Vovó precisava de óculos, e de também comprar uns remédios.
Em companhia da neta, saiu de casa, devagarzinho, apoiada ao braço da mocinha. Ao chegarem ao meio da quadra, como não havia trânsito, a garota fez menção de atravessar.
- Não, não, querida, vamos atravessar ali na esquina, onde tem semáforo.
Ora, na esquina, era realmente um cruzamento da rua tranqüila com uma movimentada avenida, pela qual seguiram por mais uns dois quarteirões, e, do outro lado, estava o Óptica.
Pois vovó aperta o braço da neta para que atravessassem a passos rápidos a uns200 m do semáforo. A moça,
não concordando, segurou a velha senhora com firmeza:
- Não, não, não, não, não, aqui é como a senhora faz questão, esperar que o semáforo fique verde para nós.
- Ora, netinha, ora essa, dá tempo...
Na óptica, apesar de não haver ninguém na frente e terem sido atendidas com presteza, ficaram por mais de meia hora.
- Esta armação, não, tem este detalhe em metal, isso pode sair, meu óculos antigo desmontou todinho (ela o usou por uns dez anos, mas...); este de acrílico, não, é pesado, ah, este aqui, sei não, tem estes furinhos do lado, pode entrar poeira, vento, enganchar em algum lugar... ah, este outro, com este apoio de nariz à parte, isto fica verde com o tempo, ah, eu quero uma armação simples, segura, barata, que dure muito e seja bonita.
Após muitas armações retiradas das prateleiras e longa deliberação, a senhora ficou entre duas armações de acrílico bege, do mesmo tamanho, ovaladas nas bordas, de preço semelhante, e insistia para que a neta, olhando para ela, dissesse qual era a mais leve.
A coitadinha da garota fazia cara de ponto de interrogação:
- Vó, se a senhora perguntasse qual fica mais bonita, eu ia dizer que são iguais...
- Como, iguais? Não está vendo que são diferentes? O que eu quero que me diga é qual é a mais leve, qual a que vai me machucar menos o nariz...
Enfim, depois de pagarem e deixarem para trás o atendente da loja, que soltou enfim o riso, começou a ronda da farmácia.
A primeira só tinha um dos remédios, a senhora não comprou, queria comprar os dois juntos. A segunda tinha o outro remédio, não o primeiro, a terceira tinha os dois, mas o preço era mais caro, a quarta...um detalhe importante, é claro que as farmácias não ficavam próximas, e a neta pegara o carro para irem para outros bairros, e em Santos, no verão, é um problema encontrar vagas nos estacionamentos, além do trânsito enlouquecedor de turistas atrapalhados, motos incautas e apressados para o trabalho xingando os dois anteriores.
A próxima farmácia estava com o sistema fora do ar e não podia conceder o desconto da aposentada. A outra havia sido descredenciada do plano de governo que fornecia o desconto. A próxima...
- Na boa, vovó, está começando a chover, vamos comprar este remédio amanhã? Ou por telefone?
- Por telefone a farmácia não fornece desconto, e eu tomei o ultimo comprimido ontem à noite, você sabe, remédio do coração, não posso passar sem ele.
Pararam em outra drogaria e a neta anuncia, com voz firme:
- Aqui você compra com ou sem desconto, que eu não dirijo mais!
A senhora a olhou com olhos grandes e falou com voz macia:
- Ah, querida, olha só como você está estressada... por que?
E então, a senhora tira da bolsa um cartão:
- Eu tenho desconto do laboratório no Micardis.
- Vovó, simpolifica, mostra o seu CPF, pelo documento ela encontra.
- Eu estou com o cartão, o cartão basta, não é mesmo? – e a senhora de voz macia buscou com o olhar a simpatia do atendente.
Vinte minutos e sete cartões depois, o balconista nem sorria mais:
- Eu simplesmente não acho o seu nome na nossa lista deste programa... Será que a senhora não tem outro cartão de desconto aí? Ou melhor, um documento seu? CPF ?
A senhora, derrotada, relutantemente retira da carteira seu documento e dez segundos depois o balconista recuperou o sorriso profissional:
- Ah, aqui está. Programa Saúde do Idoso.
- Ah, disse a senhora, é este aqui! – e retira do bolsinho do casaco um outro cartão, o do Programa do Idoso.
- Não precisa do cartão, agora, senhora, eu já a localizei no computador e já coloquei aqui o desconto.
No caixa, a senhora demora a procurar por moedas:
- Ah, netinha, os trocados são oito centavos, não encontro aqui...
- Vovó, há séculos que eu não vejo moedas de um centavo, paga com cartão de crédito ou entrega logo 10 centavos pro caixa.
- Não, se eu der 10 centavos ele vai ficar com os meus dois centavos de troco. Isso eu não admito. E eu esqueci a senha do meu cartão do banco...
- Quer que eu pague com o meu?
- Ah, não, senão eu não recebo o desconto, você sabe...
O moço do caixa, no entanto, já estendia para ela uma moeda de cinco centavos:
- Olha só, senhora, fique com o troco.
A vovó avaramente guarda os cinco centavos na bolsa, vira-se para sair da farmácia, não sem antes caprichar no sorriso em que desejou Bom Carnaval ao moço, e repreende a neta:
- Francamente, querida, não entendo porque o pessoal de sua geração não tem paciência com os idosos!
Eu, peço a Deus todas as noites, que me leve no sono, e meu neto está de antemão perdoado se meu desejo não for atendido e ele me estrangular aos noventa...eu compreenderei....
Em companhia da neta, saiu de casa, devagarzinho, apoiada ao braço da mocinha. Ao chegarem ao meio da quadra, como não havia trânsito, a garota fez menção de atravessar.
- Não, não, querida, vamos atravessar ali na esquina, onde tem semáforo.
Ora, na esquina, era realmente um cruzamento da rua tranqüila com uma movimentada avenida, pela qual seguiram por mais uns dois quarteirões, e, do outro lado, estava o Óptica.
Pois vovó aperta o braço da neta para que atravessassem a passos rápidos a uns
- Não, não, não, não, não, aqui é como a senhora faz questão, esperar que o semáforo fique verde para nós.
- Ora, netinha, ora essa, dá tempo...
Na óptica, apesar de não haver ninguém na frente e terem sido atendidas com presteza, ficaram por mais de meia hora.
- Esta armação, não, tem este detalhe em metal, isso pode sair, meu óculos antigo desmontou todinho (ela o usou por uns dez anos, mas...); este de acrílico, não, é pesado, ah, este aqui, sei não, tem estes furinhos do lado, pode entrar poeira, vento, enganchar em algum lugar... ah, este outro, com este apoio de nariz à parte, isto fica verde com o tempo, ah, eu quero uma armação simples, segura, barata, que dure muito e seja bonita.
Após muitas armações retiradas das prateleiras e longa deliberação, a senhora ficou entre duas armações de acrílico bege, do mesmo tamanho, ovaladas nas bordas, de preço semelhante, e insistia para que a neta, olhando para ela, dissesse qual era a mais leve.
A coitadinha da garota fazia cara de ponto de interrogação:
- Vó, se a senhora perguntasse qual fica mais bonita, eu ia dizer que são iguais...
- Como, iguais? Não está vendo que são diferentes? O que eu quero que me diga é qual é a mais leve, qual a que vai me machucar menos o nariz...
Enfim, depois de pagarem e deixarem para trás o atendente da loja, que soltou enfim o riso, começou a ronda da farmácia.
A primeira só tinha um dos remédios, a senhora não comprou, queria comprar os dois juntos. A segunda tinha o outro remédio, não o primeiro, a terceira tinha os dois, mas o preço era mais caro, a quarta...um detalhe importante, é claro que as farmácias não ficavam próximas, e a neta pegara o carro para irem para outros bairros, e em Santos, no verão, é um problema encontrar vagas nos estacionamentos, além do trânsito enlouquecedor de turistas atrapalhados, motos incautas e apressados para o trabalho xingando os dois anteriores.
A próxima farmácia estava com o sistema fora do ar e não podia conceder o desconto da aposentada. A outra havia sido descredenciada do plano de governo que fornecia o desconto. A próxima...
- Na boa, vovó, está começando a chover, vamos comprar este remédio amanhã? Ou por telefone?
- Por telefone a farmácia não fornece desconto, e eu tomei o ultimo comprimido ontem à noite, você sabe, remédio do coração, não posso passar sem ele.
Pararam em outra drogaria e a neta anuncia, com voz firme:
- Aqui você compra com ou sem desconto, que eu não dirijo mais!
A senhora a olhou com olhos grandes e falou com voz macia:
- Ah, querida, olha só como você está estressada... por que?
E então, a senhora tira da bolsa um cartão:
- Eu tenho desconto do laboratório no Micardis.
- Vovó, simpolifica, mostra o seu CPF, pelo documento ela encontra.
- Eu estou com o cartão, o cartão basta, não é mesmo? – e a senhora de voz macia buscou com o olhar a simpatia do atendente.
Vinte minutos e sete cartões depois, o balconista nem sorria mais:
- Eu simplesmente não acho o seu nome na nossa lista deste programa... Será que a senhora não tem outro cartão de desconto aí? Ou melhor, um documento seu? CPF ?
A senhora, derrotada, relutantemente retira da carteira seu documento e dez segundos depois o balconista recuperou o sorriso profissional:
- Ah, aqui está. Programa Saúde do Idoso.
- Ah, disse a senhora, é este aqui! – e retira do bolsinho do casaco um outro cartão, o do Programa do Idoso.
- Não precisa do cartão, agora, senhora, eu já a localizei no computador e já coloquei aqui o desconto.
No caixa, a senhora demora a procurar por moedas:
- Ah, netinha, os trocados são oito centavos, não encontro aqui...
- Vovó, há séculos que eu não vejo moedas de um centavo, paga com cartão de crédito ou entrega logo 10 centavos pro caixa.
- Não, se eu der 10 centavos ele vai ficar com os meus dois centavos de troco. Isso eu não admito. E eu esqueci a senha do meu cartão do banco...
- Quer que eu pague com o meu?
- Ah, não, senão eu não recebo o desconto, você sabe...
O moço do caixa, no entanto, já estendia para ela uma moeda de cinco centavos:
- Olha só, senhora, fique com o troco.
A vovó avaramente guarda os cinco centavos na bolsa, vira-se para sair da farmácia, não sem antes caprichar no sorriso em que desejou Bom Carnaval ao moço, e repreende a neta:
- Francamente, querida, não entendo porque o pessoal de sua geração não tem paciência com os idosos!
Eu, peço a Deus todas as noites, que me leve no sono, e meu neto está de antemão perdoado se meu desejo não for atendido e ele me estrangular aos noventa...eu compreenderei....
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