Fiz um curso de terapia anti-drogas, que nunca tive a oportunidade de usar. Toda vez que tento convencer alguém a largar um vício, este alguém me olha escandalizado. Quando tento explicar que há maneiras mais sadias de se divertir, as pessoas vão saindo de fininho, mais aferradas que nunca aos cigarros, às cervejas e a todos os emocionantes pecados deste vale de lágrimas.
Se insisto, os amigos somem.
Os usuários de drogas ilícitas olham-me como devem olhar os gurus para os não-iniciados :’ este coitado não sabe o que fala”.
Nem sei nem quero saber, porém, depois de estudar cuidadosamente os trabalhos de famosos médicos do século passado sobre as efeitos terapêuticos da marijuana, meu raciocínio vacila.
Sinto-me alienígena, com este meu cérebro diferente que não reage a drogas usuais. O álcool não me alegra, o café não me tira o sono, e causam-me tão somente um enorme mal-estar o cigarro e os tranqüilizantes. Até submeto-me a tratamentos dentários a seco, para desespero dos dentistas, que não entendem minha capacidade de auto-hipnose.
A verdade é que, prazer, para mim, são as primitivas atividades de dançar, cantar, rir, abraçar e beijar. Um momento de amor deixa-me em estado de graça por toda a semana, um momento de sexo melhora meu humor por horas. Minhas dopaminas são perfeitamente bem adaptadas, só reagindo aos estímulos “certinhos’. Ou eram. Por quê, então, eu me arrependi de fazer o curso, em um momento de entusiasmo?
Sei que o curso é ótimo porque dele saí curada de dois vícios que nem sequer sabia que tinha. E se soubesse, teria brigado para conservar: livros e chocolate!
Depois do curso, não consigo ler nem comer como antes. É só pegar o livro que me surge a pergunta: ‘estou fugindo de algo desagradável?’. É só pegar um bombom e a vozinha reaparece: ‘estou realmente com fome?. E esta fome, será de comida ou...?’
Cada vez mais alimento-me saudavelmente de legumes e frutas cozidas. Cheguei até a emagracer. Cada vez mais sobra-me tempo para caminhar pela praia e ouvir música, pois cada vez mais leio menos, preferindo informar-me através de filmes e noticiários de televisão.
A cada dia, os livros ficam mais parecidos com papéis cheios de letras e os chocolates com barras de gordura indigesta.
Recentemente encontrei a professora em férias. Passamos uma semana no mesmo hotel. Eu não li nenhum livro e nem provei açúcar. Ela, em compensação, fumou todos os dias e corou ao explicar-me que, depois do ‘tratamento’, seu único cigarro diário tornou-se extremamente prazeroso.
Ah! Se eu pudesse saborear diariamente um único capítulo e um único bombom, seria sensacional!
Pois ao livrar-me dos vícios que eu tinha, minha rotina empobreceu. Preciso desfazer urgentemente o processo terapêutico! Faço a mais absoluta questão de sentir prazer em viver.
É, sou um caso perdido...
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