Durante meses o homem sujo entrava no bar e pedia um punhado de sal, com olhar feroz e urgência na voz.
O dono do bar, vivido, escolado, dava o sal sem discussão e o estranho homem partia, trôpego.
Um belo dia entra o sujeito, mas limpo, cheiroso, bem vestido, e, educadamente, pede um café.
A manhã ia a meio, o bar estava vazio. O português não conteve sua curiosidade:
O amigo me perdoe, mas hoje não quer sal, não?
Não carece mais, não.
O amigo me perdoe mais uma vez... é que estou curioso, sabe? O que é que o senhor fazia com uma pitada de sal?
O outro tomou o café devagar. Depois de um longo silêncio, contou sua estória:
‘ De certa forma o senhor já foi parte da estória, então pode saber o resto, não é?
Eu era viciado em cocaína. Tinha uma filhinha, uma mulher amorosa, um emprego. Aí perdi o emprego, discuti com a mulher e caí em uma vida inútil, só festas de embalos, noitadas, estas coisas, até que um dia...
Cheguei em casa e encontrei um bilhete. Minha filhinha tinha sido atropelada e estava no hospital. Saí feito um doido. Cheguei lá e a menina estava na UTI, morre não morre. Só me deixavam olhar pelo vidro, e sabe o que pensei? Pensei: minha filha morrendo e eu me drogando. Senti-me um verme.
Fui para a capela do hospital e me agarrei com tudo quanto era santo: São Expedito, São Judas Tadeu, Santa Rita, Nossa Senhora... Pedi a Deus que me desse a chance de ser um pai para minha filha. Tudo o que eu queria era uma oportunidade de amar aquela garotinha do jeito que ela merecia.
A menina se salvou. Voltou para casa. E eu, doido por uma branquinha.
Então botei um pouco de sal no dedo e falei para mim mesmo: pó por pó... um homem pode lá ser mais fraco que um pozinho branco? Então saí de casa com o sal na mão, rezando sem parar para todos os santos do Paraíso me ajudarem a deixar o vício.
Saía de casa, tremia, suava, passava mal o tempo todo. Depois voltava, olhava a filha e dizia para a mulher que ia procurar emprego. Andava o dia todo pelas ruas e quando pintava a vontade, eu entrava nos bares, pedia um punhado de sal, ia olhando e pensando: Deus há de me dar forças...
Olha, seu moço, passei uns meses de cão, mas fiquei limpo. Arrumei emprego, voltei para a igreja, virei um homem novo. Jogo bola com minha filha, levo ela na praia, conto estórias, ajudo a mãe dela em casa, sou gente.
Um sábado, bateram palmas no portão. Era um dos falsos amigos, um malandro safado, me convidando para uma roda de pó, que ele tinha uma porção da boa.
Saí com ele na hora. Nem fechei a porta de casa. Na esquina lembrei-me da cena no hospital, a menina quase morrendo. Parei. Bati no ombro do sujeito e expliquei: ‘Isto é para você. Para mim não serve, não. A vida que eu quero é outra.’
Voltei para casa. Na sala minha mulher estava ajoelhada, chorando e rezando em voz alta, pedindo por mim. Fiquei tão comovido que me ajoelhei também e nós dois choramos, abraçados.
Eu fico emocionado só de me alembrar...
E foi assim que eu me recuperei, sem médico, sem remédio, sem coisa nenhuma, só com a fé em Deus e a ajuda de um punhado de sal.
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