4 de jun. de 2010

conto - Rotina

Quando o yoga, cuja prática ele iniciara a conselho médico, ‘detonou’ suas dores, provocando sérios transtornos em sua doença, que, muito avexada, não encontrou outro remédio a não ser retirar-se de seu corpo, ele passou a interessar-se por tudo o que aparecia sobre o Oriente: tai-chi, I Ching, do-in, taoísmo, hinduísmo e até mesmo culinária.
Achou o taoísmo muito sensato, o hinduísmo uma coleção de belas histórias mitológicas, o budismo científico e de uma profundidade psicológica inesperada. Ele, que já havia lido algo de Jung, ponderou que o psiquiatra exagerara ao recomendar cautela nas incursões dos curiosos às culturas orientais, sob risco de inesperado colapso psíquico. O pensamento do Oriente, dizia Jung, devia primeiramente ser adaptado por conhecedores das duas culturas ao modo de vida do Ocidente. Sem dúvida, um exagero!, decidiu nosso personagem. Entusiasmado, continuou com suas leituras avidamente. Foi quando encontrou o Zen japonês.
Através da filosofia zen, ficou ele sabendo que ‘as montanhas não são montanhas embora pareçam montanhas’ e também que, quando, finalmente, o discípulo compreende que ‘as montanhas não são montanhas, as montanhas voltam a ser montanhas’.
Curioso, ele mergulhou fundo nos koans, espécies de quebra-cabeças mentais que não podem ser resolvidos pelo pensamento lógico. Estava ele maravilhado com o original conceito de milagre: o cotidiano é que é o milagre. O alimento, a natureza, a respiração, a vida, enfim, é o milagre – o presente divino que não se pode imitar.
Admirou-se também com a sabedoria dos mestres que desprezavam o que conhecemos como ‘sobrenatural’ por ser um estímulo à vaidade pessoal – e como tal um entrave à espiritualidade verdadeira – e por considerarem o sobrenatural inútil, pois, ‘se podemos atravessar o rio de canoa, para que complicar e andar sobre as águas?’
Durante um dia inteirinho nosso herói dedicou-se à leitura de livros zens, foi deitar-se exausto, com a sensação de que todos os seus neurônios haviam trocado de lugar e de que todas as suas sinapses haviam sido reprogramadas. Pouco faltava para que ele se julgasse um profundo conhecedor dos mistérios deste e de outros universos, um mestre entre mestres, tão claras pareciam-lhe todas as verdades transcedentais desta existência.
Acordou bizarro, como se as montanhas já não fossem de todo montanhas mas ainda não houvessem deixado de ser completamente montanhas. Principiou a interrogar-se sobre a percepção daquilo a que costumeiramente chamamos de realidade e se a realidade do que julgamos ser sonho seria talvez mais real que a ilusão da habitual realidade.
Assim pensando, ele saiu de casa e viu-se em meio a uma neblina gelada, incomum para a região e para a época.
Entrou no carro e partiu. O dia ainda não amanhecera e a névoa deixava o mundo cheio de sombras.
Ao pegar a estrada, ele notou a vegetação diferente. Aos primeiros raios de sol percebeu os pinheiros (desde quando ali cresciam pinheiros?) e as formações rochosas à direita. Pensou que, de alguma forma, se enganara de estrada, mas lá estava a placa: Ibitiúva.
Desconfortável, ele observou o dia nascendo sobre um horizonte até o dia anterior perfeitamente previsível: pomares de laranjas e o canavial. Aqueles lagos com patos, aquele gado, aquelas bananeiras...nunca reparara naquilo.
Foi na curva mais fechada da estrada que encontrou a paineira. Imensa. Uma beleza daquelas não nascia de um dia para outro e era absolutamente impossível ele recolheu flores do chão, agarrou-se ao tronco, abismado.
não haver percebido antes uma árvore maravilhosa como aquela. Tocou-a, cheirou-a, Um caminhoneiro parou, para ver se ele precisava de ajuda, e cnfirmou: “Sim, esta é a estrada para Ibitúva”.
O posto Pioneiro apareceu à sua esquerda, quando até a véspera ficara comportadamente à direita. Sempre fora um posto de caminhoneiros, nada de play-ground colorido nem restaurante classe turística como ele via agora.
Finalmente, Ibitiúva. Mas no local do Posto de Saúde erguia-se um Conservatório Musical e só depois de atravessar uma pracinha cheirando a cravos (quantos cravos ele mesmo não semeara teimosamente antes de aceitar o fato óbvio de que cravos não nasciam naquela região) é que ele encontrou um Posto de Saúde, bem modificado, por sinal.
As recepcionistas, contudo, chamaram-no pelo nome sem demonstrar curiosidade ou surpresa, e ele aceitou o melhor que pôde as informações que recebeu daqueles rostos desconhecidos:
- Há doze consultas para hoje, doutor.
É claro que ele nunca vira antes nenhum daqueles pacientes, mas nos prontuários a caligrafia era bem a sua, aquele traço voador nos tt, os finais pontudos e prolongados, os esvoaçantes pingos dos iii.
A manhã massacrou-o com uma cefaléia cruel.
Ele não via a hora de voltar para casa, sair daquele ambiente desconhecido, abandonar de vez aquele pesadelo.
Então ele encontrou uma explicação: estava percebendo o verdadeiro aspecto da realidade, abandonando a ilusão, começando a ver não-montanhas onde antes havia montanhas, era evidente, não poderia ser outra coisa! Simplíssimo!
Aliviado, voltou ao volante, curtindo o inesperado. Como pareciam reais as corujas, os gaviões, os gambás cruzando a estrada!
O trevo à frente exibia duas direções: Manaus e Uruguaiana. Ele pegou qualquer uma e outra placa anunciou: Rezende. Um barranco sombrio em declive escondeu-lhe a paisagem por uns bons dez minutos de pânico total, em que ele pensou com a fixidez do desespero: “Quero voltar para casa!”
Sem saber como, estava à entrada da sua cidade, o pavilhão da festa da laranja, velho conhecido, à direita, e o depósito de bebidas logo ali adiante. A semelhança, porém, acabava aí. O cartaz afixado à frente do pavilhão anunciava um leilão de cavalos mangalarga e lia-se na fachada do depósito: Fábrica de Parafusos.
Ele dirigia devagar, não fossem as regras de trânsito estarem também todas mudadas e chegou, sem saber direito como nem porquê, a sua casa.
A sua casa, que maravilha, igualzinha como sempre fôra, tal como ele se lembrava dela.
E seus filhos brincavam no jardim. Ao vê-lo, correram para dentro a gritar:
- Mamãe, tem um homem estranho aqui fora!
Ele, que fôra inutilmente ao encontro das crianças, subia os degraus com ar de proprietário quando à porta surgiu um ruivo truculento que exclamou:
- Entre, entre! Querida, venha conhecer o meu amigo!
Ela apareceu à porta, e com a polidez desinteressada com que habitualmente se dirigia aos estranhos, olhou-o nos olhos, como o olhava sempre, e sorriu-lhe o seu sorriso de todos os dias.

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