(publicada na revista Santos Arte e Cultura - setembro 2013)
Todo médico de minha geração
lembra-se do Dr. Kildare, que inspirou tantos entre nós.
Admirado, amado mesmo, este jovem médico (ainda estudante) era apresentado como uma pessoa útil, atenciosa, dedicada, compreensiva, que escutava e consolava seus pacientes. Nos seus relacionamentos profissionais, havia um forte elo emocional. Humano, não se esperava dele que fosse infalível
Admirado, amado mesmo, este jovem médico (ainda estudante) era apresentado como uma pessoa útil, atenciosa, dedicada, compreensiva, que escutava e consolava seus pacientes. Nos seus relacionamentos profissionais, havia um forte elo emocional. Humano, não se esperava dele que fosse infalível
Neste, que é o
primeiro seriado médico que assisti, já percebemos um certo tecnicismo, pois o
supervisor de Kildare o adverte: ‘Nosso trabalho é manter as pessoas vivas, não
dizer a elas como viver.’
Comentário
cínico, cujo objetivo era garantir um distanciamento emocional que não
perturbasse o raciocínio médico, que, no caso, era quase salutar, por impedir
que o profissional sofresse com um relacionamento mais íntimo com seu paciente,
já que, inevitavelmente alguns pacientes
morrem, e alguns, morrem jovens. E, inspirados pelo jovem Dr. Kildare, este era
um mandamento que todo aspirante a médico ansiava por transgredir.
Já o atual seriado House nos
apresenta um médico brilhante, lógico,
técnico, odiado por alguns de sua própria equipe, meramente tolerado
pelos pacientes, e do qual se esperam, apenas, resultados.
Ambos são inteligentes e
dedicados: um aconselha, importa-se que o paciente viva bem, e mesmo que morra
bem – que sua vida tenha sida uma boa vida; o outro não se importa, sua meta é
que o paciente sobreviva – seu paciente é quase um troféu, seu triunfo na arte
de diagnosticar.
House expressa-se da seguinte maneira: “Me importar para que? Pergunte
ao paciente se ele prefere um médico que se importa enquanto ele morre ou um
médico que o ignora enquanto ele é curado?” A visão de mundo que o doutor House criticou
nesta frase é profunda. House não criticou apenas o altruísmo em si; ele
demoliu nesta frase o conceito de ética médica, o humano respeito ao próximo.
Sacrifica-se o espiritual em nome de uma eficácia questionável.
Proponho-me a comparar os valores
existentes nestas duas séries:
1 - Há um valor de vida – que se
faça a diferença, que se seja feliz e útil.
2 - Há um valor de morte – que se
retorne ao sagrado, ao misterioso.
3 - Há um valor de paciente – que
se aprenda e se evolua com a doença.
4 - Há um valor de médico – que se
importe com o ser humano, que sinta emoções, que seja competente e
bom.
Em House:
1 - A vida é uma miséria, todos
mentem, todos sofrem.
2 - A morte é o fim, e toda crença
religiosa é ilógica, já que não se pode provar – a supervalorização da ciência,
vista como técnica.
3 - O paciente é um ser humano
tolo, na melhor das hipóteses, ou indigno, na pior, e exige resultados da
medicina, quer ser curado e salvo a qualquer preço.
4 - Do médico exige-se a cura – que faça o serviço pelo qual está sendo
pago, e que obtenha os melhores resultados. Ser bom é inútil. Descartou-se a
espiritualidade.
Para tentar entender melhor como
chegamos a este lamentável estado de coisas – ou alguém acha que a atual
situação da saúde no mundo não seja lamentável? - temos de ir além do médico, temos de penetrar
nos paradigmas de nossa sociedade capitalista.
Os pacientes de Dr. Kildare eram
pessoas sofredoras, sensíveis, centradas em suas famílias, amigos, e objetivos
baseados em mérito pessoal e trabalho duro: a professora desejava ensinar, o
vendedor vender, os jovens, concluírem um curso.
Os pacientes de House são, em sua
maioria, insensíveis como ele, amantes da tecnologia, consumistas, consomem o produto
saúde como consumiriam qualquer outra coisa, e são focados no sucesso
monetário: o atleta olímpico que quer o ouro, o artista que quer o Oscar, o
empresário que quer comprar a rede concorrente, todos querem ser o primeiro,
não basta concorrer, nem ganhar, trata-se de ganhar em primeiro lugar. Erros
são descartados – o filho que foi reprovado de ano, a atleta que não se
classificou, o marido desempregado, a mulher feia, esqueça, são todos ridículos
e indesejáveis perdedores. E qualquer paciente que se apresente amoroso e
idealista é logo dissecado para que revele suas ambigüidades e contradições,
apresentadas como mentiras e fraquezas inadmissíveis.
No último século, assistimos a
certas mudanças na sociedade capitalista.
Antes, aceitava-se a morte como um
fato natural; admitia-se que as pessoas deviam estar preparadas para morrer,
bem como para viver; os médicos eram vistos como seres humanos esforçados e
empenhados em fazer o melhor possível, dentro de possibilidades razoáveis.
Agora, quer-se evitar o confronto
com a morte, retardar o desfecho da vida a qualquer preço, mesmo a custo de uma
vida de qualidade ruim.
Os médicos entram nesta visão
capitalista como geradores do produto saúde, portanto não são vistos como seres
humanos, mas como um mal necessário, já que as máquinas não funcionam sozinhas;
deles se exige perfeição técnica e nenhuma ética; paga-se a eles o menor
honorário possível e são trocados da equipe assim que algum cérebro
mais brilhante surja. Espera-se
que sejam infalíveis, e, a par disto, critica-se esses mesmos médicos por serem
arrogantes e diz-se deles que sofrem de ‘complexo de Deus’.
A minha geração médica, que anda
ao redor dos sessenta anos, ressente-se do reconhecimento não recebido; já a
geração atual, bem, sejamos honestos, toda a categoria é atualmente vista pela
população como House, um médico que desdenha tudo, desde o sistema até o doente,
que ficou reduzido a uma ficha clínica.
Afirma Gurdjieff que estamos a viver os últimos dias desta era técnica. O planeta nos destruirá se não mudarmos. O clima já mudou, e anuncia ao homem que ele, homem, não é o senhor do planeta, que a humanidade é tão descartável na escala cósmica como os dinossauros.
Chega o tempo de voltarmos a ser humildes. De enterrarmos House e buscarmos o Dr. Kildare, pois, desde os tempos de Esculápio, o que a humanidade deseja é, antes de tudo, compartilhar a vida e ser consolada, pois curar, é possível às vezes, e consolar, é possível, sempre.
Afirma Gurdjieff que estamos a viver os últimos dias desta era técnica. O planeta nos destruirá se não mudarmos. O clima já mudou, e anuncia ao homem que ele, homem, não é o senhor do planeta, que a humanidade é tão descartável na escala cósmica como os dinossauros.
Chega o tempo de voltarmos a ser humildes. De enterrarmos House e buscarmos o Dr. Kildare, pois, desde os tempos de Esculápio, o que a humanidade deseja é, antes de tudo, compartilhar a vida e ser consolada, pois curar, é possível às vezes, e consolar, é possível, sempre.
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