4 de jun. de 2010

conto - Encurralado

Como pôde uma coisa dessas acontecer comigo ? Há cinco anos que eu procuro a resposta, em vão.
Como uma pessoa inteligente, bonita, de boa família, bem nascida e bem criada, amada pelos pais e pelos amigos, pode acabar assim ? E, contudo, eu não encontro saída.
Tenho 17 anos, a um passo do vestibular, toda uma vida útil pela frente, mas não enxergo uma solução.
Vou relatar minha tragédia pessoal. Viver é insuportável.
Tudo começou na noite em que o homem pisou na lua. Lembro - me nitidamente. Assistíamos à transmissão de TV no clube. Viviane estava a meu lado e ria. Tínhamos a mesma idade : doze anos. Seu riso e seu perfume envolveram - me, e, olhando seus lábios carnudos, pela primeira vez em minha vida, senti desejo.
Desejo de beijá - la, mas também aquela agonia desesperada nos genitais. Viviane era linda !
Naquelas férias, muitas vezes senti - me derreter ao aproximar - me de Viviane. Eu a via diariamente, conversávamos, ouvíamos música, íamos ao clube, à praia e ela não percebia meu drama. Afinal, ela era minha vizinha há anos. Amizade antiga. Eu não podia contar - lhe minhas emoções. Ela me tocava e eu sentia ímpetos de beijá - la, abraçá - la, acariciá - la. Tentava de todas as maneiras afastar esses pensamentos inadequados e ã noite, mordia o travesseiro com raiva e frustração.
Agradeci a Deus quando ela mudou - se para Curitiba, pois eu já não conseguia pensar em mais nada a não ser nela, no corpo dela, dia após dia.
Mas o meu martírio mal começara. Aquela sensação indescritível em meu corpo assaltava - me de novo ao ver as moças bonitas nas capas de revistas, na televisão, no cinema. Eu mal respirava, minha boca ficava seca, meu coração disparava, o sexo parecia explodir de inchaço. Ficar ao lado das garotas significava uma excitação contínua.
Bem que tentei estudar, jogar tênis, nadar, desenhar, ocupar - me de qualquer coisa diferente de garotas, mas minha mente atraiçoou - me. Comecei a sonhar. Mulheres nuas povoavam as minha noites, exibindo - se, atraentes e tentadoras. Sonhava com desconhecidas e também com Viviane e outras colegas. Certa madrugada, beijei em sonhos uma companheira de estudos e senti tal prazer que acordei aos gritos, o corpo banhado em suor.
A partir de então, eu sentia medo de dormir. Tornei - me triste, com grandes olheiras e uma sonolência crônica. Minha mãe levou - me ao médico, preocupada. Eu não contava o que me acontecia.
Procurei auxílio nas Escrituras, em vão. A Bíblia ignorava o meu problema.
Resolvi disfarçar, fingir alegria, agir como seria o normal, pensar em outras coisas, dedicar - me aos estudos, aos esportes e rezar. Rezava todas as noites, pedindo para não sentir o que sentia, para não sonhar o que sonhava, para não pensar o que pensava a respeito das mulheres.
Porque eu sou um homem. Infelizmente, eu sou um homem. Eu, Lúcia Helena, sou um homem.
Um dia decidi não namorar, não casar, ser um solitário. Ninguém morre por falta de sexo. Muitas pessoas tem feito votos de castidade pelos séculos afora e nunca ouvi falar de ninguém que houvesse morrido por falta de sexo. E ninguém precisaria saber nunca de minhas inclinações e preferências. Por isso passei os últimos tempos mais tranqüilo, após tomar esta decisão, a única possível. Pois eu não quero ser estigmatizado, rejeitado,apontado com o dedo como a homossexual, a lésbica. Sou um homem em corpo de mulher, o que é bem diferente.
Tanta coisa que li, de Freud a Martha Suplicy, à procura de uma luz, sem coragem de abrir - me com ninguém.
Certa tarde resolvi ir a um psiquiatra ao sair da escola. Eu economizara algum dinheiro e caminhei de cabeça baixa em direção ao consultório. Minhas pernas começaram a doer e eu parei de andar. Descobri - me agarrado aos livros como um náufrago em busca de salvação. A cãibra nas pernas quase me derrubava. Que é que eu defendia com tanto empenho eu nunca soube, pois jamais entrei no consultório do psiquiatra para marcar a consulta.
Conversei muito com uma professora, também psicóloga, sobre homossexualismo. Ela também não tem respostas. Eu seguramente não tenho problemas físicos ou endócrinos, não sofri nenhum trauma de fixação ou de regressão, eu deveria ser normal. Algumas vezes, disse um dia a professora, a solução é mesmo assumir e agüentar a barra. Olhei para ela, atônita. Que futuro pode ter um homossexual ? Sem dúvida, meus pais não ficarão satisfeitos em apresentar aos amigos a namorada da filha. Eu jamais pensaria em magoar meus pais, nem em abandoná - los. E eu queria, sim, um lar e filhos. Como eu queria sentir - me mulher ! Mas nunca pude tolerar o toque de outro homem.
Sou bonita, e como finjo - me normal, tenho meus admiradores. Tentei namorar. Namorei um grande amigo, simpático, um grande sujeito, mas nada mais do que isso, e quase vomitei quando forcei - me a deixar - me beijar por ele.
Desisti. Homens, só amizade. Nenhum homem dispara meus instintos. Já as mulheres, é um terror. Toda a química corporal grita alucinada de paixão à simples idéias de uma mulher bonita.
E então, ontem, estava eu tão desprotegido, tão confiante em meu rígido auto - controle e aconteceu um fato inesperado.
Eu estudava para a prova de química na casa de Rosana. Fizemos uma pausa para descansar e Rosana disse que tinha um segredo a revelar, que ela estava apaixonada. Ela inclinou - se para sussurrar o nome em meu ouvido, apoiando as mãos em meus ombros. Ela virou o rosto no último momento e beijou - me a boca.
O prazer que senti suplanta de longe todos os meus pesadelos. Ela beijou - me outra vez e outra e outra e deixei - me ficar, imóvel, desprotegido, em pânico, apavorado ante meu corpo que respondia com paixão às carícias dela.
Rosana é linda, cheirosa, macia. Meu corpo está descontrolado, em fogo. Não serei capaz de resistir por mais tempo à minha natureza. Se resisti por tantos anos, foi por não ter conhecido o prazer.
Não suportarei viver como homossexual confessa.
Não suportarei viver amando às escondidas, presa de paixões inconfessáveis.
Não suportarei magoar meus pais.
Não suportarei olhar meus amigos nos olhos.
Não suportarei - e este é o motivo principal - olhar para mim mesmo.

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