4 de jun. de 2010

conto infantil - O PATINHO FEIO QUE ERA MESMO UM PATINHO

Era uma vez um patinho muito feio, que nascera em um dia ensolarado e quente, à beira de um lago encantador. Seus irmãos eram miúdos e graciosos e a seu lado o patinho parecia grande e desajeitado.
- Uma coisa disforme dessas deve se chamar Epaminondas - riu - se papai pato.
- Não fale assim que ele pode ouvir - censurou mamãe pata.
- E daí? Ele é pequeno demais para entender - falou papai pato, sempre a rir.
E o patinho, muito triste, sentiu duas lágrimas rolarem por entre as suas penas.
Todos os patos da lagoa vieram visitar mamãe pata - os outros patos, os marrecos, os gansos, as garças e até mesmo a coruja.
- Só aquele grandalhão é feio, os outros são tão engraçadinhos...
Quando a família saía a passear ou a nadar, sempre aparecia alguém que, por pura maldade, bicava, beliscava ou empurrava o patinho feio. Dona Pata grasnava :
- Deixem meu filho em paz, que fez ele.
- Nada, só nasceu feio. - respondiam os malvados.
- Coitadinho do meu feioso - Dona Pata alisava - lhe o pescoço com o bico .
Os irmãos não queriam brincar com ele por ser tão feio, e por fim, cansado de apanhar e de passar por humilhações, o patinho feio resolveu fugir.
Ele caminhou horas pela floresta até encontrar um outro lago. Lá nadou, refrescou - se e pescou alguns peixinhos para matar a fome.
Um bando de patos selvagens aproximou - se, e assim que perceberam a sua presença, enxotaram - no sem dó, partindo para cima dele a bicadas:
- Vá - se embora, este território é nosso.
Machucado e assustado, Epaminondas só parou de fugir quando alcançou a estrada. Passou por ali um pescador, que levou - o para casa e deu - o para seus filhos.
- Que vamos fazer com este pato tão feio, pai?
A mulher do pescador deu - lhe água e comida, acomodou - o entre retalhos macios em uma caixa perto do fogão, aonde ele ficaria aquecido, e chamou as crianças:
- Lembrei - me de uma história para contar a vocês. É a história d’ O Patinho Feio.
E foi assim que Epaminondas ficou conhecendo a história d’O Patinho Feio e pensou : “Agora está explicado o que acontece comigo. Eu sou um cisne”. Em seu coração nasceu a esperança e sua cabeça encheu - se de sonhos.
Na manhã seguinte o patinho acordou feliz. Não se importou quando o chamaram de feio porque, lá no íntimo, sentia - se um cisne. E, sentindo alegre e confiante, ganhou o mundo.
Uma súbita tempestade o surpreendeu longe de qualquer abrigo e o deixou encharcado, tiritando, em um atalho enlameado, por onde passou uma velhinha.
- Que vejo? Um pobre filhote que ainda é muito novo para voar para as terras quentes. Vou levá - lo para minha casa até que o inverno acabe.
A velha morava com um cachorro e um papagaio, e como não tinha com quem conversar, conversava com os bichos. O cachorro era um dorminhoco e o papagaio gritava demais, por isso a velha apreciou a companhia do patinho, que colocava no bolso e carregava para todo canto.
A velha vivia da venda de remédios caseiros que ela mesma fabricava; para isso dava longas caminhadas em busca de plantas, sempre a conversar com o patinho, que era feio mas também era curioso e foi aprendendo tudo o que a velha sabia:
- Avenca é um santo remédio para tosse.. isso é melissa, bom para machucados...
Certa tarde apareceu na casinha a neta da velha, para passar uns dias com a avó. E começou a cair uma chuvinha feia e enjoada que foi - se prolongando por dias e dias. E para que a netinha não ficasse chateada por não poder brincar ao ar livre, a velhinha teve uma idéia:
- Vou ensinar você a ler.
E o patinho feio, encolhido no colo aconchegante da menina, escutava tudo, via tudo, prestava bastante atenção e ia aprendendo a ler.
Quando o inverno terminou, Epaminondas já estava adulto e partiu, despedindo - se da velhinha, do cachorro e do papagaio.
- Feioso! Feioso! Já vai tarde!- gritou - lhe o papagaio, mas o patinho, que tinha certeza de ser um cisne, não se importou.
Ia distraído a pensar na vida e quase pisou no sapo de perna esfolada que gemia no meio da estrada.
- Olha por onde anda, seu pato desastrado!
O patinho, que era feio mas bondoso, percebeu que ali no meio da estrada o sapo seria presa fácil para os gaviões, isso se não ficasse cozido pelo sol forte. Sem ligar para os resmungos do sapo, o patinho o empurrou com o bico para cima de uma larga folha e depois arrastou a folha para debaixo de uma moita de azaléas:
- Aqui você fica protegido do sol e a salvo das gaviões. Eu vou buscar remédio para tratar dessa sua perna.
- Traga comida também, senão eu morro de fome.
O patinho, que era feio mas não era bobo, respondeu:
- Seu sapo, a sua língua comprida não está quebrada, e o senhor pode muito bem comer os insetos que vem cheirar as azaléas.
E o patinho agiu como um cisne, pois os cisnes são generosos, e saiu em busca de plantas para o remédio.
O patinho, que era feio mas era também esperto, fez logo um bom estoque de folhas, flores e raízes, para o caso de aparecerem outros animaizinhos doentes. Durante toda a semana o patinho trabalhou com capricho e dedicação, para fazer os remédios que aprendera com a velhinha, e os guardava num oco próximo à moita de azaléas, aonde o sapinho ficava de guarda. E quando o sapinho já podia saltar e foi - se embora para a lagoa, ficou lá um esquilinho que perdera o rabo em uma armadilha, e que construiu umas prateleiras muito ajeitadas no oco da árvore, transformando - o em um ótimo armário.
O patinho, que era feio mas era também inteligente, fez do esquilinho seu sócio no ótimo negócio de farmácia - a primeira farmácia do bosque.
O patinho sempre agia como um cisne, isto é, da melhor maneira possível. Era gentil e protetor com os filhotinhos que nadavam na lagoa - acudia ligeiro quando eles embaraçavam os pés nas plantas aquáticas ou quando se engasgavam com um inseto grande demais para seus bicos. Os pais ficavam tranqüilos quando o patinho estava por perto e os filhotes gostavam das bonitas histórias que ele contava.
Certa vez apareceu uma tabuleta à entrada do bosque: “Durante os fins de semana será permitido caçar neste bosque”. O patinho deu o alarme. Os bichinhos ficaram escondidos em suas tocas e em seus ninhos durante todo o fim de semana. Os caçadores, pensando que nada havia ali para caçar, foram embora. E a tabuleta foi trocada por outra: “Aqui não há caça”.
Contentes, os bichinhos nomeara, o patinho “Protetor do Bosque” e fizeram uma festa para ele.
E o tempo foi passando.
O patinho, que era feio mas esperto, bondoso e trabalhador, vivia contente entre os seus amigos, embora com muita vontade de encontrar os cisnes.
Até que um dia...
- Os cisnes estão no lago! - a coruja trouxe a notícia.- Pararam aqui, desviando - se de sua rota, porque um deles está muito doente.
O patinho feio não cabia em si de contente; pegou sua sacolinha de remédios e voou com a coruja para junto do cisne doente, para junto de sua família, de sua gente.
E ao ver os belíssimos pássaros de porte majestoso e gestos graciosos, o patinho feio compreendeu imediatamente que ele não era um cisne.
Com o coração despedaçado de tristeza, ele tratou do cisne doente da melhor forma que sabia e a pedido deles, dormiu no acampamento, para o caso do cisne ter febre durante a noite.
Uma jovem cisnezinha trouxe - lhe o jantar e conversou muito educadamente com ele, apesar de ele não passar de um pato feioso, porque os cisnes são assim : gentis e educados.
O cisne velho estava muito doente e demorou para sarar. O patinho permaneceu a seu lado. Quanto mais conheciam o patinho feio, mais os cisnes gostavam dele.
O patinho, vendo destruídos os seus sonhos, dormia mal e comia pouco, mas disfarçava o melhor que podia a sua tristeza.
Finalmente o velho cisne curou - se e o grupo podia partir. O velho cisne disse então :
- Epaminondas, quando eu adoeci, ouvi falar de um pato sábio que morava nesta lagoa. Até pássaros de outros lagos vem procurá - lo quando ficam doentes ou precisam de conselhos. Todos o elogiam por seu bom senso, por sua brilhante inteligência, por sua paciência e gentileza. E agora vejo que minha filha Alva está apaixonada por você e creio que é correspondida.
O patinho feio levou um susto. Alva? Apaixonada por ele? O pobre Epaminondas ficou vermelho e perdeu a voz.
- Pois eu faço muito gosto nesse casamento. É uma honra te - lo como parte da família.
O patinho feio disse ao cisne que era uma maldade fazerem uma brincadeira dessas com ele, só porque ele era um pato muito feio.
- Sempre ouvi dizer que você era um pato sábio, mas vejo agora que não passa de um pato muito tolo. Se não gosta da minha Alva, é só dizer, não precisa ficar inventando desculpas para não casar - se com ela.
- Eu gosto muito da Alva, ela é a criatura mais encantadora e meiga deste mundo.
- Então, por que esta tristeza ?
O patinho feio abriu o seu coração. Contou ao cisne como sofrera em sua infância, como escutara a história d’O Patinho Feio e como sonhara durante tantos anos em encontrar os cisnes, e como estava decepcionado por não ser mais do que um pato feio.
- Um pato bom. - corrigiu o cisne - Um pato sábio. E também um pato tolo, o mais tolo de quantos patos eu já conheci.
O patinho chorava, chorava...
- Pois não percebe o quanto você é querido e respeitado? Seus amigos o chamam de Protetor do Bosque. A beleza pouco importa, patinho, o que interessa é o seu coração. Vou dar - lhe o título de “Coração de Cisne”, você vai casar - se com Alva e de hoje em diante, nós, os cisnes, seremos a sua família. Como você sempre sonhou.
Alvinha chegou neste momento e olhou - o tão carinhosamente, que o patinho feio esqueceu - se no mesmo instante de toda a tristeza que sentia.
Houve uma festa bonita no casamento do patinho feio com a bela Alva.
Hoje ele vive entre os cisnes, amado e respeitado por todos e está até feliz por ter nascido tão feio.
Afinal, se o patinho feio nascesse igual a todos os outros patinhos, nós não estaríamos aqui a contar a sua história, pois ele não passaria de um patinho qualquer, igual a tantos outros.
Viva o patinho feio!
Viva o Coração de Cisne!

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