4 de jun. de 2010

conto - No templo de Esculápio

“ Eu subia penosamente, agarrando - me às saliências dos penhascos ,e o mar revolto chicoteava impiedosamente minhas costas, altas ondas me cobriam por instantes e eu prosseguia, pedra por pedra, a difícil escalada.
Eu estava nua, trêmula de frio, exausta, quando avistei a entrada da gruta e arrastei - me para dentro, aninhei - me num nicho da rocha e encolhi - me, observando a cavidade alongada e tortuosa acima de mim. A única entrada era o orifício por onde eu penetrara e que lentamente desapareceu.

Eu descansava.
Abençoada escuridão.
Abençoado silencio.”

Quando relatei este sonho para minha terapeuta atual, ela reagiu com a sensibilidade habitual de um camelo : rabiscou algumas linhas em um pedaço de papel ( tenho quase certeza de que se tratava da lista de compras da semana ) e falou :
- Vou ajudá - la a levantar - se, agora levante os braços, respire fundo e coloque essas bolas debaixo dos calcanhares. Procure pular com um pé de cada vez.
- Este sonho foi importante. Eu quero falar sobre ele.
- O mais importante agora é terminar nossa seqüência corporal. Na próxima semana você me fala sobre o sonho, se ainda quiser.
- Por que você não me leva a sério ?
- Veja só : você acha que eu estou desconsiderando você.
- Você está me desconsiderando.
- Você está projetando em mim uma carga de agressividade, percebe ?
- Meu sonho é mais importante que esses exercícios idiotas.
- Você agora rejeita a terapia.
- Esta palhaçada ? Que excelente idéia !
E retirei - me da sala.
Das minhas quatro terapeutas, esta era a mais incompetente. Um psicanalista, uma terapeuta reichiana, um analista de sonhos junguiano e finalmente aquela T.O. * ( como ela mesma se intitulava). Eu estava farta, percebia agora que estava usando o meu salário para alimentar aqueles fomentadores de neuroses.
Lá fora um sol magnífico, canto de pássaros e a brisa do outono.
Comprei um pão doce para o lanche. Há muito tempo eu não comia pão doce, um regalo de criança. Minha mãe costumava trazer para casa tipos variados : passas, coco, creme, goiabada. Eu gostava de saborear o pão com uma xícara de café com leite, e foi o que fiz, suspirando de prazer e catando as migalhas sobre o prato.
Esfriou à noite e preparei para o jantar uma sopa cremosa de palmito. A cozinha ficou cheirosa como a cozinha de minha infância e igualmente acolhedora.
À noite, após um banho morno e relaxante, prendi as pontas dos lençóis sob o colchão para que o frio não penetrasse pelas frestas. Senti - me como em menina, ao instalar - me nos acampamentos com minha família, nos sacos de dormir.
Tão agradável o tempo frio, com os coloridos gorros, cachecóis e casacos... naquele instante mesmo meus pés estavam bem aquecidos em sapatos de lã para dormir, com que mamãe me presenteava.
A partir deste dia eu surpreendia - me com lembranças de um tempo há muito esquecido - um passado amoroso, belo e feliz
Começara a reviver este bom passado depois do sonho da gruta. E enxergava com bom humor aspectos inusitados da vida. Mil idéias criativas tornavam meus dias interessantes.
Depois do sonho, fora - se o tédio.
Matriculei - me em uma academia de ginástica e recomecei um curso de pintura, interrompido na época do vestibular.
Certa tarde fui visitar maus pais e enveredei pelo jardim florido, exalando profundamente o perfume dos lírios, redescobrindo o mundo maravilhoso que estava bem ali a meu alcance, tão diferente do outro mundo de antes do sonho - um casulo espesso e cinzento que agora se esgarçava, permitindo a entrada de luz.
Lá estava também Dona Julieta, a vizinha, com seu olhar arguto de fofoqueira profissional, tendo sempre uma réplica rápida na ponta da língua. Tricotava ao lado de minha mãe, conversando as trivialidades de sempre.
Mamãe foi buscar uns sequilhos de araruta e chá para servir - nos. Foi só pegar -se a sós comigo e Dona Julieta disparou :
- Você está grávida !
Ri - me por dentro de tal afirmação absurda , mas sem amargura pelo celibato forçado de minha triste vida solitária que eu tentava resolver nas terapias.
A outra, a de antes do sonho, não refrearia uma resposta azeda de solteirona mal amada . Eu, ao invés, achei engraçado o jeito cúmplice com que a velhinha maliciosa segredou - me ao ouvido :
- Só conheço uma coisa capaz de fazer brilhar assim os olhos de uma mulher : uma nova vida.
Sorri. Uma nova vida... depois do sonho.

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