Já dizia Magri...lembram-se dele? Poucas figuras políticas foram tão engraçadas como o ministro Magri. Sua ascensão meteórica de líder sindical ao mais alto escalão do governo surpreendeu a ele próprio, que, ante a nação estupefata vociferou, indignado: "A situação do trabalhador brasileiro é inadimissível! A stiuação tem de mudar! Alguém tem de fazer alguma coisa!". E no silêncio constrangedor que antecedeu a gargalhada nacional, um jornalista sugeriu ao ministro que esse alguém era ele mesmo, o então Ministro do Trabalho.
O ministro provocou uma corrida nacional ao dicionário ao declarar que o salário do trabalhador era 'imexível'. Na manhã seguinte, as manchetes todas eram variações de "Aurélio, acrescenta aí uma palavrinha nova no seu léxico"
A afirmação mais simpática e no entanto a mais polêmica, que cindiu em duas partes a população, foi sua desastrada, inflamada, categórica afirmação "cachorro também é ser humano"...
Definição biológica à parte, o que o ministro colocou a nu foi a tendência patológica que se alastra pelos bondosos corações de nossa espécie. Sim, os humanos são animais. Inverter as premissas é um êrro de lógica. Na filosofia, ao contrário da multiplicação matemática, trocar os fatores altera sim o produto.
Alguns cachorrófilos aclamaram: "Em verdade, os cachorros são é melhores que os humanos!"
Desta data para cá, lancei meu olhar curioso e atento, não para a afirmação, evidentemente metafórica, e sim para o comportamento das pessoas com seus animais.
Ser bondoso com todos os seres é preceito budista. Respeitar a natureza, em qualquer de suas formas, é respeitar a si mesmo. Gosto do lema 'deixa que a vida selvagem continue selvagem', que leva à criação de reservas e santuários bilógicos pelo planeta.
O problema começa quando nós, humanos, trazemos outra espécie para nosso convívio. Aparecem doenças, alteram-se dietas, modificam-se hábitos. O animal criado em cativeiro modifica-se e não mais consegue sobreviver em seu ambiente original. O lobo virou cão.
Fantástica simbiose, esta do lobo com o homem, mais intensa que a da rêmora com o tubarão, pois, no processo, surgiu um novo espécime 'canis' e centenas de raças.
Há séculos homens e cães mutuamente se protegem, se aconchegam e trocam favores.
Abro um parênteses: vamos nos esquecer por um momento daquele povo que come carne de cachorro, pois mesmo entre eles há um diferencial, só comem uma determinada raça, criada para isso; nem vamos falar dos que maltratam os bichos, e que, por força das ONGs e das leis, são em número cada vez menor. Quero falar dos que realmente gostam de animais, e são mesmo profundamente ligados aos seus.
É muito saudável conviver com cães. Eles enriquecem nossa vida. Trazem alegria ao ambiente. Despertam nossa compaixão. Afastam nossa tristeza. Há psicólogos que afirmam que brincar com cães ajudam crianças com dificuldades de aprendizagem. Há médicos que indicam a convivência com cachorros para melhorar a comunicação de autistas e outros deficientes. Há até cachorros usados em terapias de pacientes terminais.
Há séculos nossos amados companheiros de jornada vivem lado a lado conosco, até recentemente em nossos quintais, abrigados em casinhas, canis ou simples forro no chão das varandas, eram alimentados com carnes variadas, sobras da mesa ou rações, conforme a índole ou o bolso do proprietãrio. Mais recentemente têm a seu dispor veterinários, vacinas, medicamentos.
No entanto insidiosamente, em nossa sociedade doente, distorceu-se de tal forma esta relação que surgiu esta aberração que o ministro Magri revelou ao proferir este inusitado comentário: "cachorro também é humano". (acredito que alguns psiquiatras mais atentos já deviam ter se deparado com este quadro bizarro)
Comecei, então, a lembrar de como o mundo rodou e involuiu, de como as famílias foram desalojadas de casas com quintais e socadas em 'apertamentos'; de como se retirou da grade escolar a filosofia e a educação focou na massificação ao invés de estimular a individualidade; de como o romance virou sexo, liberdade virou irresponsabilidade, opinião própria virou rebeldia, integridade passou a ser sinônimo de idiotice, sinceridade tornou-se tolice e pensar caiu em desuso.
E o que aconteceu com os cachorros? Seus donos os trouxeram para dentro de seus cubículos, companheiros de cela, fiéis como no tempo em que corriam livres pelas ruas, a perseguir carros e gatos.
Verifico que, no momento em que perdemos espaço, nossa taxa de natalidade diminuiu. As pessoas casam-se mais tarde, e como o tempo passa e a situação econômica persiste no nível de sobrevivência, resolvem ter apenas um, ou nenhum rebento. E aquela impulsão arquetípica de amor e doação, para onde é canalizada? Para o animalzinho da casa.
E eis aí a nova estranha função de nosso amigo: filho substituto. Confusão à vista, para homens e cães!
Enquanto o homem encarnava o papel de macho alfa da matilha, e permaneceu no comando da relação, a simbiose manteve-se equilibrada.
Atualmente observa-se a inversão: é o animal que escolhe o dono, ainda no canil. E o animal no comando decide, entre olhares ardilosos ou rosnados claros, o que quer comer, quando quer passear, onde dormir e se vai ou não ficar sozinho.
No século XX perdemos a capacidade de educar filhos e fizemos a fortuna de psicólogos, gastando o que não tínhamos em livros que ensinam o óbvio. Jovens mães sequer sabiam amamentar!
No século XXI perdemos o rumo com nossos animais de estimação - porquinhos, fuínhas, gatos, e, em especial, com os cães.
Em minha meninice não havia cães obesos, neuróticos, cancerosos, diabéticos. Os animais vivaim saudavelmente no quintal ate o dia em que não acordavam ou sofriam algum acidente. Hoje a regra virou exceção. Adoecemos nossos melhores amigos.
Nossos cães, que hoje estão no comando de seus donos, submissos aos caninos caprichos, pagaram o alto preço da liberdade; confinados, sem sol, sem espaço de lazer, estressados e mal alimentados.
Cães, hoje, recebem, mais do que nunca, alimentos diretamente do prato dos humanos - batatas fritas, pães, doces, molhos, sorvetes, não mais às escondidas, das màos do caçulinha, por debaixo da mesa. Para os cães compram-se ovos de Páscoa, panetones, bolos confeitados, tudo embalado em padarias especializadas. E a propaganda, como para os produtos humanos, é a mesma mentiralhada, leia os rótulos! Corantes, conservantes, aditivos, gosto e sabor altificial de carne.
Considerado parte da família, o dono se sente na obrigação de alimentar e presentear seu bichinho de maneira humana, em restaurantes, hotéis e festas. Há praias para cães. Clubes para cães. Spas para cães. Só não temos para eles o ambiente natural dos cães. Do mesmo modo como já não nos lembramos mais do que foi um dia o ambiente natural humano (o céu, por exemplo, tinha estrêlas).
As roupas caninas não servem para agasalhar; têm griffe, estampas e dizeres significativos para os donos, seja o símbolo do time esportivo, a bandeira do país, dizeres engraçados, cores em voga.
A antropomorfização vai dos objetos aos diálogos. Os comandos e carinhos há muito saíram do bate papo e passaram ao terreno minado das confidências. O dono, pressionado pelo patrão, pelo governo, pela lei, e, quando a tem, pela família, chega em casa e despeja sua agonia naquele que é 'o único ser que me compreende' - ou seja, que não o critica. E acredita piamente nisso, pois, quando o cão morre - eles sempre morrem antes - o sujeito sente que perdeu a alma que o conhecia a fundo.
Esta atenção deslocada, exagerada e obsessiva pode até servir de terapia barata ao pobre trapo humano, mas, para os cães, em que os beneficia?
Pobre cão, que resta em casa sozinho por longas horas, esperando ansiosamente pelos poucos minutos em que receberá as migalhas de atenção do dono. Dono esse que ainda dirá, contando no relógio, algumas frases absurdas como 'o veterinário recomendou 60 minutos de passeio, pelo menos'. Se perguntado, aposto que o cãozinho mijaria nos 60 minutos. O animal sacrifica sua natureza para dar significado à vida humana e recebe em troca um mínimo de responsabilidade da parte de seu dono. Repete-se com o animal o erro que o pai tradicional cometia com seus filhos, ao afirmar hipocritamente : 'passo o dia todo longe mas penso nele a cada minuto'.
Comparo porque há motivos comuns para as pessoas quererem filhos e cães: querem um amor compartilhado, querem doar-se, querem oferecer e receber proteção, companhia e auxílio, ter a criatividade estimulada, adquirir senso de responsabilidade, evoluir emocionalmente, encontrar significado para suas miseráveis vidas, enfim, querem ser felizes.
Detalhe importante, contudo: filhos são pessoas e cachorros são animais. E aí algumas pessoas fazem alguns comentários esclarecedores.
Animais ficam sozinhos. Animais não usam drogas, não viram psicopatas ou piromaníacos - o máximo de suas neuroses é roer a perna do sofá ou morder o carteiro.
Filhos são mais complicados. Nào podem ser deixados sozinhos, nem se pode bater neles ou colocá-los a trabalhar, pois é contra a lei atual. Não se pode ir a um depósito de filhos e escolher o seu pedigree - é sempre, boa ou má, uma surpresa. Filhos questionam os pais, forçam tomadas de posição, demandam sacrifícios, recebem nossas tradições e logo denunciam quantos esqueletos encontraram nos armários, são seres exigentes que podem provocar culpa, tanto como promover nossa evolução espiritual. Doar-se a um filho é contribuir para construir o mundo, e a incômoda pergunta desassossega os homens de boa vontade: 'será que eu consegui criar um ser humano decente?'
Há muitos outros motivos, que posso considerar egoístas, porém constituem motivos honestos, claros e válidos: quem tem filhos perde, e muito.
Perde noites de sono. Perde convites para festas, vira assim uma espécie de pária social. Algumas mulheres temem a deformação estética (essas já são tão feias por dentro que só lhes resta mesmo e ilusão do corpo). Corre-se o risco de ser excluído do mercado de trabalho, de perder a indicação daquela promoção tão desejada. Os mais sinceros e esclarecidos compreendem que, para lá de todo o sacrifício intangível, o filho é, nesses dias de devoção a Pluto, o 'devorador de patrimônio'.
Enfim, o medo modifica a sociedade humana. O medo de empobrecer financeira, social e intelectualmente. O medo de não estar à altura da responsabilidade. O medo de encontrar-se só diante da tarefa estafante sem rede de apoio, sem tempo suficiente, sem local adequado.
Acho que é cedo para perder completamente a esperança no futuro da humanidade. Embora cada vez menos gente escolha ter filhos, e cada vez mais egoístas escolham cães, é melhor assim. Na próxima década, teremos mais crianças desejadas e ajustadas, uma população humana menor e melhor.
Em contrapartida, haverá uma multidão de velhos solitários - seus cães morrerão antes, lembram-se? - e não faltarão empregos nas áreas voltadas às necessidades caninas, inclusive cemitérios.
Ainda não concordo com Magri.
Os cães não são seres humanos.
Alguns humanos é que perderam a sua humanidade.
O ministro provocou uma corrida nacional ao dicionário ao declarar que o salário do trabalhador era 'imexível'. Na manhã seguinte, as manchetes todas eram variações de "Aurélio, acrescenta aí uma palavrinha nova no seu léxico"
A afirmação mais simpática e no entanto a mais polêmica, que cindiu em duas partes a população, foi sua desastrada, inflamada, categórica afirmação "cachorro também é ser humano"...
Definição biológica à parte, o que o ministro colocou a nu foi a tendência patológica que se alastra pelos bondosos corações de nossa espécie. Sim, os humanos são animais. Inverter as premissas é um êrro de lógica. Na filosofia, ao contrário da multiplicação matemática, trocar os fatores altera sim o produto.
Alguns cachorrófilos aclamaram: "Em verdade, os cachorros são é melhores que os humanos!"
Desta data para cá, lancei meu olhar curioso e atento, não para a afirmação, evidentemente metafórica, e sim para o comportamento das pessoas com seus animais.
Ser bondoso com todos os seres é preceito budista. Respeitar a natureza, em qualquer de suas formas, é respeitar a si mesmo. Gosto do lema 'deixa que a vida selvagem continue selvagem', que leva à criação de reservas e santuários bilógicos pelo planeta.
O problema começa quando nós, humanos, trazemos outra espécie para nosso convívio. Aparecem doenças, alteram-se dietas, modificam-se hábitos. O animal criado em cativeiro modifica-se e não mais consegue sobreviver em seu ambiente original. O lobo virou cão.
Fantástica simbiose, esta do lobo com o homem, mais intensa que a da rêmora com o tubarão, pois, no processo, surgiu um novo espécime 'canis' e centenas de raças.
Há séculos homens e cães mutuamente se protegem, se aconchegam e trocam favores.
Abro um parênteses: vamos nos esquecer por um momento daquele povo que come carne de cachorro, pois mesmo entre eles há um diferencial, só comem uma determinada raça, criada para isso; nem vamos falar dos que maltratam os bichos, e que, por força das ONGs e das leis, são em número cada vez menor. Quero falar dos que realmente gostam de animais, e são mesmo profundamente ligados aos seus.
É muito saudável conviver com cães. Eles enriquecem nossa vida. Trazem alegria ao ambiente. Despertam nossa compaixão. Afastam nossa tristeza. Há psicólogos que afirmam que brincar com cães ajudam crianças com dificuldades de aprendizagem. Há médicos que indicam a convivência com cachorros para melhorar a comunicação de autistas e outros deficientes. Há até cachorros usados em terapias de pacientes terminais.
Há séculos nossos amados companheiros de jornada vivem lado a lado conosco, até recentemente em nossos quintais, abrigados em casinhas, canis ou simples forro no chão das varandas, eram alimentados com carnes variadas, sobras da mesa ou rações, conforme a índole ou o bolso do proprietãrio. Mais recentemente têm a seu dispor veterinários, vacinas, medicamentos.
No entanto insidiosamente, em nossa sociedade doente, distorceu-se de tal forma esta relação que surgiu esta aberração que o ministro Magri revelou ao proferir este inusitado comentário: "cachorro também é humano". (acredito que alguns psiquiatras mais atentos já deviam ter se deparado com este quadro bizarro)
Comecei, então, a lembrar de como o mundo rodou e involuiu, de como as famílias foram desalojadas de casas com quintais e socadas em 'apertamentos'; de como se retirou da grade escolar a filosofia e a educação focou na massificação ao invés de estimular a individualidade; de como o romance virou sexo, liberdade virou irresponsabilidade, opinião própria virou rebeldia, integridade passou a ser sinônimo de idiotice, sinceridade tornou-se tolice e pensar caiu em desuso.
E o que aconteceu com os cachorros? Seus donos os trouxeram para dentro de seus cubículos, companheiros de cela, fiéis como no tempo em que corriam livres pelas ruas, a perseguir carros e gatos.
Verifico que, no momento em que perdemos espaço, nossa taxa de natalidade diminuiu. As pessoas casam-se mais tarde, e como o tempo passa e a situação econômica persiste no nível de sobrevivência, resolvem ter apenas um, ou nenhum rebento. E aquela impulsão arquetípica de amor e doação, para onde é canalizada? Para o animalzinho da casa.
E eis aí a nova estranha função de nosso amigo: filho substituto. Confusão à vista, para homens e cães!
Enquanto o homem encarnava o papel de macho alfa da matilha, e permaneceu no comando da relação, a simbiose manteve-se equilibrada.
Atualmente observa-se a inversão: é o animal que escolhe o dono, ainda no canil. E o animal no comando decide, entre olhares ardilosos ou rosnados claros, o que quer comer, quando quer passear, onde dormir e se vai ou não ficar sozinho.
No século XX perdemos a capacidade de educar filhos e fizemos a fortuna de psicólogos, gastando o que não tínhamos em livros que ensinam o óbvio. Jovens mães sequer sabiam amamentar!
No século XXI perdemos o rumo com nossos animais de estimação - porquinhos, fuínhas, gatos, e, em especial, com os cães.
Em minha meninice não havia cães obesos, neuróticos, cancerosos, diabéticos. Os animais vivaim saudavelmente no quintal ate o dia em que não acordavam ou sofriam algum acidente. Hoje a regra virou exceção. Adoecemos nossos melhores amigos.
Nossos cães, que hoje estão no comando de seus donos, submissos aos caninos caprichos, pagaram o alto preço da liberdade; confinados, sem sol, sem espaço de lazer, estressados e mal alimentados.
Cães, hoje, recebem, mais do que nunca, alimentos diretamente do prato dos humanos - batatas fritas, pães, doces, molhos, sorvetes, não mais às escondidas, das màos do caçulinha, por debaixo da mesa. Para os cães compram-se ovos de Páscoa, panetones, bolos confeitados, tudo embalado em padarias especializadas. E a propaganda, como para os produtos humanos, é a mesma mentiralhada, leia os rótulos! Corantes, conservantes, aditivos, gosto e sabor altificial de carne.
Considerado parte da família, o dono se sente na obrigação de alimentar e presentear seu bichinho de maneira humana, em restaurantes, hotéis e festas. Há praias para cães. Clubes para cães. Spas para cães. Só não temos para eles o ambiente natural dos cães. Do mesmo modo como já não nos lembramos mais do que foi um dia o ambiente natural humano (o céu, por exemplo, tinha estrêlas).
As roupas caninas não servem para agasalhar; têm griffe, estampas e dizeres significativos para os donos, seja o símbolo do time esportivo, a bandeira do país, dizeres engraçados, cores em voga.
A antropomorfização vai dos objetos aos diálogos. Os comandos e carinhos há muito saíram do bate papo e passaram ao terreno minado das confidências. O dono, pressionado pelo patrão, pelo governo, pela lei, e, quando a tem, pela família, chega em casa e despeja sua agonia naquele que é 'o único ser que me compreende' - ou seja, que não o critica. E acredita piamente nisso, pois, quando o cão morre - eles sempre morrem antes - o sujeito sente que perdeu a alma que o conhecia a fundo.
Esta atenção deslocada, exagerada e obsessiva pode até servir de terapia barata ao pobre trapo humano, mas, para os cães, em que os beneficia?
Pobre cão, que resta em casa sozinho por longas horas, esperando ansiosamente pelos poucos minutos em que receberá as migalhas de atenção do dono. Dono esse que ainda dirá, contando no relógio, algumas frases absurdas como 'o veterinário recomendou 60 minutos de passeio, pelo menos'. Se perguntado, aposto que o cãozinho mijaria nos 60 minutos. O animal sacrifica sua natureza para dar significado à vida humana e recebe em troca um mínimo de responsabilidade da parte de seu dono. Repete-se com o animal o erro que o pai tradicional cometia com seus filhos, ao afirmar hipocritamente : 'passo o dia todo longe mas penso nele a cada minuto'.
Comparo porque há motivos comuns para as pessoas quererem filhos e cães: querem um amor compartilhado, querem doar-se, querem oferecer e receber proteção, companhia e auxílio, ter a criatividade estimulada, adquirir senso de responsabilidade, evoluir emocionalmente, encontrar significado para suas miseráveis vidas, enfim, querem ser felizes.
Detalhe importante, contudo: filhos são pessoas e cachorros são animais. E aí algumas pessoas fazem alguns comentários esclarecedores.
Animais ficam sozinhos. Animais não usam drogas, não viram psicopatas ou piromaníacos - o máximo de suas neuroses é roer a perna do sofá ou morder o carteiro.
Filhos são mais complicados. Nào podem ser deixados sozinhos, nem se pode bater neles ou colocá-los a trabalhar, pois é contra a lei atual. Não se pode ir a um depósito de filhos e escolher o seu pedigree - é sempre, boa ou má, uma surpresa. Filhos questionam os pais, forçam tomadas de posição, demandam sacrifícios, recebem nossas tradições e logo denunciam quantos esqueletos encontraram nos armários, são seres exigentes que podem provocar culpa, tanto como promover nossa evolução espiritual. Doar-se a um filho é contribuir para construir o mundo, e a incômoda pergunta desassossega os homens de boa vontade: 'será que eu consegui criar um ser humano decente?'
Há muitos outros motivos, que posso considerar egoístas, porém constituem motivos honestos, claros e válidos: quem tem filhos perde, e muito.
Perde noites de sono. Perde convites para festas, vira assim uma espécie de pária social. Algumas mulheres temem a deformação estética (essas já são tão feias por dentro que só lhes resta mesmo e ilusão do corpo). Corre-se o risco de ser excluído do mercado de trabalho, de perder a indicação daquela promoção tão desejada. Os mais sinceros e esclarecidos compreendem que, para lá de todo o sacrifício intangível, o filho é, nesses dias de devoção a Pluto, o 'devorador de patrimônio'.
Enfim, o medo modifica a sociedade humana. O medo de empobrecer financeira, social e intelectualmente. O medo de não estar à altura da responsabilidade. O medo de encontrar-se só diante da tarefa estafante sem rede de apoio, sem tempo suficiente, sem local adequado.
Acho que é cedo para perder completamente a esperança no futuro da humanidade. Embora cada vez menos gente escolha ter filhos, e cada vez mais egoístas escolham cães, é melhor assim. Na próxima década, teremos mais crianças desejadas e ajustadas, uma população humana menor e melhor.
Em contrapartida, haverá uma multidão de velhos solitários - seus cães morrerão antes, lembram-se? - e não faltarão empregos nas áreas voltadas às necessidades caninas, inclusive cemitérios.
Ainda não concordo com Magri.
Os cães não são seres humanos.
Alguns humanos é que perderam a sua humanidade.
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