1 de jun. de 2010

crônica - Um personagem de Kafka

Ah! Como eu entendo Kafka!
Todo filho único de mãe perfeccionista entende Kafka.
Condenado sem culpa antes de qualquer julgamento, o filho único de mãe perfeccionista jamais conhecerá a metamorfose que o tornaria humano.
É execrado pelos colegas desde o berçário por sua precocidade genial e seu vocabulário corretíssimo.
Este menino ou menina aos quatro anos de idade faz um rabisco à la Picasso usando cores como Matisse, em vão. Sua mãe torce o nariz: ‘para sua idade, até que está bom...’
Aos sete, ele ou ela desenha usando perspectiva, planos de fundo e sombreado que obedece rigorosamente a posição da luz. Nem os pintores italianos anteriores a Da Vinci coloriam tão bem, porém a mãe boceja com enfado: ‘razoável’.
Em vão esta criança se aplica aos estudos. Se tira nove, poderia fazer melhor, se tira dez, não fez mais do que sua obrigação.
Se atleta, ao exibir orgulhoso o título de campeão estadual, ouve da mãe o comentário: ‘o campeão brasileiro, na sua idade, bateu o recorde mundial e o campeão sul-americano é mais novo que você’.
Ela nunca aplaude, para não ‘estragar’ o rebento.
Caso ganhe o ouro olímpico, a mãe afirma que ele está abaixo de suas possibilidades, que seu desempenho poderia ter sido melhor, pois ela, que o criou, sabe como ele é preguiçoso, contentando-se com um resultado inferior a seu potencial.
Quando a cumprimentam, ela recebe os louros especificando quantas horas sacrificou-se acompanhando o herdeiro a treinos e competições, frisando o quão dedicada foi e ainda é, saboreando sua fatia no triunfo do filho.
Filho que trocaria todos os prêmios, troféus, diplomas e medalhas pelo único elogio que ela nunca pronunciará.
E se um dia, ele, desesperado, pular no pescoço da mãe, apertando, estrangulando, sacudindo, confirmará ser um filho ingrato que não reconhece o quanto ela faz por ele.

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