A princípio parecia tudo normal. As pessoas mostravam - se educadas como de costume. Aos poucos ela deu - se conta do muro de polidez gelada que se erguia a seu redor. As conversas não se tornavam mais pessoais, congelavam em torno de banalidades com o tempo, esportes ou decoração.
Não recebia mais convites para festas. E, quando, no seu aniversário, ninguém compareceu, todos dando desculpas socialmente adequadas, ela, finalmente, começou a compreender.
Tratava - se de uma dessas ridículas situações que, quanto mais se explica, mais complica. O fato é que todas as evidências conspiravam contra ela.
Houvera alguns comentários ostensivos sobre a justiça divina, que, esta sim, não falha. Olhares de soslaio quando ela chegava. Insinuações sutis sobre certas mulheres dissimuladas, perigosas como cobras.
O marido afastara - se, pedindo um tempo para repensar uma relação que não lhe era mais conveniente, retirando - se para o apartamento em Ribeirão Preto. E a filha o acompanhara, dizendo que em Ribeirão havia melhores colégios e, além disso, lá ninguém a conhecia. Interrogada sobre este súbito desejo de anonimato, a garota explicara que não suportava mais a situação constrangedora, a vergonha de ouvir comentários sobre a mãe.
Horrorizada, ela notou que a adolescente a julgava culpada, bem como o marido, bem como o pai. Pior, recusavam - se a esclarecer a situação.
- Não adianta repisar o assunto, filha. Você vai ter mesmo que viver com isto para o resto de sua vida. - e ela percebeu, consternada, que nem a mãe acreditava nela.
O ostracismo total só não acontecera ainda devido ao cargo político que ela ocupava. Precisavam dela. Dependiam de sua atuação, de sua aprovação, de seu trabalho. Quando acabasse o mandato do atual prefeito, a dispensariam sem mais aquela.
O desprezo a seu redor tornava - se palpável. Os sorrisos irônicos, os olhares cruéis, os ditos de duplo sentido cada vez mais acintosos feriam mais pelo fato de ela não poder prová - los.
Impossível esclarecer um assunto do qual, explicitamente, ninguém falava.
Ela procurou o juiz, pedindo um inquérito.
- Veja bem, só posso abrir um processo a pedido da promotoria e, que eu saiba, ninguém a está acusando. Você deve pensar que sua insistência em provar inocência será tomada como prova incontestável de culpa. E se houver um processo e você for absolvida, sabe o que dirão as más línguas ? Que você foi de fato muito esperta. Tudo o que conseguirá provar é que tem um álibi perfeito.
Ela ponderou que o juiz tinha razão.
- Legalmente você não está ameaçada - e ele concluiu comentando que “a coisa fora muito bem tramada” e deu - lhe uma piscadela cúmplice que a fez sair dali com o coração mais pesado do que quando entrara.
Sua melhor amiga deixara de visitá - la , não atendia a seus telefonemas e inventava desculpas para não recebe - la.
Há anos ela cultivava boas relações nos melhores círculos sociais, gente de bom nível cultural e moral, mas estas excelentes pessoas demonstraram completa incapacidade de seguir os preceitos religiosos da caridade e da justiça. Aliás, protestantes, católicos e espíritas demonstraram um curioso ponto em comum : quanto mais ostensivamente religiosos, mais intolerantes e menos dispostos a conceder - lhe o benefício da dúvida.
- O importante é estar em paz com sua consciência - esquivou - se um padre, alegando pressa e sugerindo, para seu espanto, que ela se mantivesse longe de sua igreja.
A questão era mais prosaica do que estar em paz consigo mesma. Tratava - se do fato simples de que um ser humano precisa de contato com outros seres humanos.
Então ela conheceu a escultora belga, que a procurou para organizar uma exposição e com quem ela passou uma tarde inteira conversando, a abrir o coração. Que pessoa simpática e alegre! Marcou um passeio para sábado, e quando a outra ligou desmarcando friamente constatou que a cidade fora rápida em seu trabalho de difamação.
Depois deste fato ela perdeu a esperança. Não adiantava lutar. A sua era uma causa perdida.
Na noite de Natal ela suportou estoicamente a representação, os parentes se esmerando em fingir que a tratavam como antes, quando por detrás dos gestos e falas rituais adivinhava - se o desdém. Nenhum afeto transparecia em seus olhares.
Em dado momento alguém afirmou que coração de mãe não se engana. Ela sorriu tristemente ao ouvir tal frase e foi só neste momento, observando - a , que a mãe deu -se conta da verdade. Não teve, porém , oportunidade de contar à filha que acreditava em sua inocência , pois nesta noite ela tomou veneno e amanheceu morta.
A mãe inventou para o médico um reumatismo de infância mal curado e certas crises de taquicardia, para induzi - lo a atestar morte natural. Assim, ao menos, nenhum cristão poderia insinuar, maldosamente, que o remorso a levara ao suicídio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário