2 de out. de 2013

A vida nos prega peças.




Aos 17 anos, bela e saudável, Jane estava noiva e passara no vestibular para medicina. Sentia-se, portanto, imensamente feliz.
Filha caçula de uma viúva remediada, Jane vivia com a mãe e o irmão na periferia de São Paulo. A mãe tinha evidente predileção pelo filho, desde a mais tenra idade; mimava-o e insistia para com Jane para que esta servisse ao irmão em uma série de pequenos favores, como se, por ser mulher, devesse servir de criada a uma criatura preguiçosa e arrogante como Eduardo – assim chamava-se o irmão. Esse era um constante motivo de desentendimento na família.
Amélia, a avó, vivia na vizinha cidade de Diadema, na companhia de dois cachorros, ocupada com suas costuras e suas freguesas, apoiando a neta tanto quanto incentivando o neto a estudar e a abandonar as noites de boemia com os amigos de bebedeira.
Com tal estrutura familiar, a meiga Jane logo aprendeu a ser independente e a valorizar suas próprias opiniões.
Embora estudiosa, aplicada aos estudos, tendo melhores notas que o irmão e sendo constantemente elogiada pelos professores, Jane não contava com a simpatia da mãe para seus projetos profissionais. Havendo encontrado, aos quinze anos, um rapaz de boa família, filho de médicos, que se encantara por ela, por que não dedicar-se à culinária e aos bordados, como uma mulher sensata, insistia Leonor. Porque o rapaz pode morrer, mudar de idéia ou empobrecer – respondia a avó Amélia, em cumplicidade com a neta – e não se deve nunca depender de ninguém, e muito menos de um marido.
Dando de ombros, amuada, Leonor dava as costas à mãe e à filha. Justo ela, que, viúva precoce, por sua baixa escolaridade passara por tantas amarguras e apertos financeiros, por sua experiência pessoal devia apoiar a independência da filha, pensava a avó, admirando-se de que , ao contrário, Leonor insistisse em escolher um caminho mais bajulador e conformista.
Fernando, noivo de Jane, cinco anos mais velho que esta, já cursava o terceiro ano da mesma faculdade em que Jane entrou como caloura, pois levara três anos em cursinhos antes de conseguir a vaga. O fato de Jane entrar na primeira tentativa, antes de deixá-lo orgulhoso, antes o deixou constrangido. Também porque ele, sendo solteiro, se antes podia entregar-se a aventuras amorosas, longe dos olhares da noiva, agora se sentia reprimido e até mesmo invadido pela presença desta na mesma escola, no mesmo hospital, entre os mesmos professores e colegas. A doce e inocente Jane de longe nem suspeitava das infidelidades do noivo, que julgava casto e sincero.
Jane era independente, moralmente forte e sua aparência frágil escondia uma notável iniciativa.  Se estava apegada ao noivo, era mais por comodidade e afinidade de opiniões que por paixão. Este rapaz fogoso mantinha com ela um relacionamento platônico por conformismo, pela beleza da garota, e pela vaidade de ser visto pelos amigos em tão bela companhia.
Jane tinha a pele branca, do tipo que dificilmente se bronzeia, contrastando com longos e negros cabelos ondulados, e olhos verdes escuros que davam a seu rosto uma aparência felina, a um tempo sensual e selvagem. No entanto, sem vaidade, exibia seus dotes naturalmente, sem maquilagem ou penteados exagerados, o que lhe acrescentava um quê de inocência a aumentar o fascínio que, sem o saber, exercia sobre os homens.
Assim era Jane no momento em que se inicia na vida acadêmica.


No primeiro dia de faculdade, Jane sentou-se no anfiteatro a arrumar sua papelada, em meio a outros tantos calouros, quando sentiu sobre si o olhar insistente de um garoto gordo e grandalhão, sentado a poucas fileiras atrás dela. O rapaz, que não afastou o olhar ao ser surpreendido em sua insistente admiração, a desconcentrou profundamente.
Quando Fernando apareceu, para sentar-se junto a ela e protegê-la um pouco do que poderia ser um trote excessivo, ou para proteger a si mesmo do que poderia ser uma indiscrição de seus colegas de turma, Jane mostrou-se expansiva e tagarela. Ao fim do intervalo de classe, contudo, Fernando tinha de voltar a seu laboratório e Jane ficou de novo entregue às brincadeiras do primeiro dia acadêmico.
Ao final da tarde, quando ela descia do estrado para dirigir-se à saída, o rapaz gordo e grandalhão estava parado à porta, esperando por ela, apresentou-se, chamava-se Augusto, e perguntou o nome dela.
- Jane, e sou noiva – disse ela, tentando desviar-se dele.
- Eu vou casar-me com você, Jane – respondeu ele, muito serio. – esse seu noivo aí, preste atenção, não vale metade da atenção que você dedica a ele.
- Vou casar-me ainda este ano, seu atrevido – retrucou ela.
- Veremos – disse ele, e retirou-se, deixando-a profundamente irritada.
Na mesma tarde, Jane estava desabafando com duas novas colegas o despropositado comportamento de Augusto, surpresa consigo mesma pela facilidade com que se sentia estranhamente próxima destas moças até então desconhecidas. A necessidade de companhia a deixava mais receptiva à amizade, e mais confiante. Por outro lado, era uma maneira de ela afirmar sua posição neste novo território – noiva, admirada, sensualmente poderosa.
O primeiro mês de estudos foi intenso – tantos nomes a decorar, tantas páginas a serem lidas por dia, tantas matérias novas e absorventes, e professores tão exigentes! Pobre Jane, mal tinha tempo de dedicar-se aos livros, quanto mais ao noivo. De mais, tinha de correr para pegar o ônibus de volta a casa, acordar de madrugada, até que a mãe arrumou para ela um apartamento provisório próximo à faculdade, emprestado por uma amiga, que o dinheiro ia todo na mensalidade.
O irmão, enciumado, reclamava por todos os motivos possíveis – ficara com mesada menor, na necessidade de dividir o dinheiro da mãe com a irmã, pressionado a arrumar estudo ou trabalho, por causa das crescentes despesas da casa, sentindo-se diminuído a comparar-se com a inteligente irmãzinha; perdia as mordomias e era convidado a assumir responsabilidades de adulto, o que, obviamente, não estava em seus planos.
Eduardo começou a cochichar no ouvido da mãe que as meninas só se dedicavam aos rapazes, a faculdade era um mero pretexto para arranjar marido médico, Jane nunca trabalharia, iria dedicar-se aos filhos e todo o dinheiro gasto em sua educação seria desperdiçado.
Então veio a bomba – Fernando engravidara uma colega de turma e ia casar-se com ela.
Jane, aturdida, não conseguia entender. Uma colega de turma? Então ele tinha outra? Ele, seu noivo!
Outra, não, outras – ficou ela logo sabendo pelas piadinhas que circularam rapidamente pelos corredores da faculdade.
O pior foi receber a comunicação no pátio da escola, pelo próprio Fernando, pressionado pela futura mãe de seu filho inesperado, acovardado ante a possibilidade de uma escândalo acontecer entre a garota grávida e Jane. Que, aos prantos, sentou-se junto às novas colegas para desabafar – ah, a necessidade de compartilhar! Quão rapidamente as emoções transformam estranhas em amigas. E amigas mostraram-se logo Célia e Esmeralda, amparando, confortando, oferecendo seu próprio apartamento para Jane passar a noite na companhia delas, e não sozinha.
Uma notícia daquelas correu o campus rapidamente; consternados, os colegas de Jane a olhavam penalizados e curiosos, respeitosamente distantes, para não piora a sua dor. Exceto Augusto, que a esperou à saída:
- Se quiser conversar, eu sou um ombro amigo.
Ela virou o rosto e não respondeu, grata por ele não ter repetido que Fernando não valia a metade da atenção que ela dedicara a ele.
Fernando casou-se ao final do mês, e teve a decência de trancar a matrícula e procurar emprego.
Jane, mortificada, suportou mal as críticas maternas, que tipo de mulher era ela que não sabia segurar um noivo? Horrorizada, Jane ouviu de sua mãe comentários absurdos sobre liberalidades que ela pensara serem absolutamente proibidas para moças de boa família. Revidou. A conversa desandou. Jane ofendeu a mãe. A mãe a expulsou de casa, dizendo que não pagaria mais um centavo da faculdade dela. Eduardo, chamado a tomar partido, apoiou a mãe, que o que a irmã dissera filha alguma dizia a uma mulher de respeito. Mulher que perdera direito a qualquer respeito, segundo Jane, após as insinuações desastradas que ouvira. Quando a briga ameaçou acabar em pancadaria, ela correu para a casa da avó, que a acolheu de braços abertos.
- Bem, querida, deixar a faculdade está completamente fora de questão. Se a sua mãe não se mostrar razoável, só vejo uma saída – você vem morar comigo e eu pago seus estudos.
Jane ainda tentou por quinze dias um entendimento com a mãe. Impossível. Eduardo estava aproveitando a ocasião para fazer ver que o dinheiro gasto com a faculdade da Jane podia muito bem servir para alicerçar um projeto seu, de iniciar um comércio lucrativo com um colega.
E assim, Jane mudou-se para a casa da avó, deixou o apartamento tão próximo à faculdade e recomeçou a rotina do bate e volta – que é como os estudantes chamam este vai e vem de ônibus, todos os dias, de uma cidade a outra, cansativo mas econômico.
As amigas de Jane mostraram-se verdadeiras. Pelos próximos quatro anos, elas a apoiaram, escutaram, incentivaram, e a recebiam para dormir nas vésperas das provas importantes, em que varavam a noite a estudar.
Augusto, discreto, ficava, todos os dias, ao lado da turma de estudos dela, até ser recebido e incorporado ao grupo.
O que era bem engraçado, pois o apelido do rapaz era Boca. Isso porque a potente voz de Augusto estava mais para tenor de ópera – quando ele tentava sussurrar, parecia estar gritando. A bibliotecária achava enternecedor aquele brutamontes que tentava ser gentil.
O fato é que Augusto, inteligente, respeitou a raiva de Jane. A moça ficara de mal com o mundo, incapaz de sentir ternura por qualquer homem que fosse. Estudar parecia ser o único propósito da vida da moça. Ter uma profissão era o mais importante, a única garantia de sobrevivência. Afinal, dizia ela, tenho de tomar conta da vovó na velhice, depois de todo o sacrifício que ela está fazendo por mim.
Assim passaram-se quatro anos.

Um belo domingo de férias, Jane estava espreguiçando-se na cama quando a campainha da porta tocou. A avó veio dizer a ela que um rapaz chamado Augusto estava a chamar por ela.
Mais do que depressa, Jane trocou de roupa, lavou o rosto, escovou os dentes e desceu.
- Eu nem tomei café – disse ela – quer me fazer companhia?
Augusto, pedindo desculpas por ter aparecido tão cedo, sentou-se a seu lado e começou a conversar com ela e a avó.
- Bem – disse ele – é que tenho um convite a fazer. Tenho dois ingressos...
Jane sentiu o pânico apoderar-se dela.
- Escute – disse Augusto – eu só estou pedindo uma oportunidade de me fazer conhecer. Saia comigo por duas semanas. Só vamos conversar. Se você achar que realmente não quer namorar comigo, eu não toco mais no assunto, voltamos a ser apenas colegas de turma e ninguém precisa saber disso além de nós dois. Por isso eu vim aqui hoje, porque estamos em férias. Não acho que esta nossa tentativa de conhecimento precise ser de domínio publico. Não que eu me incomode com isso, todo mundo sabe que eu adoro você. Afinal eu me declarei no primeiro dia de curso. Mas eu sei que você se importa. E que você ainda não resolveu me dar a oportunidade que eu espero. Saia comigo hoje, vamos nos divertir, e amanhã você decide se vai me dar esta chance ou não.
Jane ficou comovida.
Afinal, não precisava perder a fé na raça humana por conta de um único idiota que cruzara o seu caminho quando ela era ainda inexperiente. Ela sorriu, concordando, e Augusto se foi, prometendo voltar à noite.
A avó disse que ela fizera bem em aceitar. O rapaz podia ser gordo e ter um vozeirão, mas parecia inteligente e bem intencionado. E o maior incentivo para amarmos alguém é nos sentirmos amados, pensou a vovó, lembrando a citação de Jane Austen em A Abadia de Northanger, sem, contudo, comunicar à neta suas divagações, que se mostraram, na seqüência, acertadas.

Se havia um casal fisicamente destoante, este casal era Augusto e Jane.
Ela era pequena, magra, de constituição delicada. Ela alto, gordo, musculoso.
No entanto, ele a segurava de maneira gentil, ao dançar. Falava baixinho perto dela, gesticulando pouco, mais ouvindo que falando.
Ao final da noite, Jane estava rindo.  Mais precisamente, gargalhando.
Augusto estava encantado. Se uma mulher ri quando está ao lado de um homem, é porque está feliz, e, se está feliz, vai querer continuar ao lado dele.
Ele disse boa noite e não tentou beijar a moça.
No dia seguinte ela telefonou a ele e o convidou a lanchar.
Nas próximas duas semanas, Augusto ficou tão fisicamente distante quanto lhe foi possível, cumprindo rigorosamente o que havia prometido.
- E então, Jane, vai namorar comigo? – perguntou ele, ao fim de quinze dias.
- Você sabe que sim.
- Sei agora, porque você respondeu – disse ele, mas ainda não a beijou.
Mais tarde, ao final de um jantar dançante, à luz do luar, à beira da represa, ele roçou de leve os lábios pelos lábios dela. Com muita delicadeza. Com ternura.
Jane abriu os braços e o apertou contra o peito. O segundo beijo foi comandado por ela, sensual e ardente como ele sempre imaginara que ela fosse.

Ao fim do curso, dois anos depois, casaram-se e permaneceram juntos até a velhice.
Ela, forte em suas decisões, apesar da aparência frágil.
Ele, gentil, apesar da aparência de ogro.
Um afeto verdadeiro cresceu ao longo dos anos, aproximando cada vez mais suas almas. Corroborando o dito de  um pensador famoso, cujo nome agora foge à minha memória, e que se revelou verdadeiro ao primeiro beijo do casal: ‘o verdadeiro amor é tímido para o homem, ousado para a mulher’.








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