Conhecido como Corvo, o rapaz de olhos negros vestia-se sempre de preto. Aparecia na sacada ao meio-dia e a vizinha de longos cabelos escuros suspirava nas sombras por detrás das cortinas.
Nas noites sem lua ela acendia velas e recitava magia Wicca, nua sob o vestido preto. Das trevas da varanda em frente, ele a espreitava.
No primeiro dia de verão coisas inusitadas aconteceram com ela, como o convite da garota perfumada que, no ônibus, encostou-se tão naturalmente:
- E se fôssemos amigas? Eu vou em uma caravana para o programa do Sílvio Santos neste domingo, tem lugar vago, vamos?
Ela se encolheu de horror à menção do programa popular e à vista do bilhetinho enfiado em seu bolso, acompanhado de uma piscadela.
À tarde, ao voltar da escola, outra mocinha desconhecida chamou por ela, da casa em frente:
- Venha conversar comigo, mudei para cá ontem, esta é a casa de minha madrinha, ela me trouxe lá do sítio. Você tem namorado? O ajudante do açougueiro aí da esquina me viu ontem e disse para minha tia que se casa comigo, acho que vou aceitar, você sabe, deixei a escola, não quero trabalhar na casa dos outros e a madrinha acha uma boa idéia ter um homem cuidando de mim, é claro, você deve estar pensando que sou muito novinha e coisa e tal, mas a madrinha diz que é melhor casar cedo que encrencar.
Ela ponderou que, se no mundo adulto as pessoas têm o costume de tombar sobre as outras de supetão assim sem cerimônia, viver deve ser um tanto desagradável.
A outra continuou sua inconveniente tagarelice, pois ela abrira a boca sem que as palavras saíssem, no espanto de menina mal iniciada na adolescência.
- Claro que você não precisa casar com o ajudante do açougueiro, você tem família boa, vai na escola, para mim é que não vai aparecer chance melhor. Olhe quem vem lá! Aqui, aqui, vizinho, se achegue!
Assim intimidado, o Corvo, que virava a esquina, parou, esquivo. Ela ruborizou-se e a vizinha indiscreta decretou:
- Os dois namorados de preto – e namorados, sim, pensam que eu não sei? - fazem um par sinistro e misterioso. Parecem urubus. Vão embora agora, que vou entrar.
E tendo feito as vezes de Cupido, a outra desapareceu.
As mãos experientes do Corvo – ele já estava na faculdade – apertaram os dedos pequeninos dela e a conduziram garagem adentro.
Ela ria, ele a fitava febril.
A boca seca, ela sentia pela primeira vez um fogo, um arrepio, uma tontura, como se a vida se esvaísse e ela estivesse a ponto de ser tragada por uma catástrofe. E à sua mente vieram os versos de Poe:
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, “Nunca mais”
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