6 de jun. de 2010

conto erótico - Vocação

_Quanto?
Risonha e distraída, ela acompanhava há vários minutos, sem se dar conta do que fazia, a caminhada daquela criatura máscula, para quem agora dirigia um olhar de espanto.
_Meu nome é Vítor P... Estou hospedado ali no Hotel Jequitimar. Quanto você cobra para vir comigo agora?
Ela reteve fôlego, sentindo as faces em brasa, e afastou-se a correr.
Bem que ouvira comentários sobre as “mariposas” que se ofereciam nos pontos de ônibus, mas ela pensava que essas coisas só aconteciam à noite.
Ela olhou para trás. Ele ria. Ela riu também. Ele enviou-lhe um beijo com a ponta dos dedos. Espantada com a própria ousadia, ela acenou em despedida, o coração aos pinotes.
Pensou no atrevimento durante todo o trajeto para casa. Decerto ele era estrangeiro, tinha um forte sotaque. E se ela se encontrasse com ele, ninguém saberia.
Entrou em casa e apanhou um jornal. Uma idéia marota brincava com seus princípios. Procurou nos classificados pessoais do jornal. Dizia-se que esses estrangeiros pagavam bem e em dólares. Lá estava:
“US$700 – Apartamento próprio. Só para executivos”
US$700! E ela, que ganhava um mínimo! Porém a moça tinha apartamento próprio, com certeza usava perfume francês e usava roupas finas.
“Mas é paga para trabalhar despida” – explicou a idéia maliciosa – “e você também tem um frasco de perfume francês”
“US500 – 18 anos. Tudo o que a sua imaginação ousar.”
“US$200 -Trivial simples. Loirinha”
“US$300 – Mulata. Tudo em cima. Mãos e bocas de ouro”
Ela sentou um arrepio percorrer-lhe o corpo. Tudo o que a sua imaginação ousar... Pensou em um chicote, cachorros, sabe-se lá. O trivial simples desatou-lhe o riso e pareceu-lhe aceitável.
US$200 em uma única tarde, e de repente um trivial simples poderia ser bem agradável. Imaginou-se nos braços do atraente italiano, a suspirar. Passeou pela casa silenciosa, observando a mobília simples de família pobre mas honrada e pensou em seu futuro. Se ganhasse US$200 por semana, em dois anos poderia comprar uma casinha e voltar à vida normal. As “mariposas” gastavam em bebidas, em drogas, ou deixavam-se explorar por algum gigolô. Ela guardaria o dinheiro sob a capa protetora da Bíblia e manteria suas saídas em segredo.
Bem, não custava experimentar, não é? Se não gostasse, pararia nos primeiros US$200.
E se ele achasse caro? Ora, ela tinha que tentar!
Quando suas mãos pegaram o fone, ela assustou-se. Até então era apenas uma fantasia, nada para ser levado a sério, mas .. por que não? O diabo da idéia tentadora e a lembrança do belo homem estacionaram em sua mente. Por que não?
Ligou para o Hotel Jequitimar.
_Um amigo meu está hospedado aí, chama-se Vítor P...
Ele não atenderia, ela enterraria a idéia maluca na prisão mental onde devem ficar trancafiadas tais idéias perigosas e fim.
_Alô? – ele atendeu.
Após marcar o encontro, ela abaixou o fone, sem poder acreditar no que fizera. Viu-se a subir as escadas, banhar-se, colocar o perfume francês e a calcinha de renda preta. Sorriu para a mocinha ingênua do espelho que piscou para ela, divertida, e na bolsa colocou o batom vermelho que só usava no Carnaval, para retocar os lábios quando entrasse no elevador do hotel.
Ensaiou um andar provocante, gestos lânguidos, e decidiu-se pelo seu próprio aspecto de moça simples.
US$200! Ganhar em uma tarde o salário de dois meses!
Viu-se a caminho, cumprimentou um conhecido que passava como se fosse a coisa mais natural do mundo ela entrar em um hotel, sentindo-se estranhamente alegre, leve. Andou pelos corredores com a segurança de quem está na própria casa e aproveitou um momento em que o corredor ficara vazio para empurrar a porta de quarto 415, como ele a instruíra.
Sentado em frente à TV, saboreando uma caipirinha, ele fez com a mão sinal para que ela trancasse a porta.
Ela abriu um sorriso de criança travessa e esperta:
_Pagamento adiantado.
Ao sair do hotel, feliz, sentindo o corpo satisfeito e relaxado, ela ponderou que era bom e agradável o tal trivial simples. Parou por um momento no ponto de ônibus e observou os homens que passavam, demorando-se na figura alta e viril de um marinheiro ruivo. Sorriu quando ele aproximou-se e correu a mão pelos cabelos em um gesto que era pura provocação. Ele parou em frente a ela, que, desta vez, respondeu prontamente quando ele perguntou:
_Quanto?

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