Como não repara nas mudanças no comportamento de Míriam, à medida que nos aproximávamos da casa de Maria?
De temperamento vivo e alegre, tagarela e de gestos espevitados, minha amiga foi-se tornando reservada e melancólica, de tal maneira que parecia relutante em seguir em frente.
O sobrado, assombreado por altas árvores, com sua austera fachada de pedras, estava engastado em uma esquina, em pleno Gonzaga, o bairro dos cinemas, das pizzarias, dos bons restaurantes, dos desfiles e festas da cidade.
O comentário de Míriam surpreendeu-me:
- Parece uma casa bem triste. Uma casa onde há muito sofrimento.
Ela suspirou. Eu propus:
- Vamos embora. Você não quer ficar aqui.
- Maria está esperando por mim.
Maria, com efeito, já nos vira e acenava da janela.
Apesar de tocar violão muito bem e cantar com voz possante e afinada todas as músicas da moda, a presença de Maria me aborrecia.
Eu olhava para os cabelos negros, ondulados e longos; para os olhos oblíquos e verdes; para o riso fácil e suave; para os cílios longos que se abaixavam assim que eu a encarava e sentia-me mal.
- Acho que vou ficar por aqui e esperar que vocês terminem.
- Vá embora, Jorge, nós vamos demorar muito, não seja bobo!
O sol iluminava em cheio os vidros da varanda e pensei em prisões e desertos.
Depois que Maria mudara-se para nossa cidade, para nossa classe, a vida perdera muito em alegria. Eu sentia-me sempre inquieto, indisposto e quando Míriam passou a considerá-la sua melhor amiga, eu não gostei nem um pouco.
A cada dia, Míriam afastava-se de mim, imersa em pensamentos que eu já não adivinhava, retirando-se para um mundo de cismas, séria, quieta.
Nessa noite, ela me pediu que eu a acompanhasse a um centro espírita, a uma dessas reuniões onde se pode escrever um pedido em um livro.
Eu fui, sem muito gosto, só para não deixá-la sozinha à noite em bairro tão distante de nossa casa.
Míriam escreveu no tal livro o nome e o endereço de Maria.
A sessão correu sem incidentes até o intervalo. Rezamos um Pai Nosso, leu-se o Evangelho, algumas pessoas comentaram o texto sagrado, tornou-se a rezar e então saímos para tomar água energizada. Algumas pessoas estavam indo embora; na segunda metade da sessão, os médiuns iriam atuar.
Míriam aproximou-se do homem que dirigia os trabalhos. Ele já nos olhara por diversas vezes com seu jeito firme e bondoso, ou porque soubesse que Míriam desejava falar-lhe, ou apenas por sermos desconhecidos.
- Sr. Arnaldo, sou prima de Alice Mendes.
- Muito prazer.
- Vim aqui porque estou preocupada com minha amiga.
- Deixe o nome dela no livro e rezaremos por ela.
- Já fiz isso. É que... não sei como explicar, mas acho que ela está precisando muito de ajuda.
- Ela está doente?
- Não, na realidade, ela não me disse coisa alguma, é que eu sei que há alguma coisa...não seria possível ir até a casa dela hoje à noite?
O homem pensou por algum tempo, de olhos fechados, e disse:
- Vou pedir orientação espiritual.
Fiquei gelado e todo arrepiado como um gato assustado. Peguei as mãos de Míriam, estavam frias.
- Que aconteceu? - perguntei.
- Talvez nada. Foram só alguns olhares. A maneira como a família dela... aqueles olhares tão estranhos...como se estivessem escondendo segredos e se ameaçando uns aos outros.
Não sei. Eu fora o primeiro a pressentir algo esquisito em Maria.
Os médiuns sentaram-se ao redor da mesa e concentraram-se. Havia pessoas doentes para auxiliar, um alcoólatra em recuperação que necessitava livrar-se de um obsessor e finalmente, Maria.
Um silêncio tranqüilo envolveu-nos enquanto eles trabalhavam com os doentes. O obsessor do alcoólatra manisfestou-se através de Arnaldo e recebeu ensinamentos, admoestações e orações. Por fim...
- Iremos agora à rua Y..., a pedido de nossa visitante Míriam.
Não sou espírita. Sei o que está por aí para se ler: alguma coisa sobre parapsicologia, reencarnação e toda sorte de fenômenos estranhos. Confesso humildemente minha nenhuma experiência nesses assuntos, tenho o hábito de respeitar tudo que não sei como ‘um mistério’.
Os médiuns descreveram a rua, a casa, nada de mais, é provável que já houvessem passado por ali perto, ou retirassem por telepatia tais impressões da mente de Míriam. A seguir descreveram a casa por dentro, aí minha idéia sebre telepatia ficou mais adequada.
- É assim mesmo, tudo como eles estão descrevendo - murmurava Míriam, tensa.
Então, inesperadamente, gritos dolorosos partiram dos médiuns:
- Não! Não! Afastem-se! Afastem-se! - pareciam descontrolados.
- Mestre! - rezou Arnaldo. Imediatamente o grupo serenou.- Mestre, afaste de nós estes demônios! São muitos, e fortes! Dê-nos proteção! Pai - Nosso...
Depois da oração, ele encerrou a sessão, pediu a proteção divina para todos os presentes e fez-nos um discreto sinal para que ficássemos.
Aguardamos enquanto eles arrumavam a sala e se despediam dos participantes.
- Essa casa, Míriam, onde mora sua amiga, é um lugar de muito sofrimento. Ali há muita dor, muita crueldade, muito medo. Amanhã à noite faremos uma oração especial para sua amiga. Reze por ela. Agora vou dar-lhes um ‘passe’.
Voltamos para casa apreensivos.
- O homem falou em demônios, Jorge. Nem sei o que pensar.
- Nem eu.
Estava escuro, porque começava a chuviscar. Para chegarmos à casa de Míriam, passávamos obrigatoriamente pela rua Y...
Ventava muito. A tempestade assobiava sinistramente em nossos impressionados ouvidos, já por demais assustados pelos acontecimentos da noite.
Olhamos para a fachada da casa de Maria e uma sensação de horror jogou-nos nos braços um do outro, como se pudéssemos nos proteger mutuamente.
À luz dos relâmpagos os vidros do mezzanino adquiriam sinistras cintilações.
Ficamos vários minutos pregados ao solo, na certeza da tragédia iminente.
Os minutos passavam e nada acontecia; no entanto não ousávamos nos afastar dali. Eu ouvia Míriam articular uma baixinho uma prece. Aguardamos.
Um grito. Vidros estilhaçados. Um corpo projetado ao solo.
Os jornais do dia seguinte noticiaram o suicídio de Maria.
Foi sem surpresa que a seguir recebemos a notícia da morte da irmã caçula de Maria, afogada na piscina supostamente durante um ataque epiléptico.
Afinal, à luz dos relâmpagos, Míriam e eu percebêramos que havia uma terceira testemunha do assassinato.
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