2 de out. de 2013

Rosana







Rosana, a garota de 15 anos, alimentava um desejo avassalador.
Ela não almejava roupas, aumento na mesada, boas notas na escola, casamento, aprovação dos pais ou aceitação por um grupo específico. Nem mesmo desejava um nariz menor ou seios maiores, como muitas outras de sua idade. O que ela ansiava por experimentar, e não mediria esforços para conseguir, era um fim de semana com o namorado em uma praia deserta.
Supervisionada por pais carinhosos e professores atenciosos, a adolescente passava os dias indo da casa à escola, daí ao laboratório, à quadra de esportes, e de volta a casa, de segunda a sexta. Aos fins de semana, praia, cinema, todo o tipo de passeio lhe era permitido, desde que cronometrado e supervisionado pelos pais.
- Ah, dizia ela ao namorado, como seria bom se pudéssemos ficar os dois isolados do mundo por um fim de semana inteirinho!
E o namorado, é claro, concordava. Não só concordava como arquitetou o plano todinho. Conseguiu a cópia da chave do carro do irmão que sairia de férias por um mês. Conseguiu uma barraca de camping com um primo que se formava advogado e trocava, feliz, a vida vagabunda nos acampamentos pela vida regrada nos hotéis confortáveis.
Os pais de Rosana a consideravam uma boa menina. Nunca cabulara aula e tinha ótimas notas. Apenas, nas noites de sábado, gostava de ficar nas baladas até mais tarde, sentada à mesa do clube com os pais, bebericando apenas sucos e água. O mesmo diziam de seu filho os pais do namorado.
Todos os dias, o casal imaginava com detalhes o que fariam em um fim de semana na praia deserta, longe de tudo e de todos. O coração dele acelerava, ela suspirava, e ficavam corados durante estas conversas.
A oportunidade apareceu quando a família Moreira convidou Rosana para um fim de semana em Campos do Jordão. Rosana levou a amiga a sua casa, para conversar com sua mãe. Naturalmente, os pais de ambas se falaram ao telefone, confirmaram  as informações, trocaram telefones, acertaram a viagem das filhas.
O namorado inscreveu-se em um curso que não pretendia fazer, no mesmo fim de semana, deixando os pais dele cientes do endereço, da programação e da carga horária do dito curso.
Rosana fez sua malinha, o namorado arrumou sua mochila, e, no dia aprazado, Rosana ligou para a amiga, mentindo pela primeira vez em sua vida, para informar que amanhecera febril. A seguir, saiu de casa e foi encontrar-se com o namorado, que pegou o carro do irmão, já equipado com a barraca, água e bolachas para o fim de semana, e seguiram pela Rio-Santos, rumo ao local onde havia o que ambos procuravam: um acampamento desativado, onde poderiam penetrar e usar os pontos de água e eletricidade, curtindo a praia próxima, completamente isolados do mundo, realizando o desejo há muito acalentado.
Depois de três horas de alegre tagarelice, deixaram a estrada principal e encontraram sem problemas as instalações abandonadas. O namorado abriu a porteira facilmente, entrou com o carro até um ponto próximo à areia, montaram a barraca, verificaram com satisfação que havia água corrente, limpa e abundante, nos banheiros, e organizaram seus pertences.
O namorado estendeu o saco de dormir e Rosana retirou o vestido, ficando apenas de biquíni. O rapaz também reduziu seus trajes ao maio, e puxou para si a namorada, beijando-a com sofreguidão.
Estavam então como queriam estar, isolados, com um fim de semana inteirinho pela frente. Olharam-se, tímidos e ansiosos, indecisos quanto ao próximo passo. O namorado sugeriu que fossem nadar. Rosana concordou. O dia estava quente, havia um belo sol dourado de verão, e a brisa trazia consigo areia e o cheiro do mar. O namorado pegou Rosana pela mão e foram em direção ao mar, sem pressa.
A juventude aprecia a beleza e a liberdade. Naquela praia selvagem, Rosana e o namorado embriagaram-se de ambas. Correr pela areia, mergulhar, boiar, nadar, e depois descansarem, caídos um sobre o outro à beira mar, quanta alegria!
O namorado cobriu o corpo dela de lama e conchas, que a maré lavou ao subir. A próxima brincadeira foi guerra de bolas de lama, o namorado fingindo fugir da pontaria da moça. Correram a rir por centenas de metros antes de retornarem ao mar e inovarem nos mergulhos: ele mergulhava com ela apoiada aos ombros, olhos abertos, o mais fundo que conseguissem.
Nenhum dos dois ousava tocar no assunto que mais interessava a ambos: o que os aguardava no aconchego da barraca, depois. Concentravam-se no presente, rindo, provocando-se, devorando um ao outro com os olhos.
Os dedos de Rosana estavam enrugados e frios, na tarde que descambava, quando resolveram voltar ao acampamento, tomar um banho de água doce e ir comer algo.
Abraçados, iniciaram a caminhada de volta, inebriados com os cheiros e os sons daquela aventura.
Seguros de que não seriam descobertos e interrompidos, entraram na barraca em busca de toalhas e roupas secas.
Sobre o saco de dormir, a mochila aberta dele foi o primeiro alerta. Um estalido à porta da barraca foi o segundo.
Naquele mesmo instante, em casa de Rosana, o telefone tocou. Era a amiga perguntando se Rosana melhorara. Alarmada, a mãe imediatamente ligou para a casa do namorado, cujo pai ligou para a escola e descobriu que o filho não comparecera ao curso. Começou em seguida a busca desesperada das famílias pelos amigos, conhecidos, hospitais, necrotérios e delegacias.
O casal guardara bem o segredo. Nenhum de seus colegas tinha e menor idéia de onde eles pudessem estar. A policia começou por buscar o carro, dado como roubado. E o primo, ex dono da barraca, começou a ligar para todos os acampamentos que pudesse localizar nas cidades próximas.
No terceiro dia, quando o retrato dos dois apareceu na televisão, a polícia recebeu a ligação de uma mulher que disse ter passado próximo a um camping desativado, e ter cruzado com uma caminhonete, de dentro da qual ouviu gritos de mulher. Na hora não dera importância maior ao fato, afinal, adolescentes às vezes gritam por brincadeira...
Horas depois a polícia localizou o camping, o carro abandonado, a barraca com o saco de dormir e alguns pertences que os pobres pais reconheceram...
Passou-se mais de uma semana até localizarem os corpos, e quase quinze dias para capturarem os assassinos, quatro rapazes menores de idade.
Sem demonstrar nenhum remorso, eles contaram como mantiveram o casal em cativeiro, sempre um deles apontando uma arma para a cabeça do rapaz, enquanto os outros se divertiam com a garota bonita, sob a ameaça de materem o namorado, e, como, quando se cansaram dela, com requintes de crueldade, a mantiveram olhando enquanto estouravam os miolos do namorado, que foi morto primeiro.
O chefe do bando, um tal de Champinha, sujeitinho disforme de rosto e de alma, riu-se na cara do delegado:
- Não me rela, não, que eu tenho meus direitos, diz aí no estatuto da criança e do adolescente que eu sou ... inimpu... enfim, eu saio limpo, porque sou de menor...

(baseado em um caso real)


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