A boate ficou em
polvorosa.
Na madrugada de domingo, centenas de jovens, que festejavam o inicio das aulas, gritaram e correram desencontradamente, pois as luzes se apagaram.
Os que se encontravam longe do palco nem sequer viram o fogo, apenas se deram conta da fumaça espessa que se espalhou rapidamente pelo ambiente.
Rolos sufocantes e fétidos de cinza vinham do alto, e pedaços do teto caíam em chamas sobre os mais próximos.
Na correria que sucedeu ao pânico, gritos de feridos juntavam-se aos pedidos de socorro.
Ninguém sabia ao certo o que acontecera.
Os porteiros, no primeiro instante, pensaram que se tratava de uma tentativa de golpe, de um grupo que tentava fugir sem pagar a conta, e trancaram a porta – a única porta - de saída. Logo se deram conta de que algo grave acontecera, a destrancaram, mas era tarde demais para evitar o tumulto. Os primeiros jovens a chegar à saída foram esmagados e pisoteados pela multidão, que empurrava tudo à sua frente, na tentativa de escapar do inferno.
Um músico, no palco, tentara em vão, com o auxilio de um extintor próximo, apagar as primeiras chamas, que começaram assim que ele próprio soltara um rojão pirotécnico, e uma fagulha atingiu o revestimento acústico do forro, porém, retirada a trava de segurança, o extintor revelara-se vazio.
Os primeiro que viram a fagulha transformar-se em chama e alastrar-se, dispararam pela boate, a avisar os outros do incêndio.
Ora, eram quase duas mil pessoas em um local que comportaria quando muito, seiscentas.
Estava anunciada a tragédia.
Ninguém poderia imaginar com que rapidez as labaredas se espalhariam, nem o fedor da fumaça, nem a escuridão total em que ficaram todos de repente, pois a fumaça encobria o fogo e não havia sinalizadores fosforescentes.
Do lado de fora, os primeiros a sair esbarravam em canos que ziguezagueavam em frente à entrada, com o duplo intuito de barrar caloteiros e organizar filas. Caíam uns por cima dos outros, e em seguida procuravam por socorro, chamando de seus celulares, postando mensagens nas redes sociais, batendo à porta dos vizinhos.
Em minutos, apareceram pás, picaretas, martelos e várias pessoas dispostas a quebrar as paredes do prédio, ajudando os aprisionados a saírem, bem como a fumaça.
Não saíram. Centenas de jovens jaziam desmaiados, e, sem saber direito o que fazer nem como, os de fora entravam e puxavam como podiam os de dentro, de forma que, quando os bombeiros chegaram, se depararam com um quadro bizarro: filas e mais filas de corpos, desacordados, pelas calçadas ao redor.
Quase que ao mesmo tempo em que os bombeiros, chegavam familiares e amigos, assustados, alertados pelos telefonemas e pela internet, da tragédia.
A primeira atitude dos bombeiros, devidamente mascarados, foi expulsar dali os leigos, para que o número de vítimas fatais não aumentasse. Experientes, logo se deram conta de que o risco era enorme. Espuma química, água, nada mais adiantaria, o incêndio furiosos em poucos minutos completara a destruição e o que restava a fazer era resgatar os corpos.
Ninguém podia imaginar, no entanto, que o número de mortos atingiria a cifra de 234, e o de feridos passaria de 100. E, na semana seguinte, aumentaria ainda o numero de vitimas, pois dezenas de jovens começariam a apresentar sintomas tardios e seriam hospitalizados no decorrer dos próximos dias.
Muito organizado, o serviço de emergência convocava já todos os médicos e enfermeiros da região, contratados ou não, para prestar socorro, oficial ou voluntário, e do hospital local da cidade de Santa Maria, já se contatava a capital, solicitando leitos para grandes queimados – que eram apenas 27, como se constatou a seguir.
Espetáculo de horror.
Fumaça, destroços, corpos, choro, gritos, em suma, dor.
O próprio dono da boate viera para ajudar a combater as chamas, e gritava como um alucinado, consciência culpada, sem dúvida, por ter deixado lá um extintor vazio, forrado o teto com espuma inflamável, burlando as instruções recebidas pelo engenheiro responsável pela planta, e por ter permitido o uso de fogos de artifício em espaço fechado, contrariando a lei. De quebra, quantas pessoas conhecidas dele estavam ali!
O vocalista da banda chorava, lembrando-se bem de que, embora alertado pelo vendedor, comprara os fogos mais baratos, cujo uso era restrito a espaços abertos, como o fizera antes em outras ocasiões, sem que nada houvesse acontecido, mas desta vez, bem, sempre há uma primeira vez, diz o ditado.
E que primeira vez!
O Brasil nunca vira antes tragédia desta monta.
O próprio ministro da saúde deslocou-se para o Rio Grande do Sul, não sem antes enviar dezenas de respiradores e ventiladores, de outras unidades hospitalares, para as UTI gauchas. E os médicos sem fronteiras, especialistas em catástrofes, foram contatados, pois ninguém no país estava preparado para uma coisa horrível como esta.
Pneumonite química, sim, queimadura, sim, mas... algo destoava, e no dia seguinte a equipe médica já sabia que lidava com graves casos de intoxicação pelo acido cianídrico, material venenoso liberado em quantidade gigante pela combustão da espuma que forrava o teto.
Os jovens de Santa Maria morreram por queimaduras – poucos – por asfixia – poucos – e por envenenamento – a maioria.
A polícia manteve em custódia os donos da boate e os integrantes da banda. Não era apenas rigor policial, sim prudência. No calor das emoções, um pai violentamente revoltado com a morte de um ou vários filhos bem poderia cometer um assassinato – e quem o culparia?
Na madrugada de domingo, centenas de jovens, que festejavam o inicio das aulas, gritaram e correram desencontradamente, pois as luzes se apagaram.
Os que se encontravam longe do palco nem sequer viram o fogo, apenas se deram conta da fumaça espessa que se espalhou rapidamente pelo ambiente.
Rolos sufocantes e fétidos de cinza vinham do alto, e pedaços do teto caíam em chamas sobre os mais próximos.
Na correria que sucedeu ao pânico, gritos de feridos juntavam-se aos pedidos de socorro.
Ninguém sabia ao certo o que acontecera.
Os porteiros, no primeiro instante, pensaram que se tratava de uma tentativa de golpe, de um grupo que tentava fugir sem pagar a conta, e trancaram a porta – a única porta - de saída. Logo se deram conta de que algo grave acontecera, a destrancaram, mas era tarde demais para evitar o tumulto. Os primeiros jovens a chegar à saída foram esmagados e pisoteados pela multidão, que empurrava tudo à sua frente, na tentativa de escapar do inferno.
Um músico, no palco, tentara em vão, com o auxilio de um extintor próximo, apagar as primeiras chamas, que começaram assim que ele próprio soltara um rojão pirotécnico, e uma fagulha atingiu o revestimento acústico do forro, porém, retirada a trava de segurança, o extintor revelara-se vazio.
Os primeiro que viram a fagulha transformar-se em chama e alastrar-se, dispararam pela boate, a avisar os outros do incêndio.
Ora, eram quase duas mil pessoas em um local que comportaria quando muito, seiscentas.
Estava anunciada a tragédia.
Ninguém poderia imaginar com que rapidez as labaredas se espalhariam, nem o fedor da fumaça, nem a escuridão total em que ficaram todos de repente, pois a fumaça encobria o fogo e não havia sinalizadores fosforescentes.
Do lado de fora, os primeiros a sair esbarravam em canos que ziguezagueavam em frente à entrada, com o duplo intuito de barrar caloteiros e organizar filas. Caíam uns por cima dos outros, e em seguida procuravam por socorro, chamando de seus celulares, postando mensagens nas redes sociais, batendo à porta dos vizinhos.
Em minutos, apareceram pás, picaretas, martelos e várias pessoas dispostas a quebrar as paredes do prédio, ajudando os aprisionados a saírem, bem como a fumaça.
Não saíram. Centenas de jovens jaziam desmaiados, e, sem saber direito o que fazer nem como, os de fora entravam e puxavam como podiam os de dentro, de forma que, quando os bombeiros chegaram, se depararam com um quadro bizarro: filas e mais filas de corpos, desacordados, pelas calçadas ao redor.
Quase que ao mesmo tempo em que os bombeiros, chegavam familiares e amigos, assustados, alertados pelos telefonemas e pela internet, da tragédia.
A primeira atitude dos bombeiros, devidamente mascarados, foi expulsar dali os leigos, para que o número de vítimas fatais não aumentasse. Experientes, logo se deram conta de que o risco era enorme. Espuma química, água, nada mais adiantaria, o incêndio furiosos em poucos minutos completara a destruição e o que restava a fazer era resgatar os corpos.
Ninguém podia imaginar, no entanto, que o número de mortos atingiria a cifra de 234, e o de feridos passaria de 100. E, na semana seguinte, aumentaria ainda o numero de vitimas, pois dezenas de jovens começariam a apresentar sintomas tardios e seriam hospitalizados no decorrer dos próximos dias.
Muito organizado, o serviço de emergência convocava já todos os médicos e enfermeiros da região, contratados ou não, para prestar socorro, oficial ou voluntário, e do hospital local da cidade de Santa Maria, já se contatava a capital, solicitando leitos para grandes queimados – que eram apenas 27, como se constatou a seguir.
Espetáculo de horror.
Fumaça, destroços, corpos, choro, gritos, em suma, dor.
O próprio dono da boate viera para ajudar a combater as chamas, e gritava como um alucinado, consciência culpada, sem dúvida, por ter deixado lá um extintor vazio, forrado o teto com espuma inflamável, burlando as instruções recebidas pelo engenheiro responsável pela planta, e por ter permitido o uso de fogos de artifício em espaço fechado, contrariando a lei. De quebra, quantas pessoas conhecidas dele estavam ali!
O vocalista da banda chorava, lembrando-se bem de que, embora alertado pelo vendedor, comprara os fogos mais baratos, cujo uso era restrito a espaços abertos, como o fizera antes em outras ocasiões, sem que nada houvesse acontecido, mas desta vez, bem, sempre há uma primeira vez, diz o ditado.
E que primeira vez!
O Brasil nunca vira antes tragédia desta monta.
O próprio ministro da saúde deslocou-se para o Rio Grande do Sul, não sem antes enviar dezenas de respiradores e ventiladores, de outras unidades hospitalares, para as UTI gauchas. E os médicos sem fronteiras, especialistas em catástrofes, foram contatados, pois ninguém no país estava preparado para uma coisa horrível como esta.
Pneumonite química, sim, queimadura, sim, mas... algo destoava, e no dia seguinte a equipe médica já sabia que lidava com graves casos de intoxicação pelo acido cianídrico, material venenoso liberado em quantidade gigante pela combustão da espuma que forrava o teto.
Os jovens de Santa Maria morreram por queimaduras – poucos – por asfixia – poucos – e por envenenamento – a maioria.
A polícia manteve em custódia os donos da boate e os integrantes da banda. Não era apenas rigor policial, sim prudência. No calor das emoções, um pai violentamente revoltado com a morte de um ou vários filhos bem poderia cometer um assassinato – e quem o culparia?
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