25 de jun. de 2011

O pão

(Poesia classificada entre as 100 melhores no primeiro concurso de poesia do Shopping Miramar – Santos – em 1985  -  minha primeira poesia premiada)


Dia após dia...
Aquela mesma agonia...
A vida sem alegria.

É comer poeira e lutar pelo pão.

Pão a que temos direito.
Disse Cristo – o pão nosso – NOSSO!!
Dai-nos hoje – HOJE – AGORA!!

Amanhã será tarde e estaremos todos mortos de fome.
Da fome do corpo
Da fome da alma
Da fome do coração
Da fome da fome de viver.

Mas viver é proibido.
É permitido apenas sobreviver.
E, por favor, não atrapalhe!
Que a sua sobrevivência não enfeie o ócio dos ricos.
que a sua voz não se eleve acima da vala comum.
que sua sede não se aplaque -
a sua sede imensa de justiça -
que justiça não há.

Deus só prometeu o pão.

Preste atenção:
Aquela história do perdão ‘assim também serás perdoado’,
Aquela outra história do ‘livrai-nos do mal amém’,
Esqueça – foi tudo um mal entendido.

Afinal, quando ele veio ao mundo
não havia capitalismo
nem terceiro mundo
ou explosão demográfica
e centros de saúde para impedir os pobres de morrerem com dignidade.
Não havia creches para perpetuar a miséria das crianças
nem salário mínimo que aumentasse a humilhação do escravo,
que hoje perdeu o nome de ‘escravo’
mas não perdeu a servidão.

Dia após dia...
Aquela mesma agonia...
A vida sem alegria.

É comer poeira e lutar pelo pão.

É matar os sonhos, os ideais,
é sufocar o coração,
é desistir do amor, da amizade,
é morrer em vida
é morrer aos poucos
e pouco a pouco ir-se esquecendo que se é Homem
e sentir vergonha de pertencer a esta espécie.

Dia após dia...
Aquela mesma agonia...
A vida sem alegria.

Não existe outra opção.
É lutar pelo pão
e comer poeira (que o pão está muito caro)

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