Todos os dias saio com elegantes bijuterias de boa qualidade, que só de perto se diferenciam do ouro, aos olhos de um conhecedor.
Ora, em cinqüenta anos, nunca fui assaltada, ponderei, portanto, porque o seria justo neste dia em particular, em que senti desejo de exibir meu ouro? O uso de bijuterias não previne assaltos, já que o ladrão não dispõe de tempo para examinar de perto a mercadoria antes do bote, age apostando na probabilidade.
Admirei portanto minha corrente de ouro mais bela, e ponderei que o encontro daquela tarde era importante, dele dependendo a aprovação de meu projeto. A entrevistadora era pessoa de classe, eu iria produzida, a bijuteria destoaria do conjunto.
Bem que vacilei, quase optei pela simplicidade total, mas a vaidade venceu.
No caminho de todos os dias, como tenho o hábito de vestir-me com elegância, minha aparência não chamava a atenção dos porteiros habituais.
Foi ao chegar à esquina que surgiram num repente os três ciclistas. Nem tive tempo de levar a mão ao peito, o gesto ia a meio quando um deles atingiu-me, tão mestre em sua arte que nem me desequilibrou. Quando completei o gesto apalpei o colo nu e até cheguei a pensar que bom que resolvi sair sem jóias, então a lembrança do demorado dilema frente ao espelho retornou e eu pensava, mas não, justo hoje eu botei meu ouro, afinal de que me serve ter algo se não uso, seria muito azar se, justamente hoje, sim, mas justamente hoje o assaltante voara sobre meu peito como se atraído por um ímã e eu não podia parar de pensar que pusera meu ouro expressamente para aquele assalto, que eu e o assaltante, ligados por alguma força cósmica, estávamos destinados àquele encontro àquele dia àquela hora.
Antes isso, filosofei, concentrando meu pensamento na importância do encontro iminente, cujo resultado foi nulo e para o qual a bijuteria ou o ouro não fariam de fato diferença outra que não a psicológica.
Impressionara-me contudo a imponência do agressor, magnífico em sua ousadia, majestoso como um Àtila a cavalgar pelas estepes, em um de seus momentos de glória, nem rei nem mero líder apenas um sobrevivente hoje, possivelmente um baleado amanhã; marcou-me sua aparição fantástica como um deus do crime, a pedalar louca e livremente.
Também fui moça e ciclista, também senti a sensação de liberdade nos meus cabelos ao vento, na época em que era permitido pedalar na areia da praia, brincando de ziguezague com as ondas à beira mar, nas manhãs ensolaradas.
Naquele tempo os muros eram baixos, as portas ficavam encostadas e os homens que viravam a esquina, de bicicleta, se atingiam o peito de alguma mulher, a culpa, já se sabe, era das flechas de Cupido.
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