6 de jun. de 2010

crônica - Para não dar vexame

Era uma dona emproada, dessas que se denominam uma senhora distinta, de classe; o tipo cuja casa parece uma exposição de tão impecavelmente arrumadinha, repleta de bibelots, paninhos de crochet e arranjos de flores para tudo quanto é canto.
A respeitável velhinha de nossa história já passava dos 65, vendendo saúde. Muito vaidosa, fazia diariamente a sua ginástica, frequentava com assiduidade o cabeleireiro e vestia - se com elegância. Ultimamente caprichava mais no visual porque conhecera um charmoso viúvo, de cabelo todo branquinho mas sem um pingo de barriga, um belo tipo. C onhecera - o no baile de formatura da neta, que o havia apresentado como um exímio dançarino, e o par havia arrasado no salão.
Aconteceu que, certa tarde, vovó fora à casa das netas preparar umas sementeiras no quintal e para isso vestira uns trajes bem velhos e protegera os cabelos com um medonho turbante. Suada e suja de terra, acabado o trabalho, ela ia para o banho quando a neta caçula chamou - a para ver qualquer coisa na TV.
E lá estava ela na sala de TV quando ele chegou e foi introduzido na sala de visitas antes que vovó pudesse aprontar - se para ser vista. ( pois a nossa vovó ficara agradavelmente impressionada com o ex - professor da neta, caso o leitor não tenha ainda compreendido )
Para dirigir - se ao banheiro, contudo, ela precisava atravessar a outra sala, e nada de a neta levar o homem para a varanda ou para a biblioteca.
O tempo corria e vovó se conformava em desistir do encontro. Paciência, uma oportunidade perdida ! Ser vista naqueles trajes, com aquele aspecto, nem pensar !
Se ela ao menos pudesse dar a volta à casa e entrar pelos fundos...
Então, a natureza fez - se sentir. Era imperioso ir ao banheiro sem mais delongas. E lá na sala de visitas a prosa se prolongava, animada.
E a venhinha sem saber o que fazer, não podia protelar por muito mais tempo a satisfação de suas necessidades fisiológicas. E nem pensar em aparecer na frente do pretendente naquele desalinho.
Que dilema !
Os minutos passavam, longos, e,justo no momento em que ele se despedia e assomava à porta da rua, a senhora tomou uma decisão desesperada : pulou a janela.
E caiu em seus braços.

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