(Poesia classificada entre as 100 melhores no primeiro concurso de poesia do Shopping Miramar – Santos – em 1985 - minha primeira poesia premiada)
Dia após dia...
Aquela mesma agonia...
A vida sem alegria.
É comer poeira e lutar pelo pão.
Pão a que temos direito.
Disse Cristo – o pão nosso – NOSSO!!
Dai-nos hoje – HOJE – AGORA!!
Amanhã será tarde e estaremos todos mortos de fome.
Da fome do corpo
Da fome da alma
Da fome do coração
Da fome da fome de viver.
Mas viver é proibido.
É permitido apenas sobreviver.
E, por favor, não atrapalhe!
Que a sua sobrevivência não enfeie o ócio dos ricos.
que a sua voz não se eleve acima da vala comum.
que sua sede não se aplaque -
a sua sede imensa de justiça -
que justiça não há.
Deus só prometeu o pão.
Preste atenção:
Aquela história do perdão ‘assim também serás perdoado’,
Aquela outra história do ‘livrai-nos do mal amém’,
Esqueça – foi tudo um mal entendido.
Afinal, quando ele veio ao mundo
não havia capitalismo
nem terceiro mundo
ou explosão demográfica
e centros de saúde para impedir os pobres de morrerem com dignidade.
Não havia creches para perpetuar a miséria das crianças
nem salário mínimo que aumentasse a humilhação do escravo,
que hoje perdeu o nome de ‘escravo’
mas não perdeu a servidão.
Dia após dia...
Aquela mesma agonia...
A vida sem alegria.
É comer poeira e lutar pelo pão.
É matar os sonhos, os ideais,
é sufocar o coração,
é desistir do amor, da amizade,
é morrer em vida
é morrer aos poucos
e pouco a pouco ir-se esquecendo que se é Homem
e sentir vergonha de pertencer a esta espécie.
Dia após dia...
Aquela mesma agonia...
A vida sem alegria.
Não existe outra opção.
É lutar pelo pão
e comer poeira (que o pão está muito caro)
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