19 de jun. de 2011

conto: Graça de Santo Antonio

Ana Teresa é devota do santo casamenteiro, que tem até estátua pendurada em cima da porta de entrada de casa. Toda vez que sai, ela fala pro santo:
- Protege minha casa na minha ausência, querido santinho.
Seu marido, militar cético, comentava com cinismo:
- Bah, além de casamenteiro é vigilante...
E quando a esposa perdia algo e solicitava a ajuda do santo, ele exclamava:
- Bah, além de encontrar dote pras raparigas pobres, tirou o lugar do São Longuinho e de seus três pulinhos...
A esposa ia suportando as brincadeiras, calada, especialmente quando em apuros de prazo, pedia graças urgentes ao santo e ouvia:
- Pois não é que até o coitado do Santo Expedito perdeu o lugar pro Tonico...
Minha amiga, catolicíssima, tem fé, este sentimento maravilhoso através do qual testemunhei, nos outros, sucessos inexplicáveis, extraordinários. Digo nos outros pois não acredito em milagres. Bem que eu tento ter fé. Como está escrito em algum lugar da bíblia, ‘a fé vem’, mas inda não veio pra mim, pois sempre que mentalizo minhas metas, uma vozinha fraca faz-se ouvir lá dentro, teimosamente: ‘ a quem estás querendo enganar, guria?’. É a tal voz da razão, ignorante de todos aqueles bens preciosos e de todas aquelas outras ‘razões que a razão desconhece’.
Pois bem, quis a vida que um dia a enteada da Ana Teresa, garota aí de uns dezesseis anos, desaparecesse no mundo. Rebelde, confundindo idéias políticas com mágoas pessoais, alistou-se em algum movimento anti-militarista dos anos setenta, envolveu-se com traficantes infiltrados nos movimentos estudantis e quem é que achava o paradeiro da garota?
De nada valeu a patente militar do pai, as diligências da polícia, retratos falados, telefonemas, mídia, buscas em hospitais e necrotérios. Nada da mocinha reaparecer.
Após três meses, o pobre pai, cansado de esbravejar, exigir, xingar, suplicar e implorar, sucumbiu.
Ao vê-lo desabar no sofá, completamente rendido ao sofrimento, Ana Teresa agiu:
- Homem sem fé, vais fazer o que eu digo, pois não tens nada a perder. Já que tentastes tudo o que era possível, sem sucesso, bem podes dar uma chance ao santo, não tens nada a perder com isso. Se uma trezena a Santo Antonio não resolver a situação, piorar é que não vai, e eu tenho fé por nós dois.
O marido concordou: mal não ia fazer, mesmo. Ana Teresa então tomou as rédeas da situação:
- De agora em diante, até o fim da trezena, nada de brincadeiras nem de sarcasmos com o santo.
Como se o marido, centrado em sua particular miséria, lá tivesse tempo a perder fazendo troça do santo, ou ânimo para brincar com quem quer que fosse. Ele concordou.
E toca a rezar.
O interessante da história não é o fato do pai ter recuperado a filha exatamente no décimo terceiro dia, nem de ela ter sido encontrada pelo proprietário de uma farmácia chamada Santo Antônio, que telefonou para o militar na décima segunda noite.
O interessante é o que aconteceu no primeiro dia da trezena, ao fim da tarde, exatamente quando Ana Teresa e o marido começaram suas orações: o farmacêutico foi fechar a loja e viu o casalzinho que se acomodava no banco da praça e fez algo que nunca havia feito antes: conversar com moradores de rua.
E da conversa, percebeu que a moça não era de rua, não, sabia falar, tinha boa aparência e parecia inteligente.
Vai então o farmacêutico e oferece os fundos da farmácia para o casal se abrigar do sereno, oferece sopa, leva os dois para a casa e fala para a mulher:
- Veja se consegue a confiança da moça, vamos descobrir de onde ela vem, pois parece ser gente de bem.
Passam-se os dias, a garota começa a pegar amizade com a esposa do farmacêutico, e por fim, num gesto de confiança, mostra a ela sua carteira de identidade:
- Olha aí, veja o meu nome, é o meu nome verdadeiro, não é invenção minha, não.
Ora, mais que depressa a outra anota mentalmente o nome da garota e também o de seus pais, vê também a naturalidade e toca a procurar na lista telefônica (naquela época não havia ainda a internet).
No décimo terceiro dia, Ana Teresa e o marido estavam em uma cidadezinha distante, cheios de alegria e gratidão, o pai abraçando amorosamente a filha.
Filha que, a esta altura, estava saudosa das mordomias de casa, das facilidades burguesas da vida, desejosa de abandonar drogas, companheiros de farra e furadas ideologias políticas, convencida de que havia feito uma grande bobagem.
E graças a Santo Antonio, a vida daquela família voltou quase ao normal. Quase, pois daí para a frente, ficou melhor.

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