5 de jun. de 2010

crônica - Uma questão de classe

Chovia que era uma beleza. Um Turner se quedaria deliciado ante os matizes caleidoscópicos do mar em fúria.
Um dia em que um assalariado de juízo restaria em casa a prevenir-se da gripe. Mas não Luizinha, funcionária responsável, ciente de suas obrigações.
Luizinha embarcava pontualmente na barca das 6:30 e atravessava o Atlântico rumo à favela onde trabalhava.
Ela só faltara uma vez, quando ventos acima dos 60 km/h impediram a navegação das balsas.
Ela enfrentava estóicamente, a depender do tempo, dez quadras de pó ou lama para garantir o emprego federal arduamente conquistado após meses de estudo e insônia.
A seu lado aglomeravam-se os miseráveis habitantes do cortiço, maltrapilhos, fétidos, piolhentos, encarando com rancor seu corpo bem nutrido e bem cuidado. Por mais que se vestisse com simplicidade, ela sobressaía na multidão, deslocada de seu meio, de suas raízes.
Largando por um momento o guarda-chuva a seu lado, Luíza buscou na bolsa um lenço e assoou o nariz.
A travessia terminava. A moça tateou pelo banco em vão até encontrar o olhar duro da corpulenta mulher ao lado, que a fixava agressiva, segurando nas mãos o precioso guarda-chuva.
A cena armada para o escândalo.
Luizinha pensou em protestar, mas quem disse que a voz lhe obedeceu?
E o olho mau da ladra insolente, provocador, zombeteiro...
A raiva aflorou no rosto da moça sob a forma de lágrimas. Todos os seus músculos contraíram-se em um patético esboço de reação.
Muda de espanto, Luizinha observou a outra afastando-se imponente, imensa, ameaçadora, a encarnação dos protestos da Miséria contra a Abastança.
E Luíza lá, imóvel.
Uma mulher desprotegida exposta à tempestade.

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