4 de jun. de 2010

poesia - Simplesmente Walquíria

Fui princesa mimada,
enclausurada em um jardim de delícias.
Só me faltava mesmo o príncipe,
que um dia viria rompendo barreiras, matando dragões,
despertando-me para o amor.
Ah!... o amor!...
Mas a fada madrinha,
feminista,
tinha outros planos;
libertou-me do encantamento
e qual folha ao vento
soltou-me no mundo
sem espada mágica, sem escudo invisível,
sem tapete voador, sem gênio da lâmpada,
sem anel encantado.
Sua estranha benção foi:
“Viver ou morrer. Lutar - sempre!”.
Se eu fosse uma heroína grega
já estaria nos céus,
transformada em constelação,
tantos os Carontes que subornei!
Quantos Cérberos enfrentei!
Como Orfeu, venci o inferno tenebroso
e no último descuido
perdi o meu bem mais precioso.
Caminho às cegas, andarilha,
como um Homero a exaltar uma civilização extinta.
Meus deuses há muito despencaram do Olimpo
e sufocam sob a superfície asséptica
de um mundo tecnicológico.
Sou como Eco, ninfa emudecida
a perseguir a beleza de Narciso,
a chorar meu destino desafortunado,
até que um deus se apiade de minha dor
e me transforme em pedra.

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