11 de jan. de 2014

Se as cartas mentirem, vale uma ajudinha.

( brincando com um tema de Machado )

Corria o ano da grace de 1870, quando, em uma casa da rua da Guarda Velha, bem conhecida pelos amantes sofredores, entrou uma moça de aparência frágil e roupas elegantes.
Séria, decidida, passou pelo portão sem olhar para os lados, sem pressa nem vagar, ao contrário da freguesia habitual, parecia não esconder-se nem temer a ninguém.
A cartomante abriu a porta, estudou a visitante rapidamente, com olho profissional, e, levemente entediada, indicou-lhe onde sentar e pegou o baralho.
- Primeiro me diga o preço.
- A senhora me dê a quantia que agradar a seu coração.
- Não, isso não está certo, eu trouxe um pouco de dinheiro, mas, se achar o preço caro, desisto agora.
- São dois mil réis – a cigana escondeu a decepção; era depois das consultas, satisfeitos, que os clients mostravam-se mais generosos.  Talvez, afinal, não fosse cigana, mas usava o lenço, a saia colorida e os colares característicos, para compor o visual que ajudava na profissão.
A moça lançou-lhe um olhar agudo, quase acusador:
- Era você que deitava as cartas para a Rita?
- Que Rita?
- Minha prima Rita, esposa do Vilela, que morava lá pelos lados de Botafogo.
- Você não me disse o seu nome nem eu perguntei; muitos clients preferem assim.
- Rita foi assassinada, não soube? Há alguns meses.
- Sinto muito.
- Ela havia consultado uma cartomante, algumas semanas antes de morrer. Foi você?
- Como vou saber? Muitos clientes, como eu disse, não me dizem o nome.
- Esta cartomante errou feio, disse para minha prima que tudo estava bem, e o marido o tempo todo desconfiado do amante.
- É por isso que a menina veio hoje? Pelo amante?
- Que idéia! Sou solteira e honesta.
- Há um rapaz muito bom interessado em você – começou a cartomante, virando a primeira carta.
- Espere, primeiro me prove que diz a verdade.
- O futuro…
- Fale-me do passado, do presente.
_ ….
_ Se você acertar o passado e o presente, sei que poderei confiar no que me disser do futuro.
A cartomante, olhos baixos, retirou a segunda carta:
- A mocinha sofreu recentemente um grande desapontamento… - pausa.
A outra, calada, não descartou nem confirmou. Veio a Terceira carta:
- Vejo a seu lado uma mulher mais velha, que apóia sua atitude…
- Mais clareza, por favor! Atitude! Que atitude? Desapontamento… não consegui minhas entradas para meu lugar favorite no teatro? Meu time de futebol perdeu? Que me desapontou, família, trabalho, amigos, quem?
- Desapontamento no amor, no amor – exclamou a cigana.
- Não diga! E esta mulher mais velha, quem seria? Vizinha, parente?
- Sua irmã.
- Muito bem, eu então sofri um desapontamento amoroso e minha irmã apoiou  minha atitude, seja lá o que você queira dizer com isso, e quanto ao presente?
- Presente?
- Sim, presente, agora, depois que minha irmã secou minhas lágrimas, o que acontece?
- Neste momento… há um homem mais velho interessado em você.
- Bobagem! Mais velho! Idade de meu avô, ou apenas um dia mais velho? Quem sabe, uma hora mais velho?
- Alguns anos mais velho. – a cartomante pegou o lenço e enxugou o sour que começava a correr pela testa. Seus clientes rotineiramente eram vítimas masi dóceis.
- E o que faz esse homem mais velho?
- Tem um amor sincere por sua pessoa.
- Muito bem, agora o futuro, afinal, é pelo futuro que eu vim aqui, para que me fale do futuro.
Novo embaralhar de cartas. Nova leitura dos arcanos.
- Uma longa viagem em futuro próximo, possivelmente ainda este ano, provavelmente para um país exótico do oriente.
A garota suspirou:
- Que mais?
- Dinheiro, não muito, mas o suficiente para resolver os seus problemas financeiros…
- Tolice, sou rica, não tenho problemas financeiros. Quero a resposta ao que me trouxe aqui.
A adivinhadora embatucou. Falara de amor, de dinheiro, de viagens… o que faltava?
- Sua saúde está perfeita. Este probleminha de momento é apenas uma indisposição passageira, como o seu medico…
- Ora, por favor! A minha resposta!
- Mas, afinal, criatura de Deus, o que deseja saber?
- Tudo. Bem que o Machado avisou: é charlatanice, lembra do que aconteceu com a pobre da Rita, e possivelmente com o Camilo…
- Camilo?
- O amante. Morreu no mesmo dia, assassinados os dois pelo marido.
- Há muitas outras cartomantes aqui no Rio, muitas outras por aqui mesmo, nesta mesma rua. Certamente não é de mim que você fala. Eu sempre acerto.
- Sempre engana, isso sim! Eu nunca tive decepção amorosa nenhuma, sou muito feliz com meu vizinho e primeiro namorado, de quem estou noiva. Sou filha única, pelo que sei. E com meu pai acamado, dependendo de mim para tudo, não posso sair da cidade, quanto mais ir ao oriente… E nunca estive melhor de saúde.
A falsa cigana ergueu a voz, revirando os olhos, com gestos amplos:
- Sua descrente. Seu desdém confundiu as cartas. Seu pensamento negativo …
- Exigo meu dinheiro de volta!
- De jeito nenhum! E a hora que perdi com você?
- Eu é que perdi minha tarde. O que eu queria saber é se a editor vai aceitar os originais de meu livro!
- Livro?
- Sim, eu sou escritora, e meu amigo Marcos, um crédulo supersticioso adorável, insistiu para que eu viesse aqui, já que mal não faz…
Tanta mulher poderia ter aparecido nesta tarde, como em tantas outras, perguntando das mazelas do cotidiano, mas quis o azar que a cliente fosse uma dessas mulheres liberais, com idéias! O rosto da cartomante empalideceu, amarelou, depois arroxeou horrivelmente, quando a moça acrescentou um último insulto:
- Uma fraude, é o que você é. Incapaz de prever o future de um mosquito que seja.
- Pois eu prevejo sua morte em breve. Assassinada.
A mocinha riu, mas por pouco tempo. A cartomante pulou em sua direção, agarrou seu pescoço e a esganou.


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