A história correu pela empresa
mais depressa que e-mail de bobagens.
Temporada de verão, venda de
cervejinha gelada na areia quente da praia bombando, rendendo um dinheirinho
extra para curtir mais tarde com as menininhas, e o trabalho atrapalhando, ia
pensando o garotão. Claro que é melhor estar entre a mulherada em trajes
mínimos, em uma paisagem de cartão postal, do que embarcar sacaria no porto.
Porém, acabando as férias, o
cartão da firma garantiria as compras do mês, sem falar no décimo terceiro, e em
todas as outras vantagens do seu trabalho em carteira, aliás, o primeiro de
Zezito.
Bem, tudo começou por causa do
Bola. O amigo garantiu ao Zezito que ninguém na firma ia descobrir. Ele
morreria com duzentos e cinquenta pilas e teria quinze dias garantidos para
aproveitar o verão. Ele, Bola, fazia isso sempre, o arranjo era quente.
- Que consulta cara!
- Mas que consulta que nada! É
atestado, só. Falsificado, mas verdadeiro, quer dizer, receituário do hospital
do convênio da empresa, carimbo verdadeiro de médico, tudo certinho como se
fosse um atestado de verdade. Perfeito, por isso é assim caro.
- Como pode?
- Sei lá, vai ver que tem algum médico dando assessoria, que a classe médica tá numa pindaíba tamanha, pelo que a gente ouve os doutores reclamando.
- Como pode?
- Sei lá, vai ver que tem algum médico dando assessoria, que a classe médica tá numa pindaíba tamanha, pelo que a gente ouve os doutores reclamando.
A tentação era grande, e o Zezito
arriscou.
Atestado em punho, na sexta-feira
foi até o ambulatório médico, e a secretária, ao invés de arquivar o atestado,
como fizera com os atestados dos outros funcionários na frente dele, falou para
Zezito esperar, que o doutor ‘com
certeza’ ia querer falar com ele.
Zezito, novo na firma, só
conhecera uma doutora, que o examinara na admissão. Dos outros doutores, eram
três, não sabia nem o nome.
Não estranhou nada a movimentação,
os telefonemas, os entra e sai do pessoal de branco, pois não estava mesmo
acostumado com o trabalho dos paramédicos. Nem quando o chefe dele apareceu por
ali e entrou na sala de um médico, junto com o diretor, ele estranhou, pois
esta gente toda bem podia estar indo em busca dos exames e remédios deles, que
sabia o Zezito? Ou mesmo fiscalizando o
serviço dos enfermeiros, checando compras, e, de soslaio, ao saírem para o
corredor, olhavam para ele, como deviam olhar para todo mundo....
Depois de um tempão, finalmente
um dos médicos chamou o Zezito, mas não entrou com ele no consultório, não.
Saiu para o corredor, onde estavam o supervisor dele e o diretor, assim como
quem não quer nada, e perguntou alto ao Zezito:
- O senhor já me viu antes?
- Nunca, doutor.
- O senhor já me viu antes?
- Nunca, doutor.
- Suponho que não, pois eu também
nunca vi você.
Zezito, encarado pelo médico, não
sabia o que dizer.
- Pode me descrever o médico que
atendeu você?
- Como?
- Descrever, dizer como ele era, gordo, magro, careca, velho, moço...
- Como?
- Descrever, dizer como ele era, gordo, magro, careca, velho, moço...
Zezito começou a suar frio. Mas
ele era esperto, e desconversou.
- Sei, não,
doutor, eu estava com muita dor e não prestei atenção, não.
- Quer dizer que se encontrar o médico na rua não vai saber dizer se já viu ele antes.
- Não , senhor – respondeu o rapaz, sentindo-se estúpido. Mas vai que o outro conhecia, e ele descrevesse o sujeito errado...
- Quer dizer que se encontrar o médico na rua não vai saber dizer se já viu ele antes.
- Não , senhor – respondeu o rapaz, sentindo-se estúpido. Mas vai que o outro conhecia, e ele descrevesse o sujeito errado...
- Mas o nome do médico você sabe?
- Tá aí no atestado, doutor, eu não lembro, não.
- Tá aí no atestado, doutor, eu não lembro, não.
- Você é sempre assim esquecido,
rapaz?
Zezito se encolheu. Que idiotice, ele deveria, ao menos, ter lido o nome do médico no atestado, mas na pressa...
Zezito se encolheu. Que idiotice, ele deveria, ao menos, ter lido o nome do médico no atestado, mas na pressa...
- O problema, companheiro, é que
este médico não trabalha neste hospital, não.
- Como não, doutor? Pois ele não
assinou o nome dele aí e carimbou direitinho?
- Com certeza, não.
- Com certeza, não.
- Não?
Zezito, atrapalhado, olhava para
o atestado na mão do médico, sem entender, pois via lá a assinatura, o
carimbo...
- Isto aqui vai dar polícia,
companheiro. – interveio o diretor.
O médico espremeu os lábios,
sério; o supervisor olhava duro, e o diretor cruzara os braços, ameaçador.
Zezito sempre ouvira dizer que, em uma emergência, a ameaça era a melhor
defesa, e, ousadamente, arriscou:
- Olha, doutor, se tem algum
problema com o atestado aí, é melhor o senhor se entender aí com o seu colega,
porque ele é que escreveu errado aí. O senhor deve conhecer ele.
Aí o médico riu.
- Ah, se conheço! Muito bem,
aliás, pois sou eu mesmo!
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