4 de jun. de 2010

crônica - Travessuras da Inspiração

- Para quando? Qual o assunto? É para comemorar alguma data especial?
Pois não é que aquela mercenária fazia versos por encomenda? Eu me indignava. Literatura não é culinária!
Cada artista, contudo, cria lá a seu jeito e gosto, e poetas são criaturas estranhas de hábitos bizarros, apesar de irem à praia e ao supermercado como toda a gente. Bem... quase como toda gente.
Aquele cidadão que suspira extasiado ante as frutas empilhadas, que fala de ‘figos solenes’, ‘sabor de avó’ e em ‘amoras comidas com sol’, já se sabe – é um poeta.
Que dizer da amiga que se inspira quando se molha? Larga a louça por lavar, sai do chuveiro pingando pela casa e esbarra conosco na rua a correr debaixo de tempestade, e, quando, solícitos, lhe estendemos o guarda-chuva, ela nos surpreende:
- Caneta e papel, urgente!
Eu pertenço `a família dos que são acordados à noite pela idéia:
- Psiu, estou aqui!
Estendo a mão, acendo o abajur e anoto rápida as frases boêmias no bloco que tenho sempre à mão, preparada para estas investidas noturnas.
Há quem se inspire ao ouvir o som do mar, talvez por isso Santos seja berço de tantos poetas.
Bom, leitor, de hoje em diante, quando você vir uma distinta senhora a escrever na areia, ou alguém o abordar à mesa do bar com o pedido insólito de ‘um guardanapo, rápido, por favor’ ou, na fila do banco, alguém a escrever furiosamente na capa do talão de cheques, sorria – você encontrou um poeta.

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