4 de jun. de 2010

conto - Tempo quente no ônibus

Sol a pino, uma temperatura de fritar ovos em pedras.
Felicidade naquele momento seria uma ducha fria, uma salada, um suco gelado e uma rede à sombra.
Entrar no ônibus com bom humor era encara-lo como uma sauna finlandesa gratuita sem o aroma de eucalipto.
Sonolenta, ouço uma voz do outro lado do corredor:
- Tira a sacola daí que eu quero sentar.
E de repente estoura o bate-boca.
-Sai da frente.
-Sai da frente você.
-Me deixa entrar.
-Me deixa sair.
-Sai logo que eu quero sentar.
-Não me empurra, sua mal educada.
-Mal educada? Eu? Estou tentando me levantar para lhe dar passagem e você aí, grossa, atravancando o corredor. Ora, já se viu...
A que estava em pé, sem mais cerimônia, agarra a sentada pelos cabelos e a joga para fora do banco:
- Sai logo, sua gorda estúpida.
- Nega da peste!
- Branca azeda.
O cobrador fez um gesto de aparte que ficou na intenção. Os passageiros, apáticos, remexeram-se constrangidos.
Futilidade, infantilidade, raiva reprimida? As duas loucas poderiam ser parentes ou até amigas, quem sabe?
A branca gorda levantou do chão, catou os embrulhos e sentou no banco à frente, justificando:
- Você é mesmo louca! Se eu sentar aí do seu lado, você é capaz de me bater são porque eu cedi o lugar...
- Não fez mais que a obrigação, que sua sacola não pagou passagem.
- Me diz uma coisa: tem lugar aqui na frente, mas você fez questão do MEU lugar. Por que? Porque o homem da frente é preto? É isso aí, gente, a louca não quer sentar ao lado do preto. E olha que ela também é preta.
O tal homem olhou pela janela, como se nem percebesse que a coisa era com ele.
Entre as duas, á medida que o ônibus arrancava, recomeçou o joguinho de ofensas:
-Preta ignorante.
-Branca ignorante.
-Preta da peste.
-Branca da peste.
A branca pediu à moça à minha frente que trocassem de lugar:
-To com medo, essa fera me bate de novo.
Trocaram de lugar. O ônibus partiu. A mulher negra olhava firme à frente. A branca, curvada, os olhos esbugalhados, pôs-se a gritar:
- A princesa Isabel errou aso libertar esta gente. Devia tudo de estar trabalhando no cabo da enxada.
Aí os outros passageiros se agitaram. Aliás, metade do ônibus era negro retinto ou mulato.
- Dona, isto é preconceito.
-É crime, dá cadeia.
-Ei, nada a ver! Discriminação racial1
-Não mistura estação!
-Credo, que pecado! E se a senhora morre e descobre que Deus é preto, como é que fica?
A gorda não se deu por achado:
-Preta da peste. Preta da peste. Preta da peste. Preta da peste.
De repente a preta salta, ágil, e toca a unhar a cara da outra, que grita:
-Socorro, gente, a mulher ta me atacando! – e prontamente arranca e quebra os óculos da inimiga.
O cobrador pula do seu acento. Um homem forte corre do fundão em seu auxílio. Juntos afastam as mulheres, que se cospem e se chutam.
Alguém grita:
-É caso de polícia!
O motorista pára o ônibus e saca do celular. Com o veículo parado, o ambiente fica inda mais abafado. Os passageiros começam a brigar com as bagunceiras:
-Viu o que aconteceu? Resolveu alguma coisa?
-Que feio! Gente adulta devia dar o exemplo aos jovens daqui.
As duas choravam. A preta dizia ter pago caro pelos óculos. A branca estava com medo da polícia. E se fosse presa?
-Medo? A senhora devia de ter pensado nas conseqüências antes de ofender a raça da outra.
E o zum-zum-zum:
-Tenho de bater ponto.
-Vou perder o almoço.
Motorista, abre que eu continuo a pé daqui.
Os ânimos ferviam, o ônibus parado em pleno sol. Mãos fortes impediam as duas encrenqueiras de fugir ou continuar a briga.
O motorista abriu as portas para dar entrada a dois policiais que subiram a bordo, resignados. Lentamente e em silêncio anotaram os depoimentos com ar de tédio.
Os passageiros queriam saber se o ônibus iria seguir viagem ou se teriam de pagar por outra passagem.
Foi o guarda quem esclareceu:
-O veículo fica detido.
O cobrador acenou que passaria quem quisesse para o primeiro carro, sem novas despesas.
No corredor do outro veículo, amassados, em pé, começamos a conversar:
-Quando começou o barraco, pensei que aquelas duas estivessem brincando.
-Que nada! Eu estava no ponto, atrás delas, elas já vinham brigando desde a fila.
- Vai ver que o juízo delas derreteu, que este calor está mesmo de cozinhar os miolos...

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