Loira e linda, Carla ficou décadas
amarrada àquele alcoólatra – traste inútil, era como ela se referia e ele -
embora dormindo em quartos separados. O coitado, afinal de contas, não tinha
outra família a não ser ela e os filhos, não tinha condição de se manter em
nenhum emprego, por causa da bebida, então ela ficava com ele, garantindo
comida, o contato com os filhos e os remédios dos quais ele precisasse, na
esperança de que, um dia, o traste, ao menos pelos filhos, criasse ânimo para
se tratar. Nada. O que aconteceu é que o traste ficou com câncer, e o trabalho
de Carla aumentou – tinha de voltar para casa e cuidar da comida especial, da
fisioterapia, das consultas freqüentes ao hospital; depois vieram as
internações, cirurgias e o estágio terminal lento e doloroso, ao menos o
infeliz tinha o consolo de ver os filhos, e, nos últimos meses, estava sempre
sóbrio.
Ela não via a hora, dizia, de se
ver livre do traste e poder, enfim, sair à procura de um homem decente e
reconstruir a própria vida.
Para minha surpresa, depois do
funeral, Carla apareceu toda chorosa, inconsolável com a perda do ‘amado’,
homem ‘tão bom’.
Mordi a língua. Será que minha
memória estava assim tão ruim?
Que nada. Outras colegas
confirmavam minhas lembranças. O traste, depois de morto, virara o amado.
Dei corda. Comecei a perguntar: e
agora, vamos sair para dançar e arrumar um namorado?
Que nada, depois daquele marido
tão bom, não quero saber de outro, não.
Bom?
E como, homem bom tava ali,
sempre alegre, sempre prestativo. A gente chegava e lá vinha ele sorrindo,
contando piada, brincando com as crianças. Festas de família, churrascos aos
domingos, eram uma alegria só. Agora a casa está vazia e silenciosa que dá até
dó. E descrevia-se como uma mulher de sorte, por ter tido um marido assim tão
generoso, de tão grande coração, outro assim ela não ia achar, não, que sorte
grande não sai duas vezes pra ninguém, não.
Pasma, eu engolia em seco.
Lembrei-me de Rute.
Rute tinha um marido realmente
bom, mas ela aporrinhava o pobre homem o tempo todo. Mulher chata estava ali.
Um dia o marido adoeceu, ficou com câncer, e Rute teve de acompanhar o
tratamento, o que fez com a maior má vontade, dizendo que não via a hora
daquela via crucis acabar para ela poder retomar sua vida e tomar outro rumo,
quem sabe arrumar um emprego, viajar – que ela adorava viajar e ele, não –
talvez conhecesse um homem melhor, que a compreendesse, porque aquele, caladão,
não gostava de conversar.
Pois foi o marido morrer e Rute
debulhar-se em lágrimas de saudades. Viajar – como? Sem ele? Que graça teria?
Sair para passear? Nem pensar. Era viúva e sua vida estava acabada. Ai, que
falta lhe fazia o Valdemar.
E a turma, indiferente, a deixava
chorar sozinha e mal dava papo. Afinal, todas nos lembrávamos do modo como ela
tratava o pobre marido doente.
Remorso ou má memória?
Melhor não pensar muito no
assunto, que, como diz um psicólogo amigo meu, não adianta nada ficar jogando
xadrez com a vida, pois ela sempre nos surpreende com algum lance inesperado.
Fiquei sem ação quando Rute
começou a chorar: ah, que saudades do marido!
Nova na turma, eu fizera amizade
com Amanda e fiquei surpresa com a indiferença dela – e de todas as outras. A
própria professora afastou Rute do recinto com certa frieza, e retornou para
dar aula sem comentar o ocorrido.
Ao sair, comentei com Amanda que
Rute deveria estar se sentindo muito sozinha. E ela:
- Você é nova aqui, e não lembra
quando ela falava do marido doente, quase socando a própria cabeça: eu não
agüento mais, não agüento mais, queria que isto acabasse logo, não suporto mais
tomar conta daquele homem!
Acompanhei mais
de perto a sina de Cléo. Durante anos, Cléo reclamara da desditosa sina de
mulher de alcoólatra. Loira e linda, eu não entendia o porque de ela continuar
com o tal traste bêbedo inútil, como ela o chamava. Ah, o coitado não tem mais
ninguém no mundo, é órfão, e os filhos ficariam sem contato com o pai, e, dos
males o menor, era preferível que o coitado tivesse onde comer e onde dormir e
pudesse ter a presença dos filhos para dar-lhe, se ele quisesse, o estimulo
para deixar o vício, que ela, para todos os fins, não era mais esposa, dormia
em outro quarto, saia com outras pessoas e vivia, o melhor que podia, sua
própria vida. Quando ele ficou com câncer, ela dizia que seu sofrimento estava
para terminar, que teria após a morte dele tempo para dançar, sair com as
amigas, passear, curtir a vida. Depois do falecimento, contudo, ela vive a
suspirar pelos cantos. Agora sobra dinheiro, sobra tempo, mas... as festas não são
as mesmas sem ele, que homem bom estava ali, sempre alegre, risonho, sempre com
uma palavra amiga... Passear? Sem ele não tem graça. Ah, que saudades!
Relembrando meu
amigo psicólogo, o problema do alcoólatra é a mulher, que alimenta seu vício
desde o café da manhã, com palavras estimulantes como ‘já vai pra rua beber,
seu traste!’ e vive para ser vítima, perdendo o rumo quando o companheiro
morre.
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