Rosana, a garota de 15 anos, alimentava um desejo
avassalador.
Ela não almejava roupas, aumento na mesada, boas notas na
escola, casamento, aprovação dos pais ou aceitação por um grupo específico. Nem
mesmo desejava um nariz menor ou seios maiores, como muitas outras de sua
idade. O que ela ansiava por experimentar, e não mediria esforços para
conseguir, era um fim de semana com o namorado em uma praia deserta.
Supervisionada por pais carinhosos e professores atenciosos,
a adolescente passava os dias indo da casa à escola, daí ao laboratório, à
quadra de esportes, e de volta a casa, de segunda a sexta. Aos fins de semana, praia,
cinema, todo o tipo de passeio lhe era permitido, desde que cronometrado e
supervisionado pelos pais.
- Ah, dizia ela ao namorado, como seria bom se pudéssemos
ficar os dois isolados do mundo por um fim de semana inteirinho!
E o namorado, é claro, concordava. Não só concordava como arquitetou o plano todinho. Conseguiu a cópia da chave do carro do irmão que sairia de férias por um mês. Conseguiu uma barraca de camping com um primo que se formava advogado e trocava, feliz, a vida vagabunda nos acampamentos pela vida regrada nos hotéis confortáveis.
E o namorado, é claro, concordava. Não só concordava como arquitetou o plano todinho. Conseguiu a cópia da chave do carro do irmão que sairia de férias por um mês. Conseguiu uma barraca de camping com um primo que se formava advogado e trocava, feliz, a vida vagabunda nos acampamentos pela vida regrada nos hotéis confortáveis.
Os pais de Rosana a consideravam uma boa menina. Nunca
cabulara aula e tinha ótimas notas. Apenas, nas noites de sábado, gostava de
ficar nas baladas até mais tarde, sentada à mesa do clube com os pais,
bebericando apenas sucos e água. O mesmo diziam de seu filho os pais do
namorado.
Todos os dias, o casal imaginava com detalhes o que fariam
em um fim de semana na praia deserta, longe de tudo e de todos. O coração dele
acelerava, ela suspirava, e ficavam corados durante estas conversas.
A oportunidade apareceu quando a família Moreira convidou
Rosana para um fim de semana em Campos do Jordão. Rosana levou a amiga a sua
casa, para conversar com sua mãe. Naturalmente, os pais de ambas se falaram ao
telefone, confirmaram as informações,
trocaram telefones, acertaram a viagem das filhas.
O namorado inscreveu-se em um curso que não pretendia fazer,
no mesmo fim de semana, deixando os pais dele cientes do endereço, da
programação e da carga horária do dito curso.
Rosana fez sua malinha, o namorado arrumou sua mochila, e,
no dia aprazado, Rosana ligou para a amiga, mentindo pela primeira vez em sua
vida, para informar que amanhecera febril. A seguir, saiu de casa e foi
encontrar-se com o namorado, que pegou o carro do irmão, já equipado com a
barraca, água e bolachas para o fim de semana, e seguiram pela Rio-Santos, rumo
ao local onde havia o que ambos procuravam: um acampamento desativado, onde
poderiam penetrar e usar os pontos de água e eletricidade, curtindo a praia
próxima, completamente isolados do mundo, realizando o desejo há muito
acalentado.
Depois de três horas de alegre tagarelice, deixaram a
estrada principal e encontraram sem problemas as instalações abandonadas. O
namorado abriu a porteira facilmente, entrou com o carro até um ponto próximo à
areia, montaram a barraca, verificaram com satisfação que havia água corrente,
limpa e abundante, nos banheiros, e organizaram seus pertences.
O namorado estendeu o saco de dormir e Rosana retirou o
vestido, ficando apenas de biquíni. O rapaz também reduziu seus trajes ao maio,
e puxou para si a namorada, beijando-a com sofreguidão.
Estavam então como queriam estar, isolados, com um fim de
semana inteirinho pela frente. Olharam-se, tímidos e ansiosos, indecisos quanto
ao próximo passo. O namorado sugeriu que fossem nadar. Rosana concordou. O dia
estava quente, havia um belo sol dourado de verão, e a brisa trazia consigo
areia e o cheiro do mar. O namorado pegou Rosana pela mão e foram em direção ao
mar, sem pressa.
A juventude aprecia a beleza e a liberdade. Naquela praia
selvagem, Rosana e o namorado embriagaram-se de ambas. Correr pela areia,
mergulhar, boiar, nadar, e depois descansarem, caídos um sobre o outro à beira
mar, quanta alegria!
O namorado cobriu o corpo dela de lama e conchas, que a maré
lavou ao subir. A próxima brincadeira foi guerra de bolas de lama, o namorado
fingindo fugir da pontaria da moça. Correram a rir por centenas de metros antes
de retornarem ao mar e inovarem nos mergulhos: ele mergulhava com ela apoiada
aos ombros, olhos abertos, o mais fundo que conseguissem.
Nenhum dos dois ousava tocar no assunto que mais interessava
a ambos: o que os aguardava no aconchego da barraca, depois. Concentravam-se no
presente, rindo, provocando-se, devorando um ao outro com os olhos.
Os dedos de Rosana estavam enrugados e frios, na tarde que
descambava, quando resolveram voltar ao acampamento, tomar um banho de água
doce e ir comer algo.
Abraçados, iniciaram a caminhada de volta, inebriados com os
cheiros e os sons daquela aventura.
Seguros de que não seriam descobertos e interrompidos,
entraram na barraca em busca de toalhas e roupas secas.
Sobre o saco de dormir, a mochila aberta dele foi o primeiro
alerta. Um estalido à porta da barraca foi o segundo.
Naquele mesmo instante, em casa de Rosana, o telefone tocou.
Era a amiga perguntando se Rosana melhorara. Alarmada, a mãe imediatamente
ligou para a casa do namorado, cujo pai ligou para a escola e descobriu que o
filho não comparecera ao curso. Começou em seguida a busca desesperada das
famílias pelos amigos, conhecidos, hospitais, necrotérios e delegacias.
O casal guardara bem o segredo. Nenhum de seus colegas tinha
e menor idéia de onde eles pudessem estar. A policia começou por buscar o
carro, dado como roubado. E o primo, ex dono da barraca, começou a ligar para
todos os acampamentos que pudesse localizar nas cidades próximas.
No terceiro dia, quando o retrato dos dois apareceu na
televisão, a polícia recebeu a ligação de uma mulher que disse ter passado
próximo a um camping desativado, e ter cruzado com uma caminhonete, de dentro
da qual ouviu gritos de mulher. Na hora não dera importância maior ao fato,
afinal, adolescentes às vezes gritam por brincadeira...
Horas depois a polícia localizou o camping, o carro
abandonado, a barraca com o saco de dormir e alguns pertences que os pobres
pais reconheceram...
Passou-se mais de uma semana até localizarem os corpos, e
quase quinze dias para capturarem os assassinos, quatro rapazes menores de
idade.
Sem demonstrar nenhum remorso, eles contaram como mantiveram o casal em cativeiro, sempre um deles apontando uma arma para a cabeça do rapaz, enquanto os outros se divertiam com a garota bonita, sob a ameaça de materem o namorado, e, como, quando se cansaram dela, com requintes de crueldade, a mantiveram olhando enquanto estouravam os miolos do namorado, que foi morto primeiro.
Sem demonstrar nenhum remorso, eles contaram como mantiveram o casal em cativeiro, sempre um deles apontando uma arma para a cabeça do rapaz, enquanto os outros se divertiam com a garota bonita, sob a ameaça de materem o namorado, e, como, quando se cansaram dela, com requintes de crueldade, a mantiveram olhando enquanto estouravam os miolos do namorado, que foi morto primeiro.
O chefe do bando, um tal de Champinha, sujeitinho disforme
de rosto e de alma, riu-se na cara do delegado:
- Não me rela, não, que eu tenho meus direitos, diz aí no
estatuto da criança e do adolescente que eu sou ... inimpu... enfim, eu saio
limpo, porque sou de menor...
(baseado em um caso real)
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