4 de jun. de 2010

conto -Um milagre

Até a idade de trinta anos o Dr. Hélio não acreditava em milagres.
Ele clinicava em Terra Roxa, cidadezinha situada em um lindo vale distante vinte e cinco quilômetros de Bebedouro, centro regional, à qual se ligava por estradas de terra íngremes e sinuosas, intransitáveis durante as chuvas, quando testemunhou um fato extraordinário.
Uma mulher trouxe para consulta seu filho de três anos. O Dr. Hélio notou uma cicatriz extensa no lado esquerdo do abdome do garoto, uma cicatriz pálida e retilínea, como a de uma cirurgia antiga, e perguntou o motivo daquela marca. Ouviu então uma estranha estória, no português cheio de erros dos caipiras:
“Doutor, eu nem sei o que lhe diga, nem eu mesma entendo o acontecido. O ano passado teve uma vez que caiu uma chuvarada que durou três dias. Nós mora a três quilômetros daqui, nós num tem carro, não, quando precisa tem a caminhonete do patrão, mas num dava jeito nem de a gente sair à procura do patrão tanta era a água que chovia, tudo era uma lama só, de noite, um breu que só vendo e o menino dana a se queimar de febre. Um febrão que dava inté medo. Como eu chorei aquela madrugada e me apeguei com minha Santa Rita a rezar por meu menino. De manhã cedinho o moleque aquietou-se e dormiu. A gente esperou um pouco até a água abaixar e fomo pra casa do patrão, que trouxe nós até o hospital. Daí quando eu vou abrir a camisa do moleque pro outro doutor examinar, dou um grito de susto, tava esta marca aí, só que vermelha e grossa, assim como uma carne inflamada e o médico perguntou:
- Que cirurgia foi essa?
- Mas num foi cirurgia nenhuma, não. Até ontem de noite num tinha nada aí, meu filho é sadio, nunca operou de nada, não.
- Como não tinha nada? Isso aqui é marca de cirurgia recente.
Eu fiquei toda arrepiada. O menino tava espertinho, sem febre, querendo comer, o doutor não achou nada e nós fomo embora, ainda levando bronca por não saber explicar que marca era aquela e ocupar o tempo do médico à toa.
Ora, vai que uma prima minha sabe da estória e diz que ouviu falar de um centro espírita e eu não queria ir não, que eu sou católica e não gosto dessas coisas de terreiro, não, mas tava encafifada e fui. Chegamo lá um senhor muito distinto olhou o meu menino, me olhou, eu nem falei nada, não, eu tava quieta, com medo, e o menino assim no meu colo, vestido e tudo. Pois o tal senhor distinto me diz:
- Você foi abençoada, filha. Essa marca em seu menino é de uma cirurgia espiritual. O menino teve uma inflamação no intestino, ia morrer, era de noite, chovia forte, você não tinha como chegar na cidade, então os espíritos operaram ele para salvar a vida dele. Agradeça a Deus, minha filha.
Eu tremia tanto que nem falar podia. Como é que aquele homem podia saber daquilo se eu nem falei nem mostrei nada?
Com o tempo a marca foi afinando, abaixando, agora está assim, este risquinho branco tão reto que inté parece feito com régua.
Eu nunca mais que voltei no centro.
Rezo toda noite a Deus agradecendo a vida de meu menino, mas não sei de explicação pra isso não. A minha Santa Rita dos Impossíveis é quem deve saber.”

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