2 de out. de 2013

Trancafiado



Vivia eu em uma cidade penitenciária.
Meu castigo era viver na região do bafo – sem sol, sem chuva, sem vento – só bafo quente. Quando abre o sol a gente cozinha; quando chove, a gente vira anfíbio no pântano em que se transformam as ruas; quando venta, caem os telhados; e sempre há raios, não importa o tempo que faça. Nunca esfria, sempre esquenta, daí o bafo. A pessoa tenta respirar e não  consegue – só vem o bafo.
Sendo uma prisão domiciliar, não era tão má – era bom para a minha alergia que não houvesse ar condicionado por aqui.
Qual o meu crime? Desconheço, visto estar aqui desde que nasci. Meus pais, condenados como eu, sempre me disseram que eu devia tirar da cabeça minhas idéias estranhas de sucesso e amor. Diziam:
- Isso não é para você.
Não me lembro de manifestar um desejo ou esperança que não recebesse como resposta:
- Isso não é para você.
Pelo jeito como me olhavam, sei que o castigo deles era eu.
Quando eu voltava da escola, falava para meu pai:
- Hoje eu aprendi algo bem legal, quer ver?
Meu pai respondia que ele aprendera latim.
- Que pena que hoje não mais se ensine latim na escola. Agora vá brincar, papai precisa trabalhar.
Quando eu voltava da escola, falava para minha mãe:
- Hoje eu aprendi algo bem legal, quer ver?
Minha mãe respondia que fizera pastéis para o jantar:
- Quer um?
Quando eu ia para a escola, dizia para minha professora:
- Olha o que eu descobri, bem legal.
Ela respondia:
- Há muitas coisas legais, vamos ouvir os seus amigos primeiro, vá sentar.

Quando eu ia para a escola, dizia para cada um de meus colegas:
- Vai lá em casa brincar comigo, eu tenho um gato.
Cada um deles respondia:
- Eu brinco em casa com meus irmãos.
Eu não tinha irmãos.

Assim minha língua congelou. Se eu abria a boca, era para tossir. Eu engasgava a toda hora.


O tempo foi passando e fui crescendo. A princípio tinha grande desejo de morrer, pois,  a princípio pensei que a morte fosse alguma esperança de felicidade, coisa que ninguém sabe ao certo o que é, alguns dizem que é sonho, outros que é algo maravilhoso que acontece após a morte. Quero dizer, eu imaginava que depois que você morre, alguém vai chegar perto de você, abraçar, disser frases carinhosas, olhar nos seus olhos e realmente escutar o que você tem a dizer.
Eu queria então ir para o tal paraíso, para a casa do Pai, onde há muitas moradas, e onde todos são felizes, como dizia o padre da prisão. Eu sei agora que o padre é, também ele, prisioneiro de suas crenças.
Aí comecei a sonhar com o outro lado da vida, porque sonhar é um dom que eu tenho, eu sonho quando os demais dormem, e percebi que aqui é como lá. Fui me convencendo que, lá como aqui, serei o mesmo, sem família aqui, sem família lá, sem amigos aqui, sem amigos lá, para sempre um condenado. E perdi o gosto por morrer.
Comecei a prestar atenção nas coisas a meu redor.
As provações, até ontem, variavam no decorrer do dia.
Há um presídio chamado Trabalho. Ali as pessoas perdem seu direito ao lazer, à boa alimentação e à aposentadoria. No trabalho, as pessoas não se olham, não se falam, não se tocam – a não ser para perguntar se você já fez a sua parte do trabalho. Ninguém entende muito bem o que está fazendo, porque cada um só recebe instruções relativas à sua pequena porção do trabalho, então se alguém telefona e pergunta se tem isto ou aquilo, ninguém sabe responder, a não ser que a pessoa pergunte especificamente sobre o que você faz; e também não sabemos dizer onde ou quando encontrar esta ou aquela pessoa ou departamento, pois, é claro, estas informações, nós não temos, cada um conhece apenas o seu setor. A telefonista nunca repassa os telefonemas de nossos familiares, pois não sabe os nossos nomes – somos apenas condenados.
Quando eu cheguei para trabalhar aí na primeira vez, as pessoas colocavam papéis sobre a minha mesa sem falar nada, e depois retornavam e olhavam para ver se eu havia assinado os ditos papéis. Eu dizia:
- Bom dia, como é o seu nome? - Ninguém respondia. Eu continuava:
- Se vamos trabalhar juntos, seria bom sabermos os nossos nomes, eu sou ***.
De nada adiantava, eles me olhavam como se olhassem para alguém que falasse sânscrito.
Se eu perguntava: quem estava na sala antes de mim? Sicrano ou Fulano? Alguém me respondia, por exemplo (não posso dizer quem, pois eles não me haviam dito seus nomes):
 - Havia uma pessoa aqui, um homem, mas não sei quem era.
Assim vai.
Se algum cliente perde algo, um documento, por exemplo, há uma caixa em que são colocados os papéis perdidos. Se alguém telefona e pergunta pelo documento que perdeu, recebe como resposta:
- Não sei, senhor, temos alguns papéis dentro de uma caixa, o senhor que vir olhar?
Mas quando a pessoa vem olhar, os supervisores dizem:
- Como vamos saber se o senhor é mesmo quem diz ser? Não, o senhor não pode olhar na caixa, precisa me dizer o seu nome primeiro.
O cliente fica bravo e diz:
- Porque não me fizeram esta pergunta pelo telefone?
Mas ninguém sabe responder, e ficam chateados porque o público é tão sem educação com os funcionários.
O público é o castigo dos funcionários, como os funcionários são o castigo do público, mas eles demoram para perceber este detalhe.
A mesma coisa acontece com os remédios – alguns podem ser retirados, outros não, alguns são acrescentados à farmácia, outros são excluídos, mas as pessoas que trabalham nos estoques nunca tem a mesma informação que as pessoas que recebem as receitas, nem as pessoas que entregam os remédios, de forma que, todos os dias, há pessoas com receitas de remédios que não existem mais, e pessoas não podendo retirar remédios que não estão no estoque, e há sempre médicos discutindo com farmacêuticos, e ninguém nunca pode resolver nada, pois a pessoa que compra os remédios é um burocrata saudável que não entende nada do assunto.
Há um livro de regras sobre a mesa – as regras variam de um dia para o outro, mas ninguém avisa. Consultar o livro também não adianta muito, porque a pessoa encarregada de atualizar o livro de regras, não é avisada quando as regras mudam, pois ela não usa as regras, e sim nós, assim, porque avisar a pessoa que escreve o livro de regras? Parece lógico, não? Algumas regras estão na internet, mas não podem ser impressas e não tenho acesso a computador – a pessoa que tem acesso ao computador não segue as regras, e não vai parar o seu trabalho para que outros leiam regras que não dizem respeito ao trabalho dela.
Nos dias feriados, é quando os desencontros são maiores – os chefes esquecem de avisar os funcionários que o feriado foi decretado, e quando lembram de avisar os funcionários, não avisam aos clientes, de maneira que sempre tem gente na frente do prédio nos dias em que o prédio está fechado. Certa vez, minha chefe disse: Estou de férias – mas estava trabalhando. De outra vez, ela não foi ao trabalho,  sem avisar ninguém, para que pensassem que ela estava trabalhando quando na verdade estava gozando os dias de férias em que havia trabalhado, e é claro que foi punida por isto.
Certo dia, reformaram o prédio em que trabalho. Quando eu cheguei para trabalhar, a porta estava fechada, mas meu colega estava lá dentro. Ele não podia sair, eu não podia entrar. O pedreiro falou que fechou a parede como lhe haviam pedido, este era o serviço dele. E insistiam em que eu entrasse, embora não houvesse porta nem janelas. Meu colega estava contente – pelo menos, disse ele, haviam deixado o ar condicionado lá dentro.
Há apenas vinte salas, para duzentos funcionários. Um entra, outro sai, todo mundo aparece para tomar um cafezinho a qualquer hora, pois a sala do café é a única bastante grande para nos conter a todos.
- Ei – ordenou o chefe – vocês não podem ficar aqui todos ao mesmo tempo, pois as pessoas vão pensar que há muita gente sem trabalhar, então só fica aqui quem couber na sala, um de cada vez.
Assim, sempre há vinte pessoas se ocupando de alguma coisa por ali. Quando uma pessoa nova chega, quem está dentro sai. Simples assim. E a gente pode então ficar circulando pela praia, pela praça, só não pode parar em canto nenhum, para não parecer que está à toa.
Um dia, cheguei na sala em que trabalho e havia uma tomada aberta, com os fios expostos. Chamei, um a um, todos os que trabalhavam por ali e avisei: é preciso chamar alguém da manutenção pra consertar esta tomada, uma criança pode se machucar aqui. Ninguém podia chamar o eletricista, pois ninguém tinha esta função. Nem mesmo a chefe da manutenção, pois ela só podia receber ordens do diretor, e o diretor não havia pedido para chamar o eletricista. Ora, o eletricista passou pela minha sala e me cumprimentou. Eu lhe disse: Como faço para poder consertar esta tomada? Ele me respondeu: Você não faz, faço eu. Abaixou-se, consertou a tomada, e disse: Porque não me mandou chamar antes? É um perigo, esta tomada aberta...
De outra feita, acabou a luz. Eu saí da sala e fui até a sala do chefe. Ele me disse:
- Hoje você brinca de Batman. Vai trabalhar na caverna.
E ficou muito bravo porque eu comecei a atender as pessoas no pátio, onde havia claridade e eu podia enxergar o que escrevia. Eu, a insubordinada, criando confusão.
Um dia choveu muito, muito. A água subiu a quase um metro. Gotas escorriam pelos lustres, até o segundo piso inundou; não havia eletricidade, as escadas estavam escorregadias. Os guardas começaram a colocar barricadas à frente das escadas, pois as pessoas idosas queriam ser atendidas assim mesmo, e os velhinhos começaram a pular sobre os bancos, com perigo de cair. Um dos guardas, ao tentar segurar os desobedientes, levou guardachuvadas. Nós saímos às pressas do prédio. E nem podíamos ir embora, pois até o estacionamento estava debaixo d’água e os motores dos carros, encharcados, não funcionavam. Mesmo assim, todos nós assinamos o ponto, pois ninguém foi dispensado. Ninguém recebeu autorização de fechar o local.
Como estou cumprindo pena, não tenho amigos, somente companheiros de castigo.

Por exemplo,  a vizinha de baixo, enclausurada viva com duas crianças pequenas e dois cachorros, e que, todas as manhãs, está condenada a lavar roupa, abrir a grade da janela, pendurar a roupa lavada no varal, fazer faxina, banhar todo mundo, cozinhar, passar e, no dia seguinte, recomeçar. Ela grita constantemente que é uma infeliz sem sorte na vida e sem direito a fazer nada do que gosta, e que ninguém a ouve (esta parte, suponho ser verdadeira.)
Seu marido, condenado às galés, sai de casa toda madrugada no mesmo horário que eu – às vezes ele não sai, entra, voltando do turno; nessas ocasiões eu pergunto: cansado? E ele me diz: sim, mas preciso dar de comer às crianças, minhas queridas filhas. Boa gente, o rapaz, condenado a conviver com uma mulher infeliz.
O vizinho do lado, sempre risonho, deve estar cumprindo pena por furto. Diariamente rouba o meu jornal com a maior cara de pau, na minha frente, a cumprimentar-me sorrindo – como vou provar que é o meu jornal que está na mão dele? Simples, ele não assina jornal, mas como é que eu vou provar uma coisa dessas?

O vizinho da frente constrói e reconstrói sua casa – faz sempre muito barulho e a polícia sempre aparece para multar, advertir ou guinchar  o carro que ele espreme como pode entre as garagens existentes. De qualquer modo, ele mora entre os escombros da reforma que nunca interrompe. (certa vez um sábio me disse: reformas nunca terminam, elas são interrompidas em algum ponto) Ele é castigado por querer o melhor para si.
Meus  companheiros se reúnem de tempos em tempos, para fazer coisas em comum, como escrever ou ler ou tomar lanche ou ir ao cinema, mas ninguém realmente fala de seus pensamentos, sentimentos ou projetos, pois isso seria violar a condicional, embora todos estejam condenados a prisão perpétua.
É curioso... de vez em quando, um envia para o outro mensagens eletrônicas afirmando : jamais me esquecerei de você, ou você é muito especial para mim, e sempre com o pedido: retorne este correio para mim, e a gente repassa e retorna, por puro costume. Seria realmente constrangedor se as mensagens fossem sinceras: que se dane, eu não estou  nem aí para você.
Olhamos uns para os outros desconfiados, certos de que o outro mente; imaginamos quais serão suas perversões e em que momento seremos vistos como a próxima presa.
É curioso, uma vez por ano, as pessoas se encontram para confraternizações de Natal ou de aniversário, tiram fotos próximas umas das outras, sorrindo, trocam cartões com os dizeres: amizade eterna ou algo equivalente.
Um dia alguém me explicou: é um treino. Quando o período de prisão acabar, as pessoas precisam saber como se comportar lá fora, no mundo real, quando encontrarem familiares e amigos de verdade.
A esperança brilhou em meu coração: então existem familiares e amigos de verdade?
Alguns prisioneiros conseguem construir arremedos de relacionamentos neste deserto onde vivemos. Ouvem as mesmas músicas, lêem os mesmos livros, riem de algumas palavras que para eles têm algum sentido que me escapa, alguns partilham histórias pessoais. As pessoas que se ajuntam têm memórias de infância em comum, afinidades, interesses compartilhados.
Não eu. Eu sou original.
Por exemplo, eu sonho colorido. Por exemplo, eu filosofo.
Por isto eu fui colocado na solitária. Para que eu não provoque uma rebelião, dizem os carrascos.
Como eu poderia organizar uma rebelião se ninguém me ouve?
Eles, no entanto, são precavidos.
A solitária é uma pele fina, que me encerra em um corpo dotado de olhos que só enxergam sete cores e de ouvidos que só ouvem alguns poucos sons.
Nele não posso voar.








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