Há um período na vida de cada um em que a percepção do mundo íntimo torna-se clara e freqüente. As imagens interiores surgem aos borbotões e com tal nitidez que nos supomos a ponto de decifrar os grandes e eternos mistérios da existência. Cremo-nos profetas, eleitos, poetas ou loucos. É a fase do misticismo, do fervor religioso, da devoção aos grandes ideais. Neste momento nos é oferecida pela primeira vez a oportunidade de transcender nossos limites e decidir se seremos medíocres ou grandes. Este período, como o leitor já deve ter adivinhado, chama-se adolescência.
Helena atravessava esta passagem nebulosa, deslumbrada pelos altos picos e pelos insondáveis abismos da alma humana, quando uma de suas leituras apresentou-lhe a metáfora do sono.
As civilizações antigas já descreviam o homem como uma criatura ignorante da realidade espiritual. A maioria da humanidade ‘dorme’, acreditando credulamente na matéria; alguns ‘sonham’, compreendendo que este mundo é ilusório e suspeitando haver algo além das aparências; poucos são os sábios, conhecedores da Verdade, os que estão ‘acordados’.
Com poucas variações, a figura da sábio e do empenho da alma em buscar a Verdade estão presentes nas grandes religiões e nos mais importantes movimentos esotéricos através dos séculos.
Fosse imaginação ou apenas fruto da impressionabilidade juvenil, o fato é que Helena tornou-se, sem saber como, consciente de seus sonhos. A conseqüência de tão estranho faro foi que a sucessão previsível de vigília e repouso desapareceu de seu cotidiano, para ser substituída pela contínua consciência de estados mentais diversos.
O cansaço, aquela deliciosa sensação de músculos pesados, de pálpebras que se vão abaixando à nossa revelia, de sons que se distanciam um tanto abruptamente e de trevas acolhedoras que nos envolvem como acalanto materno, para Helena não significava mais uma pausa até a próxima manhã mas, sim, um desvio para paisagens insólitas e um tanto inquietantes.
Acontecia a Helena estar envolvida na tarefa mais corriqueira quando percebia estar sonhando. Com o passar das noites, começou a brincar com o fato, modificando com o pensamento o evoluir do sonho. Ela percebeu que podia, às vezes, escolher a seqüência onírica, visitar lugares e pessoas e até elaborar projetos.
Certa feita, resolveu, em sonhos, ler um gibi e entretinha-se com uma história de ficção científica quando alguém a acordou; resolveu que terminaria a leitura na outra noite e assim o fez: bastou-lhe adormecer para pegar da revista e terminar com prazer a leitura interrompida.
Familiarizou-se de tal forma com as incursões noturnas que não distinguia mais estar adormecida ou acordada. Suas duas vidas, a diurna e a noturna, mesclavam-se de maneira aterradora.
Digo aterradora porque Helena sentia medo de adormecer. Acumulava dezenas de atividades para manter-se ocupada e adiar para cada vez mais tarde o momento do sono. Pois os sonhos de Helena adquiriam para ela uma duração subjetiva de tal monta que lhe parecia estar mais tempo sonhando do que acordada.
Embora ela houvesse adquirido o poder de escolher quem visitar em sonhos, aonde ir, o que fazer e como, havia um detalhe em que ela não conseguia de modo algum influir: o momento de despertar.
Sendo uma garota inteligente, Helena guardara para si este segredo. Adolescentes já são vistos pelos adultos como esquisitos e suas vidas já são demasiado complicadas sem que seus pais conheçam as terríveis lutas que travam todos os dias contra todos os tipos de acontecimentos estranhos.
Foi, pois, com verdadeira alegria que Helena, ao acordar, naquela manhã em particular, correu a fechar a janela.
Helena deixara a janela do quarto aberta, para que a brisa noturna a refrescasse do calor e podia perceber a neblina espessa a que a luz da madrugada emprestava cintilações douradas.
Santos parecia mergulhada em nuvens. Mal se enxergava o outro lado da calçada. Não se sabia se o sol iria abrir - se em todo o seu esplendor ou se a garoa fria instalar - se - ia para ficar. Tempo imprevisível.
O ar estava frio e úmido e fe - la espirrar. O vento impertinente e brincalhão fazia dançar as cortinas.
Ela levantou - se para abaixar a vidraça e quase tropeçou na mala. Empurrou - a para o lado, descobrindo - a pesada. Abriu - a : repleta com suas melhores roupas.
Que faria ali a sua mala ?
Helena desceu. Os móveis da sala estavam encapados e outras malas aguardavam ao pé da escada.
Um cheirinho gostoso saía da cozinha e para lá dirigiu - se Helena, parando assombrada antes de entrar. Definitivamente, aquela não era a sua cozinha !
- Sente, filha.
E aquela não era a sua mãe.
Helena compreendeu e suspirou aliviada. Sonhava. Bastava acordar. Relanceou o olhar pela cozinha estranha, pela mulher estranha e encaminhou - se para o quarto. Alisou os móveis, observou a sala. Tudo tão real ! Apertou as almofadas do sofá, soergueu as pesadas bagagens. Que sensação, estar consciente dentro de um sonho !
Estou sonhando e sei que estou sonhando, repetia - se ela, ao subir a escada. Agora quero acordar.
Não acordava, e resolveu deitar - se para facilitar o despertar. Logo uma agradável sonolência a invadiu e ela sentiu - se mergulhar nas trevas da inconsciência.
- Mas não ! Quero acordar ! - reagiu.
Quase imediatamente um solavanco a sacudiu de leve, como quando sonhamos que despencamos de um precipício e acordamos de repente.
Helena, porém, sentia - se subindo e não caindo, leve como uma bolha de sabão. O teto parecia girar e ficava cada vez mais próximo.
Virando - se, a moça viu - se deitada e ao mesmo tempo flutuando no espaço, ligada ao corpo por um comprido cordão umbilical luminoso e prateado, pulsante e vibrátil.
Lembrou - se das palavras do Eclesiastes 12,6 : “ Antes que caiam os moleiros menos numerosos, antes que se rompa o cordão de prata ...”
- Não quero morrer !
Mas não, tratava - se apenas de uma viagem astral.
Apenas ? Como se fosse algo comum e corriqueiro, como passear na praia aos domingos! Q ueria acabar já com aquilo.
Continuava a vagar, a reparar no teto, aqui uma teia de aranha, ali alguns mosquitos, lá fora a névoa... Flutuou em direção à janela e deu - se conta de estar dez andares acima do solo. Tentou voltar para o quarto mas parecia não ter controle sobre aquele vôo. Pensou na luz e subiu veloz, a cidade ficou pequenininha lá embaixo.
O terror invadiu - a. Um terror absoluto, tal como nunca sentira antes.
Um puxão violento trouxe - a de volta ao corpo.
Sentiu -se pesada, sólida, e - graças a Deus - presa ao leito. Agarrou os lençóis com as mãos e respirou ruidosamente. O suor grudara - lhe a camisola ao corpo e o coração acelerara tanto que doía - lhe o peito.
- Bem, acabou. Acordei.
Ela abriu os olhos, ainda entorpecida. Com esforço, saltou do leito e correu ao interruptor acender a luz.
Abriu a janela e aspirou profundamente a brisa noturna. Decidiu permanecer acordada. Uma tênue claridade despontava no horizonte.
Um ruído arrastado fe - la voltar - se e lá estava , meio corpo saído de debaixo da cama, um jacaré.
Calafrios... Um espasmo de risos e soluços... Uma dor penetrante crânio adentro.
- Eu quero acordar. Eu quero acordar _ esforçava - se Helena.
O jacaré aproximava - se, ameaçador, os dentes afiados à mostra, agitando a cauda em meneios hostis.
Helena gemia, paralisada.
O animal estava prestes a cravar os dentes em sua canela quando uma pancada seca na porta a despertou e a voz confortadora do pai fez- se audível:
- Bom dia ! Seis horas.
- Bom dia, papai.
Que alívio !
Helena bocejou e esticou o braço para espreguiçar - se, quase derrubando o despertador no estouvamento do gesto. Ao recolocar o objeto no lugar, os ponteiros marcavam duas horas.
Ela quis levantar - se e não pode. Tentou mover as pernas _ impossível. Tentou mover as mãos, sem o conseguir. Tentou desesperadamente sair do lugar, sem êxito. Seu corpo parecia de pedra.
- Estou tendo um pesadelo, tudo o que tenho a fazer é acordar. Só preciso abrir os olhos.
As pálpebras não se abriam.
- Eu acordo e pronto.
Permaneceu estendida no escuro sob o calor dos cobertores por alguns instantes, e, então, deslizou para fora das cobertas com facilidade. Levantou - se com sede.
Girou a maçaneta da porta, porém a porta não se abriu. Procurou a chave, ausente da fechadura.
Embora certa de não haver trancado o quarto, acendeu a luz e olhou sobre os móveis. Nada. Também não encontrou a chave nas gavetas nem na bolsa nem na roupa usada na véspera.
Resolveu chamar os pais e a voz falhou. Gritou, sem contudo ouvir o som da própria voz. Amedrontada, esforçou - se ao máximo e um débil gemido veio de sua garganta :
- Mamãe ! Mamãe!
Batia à porta, chamando continuamente pela mãe. Por que a porta estava trancada ?
Debatia - se no leito, parecia - lhe que há horas estava a chamar.
- Mãe !
- Que foi, querida ?
Os braços firmes da mãe a sustentaram e ela suspirou profundamente, alisando a garganta dolorida.
- Ai, mãe, que pesadelo !
- Pronto, já passou. Durma, Denise.
Sua mãe errara o seu nome. Helena apalpou - lhe o rosto, examinou - a com atenção e concluiu : o pesadelo continuava.
Pessoas estranhas entraram no quarto e começaram a discutir sobre ela, fazendo planos para o futuro dela. À sua revelia. Helena percebeu que se apoderavam de sua mente e procurou resistir, firmando o pensamento em seus próprios desejos e aspirações.
Uma voz disse :
- É realmente engraçado, esta andróide pensa poder decidir sobre o seu destino.
Todos riram, exceto Helena, que a custo evitava responder, concentrando - se em despertar. Custasse o que custasse, precisava acordar. Acordar, acordar. Precisava acordar.
Mas uma dúvida nascia em seu espírito. Estaria ela dormindo mesmo ? Ou enlouquecera ?
- Quem sou ? Aonde estou ?
Mexeu as mãos, os pés... Tocou - se . Carne. Apertou - se. Dor.
- Que bobagem. Claro, eu estou viva e bem.
Ouvia os pássaros chilreando, os carros na rua ... A cidade despertava. Ela também despertava. Seus olhos, contudo, não se abriam.
A moça repetia em vão todos os gestos habituais do despertar. Espreguiçava - se, afastava as cobertas, jogava os pés para fora, apoiava - se nos cotovelos e permanecia deitada, imóvel, olhos cerrados. Recomeçava toda a seqüência de gestos, inutilmente.
Perdeu a paciência consigo mesma.
- Vamos. Não pode ser tão difícil assim. Há anos eu abro os olhos todas as manhãs.
E de tanto esforço, os olhos finalmente se abriram.
O corpo não reagia.
Os minutos sucediam - se inexoravelmente. Nada acontecia. Nada .
A porta abriu - se.
Uma moça aproximou - se de Helena. Trazia uma caixa de música:
- Aqui está sua alma, Helena. Esta é a sua vida. Só você pode desfazer o encantamento, fechando a tampa da caixa. Sua vida terminará quando terminar a música.
A moça deu corda e pousou a caixa, aberta, sobre a penteadeira. Saiu.
Que melodia tão bonita !
Helena persistia lutando contra o sono absurdo e incompreensível.
Situação deveras ridícula.
O corpo de pedra _ imóvel. Escuridão _ olhos hermeticamente fechados. Muda _ de sua garganta não escapava o mais débil gemido.
O frio penetrava pela ponta dos dedos e percorria - lhe os membros, até atingir - lhe o coração. O ar estagnava - se nos pulmões, a respiração tornava - se cada vez mais lenta , mais difícil.
E o sono ...
Maldito e incontrolável sono !
A música ia ralentando e o corpo imóvel de Helena teimava em permanecer adormecido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário