamos do sorriso ao diálogo e encontrei - me acompanhada de um espécime SOLTEIRO !
Uma chance em dezoito mil e eu fui encontrar o meu homem justamente em Bebedouro! A cidade realmente foi generosa comigo, reservando especialmente para mim um simpático e disponível bebedourense!
Era bom demais para ser verdade!
Você já adivinhou a verdade ?
Aposto que não.
Ele também é carioca.

conto - Um punhado de sal

Durante meses o homem sujo entrava no bar e pedia um punhado de sal, com olhar feroz e urgência na voz.
O dono do bar, vivido, escolado, dava o sal sem discussão e o estranho homem partia, trôpego.
Um belo dia entra o sujeito, mas limpo, cheiroso, bem vestido, e, educadamente, pede um café.
A manhã ia a meio, o bar estava vazio. O português não conteve sua curiosidade:
O amigo me perdoe, mas hoje não quer sal, não?
Não carece mais, não.
O amigo me perdoe mais uma vez... é que estou curioso, sabe? O que é que o senhor fazia com uma pitada de sal?
O outro tomou o café devagar. Depois de um longo silêncio, contou sua estória:
‘ De certa forma o senhor já foi parte da estória, então pode saber o resto, não é?
Eu era viciado em cocaína. Tinha uma filhinha, uma mulher amorosa, um emprego. Aí perdi o emprego, discuti com a mulher e caí em uma vida inútil, só festas de embalos, noitadas, estas coisas, até que um dia...
Cheguei em casa e encontrei um bilhete. Minha filhinha tinha sido atropelada e estava no hospital. Saí feito um doido. Cheguei lá e a menina estava na UTI, morre não morre. Só me deixavam olhar pelo vidro, e sabe o que pensei? Pensei: minha filha morrendo e eu me drogando. Senti-me um verme.
Fui para a capela do hospital e me agarrei com tudo quanto era santo: São Expedito, São Judas Tadeu, Santa Rita, Nossa Senhora... Pedi a Deus que me desse a chance de ser um pai para minha filha. Tudo o que eu queria era uma oportunidade de amar aquela garotinha do jeito que ela merecia.
A menina se salvou. Voltou para casa. E eu, doido por uma branquinha.
Então botei um pouco de sal no dedo e falei para mim mesmo: pó por pó... um homem pode lá ser mais fraco que um pozinho branco? Então saí de casa com o sal na mão, rezando sem parar para todos os santos do Paraíso me ajudarem a deixar o vício.
Saía de casa, tremia, suava, passava mal o tempo todo. Depois voltava, olhava a filha e dizia para a mulher que ia procurar emprego. Andava o dia todo pelas ruas e quando pintava a vontade, eu entrava nos bares, pedia um punhado de sal, ia olhando e pensando: Deus há de me dar forças...
Olha, seu moço, passei uns meses de cão, mas fiquei limpo. Arrumei emprego, voltei para a igreja, virei um homem novo. Jogo bola com minha filha, levo ela na praia, conto estórias, ajudo a mãe dela em casa, sou gente.
Um sábado, bateram palmas no portão. Era um dos falsos amigos, um malandro safado, me convidando para uma roda de pó, que ele tinha uma porção da boa.
Saí com ele na hora. Nem fechei a porta de casa. Na esquina lembrei-me da cena no hospital, a menina quase morrendo. Parei. Bati no ombro do sujeito e expliquei: ‘Isto é para você. Para mim não serve, não. A vida que eu quero é outra.’
Voltei para casa. Na sala minha mulher estava ajoelhada, chorando e rezando em voz alta, pedindo por mim. Fiquei tão comovido que me ajoelhei também e nós dois choramos, abraçados.
Eu fico emocionado só de me alembrar...
E foi assim que eu me recuperei, sem médico, sem remédio, sem coisa nenhuma, só com a fé em Deus e a ajuda de um punhado de sal.

minicontos

DEPOIMENTO DE UMA SEM-TERRA

Ah! Gostaria de viver como Tolstoi: “...e o conde retirou-se para suas terras, onde isolou-se por tres anos a fim de escrever um livro...”
Invejo todos os tt de Tolstoi: Tempo. Talento. Tenacidade.



EFEITO COLATERAL

Na consulta, chega o momento de verificar a pressão. Alguns mostram o punho cerrado. Outros elevam os braços rígidos. E há os que estendam ambas as mãos, tensos.
Com este modo de vida, quem precisa culpar o colesterol?

ILUSÃO DE ÓPTICA

Por anos a fio, divertira-se a desdenhar dos homens. A princípio sentia-se protegida com esta atitude, depois a solidão começou a incomodar. Com o tempo, quis deixar este modo de vida e percebeu que se tornara invisível.


DESPEDIDA

Nos labirintos da memória, criou para si uma realidade virtual e perdeu-se em seus pensamentos.


HACKER

Passa para a fase seguinte quem descobrir se Deus criou o homem ou se o Homem criou deus. O próximo desafio é revelar quem inventou este jogo.

LEITOR DE BOLSO

Gostava de ler na rede. Perdeu a casa. No prédio, apreciava ler na varanda. Perdeu a varanda. Agora, no apartamento de fundos sem paisagem, desfez-se dos livros e passa o tempo dormindo – sonhando que está lendo na rede.

ARIADNE


E foi tecendo que, ternamente entretida, nem percebi o quanto me envolvera neste enovelado viver. Preciso encontrar a ponta deste fio, que me levará à saída deste labirinto, onde Teseu – assim o espera – me aguarda, ainda.

TÃO HUMANO...

O conhecido psiquiatra, que escreveu belíssimos livros sobre histórias de fadas, suicidou-se no hospício, para onde fôra levado após as denúncias de maus-tratos infantis.
Os pais das vítimas, apavorados, beneficiaram-se com a leitura dos livros dele. Ele recomendava, sobretudo, a coerência entre discurso e ação.

crônica - Travessuras da Inspiração

- Para quando? Qual o assunto? É para comemorar alguma data especial?
Pois não é que aquela mercenária fazia versos por encomenda? Eu me indignava. Literatura não é culinária!
Cada artista, contudo, cria lá a seu jeito e gosto, e poetas são criaturas estranhas de hábitos bizarros, apesar de irem à praia e ao supermercado como toda a gente. Bem... quase como toda gente.
Aquele cidadão que suspira extasiado ante as frutas empilhadas, que fala de ‘figos solenes’, ‘sabor de avó’ e em ‘amoras comidas com sol’, já se sabe – é um poeta.
Que dizer da amiga que se inspira quando se molha? Larga a louça por lavar, sai do chuveiro pingando pela casa e esbarra conosco na rua a correr debaixo de tempestade, e, quando, solícitos, lhe estendemos o guarda-chuva, ela nos surpreende:
- Caneta e papel, urgente!
Eu pertenço `a família dos que são acordados à noite pela idéia:
- Psiu, estou aqui!
Estendo a mão, acendo o abajur e anoto rápida as frases boêmias no bloco que tenho sempre à mão, preparada para estas investidas noturnas.
Há quem se inspire ao ouvir o som do mar, talvez por isso Santos seja berço de tantos poetas.
Bom, leitor, de hoje em diante, quando você vir uma distinta senhora a escrever na areia, ou alguém o abordar à mesa do bar com o pedido insólito de ‘um guardanapo, rápido, por favor’ ou, na fila do banco, alguém a escrever furiosamente na capa do talão de cheques, sorria – você encontrou um poeta.

conto - Traição

Inocente de tudo, sem nunca antes ter amado alguém, apaixonei-me por um homem casado. Creio que seria inevitável. Aí estava a mão do destino.
A mulher dele era uma megera - autoritária, prepotente, sempre insatisfeita, a reclamar de tudo, a exigir o sangue daquele marido infeliz.
O medo de ser descoberta impedia-me de rir, de brincar, por vezes até de respirar. A situação tornara-se de tal forma intolerável que resolvi esclarecer de vez a questão e propus-lhe a fuga, em uma carta apaixonada.
Que ele deixasse aquela bruxa horrível que lhe atormentava a existência, que viesse comigo, que se dedicasse só a mim, e por aí afora eu prosseguia declarando o meu amor nos termos mais românticos.
À noite, ao despedir-me dele, coloquei a carta no bolso de dentro de seu paletó; ele prometeu que a leria mais tarde, que eu esperasse pela resposta na manhã seguinte.
Mal dormi, tanta era a expectativa.
Quando o vi, na manhã seguinte, ela estava ao lado dele. Assim que me aproximei, ele pôs-se a rir, repetindo para ela trechos da minha carta.
Meu coração culpado congelou de pavor.
A decepção, a dor, a confusão...como descreverei o meu espanto? Pois ele então não me amava?
Em meio às lágrimas, eu via os pedacinhos da carta caírem ao chão, à medida que minha rival a rasgava devagarinho, com um sorriso perverso.
Apagava-se o meu sol, a minha vida perdia a razão de ser, e ele... ria!
Inacreditável!
Indiferente a meus sentimentos, ele deixou a sala e saiu definitivamente do cenário.
E fiquei exposta, desamparada, vítima de uma tragédia tão antiga quanto banal.
E até hoje não compreendo como ele pôde abandonar-me assim, indefesa, ao capricho da vingança de minha mãe!

conto - Terapia breve

João, jardineiro da psiquiatra Teresa, precisava de um tratamento para sua esposa, um que funcionasse rápido. Ele, então, perguntou para a patroa:
Esse tratamento aí da senhora é rápido mesmo, é? Se for, a doutora vai tratar da minha esposa.
Uai – Teresa era mineira – você não se casou a semana passada, João?
Pois é, e até agora, nada, que a mulher é muito envergonhada. Só deixa beijar na boca.
Ora, nas mãos da Dra. Teresa, a terapia breve era um sucesso total. Funcionava até nos descontentes, como acontecera no caso da Dra. Ana.
A terapia começava com uma indução hipnótica para colocar os corpos em estado de relaxamento e tornar as mentes mais receptivas.
Na primeira sessão, Teresa coletava dados , no intuito de fazer o paciente perder o medo desta tal de hipnose, introduzia a técnica através de um exercício básico de imaginação em que o azul do céu sobre o mar azul, o vaivém das ondas azuis relasadamente iam re la xan dooooooo (a cidade ficava à beira mar por isso este exercício era bem entendido e aceito pelas pessoas, algumas das quais eté dormiam e todas, sem exceção, perdiam o medo desta tal de hipnose – então é só isso? Esta sensação pra lá de gostosa?)
A terapia propriamente dita acontecia na segunda e terceira sessões, na maioria das vezes através de uma historia que a psiquiatra criava sob encomenda para o paciente.
O caso da Dra. Ana foi ao mesmo tempo divertido e embaraçoso para Teresa, pois ambas trabalhavam na mesma clínica e Ana saiu do consultório da colega aos gritos:
Que palhaçada! Eu perdendo tempo para ouvir historias sobre lagartas gordas gulosas com inveja de borboletas vermelhas a valsar no jardim! Francamente! Que terapia ridícula!
Ora, em uma semana, Ana emagreceu quaro quilos e invadiu o consultório de Teresa vestida de vermelho:
Quer saber? Não sei o que você fez comigo, mas eu tive de comprar este vestido vermelho, e toda vez que olho para o meu prato vejo lagartas gordas. Hoje fiz matricula em um curso de dança porque estou doida de vontade de dançar. Pronto! Emagreci e estou de vestido vermelho. Você está contente, agora?
Bem, eu ficarei contente quando você parar de dizer por aí que eu sou uma fraude.
A Dra. Teresa é um sucesso! – gritou a colega para fora da sala, o que fez clientes e funcionários rirem.
Bom, o caso é que Teresa falou ao jardineiro para trazer a esposa, marcou a primeira sessão para o dia seguinte, quando explicou em palavras simples o que esperar da técnica, e arrematou com a sugestão de que com jeitinho e com carinho tudo se resolve em um casamento, o que deixou a Mariazinha risonha e o Joãozinho de cenho franzido.
Ao final da primeira consulta, o João perguntou:
E aí, doutora, quanto tempo vai demorar para a gente conseguir começar este casamento?
Bem rápido, aí umas duas ou três semanas.
No dia seguinte, apesar de João assobiar alegremente durante o trabalho, Maria não veio para a sessão.
Cadê a Maria, João?
Ah, doutora, não leve a mal, não, é que esta tal de terapia breve estava muito da demorada. Eu ontem dei dois tabefes bem dados na cara da Maria, falei ou faz o que eu mando ou apanha, e resolvi meu problema.

conto - Tempo quente no ônibus

Sol a pino, uma temperatura de fritar ovos em pedras.
Felicidade naquele momento seria uma ducha fria, uma salada, um suco gelado e uma rede à sombra.
Entrar no ônibus com bom humor era encara-lo como uma sauna finlandesa gratuita sem o aroma de eucalipto.
Sonolenta, ouço uma voz do outro lado do corredor:
- Tira a sacola daí que eu quero sentar.
E de repente estoura o bate-boca.
-Sai da frente.
-Sai da frente você.
-Me deixa entrar.
-Me deixa sair.
-Sai logo que eu quero sentar.
-Não me empurra, sua mal educada.
-Mal educada? Eu? Estou tentando me levantar para lhe dar passagem e você aí, grossa, atravancando o corredor. Ora, já se viu...
A que estava em pé, sem mais cerimônia, agarra a sentada pelos cabelos e a joga para fora do banco:
- Sai logo, sua gorda estúpida.
- Nega da peste!
- Branca azeda.
O cobrador fez um gesto de aparte que ficou na intenção. Os passageiros, apáticos, remexeram-se constrangidos.
Futilidade, infantilidade, raiva reprimida? As duas loucas poderiam ser parentes ou até amigas, quem sabe?
A branca gorda levantou do chão, catou os embrulhos e sentou no banco à frente, justificando:
- Você é mesmo louca! Se eu sentar aí do seu lado, você é capaz de me bater são porque eu cedi o lugar...
- Não fez mais que a obrigação, que sua sacola não pagou passagem.
- Me diz uma coisa: tem lugar aqui na frente, mas você fez questão do MEU lugar. Por que? Porque o homem da frente é preto? É isso aí, gente, a louca não quer sentar ao lado do preto. E olha que ela também é preta.
O tal homem olhou pela janela, como se nem percebesse que a coisa era com ele.
Entre as duas, á medida que o ônibus arrancava, recomeçou o joguinho de ofensas:
-Preta ignorante.
-Branca ignorante.
-Preta da peste.
-Branca da peste.
A branca pediu à moça à minha frente que trocassem de lugar:
-To com medo, essa fera me bate de novo.
Trocaram de lugar. O ônibus partiu. A mulher negra olhava firme à frente. A branca, curvada, os olhos esbugalhados, pôs-se a gritar:
- A princesa Isabel errou aso libertar esta gente. Devia tudo de estar trabalhando no cabo da enxada.
Aí os outros passageiros se agitaram. Aliás, metade do ônibus era negro retinto ou mulato.
- Dona, isto é preconceito.
-É crime, dá cadeia.
-Ei, nada a ver! Discriminação racial1
-Não mistura estação!
-Credo, que pecado! E se a senhora morre e descobre que Deus é preto, como é que fica?
A gorda não se deu por achado:
-Preta da peste. Preta da peste. Preta da peste. Preta da peste.
De repente a preta salta, ágil, e toca a unhar a cara da outra, que grita:
-Socorro, gente, a mulher ta me atacando! – e prontamente arranca e quebra os óculos da inimiga.
O cobrador pula do seu acento. Um homem forte corre do fundão em seu auxílio. Juntos afastam as mulheres, que se cospem e se chutam.
Alguém grita:
-É caso de polícia!
O motorista pára o ônibus e saca do celular. Com o veículo parado, o ambiente fica inda mais abafado. Os passageiros começam a brigar com as bagunceiras:
-Viu o que aconteceu? Resolveu alguma coisa?
-Que feio! Gente adulta devia dar o exemplo aos jovens daqui.
As duas choravam. A preta dizia ter pago caro pelos óculos. A branca estava com medo da polícia. E se fosse presa?
-Medo? A senhora devia de ter pensado nas conseqüências antes de ofender a raça da outra.
E o zum-zum-zum:
-Tenho de bater ponto.
-Vou perder o almoço.
Motorista, abre que eu continuo a pé daqui.
Os ânimos ferviam, o ônibus parado em pleno sol. Mãos fortes impediam as duas encrenqueiras de fugir ou continuar a briga.
O motorista abriu as portas para dar entrada a dois policiais que subiram a bordo, resignados. Lentamente e em silêncio anotaram os depoimentos com ar de tédio.
Os passageiros queriam saber se o ônibus iria seguir viagem ou se teriam de pagar por outra passagem.
Foi o guarda quem esclareceu:
-O veículo fica detido.
O cobrador acenou que passaria quem quisesse para o primeiro carro, sem novas despesas.
No corredor do outro veículo, amassados, em pé, começamos a conversar:
-Quando começou o barraco, pensei que aquelas duas estivessem brincando.
-Que nada! Eu estava no ponto, atrás delas, elas já vinham brigando desde a fila.
- Vai ver que o juízo delas derreteu, que este calor está mesmo de cozinhar os miolos...

poesia - Tatiana

TATIANA


Desabrocha,
Qual caprichosa rosa,
Em uma morena formosa,
A pequena caprichosa
De outrora.

Nos estudos aplicada,
É um tantinho levada.
Gosta muito de bichinhos
E trata - os com carinho.

É esperta e diligente,
Amorosa e inteligente.
Gosta de boa comida
E de ajudar na cozinha.

A garota é refinada.
Em elegante ambiente
Entra, sofisticada,
Toda prosa e sorridente.

É minha boa filhinha
Alegria de sua mãezinha.

conto - O susto

- Mãos ao alto! É um assalto !
Manoel largou o molho de chaves no chão e rezou em silêncio : “ Jesus, deixe - me vivo”
Escutou então o riso bem conhecido de José.
- Primeiro de abril !
Manoel abria o bar às cinco da manhã; José, a banca de jornais. Trabalhavam na praça central da cidade, próximo ao porto. Zona perigosa, por onde não era incomum transitarem meliantes e arruaceiros.
Algumas madrugadas depois, Manoel abria a porta do bar quando um objeto duro e pontiagudo encostou em suas costelas e uma voz rouca sussurrou :
- Quieto !
Manoel começou a transpirar. No dia anterior, a pastelaria fora assaltada e de quebra, haviam levado a perua do chinês.
- O, Manoel, sou eu.
De novo o José.
Aquela brincadeira começou a tornar - se um hábito, substituindo o tradicional bom dia. Manoel chegava, José vinha por trás e o cutucava com o indicador :
- Passa a grana.
- Melô, irmão. Tô duro.
E cada um ia para o seu lado, tratar da vida.
Manoel, então, teve a idéia de, por sua vez, assustar o amigo. Matriculou - se em uma academias de judô e começou a treinar em segredo. Pensava : “Quero só ver a cara do José, quando eu o pegar de jeito”.
Passou - se um tempo e Manoel achou - se em condições de praticar na rua os golpes aprendidos na academia.
“ Esta semana o José vai - se haver comigo. ”.
E, em uma fria madrugada, dirigia - se Manoel para o bar quando sentiu um cutucão nas costas e ouviu um vozeirão que dizia :
- É um assalto.
Manoel agarrou o punho do outro por trás, agachou - se e fe - lo voar por sobre o ombro e estatelar -se de costas no chão. Satisfeito, pos- se a rir e exclamou :
- Te peguei, seu...
Emudeceu. À sua frente, um homenzarrão de aspecto feroz e revólver em punho, levantou - se e fugiu.

conto - Encurralado

Como pôde uma coisa dessas acontecer comigo ? Há cinco anos que eu procuro a resposta, em vão.
Como uma pessoa inteligente, bonita, de boa família, bem nascida e bem criada, amada pelos pais e pelos amigos, pode acabar assim ? E, contudo, eu não encontro saída.
Tenho 17 anos, a um passo do vestibular, toda uma vida útil pela frente, mas não enxergo uma solução.
Vou relatar minha tragédia pessoal. Viver é insuportável.
Tudo começou na noite em que o homem pisou na lua. Lembro - me nitidamente. Assistíamos à transmissão de TV no clube. Viviane estava a meu lado e ria. Tínhamos a mesma idade : doze anos. Seu riso e seu perfume envolveram - me, e, olhando seus lábios carnudos, pela primeira vez em minha vida, senti desejo.
Desejo de beijá - la, mas também aquela agonia desesperada nos genitais. Viviane era linda !
Naquelas férias, muitas vezes senti - me derreter ao aproximar - me de Viviane. Eu a via diariamente, conversávamos, ouvíamos música, íamos ao clube, à praia e ela não percebia meu drama. Afinal, ela era minha vizinha há anos. Amizade antiga. Eu não podia contar - lhe minhas emoções. Ela me tocava e eu sentia ímpetos de beijá - la, abraçá - la, acariciá - la. Tentava de todas as maneiras afastar esses pensamentos inadequados e ã noite, mordia o travesseiro com raiva e frustração.
Agradeci a Deus quando ela mudou - se para Curitiba, pois eu já não conseguia pensar em mais nada a não ser nela, no corpo dela, dia após dia.
Mas o meu martírio mal começara. Aquela sensação indescritível em meu corpo assaltava - me de novo ao ver as moças bonitas nas capas de revistas, na televisão, no cinema. Eu mal respirava, minha boca ficava seca, meu coração disparava, o sexo parecia explodir de inchaço. Ficar ao lado das garotas significava uma excitação contínua.
Bem que tentei estudar, jogar tênis, nadar, desenhar, ocupar - me de qualquer coisa diferente de garotas, mas minha mente atraiçoou - me. Comecei a sonhar. Mulheres nuas povoavam as minha noites, exibindo - se, atraentes e tentadoras. Sonhava com desconhecidas e também com Viviane e outras colegas. Certa madrugada, beijei em sonhos uma companheira de estudos e senti tal prazer que acordei aos gritos, o corpo banhado em suor.
A partir de então, eu sentia medo de dormir. Tornei - me triste, com grandes olheiras e uma sonolência crônica. Minha mãe levou - me ao médico, preocupada. Eu não contava o que me acontecia.
Procurei auxílio nas Escrituras, em vão. A Bíblia ignorava o meu problema.
Resolvi disfarçar, fingir alegria, agir como seria o normal, pensar em outras coisas, dedicar - me aos estudos, aos esportes e rezar. Rezava todas as noites, pedindo para não sentir o que sentia, para não sonhar o que sonhava, para não pensar o que pensava a respeito das mulheres.
Porque eu sou um homem. Infelizmente, eu sou um homem. Eu, Lúcia Helena, sou um homem.
Um dia decidi não namorar, não casar, ser um solitário. Ninguém morre por falta de sexo. Muitas pessoas tem feito votos de castidade pelos séculos afora e nunca ouvi falar de ninguém que houvesse morrido por falta de sexo. E ninguém precisaria saber nunca de minhas inclinações e preferências. Por isso passei os últimos tempos mais tranqüilo, após tomar esta decisão, a única possível. Pois eu não quero ser estigmatizado, rejeitado,apontado com o dedo como a homossexual, a lésbica. Sou um homem em corpo de mulher, o que é bem diferente.
Tanta coisa que li, de Freud a Martha Suplicy, à procura de uma luz, sem coragem de abrir - me com ninguém.
Certa tarde resolvi ir a um psiquiatra ao sair da escola. Eu economizara algum dinheiro e caminhei de cabeça baixa em direção ao consultório. Minhas pernas começaram a doer e eu parei de andar. Descobri - me agarrado aos livros como um náufrago em busca de salvação. A cãibra nas pernas quase me derrubava. Que é que eu defendia com tanto empenho eu nunca soube, pois jamais entrei no consultório do psiquiatra para marcar a consulta.
Conversei muito com uma professora, também psicóloga, sobre homossexualismo. Ela também não tem respostas. Eu seguramente não tenho problemas físicos ou endócrinos, não sofri nenhum trauma de fixação ou de regressão, eu deveria ser normal. Algumas vezes, disse um dia a professora, a solução é mesmo assumir e agüentar a barra. Olhei para ela, atônita. Que futuro pode ter um homossexual ? Sem dúvida, meus pais não ficarão satisfeitos em apresentar aos amigos a namorada da filha. Eu jamais pensaria em magoar meus pais, nem em abandoná - los. E eu queria, sim, um lar e filhos. Como eu queria sentir - me mulher ! Mas nunca pude tolerar o toque de outro homem.
Sou bonita, e como finjo - me normal, tenho meus admiradores. Tentei namorar. Namorei um grande amigo, simpático, um grande sujeito, mas nada mais do que isso, e quase vomitei quando forcei - me a deixar - me beijar por ele.
Desisti. Homens, só amizade. Nenhum homem dispara meus instintos. Já as mulheres, é um terror. Toda a química corporal grita alucinada de paixão à simples idéias de uma mulher bonita.
E então, ontem, estava eu tão desprotegido, tão confiante em meu rígido auto - controle e aconteceu um fato inesperado.
Eu estudava para a prova de química na casa de Rosana. Fizemos uma pausa para descansar e Rosana disse que tinha um segredo a revelar, que ela estava apaixonada. Ela inclinou - se para sussurrar o nome em meu ouvido, apoiando as mãos em meus ombros. Ela virou o rosto no último momento e beijou - me a boca.
O prazer que senti suplanta de longe todos os meus pesadelos. Ela beijou - me outra vez e outra e outra e deixei - me ficar, imóvel, desprotegido, em pânico, apavorado ante meu corpo que respondia com paixão às carícias dela.
Rosana é linda, cheirosa, macia. Meu corpo está descontrolado, em fogo. Não serei capaz de resistir por mais tempo à minha natureza. Se resisti por tantos anos, foi por não ter conhecido o prazer.
Não suportarei viver como homossexual confessa.
Não suportarei viver amando às escondidas, presa de paixões inconfessáveis.
Não suportarei magoar meus pais.
Não suportarei olhar meus amigos nos olhos.
Não suportarei - e este é o motivo principal - olhar para mim mesmo.

SONETO DA TERCEIRA IDADE

Indo à praia bem cedinho,
Uma multidão de velhinhos
Caminha com disposição
E a sorrir, a saudação :


Bom dia! Bom dia ! Bom dia !
Repete em coro animado
De um jeito bem humorado
Transmitindo muita alegria.


Como é bom viver em Santos !
Pois, em meio a outros tantos,
Vive bem o aposentado,


Leva uma vida saudável.
Entre esta gente amável,
Sempre encontra um amigo ao lado.

conto - No templo de Esculápio

“ Eu subia penosamente, agarrando - me às saliências dos penhascos ,e o mar revolto chicoteava impiedosamente minhas costas, altas ondas me cobriam por instantes e eu prosseguia, pedra por pedra, a difícil escalada.
Eu estava nua, trêmula de frio, exausta, quando avistei a entrada da gruta e arrastei - me para dentro, aninhei - me num nicho da rocha e encolhi - me, observando a cavidade alongada e tortuosa acima de mim. A única entrada era o orifício por onde eu penetrara e que lentamente desapareceu.

Eu descansava.
Abençoada escuridão.
Abençoado silencio.”

Quando relatei este sonho para minha terapeuta atual, ela reagiu com a sensibilidade habitual de um camelo : rabiscou algumas linhas em um pedaço de papel ( tenho quase certeza de que se tratava da lista de compras da semana ) e falou :
- Vou ajudá - la a levantar - se, agora levante os braços, respire fundo e coloque essas bolas debaixo dos calcanhares. Procure pular com um pé de cada vez.
- Este sonho foi importante. Eu quero falar sobre ele.
- O mais importante agora é terminar nossa seqüência corporal. Na próxima semana você me fala sobre o sonho, se ainda quiser.
- Por que você não me leva a sério ?
- Veja só : você acha que eu estou desconsiderando você.
- Você está me desconsiderando.
- Você está projetando em mim uma carga de agressividade, percebe ?
- Meu sonho é mais importante que esses exercícios idiotas.
- Você agora rejeita a terapia.
- Esta palhaçada ? Que excelente idéia !
E retirei - me da sala.
Das minhas quatro terapeutas, esta era a mais incompetente. Um psicanalista, uma terapeuta reichiana, um analista de sonhos junguiano e finalmente aquela T.O. * ( como ela mesma se intitulava). Eu estava farta, percebia agora que estava usando o meu salário para alimentar aqueles fomentadores de neuroses.
Lá fora um sol magnífico, canto de pássaros e a brisa do outono.
Comprei um pão doce para o lanche. Há muito tempo eu não comia pão doce, um regalo de criança. Minha mãe costumava trazer para casa tipos variados : passas, coco, creme, goiabada. Eu gostava de saborear o pão com uma xícara de café com leite, e foi o que fiz, suspirando de prazer e catando as migalhas sobre o prato.
Esfriou à noite e preparei para o jantar uma sopa cremosa de palmito. A cozinha ficou cheirosa como a cozinha de minha infância e igualmente acolhedora.
À noite, após um banho morno e relaxante, prendi as pontas dos lençóis sob o colchão para que o frio não penetrasse pelas frestas. Senti - me como em menina, ao instalar - me nos acampamentos com minha família, nos sacos de dormir.
Tão agradável o tempo frio, com os coloridos gorros, cachecóis e casacos... naquele instante mesmo meus pés estavam bem aquecidos em sapatos de lã para dormir, com que mamãe me presenteava.
A partir deste dia eu surpreendia - me com lembranças de um tempo há muito esquecido - um passado amoroso, belo e feliz
Começara a reviver este bom passado depois do sonho da gruta. E enxergava com bom humor aspectos inusitados da vida. Mil idéias criativas tornavam meus dias interessantes.
Depois do sonho, fora - se o tédio.
Matriculei - me em uma academia de ginástica e recomecei um curso de pintura, interrompido na época do vestibular.
Certa tarde fui visitar maus pais e enveredei pelo jardim florido, exalando profundamente o perfume dos lírios, redescobrindo o mundo maravilhoso que estava bem ali a meu alcance, tão diferente do outro mundo de antes do sonho - um casulo espesso e cinzento que agora se esgarçava, permitindo a entrada de luz.
Lá estava também Dona Julieta, a vizinha, com seu olhar arguto de fofoqueira profissional, tendo sempre uma réplica rápida na ponta da língua. Tricotava ao lado de minha mãe, conversando as trivialidades de sempre.
Mamãe foi buscar uns sequilhos de araruta e chá para servir - nos. Foi só pegar -se a sós comigo e Dona Julieta disparou :
- Você está grávida !
Ri - me por dentro de tal afirmação absurda , mas sem amargura pelo celibato forçado de minha triste vida solitária que eu tentava resolver nas terapias.
A outra, a de antes do sonho, não refrearia uma resposta azeda de solteirona mal amada . Eu, ao invés, achei engraçado o jeito cúmplice com que a velhinha maliciosa segredou - me ao ouvido :
- Só conheço uma coisa capaz de fazer brilhar assim os olhos de uma mulher : uma nova vida.
Sorri. Uma nova vida... depois do sonho.

conto - A sombra

Cristina leu rapidamente as questões da prova, satisfeita, pois conhecia a fundo a matéria de maior peso naquele vestibular.
Primeiramente ela leu atentamente cada pergunta e marcou discretamente, com uma marquinha apenas perceptível, a resposta certa, deixando em branco as dúvidas.
Depois, refletiu sobre as poucas questões em aberto, eliminando as respostas obviamente erradas e estudando as outras opções, puxando pela memória.
Finalmente, ela releu a prova, conferiu tudo direitinho, um olho no relógio para controlar o tempo disponível, e com a caneta começou a circular as letras definitivas no cartão de respostas.
Então, aconteceu.
Circulava uma letra imediatamente antes ou após a resposta correta, de modo que o gabarito não continha sequer uma resposta exata. Garantindo assim a derrota, ela levantou-se, entregou a folha ao fiscal e retirou-se como um autômato.
Anos de estudo e de esforço, tudo o que mais prezava e desejava, jogado fora.
Um sentimento de júbilo cantava em seu íntimo, embora em seu olhar só houvesse perplexidade e consternação.
Pensou em raspar os cabelos, deixando uma mecha estreita no alto da cabeça, tingida de rosa. Imaginou-se num palco, três brincos em cada orelha, em roupas de couro, tocando guitarra.
E como passasse em frente a um salão de beleza, suou frio para resistir ao impulso de entrar e já, já, ficar careca.
Em casa não encontrou coragem para contar o que ocorrera no exame. Seu noivo apareceu, confiante em sua vitória, trazendo uns discos que ela tencionava gravar. Para espanto do rapaz, porém, ela escolheu o disco mais barulhento do irmão mais moço:
-Hoje prefiro agitar.
E quando ele a abraçou, ela foi ríspida, grosseira e vulgar:
-Vocês, homens, só pensam naquilo.
O olhar magoado do rapaz comoveu-a. Ele era tímido, afetuoso, e ela o repelia injustamente.
-Nelson, compreenda, esta tensão toda, este vestibular...
-Está certo, descanse, eu volto outra hora.
Na mesma tarde, duas colegas vieram visitá-la e comentaram suas incertezas, suas incertezas, suas impressões de que não haviam ido lá tão bem, e Cristina surpreendeu-se a destilar veneno: “burrinhas, está na cara que vocês não vão passar”, “ora, o Q.I. de vocês é tão baixo, sua única chance é arrumar Quem Indique”, com risinhos de mofa.
-E eu só dei aquelas aulas de inglês para vocês para treinar o método de ensino que vou usar em umas aulas que consegui na Cultura Inglesa. É o meu primeiro emprego e era meu interesse dar aulas para vocês. Não pensem que foi por amizade, não, suas tontas.
Após a inevitável ruptura, aquela oculta sensação de intenso júbilo retornou.
Horrorizada, Cristina trancou-se em seu quarto. No espelho, um rosto que tinha as suas feições enfrentou-a com um olhar zombeteiro e um sorriso mau.
Dali a dez dias haveria outro vestibular, outra faculdade a tentar. Bastava esquecer o fracasso da primeira tentativa e concentrar-se.
Nos próximos dias o mau humor de Cristina aumentou. Sua vida como que escureceu. Quebrara-se a sintonia, algo sutil mudara a realidade. Nada mais era como antes. As coisas não eram o que pareciam. Da sua perspectiva, era como se o mundo houvesse girado um grau, apenas um grau e todas as coisas houvessem mudado um pouquinho. Algumas pessoas afastavam-se dela, outras claramente a evitavam e pior que isso, coisas estranhas começaram a acontecer. Desconhecidos a abordavam na rua e ela, cuja força de vontade sempre a mantivera no assim apregoado bom caminho, deixava-se ficar a ouvir aquela conversa de desocupados, a fantasiar em como seria andar descalça na praia sob o céu noturno, a curtir um baseado.
Bem cedo, na manhã do segundo vestibular, que seria em São Paulo, Cristina despediu-se dos pais e partiu. Sentia-se tinindo de saber, uma verdadeira enciclopédia. Revisara seus apontamentos na véspera, e desta vez, é claro que ela iria preencher o gabarito com as respostas certas. Seu futuro estava em jogo e ela não admitiria nenhum contratempo.
Com esta firme convicção, ela começou a subida da Via Anchieta. A estrada estava livre, o tempo bem claro e o carro revisado para garantir uma viagem sem incidentes.
Nas tortuosas curvas da serra, uma, a mais perigosa, beirava um abismo. Ao adentrá-la, as mãos de Cristina não fizeram o necessário desvio na direção. Seu pé direito pisou fundo no acelerador e ela penetrou na paisagem, rumo ao infinito.

crônica - Tchibum!

Quando ele disse que estava se especializando em técnicas de mergulho, eu pensei que ele estava fazendo algum curso de pesca submarina.
No domingo , ele me convidou para ir à praia, bem cedo, para aproveitar a melhor hora da manhã e lá fui eu.
Chegamos e ele começou a falar da energia do sol e da importância de respirar corretamente. E lá me vi eu a inspirar, expirar, tonta com tanto exercício respiratório.
Está certo, quem mergulha deve cuidar muito bem da saúde dos pulmões. A seguir, uma série de exercícios. Leves. Lentos. Com muita concentração. De olhos fechados. Aos poucos foi ficando complicado, até que me vi plantando bananeira. Pois é, plantando bananeira! Foi incrível !
Aí nós nos deitamos e ficamos lá no bem bom, lagarteando, relaxando... afrouxando pele, músculos e nervos... mentalizando saúde para todos os órgãos... soltando - se... abandonando - se .... em harmonia com o cosmos... sentindo a paz, a alegria, a integração com o universo...
Quase adormeci. Sentia - me a sonhar quando ele me trouxe de volta à realidade, fez - me massagear o rosto e o corpo, e aí explicou - me como meditar.
Meditar ? Achei que era exagero. Exercícios físicos e respiratórios, vá lá. Bem, mas quem mergulha, pensei, precisa se concentrar quando está lá no fundo, saber manter a calma se aparece, sei lá, um tubarão ou um polvo.
E lá me encontro eu, de pernas cruzadas, imóvel, com a mão virada não me lembro mais de que jeito, a fixar um ponto brilhante no meio da testa, a esvaziar o cérebro de todos os pensamentos, como se isso fosse possível, como se a função do cérebro não fosse pensar, como se a atividade elétrica do córtex pudesse parar, mas , enfim, o gato valia qualquer sacrifício e eu me mantive firme, apesar das cãibras, do sono, da ...
- Respire fundo e retorne.
Retornar ? Onde é que eu estava ? Impressionante! Eu “apagara”! Sentira uma sensação maravilhosa, a flutuar , lúcida, ciente das verdades eternas que me escapavam no cotidiano banal. Que agradável !
Bem, agora, toca a buscar o equipamento no porta - malas do carro e....splacht! Lagostas e cavalos - marinhos.... lá vamos nós!
- Gostou do mergulho ?
- Vou adorar! Você trouxe aquelas máscaras que deixam a gente enxergar bem legal ou vamos mesmo de óculos de natação ?
`- Mas do que é que você está falando ?
- Do mergulho, ora.
- Nós já mergulhamos, flor.
Então ele me explicou. Estava fazendo yoga.

crônica - Síndrome do pânico

É o que sente o náufrago vendo passar ao largo o navio enquanto em suas carnes se encravam os dentes do tubarão.
É assim com ser torturado pela Tribunal da Inquisição.
É quando procuras por teu anjo da guarda e te deparas com os guardiões do Umbral.
É o que faz um não cristão entrar em uma igreja e apelar para Santa Rita dos Impossíveis.
Tu te sentes como um cristal estraçalhado e ouves à tua volta: “és forte; agüentas”.
Tu és um sobrevivente e sofres como um índio aprisionado, um guerreiro ferido, um cavalheiro desonrado.
Deixa de lado todo aquele jargão psiquiátrico que não consola a tua dor profunda.
Vivemos em uma sociedade bárbara, em que atingem o poder e o sucesso aqueles que usam sem escrúpulos da maior violência.
Sossega, nada há de errado contigo.
Se não és um alienado, como não entrar em pânico?

crônica - Rejeição

Mamãe vive com o pensamento nas nuvens. Está sempre olhando para qualquer coisa longe. Ela não gosta de ocupar - se comigo.
Ela diz umas coisas engraçadas. Outro dia eu peguei uma banana machucada e ela mandou - me levar a banana para o hospital. E quando Margarida perguntou se tinha café preto ela respondeu que só tinha café azul. Então a Margarida pediu café azul e o engraçado é que a Laís, que não conhece minha mãe, queria porque queria tomar café azul e aí minha mãe teve que explicar para a Laís que aqui em casa é assim : quem faz pergunta boba recebe resposta idiota.
A minha mãe não gosta de crianças. Um nenê é tão engraçadinho, risonho, macio, tão bom de brincar, mas as mulheres que tem nenês não gostam deles. As amigas de minha mãe falam coisas tão doidas, mulher que é mãe não sabe a encrenca em que se mete, mulher que quer ter filho tem que pagar por isso, criança acaba com a carreira da mãe, criança invade todo o espaço.
Como é que um nenê pode invadir todo o espaço se é tão pequeno e nem anda ? Mas elas todas, quando pegam os filhos, é sempre com aquele ar de tristeza, minha mãe mais que todas ( ou as outras, quando estão sozinhas, também são como minha mãe, olhando para longe ? )
Minha mãe chorava muito, chorava tão alto e gritava e então eu chorava e gritava bem alto para ela parar.A minha mãe trancava a nenê no quarto e empurrava - me para a cozinha. E às vezes minha mãe também chorava.
O que é que a gente faz quando a mãe da gente chora ?
Eu queria que ela me pegasse no colo, ela não nos pega. Ela não gosta de pegar criança e diz para a gente ir se acostumando porque a vida é assim mesmo, é um desejo de ser pega no colo e ninguém para pegar a gente no colo. E a vida ainda pisa na cara da gente.
É muito triste, a minha mãe. Ela chora muito e eu às vezes penso que é por causa da gente.
A minha mãe diz que ela gosta muito da gente, mas gostaria mais se a gente fosse filha do vizinho e não empatasse tanto a vida dela.
Quer ver a minha mãe ficar doidinha é falar “compra ”. Ela fica tão zangada ! Ela diz que nós somos pobres e pobre não sai por aí comprando.
É verdade que em casa minha mãe faz de tudo_ sorvete, pastel, pipoca e cachorro quente. Mas na rua é mais gostoso.
Minha mãe não leva mais a gente junto ao supermercado. Acho que é por causa dos chocolates e iogurtes, a gente não vendo, não pede. E ela compra só de vez em quando.
Ela deixa a gente dormir na cama dela, à noite, mas não conta mais historinhas. Ela diz que contou historinhas durante tanto tempo , agora chega. Esgotou -se o estoque de historinhas. Eu acho que o estoque de beijos e abraços está acabando, também.
E a mamãe está muito triste e não brinca mais comigo. Não liga a mínima para a lição da escola, eu faço tudo bem bonito e a tia da escola me beija e dá estrelinhas, mas a minha mãe, ela diz que estudo não leva ninguém a lugar nenhum.
Estudar para que ? _ ela fala.
Eu não entendo, pois ela vive de livro na mão.
Eu gosto muito de minha mãe, às vezes ela me ouve, às vezes ela não me ouve. Ela briga muito comigo e fica com aquele olhar esquisito.
Só vejo minha mãe contente quando ela diz que vai “sair”e não me leva, ela se arruma toda e fica feliz, mas quando ela sai comigo é sempre com aquele ar de tristeza, reclamando que a gente atrapalha.
Não sei porque a minha mãe não gosta de mim. Eu até acho que ela gosta. Eu não entendo.
É como a minha mãe diz , ela gostaria mais se a gente fosse filha do vizinho.
A minha mãe diz que não ve a hora de a gente crescer e ir embora.
O meu pai não quer a gente. A minha mãe pediu para ele criar a gente ( ele casou de novo ) mas ele não quer.
Ou é a mulher dele que não quer ? Na casa de meu pai, é legal. Mas é só de fim de semana.
Eu queria que a minha mãe me olhasse. Que não ficasse com aquele olhar perdido nas nuvens. Que não ficasse triste. Que não chorasse.
Eu queria tanto que a minha mãe gostasse de mim !
Como é que a gente faz para a mãe gostar da gente ?
Eu queria tanto, tanto, um pouquinho só de amor !

conto - Rotina

Quando o yoga, cuja prática ele iniciara a conselho médico, ‘detonou’ suas dores, provocando sérios transtornos em sua doença, que, muito avexada, não encontrou outro remédio a não ser retirar-se de seu corpo, ele passou a interessar-se por tudo o que aparecia sobre o Oriente: tai-chi, I Ching, do-in, taoísmo, hinduísmo e até mesmo culinária.
Achou o taoísmo muito sensato, o hinduísmo uma coleção de belas histórias mitológicas, o budismo científico e de uma profundidade psicológica inesperada. Ele, que já havia lido algo de Jung, ponderou que o psiquiatra exagerara ao recomendar cautela nas incursões dos curiosos às culturas orientais, sob risco de inesperado colapso psíquico. O pensamento do Oriente, dizia Jung, devia primeiramente ser adaptado por conhecedores das duas culturas ao modo de vida do Ocidente. Sem dúvida, um exagero!, decidiu nosso personagem. Entusiasmado, continuou com suas leituras avidamente. Foi quando encontrou o Zen japonês.
Através da filosofia zen, ficou ele sabendo que ‘as montanhas não são montanhas embora pareçam montanhas’ e também que, quando, finalmente, o discípulo compreende que ‘as montanhas não são montanhas, as montanhas voltam a ser montanhas’.
Curioso, ele mergulhou fundo nos koans, espécies de quebra-cabeças mentais que não podem ser resolvidos pelo pensamento lógico. Estava ele maravilhado com o original conceito de milagre: o cotidiano é que é o milagre. O alimento, a natureza, a respiração, a vida, enfim, é o milagre – o presente divino que não se pode imitar.
Admirou-se também com a sabedoria dos mestres que desprezavam o que conhecemos como ‘sobrenatural’ por ser um estímulo à vaidade pessoal – e como tal um entrave à espiritualidade verdadeira – e por considerarem o sobrenatural inútil, pois, ‘se podemos atravessar o rio de canoa, para que complicar e andar sobre as águas?’
Durante um dia inteirinho nosso herói dedicou-se à leitura de livros zens, foi deitar-se exausto, com a sensação de que todos os seus neurônios haviam trocado de lugar e de que todas as suas sinapses haviam sido reprogramadas. Pouco faltava para que ele se julgasse um profundo conhecedor dos mistérios deste e de outros universos, um mestre entre mestres, tão claras pareciam-lhe todas as verdades transcedentais desta existência.
Acordou bizarro, como se as montanhas já não fossem de todo montanhas mas ainda não houvessem deixado de ser completamente montanhas. Principiou a interrogar-se sobre a percepção daquilo a que costumeiramente chamamos de realidade e se a realidade do que julgamos ser sonho seria talvez mais real que a ilusão da habitual realidade.
Assim pensando, ele saiu de casa e viu-se em meio a uma neblina gelada, incomum para a região e para a época.
Entrou no carro e partiu. O dia ainda não amanhecera e a névoa deixava o mundo cheio de sombras.
Ao pegar a estrada, ele notou a vegetação diferente. Aos primeiros raios de sol percebeu os pinheiros (desde quando ali cresciam pinheiros?) e as formações rochosas à direita. Pensou que, de alguma forma, se enganara de estrada, mas lá estava a placa: Ibitiúva.
Desconfortável, ele observou o dia nascendo sobre um horizonte até o dia anterior perfeitamente previsível: pomares de laranjas e o canavial. Aqueles lagos com patos, aquele gado, aquelas bananeiras...nunca reparara naquilo.
Foi na curva mais fechada da estrada que encontrou a paineira. Imensa. Uma beleza daquelas não nascia de um dia para outro e era absolutamente impossível ele recolheu flores do chão, agarrou-se ao tronco, abismado.
não haver percebido antes uma árvore maravilhosa como aquela. Tocou-a, cheirou-a, Um caminhoneiro parou, para ver se ele precisava de ajuda, e cnfirmou: “Sim, esta é a estrada para Ibitúva”.
O posto Pioneiro apareceu à sua esquerda, quando até a véspera ficara comportadamente à direita. Sempre fora um posto de caminhoneiros, nada de play-ground colorido nem restaurante classe turística como ele via agora.
Finalmente, Ibitiúva. Mas no local do Posto de Saúde erguia-se um Conservatório Musical e só depois de atravessar uma pracinha cheirando a cravos (quantos cravos ele mesmo não semeara teimosamente antes de aceitar o fato óbvio de que cravos não nasciam naquela região) é que ele encontrou um Posto de Saúde, bem modificado, por sinal.
As recepcionistas, contudo, chamaram-no pelo nome sem demonstrar curiosidade ou surpresa, e ele aceitou o melhor que pôde as informações que recebeu daqueles rostos desconhecidos:
- Há doze consultas para hoje, doutor.
É claro que ele nunca vira antes nenhum daqueles pacientes, mas nos prontuários a caligrafia era bem a sua, aquele traço voador nos tt, os finais pontudos e prolongados, os esvoaçantes pingos dos iii.
A manhã massacrou-o com uma cefaléia cruel.
Ele não via a hora de voltar para casa, sair daquele ambiente desconhecido, abandonar de vez aquele pesadelo.
Então ele encontrou uma explicação: estava percebendo o verdadeiro aspecto da realidade, abandonando a ilusão, começando a ver não-montanhas onde antes havia montanhas, era evidente, não poderia ser outra coisa! Simplíssimo!
Aliviado, voltou ao volante, curtindo o inesperado. Como pareciam reais as corujas, os gaviões, os gambás cruzando a estrada!
O trevo à frente exibia duas direções: Manaus e Uruguaiana. Ele pegou qualquer uma e outra placa anunciou: Rezende. Um barranco sombrio em declive escondeu-lhe a paisagem por uns bons dez minutos de pânico total, em que ele pensou com a fixidez do desespero: “Quero voltar para casa!”
Sem saber como, estava à entrada da sua cidade, o pavilhão da festa da laranja, velho conhecido, à direita, e o depósito de bebidas logo ali adiante. A semelhança, porém, acabava aí. O cartaz afixado à frente do pavilhão anunciava um leilão de cavalos mangalarga e lia-se na fachada do depósito: Fábrica de Parafusos.
Ele dirigia devagar, não fossem as regras de trânsito estarem também todas mudadas e chegou, sem saber direito como nem porquê, a sua casa.
A sua casa, que maravilha, igualzinha como sempre fôra, tal como ele se lembrava dela.
E seus filhos brincavam no jardim. Ao vê-lo, correram para dentro a gritar:
- Mamãe, tem um homem estranho aqui fora!
Ele, que fôra inutilmente ao encontro das crianças, subia os degraus com ar de proprietário quando à porta surgiu um ruivo truculento que exclamou:
- Entre, entre! Querida, venha conhecer o meu amigo!
Ela apareceu à porta, e com a polidez desinteressada com que habitualmente se dirigia aos estranhos, olhou-o nos olhos, como o olhava sempre, e sorriu-lhe o seu sorriso de todos os dias.

poesia - Santos

S A N T O S


Santos do cais do porto,
das praias poluídas,
do falso verão postal,
tua face verdadeira é hídrica.
Aqui, as nuvens estão eternamente prenhes,
pesadas, prestes a desaguar
em um estardalhaço abundante de enchentes estrepitosas.

crônica - Se essas paredes falassem...

O verão incendiara o outono e ameaçava propagar-se inverno adentro.
O planeta está com febre, pensou Carlos, é isto, é uma doença do tempo... A Terra, revoltada com a desumanidade, a cozinhava em fogo lento. Carlos sorriu ao pensar que Deus prometera ao homem nunca mais enviar um dilúvio, mas deixara em aberto outras possibilidades. Afinal, era malicioso, o patrãozinho.
Àquela hora caía bem um pretinho e ele rumou para a Bolsa do Café.
Carlos sorriu admirando a fachada da Bolsa. Observou o prédio antes de entrar.
Ali ele poderia refrescar-se com um fantástico café gelado com laranja, delícia tropical e exótica.
Aos domingos ele ás vezes vinha com a esposa, para assistir as apresentações musicais que aconteciam na antiga sala do pregão. Chegavam mais cedo para saborear um expresso com creme e vários dedos de prosa com os amigos. Depois, sentado nas cadeiras de madeira entalhadas, velhas histórias de família pediam-lhe para ser contadas.
Tio Chico fora provador de café. A avó guardara algumas lembranças do tempo em que o tio estava bem: um Buda de marfim, estátuas chinesas, um jogo de jantar inglês que ela usava nas ceias de Natal. O resto fora-se.
Para provar café não era qualquer um que servia, não. Homem que provasse café não podia fumar nem beber, que perdia o gosto. Provador de café era profissão importante e o sujeito fazia lá um bom pé de meia.
O tio cedera à embriagues em alguma noite de boemia, erro fatal. O álcool matara o paladar, e, não bastasse isso, o infeliz tinha nos genes o alcoolismo.
Todavia, nem toda história familiar ligada ao café era triste.
Tia Arlinda inventara um doce feito com pó de café, especiarias e chocolate em barra, crocante, divino. Com a venda dos doces ia comprando seu enxoval. Navio atracava, o pai levava os oficiais para jantar em casa; a sobremesa gabada e esperada era o ‘doce da menina’. Assim ela conheceu e apaixonou-se pelo jovem brasileiro, enquanto o pai, ignorantão, a queria casada com um português de raiz, como ele, nascido e criado em Lisboa. A tia pulou muro, fugiu de casa, ameaçou tomar formicida, em vão. O pai casou-a à força.
Décadas se passaram. Arlinda enviuvou e recebeu certa tarde uma visita com rosas vermelhas em uma das mãos e anel de brilhantes no bolso. Era o antigo namorado,ainda solteiro, que vinha pedi-la em casamento, ambos já passados dos setenta.
Carlos lembrava-se do casal alegre de velhinhos a caminhar de braços dados pelos jardins da orla ao pôr-do-sol, pagando-lhe pipocas, tirando fotos na fonte luminosa – a primeira do país, diziam – ou explicando-lhe o funcionamento do relógio de sol, objeto curioso em meio ao canteiro de flores do calçadão da praia.
E assim divagava Carlos, por culpa do ascendente em Gêmeos, que o deixava nas nuvens, perdido entre idéias que pretendia colocar no papel, em um dia qualquer.
Carlos dava-se conta de que estava ficando saudosista, a viver de lembranças, cercado das fantasias familiares.
Esse cheirinho de café... Santos, terrinha antiga, tão cheia de histórias dentro da História, convidando a sonhar e a escrever.
Se esse prédio da Bolsa Oficial do Café falasse, quantos dramas, quantos romances, quantas coisas pitorescas não nos contaria!

poesia infantil - Segredo

Mamãe me pediu para guardar um segredo
De perde - lo tenho eu muito medo
Quase que estou a ve - lo
Esgueirar - se, silencioso
Para fora do meu bolso


Aonde guardá - lo ?
Na gaveta do quarto ?
É muito arriscado
Pode a maninha
Ir fazer - lhe cosquinha.


Vais ficar curioso
E até furioso
Mas não vou contar
Não irei revelar
O meu segredinho
Vou guarda - lo com carinho.

poesia - Segredos

Segredos de estado - perigosos...
Segredos de amor - dolorosos...
Mesquinhos segredos - cruéis ...
Segredos de amantes - fiéis.

Segredos - todos nós os temos
E que os descubram tememos.
Pobres tolos ! Não imaginamos
Quão frágeis, iguais, humanos,
São os segredos dos outros,
São os segredos de todos.

( os psiquiatras que o digam )

crônica - Tronos, serafins e potestades

Há quem acredite em demônios, eu prefiro acreditar em anjos.
Tem anjo por todo canto.
Eles não sabem hebraico nem aramaico. Tampouco entendem de latim. Não possuem asas nem auréolas. Então presentes, apenas, dando seu recado na hora da necessidade, estendendo a mão amiga, agindo com precisão.
Encontro anjos sempre que um pneu de meu carro fura, quando tenho dúvidas e quando caí da escada e quando os ministros da fazenda arrocham de vez meu já ridículo salário.
E quem, senão um anjo, estava de plantão e me rebocou até o mecânico na tarde tempestuosa em que meu carro pifou na pista sem acostamento da estrada de mão dupla ?
E quem, senão um anjo, na noite escura da alma, acolheu em suas mãos meu coração dilacerado ?
Anjos em profusão espalham sorrisos e músicas pelas esquinas da vida.
Talvez existam diabos à solta por este vasto mundo de Deus afora, mas eu não os percebo. Estou ocupada demais colecionando anjos.

crônica - Ser santista

Confinado aos estreitos limites geográficos da ilha, continente à parte, o santista defronta-se com o oceano.
Embalado eternamente em berço esplêndido, os jardins santistas têm mais flores e suas praias mais amores, sugere o Livro dos Recordes.
Conta-se, fato curioso, que antes mesmo de Cabral, os tupiniquins que aqui viviam enfrentavam, durante os verões, a invasão dos tupinambás que desciam a serra e aqui vinham refrescar-se.
Santos tem estórias que fazem a História. O santista tradicional, mesmo que nunca tenha seguido a procissão da padroeira nem visitado os museus locais, gosta de citar os filhos ilustres da terra.
Começou com Brás Cubas, cuja casa, no outeiro de Santa Catarina, adivinha-se inda hoje do bonde turístico, quando se passeia pelo Centro Velho. De Bonifácio a Mário Covas, marcantes momentos políticos estão imortalizados em praças, estátuas e monumentos.
A arquitetura de Santos nos revela ainda a magnificência da época do café. Antigos casarões, como o que abriga a atual Pinacoteca Bendito Calixto; o Paço Municipal, os Correios, o Fórum, a Catedral, a incomparável Bolsa do Café, com seus vidros bisotés e seus amplos salões, exibem orgulhosos seu passado de luxo e esperança.
O santista sonha com cruzeiros de férias, sem a emoção dos navegantes que partiam em arriscadas aventuras além-mar.
Ah! O mar! Todo santista, nato ou por opção, escuta os ecos de eternidade na voz deste tigre belo e selvagem, e queda, nostálgico, ao lado da estátua do poeta, de costas para a praia, a suspirar pela ingrata que está sempre apenas onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos!
Ser santista é postar-se à janela, em noites enluaradas, suspirando à brisa fresca, ao marulhar das vagas.
Santos tem jambolão, ingá, gaivota, garça, canais... Santos tem Pelé. Orquídeas. Casquinhas de siri. Banana. Paisagens de cartão postal.
Nada mais santista que lagartear à sombra de um chapéu-de-sol, bebericando uma água de coco, dando rédea solta aos pensamentos, nas tardes preguiçosas que se alongam...
Ser santista é, enfim, cantar em coro com a cigarra que mais alto cantou e encantou por estas plagas, que voar mais alto poderia, mas preferiu aqui permanecer porque, em suas próprias palavras, por ser de Santos, era feliz:
“e eu não sei qual o maior dos teus encantos, se teu mar, se tua praia, se tua gente,”

crônica - Simples palavras

-São sessenta dólares e dez...
Eu entreguei ao motorista sessenta dólares e uma moeda de dez centavos.
Não entendi porque o homem ficou nervoso e desandou a falar muito rápido e muito bravo. Repetia continuamente a palavra dez.
-Pois então! Eu lhe dei os dez.
Meu tio apareceu, deu dez dólares ao motorista e resolveu a questão.
A meu lado, minha irmã ria até as lágrimas. Eu não entendia:
-Pois não eram dez centavos? Ten cents?
-Eram dez por cento.
-Mas...
Meu tio, que só falava inglês, mostrou-nos a casa e disse que teríamos tudo o que precisássemos, sem preocupações e....
Eu me sentia tão orgulhosa de meu inglês! Entendi a palavra tip. Na lição nove de meu livro, havia uma lista de tips – dicas de viagens que um amigo dava a outro: tenha sempre à mão um mapa e um dicionário de bolso, coisas assim.
Respondi a meu tio que certamente eu contava com seu auxílio para me dar todas as dicas necessárias. Minha irmã desandou a rir novamente e meu tio arregalou os olhos.
-Você acabou de dizer ao tio que espera que ele pague todas as suas gorjetas – e minha irmã tranqüilizou o tio, em seu inglês impecável.
-Mas... tip não é dica?
-Oh, poupe-me! E o contexto?
-Mas que contexto?
Assim passaram-se dez dias. Eu dizia, por exemplo:
-Nós iremos ao lago Louise depois do feriado se não chover.
-Bem, como o guia falou em inglês, existe sempre a possibilidade de ele ter dito alguma coisa completamente diferente – e minha irmã, sempre bem humorada, completava – Nós iremos ao lago Heloísa antes do feriado mesmo que continue chovendo, por exemplo.
Que dias terríveis! Eu entendia todas as palavras-chave: lago, almoço, chuva – e perdia todos os elementos de ligação: antes, depois, mesmo que, somente se etc.
-Pedi à tia ‘roupas de cama’, por medo de errar na pronúncia da palavra lençol e acabar falando um palavrão.
-Shit, explicou minha irmã, com sua elegante entonação.
Mas na excursão para as Montanhas Rochosas as coisas mudaram. Havia canadenses de Quebec e suíços que só falavam francês e foi minha vez de servir de intérprete para minha irmã. E, como ela estava em companhia do namorado, eu me sentei ao lado de uma irlandesa, muito doce e atenciosa, que viajava sozinha. Ela me fazia perguntas e mais perguntas sobre o Brasil e por sua vez contava-me sobre a Irlanda.
Eu me sentia cada vez mais segura de meu inglês e orgulhosa de meu progresso. Minha irmã, lá do seu canto, lançava-me olhares de aprovação e incentivo.
Todas as noites, no quarto, eu resumia para minha irmã as longas conversas que tinha com a irlandesa. Eu estava realmente muito satisfeita com a facilidade com que me comunicava com a nova amiga.
Então houve aquele almoço, em que perguntei para minha companheira se ela nos acompanharia na gôndola. Falei devagar, mas firme, pronunciando cada sílaba dom clareza:
-Do you go to the top of the mountain by gondola after lunch?
Seus encantadores olhos azuis me sorriram com simpatia:
-Oh, yes! My tomato soup is delicious! and yours?
(Oh. Sim, minha sopa de tomate está deliciosa! E as sua?)

crônica - Sem despedida.

Pelas frestas da janela infiltravam-se os primeiros raios de sol.
Para além das cobertas em desalinho sobre o leito, as portas abertas do guarda-roupa revelavam prateleiras e gavetas vazias.
Da cozinha, o aroma do café espalhava-se pelos corredores e invadia o quarto.
O ar permanecia frio.
Por sobre a copa, o arranjo de margaridas amarelas quebrava a monotonia da louça cor de terracota. Potes de geléia e mel rodeavam o prato de bolo.
Nenhum outro som além daquele provocado pelos talheres e pela xícara ao roçar o pires.
Sequer uma palavra.
Sequer um olhar.
Migalhas caíram lentamente na lixeira e um jorro abundante da água cristalina escorreu pela pia.
O perfume dos laranjais em flor penetrou pela porta aberta.
A grande mala de couro acomodou-se no porta-malas do carro.
O claque da porta ao fechar-se.
O ruído do motor a afastar-se.
No cinzeiro da sala, um objeto metálico brilhava. Uma aliança.
Lágrimas deslizaram e pingaram sobre mãos vazias.
Depois... o silêncio.