Sou uma mulher
doente. Muitas vezes sou desagradável. Não sei evitar esta inquietação que me
domina e me indispõe contra toda gente alegre que encontro em meu caminho.
Olhar
indiferentemente ou mesmo com alegria a felicidade alheia, para quem dela se
sabe privado para sempre, é um desafio.
As pessoas
sociáveis, aquelas que nunca cresceram
em famílias numerosas, que na infância nunca ficaram sozinhos, e pela mocidade
afora até os dias atuais se vêem cercadas de amigos, ou pelo menos de conhecidos
bem intencionados, nem imaginam quão dolorosa é a solidão do que não teve
irmãos para compartilhar sua meninice.
Desde bem pequena,
eu sinto esta presença faltando a meu lado. Parece complicado de entender,
falando assim no negativo, mas é isto mesmo que eu sinto desde que me conheço
por gente: uma ausência de alguém que deveria estar aqui. Eu me lembro, eu ria,
conversava, virava para o lado para compartilhar a vida com... quem? Bem, não
havia ninguém por perto, mas deveria haver. E a constatação de que eu estava
sozinha doía imensamente.
Quando fui para a
escola compreendi que o que eu buscava era um irmão, e perguntei insistentemente
a minha mãe pelo meu irmãozinho. Eu havia por força de ter um irmãozinho em
algum lugar. Não, dizia mamãe, você é filha única, nunca teve irmão nenhum.
Debalde. A presença deste irmão estava bem ali, palpável, eu quase podia sentir
sua respiração. Eu fora adotada? Bem, descobri logo que depois de perguntar
‘uma bobagem dessas’ eu devia sumir por horas da frente de minha inconsolável e
indignada mãe, e, portanto, descartei esta possibilidade.
Quando cresci mais
um pouco, perguntei a meus pais se eu havia tido um irmão que morrera, ou se eu
havia sido o gêmeo sobrevivente de alguma catástrofe uterina. Olharam-me
horrorizados, negaram veementemente e pediram que eu tirasse estas idéias
estranhas de minha cabeça.
Mas a presença
estava ali, constante, quase a suplicar que viesse brincar e conversar, e eu
bem que queria, mas com quem?
E nos momentos em
que eu estava triste, em que estava, por exemplo, de castigo, sentindo-me
injustiçada – quantas vezes são as crianças punidas por coisas que não fizeram
nem disseram, sem poder contradizer os adultos – bem, nesses momentos, a
presença estava ali quase palpável, quase a tocar fisicamente meus ombros, a
consolar-me: sim, eu entendo, estou a seu lado, conte comigo, sim, eu me
importo com você.
Enquanto eu
crescia, sempre que me via em dificuldades, atrapalhada para atravessar uma rua
ou para resolver um problema de álgebra, podia afirmar que ouvia a voz amiga a
dizer: estou aqui. E eu olhava ao redor, inquieta, angustiada, procurando pela
pessoa invisível que eu queria tanto conhecer.
Assim passou-se a
infância, e a adolescência correu célere rumo à juventude, em meio a tantos
livros e cursos, tanta coisa que inventavam para me por longe das tentações do
sexo oposto – como se as danças e os risos pudessem engravidar ou estragar uma
mulher.
Bem poderiam se
poupar ao trabalho de me vigiar, meus pais, professores e parentes. Eu, tão
sozinha, tão desagradável, tão inepta no trato social, tão apavorada com os
comportamentos de namoro dos quais não entendia nada, que preferia me trancar
horas e horas em meu quarto a escutar sinfonias, óperas, ler os clássicos,
enfim, tornar-me dia a dia mais esquisita do que me julgavam os de minha idade.
No entanto, alguém me compreendia e me apreciava – o outro, este outro que um
dia eu identifiquei, logo se entenderá o porquê, como masculino.
Uma grande confusão
se formou em minha mente a partir do momento em que os pensamentos deste outro
se misturavam agora claramente aos meus, em um dialogar incessante sobre tudo,
amigável, inteligente, um tanto irônico, a amenizar a terrível solidão moral em
que eu vivia. Sua voz estava sempre presente, e me confundia com idéias e
observações masculinas que me faziam por vezes corar: olha, a tua amiga Maria,
tão bela, seus lábios carnudos são um convite tentador a um beijo mordido. E eu
sentia meu rosto quente, confusa.
Eu me interessava
muito por psicologia, lia sofregamente tudo que me caísse nas mãos sobre
comportamento humano, Freud, Jung, Reich, Lowen. Piaget. Maria Montessori.
Quase desabei quando descobri o caos que pode se abater sobre a libido humana.
A intersexualidade me deixava perplexa. Então não somos, homens e mulheres, distintos
em nossa intimidade celular, pois simplesmente um braço curto em um par
cromossômico e temos os mesmos hormônios -
testosterona e progesterona - em nossos corpos, e apenas suas doses
relativas é o que nos torna tão dessemelhantes.
Eu não sabia mais o que eu era. A meus pensamentos amorosos de maternidade se misturavam estranhos desejos libidinosos pela beleza feminina, sem que, no entanto, eu de fato não sentisse nenhuma atração por outras mulheres. E a voz se ria de mim, e eu sabia que estes pensamentos estranhos todos não eram meus, e sim dessa presença oculta em minha vida.
E foi assim que eu
soube que meu gêmeo era homem.
Pois embora minha
mãe e meu pai negassem, e até se aborrecessem com minha insistência, a única
explicação que eu encontrava para este estranho fenômeno era que eu houvesse
tido um gêmeo. E lá no intimo crescia esta certeza, de que eu era a gêmea de um
rapazinho tão solitário e desejoso de companhia quanto eu.
Sofri muito na
adolescência, imaginando uma outra possibilidade, a esquizofrenia. Os
esquizofrênicos ouvem vozes. E eu me contorcia de terror ao pensar nesta
possibilidade, mas o outro ria. Ora, que bobagem! Eu estou aqui, e me importo,
e sinto um bocado a sua falta.
E eu li. As vozes
esquizofrênicas, todas, tem lá suas intenções ocultas, mandam as pessoas
matarem, mentirem, fugirem. A minha voz não era delirante. Era uma voz
tranqüila que simplesmente estava ali e me chamava a conversar, para matar a
solidão. Nunca falou mal de ninguém, nunca me incitou ao mal.
Também não se
parecia em nada com aquela voz da consciência, nascida das experiências de
infância com papai e mamãe, sendo na realidade a internalização dos
ensinamentos recebidos de nossos amorosos cuidadores, aquela voz que grita em
nosso ouvido quando estamos a atravessar a rua distraidamente: Cuidado! Preste
atenção no sinal!
A minha voz também não se parecia com a intuição que nos fala em momentos especiais – Pega um guarda-chuva, pode chover – ou coisas banais e úteis como esta.
A minha voz também não se parecia com a intuição que nos fala em momentos especiais – Pega um guarda-chuva, pode chover – ou coisas banais e úteis como esta.
Não, a minha voz
não se enquadrava nas descrições dos psiquiatras, psicólogos nem teólogos. Eu
não era, definitivamente, nem a versão feminina de Mr. Hyde nem uma nova Joana
d’Arc.
Eu apenas sofria, e
como sofria, por ser tão diferente e tão sozinha.
Cresci, assim,
ocultando o meu segredo. Fiz medicina. E nos livros descobri mistérios
biológicos. Como o da mulher que tinha filhos cujos DNA não eram compatíveis
com o dela, até que um estudo genético demonstrou que seus ovários e seu sangue
forneciam duas leituras cromossômicas diferentes. E o do homem cujo sêmen não
era compatível com o resto de suas células. E aquele outro, em cujos órgãos se
liam duas linhagens gênicas distintas. Mais incrível do que qualquer ficção, a espécie
humana vez por outra cria indivíduos mosaicos.
A explicação chegou
aos cientistas através de certas crianças com tumores estranhos, dentro dos
quais se encontravam dentes, olhos, por vezes um membro inteiro, fragmentos de
cérebro e até cabelos. Teratomas. Fetus in fetus. Em raríssimos casos, uma
gestação gemelar se interrompe pela morte de um dos fetos, que é absorvido pelo
outro, cresce dentro do outro, e, se em estágio bem recente, quando ainda tem
apenas oito ou dezesseis células, é assimilado e cresce par a par com as
células de seu gêmeo vivo, originando um mosaico – duas linhagens de células
funcionantes com carga genética distinta. E foi assim que eu finalmente
sosseguei. Descobri a causa de minha anômala personalidade, de minha incansável
busca pela presença ausente, tão desejada, tão querida e tão impossível como a
historia mitológica de Castor e Pólux.
Castor e Pólux, os
gêmeos nascidos da mesma mãe porém de diferentes ovos.
O nome científico
de minha rara condição vêm também do grego. Eu sou uma quimera.
publicado em livro - prêmio edição 8º lugar
Concurso de Contos 2013 Bigtime Editora
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