30 de mai. de 2010

crônica - Vizinhos

O vizinho da direita sofria de insônia; madrugada adentro eu ouvia a ‘Sessão Coruja’. Não é que ele ligasse alto a TV, mas aquele vago murmurar de vozes e ruídos diversos perturbava meu sono.
O menino da esquerda criava uma araponga. O despertador da vizinha do andar de baixo tocava às cinco da manhã inclusive aos domingos, e o rapaz do andar de cima ouvia rock pauleira no horário do meu almoço.
Era demais! Dificuldade para adormecer, sono interrompido pela madrugada e nem ao menos poder cochilar após o almoço!
Mudei-me para o interior. Adormecer com o coaxar dos sapos, acordar com a passarada, lagartear no silêncio do sol a prumo...que paz!
Lá no interior conheci aquele tipo folclórico de vizinho, o que vem pedir emprestada uma xícara de açúcar, ou um ovo, e dali a dias bate à porta com um três ovos ainda quentes, que as galinhas botaram ‘inda agorinha’.
Na primeira manhã de merecidas férias acordo com insistentes batidas à porta:
- A senhora está doente? Fiquei preocupada, a
senhora sempre sai tão cedo, mora sozinha, vai que houvesse sofrido algum acidente...
Semanas mais tarde, a mesma vizinha telefona para meu trabalho:
- Um homem estranho entrou em sua casa. Já chamei a polícia.
- É meu irmão! - protesto.
Houve aquela memorável ocasião em que a velhinha da frente cercou-me com ar confidencial, com uma conversa espiralada sobre ‘aqueles homens’ que apareciam com ‘tanta freqüência’ em minha casa, ‘sozinhos’, e que eu recebia ‘a portas fechadas’, sem nenhum cuidado pela minha ‘reputação’...
Perdoei a moral provinciana, mas saí do sério quando a mocinha dos fundos parou-me em plena feira:
- Usamos calcinhas da mesma marca.
- Como?
- Espiei o seu varal por cima do muro...
Ora, francamente!
Eu não podia usufruir do meu belo quintal para o lazer. As altíssimas árvores em volta viviam carregadinhas de moleques que, não contentes em espiar, cismavam de puxar conversa:
- Que livro a senhora está lendo?
- Por que a senhora não toma sol no clube, como a minha mãe?
Aos sábados, a vizinhança se revezava no churrasco do almoço e na roda de samba que se encompridava das dez da manhã às oito da noite, hora em que começava a música na praça, bem alto que era para todo o povo da cidade ouvir.
Bem, pelo menos a barulhada era só aos sábados.
Era, pois o “progresso” invade tudo. Hoje o interior tem vida noturna: bares e clubes abrem todas as noites com seus conjuntos sertanejos trovejando alegria por potentes alto-falantes.
Assim, voltei para a cidade grande. Para o mesmo prédio onde o garoto da araponga agora cria três papagaios tagarelas; os vizinhos da direita tem TV a cabo, ‘24 horas no ar’ e o rapaz do andar de cima estuda bateria.
Estou pensando em forrar todo o apartamento com cortiça, transformando-o em um estúdio diferente: à prova de som.

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