Cachorros são encantadores.
Não quero dizer com isso que sejam bonitinhos ou que convidem a um afago, não, uso aqui o verbo encantar na acepção do dicionário: exercer influência mágica.
Não quero dizer com isso que sejam bonitinhos ou que convidem a um afago, não, uso aqui o verbo encantar na acepção do dicionário: exercer influência mágica.
Pessoas enfeitiçadas mudam seu comportamento e fazem coisas
completamente alheias à sua rotina. Contra a sua vontade. Sem apelação.
Veja minha sogra, por exemplo. Costureira ocupada, sdetesta cachorros. Meu marido e minha cunhada nunca tiveram bichosem casa. Aquelas coisas
cheias de pelo que sujam tudo e deixam cheiro por toda a casa, e, no caso de
cachorros, fazem um barulhão que afugenta as freguesas? Jamais! E meu sogro
completava que, além de tudo, os animais tinham pulgas e carrapatos e sabe- se
lá o que mais.
Bem, o caso é que a gente viajaria no começo do inverno, e minha mãe iria conosco, aliás, era por ser aniversário de minha mãe que eu a levava comigo, a viagem era um presente. E, bem, só por este fim de semana, Dona Beá concordou, de cenho franzino, resmungando baixinho ‘não vá se acostumando, não’. E exigiu portão para colocar na porta da cozinha, para garantir que os bichinhos não invadissem o lado de dentro da casa.
Ao fim da tarde, instalamos o portãozinho – desmontável, ajustável a qualquer tamanho de porta, deixamos o saco de ração, os cobertores, os pratinhos, as casinhas e partimos.
Veja minha sogra, por exemplo. Costureira ocupada, sdetesta cachorros. Meu marido e minha cunhada nunca tiveram bichos
Bem, o caso é que a gente viajaria no começo do inverno, e minha mãe iria conosco, aliás, era por ser aniversário de minha mãe que eu a levava comigo, a viagem era um presente. E, bem, só por este fim de semana, Dona Beá concordou, de cenho franzino, resmungando baixinho ‘não vá se acostumando, não’. E exigiu portão para colocar na porta da cozinha, para garantir que os bichinhos não invadissem o lado de dentro da casa.
Ao fim da tarde, instalamos o portãozinho – desmontável, ajustável a qualquer tamanho de porta, deixamos o saco de ração, os cobertores, os pratinhos, as casinhas e partimos.
Era o início do inverno, e a temperatura abaixou muito
aquela noite. Quando chegamos a Monte Verde, nos enrolamos em camadas de roupa
e descobrimos que beirava zero grau. O céu estava magnífico, as estrelas
enormes no firmamento claro, e doía respirar o ar gelado da serra. Comecei a
ficar preocupada ao ouvir, no noticiário da TV, que o frio era geral, e que até
no litoral as temperaturas despencaram, eram as mais baixas do século (e
estávamos no fim do século vinte)
Nossos cachorrinhos não dormiam expostos ao tempo, dormiam no interior da casa, na sala aquecida, abrigados em suas frágeis casinhas de pano.
Dei o telefone a meu marido, pois, se eu escutasse da sogra algum tom de desagrado, ia ficar muito triste. Mas ele, logo às primeiras palavras da mãe, começou a rir:
- É, e daí?
E ela falava, falava, e ele ria, ria, e eu na maior agonia.
Finalmente ele desligou e contou:
- Ah, assim que nós saímos, minha irmã entrou em casa e se deu conta de que havia deixado o portãozinho aberto. Aí procuraram os cachorros pela casa toda e nada. A minha mãe pensou que eles haviam fugido, ido atrás do carro e minha irmã, então, foi para a rua procurar, e ela foi chamar meu pai para ajudar.
Eu só não desmaiei de ansiedade porque, como ele estava rindo, a coisa só poderia ter terminado bem, mas, que grande irresponsabilidade da guria, deixar os cachorros fugirem!
Nossos cachorrinhos não dormiam expostos ao tempo, dormiam no interior da casa, na sala aquecida, abrigados em suas frágeis casinhas de pano.
Dei o telefone a meu marido, pois, se eu escutasse da sogra algum tom de desagrado, ia ficar muito triste. Mas ele, logo às primeiras palavras da mãe, começou a rir:
- É, e daí?
E ela falava, falava, e ele ria, ria, e eu na maior agonia.
Finalmente ele desligou e contou:
- Ah, assim que nós saímos, minha irmã entrou em casa e se deu conta de que havia deixado o portãozinho aberto. Aí procuraram os cachorros pela casa toda e nada. A minha mãe pensou que eles haviam fugido, ido atrás do carro e minha irmã, então, foi para a rua procurar, e ela foi chamar meu pai para ajudar.
Eu só não desmaiei de ansiedade porque, como ele estava rindo, a coisa só poderia ter terminado bem, mas, que grande irresponsabilidade da guria, deixar os cachorros fugirem!
- Não, não, eles não fugiram, amor.
E o marido (ah, como é bom poder falar marido, só quem gramou procurando um, pode entender) continuou:
- Meu pai estava dormindo, e quando minha mãe falou para ele que precisavam pegar o carro e ir para a rua procurar os cachorros, ele ...
- Que foi, homem? Não vê que estou preocupada?
- Os cachorros estavam com ele na cama! E rosnaram quando a minha mãe tentou tirar eles de lá, e o meu pai... disse que era pra ela deixar eles ali mesmo, para eles ficarem quentinhos...
Comecei a rir, eu também. E as pulgas? E os carrapatos? Era o que eu ia perguntar ao sogro assim que regressasse, só para tirar uma onda.
- E a comida... – outro acesso de riso.
- Que foi? Ela derrubou a ração?
- Não, eu perguntei se eles estavam comendo, e ela me disse que cozinhou peito de frango para eles e desfiou, em pedacinhos bem pequenininhos, para dar com arroz integral e legumes...
Dona Beá cozinhando para os cachorros? Ah, essa eu tinha de ver!
- Mas eu bem ouvi você insistir no portãozinho...
- Insisti, claro, porque ela sempre disse que detesta animais em casa, mas ela ficou muito brava e quase gritou comigo: você não acha que, com este frio, eu ia deixar os coitadinhos no sereno, né? Está gelado lá fora!
E o marido (ah, como é bom poder falar marido, só quem gramou procurando um, pode entender) continuou:
- Meu pai estava dormindo, e quando minha mãe falou para ele que precisavam pegar o carro e ir para a rua procurar os cachorros, ele ...
- Que foi, homem? Não vê que estou preocupada?
- Os cachorros estavam com ele na cama! E rosnaram quando a minha mãe tentou tirar eles de lá, e o meu pai... disse que era pra ela deixar eles ali mesmo, para eles ficarem quentinhos...
Comecei a rir, eu também. E as pulgas? E os carrapatos? Era o que eu ia perguntar ao sogro assim que regressasse, só para tirar uma onda.
- E a comida... – outro acesso de riso.
- Que foi? Ela derrubou a ração?
- Não, eu perguntei se eles estavam comendo, e ela me disse que cozinhou peito de frango para eles e desfiou, em pedacinhos bem pequenininhos, para dar com arroz integral e legumes...
Dona Beá cozinhando para os cachorros? Ah, essa eu tinha de ver!
- Mas eu bem ouvi você insistir no portãozinho...
- Insisti, claro, porque ela sempre disse que detesta animais em casa, mas ela ficou muito brava e quase gritou comigo: você não acha que, com este frio, eu ia deixar os coitadinhos no sereno, né? Está gelado lá fora!
É por isso que eu afirmo: cachorros encantam.
E depois que eles caem em nossa graça, já não sabemos viver sem eles.
Diz o povo que toda feiticeira tem um gato, mas eu acho que as feiticeiras devem ter mesmo é um bom e fiel cachorro.
E depois que eles caem em nossa graça, já não sabemos viver sem eles.
Diz o povo que toda feiticeira tem um gato, mas eu acho que as feiticeiras devem ter mesmo é um bom e fiel cachorro.
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