4 de jun. de 2010

conto - O castigo que está no pecado.

Vanessa virou minha melhor amiga – assim, da noite para o dia, para grande espanto meu.
Estamos as duas saindo da aula de pós-graduação quando ela me convida para um chop – até aí nada de mais.
O de mais aconteceu no bar, quando ela me despejou sua vida amorosa inteira entre um gole e outro, nos detalhes mais escabrosos e íntimos possíveis. E arremata:
- Hoje sou amante do padre Delmo.
- Quem? O carismático?
- Ele mesmo.
E vem a história toda de vez: que ela ia toda semana com a amiga Maria – esta sim, amiga desde a infância - visitar o padre, e na ultima semana, estando Maria com febre, ela foi sozinha, e o padre insistiu para que ela entrasse na sacristia, onde ele a puxou para si, começou a acariciá-la, insistiu em que ela subisse com ele para o quarto, disse que sabia o que estava fazendo e que tinha camisinha e tudo o mais que fosse preciso, e ela, encantada, que o padre é mesmo um pecado em forma de gente de tão bonito, subiu e tirou as teias de aranha.
- Teias de aranha?
Ela ri.
- Casa sem uso cria teias de aranha pelos cantos, não é? E depois do meu primo Paulinho, isso já faz mais de três anos, estou na seca. Ah, eu tinha de contar pra alguém. A história está trancada aqui na minha garganta, se eu não contasse pra alguém eu ia enlouquecer.
Antes que eu me sinta grata pela confiança, ela termina: só contei pra Maria e pra você.
E aí ela completa, e eu entendo porque não bastou contar pra Maria:
- A Maria ficou tão brava comigo que cortamos relações. Ela disse que eu tinha de criar juízo e acabar com esta besteira.
Concordo com Maria – não tenho nada a perder, não éramos amigas até duas horas antes – e completo: ele está usando você e deve ter outras amantes na paróquia.
Vanessa me garante que não, que é amor, que é só com ela, que ela sabe pelo brilho nos olhos dele.
Acompanho o auto-engano por meses a fio – o padre, quando sabe que ela contou pra Maria e pra mim, fica bravo, proíbe-a de falar dos encontros amorosos com outras pessoas, esse deveria ser o segredo deles – e, é claro, ela os comenta em todos os seus detalhes comigo, e com Maria, que afinal, voltou a falar com a amiga, na esperança de criar um pouco de juízo naquela cabeça oca.
Vanessa tem verborragia – as palavras saem da boca dela sozinhas, sabem o caminho do mundo antes mesmo que ela as pense. Aliás, Vanessa não pensa. Se pensasse saberia que um padre que tem camisinha guardada no quarto, à espera de que paroquiana bonita apareça sozinha pra falar com ele, está premeditando conquistas. A tolinha acredita ser a única e a primeira namorada do padre.
Divirto-me nas semanas seguintes a acompanhar a agonia do padre que tenta por todos os meios livrar-se da grudenta Vanessa, que o assedia a toda hora, por telefone ou em pessoa, e ignora todos os pedidos e intimações para que acabem o caso – coitadinho, está tão preocupado comigo, com medo de que eu me apaixone e me magoe, está tão preocupado em ser descoberto e perder a batina, mas, é claro que ele pode confiar em mim, não vou dar bandeira, está com medo de ele mesmo se apaixonar, mas é claro que ele já está caído de amores por mim, não é, a gente vê por aqueles olhinhos brilhantes de desejo...
Desejo que Vanessa traduz como amor, primeiro e único.
Maria descobre que o padre já foi expulso de duas outras paróquias por assediar paroquianas. Outra briga entre ela e Vanessa, esta mais séria, onde já se viu, Maria contando mentiras a respeito de meu amado e casto padre. Casto? Sim, até eu aparecer em cena, afirma Vanessa com convicção.
As meninas que Vanessa ocasionalmente encontra na casa do padre, são, é claro, alunas inocentes que aparecem para esclarecer dúvidas bíblicas. Seus olhos só vêem o que querem ver.
Descubro, divertida, que o padre pediu remoção para outra paróquia. Depois de Vanessa, ele vai ficar mais cauteloso em suas investidas eróticas, suponho.
A inconsolável Vanessa está certa de que a transferência foi fruto de perseguição do bispo. Padre Delmo, em confissão, deve ter contado sobre ela, e recebido como penitência a remoção e a obrigação de afastar-se. O coitadinho deve estar triste, arrependido de ter confessado, e louco de saudades dela, que não desiste até descobrir para onde ele foi – e ir atrás.
A cena de reencontro, contada por ela – e recontada secretamente em minha mente por minha pérfida veia teatral – é tragicômica. Quase vejo o sorriso amarelo do padre e sua patética tentativa de resistir ao sexo que se segue – furioso, selvagem, puro êxtase, na descrição de Vanessa, que vai continuar insistindo para que ele largue a batina e venha morar com ela – sem emprego, ( acrescento em minha mente, maldosamente: e sem outras menininhas), e com as benções de Deus, pois, é claro, depois de ele deixar a batina, podem os dois casar, não é mesmo?
Pobre padre Delmo! Tão carismático...convence qualquer um de qualquer coisa.
A vingança da vida foi colocar-lhe no caminho uma oponente à altura.

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