2 de out. de 2013

A decisão

 



(Se Deus, em sua sabedoria, dotou o Homem de um inconsciente, deve ter tido para isto sérias e incontáveis razões.)

 

         O Papa perdeu a fé!
         Acordou certa manhã convencido de que Jesus era um avatar de Brahma e procurou avidamente pelos livros antigos do Oriente existentes na biblioteca do Vaticano.
         À sua memória vinha a imagem do Dalai Lama, seu sorriso simples, seu olhar alegre, como o do Papa nunca fora, e as palavras do Dalai Lama lhe pareciam mais apropriadas, mais verdadeiras que as suas.
         Por outro lado, recentemente, encontrara-se com os mais sábios rabinos, estudiosos da Torah, e lhe parecia que eles entendiam melhor que ele, Papa, o Antigo Testamento e o tal Jeovah.
         Quanto mais pensava, mais o Papa se confundia, a ponto de achar que a magnífica pintura da Criação na Capela Sistina se referia a Zeus a à primeira geração de homens.
          O Papa sonhava estar em Mu, em Atlântida, à beira de um vulcão polinésio, reverenciando estranhos animais em coloridos totens.
          Enfim, parecia ao Papa que todos os símbolos eram valiosos, e que as religiões pagãs reivindicavam a posse de sua alma, enquanto as escrituras cristãs empalideciam como falsificações baratas.
           Estamos no reino pagão de Manon, entre povos que cultuam Pluto e Afrodite, dissera-lhe o sábio rabino  Adin Steinsaltz, em uma conversa lligeira em que discutiam sobre o Talmude.

             Olhando a seu redor, para qualquer país do mundo, o Papa encontrava os cultos ao corpo, ao sexo, aos prazeres dos sentidos, aos ritos religiosos apenas aparentes.
          Basta calar-se e ouvir o seu coração, pois dentro dele está a Verdade – sussurra-lhe da estante do Vaticano, a biografia de Sidarta Gautama.
        E todo aquele ouro, todo aquele luxo do Vaticano, todas aquelas preciosas peças de arte, o que aquilo tinha a ver com o humilde carpinteiro de Nazaré? – gritava-lhe a voz da própria consciência.
          Quando olhava para os seus pares, o pontífice via todos os vícios, da vaidade à pedofilia, e, em todos aqueles rostos orgulhosos, como pecado maior, a ignorância. Justamente a ignorância que os budistas afirmavam ser a causa de toda infelicidade neste mundo.
          O Papa não queria mais ser ignorante, não queria mais sofrer.
          No Vazio de seu coração, o Papa sofria, por entender o que entendia e por não entender o que queria tanto entender.
           Quanto mais pensava, menos compreendia, e sentia-se louco.
          Um louco que desejava amor, luz, fé.
          Um louco que precisava desesperadamente de coerência em suas duas vidas, a interna e a externa.
          O Papa descobriu que não era livre. Seus pares, seus ritos, seu país o aprisionavam. A única rota possível era para dentro.
           Em seu coração, o Papa procurava Deus.
           Deus estava lá, simples, bom, acolhedor, e parecia lhe dizer:
         Meu filho, quanta loucura! Eu não escrevi esses livros, não me meti nesses assuntos espinhosos, eu lhe disse tão claramente para que se ocupasse apenas com as coisas de Deus!
       O Papa, que já não sabia mais do que se tratavam essas coisas de Deus, ou talvez soubesse por fim, impotente, renunciou.

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