Há alguns anos atrás. quando o médico do governador foi preso por não ter diploma, pensei em jogar meus escrúpulos no lixo.
O trambiqueiro que assistia ao governador tinha tudo que eu não tinha: audácia, um consultório luxuoso, móveis bonitos, roupas de grife. Eu tinha o que lhe faltava: diploma, consciência e um senso de ética tal que me obrigava a rejeitar o título de ‘médica de crianças’. Ou pediatra ou coisa nenhuma!
Eu estremecia ao ver os colegas se transformando de endocrinologistas em ‘médicos de regime’, de angiologistas em ‘doutor das varizes’, ou pulando de uma especialidade para outra até se tornarem um ‘ista’ qualquer por questão menos de vocação que de mercado. Havia até quem se referisse à “prostituição profissional”.
Quase cortei relações com meu sócio quando ele, ao trocar sua tabuleta para ‘especialista em pressão alta’, sugeriu-me que eu o imitasse e pendurasse uma placa de ‘especialista em febre’.
Passado o primeiro momento de indignação, ponderei que a idéia até que não era das piores. Afinal, eu tentara preencher os horários de minha agenda por todos os meios honestos e tradicionais, só me faltando mesmo sair à rua e caçar pacientes à laço.
Aparentemente as pessoas acham que para pressão alta faz-se mister um especialista, mas para febre qualquer um serve, pois a minha sala de espera continuou às moscas, ao passa que a do meu amigo...
Foi em um dos plantões de periferia, inevitáveis para a sobrevivência, que a idéia ocorreu-me, quando pela enésima vez eu explicava à persistente Da Matilde que seu macaco não podia mesmo fazer inalação no P.S.
- Mas por que? Se faz bem a meu neto, há de fazer bem a Chico Orelha.
Quem decidiu-me de vez foi meu sobrinho, ao vangloriar-se de ser ‘estudante de Medicina’. E ante meu olhar de indignação:
- Ora... Bem... afinal, veterinário também é médico. E olha, recebe ali na hora, preto no branco, não atende convênios nem este tal de S.U.D.S.
Foi a conta.
Prestei novo vestibular, ganhei créditos e formei-me em tempo recorde.
E foi assim que livrei meu bolso daquele angustiante vazio.
Hoje meu consultório está lotado. Basta continuar resistindo à pressão das Das Matildes:
- Pois se o doutro cuida tão bem do meu macaco, por que não há de olhar o meu netinho?
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