7 de out. de 2013

Poesias do século passado




Colonialismo

É tempo de plantar
Tempo de profunda insatisfação.
tempo de luta e desconforto.
tempo de fome e fadiga.

É tempo de calejar a alma até torná-la insensível ao sofrimento.
é tempo de perder a beleza ao sol da adversidade.
é tempo de sufocar os sentimentos ante a poeira da necessidade.
é tempo de adubar os sonhos com o estrume da realidade.

No solo pobre da mestiçagem
a semente fértil fenece
e o rebotalho europeu degenera.

Aqui a educação é inútil.
A cortesia, a delicadeza... ao sol appodecrem.

Tempestades de areia desfazem continuamente o presente
O frio da incerteza ameaça o futuro.
e o passado esvaece-se com os ventos multinacionais.
As trevas da ignorância impedem qualquer esperança.

É tempo de plantar
mas a terra foi salgada,
esterilizada e
amaldiçoada.

Tudo foi de antemão acertado para garantir não haver colheita alguma,
e, se alguma houver, será lançada aos porcos.

E nós somos reles escravos sem vontade própria
e nossa miséria é tamanha que nem nos resta
uma lágrima para chorar,
um fio de voz para clamar:
‘Senhor! Senhor!
Tende piedade de nossa dor!’

Nós conhecemos a inutilidade da revolta.

Nietzsche tinha razão:
‘Deus morreu! Viva o Superhomem!’

Fatalidade atroz!
nossa desgraça é sermos vermes do terceiro mundo.
Inúteis.
Impotentes.
Inconsoláveis.
Dementes.
Doentes.
Dolentes.


Brasilieirinho
(por ocasião da chacina da Candelária)

Nana, nenê,
que o teu pai fugiu
e tua mãe partiu.
ninguém assumiu
a tua fome,
o teu nome.

Desperto no leito,
decerto buscas o peito
ausente.
O materno odor,
o aconchegante calor
Inexistente.

Um choro sem consolo
é já um som de despedida,
de partida,
sem esperança de vida.

E vem a apatia.
Começa a longa agonia.
A cabeça jogada sobre o leito,
de qualquer jeito,
desamparada,
como um traste sem valor.

Evitar tamanho horror
e salvá-lo da sorte
Infortunada
de criança abnadonada...
Somente um milagre – ou a morte.











Ledo engano de Bilac
                                             
Chora, criança, chora, pela terra em que nasceste
Criança, não verás, nenhum país como este!
Que nega a casa e o pão a quem trabalha
E trata o povo trabalhador como gentalha.

Que céu! Que mar! Que luz!
Tantos frutos a terra fértil produz,
E também quanto salafrário
A explorar escravos que ‘ganham’ – dizem – ‘salário’.

Quem, com suor, a terra fecunda e umedece,
Tem a lavoura confiscada e empobrece.
Já o aventureiro, que com o dinheiro alheio especula,
Vive de juros, rios de dinheiro acumula.

Este gigante indolente é covil de ladrões
Que apossaram-se do poder – espertalhões!
Criança, não verás nenhum país como este!
Chora, criança, pela terra em que nasceste!

Um fato
(curiosidade – este foi o meu primeiro poema, inspirado por um poema de faculdade que fazia poesias com o tema das aulas)

Estava a dormir tão sossegado
Quando sentiu a súbita asfixia
O corpo todo em dores, apertado,
Despertou do torpor em que jazia.

No diâmetro transverso insinou-se
O pólo regular irredutível.
O colo pouco a pouco dilatou-se
E a descida da cabeça foi possível.

Rodou rapidamente para a esquerda -
era occipito direita anterior -
desceu em antero posterior,

Coroou, defletiu e rodou.
Deu-se a expulsão do ovóide cormico
E o feto transformou-se em um ser cósmico.



O autor insone

Não admitirei vaia.
Antes que o pano caia,
mister é trocar de estilo,
mudar o epílogo,
que o enredo desta peça é conhecido,
não me peça para repeti-lo.

Por atos desencontrados,
busco um feliz final
que não seja banal;
que tenha a originalidade machadiana dos temas comuns
a das narrativas épicas de qualquer um.

Afinal, real ou ilusória
esta é a minha história:
o artista em busca da glória.



























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