(Ser ou não ser – a questão vai além.)
Lá estava a minha amiga Lolita, indignada, defendendo com
tanta veemência a sua inocência, que, por esta mesma veemência, tornava-se
suspeita.
Sua revolta quanto às acusações e fofocas infundadas atingia
o marido, os filhos, os vizinhos, o psicólogo, o sacerdote, só escapava o
outro, tão vítima quanto ela. E enquanto ela despejava sobre mim os fatos
progressivamente mais absurdos, mais virulentos, mais inverossímeis, mais claro
se tornava o quanto ela se importava com o outro e o quanto ela desprezava o
marido.
O fato é que as pessoas desenvolvem, sem se darem conta, os mais estranhos relacionamentos dentro de suas mentes.
E Lolita me fez lembrar de três episódios insólitos em minha vida, que me esclareceram, ou antes, me confundiram, sobre o funcionamento do cérebro humano.
Convido o leitor a me acompanhar e procurar por fatos semelhantes em sua experiência pessoal.
O primeiro deles diz respeito a um colega de turma, Carlos,
que eu encontrei nas férias, por acaso, ao sair para andar pela praia, em uma
manhã de verão. Ora, Carlos estava hospedado no hotel ao lado, saíra para
caminhar cedo, nos vimos, nos cumprimentamos e resolvemos caminhar juntos,
conversando, até a hora do almoço, e a partir daí cada um retornou para seu
hotel e para sua roteiro de férias. Bem, eu retornei. Ele, aparentemente,
mergulhou em devaneios. O
fato é que, três meses depois, recebi um telefonema da noiva dele, esclarecendo
que os dois iam se casar no dia seguinte e ela queria saber se eu ia ficar bem
com isso, já que o noivo estava relutante em casar-se, preocupado comigo, que
estava apaixonada por ele. Bem, respondi, surpresa, há quatro anos namoro um
rapaz que você também conhece, por quem sou apaixonada, de onde saiu esta sua
idéia estranha? E ela então me conta sobre o tal passeio na praia, do qual eu
já nem me lembrava...Eu nem entrei no mérito da questão, percebendo que seria
inútil negar a tal fantasia erótica do rapaz. Respondi a ela que ela é quem
iria casar-se, e ela é quem deveria saber se era ou não conveniente casar-se
com aquele noivo em particular, já que quem tinha duvidas era ela. E que o
assunto não me dizia respeito.
O segundo aconteceu quando eu morava em outra cidade, e uma
amiga minha me auxiliou em minhas primeiras rondas por emprego, moradia etc...
Sendo esta amiga casada, foi mais ou menos natural que o marido dela, Olavo, se tornasse também meu protetor, oferecendo-me carona para irmos juntos aos mesmo locais e depois acompanhando-me a casa, em algumas ocasiões em que nos prolongássemos em alguns locais até à noite. Ora, aconteceu de nós dois, eu e ele, participarmos de alguns eventos culturais da prefeitura, não apenas nós dois, mas um grupo bastante grande de amigosem comum. Ela , como não
gostasse desta atividade, e preferisse ficar em casa estudando para sua defesa
de tese, distanciou-se do grupo. Nem eu nem ele perceberíamos o rumo que
estavam tomando as coisas, não fosse pela Bernadete, recém chegada à cidade,
que, em um almoço de confraternização, se dirigiu a mim como se eu fosse a
esposa dele. Respondi com naturalidade que eu não era a esposa, e ela retrucou
automaticamente: como não, se vocês sempre aparecem juntos? Esclareci que
éramos amigos e vínhamos juntos por comodidade, já que fazíamos o mesmo
caminho. E então me dei conta do estranho silêncio que se fizera à mesa, e do
clima tenso no ambiente, que se desfez com alívio após a minha resposta. No
entanto, nos olhos dele, li uma espécie de pânico, e, nos olhos de Bernadete,
uma resignação de quem não estava de todo convencida. O fato é que me dei conta
de que, sem que nos houvéssemos apercebido, estávamos nos enamorando um do
outro, e, após este incidente, não conseguimos mais ficar juntos sem nos
sentirmos constrangidos. E assim morreu um romance que nunca chegou a ocorrer.
Imagino que a cidade pense que nós éramos amantes e nada do que disséssemos
iria mudar a opinião pública; sorte minha ser minha amiga tão caseira e tão
avessa a mexericos.
E o terceiro, doloroso, aconteceu por conta de outro marido de outra amiga que, assim do nada, apareceu em casa cortando relações e exigindo que eu nunca mais aparecesse na frente dela. Recusou explicar-se, como se eu soubesse muito bem do que ela estava falando. Ofendida, curiosa, permaneci, no entanto quieta no meu canto aguardando que a situação se esclarecesse, e, como nada mais se seguiu a esta explosão de cólera, continuei minha vidinha em meu ritmo normal até que o acaso me colocou no caminho o marido dela e eu o interpelei. Vi que ficou encabulado ao me ver, e, ante a pergunta direta, pareceu até aliviado em poder confessar o que fizera. Tratava-se do seguinte. O rapaz arrumara uma amante, a quem era muito devotado, de quem não pretendia se separar, por quem estava perdidamente apaixonado, e, tendo sido surpreendido pela esposa, por qualquer coisa esquecida em algum bolso, viu-se na iminência de ter seu casamento destruído a não ser que dissesse o nome da mulher e prometesse nunca mais procurar por ela, e ele, então, não teve duvidas, disse o meu nome, já que nos dávamos muito bem, havíamos mesmo estudado na mesma faculdade, nos víamos com certa freqüência, e a mentira tinha grande chance de passar por verdade. Que isto destruísse uma amizade de anos, não lhe doeu na consciência senão muito tempo depois. E agora, dissesse eu o que dissesse para minha amiga, o estrago já estaria feito, pois sempre ficaria a mágoa de ter sido ela, injusta, e eu, injustiçada.
Sendo esta amiga casada, foi mais ou menos natural que o marido dela, Olavo, se tornasse também meu protetor, oferecendo-me carona para irmos juntos aos mesmo locais e depois acompanhando-me a casa, em algumas ocasiões em que nos prolongássemos em alguns locais até à noite. Ora, aconteceu de nós dois, eu e ele, participarmos de alguns eventos culturais da prefeitura, não apenas nós dois, mas um grupo bastante grande de amigos
E o terceiro, doloroso, aconteceu por conta de outro marido de outra amiga que, assim do nada, apareceu em casa cortando relações e exigindo que eu nunca mais aparecesse na frente dela. Recusou explicar-se, como se eu soubesse muito bem do que ela estava falando. Ofendida, curiosa, permaneci, no entanto quieta no meu canto aguardando que a situação se esclarecesse, e, como nada mais se seguiu a esta explosão de cólera, continuei minha vidinha em meu ritmo normal até que o acaso me colocou no caminho o marido dela e eu o interpelei. Vi que ficou encabulado ao me ver, e, ante a pergunta direta, pareceu até aliviado em poder confessar o que fizera. Tratava-se do seguinte. O rapaz arrumara uma amante, a quem era muito devotado, de quem não pretendia se separar, por quem estava perdidamente apaixonado, e, tendo sido surpreendido pela esposa, por qualquer coisa esquecida em algum bolso, viu-se na iminência de ter seu casamento destruído a não ser que dissesse o nome da mulher e prometesse nunca mais procurar por ela, e ele, então, não teve duvidas, disse o meu nome, já que nos dávamos muito bem, havíamos mesmo estudado na mesma faculdade, nos víamos com certa freqüência, e a mentira tinha grande chance de passar por verdade. Que isto destruísse uma amizade de anos, não lhe doeu na consciência senão muito tempo depois. E agora, dissesse eu o que dissesse para minha amiga, o estrago já estaria feito, pois sempre ficaria a mágoa de ter sido ela, injusta, e eu, injustiçada.
O fato é que, nesses casos de traição ou desconfiança,
certos fatores ficam redundantes e roubam a cena, por assim dizer.
A ninguém interessa saber se Capitu era ou não culpada, ante o comportamento obsessivo de Bentinho.
A ninguém interessaria a minha inocência, e a de Olavo, tão patentes em nosso comportamento estava o carinho que sentíamos um pelo outro.
Para a noiva de Carlos tampouco interessava meu não envolvimento com ele, tão evidente era a falta de amor próprio dela.
Assim também, para minha amiga Lolita, que eu conheço muitíssimo bem, contava o que acontecia aos olhos de todos: o envolvimento progressivo e emocional dela com o não amante, o que não foi mas poderia ter sido, e a sociedade se comporta como aquele versículo bíblico que diz que, aquele que pensou no pecado, mesmo que nada tenha feito realmente, em seu coração já pecou.
Acredito eu que, se existe um Deus, e Ele nos fez à sua imagem e semelhança, seria justo que Ele nos perdoasse e compreendesse nossos esforços em resistir às tentações deste mundo que Ele criou e no qual colocou, sem opção, suas criaturas.
Acredito, sim, que Deus nos conhece bem e aprecia nossos esforços para sermos bons.
É a sociedade que não quer admitir que as tentações existam e que haja pessoas capazes de a elas resistir.
A ninguém interessa saber se Capitu era ou não culpada, ante o comportamento obsessivo de Bentinho.
A ninguém interessaria a minha inocência, e a de Olavo, tão patentes em nosso comportamento estava o carinho que sentíamos um pelo outro.
Para a noiva de Carlos tampouco interessava meu não envolvimento com ele, tão evidente era a falta de amor próprio dela.
Assim também, para minha amiga Lolita, que eu conheço muitíssimo bem, contava o que acontecia aos olhos de todos: o envolvimento progressivo e emocional dela com o não amante, o que não foi mas poderia ter sido, e a sociedade se comporta como aquele versículo bíblico que diz que, aquele que pensou no pecado, mesmo que nada tenha feito realmente, em seu coração já pecou.
Acredito eu que, se existe um Deus, e Ele nos fez à sua imagem e semelhança, seria justo que Ele nos perdoasse e compreendesse nossos esforços em resistir às tentações deste mundo que Ele criou e no qual colocou, sem opção, suas criaturas.
Acredito, sim, que Deus nos conhece bem e aprecia nossos esforços para sermos bons.
É a sociedade que não quer admitir que as tentações existam e que haja pessoas capazes de a elas resistir.
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