Há sombras na lua _
minha avó contando histórias
que encantam a noite.
Na estrada deserta,
mensagem do pica-pau
no alto do poste.
Parece que ouço
violinos e castanholas _
música cigarra.
Gorducho, arrepiado,
escondido sob a telha _
pardal de inverno.
No canto da sala,
parece chuva de ouro
a orquídea florida.
Rodopiando as nuvens,
ventos pincelam nos céus
a manhã de outono.
Ao sol de verão
eu vejo a pena voando,
liberta do pássaro.
Embalo na rede
a criança adormecida _
tarde de verão.
Surgindo da névoa,
escuras copas de árvores _
manhã aquarela.
Arco-íris no céu
límpido e claro de junho _
suspiro, surpresa.
Porção de pinhão
reúne a família toda
e aquece o serão.
Jogando baralho
o tédio vira prazer _
estação chuvosa.
Por trás da vidraça,
a praia tão desejada _
estação chuvosa.
Tudo se confudne
na neblina acinzentada _
estação chuvosa.
Deitada na grama_
a música das cigarras
penetrando em mim.
Trabalho contente _
a música das cigarras
vai marcando o ritmo.
Perfume envolvente _
passeio devagar entre
lírios amarelos.
Camélias no jardim _
entorpecendo de amor
jovens namorados.
Água transparente
no mais profundo da gruta _
armadilha à espreita.
Dedinhos travessos
lá no fundo do regato _
água transparente,
É tal gritaria!
Parece haver todo um bando _
maritaca só.
Linguinha macia _
carinho de maritaca
um instante quieta.
Maritaca chefe _
a seu grito o bando parte,
floresta voadora.
Goiaba madura.
Pés descalços no jardim,
menino feliz.
As cores sumindo
no girar do catavento _
menino surpreso.
Cadê o vermelho?
No girar do catavento
tudo fica branco.
Varro, embevecida _
sinfonia de cigarras
alegra a faxina,
Chove. Mesmo assim
cigarras estão cantando
com muito entusiasmo.
Canto de cigarras_
o ar parece tremer
e os pássaros calam.
Cigarras às dúzias _
parecem jabuticabas
no tronco cantante.
Jogo a serpentina _
no cabelo da morena
novos cachos, loiros.
Perfume francês
e uma abelha requintada _
picada na orelha.
Palmeira _ por ela
passo todas as manhãs.
Cúmplice discreta.
Aquarela viva _
mulher olhando os lírios
na manhã chuvosa.
Um grito de susto _
lagartixa transparente
contra a luz acesa.
5 de jan. de 2017
20 de jun. de 2016
9 de fev. de 2016
16 de dez. de 2015
A menina e o elfo
“Aprendendo a ser louco”
Juju arregalou os olhos para a rapaz magrinho que entrou na quitanda usando uma camiseta com esses dizeres.
- Esse é um dos elfos de Natal – disse o quitandeiro para a menina.
O rapaz piscou um olho para ela e tentou em vão puxar assunto. Do outro lado da rua a mãe da menina a vigiava da janela. Maneco, o quitandeiro, notara o excessivo zelo da vizinha e acenou para ela.
- Mamãe está esperando pelos abacaxis – disse a menina, séria, alongando um rabo de olho para o aprendiz de louco.
O rapaz tirou do bolso uma foto:
- Olha aqui, na festa do ano passado, estou ao lado de Papai Noel
- É um Papai Noel de loja. E você deve ser um elfo de loja também. Uma pessoa que recebe dinheiro para vestir uma fantasia.
- Não, eu não recebo dinheiro nenhum. Nos dias normais eu sou um bailarino. Danço no balé Orgone. Quando chega dezembro, o espírito de Natal me transforma em um elfo. O que você vai pedir de presente?
A menina deu de ombros.
- Eu sou uma menina crescida de nove anos. Meus pais disseram que Papai Noel não vai vir mais para mim.
- Se você pudesse ganhar um presente, o que pediria?
- Um livro de Monteiro Lobato. O saci.
- Por que exatamente O saci?
- Porque era o livro que vovô estava lendo para mim quando a gente fugiu do Araguaia.
- Você morava em Tocantins?
- Pará.
- Eu me chamo Daniel – disse o elfo, estendendo a mão para a menina, que recuou, enfiando as mãos bem fundo nos bolsos. – Posso ao menos saber o seu nome?
- Jurema – os olhos claros e fundos da menina brilhavam.
- Fale um pouco mais sobre você, eu quero ouvir sua história.
Maneco, inquieto, ia interromper, porém a menina animou-se:
- Vovô lia para mim todas as noites. Ele leu o livro Reinações de Narizinho inteirinho, algumas Histórias da Tia Nastácia, uma porção de Fábulas, e estava lendo O saci. Na última noite ele parou de ler bem quando Pedrinho descobre que um saci leva para nascer exatamente sete anos, sete meses, sete dias, sete horas, sete minutos e sete segundos. No dia seguinte a gente saiu de casa sem almoçar e tão rápido que nem deu tempo de eu me despedir do vovô.
- Você se mudou para cá.
- A gente fugiu mesmo. Meu pai pegou uns papéis importantes, a mãe juntou umas roupas, eu trouxe minha boneca e só. Uns homens maus mataram o vovô e estavam atrás do papai também.
Para alívio de Maneco, dona Filomena deixava a casa e atravessava a rua em busca da filha.
- Que demora, Juju; Eu não gosto que você fique de conversa com estranhos.
- Muito prazer, minha senhora. Daniel, elfo de Papai Noel, a seu dispor.
- Muito prazer, Daniel, elfo de Papai Noel. Cadê meus abacaxis, Maneco? Juju volta comigo para casa agora mesmo.
- Seus abacaxis estão aqui, freguesa. – e Maneco virou-se para Daniel – A dona Filomena faz as melhores balas do morro.
- Adoro balas. Tem alguma aí de prova? Deixe um saquinho para mim aqui com o Maneco que amanhã depois do almoço eu pego, quando vier trazer o caminhão. Quer que lhe pague adiantado?
- Dez reais a receita. Dá aí umas 50 balas.
- Combinado. Pegue o dinheiro. E deixe uns cartões, quem sabe eu lhe arrumo uns clientes.
- Cartões, jovem? Isso aqui é o morro.
Daniel sorriu.
- Até amanhã, então.
No dia seguinte Filomena veio entregar as balas.
- Boa tarde Maneco, fique com a encomenda daquele moço esquisito.
- Ele é gente do bem, dona Filó.
- Conversou demais com minha Juju.
- Cadê ela?
- Em casa estudando. Seguindo os conselhos do irmão. É meu orgulho, meu Moacyr. Saiu ao pai. O senhor foi muito bom com a gente, Maneco, fazendo fiado estes meses todos em que meu marido ficou desempregado. Agora ele está bem colocado lá na Usiminas, vai ganhar uma cesta com peru e presunto no Natal, o que vai garantir a ceia, graças a Deus. E o Moacyr se ajeitou em uma vaga de aprendiz em uma fábrica aí do porto; trabalha 4 horas, estuda 4, e disse que se a firma gostar dele, depois do curso ele pode ser contratado. Pois o menino fala para a irmã bem assim: “Faça como eu. Estude e aprenda um ofício. Eu vou ser um técnico, mas você é mais inteligente que eu, se tirar uma boa nota no ENEM pode até cursar uma faculdade.” Eu tenho orgulho desse meu filho, Maneco. Nossa família é assim, somos pobres, mas temos estudo. Os filhos aprendem leitura e tabuada. Nunca faltou livro em casa. Meu pai sempre ensinou que livro é mais importante que comida. Livro alimenta a alma.
- Dona Filó, não chore.
- A gente vivia tão bem lá na fazenda até aqueles “sem terras” resolveram se apoderar da fazendo do patrão...
- Uma tragédia, dona Filó.
Maneco ofereceu um copo de água para a vizinha.
Um caminhão se aproximava. De dentro dele desceu Daniel, que abriu o portão do depósito para o motorista e veio pegar suas balas no balcão. Juju, que espiava pela janela, saiu de casa e correu para perto da mãe.
- Bom dia, dona Filomena. Boa tarde, Juju. Boa noite, Maneco. – disse o elfo, fazendo a menina rir – Conte para mim, menina, do que você gosta, além de livros?
- Eu gosto do rio, dos bichos, das árvores. Eu gosto das noites cheias de estrelas que eu via da varanda lá onde a gente morava antes.
- Seu moço, hora de a gente ir embora – interrompeu Filomena. Com passadas rápidas arrastou a filha de volta para casa, ambas fungando alto.
- Essa família aí – afirmou Manuel – é gente direita.
- Eu sou torto, por acaso? – Daniel girou desengonçado fazendo o quitandeiro rir.
Daniel pertencia a um grupo chamado Tam Tam. De início, eram psicólogos e professores de arte que se reuniam pra trabalhar com doentes mentais, crianças deficientes e incluíam em suas atividades pessoas normais que quisessem participar de projetos sociais. Muitas atividades aconteciam e acontecem ainda na cidade de Santos por causa desse pessoal inclusivo: dança, teatro, discussões artísticas, aulas de pintura, programas de rádio, banda carnavalesca e a passeata de Natal, para a qual Maneco contribuía emprestando o depósito para guardar alguns das centenas de presentes distribuídos para as crianças do bairro.
Na manhã do dia 24 de dezembro, Juju, a garota de nove anos que estava crescida demais para ganhar presente de Papai Noel, ouviu a grande agitação nas ruas. Abriu a porta para espiar e chamou o restante da famíia.
Lá longe vinha um trenó puxado por renas. À frente, dúzias de elfos dançavam e cantavam, pegando as crianças pelas mãos. Formavam-se pequenos grupos ao redor de cada elfo. Eles contavam histórias curtas sobre o Natal antes de entregarem os presentes.
Juju apertou a mão do irmão e ficou olhando de longe, sem se misturar. As outras crianças do morro estavam correndo e pulando de alegria por toda parte. Cantanvam, dançavam, mostravam o carimbo que os elfos estampavam nas mãos de cada criança que recebia um presente. Eram figuras variadas: renas, estrelas, trenós...
Os olhos de Juju acompanhavam enquanto elas abriam abriam os belos embrulhos coloridos, rasgavam as embalagens e gritavam de prazer. Os brinquedos eram todos novos e diferentes: bonecas, carrinhos, jogos, quebra-cabeças, bichinhos de pelúcia.
Juju apoiou a cabeça no braço do pai, certa de que para ela, uma menina crescida de nove anos, não haveria presentes. De repente, uns olhos vivazes piscaram para ela. O elfo Daniel lhe entregou um embrulho vermelho com laços de fita dourada.
- Jurema, viva o espírito de Natal. Papai Noel mandou este presente especial para você. – Ele piscou-lhe um olho – Direto do Pólo Norte.
Juju estendeu as mãos, retendo um suspiro, e leu seu nome no belo cartão:
“Para Jurema, com carinho. Acredite na vida. Tenha fé no amor. Papai Noel”.
Filomena agarrou o elfo e sapecou-lhe um beijo em cada bochecha. Sua mãos tremiam. Seus lábios estavam pálidos e de sua boca não saía som algum. O marido pousou a mão no ombro do rapaz, apertando-os com força, e olhava ora para as ruas, ora para a filha.. Daniel fez uma reverência engraçada e sumiu-se na multidão.
Juju estava pulando e gritando de alegria, abraçando contra o peito O saci.
Ela estava agora decidida a crescer para também “aprender a ser louca.”
14 de nov. de 2015
As duas facetas da eternidade
A mulher mais velha do mundo completou 117 anos. Ela mora em um asilo e precisa de ajuda para levar o alimento à boca e, mesmo assim, afirma que a vida é muito curta, segundo informa o jornal. Fico desconfortável com a notícia e descubro que não quero viver até depois dos cem anos. Mais quarenta anos de solidão, em um mundo onde estão no comando idiotas e equivocados, e onde os que lutam pela justiça são, com frequencia, silenciados pelo assassinato? Não mesmo!
Sócrates, aos 80 anos, dizia estar feliz por morrer entre amigos, como um homem justo e honrado, e que não via sentido em fugir, para levar uma vida em que não houvesse mérito e honra.
Swift, em seu livro Viagens de Gulliver, descreveu uma terra onde, vez por outra, nascia um imortal. Esse ser infeliz era afastado da sociedade ao envelhecer para viver em cavernas distantes, assolado por doenças degenerativas e dores excruciantes.
Aquiles, aos 18 anos, confrontado com a escolha entre uma morte gloriosa e uma vida covarde nem pestanejou: preferiu viver e morrer como um herói,
Enfim, cada um faz da vida o que melhor lhe apetece. O mesmo não se pode dizer da morte, que muitas vezes acontece entre tubos e fios das UTIs,, esses infernos modernos, dignos da pena de um Dante. Nossos hospitais teriam causado delírios em Swift, que neles colocaria ses sofredores imortais para serem ali torturados.
Para a boa morte não encontro outra definição que a de morrer dormindo. Imagino Maria José Aranha de Resende, abençoada em seu sono, despertando em um jardim cheio de rosas e rodeada por poetas a dar-lhe as boas vindas.
- Estou sonhando, que sonho bom - diria ela.
- Nada, agora é que estás acordada. - diria Vicente de Carvalho - O sonho acabou.
Assim eu vejo a vida: um sonho. No Brasil, muitas vezes, um pesadelo. Não compreenderei jamais o desespero com que se agarram à vida os mais desgraçados e mais desamparados seres desse planeta.
Nos leitos hospitalares contemplei muitos moribundos. Nos olhos do quase morto há ou terror ou alegria. Há os que se agarram à matéria, há os que antecipam a recompensa dos justos, há os que serenamente aguardam que se desvende o mistério, a respeito do qual a neurociência prudentemente hesita em se manifestar.
Tenho de concordar com Alarcón, quando coloca, em seu O amigo da morte, essas palavras na boca da Indesejada: "Se os homens sofrem, não é por mim, é antes pela minha inimiga, a vida, que os transtorna. Eu trago a paz."
Peço a Deus, diariamente, que me contemple com a boa morte. Se um dia meu nome constar do Livro dos Recordes, que não seja por ser a mulher mais velha do planeta, confinada a um asilo, comendo pelas mãos de outro.
Trato de aproveitar sabiamente a vida, ao modo de Salomão, que optou pelo conhecimento. Só lamento não ter sido, como o rei, contemplada com tudo o mais "por acréscimo". Uns milhõeszinhos a mais e um companheiro de jornada tornariam o caminho mais divertido.
Não tenho a ilusão de deixar algo para a posteridade. Ideia de gente vaidosa, já que o destino do sistema solar é ser engolido por um buraco negro.
Uma vida digna coroada por uma morte igualmente digna, esse é o meu desejo. Depois, tudo será uma festa. Ou nada.
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11 de nov. de 2015
HQ - século XX - Verinha
Essa série de historinhas foi baseada nas minhas filhas. Ser mãe é divertir-se ...


Passei uns apuros com as meninas. Uma só dormia no carro, era sair para ir a algum lugar e ela ferrava gostoso no sono. Parava, vinha o berreiro. A outra só sossigava pendurada, e as pessoas me paravam na rua perguntando porque eu pegava ela direito no colo. Uma vez, no consultório médico, eu entrei na consulta e o pessoal comentou com a secretária que eu devia ser uma desajeitada mãe de primeira viagem e ouviram que eu era...pediatra! (a secretária me contou depois).
Na realidade, essa redinha aí existe e foi patenteada em Portugal como uma "funda" para acalmar bebês chorões.


Na realidade, essa redinha aí existe e foi patenteada em Portugal como uma "funda" para acalmar bebês chorões.
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9 de nov. de 2015
HQ - século XX - Irineu, o paranóico
Agora é a vez de Lúcia encontrar um namorado...totalmente estranho e com mania de segrêdo.
Em outro dia...
Em outro dia...
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