Cristina leu rapidamente as questões da prova, satisfeita, pois conhecia a fundo a matéria de maior peso naquele vestibular.
Primeiramente ela leu atentamente cada pergunta e marcou discretamente, com uma marquinha apenas perceptível, a resposta certa, deixando em branco as dúvidas.
Depois, refletiu sobre as poucas questões em aberto, eliminando as respostas obviamente erradas e estudando as outras opções, puxando pela memória.
Finalmente, ela releu a prova, conferiu tudo direitinho, um olho no relógio para controlar o tempo disponível, e com a caneta começou a circular as letras definitivas no cartão de respostas.
Então, aconteceu.
Circulava uma letra imediatamente antes ou após a resposta correta, de modo que o gabarito não continha sequer uma resposta exata. Garantindo assim a derrota, ela levantou-se, entregou a folha ao fiscal e retirou-se como um autômato.
Anos de estudo e de esforço, tudo o que mais prezava e desejava, jogado fora.
Um sentimento de júbilo cantava em seu íntimo, embora em seu olhar só houvesse perplexidade e consternação.
Pensou em raspar os cabelos, deixando uma mecha estreita no alto da cabeça, tingida de rosa. Imaginou-se num palco, três brincos em cada orelha, em roupas de couro, tocando guitarra.
E como passasse em frente a um salão de beleza, suou frio para resistir ao impulso de entrar e já, já, ficar careca.
Em casa não encontrou coragem para contar o que ocorrera no exame. Seu noivo apareceu, confiante em sua vitória, trazendo uns discos que ela tencionava gravar. Para espanto do rapaz, porém, ela escolheu o disco mais barulhento do irmão mais moço:
-Hoje prefiro agitar.
E quando ele a abraçou, ela foi ríspida, grosseira e vulgar:
-Vocês, homens, só pensam naquilo.
O olhar magoado do rapaz comoveu-a. Ele era tímido, afetuoso, e ela o repelia injustamente.
-Nelson, compreenda, esta tensão toda, este vestibular...
-Está certo, descanse, eu volto outra hora.
Na mesma tarde, duas colegas vieram visitá-la e comentaram suas incertezas, suas incertezas, suas impressões de que não haviam ido lá tão bem, e Cristina surpreendeu-se a destilar veneno: “burrinhas, está na cara que vocês não vão passar”, “ora, o Q.I. de vocês é tão baixo, sua única chance é arrumar Quem Indique”, com risinhos de mofa.
-E eu só dei aquelas aulas de inglês para vocês para treinar o método de ensino que vou usar em umas aulas que consegui na Cultura Inglesa. É o meu primeiro emprego e era meu interesse dar aulas para vocês. Não pensem que foi por amizade, não, suas tontas.
Após a inevitável ruptura, aquela oculta sensação de intenso júbilo retornou.
Horrorizada, Cristina trancou-se em seu quarto. No espelho, um rosto que tinha as suas feições enfrentou-a com um olhar zombeteiro e um sorriso mau.
Dali a dez dias haveria outro vestibular, outra faculdade a tentar. Bastava esquecer o fracasso da primeira tentativa e concentrar-se.
Nos próximos dias o mau humor de Cristina aumentou. Sua vida como que escureceu. Quebrara-se a sintonia, algo sutil mudara a realidade. Nada mais era como antes. As coisas não eram o que pareciam. Da sua perspectiva, era como se o mundo houvesse girado um grau, apenas um grau e todas as coisas houvessem mudado um pouquinho. Algumas pessoas afastavam-se dela, outras claramente a evitavam e pior que isso, coisas estranhas começaram a acontecer. Desconhecidos a abordavam na rua e ela, cuja força de vontade sempre a mantivera no assim apregoado bom caminho, deixava-se ficar a ouvir aquela conversa de desocupados, a fantasiar em como seria andar descalça na praia sob o céu noturno, a curtir um baseado.
Bem cedo, na manhã do segundo vestibular, que seria em São Paulo, Cristina despediu-se dos pais e partiu. Sentia-se tinindo de saber, uma verdadeira enciclopédia. Revisara seus apontamentos na véspera, e desta vez, é claro que ela iria preencher o gabarito com as respostas certas. Seu futuro estava em jogo e ela não admitiria nenhum contratempo.
Com esta firme convicção, ela começou a subida da Via Anchieta. A estrada estava livre, o tempo bem claro e o carro revisado para garantir uma viagem sem incidentes.
Nas tortuosas curvas da serra, uma, a mais perigosa, beirava um abismo. Ao adentrá-la, as mãos de Cristina não fizeram o necessário desvio na direção. Seu pé direito pisou fundo no acelerador e ela penetrou na paisagem, rumo ao infinito.
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